Capítulo 11

Aplicações de derivadas

Nada acontece no universo em que não apareça alguma regra de máximo ou de mínimo.
Leonhard Euler
A derivada descreve a variação de uma função perto de um ponto. Como reunir essas informações locais para compreender o que acontece em um intervalo inteiro? O Teorema do Valor Médio fará essa ligação. A partir dele, veremos como o sinal de \(f'\) permite reconhecer crescimento e decrescimento, e como \(f''\) ajuda a estudar a concavidade. Esses resultados orientam o esboço de gráficos e a busca por máximos e mínimos nos problemas de otimização. A regra de L’Hôpital e os polinômios de Taylor mostrarão ainda como usar derivadas para calcular limites e construir aproximações.

11.1 Valores extremos

Dada uma função em um conjunto de valores admissíveis, queremos saber se ela atinge um maior ou um menor valor e em quais pontos isso ocorre. Para usar as derivadas nessa busca, distinguiremos primeiro a comparação com todos os valores do domínio da comparação apenas com valores próximos.

11.1.1 Extremos absolutos

Máximos e mínimos dependem do conjunto em que a função é considerada. Um extremo absoluto compara um valor da função com todos os demais valores assumidos no intervalo.

Recordemos a Definição 7.6. Se \(f:I\to \mathbb {R}\) e \(x_0\in I\), dizemos que \(x_0\) é um ponto de máximo global (ou absoluto) quando \(f(x)\leq f(x_0)\) para todo \(x\in I\), e um ponto de mínimo global (ou absoluto) quando \(f(x)\geq f(x_0)\) para todo \(x\in I\). Os valores correspondentes são o máximo e o mínimo globais de \(f\) nesse intervalo.

Figura 11.1 A curva atinge um mínimo global no vale assinalado e um máximo global no pico assinalado.

Figura 11.1 A curva atinge um mínimo global no vale assinalado e um máximo global no pico assinalado.

Exemplo 11.1
Determine os extremos das seguintes funções analisando seus gráficos: a \(x^2\qquad \)b \(x^3\qquad \) c \(1/x \qquad \) d \(\dfrac {x}{\sqrt{x^2+1}}\)

Figura 11.2 Entre as quatro funções, apenas x^2 atinge um extremo global em ℝ: o mínimo 0 em x=0.Figura 11.2 Entre as quatro funções, apenas x^2 atinge um extremo global em ℝ: o mínimo 0 em x=0.

Figura 11.2 Entre as quatro funções, apenas x^2 atinge um extremo global em ℝ: o mínimo 0 em x=0.Figura 11.2 Entre as quatro funções, apenas x^2 atinge um extremo global em ℝ: o mínimo 0 em x=0.

Figura 11.2 Entre as quatro funções, apenas \(x^2\) atinge um extremo global em \(\mathbb R\): o mínimo \(0\) em \(x=0\).

Solução
a A função \(x^2\) possui mínimo absoluto \(0\) em \(x=0\) e não possui máximo. b A função \(x^3\) não possui máximo nem mínimo. c A função \(1/x\) não possui máximo nem mínimo. d A função \(\dfrac {x}{\sqrt{x^2+1}}\) tem imagem \((-1,1)\): aproxima-se de \(-1\) e de \(1\), mas não atinge esses valores. Portanto, não possui máximo nem mínimo.

Exemplo 11.2
Utilizando os gráficos da figura, determine os extremos das seguintes funções nos intervalos especificados: a \(x^2\) em \([-1,2]\) b \(x^2\) em \((-1,2)\)

Intervalo fechado \([-1,2]\)

Intervalo fechado [-1,2] f(2)=4: máximo atingido. Intervalo aberto (-1,2) sup f=4, mas não há máximo. Figura 11.3 Em [-1,2], x^2 atinge mínimo e máximo; em (-1,2), atinge o mínimo, mas não o supremo 4.

\(f(2)=4\): máximo atingido.

Intervalo aberto \((-1,2)\)

Intervalo fechado [-1,2] f(2)=4: máximo atingido. Intervalo aberto (-1,2) sup f=4, mas não há máximo. Figura 11.3 Em [-1,2], x^2 atinge mínimo e máximo; em (-1,2), atinge o mínimo, mas não o supremo 4.

\(\sup f=4\), mas não há máximo.

Figura 11.3 Em \([-1,2]\), \(x^2\) atinge mínimo e máximo; em \((-1,2)\), atinge o mínimo, mas não o supremo \(4\).

Solução
a Para \(x\in [-1,2]\), temos \(0\leq x^2\leq 4\). Como \(f(0)=0\) e \(f(2)=4\), esses valores são, respectivamente, o mínimo e o máximo da função no intervalo. A Figura 11.3 ilustra esses extremos. b Em \((-1,2)\), a função também atinge o mínimo \(0\) em \(x=0\), mas não possui máximo. De fato, dado qualquer \(a\in (-1,2)\), podemos escolher \(b\) com \(|a|\lt b\lt 2\); então \(b^2\gt a^2\). Assim, nenhum valor da função é o maior. Por que esse argumento não funciona no item anterior? No intervalo fechado, o candidato \(a=2\) pertence ao domínio e não existe \(b\) do domínio com \(a\lt b\).

11.1.2 Extremos relativos

Um valor pode ser maior que os valores vizinhos sem ser o maior de todo o intervalo. Ao restringir a comparação a uma vizinhança do ponto, obtemos a noção de extremo relativo ou local, mais diretamente ligada ao comportamento descrito pela derivada.

Definição 11.1
Seja \(I\) um intervalo e \(f:I\to \mathbb {R}\) uma função.
  • Diremos que \(x_0\in I\) é um ponto de máximo local de \(f\), se existir \(\delta \gt 0\) tal que \(f(x)\leq f(x_0)\), para todo \(x\in (x_0-\delta , x_0+ \delta )\cap I\). Neste caso, diremos que \(f(x_0)\) é um máximo local.

  • Diremos que \(x_0\in I\) é um ponto de mínimo local de \(f\), se existir \(\delta \gt 0\) tal que \(f(x)\geq f(x_0)\), para todo \(x\in (x_0-\delta , x_0+ \delta ) \cap I\). Neste caso, diremos que \(f(x_0)\) é mínimo local.

  • Um ponto \(x_0\in I\) será dito um ponto extremo local, se \(x_0\) for um ponto de máximo local ou um ponto de mínimo local.

Figura 11.4 Máximos locais em a e c e mínimos locais em b e d; a comparação é feita apenas em vizinhanças desses pontos. A função f possui máximos relativos nos pontos a e c e mínimos relativos nos pontos b e d.

Figura 11.4 Máximos locais em \(a\) e \(c\) e mínimos locais em \(b\) e \(d\); a comparação é feita apenas em vizinhanças desses pontos.

A função \(f\) possui máximos relativos nos pontos \(a\) e \(c\) e mínimos relativos nos pontos \(b\) e \(d\). Observe que \(f(d)\gt f(a)\), ou seja, o valor de uma função em um mínimo relativo pode ser maior que o valor em um máximo relativo.

A diferenciabilidade fornece uma condição necessária para extremos locais em pontos interiores e, com isso, reduz a busca a um conjunto de candidatos.
Teorema 11.3 (Teorema de Fermat)
Se \(f\) é uma função definida no intervalo aberto \((a,b)\) e \(x\) é um ponto de máximo ou mínimo local de \(f\) em \((a,b)\), então ou \(f\) não é derivável em \(x\) ou \(f^{\prime }(x)=0\).

Demonstração ▼

Suponha que \(f\) seja derivável em \(x_0\) e que \(x_0\) seja um ponto de máximo local; o caso de mínimo local é análogo. Então existe \(\delta \gt 0\) tal que \((x_0-\delta ,x_0+\delta )\subset (a,b)\) e \(f(x_0)\geq f(x)\) sempre que \(|x-x_0|\lt \delta \). Logo, para qualquer \(h\in (0,\delta )\), temos:

\[ \dfrac {f(x_0+h) - f(x_0)}{h} \le 0. \]

Tomando o limite quando \(h\to 0^+\) e usando a existência de \(f'(x_0)\), obtemos \(f'(x_0)\leq 0\). Por outro lado, para \(h \in (-\delta ,0)\), temos

\[ \dfrac {f(x_0+h) - f(x_0)}{h} \ge 0. \]

Tomando agora o limite quando \(h\to 0^-\), obtemos \(f'(x_0)\geq 0\). Logo, \(f'(x_0)=0\).

Observação 11.4
A recíproca é falsa. Para \(f(x)=x^3\), temos \(f'(x)=3x^2\) e, portanto, \(f'(0)=0\); porém, \(0\) não é ponto de máximo nem de mínimo local de \(f\).
Definição 11.2
Seja \(p\) um ponto interior de \(\operatorname {Dom}f\). Dizemos que \(p\) é um ponto crítico de \(f\) se \(f^{\prime }(p)=0\) ou se \(f\) não é derivável em \(p\). Neste caso, o valor \(f(p)\) é chamado valor crítico da função \(f\).
Assim, pontos que não pertencem ao domínio não são pontos críticos, e as extremidades de um intervalo fechado são tratadas separadamente na busca por extremos.

Exemplo 11.5
Determine os pontos críticos da função \(y=3x+2\cos (3x)\).

Solução
Como a derivada \(y'=3-6\operatorname {sen}3x\) existe em toda a reta, os pontos críticos são as soluções de \(\operatorname {sen}3x=\dfrac 12\), isto é,
\[ 3x=\frac{\pi }{6}+2\pi k\quad \text{ou}\quad 3x=\frac{5\pi }{6}+2\pi k,\qquad k\in \mathbb {Z}. \]
Dividindo por \(3\), obtemos
\[ x=\frac{\pi }{18}+\frac{2\pi k}{3}\quad \text{ou}\quad x=\frac{5\pi }{18}+\frac{2\pi k}{3},\qquad k\in \mathbb {Z}. \]

Exemplo 11.6
Determine os pontos críticos da função \(g(x)=x-x^{1/3}\).

Solução
Para \(x\neq 0\), a derivada é
\[ g'(x)=1-\frac13x^{-2/3} =1-\frac{1}{3\sqrt[3]{x^2}} =\frac{3\sqrt[3]{x^2}-1}{3\sqrt[3]{x^2}}. \]
Ela se anula quando \(\sqrt[3]{x^2}=1/3\), ou seja, em \(x=\pm 1/(3\sqrt3)\). O ponto \(0\) também é crítico: \(g(0)=0\), mas o quociente \([g(h)-g(0)]/h=1-|h|^{-2/3}\) não possui limite finito. Portanto, os pontos críticos são
\[ x=-\frac{1}{3\sqrt3},\qquad x=0,\qquad x=\frac{1}{3\sqrt3}. \]

Figura 11.5 Gráfico de g(x)=x-√[3]x e seus pontos críticos.

Figura 11.5 Gráfico de \(g(x)=x-\sqrt[3]{x}\) e seus pontos críticos.

Exemplo 11.7
Determine os pontos críticos da função \(g(x)=\dfrac {x^2+1}{x^2-x-6}\).

Solução
O domínio é \(\mathbb R\setminus \{ -2,3\} \). Pela regra do quociente,
\[ g'(x)=\frac{2x(x^2-x-6)-(x^2+1)(2x-1)}{(x^2-x-6)^2} =\frac{-x^2-14x+1}{(x^2-x-6)^2}. \]
Logo, os pontos críticos são \(x=-7-5\sqrt2\) e \(x=-7+5\sqrt2\), ambos pertencentes ao domínio. Os pontos \(-2\) e \(3\) não são críticos, pois a função não está definida neles.

11.1.3 Extremos em intervalos fechados

O Teorema de Weierstrass 7.46 garante que uma função contínua em um intervalo fechado e limitado atinge máximo e mínimo globais. O Teorema de Fermat localiza os extremos interiores entre os pontos críticos. Restam as extremidades do intervalo. Reunindo essas duas observações, obtemos o critério seguinte.

Teorema 11.8
Se \(f\) é contínua no intervalo fechado e limitado \([a,b]\), então atinge máximo e mínimo em \([a,b]\). Para localizar esses extremos, basta examinar:
  1. os pontos críticos de \(f\);

  2. as extremidades \(a\) e \(b\) do intervalo.

Demonstração ▼

Pelo Teorema de Weierstrass, \(f\) atinge máximo e mínimo em \([a,b]\). Se um desses extremos ocorre em um ponto \(x_0\in (a,b)\), então ele é também um extremo local. Pelo Teorema de Fermat, ou \(f'(x_0)=0\) ou a derivada não existe em \(x_0\); em ambos os casos, \(x_0\) é um ponto crítico. Portanto, fora dos pontos críticos, os únicos candidatos restantes são as extremidades \(a\) e \(b\).

Figura 11.6 Os extremos no interior do intervalo devem ocorrer nos pontos onde f' é zero ou não existe. Figura 11.6 Os extremos no interior do intervalo devem ocorrer nos pontos onde f' é zero ou não existe.

Figura 11.6 Os extremos no interior do intervalo devem ocorrer nos pontos onde f' é zero ou não existe.

Figura 11.6 Os extremos no interior do intervalo devem ocorrer nos pontos onde \(f'\) é zero ou não existe.

Exemplo 11.9
Ache os extremos de \(f(x)=3x^4-4x^3-8\) em \([-1,2]\).

Figura 11.7 Gráfico de f(x)=3x^4-4x^3-8 no intervalo [-1,2].

Figura 11.7 Gráfico de \(f(x)=3x^4-4x^3-8\) no intervalo \([-1,2]\).

Solução
Como \(f\) é derivável, seus pontos críticos são os zeros da derivada:
\[ f'(x)=12x^3-12x^2=12x^2(x-1)=0 \quad \Longleftrightarrow \quad x=0\ \text{ou}\ x=1. \]
Comparamos os valores da função nesses pontos e nas extremidades do intervalo:
\begin{align*} f(-1)& =-1, & f(0)& =-8,\\ f(1)& =-9, & f(2)& =8. \end{align*}
O máximo é \(8\), atingido em \(x=2\), e o mínimo é \(-9\), atingido em \(x=1\).

O método dos candidatos permite localizar extremos em intervalos fechados: identificamos os pontos críticos interiores e comparamos os valores da função nesses pontos e nas extremidades. Nos dois exemplos seguintes, uma restrição geométrica determina a função a ser estudada.

Exemplo 11.10
Um fazendeiro deseja construir um curral retangular e possui 500 m de cerca. O local onde deseja construir o curral faz divisa com um edifício; assim, não será necessária uma cerca desse lado. Quais são as dimensões do curral que encerrará a maior área?

Ilustração: Extremos em intervalos fechados

Solução
Se \(x\) é a medida de cada lado perpendicular ao edifício e \(y\) a do lado paralelo, então \(2x+y=500\). Portanto,
\[ A(x)=x(500-2x)=31250-2(x-125)^2,\qquad 0\leq x\leq 250. \]
O máximo é \(31250\, \mathrm{m}^2\), atingido quando \(x=125\, \mathrm m\) e \(y=250\, \mathrm m\). A derivada \(A'(x)=500-4x\) confirma o crescimento antes de \(125\) e o decrescimento depois desse ponto.

Exemplo 11.11
Determine a razão entre a altura e o diâmetro da base do cilindro de volume máximo que pode ser inscrito numa esfera de raio \(R\gt 0\).

Figura 11.8 No corte meridiano do cilindro inscrito, o raio \(R\) da esfera é a hipotenusa do triângulo com catetos \(r\) e \(h/2\).

Figura 11.9 Cilindro inscrito em uma esfera de raio R. As circunferências das duas bases pertencem à superfície da esfera.

Figura 11.9 Cilindro inscrito em uma esfera de raio \(R\). As circunferências das duas bases pertencem à superfície da esfera.

Solução
O volume do cilindro é \(V=\pi r^2h\). Pelo Teorema de Pitágoras,
\[ r^2+\left(\frac h2\right)^2=R^2. \]
Essa relação permite escrever o volume em função apenas da altura:
\[ V(h)=\pi h\left(R^2-\frac{h^2}{4}\right)=\pi R^2h-\frac{\pi h^3}{4}, \qquad 0\leq h\leq 2R. \]
Como \(V\) é contínua em \([0,2R]\), o Teorema de Weierstrass garante a existência de um máximo. Para encontrá-lo, comparamos os valores nas extremidades com os valores nos pontos críticos interiores. A derivada é
\[ V'(h)=\pi \left(R^2-\frac{3h^2}{4}\right), \]
e a única solução de \(V'(h)=0\) em \((0,2R)\) é \(h=2R/\sqrt3\). Substituindo essa altura na relação de Pitágoras, obtemos \(r=\sqrt{2/3}\, R\). Portanto,
\[ \frac hr=\sqrt2\qquad \text{e}\qquad \frac{h}{2r}=\frac1{\sqrt2}. \]
A razão pedida é a segunda, pois o diâmetro mede \(2r\). Como \(V(0)=V(2R)=0\) e o volume é positivo no único ponto crítico interior, esse ponto fornece o máximo global.

Exercício 11.1 (O ponto que falta no domínio)

Considere

\[ f(x)=4-(x-2)^2,\qquad x\in D=[0,4]\setminus \{ 2\} . \]

O círculo vazio indica o ponto retirado do gráfico.

  1. Determine o mínimo global e suas abscissas. Existe máximo global? Explique a diferença entre um valor ser o menor limitante superior da imagem e ser efetivamente atingido.

  2. Defina agora \(g\) em todo \([0,4]\), mantendo \(g(x)=f(x)\) para \(x\neq 2\) e colocando \(g(2)=3\). Essa inclusão cria um máximo global? Qual hipótese impede aplicar o teorema de existência de extremos a \(g\)?

Ilustração: Extremos em intervalos fechados

Ver solução
  1. O mínimo é \(0\), atingido em \(x=0\) e \(x=4\). Não há máximo: todos os valores são menores que \(4\), mas valores arbitrariamente próximos de \(4\) são obtidos quando \(x\to 2\), \(x\neq 2\). Assim, \(4\) é o supremo da imagem e não é um valor da função.

  2. Não. A imagem de \(g\) continua sendo \([0,4)\), pois o valor \(3\) já era assumido em \(x=1\) e \(x=3\). Embora o domínio seja fechado e limitado, \(g\) não é contínua em \(2\): seu limite ali é \(4\), enquanto \(g(2)=3\).

Exercício 11.2 (Um mesmo indicador, três critérios)
Uma função contínua \(f:[0,4]\to \mathbb R\) descreve um desvio com sinal em relação a uma meta. Seu mínimo global é \(-3\), atingido apenas em \(x=1\); seu máximo global é \(2\), atingido apenas em \(x=3\). Os únicos zeros são \(0\), \(2\) e \(4\).
  1. Determine os pontos de máximo global de \(f\), de \(-f\) e de \(f^2\), e os respectivos valores máximos.

  2. Se o objetivo é aproximar o indicador de zero, quais escolhas minimizam \(f^2\)? Explique por que maximizar \(f\) e maximizar \(f^2\) representam critérios diferentes neste caso.

Ver solução
  1. Para \(f\), o máximo é \(2\) em \(x=3\). Para \(-f\), é \(3\) em \(x=1\). Como \(-3\leq f\leq 2\), o máximo de \(f^2\) é \(9\), também apenas em \(x=1\).

  2. O mínimo de \(f^2\) é \(0\), atingido em \(x=0,2,4\). O quadrado mede o tamanho do desvio e elimina seu sinal. A transformação \(u\mapsto u^2\) não preserva a ordem em um intervalo que contém valores negativos e positivos.

Exercício 11.3
Suponha que \(f\) seja uma função contínua no intervalo \([a,b]\)
  1. \(f\) possui máximos e mínimos globais nesse intervalo? Justifique.

  2. Como localizar os pontos em que \(f\) atinge seus extremos absolutos em \([a,b]\)? Que candidatos devem ser examinados?

Ver solução
  1. Sim. Pelo Teorema de Weierstrass, a continuidade no intervalo fechado e limitado garante que a função atinja seus valores máximo e mínimo.

  2. Compare \(f(a)\), \(f(b)\) e os valores de \(f\) em todos os pontos críticos interiores. Pelo Teorema de Fermat, nenhum extremo interior pode ficar fora desse conjunto. Se houver infinitos pontos críticos, a comparação deve abranger esse conjunto inteiro; o teorema não garante uma lista finita de candidatos.

Exercício 11.4
Encontre os valores máximos e mínimos absolutos de \(f\) no intervalo dado:
  1. \(f(x)=\frac{x^4-4}{x^2+1}\) no intervalo \(\left[-4,4\right]\)

  2. \(f(x)=x\sqrt{4-x^2}\) no intervalo \(\left[-1, 2\right]\)

  3. \(x e^{-x}\) no intervalo \(\left[0,2\right]\)

  4. \( \frac{\ln (x)}{x}\) no intervalo \(\left[1,3\right]\)

Ver solução
  1. \(f'(x)=2x(x^4+2x^2+4)/(x^2+1)^2\). Máximo \(252/17\) em \(x=-4\) e \(x=4\); mínimo \(-4\) em \(x=0\).

  2. \(f'(x)=(4-2x^2)/\sqrt{4-x^2}\) no interior do domínio. Compare \(f(-1)=-\sqrt3\), \(f(\sqrt2)=2\) e \(f(2)=0\): o máximo é \(2\) em \(x=\sqrt2\), e o mínimo é \(-\sqrt3\) em \(x=-1\).

  3. \(f'(x)=e^{-x}(1-x)\). Máximo \(1/e\) em \(x=1\); mínimo \(0\) em \(x=0\).

  4. \(f'(x)=(1-\ln x)/x^2\). Máximo \(1/e\) em \(x=e\); mínimo \(0\) em \(x=1\).

Exercício 11.5
Prove que a função \(f(x)=x^{101}+x^{51}+x+1\) não tem máximos nem mínimos locais.
Ver solução
Como \(f'(x)=101x^{100}+51x^{50}+1\gt 0\) para todo \(x\in \mathbb R\), a derivada nunca se anula. A função é derivável em toda a reta; pelo Teorema de Fermat, não há extremos locais.
Exercício 11.6
Determine os valores máximo e mínimo globais de cada função no intervalo indicado:
  1. \(f(x)=x^4-4x^2+2\) no intervalo \([-3,2]\)

  2. \(g(x)=\frac{x}{x+1}\) no intervalo \([1,2]\)

  3. \(h(x)=\sqrt{9-x^2}\) no intervalo \([-1,2]\)

  4. \(f(t)=\operatorname {sen}(t)+\cos (t)\) no intervalo \([0,\pi /3]\)

  5. \(f(x)=x-3\ln (x)\) no intervalo \([1,4]\)

Ver solução
Em cada item, comparam-se os valores nos extremos do intervalo e nos pontos críticos interiores.
  1. \(f'(x)=4x(x^2-2)\). Máximo \(47\) em \(x=-3\); mínimo \(-2\) em \(x=\pm \sqrt2\).

  2. \(g'(x)=1/(x+1)^2\gt 0\). Máximo \(2/3\) em \(x=2\); mínimo \(1/2\) em \(x=1\).

  3. \(h'(x)=-x/\sqrt{9-x^2}\). Máximo \(3\) em \(x=0\); mínimo \(\sqrt5\) em \(x=2\).

  4. \(f'(t)=\cos t-\operatorname {sen}t\). Máximo \(\sqrt2\) em \(t=\pi /4\); mínimo \(1\) em \(t=0\).

  5. \(f'(x)=1-3/x\). Mínimo \(3-3\ln 3\) em \(x=3\). O máximo é \(1\) em \(x=1\), pois \(f(4)=4-3\ln 4\lt 1\).

Exercício 11.7
Seja \(f\) contínua em \((a,b)\). Suponha que exista um intervalo fechado \([c,d]\), contido em \((a,b)\), tal que todos os valores de \(f\) fora de \([c,d]\) estejam entre o mínimo e o máximo de \(f\) nesse intervalo. Mostre que \(f\) possui máximo e mínimo globais em \((a,b)\). A continuidade, sozinha, garantiria essa conclusão?
Ver solução

Pelo Teorema de Weierstrass, \(f\) atinge um mínimo \(m\) e um máximo \(M\) em \([c,d]\). Pela hipótese, temos \(m\leq f(x)\leq M\) também para \(x\in (a,b)\setminus [c,d]\). Portanto, os mesmos valores são o mínimo e o máximo globais em \((a,b)\).

A continuidade, por si só, não garante isso: \(f(x)=x\) é contínua em \((a,b)\), mas não atinge máximo nem mínimo nesse intervalo.

Exercício 11.8
Determine, quando existirem, os valores máximo e mínimo globais de cada função no intervalo indicado:
  1. \(f(x)=1+\frac{1}{x}\) no intervalo \((0,\infty )\)

  2. \(g(x)=\sqrt{9+x^2}\) no intervalo \((-\infty , \infty )\)

  3. \(h(x)=x^5-7x^2+2\) no intervalo \((-\infty ,\infty )\)

  4. \(k(x)= \ln (x)-x\) no intervalo \((0,\infty )\)

  5. \(m(x)= 1/(x-x^2)\) no intervalo \((0,1)\)

Ver solução
  1. A imagem é \((1,\infty )\); não há máximo nem mínimo.

  2. Mínimo \(3\) em \(x=0\), pois \(9+x^2\geq 9\). Não há máximo.

  3. Não há extremos globais: \(h(x)\to +\infty \) quando \(x\to +\infty \) e \(h(x)\to -\infty \) quando \(x\to -\infty \).

  4. \(k'(x)=1/x-1\). Máximo \(-1\) em \(x=1\). Não há mínimo, pois \(k(x)\to -\infty \) quando \(x\to 0^+\) ou \(x\to \infty \).

  5. Como \(x-x^2=1/4-(x-1/2)^2\), o mínimo é \(4\) em \(x=1/2\). Não há máximo, pois a função tende a \(+\infty \) nas duas extremidades.

Exercício 11.9
Encontre os pontos da hipérbole \(y^2-x^2=4\) que estão mais próximos do ponto \((2,0)\).
Ver solução
Minimizar a distância equivale a minimizar seu quadrado. Usando \(y^2=x^2+4\),
\[ d^2=(x-2)^2+y^2=2(x-1)^2+6. \]
O mínimo ocorre em \(x=1\), para o qual \(y=\pm \sqrt5\). Portanto, os pontos são \((1,\sqrt5)\) e \((1,-\sqrt5)\), ambos à distância \(\sqrt6\) de \((2,0)\).
Exercício 11.10
Encontre a área do maior retângulo que pode ser inscrito na elipse \(x^2/a^2+y^2/b^2=1\), com \(a,b\gt 0\).
Ver solução
A área máxima é \(2ab\), atingida pelo retângulo de vértices \((\pm a/\sqrt2,\pm b/\sqrt2)\), com lados \(\sqrt2a\) e \(\sqrt2b\). Para justificar que nenhuma orientação dá área maior, aplique a transformação \((x,y)\mapsto (x/a,y/b)\). O retângulo transforma-se em um paralelogramo inscrito no círculo unitário, e sua área é dividida por \(ab\). Todo paralelogramo inscrito em um círculo é um retângulo: ângulos opostos são iguais e suplementares. Se os lados do retângulo transformado são \(u,v\), sua diagonal mede \(2\), logo \(u^2+v^2=4\) e \(uv\leq 2\). Assim, a área original é no máximo \(2ab\), como desejado.

Exercício 11.11
Encontre máximos e mínimos absolutos de \(f(x)=x+4/x\) no intervalo fechado \([1/2,6]\). Explique por que os extremos também exigem a verificação das extremidades do intervalo.
Ver solução
Os candidatos são \(x=2\) e as extremidades \(1/2\) e \(6\). Como \(f(1/2)=17/2\), \(f(2)=4\) e \(f(6)=20/3\), o máximo absoluto é \(17/2\) em \(x=1/2\) e o mínimo absoluto é \(4\) em \(x=2\). O Teorema de Weierstrass garante a existência dos extremos, mas eles podem ocorrer nas extremidades do intervalo; por isso, também comparamos os valores em \(1/2\) e \(6\).

11.2 Teorema do valor médio

Os pontos críticos fornecem informações locais. Para compreender a variação de uma função em todo um intervalo, precisamos relacionar a taxa instantânea à variação média entre dois pontos. O teorema a seguir mostrará que a taxa média entre as extremidades coincide com alguma derivada no interior.

A derivada de uma função constante é zero. A recíproca, em um intervalo, também é verdadeira e é consequência de um resultado mais forte. Sob hipóteses adequadas, existe \(c\in (a,b)\) tal que

\[ f^{\prime }(c)=\dfrac {f(b)-f(a)}{b-a}. \]

O coeficiente angular da tangente em algum ponto interior coincide, portanto, com o coeficiente angular da secante que une as extremidades do gráfico. Em linguagem de movimento, alguma velocidade instantânea coincide com a velocidade média no intervalo. O caso em que \(f(a)=f(b)\) é o Teorema de Rolle.

Teorema 11.12 (Teorema de Rolle)
Sejam \(a\lt b\) e \(f\) uma função contínua no intervalo fechado \([a,b]\), derivável no intervalo aberto \((a,b)\) tal que \(f(a) = f(b)\). Então, existe \(c \in (a,b)\) tal que \(f^{\prime }(c) = 0\).
Figura 11.10 Como f(a)=f(b), o Teorema de Rolle garante ao menos um ponto c∈ (a,b) em que a tangente é horizontal.
Figura 11.10 Como \(f(a)=f(b)\), o Teorema de Rolle garante ao menos um ponto \(c\in (a,b)\) em que a tangente é horizontal.

Demonstração ▼

Como \(f\) é contínua em \([a,b]\), ela atinge um máximo \(M\) em algum \(x_1\in [a,b]\) e um mínimo \(m\) em algum \(x_2\in [a,b]\). Se \(m=M\), então \(f\) é constante em \([a,b]\) e qualquer \(c\in (a,b)\) satisfaz \(f'(c)=0\). Se \(m\lt M\), pelo menos um dos valores extremos é atingido em um ponto interior: de fato, como \(f(a)=f(b)\), os dois extremos não podem ocorrer apenas em \(a\) e \(b\). Nesse ponto interior, \(f\) possui um extremo local e o Teorema de Fermat fornece \(f'(c)=0\).

Exemplo 11.13
Sem calcular explicitamente a derivada, localize os zeros de \(p'\) para
\[ p(x)=(x+2)(x-1)(x-3)(x-5). \]
Solução
O polinômio \(p\) se anula em \(-2\), \(1\), \(3\) e \(5\). Pelo Teorema de Rolle, \(p'\) possui ao menos um zero em cada um dos intervalos disjuntos
\[ (-2,1),\qquad (1,3),\qquad (3,5). \]
Como \(p'\) tem grau \(3\), não pode ter mais de três zeros reais. Portanto, há exatamente um zero de \(p'\) em cada um desses intervalos.
Teorema 11.14 (Teorema do Valor Médio)

Sejam \(a\lt b\) e \(f\) uma função contínua no intervalo fechado \([a,b]\) e derivável no intervalo aberto \((a,b)\). Então, existe \(c \in (a,b)\) tal que

\[ f^{\prime }(c) = \dfrac {f(b) - f(a)}{b-a}. \]

Figura 11.11 O Teorema do Valor Médio garante um ponto \(c\in (a,b)\) cuja tangente é paralela à secante pelos extremos.
Demonstração ▼

A equação da reta que passa pelos pontos \((a,f(a)) \) e \( (b,f(b)) \) é dada por

\[ y - f(a) = \dfrac {f(b) - f(a)}{b-a} ( x- a). \]

Para aplicar o Teorema de Rolle, consideramos a diferença entre \(f(x)\) e a ordenada da reta secante que passa por \((a,f(a))\) e \((b,f(b))\):

\[ h(x)=f(x)-f(a)-\frac{f(b)-f(a)}{b-a}(x-a). \]

Como \(h\) é a diferença entre \(f\) e uma função afim, é contínua em \([a,b]\) e derivável em \((a,b)\). Além disso, \(h(a)=h(b)=0\). Logo, pelo Teorema de Rolle, existe \( c \in (a,b)\) tal que \( h'(c) = 0. \) Portanto,

\[ 0 = h'(c) = f'(c) - \dfrac {f(b) - f(a)}{b-a} \quad \Longrightarrow \quad f'(c) = \dfrac {f(b) - f(a)}{b-a}. \]

Exemplo 11.15 (Uma velocidade que deve ter ocorrido)
Um automóvel percorre \(150\, \mathrm{km}\) entre dois postos de controle em exatamente uma hora. Admitindo que sua posição \(s(t)\) seja contínua em \([0,1]\) e derivável em \((0,1)\), o que o Teorema do Valor Médio permite concluir sobre a velocidade instantânea?

Solução

Escolhendo a origem no primeiro posto, temos \(s(0)=0\) e \(s(1)=150\). Pelo Teorema do Valor Médio, existe \(c\in (0,1)\) tal que

\[ s'(c)=\frac{s(1)-s(0)}{1-0}=150\, \mathrm{km/h}. \]

O teorema não informa quando isso ocorreu nem afirma que a velocidade foi constante. Ele garante, porém, que em algum instante a velocidade foi exatamente \(150\, \mathrm{km/h}\); em uma via limitada a \(120\, \mathrm{km/h}\), o limite foi ultrapassado.

Ilustração: Teorema do valor médio

Teorema 11.16 (Teorema do Valor Médio de Cauchy)
Sejam \(a\lt b\) e \(f\) e \(g\) funções contínuas no intervalo fechado \([a,b]\) e deriváveis no intervalo aberto \((a,b)\). Então, existe \(c \in (a,b)\) tal que
\[ \dfrac {g(b) - g(a)}{b-a}\, f^{\prime }(c) = \dfrac {f(b) - f(a)}{b-a}\, g^{\prime }(c). \]

Demonstração ▼

O resultado pode ser demonstrado aplicando o Teorema de Rolle à função

\[ h(x)=[f(b)-f(a)]g(x)-[g(b)-g(a)]f(x) \]

e observando que

\begin{align*} h(a)& = [f(b)-f(a)]g(a)-[g(b)-g(a)]f(a) \\ & = f(b)g(a)-g(b)f(a) \\ & = [f(b)-f(a)]g(b)-[g(b)-g(a)]f(b) \\ & = h(b) \end{align*}

e, assim, \(h'(c)=0\) para algum ponto \(c\in (a,b)\). Diferenciando \(h\), o resultado segue.

11.2.1 Consequências do Teorema do Valor Médio

Se conhecemos a derivada de uma função em todo um intervalo, o que isso determina sobre a própria função? Em particular, queremos saber se uma derivada identicamente nula obriga a função a ser constante e se derivadas iguais obrigam duas funções a diferir apenas por uma constante.

Teorema 11.17
Se \(f^{\prime }(x)=0\) para todo \(x \in (a,b)\), então \(f\) é constante no intervalo \((a,b)\).

Demonstração ▼

Sejam \(x_1,x_2\in (a,b)\), com \(x_1\lt x_2\). Como \(f\) é derivável em \((a,b)\), ela é contínua nesse intervalo; em particular, é contínua em \([x_1,x_2]\) e derivável em \((x_1,x_2)\). Pelo Teorema do Valor Médio, existe \(c\in (x_1,x_2)\) tal que

\[ f(x_2)-f(x_1)=f'(c)(x_2-x_1). \]

Como \(f'(x)=0\) para todo \(x\in (a,b)\), temos \(f'(c)=0\); logo \(f(x_2)=f(x_1)\). Como os pontos são arbitrários, \(f\) é constante em \((a,b)\).

A hipótese de que trabalhamos em um intervalo é essencial. Por exemplo, \(f(x)=x/|x|\), definida em \(\mathbb {R}\setminus \{ 0\} \), satisfaz \(f'(x)=0\) em todo ponto do domínio, mas não é constante: o domínio tem duas componentes. Em particular, se a posição de um corpo tem derivada nula em todo um intervalo de tempo, sua posição é constante nesse intervalo.

Corolário 11.18
Sejam \(f\) e \(g\) funções contínuas no intervalo fechado \([a,b]\) e deriváveis no intervalo aberto \((a,b)\), tais que \(f^{\prime }(x) = g^{\prime }(x)\) para todo \(x \in (a,b)\). Então, existe \(K \in \mathbb {R}\) tal que
\[ f(x) = g(x) + K \]
para todo \(x \in [a,b]\).

Demonstração ▼

Considere a função \(F(x)=f(x)-g(x)\). Então \(F'(x)=f'(x)-g'(x)=0\) para todo \(x\) em \((a,b)\). Logo, \(f-g\) é constante em \((a,b)\); pela continuidade, essa mesma constante é o valor de \(f-g\) também em \(a\) e em \(b\).

Exemplo 11.19
Mostre que \(\operatorname {arcsen}x+\arccos x=\pi /2\) para \(x\in [-1,1]\).

Solução
Para \(x\in (-1,1)\),
\[ \frac{d }{d x}(\operatorname {arcsen}x+\arccos x) =\frac{1}{\sqrt{1-x^2}}-\frac{1}{\sqrt{1-x^2}}=0. \]
Logo, a soma é constante nesse intervalo: \(\operatorname {arcsen}x+\arccos x=K\). Avaliando em \(x=0\), obtemos
\[ K=\operatorname {arcsen}0+\arccos 0=0+\frac\pi 2=\frac\pi 2. \]
A continuidade das duas funções estende a igualdade a \(x=\pm 1\).

Exemplo 11.20
Mostre que, para todo \(x\gt 0\),
\[ \operatorname {arctg}x+\operatorname {arctg}\left(\frac{1}{x}\right)=\frac{\pi }{2}. \]
Solução
Considere, em \((0,\infty )\), a função
\[ F(x)=\operatorname {arctg}x+\operatorname {arctg}\left(\frac{1}{x}\right). \]
Pela regra da cadeia,
\[ F'(x)=\frac{1}{1+x^2} -\frac{1}{x^2}\, \frac{1}{1+1/x^2} =\frac{1}{1+x^2}-\frac{1}{1+x^2}=0. \]
Portanto, \(F\) é constante em \((0,\infty )\). Para determinar seu valor, basta calcular em \(x=1\):
\[ F(1)=\operatorname {arctg}1+\operatorname {arctg}1 =\frac{\pi }{4}+\frac{\pi }{4}=\frac{\pi }{2}. \]
Concluímos que a identidade vale para todo \(x\gt 0\).

Exercício 11.12 (Velocidades iguais no mesmo instante)
Duas partículas têm posições \(s_A\) e \(s_B\), contínuas em \([0,6]\) e deriváveis em \((0,6)\), com posições em metros e tempo em segundos. As leituras são
\[ \begin{array}{c|cc} t& s_A(t)& s_B(t)\\ \hline 0& 10& 0\\ 6& 34& 24 \end{array} \]
  1. Prove que existe um mesmo instante \(c\in (0,6)\) em que as velocidades são iguais. Por que aplicar o Teorema do Valor Médio separadamente às duas posições não identifica, por si só, esse instante comum?

  2. A igualdade de velocidades em algum instante obriga as partículas a se encontrarem? Verifique a resposta com \(s_B(t)=4t\) e \(s_A(t)=4t+10+\operatorname {sen}(\pi t/3)\).

Ver solução
  1. A diferença \(d=s_A-s_B\) é contínua em \([0,6]\), derivável em \((0,6)\) e satisfaz \(d(0)=d(6)=10\). Por Rolle, \(d'(c)=0\) para algum \(c\), ou seja, \(s_A'(c)=s_B'(c)\). Aplicações separadas do valor médio dão velocidade \(4\, \mathrm{m/s}\) em instantes possivelmente distintos.

  2. Não. No exemplo, \(s_A-s_B=10+\operatorname {sen}(\pi t/3)\geq 9\gt 0\), de modo que não há encontro. As velocidades se igualam em \(t=3/2\) e \(t=9/2\), quando o cosseno se anula.

Exercício 11.13 (Três zeros impõem quantos pontos críticos?)
Uma função \(f\), derivável em \(\mathbb {R}\) até a segunda ordem, satisfaz \(f(0)=f(2)=f(5)=0\).
  1. Qual é o número mínimo de zeros distintos de \(f'\) garantido pelo Teorema de Rolle? Indique intervalos que contenham esses zeros.

  2. Qual é o número mínimo de zeros distintos de \(f''\) que se pode garantir? Em que intervalo eles se encontram?

  3. E se, além disso, \(f(7)=0\)?

  4. Pode \(f'\) ter mais zeros do que os garantidos? Dê um exemplo.

Ver solução
  1. Dois: um em \((0,2)\) e outro em \((2,5)\).

  2. Um, em \((0,5)\): aplicando Rolle a \(f'\) entre os dois zeros obtidos.

  3. Três zeros de \(f'\) e dois de \(f''\).

  4. Sim: os teoremas dão apenas uma quantidade mínima. Por exemplo, \(f(x)=x(x-2)(x-5)\bigl(2+\operatorname {sen}(10x)\bigr)\) tem esses zeros e \(f'\) oscila muitas vezes.

Exercício 11.14 (Identidades por derivação)
Use o fato de que uma função com derivada nula em um intervalo é constante para demonstrar as identidades seguintes. Nos itens em que o domínio tem extremidades, justifique também a identidade nesses pontos.
  1. \(\operatorname {arcsen}(-x)=-\operatorname {arcsen}x\), para \(x\in [-1,1]\).

  2. \(\operatorname {arctg}(-x)=-\operatorname {arctg}x\), para \(x\in \mathbb {R}\).

  3. \(\arccos (-x)=\pi -\arccos x\), para \(x\in [-1,1]\).

Ver solução
  1. Em \((-1,1)\), a derivada de \(h(x)=\operatorname {arcsen}(-x)+\operatorname {arcsen}x\) é zero. Como \(h(0)=0\), temos \(h(x)=0\). A continuidade estende a identidade a \(x=\pm 1\).

  2. Para \(h(x)=\operatorname {arctg}(-x)+\operatorname {arctg}x\), vale \(h'(x)=-1/(1+x^2)+1/(1+x^2)=0\) em \(\mathbb {R}\). Como \(h(0)=0\), segue a identidade.

  3. Em \((-1,1)\), a função \(h(x)=\arccos (-x)+\arccos x\) satisfaz \(h'(x)=0\). Como \(h(0)=\pi \), segue \(h(x)=\pi \), também nos extremos pela continuidade.

Exercício 11.15 (A constante depende do intervalo)
Mostre, usando derivadas, que
\[ \operatorname {arctg}x+\operatorname {arctg}\left(\frac{1}{x}\right)=-\frac{\pi }{2}, \qquad x\lt 0. \]
Compare com o exemplo resolvido para \(x\gt 0\). Por que não podemos concluir que a soma tem o mesmo valor em todo \(\mathbb {R}\setminus \{ 0\} \)?
Ver solução
A derivada da soma é zero também em \((-\infty ,0)\). Nesse intervalo, avaliando em \(x=-1\), obtemos
\[ \operatorname {arctg}(-1)+\operatorname {arctg}(-1)=-\frac{\pi }{2}. \]
A soma é constante em cada um dos intervalos \((-\infty ,0)\) e \((0,\infty )\), mas as constantes são diferentes. O domínio \(\mathbb {R}\setminus \{ 0\} \) não é um intervalo.

Exercício 11.16
Verifique as hipóteses do Teorema do Valor Médio para \(f(x)=x^2\) em \([1,3]\) e determine o ponto \(c\) fornecido pelo teorema.
Ver solução
A função é contínua em \([1,3]\) e derivável em \((1,3)\). Como
\[ \frac{f(3)-f(1)}{3-1}=4\quad \text{e}\quad f'(c)=2c, \]
temos \(c=2\).
Exercício 11.17
Use o Teorema do Valor Médio para provar que \(|\operatorname {sen}b-\operatorname {sen}a|\leq |b-a|\) para quaisquer \(a,b\in \mathbb R\).
Ver solução
Se \(a\neq b\), o teorema fornece um ponto \(c\) entre \(a\) e \(b\) tal que \(\operatorname {sen}b-\operatorname {sen}a=\cos c\, (b-a)\). Tomando módulos e usando \(|\cos c|\leq 1\), obtemos a desigualdade. Para \(a=b\), ela é imediata.
Exercício 11.18
O Teorema do Valor Médio pode ser aplicado a \(f(x)=|x|\) em \([-1,1]\)? Justifique.
Ver solução
Não. Embora \(f\) seja contínua em \([-1,1]\), ela não é derivável em \(0\), que pertence ao interior do intervalo.

Exercício 11.19 (O ponto do TVM para uma quadrática)
Seja \(f(x)=px^2+qx+r\), com \(p\neq 0\), e seja \([a,b]\) um intervalo com \(a\lt b\). Prove que existe exatamente um número \(c\in (a,b)\) tal que
\[ f'(c)=\frac{f(b)-f(a)}{b-a} \]
e determine esse número.
Ver solução
Temos
\[ \frac{f(b)-f(a)}{b-a}=\frac{p(b^2-a^2)+q(b-a)}{b-a}=p(a+b)+q \]
e \(f'(c)=2pc+q\). A igualdade equivale a \(2pc=p(a+b)\); como \(p\neq 0\), a única solução é \(c=\dfrac {a+b}2\), o ponto médio, que pertence a \((a,b)\).

Demonstração do teorema da função implícita

Esta demonstração é um aprofundamento e pode ser omitida em uma primeira leitura.

Retomemos o Teorema 10.3, enunciado no capítulo anterior. Queremos mostrar que, se \(F(a,b)=0\) e \(F_y(a,b)\ne 0\), a equação \(F(x,y)=0\) determina, perto de \((a,b)\), uma única função derivável \(y=f(x)\). Para isso, examinaremos \(F(x,y)\) como função de \(y\), mantendo \(x\) fixo.

Podemos supor \(F_y(a,b)\gt 0\); se necessário, substituímos \(F\) por \(-F\). Pela continuidade de \(F_y\), existe um retângulo em torno de \((a,b)\) no qual \(F_y\gt 0\). Pelo Teorema do Valor Médio, para cada \(x\) fixado, a função \(y\mapsto F(x,y)\) é estritamente crescente nesse retângulo.

Escolhemos \(b_-\lt b\lt b_+\) nesse intervalo vertical. Como \(F(a,b)=0\),

\[ F(a,b_-)\lt 0\lt F(a,b_+). \]

Como as funções \(x\mapsto F(x,b_-)\) e \(x\mapsto F(x,b_+)\) são contínuas, essas desigualdades permanecem válidas para \(x\) suficientemente próximo de \(a\). O Teorema do Valor Intermediário fornece, então, um único \(f(x)\in (b_-,b_+)\) tal que \(F(x,f(x))=0\).

Mostremos que \(f\) é contínua. Fixado \(x_0\), escrevemos \(y_0=f(x_0)\). Para \(\varepsilon \gt 0\) suficientemente pequeno, o crescimento estrito implica

\[ F(x_0,y_0-\varepsilon )\lt 0\lt F(x_0,y_0+\varepsilon ). \]

Essas desigualdades continuam válidas quando \(x\) está próximo de \(x_0\). Pela unicidade da raiz, \(y_0-\varepsilon \lt f(x)\lt y_0+\varepsilon \). Logo, \(f\) é contínua.

Por fim, de \(F(x+h,f(x+h))=F(x,f(x))=0\), obtemos

\begin{align*} 0={}& F(x+h,f(x+h))-F(x+h,f(x))\\ & +F(x+h,f(x))-F(x,f(x)). \end{align*}

Aplicando o Teorema do Valor Médio a cada diferença, com uma variável fixa de cada vez, encontramos \(\eta _h\) entre \(f(x)\) e \(f(x+h)\) e \(\xi _h\) entre \(x\) e \(x+h\) tais que

\[ 0=F_y(x+h,\eta _h)\bigl(f(x+h)-f(x)\bigr)+F_x(\xi _h,f(x))h. \]

Portanto,

\[ \frac{f(x+h)-f(x)}{h}=-\frac{F_x(\xi _h,f(x))}{F_y(x+h,\eta _h)}. \]

Como \(f\) é contínua, \(\eta _h\to f(x)\) e \(\xi _h\to x\). Passando ao limite, obtemos

\[ f'(x)=-\frac{F_x(x,f(x))}{F_y(x,f(x))}, \]

como queríamos demonstrar.\(\square \)

Para outras demonstrações elementares, consulte de Oliveira 2013.

11.3 Funções crescentes e decrescentes

Como localizar os intervalos em que os valores de uma função aumentam ou diminuem sem comparar cada par de pontos? O Teorema do Valor Médio permite decidir essa questão a partir do sinal da derivada.

Se \(a\lt b\), o Teorema do Valor Médio escreve a diferença \(f(b)-f(a)\) como \(f'(c)(b-a)\) para algum ponto intermediário \(c\). Como \(b-a\gt 0\), o sinal de \(f'\) determina o sinal da variação de \(f\).

Recordemos as definições do estudo de funções: \(f\) é crescente em um intervalo \(I\) se, para \(a,b\in I\) com \(a\lt b\), temos \(f(a)\lt f(b)\). Analogamente, é decrescente se \(f(a)\gt f(b)\) sempre que \(a\lt b\).

Figura não resolvida: figuras/monotonia-conceito.tex

Figura 11.12 Crescimento à esquerda de \(a\) e decrescimento à direita. A leitura visual ilustra a definição; o critério pela derivada vem a seguir.

Proposição 11.21
Seja \(I\) um intervalo e \(f:I\to \mathbb R\) contínua. Suponha que \(f\) seja derivável no interior de \(I\), exceto possivelmente em um número finito de pontos.
  1. Se \(f'(x)\gt 0\) em todos os pontos do interior em que a derivada existe, então \(f\) é crescente em \(I\).

  2. Se \(f'(x)\lt 0\) em todos os pontos do interior em que a derivada existe, então \(f\) é decrescente em \(I\).

Demonstração ▼

Fixe \(x_1\lt x_2\) em \(I\). Se \(f\) for derivável em todo o intervalo \((x_1,x_2)\), o Teorema do Valor Médio garante a existência de \(c\in (x_1,x_2)\) tal que

\[ f(x_2)-f(x_1)=f'(c)(x_2-x_1). \]

Como \(x_2-x_1\gt 0\), o sinal de \(f(x_2)-f(x_1)\) é o mesmo de \(f'(c)\).

Se houver pontos de \((x_1,x_2)\) nos quais \(f'\) não existe, ordene-os e use-os para dividir \([x_1,x_2]\) em subintervalos. Em cada um deles, o argumento anterior se aplica. A continuidade permite usar esses pontos como extremidades dos subintervalos; somando as variações de \(f\), concluímos que \(f(x_2)\gt f(x_1)\) no primeiro caso e \(f(x_2)\lt f(x_1)\) no segundo.

Sob as mesmas hipóteses, se \(f'(x)\geq 0\) em todos os pontos do interior em que a derivada existe, então \(f\) é não decrescente. Analogamente, se \(f'(x)\leq 0\), então \(f\) é não crescente. A demonstração é a mesma, com desigualdades não estritas.

Exemplo 11.22
Determine os intervalos em que \(f(x)=\dfrac {1}{3} x^3 - \dfrac {3}{2} x^2 + 2x -1\) é crescente ou decrescente. Utilizando essa informação, esboce o gráfico.

Solução
Seja \(f(x)=\dfrac {1}{3} x^3 - \dfrac {3}{2} x^2 + 2x -1\), então \(f^{\prime }(x) = x^2 -3x + 2 = (x-1) (x-2)\). Como \(f^{\prime }\) é positiva em \(\left(-\infty , 1\right) \cup \left(2, \infty \right)\) e \(f^{\prime }\) é negativa em \((1,2)\) podemos concluir pela proposição anterior que a função \(f\) é
  1. crescente em cada um dos intervalos \((-\infty ,1]\) e \([2,\infty )\);

  2. decrescente em \([1,2]\).

A Figura 11.13 mostra geometricamente esses intervalos de crescimento e decrescimento.
Figura não resolvida: figuras/cubica-monotonia
Figura 11.13 Crescimento e decrescimento de \(f(x)=\frac13x^3-\frac32x^2+2x-1\), com máximo local em \((1,-1/6)\) e mínimo local em \((2,-1/3)\).

Exemplo 11.23
Determine os intervalos em que \(f(x)=\dfrac {x^2}{x^2-1}\) é crescente ou decrescente.

Solução
A função não está definida em \(x=-1\) e \(x=1\). A derivada de \(f\) é:
\[ f'(x)=\frac{-2x}{(x^2-1)^2} \]
Como o denominador é positivo em todos os pontos do domínio, a derivada é positiva quando \(x\lt 0\) e negativa quando \(x\gt 0\). Ou seja:
  1. crescente em cada um dos intervalos \((-\infty ,-1)\) e \((-1,0]\);

  2. decrescente em cada um dos intervalos \([0,1)\) e \((1,\infty )\).

11.3.1 Teste da primeira derivada para máximos e mínimos

O sinal de \(f'\) nos dois lados de um ponto crítico permite distinguir máximos, mínimos e pontos críticos sem extremo.

Teorema 11.24
Seja \(x\) um ponto crítico de \(f:I\to \mathbb R\). Suponha que exista \(\varepsilon \gt 0\) com \((x-\varepsilon ,x+\varepsilon )\subset I\), que \(f\) seja contínua em \(x\) e derivável nos dois intervalos \((x-\varepsilon ,x)\) e \((x,x+\varepsilon )\). Então,
  1. Se \(f^{\prime } \gt 0\) no intervalo \((x-\varepsilon ,x)\) à esquerda de \(x\) e se \(f^{\prime } \lt 0\) no intervalo \((x,x+\varepsilon )\) à direita de \(x\), então \(x\) é um ponto de máximo local.

  2. Se \(f^{\prime } \lt 0\) no intervalo \((x-\varepsilon ,x)\) à esquerda de \(x\) e se \(f^{\prime } \gt 0\) no intervalo \((x,x+\varepsilon )\) à direita de \(x\), então \(x\) é um ponto de mínimo local.

  3. Se \(f'\) é positiva em ambos os intervalos \((x-\varepsilon ,x)\) e \((x,x+\varepsilon )\), ou negativa em ambos, então \(x\) não é ponto de máximo nem de mínimo local.

Figura não resolvida: figuras/teste-primeira-derivada-casos.tex

Figura 11.14 Três padrões de sinal de \(f'\), com ponto crítico \(c\). Os extremos suaves ilustram os casos do teste; o enunciado também admite que \(f'(c)\) não exista.

Demonstração ▼

Para \(t\lt x\) próximo de \(x\), o Teorema do Valor Médio em \([t,x]\) fornece

\[ f(x)-f(t)=f'(u)(x-t) \]

para algum \(u\in (t,x)\). Como \(x-t\gt 0\), se \(f'\gt 0\) à esquerda de \(x\), então \(f(t)\lt f(x)\); se \(f'\lt 0\), então \(f(t)\gt f(x)\).

Para \(t\gt x\) próximo de \(x\), aplicando o teorema em \([x,t]\), obtemos

\[ f(t)-f(x)=f'(v)(t-x) \]

para algum \(v\in (x,t)\). Como \(t-x\gt 0\), se \(f'\gt 0\) à direita de \(x\), então \(f(t)\gt f(x)\); se \(f'\lt 0\), então \(f(t)\lt f(x)\).

Combinando as comparações dos dois lados, obtemos, respectivamente, máximo local, mínimo local ou ausência de extremo, conforme os três casos do enunciado. A continuidade em \(x\) é o que permite aplicar o Teorema do Valor Médio nos intervalos que têm \(x\) como extremidade, mesmo quando \(f'(x)\) não existe.

Exemplo 11.25 (Derivada nula, sem extremo)
Considere, em \(\mathbb R\),
\[ f(x)=\frac{x^4}{4}-\frac{4x^3}{3}+2x^2, \qquad f'(x)=x(x-2)^2. \]
Construa o quadro de sinais de \(f'\) e determine em quais dos pontos \(0\) e \(2\) a função tem um extremo local. Explique por que uma tangente horizontal não é suficiente para decidir a questão.
[figuras/proposta-20261016-e11-3-1.tex
Figura 11.15 Os zeros de \(f'\) em \(0\) e em \(2\) não têm o mesmo efeito: a derivada troca de sinal apenas no primeiro.

Solução
O fator \((x-2)^2\) é não negativo e se anula apenas em \(x=2\). Fora desse ponto, o sinal de \(f'(x)\) é o sinal de \(x\):
\[ \begin{array}{c|ccccc} x& (-\infty ,0)& 0& (0,2)& 2& (2,\infty )\\ \hline f’(x)& -& 0& +& 0& + \end{array} \]
Assim, \(f\) decresce até \(x=0\) e cresce depois. Em \(0\) ocorre um mínimo. Em \(2\), a derivada vale zero, mas permanece positiva de ambos os lados: a função continua crescendo. Há uma tangente horizontal, não um máximo ou mínimo local.
Ideia
Um ponto onde \(f'(x)=0\) é candidato a extremo, mas não é necessariamente um extremo. O teste decisivo é o comportamento do sinal da derivada.

Exemplo 11.26
Ache os máximos e mínimos locais de \(f(x)=x^{1/3}(8-x)\).
Solução
Para \(x\neq 0\),
\[ f'(x)=\frac{8-4x}{3x^{2/3}}. \]
Os pontos críticos são \(0\), onde a derivada não existe, e \(2\), onde ela se anula. Como o denominador é positivo, \(f'\gt 0\) para \(x\lt 2\), \(x\neq 0\), e \(f'\lt 0\) para \(x\gt 2\). Pela continuidade em \(0\), a função é crescente em todo \((-\infty ,2]\) e decrescente em \([2,\infty )\). Portanto, \(2\) é ponto de máximo, com valor \(6\sqrt[3]2\); esse máximo é também global. O ponto \(0\) não é extremo, e não há mínimos locais.

Exercício 11.20 (Mais rápido, mas sem alcançar)

Dois móveis percorrem a mesma reta, com posições

\[ s_A(t)=t+3,\qquad s_B(t)=t+2-2e^{-t},\qquad t\geq 0, \]

em metros, com \(t\) em segundos. O gráfico mostra a distância orientada \(d(t)=s_A(t)-s_B(t)\).

  1. Compare as velocidades e as posições para todo \(t\geq 0\). O móvel que está atrás é sempre mais rápido? Chega a alcançar o outro?

  2. Explique por que \(d'(t)\lt 0\) não implica que \(d(t)\) atinja zero. Qual é a distância limite entre os móveis?

Ilustração: Teste da primeira derivada para máximos e mínimos

Ver solução
  1. \(s_A'=1\) e \(s_B'=1+2e^{-t}\gt 1\): \(B\) é sempre mais rápido. Entretanto, \(d(t)=1+2e^{-t}\gt 1\), logo \(B\) permanece atrás e nunca alcança \(A\).

  2. A derivada negativa garante diminuição da distância, não que ela percorra todos os valores menores que o inicial. Temos \(d(t)\to 1\, \mathrm m\) quando \(t\to \infty \); a vantagem diminui de \(3\) metros para uma distância limite positiva.

Exercício 11.21 (A quantidade cresce e a participação diminui)
Dois grupos têm tamanhos modelados por
\[ A(t)=100+10t,\qquad B(t)=100+30t,\qquad t\geq 0, \]
em uma mesma unidade. A participação do primeiro no total é
\[ p(t)=\frac{A(t)}{A(t)+B(t)}. \]
  1. Determine se \(A\), \(B\), \(A+B\) e \(p\) são crescentes ou decrescentes. Como a participação pode diminuir enquanto o grupo aumenta?

  2. Compare \(p(0)\) com \(\lim _{t\to \infty }p(t)\). A diminuição da participação significa que o tamanho absoluto do primeiro grupo se aproxima de zero?

Ver solução
  1. \(A\), \(B\) e \(A+B\) são estritamente crescentes. Já

    \[ \begin{gathered} p'(t)=\frac{10(200+40t)-40(100+10t)}{(200+40t)^2}\\ =\frac{-2000}{(200+40t)^2}\lt 0. \end{gathered} \]

    A participação compara a quantidade com um total que cresce em outra proporção.

  2. \(p(0)=1/2\) e \(p(t)\to 1/4\). Apesar disso, \(A(t)\to +\infty \): perder participação relativa não significa diminuir em tamanho absoluto.

Exercício 11.22 (Uma única raiz em um intervalo)
Seja \(f(x)=x^3+2x+5\). Mostre que a equação \(f(x)=0\) tem exatamente uma solução no intervalo \([-3,0]\). Use o Teorema do Valor Intermediário para garantir a existência e o sinal de \(f'\) para garantir a unicidade.
Ver solução
\(f\) é contínua, \(f(-3)=-28\lt 0\) e \(f(0)=5\gt 0\). Pelo Teorema do Valor Intermediário, há \(c\in (-3,0)\) com \(f(c)=0\). Como \(f'(x)=3x^2+2\gt 0\), \(f\) é estritamente crescente e não pode se anular duas vezes. A raiz é \(c\approx -1{,}328\).

Exercício 11.23 (Uma única raiz real)
Prove que a equação \(x^5+4x+2=0\) tem exatamente uma solução real.
Ver solução
Seja \(f(x)=x^5+4x+2\). Como \(f(-1)=-3\lt 0\lt 2=f(0)\), existe uma raiz em \((-1,0)\). Se houvesse duas raízes \(a\lt b\), o Teorema de Rolle daria \(c\in (a,b)\) com \(f'(c)=0\); mas \(f'(x)=5x^4+4\gt 0\). A raiz é única (\(\approx -0{,}493\)).

Exercício 11.24 (Exponencial e reta)
Mostre que a equação \(e^{2x}+3x-4=0\) tem exatamente uma solução real e indique um intervalo de comprimento \(1\) que a contém.
Ver solução
Seja \(g(x)=e^{2x}+3x-4\). Temos \(g(0)=-3\lt 0\) e \(g(1)=e^2-1\gt 0\); logo há uma raiz em \((0,1)\). Como \(g'(x)=2e^{2x}+3\gt 0\), \(g\) é estritamente crescente e a raiz é única (\(\approx 0{,}474\)).

Exercício 11.25 (Dos domínios à monotonicidade)
Retome o item 2 do Exercício 2.35. Sem repetir os cálculos algébricos, use as derivadas de \(f+g\) e de \(g/f\) para estudar o crescimento e o decrescimento, determinar o mínimo da soma e esboçar os dois gráficos. Considere também os limites quando \(x\to 0^+\) e \(x\to +\infty \).
Ver solução
No domínio comum \((0,+\infty )\), temos \(h(x)=(f+g)(x)=x+x^{-1/2}\) e \(q(x)=(g/f)(x)=x^{-3/2}\). Como
\[ h'(x)=1-\frac{1}{2x^{3/2}}, \]
a função \(h\) decresce em \((0,2^{-2/3}]\) e cresce em \([2^{-2/3},+\infty )\). Seu mínimo é \(h(2^{-2/3})=3\cdot 2^{-2/3}\). Além disso, \(h(x)\to +\infty \) tanto quando \(x\to 0^+\) quanto quando \(x\to +\infty \); o gráfico desce até o mínimo e depois sobe. Por outro lado,
\[ q'(x)=-\frac{3}{2x^{5/2}}\lt 0. \]
Portanto, \(q\) é positiva e estritamente decrescente, tende a \(+\infty \) quando \(x\to 0^+\) e se aproxima de \(0\) quando \(x\to +\infty \).

Exercício 11.26
Prove que a função \(2x^5+x^3+2x\) é estritamente crescente em \(\mathbb {R}\).
Ver solução
A derivada é \(10x^4+3x^2+2\gt 0\) em toda a reta. Pelo Teorema do Valor Médio, a função é estritamente crescente em \(\mathbb R\).
Exercício 11.27
Determine os intervalos nos quais \(f(x)=\dfrac {\ln x}{x}\) é crescente e nos quais é decrescente.
Ver solução
O domínio é \((0,\infty )\) e \(f'(x)=(1-\ln x)/x^2\). Portanto, \(f\) é crescente em \((0,e]\) e decrescente em \([e,\infty )\).
Exercício 11.28
Determine os intervalos nos quais \(f(x)=e^{-x^2/2}\) é crescente e nos quais é decrescente.
Ver solução
Como \(f'(x)=-xe^{-x^2/2}\), a função é crescente em \((-\infty ,0]\) e decrescente em \([0,\infty )\).
Exercício 11.29
Para cada função da segunda lista, realize as quatro etapas da primeira. Considere o domínio real natural, salvo indicação em contrário.
  1. Determine o domínio de \(f\).

  2. Encontre os pontos e valores críticos.

  3. Encontre os intervalos de crescimento e decrescimento.

  4. Use o teste da primeira derivada para dizer se os pontos críticos são de máximo ou mínimo local ou nenhuma dessas opções.

  1. \(f(x) = x^2-3x+5\)

  2. \(f(x) = \cos x\)

  3. \(f(x) = \operatorname {tg}x\)

  4. \(f(x) = x^3-5x^2+7x-1\)

  5. \(f(x) = 2x^3-x^2+x-1\)

  6. \(f(x) =x^4-5x^2+4\)

  7. \(\displaystyle f(x) =\frac{1}{x^2+1}\)

  8. \(\displaystyle f(x) =x^2+2x-3\)

  9. \(\displaystyle f(x) =x^3+3x^2+3\)

  10. \(\displaystyle f(x) =\frac{1}{x^2-2x+2}\)

  11. \(\displaystyle f(x) =\frac{x^2-4}{x^2-1}\)

  12. \(\displaystyle f(x) =\frac{x}{x^2-2x-8}\)

  13. \(\displaystyle f(x) =\frac{(x-2)^{2/3}}{x}\)

  14. \(\displaystyle f(x) =\operatorname {sen}x\cos x\) em \((-\pi ,\pi )\).

Ver solução
Usamos \(\uparrow \) e \(\downarrow \) para indicar crescimento e decrescimento, respectivamente. Intervalos separados são considerados individualmente. Os intervalos são abertos nos pontos críticos para facilitar a leitura; quando esses pontos pertencem ao domínio, podem ser incluídos por continuidade. Salvo indicação em contrário, o domínio é \(\mathbb R\).
  1. \(f'=2x-3\). Crítico \(3/2\), mínimo de valor \(11/4\); \(\downarrow \) em \((-\infty ,3/2)\) e \(\uparrow \) em \((3/2,\infty )\).

  2. \(f'=-\operatorname {sen}x\). Para \(k\in \mathbb Z\), \(2k\pi \) é máximo de valor \(1\), e \((2k+1)\pi \) é mínimo de valor \(-1\). Há crescimento em \(((2k-1)\pi ,2k\pi )\) e decrescimento em \((2k\pi ,(2k+1)\pi )\).

  3. Domínio \(\mathbb R\setminus \{ \pi /2+k\pi :k\in \mathbb Z\} \). Como \(f'=\sec ^2x\gt 0\), a função cresce em cada intervalo \((-\pi /2+k\pi ,\pi /2+k\pi )\) e não tem pontos críticos.

  4. \(f'=(x-1)(3x-7)\). Máximo local em \(1\), de valor \(2\), e mínimo local em \(7/3\), de valor \(22/27\). Há crescimento em \((-\infty ,1)\) e \((7/3,\infty )\) e decrescimento em \((1,7/3)\).

  5. \(f'=6x^2-2x+1=6(x-1/6)^2+5/6\gt 0\). Crescente em toda a reta, sem pontos críticos.

  6. Escreva \(r=\sqrt{5/2}\). Como \(f'=2x(2x^2-5)\), há mínimos em \(\pm r\), de valor \(-9/4\), e máximo local em \(0\), de valor \(4\). A função decresce em \((-\infty ,-r)\) e \((0,r)\) e cresce em \((-r,0)\) e \((r,\infty )\).

  7. \(f'=-2x/(x^2+1)^2\). Máximo em \(0\), de valor \(1\); crescente em \((-\infty ,0)\) e decrescente em \((0,\infty )\).

  8. \(f'=2x+2\). Mínimo em \(-1\), de valor \(-4\); decrescente em \((-\infty ,-1)\) e crescente em \((-1,\infty )\).

  9. \(f'=3x(x+2)\). Máximo local em \(-2\), de valor \(7\), e mínimo local em \(0\), de valor \(3\). Crescente em \((-\infty ,-2)\) e \((0,\infty )\); decrescente em \((-2,0)\).

  10. \(f'=-2(x-1)/((x-1)^2+1)^2\). Máximo em \(1\), de valor \(1\); crescente em \((-\infty ,1)\) e decrescente em \((1,\infty )\).

  11. Domínio \(\mathbb R\setminus \{ -1,1\} \). Como \(f'=6x/(x^2-1)^2\), há mínimo local em \(0\), de valor \(4\). Decrescente em \((-\infty ,-1)\) e \((-1,0)\); crescente em \((0,1)\) e \((1,\infty )\).

  12. Domínio \(\mathbb R\setminus \{ -2,4\} \). Como \(f'=-(x^2+8)/(x^2-2x-8)^2\lt 0\), decresce em cada um dos três componentes do domínio, sem pontos críticos.

  13. Domínio \(\mathbb R\setminus \{ 0\} \). Para \(x\neq 0,2\), \(f'=(6-x)/(3x^2\sqrt[3]{x-2})\). O ponto \(2\) é crítico por não diferenciabilidade e é mínimo local de valor \(0\); \(6\) é máximo local de valor \(\sqrt[3]2/3\). Decresce em \((-\infty ,0)\), \((0,2)\) e \((6,\infty )\); cresce em \((2,6)\).

  14. Domínio \((-\pi ,\pi )\) e \(f'=\cos (2x)\). Máximos em \(-3\pi /4\) e \(\pi /4\), de valor \(1/2\); mínimos em \(-\pi /4\) e \(3\pi /4\), de valor \(-1/2\). Cresce em \((-\pi ,-3\pi /4)\), \((-\pi /4,\pi /4)\) e \((3\pi /4,\pi )\); decresce em \((-3\pi /4,-\pi /4)\) e \((\pi /4,3\pi /4)\).

Exercício 11.30
Determine os intervalos de crescimento e de decrescimento e esboce o gráfico. Calcule todos os limites necessários (no infinito e nos pontos excluídos do domínio).
  1. \(f(x)=x^3-3x^2+1\)

  2. \(f(x)=x^3+2x^2+x+1\)

  3. \(f(x)=x+\dfrac 1x\)

  4. \(y=x^2+\dfrac 1x\)

  5. \(y=x+\dfrac 1{x^2}\)

  6. \(f(x)=3x^5-5x^3\)

  7. \(x(t)=\dfrac t{1+t^2}\)

  8. \(x(t)=\dfrac {t^2}{1+t^2}\)

  9. \(x(t)=2-e^{-t}\)

  10. \(f(x)=e^{2x}-e^x\)

  11. \(f(x)=\dfrac {x^3-x^2+1}x\)

  12. \(f(x)=\dfrac {3x^2+4x}{1+x^2}\)

  13. \(g(x)=xe^x\)

  14. \(f(x)=-x^4+4x^3-4x^2+2\)

  15. \(f(x)=\dfrac {e^x}x\)

  16. \(g(x)=\dfrac {x^2-x+1}{2(x-1)}\)

  17. \(g(x)=x-e^x\)

Ver solução
  1. \(f'=3x(x-2)\): cresce em \((-\infty ,0]\) e \([2,\infty )\), decresce em \([0,2]\); máx. local \(f(0)=1\), mín. local \(f(2)=-3\); \(f\to \pm \infty \) quando \(x\to \pm \infty \).

  2. \(f'=(x+1)(3x+1)\): cresce em \((-\infty ,-1]\) e \([-\tfrac 13,\infty )\), decresce em \([-1,-\tfrac 13]\); máx. local \(1\), mín. local \(\tfrac {23}{27}\).

  3. \(f'=(x^2-1)/x^2\): cresce em \((-\infty ,-1]\) e \([1,\infty )\), decresce em \([-1,0)\) e \((0,1]\); \(f(\pm 1)=\pm 2\); \(f\to \pm \infty \) quando \(x\to 0^\pm \); assíntota \(y=x\).

  4. \(y'=(2x^3-1)/x^2\): decresce em \((-\infty ,0)\) e em \((0,2^{-1/3}]\), cresce em \([2^{-1/3},\infty )\); mín. local \(\tfrac 32\sqrt[3]2\) em \(x=2^{-1/3}\); \(y\to \pm \infty \) quando \(x\to 0^\pm \); \(y\to +\infty \) quando \(x\to \pm \infty \).

  5. \(y'=(x^3-2)/x^3\): cresce em \((-\infty ,0)\) e \([\sqrt[3]2,\infty )\), decresce em \((0,\sqrt[3]2]\); mín. local \(\tfrac 32\sqrt[3]2\); \(y\to +\infty \) quando \(x\to 0\); assíntota \(y=x\).

  6. \(f'=15x^2(x^2-1)\): cresce em \((-\infty ,-1]\) e \([1,\infty )\), decresce em \([-1,1]\); máx. local \(f(-1)=2\), mín. local \(f(1)=-2\); em \(0\) não há extremo.

  7. \(x'=(1-t^2)/(1+t^2)^2\): decresce em \((-\infty ,-1]\) e \([1,\infty )\), cresce em \([-1,1]\); extremos \(\mp \tfrac 12\) em \(t=\mp 1\); \(x\to 0\) quando \(t\to \pm \infty \).

  8. \(x'=2t/(1+t^2)^2\): decresce em \((-\infty ,0]\), cresce em \([0,\infty )\); mín. \(0\); assíntota horizontal \(x=1\) (no plano \(tx\)) nos dois sentidos.

  9. \(x'=e^{-t}\gt 0\): crescente em \(\mathbb {R}\); \(x\to 2\) quando \(t\to +\infty \) e \(x\to -\infty \) quando \(t\to -\infty \).

  10. \(f'=e^x(2e^x-1)\): decresce em \((-\infty ,-\ln 2]\), cresce em \([-\ln 2,\infty )\); mín. \(-\tfrac 14\); \(f\to 0\) quando \(x\to -\infty \).

  11. \(f'=(x-1)(2x^2+x+1)/x^2\): decresce em \((-\infty ,0)\) e \((0,1]\), cresce em \([1,\infty )\); mín. local \(f(1)=1\); \(f\to \pm \infty \) quando \(x\to 0^\pm \).

  12. \(f'=-2(x-2)(2x+1)/(1+x^2)^2\): decresce em \((-\infty ,-\tfrac 12]\) e \([2,\infty )\), cresce em \([-\tfrac 12,2]\); mín. \(-1\), máx. \(4\); assíntota \(y=3\).

  13. \(g'=(x+1)e^x\): decresce em \((-\infty ,-1]\), cresce em \([-1,\infty )\); mín. \(-1/e\); \(g\to 0\) quando \(x\to -\infty \).

  14. \(f'=-4x(x-1)(x-2)\): cresce em \((-\infty ,0]\) e \([1,2]\), decresce em \([0,1]\) e \([2,\infty )\); máx. locais \(f(0)=f(2)=2\), mín. local \(f(1)=1\).

  15. \(f'=(x-1)e^x/x^2\): decresce em \((-\infty ,0)\) e \((0,1]\), cresce em \([1,\infty )\); mín. local \(e\); \(f\to \pm \infty \) quando \(x\to 0^\pm \); \(f\to 0\) quando \(x\to -\infty \).

  16. \(g'=x(x-2)/[2(x-1)^2]\): cresce em \((-\infty ,0]\) e \([2,\infty )\), decresce em \([0,1)\) e \((1,2]\); máx. local \(-\tfrac 12\), mín. local \(\tfrac 32\); \(g\to \pm \infty \) quando \(x\to 1^\pm \); assíntota \(y=\tfrac x2\).

  17. \(g'=1-e^x\): cresce em \((-\infty ,0]\), decresce em \([0,\infty )\); máx. \(-1\); \(g\to -\infty \) nos dois sentidos.

Exercício 11.31
Explique por que uma função contínua em \([a,b]\), derivável em \((a,b)\) e com derivada positiva em todo \((a,b)\) não pode assumir o mesmo valor em dois pontos diferentes do intervalo.
Ver solução
Se \(x_1\lt x_2\), o Teorema do Valor Médio fornece \(c\in (x_1,x_2)\) tal que \(f(x_2)-f(x_1)=f'(c)(x_2-x_1)\gt 0\). Logo, \(f(x_2)\gt f(x_1)\) e dois pontos distintos não podem ter a mesma imagem.

Exercício 11.32 (O teste de monotonia exige um intervalo)
Considere a função
\[ f(x)=-\frac1x,\qquad x\ne 0. \]
Uma resolução observa que \(f'(x)=1/x^2\gt 0\) em todo o domínio e conclui que \(f\) é estritamente crescente em \(\mathbb {R}\setminus \{ 0\} \).
  1. Calcule \(f(-1)\) e \(f(1)\). A conclusão está correta?

  2. Determine os intervalos em que \(f\) é crescente.

  3. Que hipótese do teste de monotonicidade por meio do Teorema do Valor Médio deixa de valer quando se considera todo o domínio?

Ver solução
  1. Temos \(-1\lt 1\), mas \(f(-1)=1\gt -1=f(1)\): a função não é crescente no domínio inteiro.

  2. A derivada é positiva em cada um dos intervalos \((-\infty ,0)\) e \((0,\infty )\), onde a função é estritamente crescente.

  3. Para aplicar o Teorema do Valor Médio entre dois pontos, todo o intervalo entre eles deve pertencer ao domínio. O conjunto \(\mathbb {R}\setminus \{ 0\} \) não é um intervalo: entre \(-1\) e \(1\) há um ponto em que \(f\) não está definida.

11.4 Concavidade

O sinal de \(f'\) descreve a variação dos valores da função. Para estudar como a inclinação das tangentes varia, examinaremos \(f''\). Essa informação permite distinguir as duas formas de concavidade.

Geometricamente, uma função é côncava para cima quando o segmento que une dois pontos de seu gráfico fica acima do gráfico ou coincide com ele; para a concavidade para baixo, ocorre o contrário. Essa descrição pode ser escrita diretamente em termos da altura da corda.

Definição 11.3
Uma função \(f\) é dita côncava para cima no intervalo \(I\) se, para qualquer terna \(a\lt x\lt b\) em \(I\),
\[ f(x)\leq \frac{b-x}{b-a}\, f(a)+\frac{x-a}{b-a}\, f(b). \]
Ela é côncava para baixo em \(I\) se, para toda terna \(a\lt x\lt b\), vale a desigualdade inversa.
A expressão do lado direito é exatamente a ordenada, na abscissa \(x\), da corda que liga \((a,f(a))\) a \((b,f(b))\). Para a concavidade para cima, a mesma condição pode ser escrita, de forma equivalente, como

\[ \frac{f(x)-f(a)}{x-a} \leq \frac{f(b)-f(a)}{b-a} \leq \frac{f(b)-f(x)}{b-x}, \]

e as desigualdades se invertem para a concavidade para baixo. Para cálculos, o critério por meio de \(f''\) será normalmente mais prático.

Uma função côncava para cima também é chamada convexa; uma função côncava para baixo, simplesmente côncava. Se a desigualdade correspondente for estrita para toda terna \(a\lt x\lt b\), usamos os termos estritamente convexa ou estritamente côncava. Com a convenção não estrita, toda função afim pertence às duas classes. Geometricamente, os segmentos podem coincidir com o gráfico. Equivalentemente, dados \(x,y\in I\) e \(0\leq t\leq 1\), a convexidade se escreve como

\[ f\bigl(tx+(1-t)y\bigr)\leq t f(x)+(1-t)f(y), \]

e a concavidade corresponde à desigualdade inversa. Nas figuras seguintes, \(tx+(1-t)y\) é a abscissa do ponto intermediário, enquanto \(t f(x)+(1-t)f(y)\) é a ordenada do ponto correspondente na corda.

Figura 11.16 Na concavidade para baixo, o gráfico fica acima da corda entre dois de seus pontos ou coincide com ela. Figura 11.17 Na concavidade para cima, o gráfico fica abaixo da corda entre dois de seus pontos ou coincide com ela.

Figura 11.16 Na concavidade para baixo, o gráfico fica acima da corda entre dois de seus pontos ou coincide com ela.

Figura 11.16 Na concavidade para baixo, o gráfico fica acima da corda entre dois de seus pontos ou coincide com ela. Figura 11.17 Na concavidade para cima, o gráfico fica abaixo da corda entre dois de seus pontos ou coincide com ela.

Figura 11.17 Na concavidade para cima, o gráfico fica abaixo da corda entre dois de seus pontos ou coincide com ela.

Teorema 11.27 (Teste da concavidade)
Seja \(f\) duas vezes derivável em um intervalo aberto \(I\).
  • Se \(f''\geq 0\) em \(I\), então \(f\) é côncava para cima em \(I\). Se \(f''\gt 0\) em \(I\), a concavidade é estrita.

  • Se \(f''\leq 0\) em \(I\), então \(f\) é côncava para baixo em \(I\). Se \(f''\lt 0\) em \(I\), a concavidade é estrita.

Demonstração ▼

Suponha \(f''\geq 0\). Pelo Teorema do Valor Médio aplicado a \(f'\), a derivada \(f'\) é não decrescente. Para \(a\lt x\lt b\) em \(I\), aplique o mesmo teorema a \(f\) nos intervalos \([a,x]\) e \([x,b]\). Existem \(u\in (a,x)\) e \(v\in (x,b)\) tais que

\[ \frac{f(x)-f(a)}{x-a}=f'(u)\leq f'(v)=\frac{f(b)-f(x)}{b-x}. \]

Multiplicando pelos denominadores positivos e reorganizando, obtemos a desigualdade da definição de convexidade. Se \(f''\gt 0\), \(f'\) é estritamente crescente e a desigualdade é estrita. Os casos \(f''\leq 0\) e \(f''\lt 0\) seguem aplicando o resultado a \(-f\).

Figura não resolvida: ./figuras/quatro-combinacoes.tex
Figura 11.18 As quatro combinações possíveis entre monotonicidade e concavidade.

Exemplo 11.28 (Mesma tangente, concavidades opostas)
Considere, em \((-1,+\infty )\),
\[ f(x)=\ln (1+x),\qquad g(x)=x+\tfrac 12x^2. \]
Mostre que ambas são crescentes e têm a mesma reta tangente na origem. Compare suas concavidades e determine de que lado dessa reta fica cada gráfico. Para justificar a comparação com a tangente, estude o sinal da derivada de \(f(x)-x\) e observe o sinal de \(g(x)-x\).
[.68figuras/proposta-20261016-e11-4-1.tex
Figura 11.19 As curvas compartilham a tangente na origem, mas a concavidade as coloca em lados distintos dessa reta.

Solução
As derivadas primeiras são
\[ f'(x)=\frac1{1+x},\qquad g'(x)=1+x. \]
Para \(x\gt -1\), ambas são positivas. Porém, suas derivadas segundas são
\[ f''(x)=-\frac1{(1+x)^2}\lt 0, \qquad g''(x)=1\gt 0. \]
Portanto, \(f\) cresce com inclinação decrescente, enquanto \(g\) cresce com inclinação crescente. Como \(f(0)=g(0)=0\) e \(f'(0)=g'(0)=1\), ambas são tangentes à reta \(y=x\). A concavidade explica por que o gráfico de \(f\) fica abaixo dessa reta, enquanto o de \(g\) fica acima, exceto no ponto de contato. Para justificar sem pressupor um teorema sobre tangentes, considere \(u(x)=\ln (1+x)-x\). Como \(u'(x)=-x/(1+x)\), seu máximo é \(u(0)=0\). Já \(g(x)-x=x^2/2\ge 0\), com igualdade apenas em \(0\).
Ideia
Crescimento e concavidade respondem a perguntas diferentes: \(f'(x)\) informa se a função cresce; \(f''(x)\) informa como varia a inclinação. A mesma tangente não determina a curvatura local.

Exemplo 11.29
Estude a concavidade de \( f(x) = e^{-\dfrac {x^2}{2}}\) e esboce o gráfico.

Solução
Começamos calculando as duas primeiras derivadas \( f'(x) = - x e^{-\dfrac {x^2}{2}} \) e \( f''(x) = (x^2-1) e^{-\dfrac {x^2}{2}}\). Como \( e^{-\dfrac {x^2}{2}} \gt 0 \) para todo \(x,\) o sinal de \(f''\) é dado pelo sinal de \( x^2-1. \) Portanto,
  • \( f''(x) \gt 0\) em \( (-\infty , -1) \) e \( (1, + \infty ) \Rightarrow f \) é côncava para cima em \( (-\infty , -1) \) e \( (1, + \infty ) ,\)

  • \( f''(x) \lt 0 \) em \( (-1,1) \Rightarrow f \) é côncava para baixo em \( (-1,1).\)

Assim, a concavidade muda em \(x=-1\) e em \(x=1\), pontos que chamaremos de pontos de inflexão. A Figura 11.20 mostra a concavidade para baixo entre eles e para cima fora desse intervalo.
Figura não resolvida: figuras/gaussiana-concavidade
Figura 11.20 Gráfico de \(f(x)=e^{-x^2/2}\). Os pontos de inflexão em \(x=\pm 1\) separam os trechos de concavidade.

11.4.1 Pontos de inflexão

Intuitivamente, um ponto de inflexão é um ponto do gráfico em que a concavidade muda. A definição seguinte torna essa condição precisa.

Definição 11.4
Seja \(f\) uma função contínua em  \(p\in D_f\) . Diremos que  \(p\)  é ponto de inflexão de \(f\) se existe \(\varepsilon \gt 0\) tal que \(f\) é estritamente côncava para baixo em \((p-\varepsilon ,p)\) e estritamente côncava para cima em \((p,p+\varepsilon )\), ou ocorre a situação inversa. Esses intervalos devem estar contidos no domínio. A exigência de uma mudança efetiva exclui os pontos de um trecho afim.

Figura 11.21 Os pontos assinalados são pontos de inflexão porque a concavidade muda ao atravessá-los.

Figura 11.21 Os pontos assinalados são pontos de inflexão porque a concavidade muda ao atravessá-los.

Teorema 11.30
Seja \(f:I\to \mathbb R\) contínua em \(a\), com \(b\lt a\lt c\) e \((b,c)\subset I\). Suponha que \(f\) seja duas vezes derivável em \((b,a)\) e \((a,c)\), com \(f''\gt 0\) em um desses intervalos e \(f''\lt 0\) no outro. Então \(a\) é um ponto de inflexão de \(f\).

Demonstração ▼

Pelo Teste da Concavidade, no intervalo em que \(f''\gt 0\) a função é estritamente côncava para cima, enquanto no intervalo em que \(f''\lt 0\) ela é estritamente côncava para baixo. Assim, a concavidade muda ao atravessarmos \(a\). Como \(f\) é contínua em \(a\), as condições da definição de ponto de inflexão estão satisfeitas. Portanto, \(a\) é um ponto de inflexão de \(f\).

Exemplo 11.31
Mostre que \(f(x)=x^n\) possui um ponto de inflexão na origem se \(n\geq 3\) for um inteiro ímpar.
Solução
Temos \(f''(x)=n(n-1)x^{n-2}\). Como \(n-2\) é ímpar, a derivada segunda é negativa para \(x\lt 0\) e positiva para \(x\gt 0\). A função é contínua em \(0\) e muda de concavidade nesse ponto; portanto, a origem é um ponto de inflexão.

Exemplo 11.32 (Ativação de canais iônicos)
Canais iônicos sensíveis à voltagem são proteínas que podem alternar entre estados fechado e aberto. Quando a membrana é mantida a um potencial \(V\), medido em milivolts, a fração de canais abertos após a estabilização pode ser aproximada pela curva de Boltzmann
\[ m_\infty (V)=\frac{1}{1+e^{-(V-V_{1/2})/k}},\qquad k\gt 0. \]
Em um experimento, metade dos canais está aberta a \(-40\, \mathrm{mV}\), e \(90\% \) deles estão abertos a \(-20\, \mathrm{mV}\). Determine \(V_{1/2}\) e \(k\). Em seguida, encontre os limites de \(m_\infty \) nos extremos, seu ponto de inflexão e a inclinação nesse ponto.

Solução

Como \(m_\infty (V_{1/2})=1/2\), a primeira observação fornece \(V_{1/2}=-40\, \mathrm{mV}\). Usando a segunda,

\[ 0{,}9=\frac{1}{1+e^{-20/k}} \quad \Longleftrightarrow \quad e^{-20/k}=\frac{1}{9}, \]

de modo que

\[ k=\frac{20}{\ln 9}\, \mathrm{mV}. \]

Os limites

\[ \lim _{V\to -\infty }m_\infty (V)=0, \qquad \lim _{V\to +\infty }m_\infty (V)=1 \]

descrevem a passagem entre uma população quase inteiramente fechada e uma quase inteiramente aberta. Escrevendo \(m=m_\infty (V)\), as derivadas assumem a forma

\[ m'=\frac{m(1-m)}{k}, \qquad m''=\frac{m(1-m)(1-2m)}{k^2}. \]

Como \(0\lt m\lt 1\), a derivada segunda muda de sinal quando \(m=1/2\), isto é, em \(V=V_{1/2}=-40\, \mathrm{mV}\). Esse é o ponto de inflexão e também o potencial de meia-ativação. Nele, a inclinação vale

\[ m_\infty '(V_{1/2})=\frac{1}{4k} =\frac{\ln 9}{80}\, \mathrm{mV}^{-1}. \]

Ilustração: Pontos de inflexão

Ilustração: Pontos de inflexão

11.4.2 Teste da segunda derivada para máximos e mínimos

A concavidade permite retomar a classificação dos pontos críticos: perto de uma tangente horizontal, a forma como o gráfico se encurva pode distinguir um máximo de um mínimo. Para uma função \(f:I\rightarrow \mathbb {R}\) duas vezes derivável, o sinal da derivada segunda fornece o critério seguinte.

Teorema 11.33
Seja \(f\) duas vezes derivável em um intervalo aberto que contém \(a\), com \(f'(a)=0\). Se \(f''(a)\gt 0\), então \(a\) é ponto de mínimo local; se \(f''(a)\lt 0\), então \(a\) é ponto de máximo local.

Demonstração ▼

Como \(f'(a)=0\),

\[ f''(a)=\lim _{x\to a}\frac{f'(x)}{x-a}. \]

Se esse limite é positivo, o quociente também é positivo suficientemente perto de \(a\). Logo, \(f'(x)\lt 0\) à esquerda e \(f'(x)\gt 0\) à direita, o que dá um mínimo pelo teste da primeira derivada. Se o limite é negativo, os sinais se invertem e obtemos um máximo.

Exemplo 11.34
Determine os pontos críticos e classifique-os, quando possível, como máximos ou mínimos locais:
  1. \(f(x)=\dfrac {x^4}{4}-x^3-2x^2+3\);

  2. \(f(x)=x^2e^{-5x}\).

Solução
a Temos \(f'(x) = x^3 - 3 x^2 - 4 x = x(x^2-3x-4).\) Portanto, \( x = -1,\, x=0 \) e \( x=4\) são os pontos críticos de \(f.\) Como \(f''(-1) = 5, \, f''(0) = -4 \) e \( f''(4) = 20 \), concluímos que \( 0 \) é ponto de máximo e \( -1 \) e \(4\) são pontos de mínimo. b Temos \(f'(x)=e^{-5x}x(2-5x)\) e \(f''(x)=e^{-5x}(25x^2-20x+2)\). Como \(f''(0)=2\gt 0\) e \(f''(2/5)=-2e^{-2}\lt 0\), \(x=0\) é ponto de mínimo local e \(x=2/5\) é ponto de máximo local.

Exemplo 11.35
Considere \(f(x)=(x-1)^3+1\). Analise seus pontos críticos.

Solução
Temos
\[ f'(x)=3(x-1)^2, \qquad f''(x)=6(x-1). \]
O único ponto crítico é \(x=1\). Como \(f'(1)=f''(1)=0\), o teste da derivada segunda é inconclusivo. Entretanto, \(f'(x)\gt 0\) para \(x\neq 1\), de modo que \(f\) é crescente em toda a reta e não possui máximos nem mínimos locais. Além disso, \(f''(x)\lt 0\) para \(x\lt 1\) e \(f''(x)\gt 0\) para \(x\gt 1\). Portanto, a concavidade muda em \(x=1\), e \((1,1)\) é um ponto de inflexão com tangente horizontal.

Exercício 11.33 (Repartir um recurso e ler uma corda)

Duas unidades idênticas recebem um recurso. Quando uma unidade recebe \(x\in [0,8]\), sua produção é modelada por

\[ R(x)=x-\frac{x^2}{16}. \]

Há \(8\) unidades do recurso para distribuir. No gráfico, \(A\) e \(B\) têm abscissas \(1\) e \(7\); \(M\) é o ponto médio da corda \(AB\), e \(P\) está no gráfico acima de \(x=4\).

  1. Sem derivar a produção total, compare as distribuições \((1,7)\) e \((4,4)\). Traduza a comparação entre as alturas de \(M\) e \(P\) em uma desigualdade entre as produções totais.

  2. Se a função de produção fosse estritamente côncava para cima em \([0,8]\), a mesma comparação entre a distribuição desigual \((1,7)\) e a equilibrada \((4,4)\) teria o mesmo sentido? Justifique pela posição da corda.

Ilustração: Teste da segunda derivada para máximos e mínimos

Ver solução
  1. Como \(R\) é estritamente côncava para baixo, \(R(4)\gt [R(1)+R(7)]/2\). Logo, \(2R(4)\gt R(1)+R(7)\): a distribuição \((4,4)\) produz mais. Aqui, os totais são \(6\) e \(39/8=4{,}875\), respectivamente.

  2. O sentido se inverte: a corda fica estritamente acima do gráfico no ponto médio, e \(R(1)+R(7)\gt 2R(4)\). Nessa comparação, a vantagem da distribuição equilibrada decorre da concavidade para baixo.

Exercício 11.34 (Percentual menor, acréscimos maiores)
Um indicador positivo é modelado por
\[ P(t)=e^{\sqrt{1+t}},\qquad t\geq 0, \]
com \(t\) em dias. Sua taxa relativa é \(r(t)=P'(t)/P(t)\). Para concentrar a análise na interpretação, pode-se usar
\[ P''(t)=\frac{P(t)\bigl(\sqrt{1+t}-1\bigr)}{4(1+t)^{3/2}}. \]
  1. Determine \(r(t)\) e verifique se essa taxa aumenta ou diminui.

  2. A taxa absoluta \(P'(t)\) varia no mesmo sentido? Compare a concavidade do gráfico de \(P\) com a do gráfico de \(\ln P\), para \(t\gt 0\), e explique por que a frase “o crescimento está desacelerando” é ambígua sem especificar a taxa.

Ver solução
  1. \(r(t)=1/(2\sqrt{1+t})\) e \(r'(t)=-1/[4(1+t)^{3/2}]\lt 0\). A taxa relativa diminui.

  2. Para \(t\gt 0\), \(P''(t)\gt 0\), portanto a taxa absoluta \(P'\) aumenta e o gráfico de \(P\) é estritamente côncavo para cima. Contudo, \((\ln P)''=r'\lt 0\), e o gráfico logarítmico é estritamente côncavo para baixo. A diminuição do percentual instantâneo é compatível com acréscimos absolutos cada vez maiores.

Exercício 11.35 (Inclinação e concavidade no mesmo gráfico)
A figura mostra o gráfico de \(f\) em \([0,2\pi ]\) e cinco de seus pontos.
Ilustração: Teste da segunda derivada para máximos e mínimos
  1. Complete uma tabela com o sinal (\(+\), \(-\) ou \(0\)) de \(f'\) e de \(f''\) nas abscissas de \(A\), \(B\), \(C\), \(D\) e \(E\).

  2. Em qual dos pontos indicados a inclinação da tangente é menor? Relacione a resposta com o ponto de inflexão.

  3. Sabendo que \(f(x)=x+2\operatorname {sen}x\), confirme as respostas.

Ver solução
  1. \(A\): \(f'\gt 0\), \(f''\lt 0\). \(B\): \(f'=0\), \(f''\lt 0\). \(C\): \(f'\lt 0\), \(f''=0\). \(D\): \(f'=0\), \(f''\gt 0\). \(E\): \(f'\gt 0\), \(f''\gt 0\).

  2. Em \(C\): a concavidade passa de para baixo a para cima, isto é, \(f'\) deixa de decrescer e passa a crescer. Neste ponto de inflexão, a derivada tem um mínimo local.

  3. \(f'(x)=1+2\cos x\) e \(f''(x)=-2\operatorname {sen}x\): \(B=(2\pi /3,\ldots )\) e \(D=(4\pi /3,\ldots )\) são os zeros de \(f'\), e \(C=(\pi ,\pi )\) é o zero de \(f''\), onde \(f'(\pi )=-1\) é o menor valor de \(f'\).

Exercício 11.36 (Ler uma função a partir do gráfico de sua derivada)
A figura mostra a derivada \(f'\) de uma função \(f:\mathbb {R}\to \mathbb {R}\), duas vezes derivável. Sem determinar uma fórmula para \(f\), responda aos itens seguintes.
Ilustração: Teste da segunda derivada para máximos e mínimos
  1. Determine os intervalos de crescimento e decrescimento de \(f\). Classifique os pontos críticos \(x=-2\) e \(x=1\).

  2. Em quais intervalos o gráfico de \(f\) é côncavo para cima ou para baixo? Determine as abscissas dos pontos de inflexão.

  3. Avalie a afirmação de que, como \(f'\) tem um máximo local em \(x=-1\), a função \(f\) também teria um máximo local nesse ponto. Explique a relação correta entre o extremo de \(f'\) e o comportamento de \(f\).

Ver solução
  1. A derivada é negativa em \((-\infty ,-2)\), positiva em \((-2,\infty )\), exceto em \(x=1\), onde se anula sem trocar de sinal. Portanto, \(f\) decresce em \((-\infty ,-2]\) e cresce em \([-2,\infty )\). Tem mínimo global em \(x=-2\); em \(x=1\), tem derivada zero, mas não um extremo local.

  2. A função \(f'\) cresce em \((-\infty ,-1)\), decresce em \((-1,1)\) e volta a crescer em \((1,\infty )\). Assim, \(f\) é côncava para cima em \((-\infty ,-1)\) e \((1,\infty )\), e côncava para baixo em \((-1,1)\). As inflexões têm abscissas \(-1\) e \(1\).

  3. A afirmação é falsa: \(f'(-1)=4\gt 0\), logo \(f\) está crescendo nesse ponto. O máximo local de \(f'\) corresponde à passagem de concavidade para cima a concavidade para baixo no gráfico de \(f\). Para conferir os cálculos, uma expressão compatível com o gráfico é

    \[ f'(x)=(x+2)(x-1)^2,\qquad f''(x)=3(x+1)(x-1). \]

Exercício 11.37
Esboce o gráfico de uma única função \(f\) que satisfaça simultaneamente as condições a seguir:
  1. Crescente, côncava para cima em \((0,1)\),

  2. crescente, côncava para baixo em \((1,2)\),

  3. decrescente, côncava para baixo em \((2,3)\) e

  4. crescente, côncava para baixo em \((3,4)\).

Ver solução
Um exemplo contínuo em \([0,4]\) é
\[ f(x)=\begin{cases} x^2,& 0\leq x\leq 1,\\ 2-(x-2)^2,& 1\lt x\leq 3,\\ 2-(x-4)^2,& 3\lt x\leq 4. \end{cases} \]
As derivadas são \(2x\), \(4-2x\) e \(8-2x\) nos três trechos. As derivadas segundas são, respectivamente, \(2\), \(-2\) e \(-2\). A mudança de decrescimento para crescimento em \(3\) produz um mínimo com quina, compatível com as condições do enunciado.
Figura não resolvida: figuras/gabarito-8-13
Exercício 11.38
Encontre os valores reais de \(c\) para os quais o gráfico de
\[ f(x)=x^4+2x^3+cx^2+2x+2 \]
seja côncavo para cima em toda a reta.
Ver solução
Como \(f''(x)=12x^2+12x+2c=12(x+1/2)^2+2c-3\), temos \(f''\geq 0\) em toda a reta se, e somente se, \(c\geq 3/2\). Esse é o conjunto pedido com a convenção não estrita de concavidade. Para \(c\lt 3/2\), a derivada segunda é negativa em uma vizinhança de \(-1/2\), excluindo a convexidade global.
Exercício 11.39
Mostre que a função \(f(x)=x\left\lvert x\right\rvert \) tem um ponto de inflexão em \((0,0)\) mas que \(f''(0)\) não existe.
Ver solução
Temos \(f(x)=-x^2\) para \(x\lt 0\) e \(f(x)=x^2\) para \(x\geq 0\). Logo, \(f''=-2\) à esquerda e \(f''=2\) à direita, e a continuidade na origem garante a inflexão. Além disso, \(f'(x)=2|x|\) em toda a reta; os limites laterais de \([f'(h)-f'(0)]/h\) são \(-2\) e \(2\). Portanto, \(f''(0)\) não existe.
Exercício 11.40
É possível que uma função seja crescente e côncava para cima em \( (0, \infty ) \) com assíntota horizontal \( y = 1 \)? Nesse caso, dê um esboço de tal função.
Ver solução
Não. Escolha \(0\lt a\lt b\). Como \(f\) é estritamente crescente, \(m=(f(b)-f(a))/(b-a)\gt 0\). Pela convexidade, para \(x\gt b\),
\[ \frac{f(x)-f(b)}{x-b}\geq m,\qquad f(x)\geq f(b)+m(x-b). \]
O lado direito tende a \(+\infty \), o que impede uma assíntota horizontal.
Exercício 11.41
É possível que uma função seja crescente e côncava para baixo em \( (0, \infty ) \) com assíntota horizontal \( y = 1 \)? Nesse caso, dê um esboço de tal função.
Ver solução
Sim. A função \(f(x)=1-e^{-x}\) satisfaz \(f'\gt 0\), \(f''\lt 0\) em \((0,\infty )\) e \(\lim _{x\to \infty }f(x)=1\).
Figura não resolvida: figuras/gabarito-8-17

Exercício 11.42 (Uma função periódica pode ser sempre convexa?)
Seja \(F:\mathbb {R}\to \mathbb {R}\) uma função não constante, duas vezes continuamente derivável, e suponha que exista \(T\gt 0\) tal que
\[ F(x+T)=F(x)\qquad (x\in \mathbb {R}). \]
  1. É possível que \(F''(x)\ge 0\) para todo \(x\)? E que \(F''(x)\le 0\) para todo \(x\)? Justifique sem escolher uma fórmula para \(F\).

  2. Mostre que, em todo intervalo fechado de comprimento \(T\), a segunda derivada assume pelo menos um valor positivo e pelo menos um valor negativo.

Ver solução
  1. A periodicidade dá, por derivação, \(F'(x+T)=F'(x)\). Se \(F''\ge 0\) em toda a reta, \(F'\) é não decrescente. Para \(x\le y\le x+T\),

    \[ F'(x)\le F'(y)\le F'(x+T)=F'(x). \]

    Assim, \(F'\) seria constante em cada intervalo de comprimento \(T\), logo em toda a reta. Pelo Teorema do Valor Médio, \(F(x)=mx+b\); a periodicidade implica \(mT=0\), isto é, \(m=0\), contra a hipótese de que \(F\) não é constante. O caso \(F''\le 0\) é análogo.

  2. Derivando duas vezes a identidade, obtemos \(F''(x+T)=F''(x)\). Se em algum intervalo \([a,a+T]\) não houvesse valores negativos, a periodicidade implicaria \(F''\ge 0\) em toda a reta, contradizendo a). O mesmo raciocínio mostra que devem existir valores positivos.

Exercício 11.43
Nas próximas questões, determine os pontos de inflexão e os intervalos nos quais as funções são côncavas para cima e para baixo:
  1. \(\displaystyle f(x) = x^2-2x+1\)

  2. \(\displaystyle f(x) = -x^2-5x+7\)

  3. \(\displaystyle f(x) = x^3-x+1\)

  4. \(\displaystyle f(x) = 2x^3-3x^2+9x+5\)

  5. \(\displaystyle f(x) = \frac{x^4}{4}+\frac{x^3}{3}-2 x+3\)

  6. \(\displaystyle f(x) = -3 x^4+8 x^3+6 x^2-24 x+2\)

  7. \(\displaystyle f(x) = x^4-4x^3+6x^2-4x+1\)

  8. \(\displaystyle f(x) = \frac{1}{x^2+1}\)

  9. \(\displaystyle f(x) = \frac{x}{x^2-1}\)

  10. \(\displaystyle f(x) = \operatorname {sen}x + \cos x\) em \((-\pi ,\pi )\)

  11. \(\displaystyle f(x) = x^2e^x\)

  12. \(\displaystyle f(x) = x^2\ln x\)

  13. \(\displaystyle f(x) = e^{-x^2}\)

Ver solução
A seguir, \(C_\uparrow \) indica intervalos de concavidade para cima e \(C_\downarrow \), para baixo. Cada intervalo é considerado separadamente; os extremos finitos podem ser incluídos quando pertencem ao domínio. Indicamos os pontos de inflexão por suas duas coordenadas.
  1. \(f''=2\). \(C_\uparrow :\mathbb R\); sem inflexões.

  2. \(f''=-2\). \(C_\downarrow :\mathbb R\); sem inflexões.

  3. \(f''=6x\). \(C_\downarrow :(-\infty ,0)\); \(C_\uparrow :(0,\infty )\); inflexão \((0,1)\).

  4. \(f''=12x-6\). \(C_\downarrow :(-\infty ,1/2)\); \(C_\uparrow :(1/2,\infty )\); inflexão \((1/2,9)\).

  5. \(f''=x(3x+2)\). \(C_\uparrow :(-\infty ,-2/3)\) e \((0,\infty )\); \(C_\downarrow :(-2/3,0)\). Inflexões \((-2/3,347/81)\) e \((0,3)\).

  6. Ponha \(r_\pm =(2\pm \sqrt7)/3\). Como \(f''=-12(3x^2-4x-1)\), \(C_\uparrow :(r_-,r_+)\) e \(C_\downarrow :(-\infty ,r_-)\) e \((r_+,\infty )\). Inflexões \((r_-,(-13+80\sqrt7)/27)\) e \((r_+,(-13-80\sqrt7)/27)\).

  7. \(f''=12(x-1)^2\geq 0\). \(C_\uparrow :\mathbb R\); não há inflexão em \(1\), pois a concavidade não muda.

  8. \(f''=2(3x^2-1)/(x^2+1)^3\). Com \(r=1/\sqrt3\), \(C_\uparrow :(-\infty ,-r)\) e \((r,\infty )\); \(C_\downarrow :(-r,r)\). Inflexões \((\pm r,3/4)\).

  9. \(f''=2x(x^2+3)/(x^2-1)^3\). \(C_\uparrow :(-1,0)\) e \((1,\infty )\); \(C_\downarrow :(-\infty ,-1)\) e \((0,1)\). A única inflexão é \((0,0)\); \(\pm 1\) não pertencem ao domínio.

  10. \(f''=-\operatorname {sen}x-\cos x\). \(C_\uparrow :(-\pi ,-\pi /4)\) e \((3\pi /4,\pi )\); \(C_\downarrow :(-\pi /4,3\pi /4)\). Inflexões \((-\pi /4,0)\) e \((3\pi /4,0)\).

  11. \(f''=e^x(x^2+4x+2)\). Com \(r_\pm =-2\pm \sqrt2\), \(C_\uparrow :(-\infty ,r_-)\) e \((r_+,\infty )\); \(C_\downarrow :(r_-,r_+)\). Inflexões \((r_\pm ,r_\pm ^2e^{r_\pm })\).

  12. Domínio \((0,\infty )\) e \(f''=2\ln x+3\). \(C_\downarrow :(0,e^{-3/2})\); \(C_\uparrow :(e^{-3/2},\infty )\). Inflexão \((e^{-3/2},-3/(2e^3))\).

  13. \(f''=(4x^2-2)e^{-x^2}\). Com \(r=1/\sqrt2\), \(C_\uparrow :(-\infty ,-r)\) e \((r,\infty )\); \(C_\downarrow :(-r,r)\). Inflexões \((\pm r,e^{-1/2})\).

Exercício 11.44
Retome as treze funções do Exercício 11.43. Para cada uma, determine os pontos críticos e utilize o Teste da Segunda Derivada, quando possível, para classificar seus extremos relativos.
Ver solução
As derivadas segundas são as calculadas no exercício anterior.
  1. \(f'=2(x-1)\). Mínimo em \(1\), de valor \(0\), pois \(f''(1)=2\).

  2. \(f'=-2x-5\). Máximo em \(-5/2\), de valor \(53/4\), pois \(f''=-2\).

  3. \(f'=3x^2-1\). Máximo local em \(-1/\sqrt3\), de valor \(1+2/(3\sqrt3)\); mínimo local em \(1/\sqrt3\), de valor \(1-2/(3\sqrt3)\).

  4. \(f'=6x^2-6x+9=6(x-1/2)^2+15/2\gt 0\). Não há pontos críticos nem extremos relativos.

  5. \(f'=(x-1)(x^2+2x+2)\). Único crítico \(1\), mínimo de valor \(19/12\), pois \(f''(1)=5\).

  6. \(f'=-12(x+1)(x-1)(x-2)\). Máximos locais em \(-1\) e \(2\), de valores \(21\) e \(-6\), pois \(f''(-1)=-72\) e \(f''(2)=-36\). Mínimo local em \(1\), de valor \(-11\), pois \(f''(1)=24\).

  7. \(f'=4(x-1)^3\). O teste da segunda derivada é inconclusivo em \(1\), mas \(f=(x-1)^4\geq 0\) mostra que esse ponto é mínimo, de valor \(0\).

  8. \(f'=-2x/(x^2+1)^2\). Máximo em \(0\), de valor \(1\), pois \(f''(0)=-2\).

  9. \(f'=-(x^2+1)/(x^2-1)^2\lt 0\) em seu domínio. Não há pontos críticos.

  10. \(f'=\cos x-\operatorname {sen}x\). Máximo em \(\pi /4\), de valor \(\sqrt2\), e mínimo em \(-3\pi /4\), de valor \(-\sqrt2\).

  11. \(f'=e^xx(x+2)\). Máximo local em \(-2\), de valor \(4/e^2\), pois \(f''(-2)=-2/e^2\); mínimo em \(0\), de valor \(0\), pois \(f''(0)=2\).

  12. \(f'=x(2\ln x+1)\). Único crítico \(e^{-1/2}\), mínimo de valor \(-1/(2e)\), pois a derivada segunda vale \(2\) nesse ponto.

  13. \(f'=-2xe^{-x^2}\). Máximo em \(0\), de valor \(1\), pois \(f''(0)=-2\).

Exercício 11.45
Duas funções sigmoidais podem atribuir significados distintos ao ponto de meia-resposta. Para \(x\geq 0\), considere a equação de Hill
\[ H(x)=\frac{x^2}{K^2+x^2},\qquad K\gt 0. \]
  1. Verifique que \(H(K)=1/2\).

  2. Mostre que

    \[ H''(x)=\frac{2K^2(K^2-3x^2)}{(K^2+x^2)^3} \]

    e determine o ponto de inflexão.

  3. Compare esse resultado com a curva de Boltzmann do exemplo anterior: em qual dos dois modelos a meia-resposta coincide com a inflexão?

Ver solução
  1. A substituição direta fornece \(H(K)=K^2/(2K^2)=1/2\).

  2. Como o denominador é positivo, \(H''\) muda de sinal em \(x=K/\sqrt3\). O ponto de inflexão é

    \[ \left(\frac{K}{\sqrt3},\frac14\right). \]
  3. Na curva de Boltzmann, meia-ativação e inflexão coincidem. Para esta equação de Hill, a meia-resposta ocorre em \(x=K\), depois do ponto de inflexão.

11.5 Regra de L’Hôpital

Até aqui, usamos derivadas para estudar extremos, monotonicidade e concavidade. Elas também permitem calcular certos limites indeterminados. Por exemplo, como calcular o limite de um quociente quando numerador e denominador tendem ambos a zero? A regra de L’Hôpital relaciona esse limite ao limite do quociente das derivadas, sob hipóteses adequadas. Sua forma básica trata limites do tipo

\[ \displaystyle \lim \limits _{x\to a} \dfrac {f(x)}{g(x)}, \]

quando \(\displaystyle \lim \limits _{x\to a} f(x) = \displaystyle \lim \limits _{x\to a} g(x) = 0\).

Teorema 11.36 (Regra de L’Hôpital)
Sejam \(a\lt b\) reais e \(f,g:(a,b)\to \mathbb R\) funções deriváveis tais que
\[ \lim _{x\to a^+}f(x)=\lim _{x\to a^+}g(x)=0. \]
Suponha que \(g'(x)\neq 0\) para todo \(x\in (a,b)\) e que
\[ \lim _{x\to a^+}\frac{f'(x)}{g'(x)}=L, \qquad L\in \mathbb R\cup \{ -\infty ,+\infty \} . \]
Então \(g(x)\neq 0\) em \((a,b)\) e
\[ \lim _{x\to a^+}\frac{f(x)}{g(x)}=L. \]

Demonstração ▼

As funções não precisam estar definidas em \(a\). Como seus limites pela direita são zero, podemos estendê-las continuamente a esse ponto, definindo \(\widetilde f(a)=\widetilde g(a)=0\) e mantendo seus valores em \((a,b)\). As extensões são contínuas em \([a,x]\) e deriváveis em \((a,x)\) para cada \(x\in (a,b)\).

Se \(g(x)=0\), o Teorema de Rolle aplicado a \(\widetilde g\) em \([a,x]\) produziria um ponto onde \(g'=0\), contrariando a hipótese. Logo, \(g(x)\neq 0\). O Teorema do Valor Médio de Cauchy, aplicado às duas extensões em \([a,x]\), fornece \(\xi _x\in (a,x)\) tal que

\[ \frac{f(x)}{g(x)} =\frac{\widetilde f(x)-\widetilde f(a)}{\widetilde g(x)-\widetilde g(a)} =\frac{f'(\xi _x)}{g'(\xi _x)}. \]

Como \(a\lt \xi _x\lt x\), temos \(\xi _x\to a^+\) quando \(x\to a^+\). A hipótese sobre o limite do quociente das derivadas dá a conclusão, tanto para \(L\) finito quanto para \(L=\pm \infty \).

Observação 11.37 (Outras versões da forma \(0/0\))
O resultado vale também para limites pela esquerda e para \(x\to \pm \infty \), sempre com diferenciabilidade no intervalo lateral ou na semirreta em questão e \(g'\neq 0\) ali. No caso bilateral, as hipóteses devem valer de ambos os lados e os limites obtidos devem coincidir. Essas versões seguem da anterior por uma mudança de variável: uma reflexão trata o limite pela esquerda; \(x=1/t\) ou \(x=-1/t\), com \(t\to 0^+\), trata os limites no infinito. Pela regra da cadeia, os fatores da mudança de variável se cancelam no quociente das derivadas.

Teorema 11.38 (Regra de L’Hôpital: forma \(\infty /\infty \))
Considere um limite quando \(x\) tende a um extremo \(c\), que pode ser um ponto real abordado por um dos lados ou \(\pm \infty \). Suponha que \(f\) e \(g\) sejam deriváveis no intervalo lateral ou na semirreta correspondente, que \(g'(x)\neq 0\) ali e que
\[ |g(x)|\to \infty , \qquad \frac{f'(x)}{g'(x)}\to L, \]
com \(L\in \mathbb {R}\cup \{ -\infty ,+\infty \} \). Então
\[ \frac{f(x)}{g(x)}\to L. \]
Em particular, o resultado se aplica às formas \(\infty /\infty \), com quaisquer combinações de sinais.

Demonstração ▼

Fixe um ponto \(c_0\) suficientemente próximo do extremo considerado. Para \(x\) ainda mais próximo desse extremo, o Teorema do Valor Médio de Cauchy fornece um ponto \(\xi \) entre \(c_0\) e \(x\) tal que

\[ \frac{f(x)-f(c_0)}{g(x)-g(c_0)} = \frac{f'(\xi )}{g'(\xi )}. \]

O denominador à esquerda não é zero: caso contrário, o Teorema de Rolle aplicado a \(g\) produziria um ponto onde \(g'=0\). Usaremos a identidade

\[ \frac{f(x)}{g(x)} = \frac{f(x)-f(c_0)}{g(x)-g(c_0)} \left(1-\frac{g(c_0)}{g(x)}\right) + \frac{f(c_0)}{g(x)}. \]

Mantendo \(c_0\) fixo, a hipótese \(|g(x)|\to \infty \) dá \(g(c_0)/g(x)\to 0\) e \(f(c_0)/g(x)\to 0\).

Se \(L\) é finito, dado \(\varepsilon \gt 0\), escolhemos primeiro \(c_0\) de modo que \(|f'/g'-L|\lt \varepsilon /4\) em todo o intervalo restante. Depois tomamos \(x\) suficientemente próximo do extremo para que

\[ \left|1-\frac{g(c_0)}{g(x)}\right|\lt 2 \quad \text{e}\quad \left|\frac{L g(c_0)}{g(x)}\right|+ \left|\frac{f(c_0)}{g(x)}\right|\lt \frac\varepsilon 2. \]

Subtraindo \(L\) na identidade anterior e usando a igualdade obtida pelo Teorema do Valor Médio de Cauchy, concluímos que \(|f(x)/g(x)-L|\lt \varepsilon \).

Se \(L=+\infty \), dado \(M\gt 0\), escolhemos \(c_0\) de modo que \(f'/g'\gt 2(M+1)\) em todo o intervalo restante. Tomando \(x\) suficientemente próximo do extremo, temos \(1-g(c_0)/g(x)\gt 1/2\) e \(|f(c_0)/g(x)|\lt 1\). A mesma identidade fornece \(f(x)/g(x)\gt M\). O caso \(L=-\infty \) segue aplicando esse argumento a \(-f\).

Aplicando a Regra de L’Hôpital
  1. Identifique uma forma \(0/0\) ou um denominador cujo módulo tende a infinito; verifique a diferenciabilidade e a condição \(g'\neq 0\) no intervalo relevante.

  2. Derive separadamente o numerador \(f\) e o denominador \(g\).

  3. Calcule o limite de \(f'/g'\). Se ele existir, finito ou infinito, a regra garante o mesmo limite para \(f/g\). Se ele não existir, a regra não decide o limite original.

Exemplo 11.39
Calcule \(\displaystyle \lim _{x\to 0} \dfrac {1-e^{2x}}{x}\).

Solução
Como o numerador e o denominador tendem a \(0\), as funções são deriváveis perto de \(0\) e a derivada do denominador é \(1\neq 0\), podemos aplicar a regra de L’Hôpital:
\[ \lim _{x\to 0} \dfrac {1-e^{2x}}{x}= \lim _{x\to 0} \dfrac {(1-e^{2x})’}{x’} = \lim _{x\to 0} \dfrac {-2e^{2x}}{1} = -2. \]

Exemplo 11.40
Calcule \(\displaystyle \lim _{x\to 0}\dfrac {\operatorname {sen}x}{x}\).

Solução
Como \(\operatorname {sen}x\) e \(x\) tendem a \(0\) e são deriváveis perto de \(0\), com derivada do denominador igual a \(1\neq 0\), a regra de L’Hôpital fornece
\[ \lim _{x\to 0} \dfrac {\operatorname {sen}x}{x}= \lim _{x\to 0} \dfrac {(\operatorname {sen}x)’}{x’} = \lim _{x\to 0} \dfrac {\cos x}{1} =1. \]
Este cálculo ilustra a regra, mas não substitui a demonstração original do limite fundamental: esse limite já foi usado para obter a derivada do seno.

Exemplo 11.41
Calcule \(\displaystyle \lim _{x \rightarrow 0} \dfrac {x^2 + 2x}{\operatorname {sen}\left(x\right)}\) se existir.

Solução
Observe que \(\displaystyle \lim _{x \rightarrow 0} (x^2+ 2x) = \displaystyle \lim _{x \rightarrow 0} \operatorname {sen}x = 0\) e que as funções envolvidas são deriváveis em toda parte. Logo, podemos aplicar a regra de L’Hôpital.
\[ \displaystyle \lim _{x \rightarrow 0} \dfrac {x^2+ 2x}{\operatorname {sen}\left(x\right)} = \displaystyle \lim _{x \rightarrow 0} \dfrac {2 x + 2}{\cos \left(x\right)} = 2. \]

Exemplo 11.42
Calcule o limite
\[ \lim _{x\to 0}\frac{e^x-1-x}{x^2}. \]
Solução

Quando \(x\to 0\), tanto o numerador quanto o denominador tendem a zero. Temos, portanto, uma indeterminação do tipo \(0/0\).

As funções envolvidas são deriváveis e a derivada do denominador, \(2x\), não se anula para \(x\neq 0\). Podemos, assim, aplicar a regra de L’Hôpital:

\[ \lim _{x\to 0}\frac{e^x-1-x}{x^2} =\lim _{x\to 0}\frac{e^x-1}{2x}. \]

O novo quociente ainda apresenta uma indeterminação do tipo \(0/0\). Como as funções continuam deriváveis e a derivada do novo denominador é \(2\neq 0\), podemos aplicar novamente a regra:

\[ \lim _{x\to 0}\frac{e^x-1}{2x} =\lim _{x\to 0}\frac{e^x}{2} =\frac12. \]

Concluímos que

\[ \lim _{x\to 0}\frac{e^x-1-x}{x^2}=\frac12. \]

A primeira aplicação não eliminou a indeterminação, mas produziu um novo quociente ao qual a regra também se aplica. Esse procedimento pode ser repetido, desde que suas hipóteses sejam verificadas a cada passo.

Exemplo 11.43
Calcule \(\displaystyle \lim _{x \rightarrow \infty } \dfrac {1 - \cos \left(\dfrac {1}{x}\right)}{\operatorname {sen}\left(\dfrac {1}{x}\right)}\) se existir.

Figura não resolvida: ./figuras/indeterminacaoz.tex

Figura 11.22 O quociente \(\dfrac {1-\cos (1/x)}{\operatorname {sen}(1/x)}\) tende a \(0\) quando \(x\to +\infty \).

Solução
Observe que \(1 - \cos \left(\dfrac {1}{x}\right)\) e \(\operatorname {sen}\left(\dfrac {1}{x}\right)\) são deriváveis para todo \(x \gt 0\) e que ambas as funções convergem para \(0\) quando \(x\rightarrow \infty \). Logo, temos que
\begin{align*} \displaystyle \lim _{x \rightarrow \infty } \dfrac {1 - \cos \left(\dfrac {1}{x}\right)}{\operatorname {sen}\left(\dfrac {1}{x}\right)} & = \displaystyle \lim _{x \rightarrow \infty } \dfrac {-x^{-2}\operatorname {sen}\left(\dfrac 1x\right)}{-x^{-2}\cos \left(\dfrac 1x\right)} \nonumber \\ & = \displaystyle \lim _{x \rightarrow \infty } \dfrac {\operatorname {sen}\left(\dfrac {1}{x}\right)}{\cos \left(\dfrac {1}{x}\right)} \nonumber \\ & = \dfrac {\operatorname {sen}\left(0\right)}{\cos \left(0\right)} \nonumber \\ & = 0. \nonumber \end{align*}

Exemplo 11.44
Calcule \(\displaystyle \lim _{x\to +\infty }\dfrac {2x+\cos x}{x}\).
Solução

Como o numerador e o denominador tendem a \(+\infty \), temos uma indeterminação do tipo \(\infty /\infty \). A regra de L’Hôpital parece uma possibilidade, mas o quociente das derivadas é

\[ \frac{(2x+\cos x)'}{x'}=2-\operatorname {sen}x, \]

que não possui limite quando \(x\to +\infty \). Assim, essa aplicação da regra não fornece uma conclusão.

A expressão original, porém, pode ser reescrita como

\[ \frac{2x+\cos x}{x}=2+\frac{\cos x}{x}. \]

Para \(x\gt 0\),

\[ -\frac1x\leq \frac{\cos x}{x}\leq \frac1x. \]

Pelo Teorema do Confronto,

\[ \boxed {\lim _{x\to +\infty }\frac{2x+\cos x}{x}=2.} \]

A regra de L’Hôpital fornece uma condição suficiente para a existência do limite, não uma condição necessária. A mesma distinção será explorada no exercício conceitual que segue.

11.5.1 Diferenças e produtos indeterminados

Como calcular limites em que aparece um produto do tipo \(0\cdot \infty \) ou uma diferença do tipo \(\infty -\infty \)? Precisamos reescrever a expressão de modo que a indeterminação possa ser analisada, em particular por um quociente ao qual a regra de L’Hôpital se aplique.

No caso de produtos indeterminados utilizamos que \(fg=f/(1/g)\), quando \(g\neq 0\), para transformar o produto em quociente. Essa estratégia é ilustrada nos exemplos a seguir.

Exemplo 11.45
Calcule \(\displaystyle \lim \limits _{x\to 0^+}x\ln x\).

Figura não resolvida: ./figuras/indeterminacaoxlnx.tex

Figura 11.23 Gráfico de \(x\ln x\) para \(x\gt 0\).

Solução
\[ \lim \limits _{x\to 0^+}x\ln x= \lim \limits _{x\to 0^+}\dfrac {\ln x}{1/x}. \]
Utilizando L’Hôpital, temos
\begin{align*} \lim \limits _{x\to 0^+}\dfrac {\ln x}{1/x}& = \lim \limits _{x\to 0^+}\dfrac {1/x}{-1/x^2} \\ & = \lim \limits _{x\to 0^+}\dfrac {-x^2}{x} \\ & = \lim \limits _{x\to 0^+} -x=0 \end{align*}

Exemplo 11.46
Calcule \(\displaystyle \lim \limits _{x\to -\infty }xe^x\).

Figura não resolvida: ./figuras/indeterminacaoxex.tex

Figura 11.24 Gráfico de \(xe^x\).

Solução
\[ \lim \limits _{x\to -\infty }x e^x= \lim \limits _{x\to -\infty }\dfrac {x}{e^{-x}} \]
Utilizando L’Hôpital, temos
\[ \lim \limits _{x\to -\infty }\dfrac {x}{e^{-x}}= \lim \limits _{x\to -\infty }\dfrac {1}{-e^{-x}}=0 \]
Nas diferenças do tipo \(\infty -\infty \), uma simplificação algébrica pode transformar a expressão em um quociente ou em um produto:

Exemplo 11.47
Calcule
\[ \lim \limits _{x\to 0^+} \left(\dfrac {1}{x^2}-\dfrac {1}{\operatorname {sen}x} \right) \]

Figura não resolvida: ./figuras/primeiraindeterminacao.tex

Figura 11.25 Comparação de \(1/x^2\) e \(1/\operatorname {sen}x\) para \(x\gt 0\): perto de \(0\), o primeiro cresce mais rapidamente.

Solução
\[ \lim \limits _{x\to 0^+} \dfrac {1}{x^2}\left(1-\dfrac {x^2}{\operatorname {sen}x} \right) \]
e
\[ \lim \limits _{x\to 0^+}\frac{x^2}{\operatorname {sen}x}=\lim \limits _{x\to 0^+}x\frac{x}{\operatorname {sen}x}=0. \]
Assim, o fator entre parênteses tende a \(1\), enquanto \(1/x^2\to +\infty \). Portanto, o limite da diferença é \(+\infty \).

Exemplo 11.48
Calcule
\[ \lim \limits _{x\to \infty } x \operatorname {sen}\dfrac {1}{x} \]

Figura não resolvida: ./figuras/sin1sobrex.tex

Figura 11.26 Gráfico de \(x\operatorname {sen}(1/x)\).

Solução
\begin{align*} \lim \limits _{x\to \infty } x \operatorname {sen}\dfrac {1}{x} & = \lim \limits _{x\to \infty } \dfrac {\operatorname {sen}\dfrac {1}{x}}{1/x} \\ & = \lim \limits _{x\to \infty } \dfrac {-x^{-2}\cos \dfrac {1}{x}}{-x^{-2}} \\ & = \lim \limits _{x\to \infty } \cos \dfrac {1}{x} \\ & = \cos {\left(\lim \limits _{x\to \infty } \dfrac {1}{x} \right)} \\ & = 1. \end{align*}

11.5.2 Potências indeterminadas

Para estudar as formas indeterminadas \(0^0\), \(1^\infty \) e \(\infty ^0\), costuma ser útil aplicar o logaritmo natural: se \(f(x)\gt 0\) nas proximidades consideradas e \(\displaystyle \lim _{x\to c}\ln \big(f(x)\big)=L\), então \(\displaystyle \lim _{x\to c} f(x) = \lim _{x\to c} e^{\ln (f(x))} = e^L.\)

Exemplo 11.49
Retome o Segundo Limite Fundamental e calcule \(\displaystyle \lim _{x\to \infty }(1+1/x)^x\) usando a regra de L’Hôpital.

Figura não resolvida: ./figuras/limfundamental.tex

Figura 11.27 Convergência de \((1+1/x)^x\) para \(e\).

Solução
Temos uma forma indeterminada do tipo \(1^\infty \). Seja \(f(x) = (1+1/x)^x\). Dessa forma, queremos calcular \(\displaystyle \lim _{x\to \infty }f(x)\). Começaremos calculando \(\displaystyle \lim _{x\to \infty }\ln \big(f(x)\big)\).
\begin{align*} \lim _{x\to \infty }\ln \big(f(x)\big) & = \lim _{x\to \infty } \ln \left(1+\dfrac 1x\right)^x \\ & = \lim _{x\to \infty } x\ln \left(1+\dfrac 1x\right) \\ & = \lim _{x\to \infty } \dfrac {\ln \left(1+\dfrac 1x\right)}{1/x} \\ \text{O quociente apresenta a forma indeterminada $0/0$. Aplicando a regra de L'Hôpital, obtemos:} & = \lim _{x\to \infty } \dfrac {\dfrac {1}{1+1/x}\cdot (-1/x^2)}{(-1/x^2)} \\ & = \lim _{x\to \infty }\dfrac {1}{1+1/x} \\ & = 1. \end{align*}
Logo, \(\displaystyle \lim _{x\to \infty } \ln \big(f(x)\big) = 1.\) Voltando ao limite original, \(\lim _{x\to \infty }\left(1+\dfrac 1x\right)^x = \lim _{x\to \infty } f(x) = \lim _{x\to \infty }e^{\ln (f(x))} = e^1 = e.\) Como no caso de \(\operatorname {sen}x/x\), este cálculo é uma releitura do limite fundamental por meio da regra de L’Hôpital, e não uma demonstração independente: esse mesmo limite foi usado anteriormente na obtenção da derivada do logaritmo.

Exemplo 11.50
Calcule \(\displaystyle \lim _{x\to 0^+}x^x\), transformando a potência por meio do logaritmo.

Figura não resolvida: ./figuras/xelevadoax.tex

Figura 11.28 Comportamento de \(x^x\) quando \(x\to 0^+\).

Solução
Temos uma forma indeterminada do tipo \(0^0\). Seja \(f(x) = x^x\). Começaremos calculando \(\displaystyle \lim _{x\to 0^+} \ln \big(f(x)\big)\).
\begin{align*} \lim _{x\to 0^+} \ln \big(f(x)\big) & = \lim _{x\to 0^+} \ln \left(x^x\right) \\ & = \lim _{x\to 0^+} x\ln x \\ & = \lim _{x\to 0^+} \dfrac {\ln x}{1/x}. \\ \text{Como temos uma forma indeterminada do tipo $-\infty /\infty $, aplicamos a regra de L'Hôpital:} & = \lim _{x\to 0^+} \dfrac {1/x}{-1/x^2} \\ & = \lim _{x\to 0^+} -x \\ & = 0. \end{align*}
Logo, \(\displaystyle \lim _{x\to 0^+} \ln \big(f(x)\big) =0\). Voltando ao limite original,
\[ \lim _{x\to 0^+} x^x = \lim _{x\to 0^+} f(x) = \lim _{x\to 0^+} e^{\ln (f(x))} = e^0 = 1. \]

Exercício 11.46 (O teste não decide, mas o limite existe)

Para \(x\geq 1\), considere

\[ F(x)=\frac{x+\operatorname {sen}x}{x},\qquad D(x)=\frac{(x+\operatorname {sen}x)'}{x'}=1+\cos x. \]

Os painéis mostram o quociente original e o quociente das derivadas.

  1. Determine \(\lim _{x\to \infty }F(x)\) sem usar L’Hôpital. Uma estimativa para \(|F(x)-1|\) é suficiente.

  2. O quociente \(D(x)\) tem limite? Explique por que a resposta não contradiz o item anterior e identifique o que uma aplicação direta da regra de L’Hôpital deixa de fornecer aqui.

Ilustração: Potências indeterminadas

Ver solução
  1. Como \(|F(x)-1|=|\operatorname {sen}x|/x\leq 1/x\to 0\), o limite é \(1\).

  2. Não: \(D(2\pi n)=2\) e \(D((2n+1)\pi )=0\). A existência de um limite para o quociente das derivadas é uma hipótese suficiente para concluir pela regra, não uma condição necessária para a existência do limite original. Aqui, numerador e denominador tendem a \(+\infty \) e o denominador tem derivada não nula; é o limite de \(D\) que não existe, tornando essa aplicação inconclusiva.

Exercício 11.47 (O que os primeiros valores não revelam)
Ordene as funções da que cresce mais lentamente para a que cresce mais rapidamente quando \(x\to +\infty \). Justifique duas das comparações pela regra de L’Hôpital:
\[ x^2,\qquad \ln x,\qquad e^x,\qquad x^{0{,}1},\qquad (\ln x)^{10},\qquad x^x. \]
Calcule \((\ln x)^{10}\) e \(x^{0{,}1}\) para \(x=10^6\). Isso contradiz a ordenação?
Ver solução
Escrevemos \(f\ll g\) quando \(f(x)/g(x)\to 0\) para \(x\to +\infty \): a função \(g\) cresce mais rapidamente que \(f\). Com essa convenção,
\[ \ln x\ll (\ln x)^{10}\ll x^{0{,}1}\ll x^2\ll e^x\ll x^x. \]
Por exemplo, \(\lim \dfrac {\ln x}{x^{0{,}01}}=\lim \dfrac {1/x}{0{,}01x^{-0{,}99}}=\lim \dfrac {100}{x^{0{,}01}}=0\), e elevando à décima potência, \((\ln x)^{10}/x^{0{,}1}\to 0\). Também \(\lim x^2/e^x=\lim 2/e^x=0\) (L’Hôpital duas vezes), e \(x^x/e^x=(x/e)^x\to +\infty \). Para \(x=10^6\), \((\ln x)^{10}\approx 2{,}5\cdot 10^{11}\) e \(x^{0{,}1}\approx 3{,}98\). Não há contradição: a ordenação descreve o comportamento para \(x\) suficientemente grande, e a ultrapassagem pode ocorrer muito longe.

Exercício 11.48
Calcule os seguintes limites usando L’Hôpital, quando possível.
  1. \(\lim \limits _{x\to -1}\dfrac {4x^3+x^2+3}{x^5+1}\)

  2. \(\lim \limits _{x\to 1}\dfrac {x^{100}-x^2+x-1}{x^{12}-3}\)

  3. \(\lim \limits _{x\to 0^+}xe^{\frac{1}{x}}\)

  4. \(\lim \limits _{x\to \infty } \dfrac {e^x}{x^5}\)

  5. \(\lim \limits _{x\to \infty }\dfrac {e^x}{x^n}\), com \(n\geq 1\) inteiro.

  6. \(\lim \limits _{x\to \pi /2}\dfrac {\operatorname {tg}{x}}{\operatorname {tg}{5x}}\)

  7. \(\lim \limits _{x\to \infty } x\operatorname {sen}{\dfrac {a}{x}}\)

  8. \(\lim \limits _{x\to 1^+}\ln (x)\ln (x-1)\)

  9. \(\lim \limits _{x\to \infty } x^{1/x}\)

  10. \(\lim \limits _{x\to 0^+} x^{\operatorname {sen}(x)}\)

  11. \(\lim \limits _{x\to 0} \dfrac {\sec ^3(x)}{1-\cos (x)}\)

  12. \(\lim \limits _{x\to \infty } \left(\dfrac {x}{x^2+1}\right)^x\)

  13. \(\lim \limits _{x\to \infty } x^3e^{-4x}\)

  14. \( \lim \limits _{x\to 0^+}x^2\ln x\)

  15. \(\lim \limits _{x\to 0^+} \left(\dfrac 1x-\dfrac 1{\operatorname {tg}x}\right)\)

Ver solução
  1. \(2\).

  2. \(0\).

  3. \(\infty \).

  4. \(\infty \).

  5. \(\infty \).

  6. \(5\).

  7. \(a\).

  8. \(0\).

  9. \(1\).

  10. \(1\).

  11. \(\infty \).

  12. \(0\).

  13. \(0\).

  14. \(0\).

  15. \(0\).

No item 2 basta substituir \(x=1\): o denominador tende a \(-2\), de modo que não há indeterminação. No item 7, \(a\in \mathbb R\). Nos itens 9, 10 e 12, tome o logaritmo da expressão positiva antes de passar ao limite. No item 11, o numerador tende a \(1\) e o denominador a \(0\) por valores positivos; L’Hôpital não é necessária.
Exercício 11.49
Calcule os seguintes limites usando L’Hôpital quando possível
  1. \(\displaystyle \lim _{x\to 1} \frac{x^2+x-2}{x-1}\)

  2. \(\displaystyle \lim _{x\to 2} \frac{x^2+x-6}{x^2-7x+10}\)

  3. \(\displaystyle \lim _{x\to \pi } \frac{\operatorname {sen}x}{x-\pi }\)

  4. \(\displaystyle \lim _{x\to \pi /4} \frac{\operatorname {sen}x-\cos x}{\cos (2x)}\)

  5. \(\displaystyle \lim _{x\to 0} \frac{\operatorname {sen}(5x)}{x}\)

  6. \(\displaystyle \lim _{x\to 0} \frac{\operatorname {sen}(2x)}{x+2}\)

  7. \(\displaystyle \lim _{x\to 0} \frac{\operatorname {sen}(2x)}{\operatorname {sen}(3x)}\)

  8. \(\displaystyle \lim _{x\to 0} \frac{\operatorname {sen}(ax)}{\operatorname {sen}(bx)}\), com \(b\neq 0\).

  9. \(\displaystyle \lim _{x\to 0^+} \frac{e^x-1}{x^2}\)

  10. \(\displaystyle \lim _{x\to 0^+} \frac{e^{3x}-1-3x}{x^2}\)

  11. \(\displaystyle \lim _{x\to 0^+} \frac{x-\operatorname {sen}x}{x^3-x^2}\)

  12. \(\displaystyle \lim _{x\to \infty } \frac{x^4}{e^x}\)

  13. \(\displaystyle \lim _{x\to \infty } \frac{\sqrt{x}}{e^x}\)

  14. \(\displaystyle \lim _{x\to \infty } \frac{e^x}{\sqrt{x}}\)

  15. \(\displaystyle \lim _{x\to \infty } \frac{e^x}{2^x}\)

  16. \(\displaystyle \lim _{x\to \infty } \frac{e^x}{3^x}\)

  17. \(\displaystyle \lim _{x\to 3} \frac{x^3-5x^2+3x+9}{x^3-7x^2+15x-9}\)

  18. \(\displaystyle \lim _{x\to -2} \frac{x^3+4x^2+4x}{x^3+7x^2+16x+12}\)

  19. Um algoritmo exige aproximadamente \(n\ln n\) operações, enquanto outro exige \(n^2\). Para comparar suas ordens de crescimento, estenda a razão a uma variável real \(x\) e calcule \(\displaystyle \lim _{x\to \infty }(x\ln x)/x^2=\lim _{x\to \infty }(\ln x)/x\). Interprete o resultado.

  20. \(\displaystyle \lim _{x\to \infty } \frac{\ln (x^2)}{x}\)

  21. \(\displaystyle \lim _{x\to \infty } \frac{\Big(\ln x\Big)^2}{x}\)

  22. \(\displaystyle \lim _{x\to 0^+} x^3\ln x\)

  23. \(\displaystyle \lim _{x\to 0^+} \sqrt{x}\cdot \ln x\)

  24. \(\displaystyle \lim _{x\to \infty } x^3-x^2\)

  25. \(\displaystyle \lim _{x\to \infty } \sqrt{x}-\ln x\)

  26. \(\displaystyle \lim _{x\to -\infty } x^2e^x\)

Ver solução
  1. \(3\).

  2. \(- \frac{5}{3}\).

  3. \(-1\).

  4. \(- \frac{\sqrt{2}}{2}\).

  5. \(5\).

  6. \(0\).

  7. \(\frac{2}{3}\).

  8. \(\frac{a}{b}\).

  9. \(\infty \).

  10. \(\dfrac 92\).

  11. \(0\).

  12. \(0\).

  13. \(0\).

  14. \(\infty \).

  15. \(\infty \).

  16. \(0\).

  17. \(2\).

  18. \(-2\).

  19. \(0\). Assim, \((n\ln n)/n^2\to 0\): assintoticamente, o crescimento \(n\ln n\) é desprezível em comparação com \(n^2\).

  20. \(0\).

  21. \(0\).

  22. \(0\).

  23. \(0\).

  24. \(\infty \).

  25. \(\infty \).

  26. \(0\).

Exercício 11.50
Calcule os limites, usando a regra de L’Hôpital quando suas hipóteses forem satisfeitas. Nas potências de forma indeterminada, pode ser útil estudar primeiro o logaritmo; verifique também se uma simplificação direta resolve o problema.
  1. \(\displaystyle \lim _{x\to 0^+} \frac{1}{x^2}e^{-1/x}\)

  2. \(\displaystyle \lim _{x\to 0^+} (1+x)^{1/x}\)

  3. \(\displaystyle \lim _{x\to 0^+} (2x)^{x}\)

  4. \(\displaystyle \lim _{x\to 0^+} (2/x)^{x}\)

  5. \(\displaystyle \lim _{x\to 0^+} (\operatorname {sen}x)^{x}\)  Dica Teorema do Confronto.

  6. \(\displaystyle \lim _{x\to 1^-}(1-x)^{1-x}\)

  7. \(\displaystyle \lim _{x\to \infty } (x)^{1/x}\)

  8. \(\displaystyle \lim _{x\to \infty } (1/x)^{x}\)

  9. \(\displaystyle \lim _{x\to 1^+} (\ln x)^{1-x}\)

  10. \(\displaystyle \lim _{x\to \infty } (1+x)^{1/x}\)

  11. \(\displaystyle \lim _{x\to \infty } (1+x^2)^{1/x}\)

  12. \(\displaystyle \lim _{x\to \pi /2} \operatorname {tg}x\cos x\)

  13. \(\displaystyle \lim _{x\to \pi /2} \operatorname {tg}x\operatorname {sen}(2x)\)

  14. \(\displaystyle \lim _{x\to 1^+} \frac{1}{\ln x} - \frac{1}{x-1}\)

  15. \(\displaystyle \lim _{x\to 3^+} \frac{5}{x^2-9} - \frac{x}{x-3}\)

  16. \(\displaystyle \lim _{x\to \infty } x\operatorname {tg}(1/x)\)

  17. \(\displaystyle \lim _{x\to \infty } \frac{(\ln x)^3}{x}\)

  18. \(\displaystyle \lim _{x\to 1} \frac{x^2+x-2}{\ln x}\)

  19. \(\displaystyle \lim _{x\to 0^+} xe^{1/x}\)

Ver solução
  1. \(0\).

  2. \(e\).

  3. \(1\).

  4. \(1\).

  5. \(1\).

  6. \(1\).

  7. \(1\).

  8. \(0\).

  9. \(1\).

  10. \(1\).

  11. \(1\).

  12. \(1\).

  13. \(2\).

  14. \(\frac{1}{2}\).

  15. \(-\infty \).

  16. \(1\).

  17. \(0\).

  18. \(3\).

  19. \(\infty \).

No item 6, a aproximação é pela esquerda de \(1\), onde \(1-x\gt 0\) e a potência real está definida.

Exercício 11.51
Calcule os limites.
  1. \(\displaystyle \lim _{x\to 0^+}x^2e^{1/x}\)

  2. \(\displaystyle \lim _{x\to 0}\left(\frac1x-\frac1{\operatorname {sen}x}\right)\)

  3. \(\displaystyle \lim _{x\to 0^+}\operatorname {sen}x\ln x\)

  4. \(\displaystyle \lim _{x\to +\infty }(x^2+1)^{1/\ln x}\)

  5. \(\displaystyle \lim _{x\to 0^-}(1-\cos x)^{1/x}\)

  6. \(\displaystyle \lim _{x\to +\infty }\bigl(x-\sqrt[3]{x^3-x}\bigr)\)

  7. \(\displaystyle \lim _{x\to 0^+}x^{\operatorname {tg}(x^2)}\)

Ver solução
  1. \(+\infty \): com \(u=1/x\), \(x^2e^{1/x}=e^u/u^2\to +\infty \).

  2. \(\dfrac {\operatorname {sen}x-x}{x\operatorname {sen}x}\) é do tipo \(0/0\); aplicando L’Hôpital duas vezes, o limite é \(0\).

  3. \(0\): \(\operatorname {sen}x\ln x=\dfrac {\operatorname {sen}x}x\cdot x\ln x\to 1\cdot 0\).

  4. \(e^2\): o logaritmo da expressão é \(\dfrac {\ln (x^2+1)}{\ln x}\to 2\).

  5. \(+\infty \): a base tende a \(0^+\) e o expoente a \(-\infty \); não há indeterminação.

  6. \(0\): ponha \(u=x^{-2}\), de modo que \(u\to 0^+\). Pela regra de L’Hôpital,

    \[ \lim _{u\to 0^+}\frac{1-(1-u)^{1/3}}u=\frac13. \]

    Portanto,

    \[ x-\sqrt[3]{x^3-x} =\frac1x\, \frac{1-(1-u)^{1/3}}u\longrightarrow 0. \]
  7. \(1\): tomando o logaritmo da potência, obtemos

    \[ \operatorname {tg}(x^2)\ln x=\frac{\operatorname {tg}(x^2)}{x^2}\, x^2\ln x \longrightarrow 1\cdot 0=0. \]

    Pela continuidade da exponencial, a potência tende a \(e^0=1\).

Exercício 11.52
Use a regra de L’Hôpital, quando aplicável, para calcular
\[ \lim _{x\to 0}\frac{e^{2x}-1-2x}{x^2} \quad \text{e}\quad \lim _{x\to \infty }\frac{\ln x}{\sqrt{x}}. \]
Ver solução
No primeiro limite, duas aplicações de L’Hôpital dão \(\lim 4e^{2x}/2=2\). No segundo, uma aplicação fornece \(\lim _{x\to \infty }2/\sqrt{x}=0\).

11.6 Assíntotas

As assíntotas verticais, horizontais e oblíquas já foram estudadas no capítulo de limites no infinito. Vamos retomar suas características para esboçar gráficos e determinar as retas que descrevem seu comportamento perto de pontos finitos ou quando \(x\) cresce em módulo.

Na figura abaixo, a curva de \(f(x)=1+1/(x-1)\) aproxima-se da reta vertical \(x=1\) quando \(x\) tende a \(1\); quando \(x\) se afasta indefinidamente para a direita ou para a esquerda, aproxima-se da reta horizontal \(y=1\). São duas maneiras diferentes de o gráfico se aproximar de uma reta.

.90

Figura não resolvida: ./figuras/assintotas-conceito.tex

Figura 11.29 Duas assíntotas de \(f(x)=1+1/(x-1)\): a vertical \(x=1\) e a horizontal \(y=1\).

Recordemos que uma assíntota vertical \(x=a\) aparece quando \(f(x)\) tende a \(+\infty \) ou a \(-\infty \) ao nos aproximarmos de \(a\) por pelo menos um dos lados.

Exemplo 11.51
Verifique que a reta \(x=3\) é assíntota vertical de \(f(x)=\dfrac {2}{x-3}\).

Figura não resolvida: ./figuras/assintota-vertical-exemplo.tex

Figura 11.30 As assíntotas \(x=3\) e \(y=0\) do gráfico de \(f(x)=2/(x-3)\).

Solução
Quando \(x\) se aproxima de \(3\), o denominador tende a zero. Pela esquerda, \(x-3\lt 0\); pela direita, \(x-3\gt 0\). Assim,
\[ \lim _{x\to 3^-}\frac{2}{x-3}=-\infty , \qquad \lim _{x\to 3^+}\frac{2}{x-3}=+\infty . \]
Logo, \(x=3\) é uma assíntota vertical.
Uma assíntota horizontal \(y=L\) corresponde a um limite \(f(x)\to L\) quando \(x\to +\infty \) ou \(x\to -\infty \).

Exemplo 11.52
Verifique que a reta \(y=1\) é uma assíntota horizontal de \(f(x)=\dfrac {x^2-1}{x^2+1}\).

Figura não resolvida: ./figuras/assintota-horizontal-exemplo.tex

Figura 11.31 A curva se aproxima de \(y=1\) por baixo, nas duas extremidades.

Solução
Escrevendo a função de outra forma,
\[ f(x)=\frac{x^2+1-2}{x^2+1}=1-\frac{2}{x^2+1}, \]
vemos que o segundo termo tende a zero tanto quando \(x\to +\infty \) quanto quando \(x\to -\infty \). Portanto,
\[ \lim _{x\to +\infty }f(x)=\lim _{x\to -\infty }f(x)=1. \]
Além disso, \(f(x)-1=-2/(x^2+1)\lt 0\) para todo \(x\). O gráfico permanece abaixo da reta \(y=1\) e se aproxima dela sem tocá-la.

Figura não resolvida: ./figuras/assintota-obliqua-definicao.tex

Figura 11.32 A diferença vertical entre o gráfico e a reta tende a zero.

Definição 11.5
Suponha que o domínio de \(f\) contenha valores arbitrariamente grandes. Dizemos que a reta \(y=ax+b\) é uma assíntota de \(f\) quando \(x\to +\infty \) se
\[ \lim _{x\to +\infty }\bigl(f(x)-(ax+b)\bigr)=0. \]
Se \(a=0\), a assíntota é horizontal; se \(a\neq 0\), ela é oblíqua.
A definição em \(-\infty \) é análoga, desde que o domínio contenha valores arbitrariamente negativos. Os coeficientes podem ser diferentes nas duas extremidades.

Como encontrar \(a\) e \(b\)?

Se \(y=ax+b\) é uma assíntota do gráfico quando \(x\to +\infty \), então \(f(x)-(ax+b)\to 0\). Escrevendo

\[ \frac{f(x)}{x}-a =\frac{f(x)-(ax+b)}{x}+\frac{b}{x}, \]

vemos que os dois termos à direita tendem a zero. A relação inicial também fornece o limite de \(f(x)-ax\). Portanto,

\[ a=\lim _{x\to +\infty }\frac{f(x)}{x}, \qquad b=\lim _{x\to +\infty }\bigl(f(x)-ax\bigr). \]

De fato, da relação \(f(x)-ax-b\to 0\) segue que

\[ \frac{f(x)}x = a+\frac bx+\frac{f(x)-ax-b}{x} \longrightarrow a, \]

e então \(f(x)-ax\to b\). Reciprocamente, se esses dois limites existem, temos diretamente \(f(x)-(ax+b)\to 0\), de modo que a reta é uma assíntota. O mesmo argumento vale em \(-\infty \).

Exemplo 11.53
Determine as assíntotas de \(f(x) = \sqrt{9x^2+x+1} \) e esboce o gráfico.

Figura não resolvida: ./figuras/assintota-raiz.tex

Figura 11.33 Gráfico e assíntotas de \(f(x)=\sqrt{9x^2+x+1}\).

Solução

Antes de calcular os limites, faremos algumas simplificações

\begin{align*} \dfrac {f(x)}{x} & =\frac{|x|\sqrt{9+\dfrac 1x+\dfrac 1{x^2}}}{x}\\ & =\begin{cases} \sqrt{9+\dfrac 1x+\dfrac 1{x^2}},& \text{se }x\gt 0,\\[5pt] -\sqrt{9+\dfrac 1x+\dfrac 1{x^2}},& \text{se }x\lt 0. \end{cases}\end{align*}

Tomando os limites em cada ramo, encontramos

\[ a_+=\lim _{x\to +\infty }\frac{f(x)}x=3, \qquad a_-=\lim _{x\to -\infty }\frac{f(x)}x=-3. \]

Esses são os coeficientes angulares das assíntotas nas duas extremidades.

Resta determinar \(b\) em cada caso. Comecemos por \(x\to +\infty \). Pela fórmula obtida anteriormente, devemos calcular

\[ b=\lim _{x\to +\infty }\bigl(\sqrt{9x^2+x+1}-3x\bigr). \]

Para simplificar essa diferença, multiplicamos pelo conjugado:

\[ \begin{aligned} \sqrt{9x^2+x+1}-3x & =\frac{(9x^2+x+1)-9x^2}{\sqrt{9x^2+x+1}+3x}\\[5pt]& =\frac{x+1}{\sqrt{9x^2+x+1}+3x}. \end{aligned} \]

Como \(x\gt 0\), podemos dividir o numerador e o denominador por \(x\). Assim,

\[ \begin{aligned} b& =\lim _{x\to +\infty } \frac{1+\frac1x}{\sqrt{9+\frac1x+\frac1{x^2}}+3}\\[4pt]& =\frac{1}{3+3}=\frac16. \end{aligned} \]

Portanto, a assíntota quando \(x\to +\infty \) é

\[ \boxed {y=3x+\frac16}. \]

Para \(x\to -\infty \), a inclinação é \(a=-3\). Nesse caso, devemos calcular

\[ b=\lim _{x\to -\infty } \bigl(\sqrt{9x^2+x+1}+3x\bigr). \]

Racionalizando novamente,

\[ b=\lim _{x\to -\infty } \frac{x+1}{\sqrt{9x^2+x+1}-3x}. \]

Agora, como \(x\lt 0\), temos \(|x|=-x\). Dividindo o numerador e o denominador por \(-x\), obtemos

\[ \begin{aligned} b& =\lim _{x\to -\infty } \frac{-\left(1+\frac1x\right)}{\sqrt{9+\frac1x+\frac1{x^2}}+3}\\[4pt]& =-\frac16. \end{aligned} \]

Logo, a assíntota quando \(x\to -\infty \) é

\[ \boxed {y=-3x-\frac16}. \]

Exemplo 11.54
Determine as assíntotas de \(f(x)=\displaystyle \dfrac {x^3}{x^2+1}\).

Figura não resolvida: ./figuras/assintota-racional.tex

Figura 11.34 Gráfico e assíntota oblíqua de \(f(x)=x^3/(x^2+1)\).

Solução
Como \(x^2+1\) nunca se anula, a função está definida e é contínua em toda a reta; portanto, não há assíntotas verticais. Uma vez que \( \displaystyle \lim _{x \to \pm \infty } f(x) = \pm \infty , \) não há assíntotas horizontais. Fazendo a divisão de polinômios obtemos
\[ \dfrac {x^3}{x^2+1} = x- \dfrac {x}{x^2+1}, \]
então
\[ \lim _{x\to \pm \infty }\left(\frac{x^3}{x^2+1}-x\right) =\lim _{x\to \pm \infty }\frac{-x}{x^2+1}=0. \]
Portanto, a reta \( y = x \) é uma assíntota oblíqua.

Exemplo 11.55 (Três assíntotas e dois buracos)
Considere a função racional
\[ f(x)=\frac{(x^2-4)(x^2+1)}{(x^2-4)(x^2-1)}. \]
Determine suas assíntotas e localize as descontinuidades removíveis.

Figura não resolvida: ./figuras/assintotas-quociente-buracos.tex

Figura 11.35 As retas tracejadas são assíntotas; os círculos vazios assinalam os buracos em \((\pm 2,5/3)\).

Solução

O denominador se anula em \(-2,-1,1,2\), portanto

\[ D_f=\mathbb R\setminus \{ -2,-1,1,2\} . \]

Para todo \(x\) desse domínio, podemos cancelar \(x^2-4\) e escrever

\[ f(x)=\frac{x^2+1}{x^2-1}=1+\frac{2}{x^2-1}. \]

A simplificação não altera o domínio: \(x=-2\) e \(x=2\) continuam excluídos. Entretanto,

\[ \lim _{x\to -2}f(x)=\lim _{x\to 2}f(x)=\frac53. \]

Esses são os dois buracos do gráfico, nos pontos \((-2,5/3)\) e \((2,5/3)\), e não assíntotas verticais.

Em \(x=-1\) e \(x=1\), o denominador simplificado tende a zero enquanto o numerador permanece positivo. Examinando os sinais,

\[ \begin{aligned} \lim _{x\to -1^-}f(x)& =+\infty ,& \lim _{x\to -1^+}f(x)& =-\infty ,\\ \lim _{x\to 1^-}f(x)& =-\infty ,& \lim _{x\to 1^+}f(x)& =+\infty . \end{aligned} \]

Logo, \(x=-1\) e \(x=1\) são as duas assíntotas verticais. Por fim,

\[ \lim _{x\to \pm \infty }f(x) =\lim _{x\to \pm \infty }\left(1+\frac{2}{x^2-1}\right)=1. \]

A terceira assíntota é a horizontal \(y=1\).

Exercício 11.53 (A direção da reta não basta)

Para \(x\geq 1\), sejam

\[ f(x)=x+\sqrt x,\qquad g(x)=x+\frac1{\sqrt x}. \]

O gráfico mostra as diferenças de ordenadas entre essas funções e a reta \(y=x\).

  1. A reta \(y=x\) é assíntota de qual função quando \(x\to +\infty \)? A outra função pode ter uma assíntota da forma \(y=x+b\), com \(b\) constante?

  2. Verifique que \(f'(x)\to 1\) e \(g'(x)\to 1\). A inclinação limite determina, sozinha, a existência de uma assíntota oblíqua? Justifique pela distância de ordenadas.

Ilustração: Como encontrar \(a\) e \(b\)?

Ver solução
  1. Para \(g\), \(g(x)-x=1/\sqrt x\to 0\), logo \(y=x\) é assíntota. Para \(f\), a diferença até \(y=x+b\) é \(\sqrt x-b\to +\infty \), qualquer que seja \(b\); não há assíntota dessa forma.

  2. \(f'=1+1/(2\sqrt x)\to 1\) e \(g'=1-1/(2x^{3/2})\to 1\). As inclinações se aproximam da mesma direção, mas a existência da assíntota exige que a diferença de ordenadas até uma reta fixa tenda a zero. Para \(f\), a diferença \(\sqrt x\) cresce sem limite, embora a derivada dessa diferença, \(1/(2\sqrt x)\), tenda a zero.

Exercício 11.54 (Assíntotas permitem surpresas)
Decida se cada afirmação é verdadeira ou falsa e justifique. Nas afirmações sobre o que pode ocorrer, apresente um exemplo quando a resposta for afirmativa e explique a impossibilidade quando for negativa.
  1. O gráfico de uma função pode cruzar sua assíntota oblíqua infinitas vezes.

  2. Uma função pode ter três assíntotas horizontais distintas.

  3. Uma função pode ter infinitas assíntotas verticais.

  4. Se \(\lim _{x\to +\infty }\dfrac {f(x)}x=1\), então \(y=x\) é assíntota do gráfico de \(f\).

Ver solução
  1. Verdadeira: \(f(x)=x+\dfrac {\operatorname {sen}x}x\) tem assíntota \(y=x\) e vale \(x\) em cada \(k\pi \), com \(k\in \mathbb {Z}\setminus \{ 0\} \).

  2. Falsa: há no máximo uma em \(+\infty \) e uma em \(-\infty \).

  3. Verdadeira: \(\operatorname {tg}x\) tem as assíntotas \(x=\pi /2+k\pi \).

  4. Falsa: \(f(x)=x+\sqrt x\) satisfaz \(f(x)/x\to 1\), mas \(f(x)-x=\sqrt x\to +\infty \). Para a assíntota \(y=mx+b\) é preciso que \(m=\lim f(x)/x\) e que \(b=\lim (f(x)-mx)\) exista e seja finito.

Exercício 11.55
Determine todas as assíntotas de \(f(x)=\dfrac {x^2+1}{x-1}\).
Ver solução
Como
\[ \frac{x^2+1}{x-1}=x+1+\frac{2}{x-1}, \]
\(x=1\) é assíntota vertical e \(y=x+1\) é assíntota oblíqua tanto em \(+\infty \) quanto em \(-\infty \).
Exercício 11.56
Determine as assíntotas horizontais de \(g(x)=\dfrac {x}{\sqrt{x^2+1}}\) em cada extremidade da reta.
Ver solução
Temos \(\lim _{x\to +\infty }g(x)=1\) e \(\lim _{x\to -\infty }g(x)=-1\). Portanto, \(y=1\) é assíntota horizontal à direita e \(y=-1\) é assíntota horizontal à esquerda.

11.7 Esboço de curvas

Domínio, simetrias, monotonicidade, extremos, concavidade e assíntotas descrevem aspectos complementares de uma função. Reunidos, esses dados determinam a estrutura qualitativa do gráfico. O roteiro a seguir organiza a análise sem substituir o exame das particularidades de cada função. soleira base/.append style=breakable=false

Roteiro para a construção de gráficos
1Encontrar o domínio $\Dom f$.
2Calcular os pontos de intersecção com os eixos.
3Encontrar os pontos críticos e os valores críticos.
4Verificar, quando possível, se $f$ é par ou ímpar.
5Determinar os intervalos de crescimento e decrescimento.
6Identificar os máximos e mínimos de $f$.
7Determinar os intervalos de concavidade.
8Identificar os pontos de inflexão.
9Encontrar as assíntotas.
10Reunir as informações e esboçar o gráfico.
Observação 11.56
  1. Simetrias e periodicidade podem reduzir o trabalho: depois de estudar uma parte do domínio, a informação pode ser transportada para as demais.

  2. Um ponto crítico é apenas um candidato a extremo. O sinal de \(f'\) e a comparação de valores decidem se há máximo ou mínimo, local ou global.

  3. Pontos onde a função não está definida são candidatos a assíntotas verticais, não assíntotas automáticas; os limites laterais devem ser examinados.

Exemplo 11.57
Esboce o gráfico de \(f(x)=x^3-6x^2+9x+4\).

Solução
  1. Como \(f\) é polinomial, seu domínio é \(\mathbb {R}\) e não há assíntotas verticais. As interseções com os eixos são \((0,4)\) e, numericamente, \((-0{,}355,0)\). Essa é a única raiz real.

  2. A derivada

    \[ f'(x)=3x^2-12x+9=3(x-1)(x-3) \]

    se anula em \(x=1\) e \(x=3\). Como o coeficiente de \(x^2\) em \(f'\) é positivo, \(f\) cresce em \((-\infty ,1)\) e \((3,\infty )\) e decresce em \((1,3)\). Portanto, \(f\) tem máximo local de valor \(8\) em \(x=1\) e mínimo local de valor \(4\) em \(x=3\).

  3. Como \(f''(x)=6x-12=6(x-2)\), a função é côncava para baixo em \((-\infty ,2)\) e para cima em \((2,\infty )\). O ponto \((2,6)\) é um ponto de inflexão.

  4. Por fim,

    \[ \lim _{x\to -\infty }f(x)=-\infty , \qquad \lim _{x\to \infty }f(x)=\infty . \]

    Os limites excluem assíntotas horizontais. Além disso,

    \[ \frac{f(x)}x=x^2-6x+9+\frac4x\longrightarrow +\infty \]

    quando \(x\to \pm \infty \); portanto, não existe coeficiente angular finito para uma assíntota oblíqua.

  5. Reunimos os pontos críticos e o ponto de inflexão na reta real da Figura 11.36; os sinais de \(f'\) e \(f''\) determinam, respectivamente, a monotonicidade e a concavidade em cada intervalo.

    Ilustração: Esboço de curvas

    Figura 11.36 Reta real para a função \(f\) do Exemplo 11.57.

  6. A Figura 11.37 mostra como essas informações conduzem do esquema inicial ao esboço final do gráfico.

Figura 11.37 Construção do esboço de f(x)=x^3-6x^2+9x+4.

Figura 11.37 Construção do esboço de \(f(x)=x^3-6x^2+9x+4\).

Exemplo 11.58 (Quando a concentração atinge o pico)
Após uma dose administrada fora da corrente sanguínea, o fármaco precisa ser absorvido antes de alcançá-la e, ao mesmo tempo, começa a ser eliminado pelo organismo. Um modelo simples para a concentração resultante é
\[ C(t)=A\bigl(e^{-k_e t}-e^{-k_a t}\bigr), \qquad A\gt 0,\quad k_a\gt k_e\gt 0,\quad t\geq 0, \]
em que \(k_a\) e \(k_e\) estão associados, respectivamente, à absorção e à eliminação. Em determinado caso, os tempos para que cada parcela exponencial se reduza à metade são \(0{,}5\) hora para a absorção e \(4\) horas para a eliminação. Determine \(k_a\) e \(k_e\), encontre o instante de concentração máxima e descreva os traços principais do gráfico.

Solução

Para uma parcela da forma \(e^{-kt}\), o tempo \(T\) de redução à metade satisfaz \(e^{-kT}=1/2\); logo, \(k=\ln 2/T\). Portanto,

\[ k_a=2\ln 2\ \mathrm{h}^{-1}, \qquad k_e=\frac{\ln 2}{4}\ \mathrm{h}^{-1}. \]

Em particular, \(k_a\gt k_e\). Temos \(C(0)=0\), \(C(t)\gt 0\) para \(t\gt 0\) e \(\lim _{t\to \infty }C(t)=0\). Além disso,

\[ C'(t)=A\bigl(k_a e^{-k_a t}-k_e e^{-k_e t}\bigr). \]

A equação \(C'(t)=0\) tem uma única solução:

\[ t_{\max }=\frac{\ln (k_a/k_e)}{k_a-k_e}. \]

Substituindo os parâmetros calibrados,

\[ t_{\max } =\frac{\ln 8}{2\ln 2-(\ln 2)/4} =\frac{12}{7}\ \mathrm{h}. \]

Como \(C'(0)=A(k_a-k_e)\gt 0\) e, depois desse ponto, a parcela de eliminação predomina, a concentração cresce até \(t_{\max }\) e decresce em seguida. O gráfico parte de zero, possui um único pico e retorna assintoticamente a zero.

Ilustração: Esboço de curvas

Exemplo 11.59
Esboce o gráfico de \(\displaystyle f(x) = \dfrac {x^2-x-2}{x^2-x-6}\).
Solução
  1. Como \(x^2-x-6=(x-3)(x+2)\), o domínio é \(\mathbb {R}\setminus \{ -2,3\} \). As interseções são \((-1,0)\), \((2,0)\) e \((0,1/3)\).

  2. Temos

    \[ f'(x)=\frac{4(1-2x)}{(x-3)^2(x+2)^2}. \]

    O denominador é positivo no domínio; portanto, o sinal de \(f'\) é o mesmo de \(1-2x\). Dividimos a análise em \(x=1/2\), onde a derivada se anula, e nos pontos \(-2\) e \(3\), que não pertencem ao domínio.

    Intervalo

    \(1-2x\)

    \(f'(x)\)

    \(f\)

    \((-\infty ,-2)\)

    \(+\)

    \(+\)

    Crescente

    \((-2,1/2)\)

    \(+\)

    \(+\)

    Crescente

    \((1/2,3)\)

    \(-\)

    \(-\)

    Decrescente

    \((3,\infty )\)

    \(-\)

    \(-\)

    Decrescente

    Em \(x=1/2\), a derivada passa de positiva para negativa. Assim, \((1/2,9/25)\) é um ponto de máximo local.

  3. A derivada segunda é

    \[ f''(x)=\frac{24x^2-24x+56}{(x-3)^3(x+2)^3}. \]

    O numerador é sempre positivo, pois \(24x^2-24x+56=24(x-1/2)^2+50\). Basta, então, examinar os dois fatores do denominador.

    Intervalo

    \((x-3)^3\)

    \((x+2)^3\)

    \(f''(x)\)

    \(f\)

    \((-\infty ,-2)\)

    \(-\)

    \(-\)

    \(+\)

    Côncava para cima

    \((-2,3)\)

    \(-\)

    \(+\)

    \(-\)

    Côncava para baixo

    \((3,\infty )\)

    \(+\)

    \(+\)

    \(+\)

    Côncava para cima

    Não há pontos de inflexão: a concavidade muda ao passar de um ramo a outro, mas \(-2\) e \(3\) não pertencem ao domínio.

  4. Os limites laterais confirmam as assíntotas verticais \(x=-2\) e \(x=3\). Como

    \[ \lim _{x\to \pm \infty }f(x)=1, \]

    a reta \(y=1\) é assíntota horizontal.

  5. A Figura 11.38 resume os sinais de \(f'\) e \(f''\) nos intervalos determinados por \(-2\), \(1/2\) e \(3\).

    Ilustração: Esboço de curvas

    Figura 11.38 Reta real para \(f\) do Exemplo 11.59.

  6. A Figura 11.39 reúne as interseções, a monotonicidade, a concavidade e as três assíntotas no esboço final.

Figura 11.39 Construção do esboço de f(x)=(x^2-x-2)/(x^2-x-6).

Figura 11.39 Construção do esboço de \(f(x)=\dfrac {x^2-x-2}{x^2-x-6}\).

Exemplo 11.60
Esboce o gráfico da função \(f(x)=x+2x^{\frac{2}{3}}=x+2\sqrt[3]{x^{2}} \).

Solução
  1. A raiz cúbica está definida para todo número real; portanto, \(\operatorname {Dom}f=\mathbb {R}\). A função é contínua em toda a reta, mas não é par nem ímpar. Suas raízes são \(x=-8\) e \(x=0\).

  2. Para \(x\neq 0\),

    \[ f'(x)=1+\frac{4}{3\sqrt[3]{x}} =\frac{3\sqrt[3]{x}+4}{3\sqrt[3]{x}}. \]

    A derivada se anula em \(x=-64/27\) e não existe em \(x=0\), embora \(f\) esteja definida nesse ponto. Esses dois pontos dividem a análise dos sinais do numerador e do denominador.

    Intervalo

    \(3\sqrt[3]{x}+4\)

    \(3\sqrt[3]{x}\)

    \(f'(x)\)

    \(f\)

    \((-\infty ,-64/27)\)

    \(-\)

    \(-\)

    \(+\)

    Crescente

    \((-64/27,0)\)

    \(+\)

    \(-\)

    \(-\)

    Decrescente

    \((0,\infty )\)

    \(+\)

    \(+\)

    \(+\)

    Crescente

    Logo,

    \[ \left(-\frac{64}{27},\frac{32}{27}\right) \quad \text{é um máximo local, e}\quad (0,0)\quad \text{é um mínimo local.} \]
  3. Para \(x\neq 0\),

    \[ f''(x)=-\frac{4}{9x^{4/3}}\lt 0. \]

    Assim, o gráfico é côncavo para baixo em \((-\infty ,0)\) e \((0,\infty )\). Como a concavidade não muda ao atravessar \(0\), esse ponto não é um ponto de inflexão.

  4. Temos

    \[ \lim _{x\to -\infty }f(x)=-\infty , \qquad \lim _{x\to \infty }f(x)=\infty . \]

    Não há assíntotas verticais ou horizontais. Tampouco há assíntota oblíqua: embora \(f(x)/x\to 1\), a diferença \(f(x)-x=2x^{2/3}\) não tende a um número real.

  5. A Figura 11.40 reúne essas informações. A janela inclui a raiz \(-8\) e destaca, em \(x=0\), a cúspide onde \(f'\) não existe.

Figura 11.40 Construção do esboço de f(x)=x+2√[3]x^2.

Figura 11.40 Construção do esboço de \(f(x)=x+2\sqrt[3]{x^2}\).

Exemplo 11.61
Esboce \(\displaystyle f(x)=\dfrac {4(x-3)(x+1)}{x^2+2x+3}.\)
Solução
  1. Como \(x^2+2x+3=(x+1)^2+2\gt 0\), o domínio é \(\mathbb {R}\). As interseções são \((-1,0)\), \((3,0)\) e \((0,-4)\).

  2. A derivada

    \[ f'(x)=\frac{16x(x+3)}{(x^2+2x+3)^2} \]

    se anula em \(-3\) e \(0\). Como o denominador é positivo, o sinal de \(f'\) depende dos fatores \(x\) e \(x+3\).

    Intervalo

    \(x\)

    \(x+3\)

    \(f'(x)\)

    \(f\)

    \((-\infty ,-3)\)

    \(-\)

    \(-\)

    \(+\)

    Crescente

    \((-3,0)\)

    \(-\)

    \(+\)

    \(-\)

    Decrescente

    \((0,\infty )\)

    \(+\)

    \(+\)

    \(+\)

    Crescente

    As mudanças de sinal mostram que há um máximo local em \((-3,8)\) e um mínimo local em \((0,-4)\).

  3. Para a concavidade,

    \[ f''(x)=-\frac{16(2x^3+9x^2-9)}{(x^2+2x+3)^3}. \]

    Sejam \(r_1\lt r_2\lt r_3\) as três raízes de \(2x^3+9x^2-9\). Numericamente,

    \[ r_1\approx -4{,}251,\qquad r_2\approx -1{,}161,\qquad r_3\approx 0{,}912. \]

    A fatoração

    \[ 2x^3+9x^2-9=2(x-r_1)(x-r_2)(x-r_3) \]

    permite estudar o sinal de cada fator. O denominador é positivo, mas o fator \(-16\) inverte o sinal do produto.

    Intervalo

    \(x-r_1\)

    \(x-r_2\)

    \(x-r_3\)

    \(f''(x)\)

    \(f\)

    \((-\infty ,r_1)\)

    \(-\)

    \(-\)

    \(-\)

    \(+\)

    Côncava para cima

    \((r_1,r_2)\)

    \(+\)

    \(-\)

    \(-\)

    \(-\)

    Côncava para baixo

    \((r_2,r_3)\)

    \(+\)

    \(+\)

    \(-\)

    \(+\)

    Côncava para cima

    \((r_3,\infty )\)

    \(+\)

    \(+\)

    \(+\)

    \(-\)

    Côncava para baixo

    A função é contínua e a concavidade muda em cada \(r_i\); portanto, \((r_1,f(r_1))\), \((r_2,f(r_2))\) e \((r_3,f(r_3))\) são pontos de inflexão.

  4. Não há assíntotas verticais. Como

    \[ \lim _{x\to \pm \infty }f(x)=4, \]

    a reta \(y=4\) é assíntota horizontal.

  5. A Figura 11.41 organiza os pontos críticos e os pontos de inflexão e registra os sinais de \(f'\) e \(f''\).

    Figura não resolvida: figuras/figsketchline3.tex

    Figura 11.41 Reta real para \(f\) do Exemplo 11.61.

  6. A Figura 11.42 mostra a passagem dessas informações ao esboço, incluindo as raízes \(-1\) e \(3\).

Figura 11.42 Construção do esboço de f(x)=(4(x-3)(x+1))/(x^2+2x+3).

Figura 11.42 Construção do esboço de \(f(x)=\dfrac {4(x-3)(x+1)}{x^2+2x+3}\).

Exemplo 11.62 (Duas inflexões e uma tangente vertical)
Esboce o gráfico de
\[ f(x)=8x^{1/3}+x^{4/3}. \]
Solução
  1. Podemos escrever \(f(x)=\sqrt[3]{x}(x+8)\). Assim, seu domínio é \(\mathbb {R}\), a função é contínua em toda a reta e as interseções com os eixos são \((-8,0)\) e \((0,0)\). A função não é par nem ímpar.

  2. Para \(x\neq 0\),

    \[ f'(x)=\frac{8}{3x^{2/3}}+\frac43x^{1/3} =\frac{4(x+2)}{3x^{2/3}}. \]

    O denominador é positivo, e a derivada se anula em \(x=-2\). Separamos os intervalos nesse ponto e em \(0\), onde a expressão acima não está definida.

    Intervalo

    \(x+2\)

    \(x^{2/3}\)

    \(f'(x)\)

    \(f\)

    \((-\infty ,-2)\)

    \(-\)

    \(+\)

    \(-\)

    Decrescente

    \((-2,0)\)

    \(+\)

    \(+\)

    \(+\)

    Crescente

    \((0,\infty )\)

    \(+\)

    \(+\)

    \(+\)

    Crescente

    Pela continuidade em \(0\), os dois últimos intervalos formam um único trecho crescente: \((-2,\infty )\). Portanto, a função decresce até \(-2\) e cresce depois, atingindo seu mínimo absoluto em

    \[ M=\left(-2,-6\sqrt[3]{2}\right). \]
  3. Para compreender a passagem pela origem, examinamos a inclinação das secantes que passam por ela:

    \[ \frac{f(h)-f(0)}h =\frac8{h^{2/3}}+h^{1/3} \longrightarrow +\infty \qquad (h\to 0). \]

    Assim, \(f\) não é derivável em \(0\), e o gráfico tem tangente vertical \(x=0\) na origem. Esse ponto é crítico, mas não é um extremo: o gráfico o atravessa continuando a subir.

  4. Para \(x\neq 0\), a segunda derivada é

    \[ f''(x)=\frac{4(x-4)}{9x^{5/3}}. \]

    O fator \(x^{5/3}\) tem o mesmo sinal de \(x\), enquanto \(x-4\) muda de sinal em \(4\).

    Intervalo

    \(x^{5/3}\)

    \(x-4\)

    \(f''(x)\)

    \(f\)

    \((-\infty ,0)\)

    \(-\)

    \(-\)

    \(+\)

    Côncava para cima

    \((0,4)\)

    \(+\)

    \(-\)

    \(-\)

    Côncava para baixo

    \((4,\infty )\)

    \(+\)

    \(+\)

    \(+\)

    Côncava para cima

    A concavidade muda em \(0\) e em \(4\). Como a função é contínua nesses pontos, temos duas inflexões:

    \[ I_1=(0,0),\qquad I_2=\left(4,12\sqrt[3]{4}\right). \]

    Em \(4\), a segunda derivada se anula; em \(0\), a mudança de concavidade ocorre mesmo sem existir a primeira derivada.

  5. O termo \(x^{4/3}\) domina \(8x^{1/3}\) quando \(|x|\) cresce. Logo,

    \[ \lim _{x\to -\infty }f(x)=+\infty , \qquad \lim _{x\to +\infty }f(x)=+\infty . \]

    Não há assíntotas verticais, pois \(f\) é contínua em toda a reta, nem horizontais. Além disso,

    \[ \frac{f(x)}x=x^{1/3}+\frac8{x^{2/3}} \]

    tende a \(-\infty \) quando \(x\to -\infty \) e a \(+\infty \) quando \(x\to +\infty \). Portanto, também não há assíntotas oblíquas.

  6. A Figura 11.43 reúne essas informações. No último painel, acentuamos ligeiramente as concavidades para tornar visíveis as duas inflexões.

Figura não resolvida: inl-c11-fuvpanel-005

Figura 11.43 Construção do esboço de \(f(x)=8x^{1/3}+x^{4/3}\). As concavidades foram acentuadas no último painel.

Exercício 11.57 (O que a janela do gráfico esconde)

Considere \(f(x)=x^3-0{,}03x\). Na janela \([-10,10]\times [-1000,1000]\), o gráfico parece sempre subir.

  1. Estude o sinal de \(f'\) e encontre as coordenadas de todos os extremos locais de \(f\).

  2. Compare a diferença entre as alturas dos extremos com a altura total da janela. Por que o desenho amplo esconde a mudança?

  3. Proponha uma janela que mostre os dois extremos e confira se ela contém suas coordenadas.

  4. O gráfico de \(g(x)=x^3\) parece horizontal na janela \([-0{,}1,0{,}1]\times [-1,1]\). A função é constante nesse intervalo? Justifique pela expressão de \(g\) e descreva sua monotonia.

[figuras/proposta-20261016-q11-4-1.tex
Figura 11.44 O gráfico de \(f\) na janela original. É possível confiar na aparência de monotonicidade dessa imagem?

Ver solução

Temos

\[ f'(x)=3x^2-0{,}03=3(x-0{,}1)(x+0{,}1). \]

A derivada muda de positiva para negativa em \(-0{,}1\) e de negativa para positiva em \(0{,}1\). Logo,

\[ f(-0{,}1)=0{,}002\quad (\text{máximo local}), \qquad f(0{,}1)=-0{,}002\quad (\text{mínimo local}). \]

A diferença entre essas alturas é apenas \(0{,}004\), invisível numa janela com altura total de \(2000\) unidades. Uma janela como \([-0{,}2,0{,}2]\times [-0{,}005,0{,}005]\) revela os extremos. Já \(g(x)=x^3\) é estritamente crescente, embora pareça plana numa janela vertical muito grande para os valores exibidos. De fato, se \(u\lt v\), então \(v^3-u^3=(v-u)(v^2+uv+u^2)\gt 0\); portanto, \(g\) não é constante nesse intervalo.

[figuras/proposta-20261016-q11-4-2.tex
Figura 11.45 A janela ampliada revela o máximo e o mínimo locais.

Um gráfico em computador é evidência visual, não uma prova de monotonicidade. A escala precisa ser escolhida em função do fenômeno que queremos observar.

Exercício 11.58 (As mesmas propriedades determinam uma única função?)

Procura-se uma função ímpar, duas vezes derivável em \(\mathbb R\), estritamente crescente, côncava para cima em \((-\infty ,0)\) e para baixo em \((0,\infty )\), com assíntotas horizontais \(y=-1\) à esquerda e \(y=1\) à direita. São propostos os gráficos

\[ f_A(x)=\frac{x}{\sqrt{1+x^2}},\qquad f_B(x)=\frac{x}{\sqrt{4+x^2}}. \]
  1. Um, ambos ou nenhum dos gráficos atende a todos os dados? Justifique: as informações qualitativas fornecidas determinam uma única função?

  2. Acrescente o dado \(f'(0)=1\). Entre essas duas propostas, qual permanece admissível? Explique que informação geométrica esse dado acrescenta.

Ilustração: Esboço de curvas

Ver solução
  1. Ambos. Para \(F_c(x)=x/\sqrt{c+x^2}\), \(c\gt 0\),

    \[ F_c'(x)=\frac{c}{(c+x^2)^{3/2}}\gt 0,\qquad F_c''(x)=\frac{-3cx}{(c+x^2)^{5/2}}. \]

    A função é ímpar, tem as concavidades pedidas e limites \(-1\) e \(1\). Os valores \(c=1\) e \(c=4\) já dão duas funções distintas com todos esses traços.

  2. \(F_c'(0)=1/\sqrt c\). Entre as duas propostas, apenas \(A\) tem inclinação \(1\) na origem; \(B\) tem inclinação \(1/2\). O dado especifica a inclinação da tangente, além do sentido do crescimento e da concavidade. A escolha é feita entre as duas propostas; não se afirma unicidade entre todas as funções possíveis.

Exercício 11.59
Para cada função a seguir, estude os aspectos indicados e esboce seu gráfico. Na ausência de restrição expressa, considere o domínio real natural.
  1. Encontre os intervalos para os quais a função é crescente ou decrescente;

  2. Encontre os valores de máximo e mínimo locais;

  3. Encontre os intervalos de concavidade e os pontos de inflexão;

  4. Encontre as assíntotas horizontais, verticais e oblíquas;

  5. Esboce o gráfico utilizando as informações dos itens anteriores.

  1. \(\displaystyle f(x) = x^3-2x^2+4x+1\)

  2. \(\displaystyle f(x) = -x^3+5x^2-3x+2\)

  3. \(\displaystyle f(x) = x^3+3x^2+3x+1\)

  4. \(\displaystyle f(x) = x^3-x^2-x+1\)

  5. \(\displaystyle f(x) = (x-2)\ln (x-2)\)

  6. \(\displaystyle f(x) = (x-2)^2\ln (x-2)\)

  7. \(\displaystyle f(x) = \frac{x^2-4}{x^2}\)

  8. \(\displaystyle f(x) = \frac{x^2-4x+3}{x^2-6x+8}\)

  9. \(\displaystyle f(x) = \frac{x^2-2x+1}{x^2-6x+8}\)

  10. \(\displaystyle f(x) = x\sqrt{x+1}\)

  11. \(\displaystyle f(x) = x^2e^x\)

  12. \(\displaystyle f(x) = \operatorname {sen}x \cos x\) em \([-\pi ,\pi ]\)

  13. \(\displaystyle f(x) = (x-3)^{2/3} + 2\)

  14. \(f(x)=(x^2-1)^3\)

  15. \(f(x)=3x^{2/3}-x\)

  16. \(f(x)=(x+2)^{3/2}+1\)

  17. \(f(x)=\sqrt[3]{x^3-x}\)

  18. \(f(x)=\dfrac {x^3}{x^2-1}\)

  19. \(f(x)=e^x-e^{3x}\)

  20. \(f(x)=\sqrt{x^2+2x+5}\)

  21. \(f(x)=\dfrac {x^2}{x^2-x-2}\)

Ver solução
Na descrição abaixo, \(\uparrow \) e \(\downarrow \) indicam crescimento e decrescimento; \(C_\uparrow \) e \(C_\downarrow \) indicam concavidade para cima e para baixo. Intervalos separados são considerados individualmente. Podemos incluir por continuidade os extremos finitos que pertencem ao domínio. Quando uma inflexão é indicada apenas pela abscissa \(r\), o ponto do gráfico é \((r,f(r))\). Salvo indicação em contrário, o domínio é \(\mathbb R\) e não há assíntotas.
  1. \(f'=3x^2-4x+4\gt 0\): crescente em toda a reta, sem extremos. Como \(f''=6x-4\), \(C_\downarrow :(-\infty ,2/3)\) e \(C_\uparrow :(2/3,\infty )\); inflexão \((2/3,83/27)\).

  2. \(f'=-(x-3)(3x-1)\): decresce em \((-\infty ,1/3)\) e \((3,\infty )\), cresce em \((1/3,3)\). Mínimo local em \(1/3\), de valor \(41/27\); máximo local em \(3\), de valor \(11\). Como \(f''=10-6x\), \(C_\uparrow :(-\infty ,5/3)\) e \(C_\downarrow :(5/3,\infty )\); inflexão \((5/3,169/27)\).

  3. \(f=(x+1)^3\) cresce em toda a reta. O crítico \(-1\) é inflexão estacionária, com valor \(0\), e não é extremo. \(C_\downarrow :(-\infty ,-1)\); \(C_\uparrow :(-1,\infty )\).

  4. \(f'=(x-1)(3x+1)\). Cresce em \((-\infty ,-1/3)\) e \((1,\infty )\) e decresce em \((-1/3,1)\). Máximo local \(32/27\) em \(-1/3\) e mínimo local \(0\) em \(1\). Como \(f''=6x-2\), \(C_\downarrow :(-\infty ,1/3)\) e \(C_\uparrow :(1/3,\infty )\); inflexão \((1/3,16/27)\).

  5. Domínio \((2,\infty )\). \(f'=\ln (x-2)+1\): decresce até \(2+e^{-1}\) e cresce depois, com mínimo \(-e^{-1}\). Como \(f''=1/(x-2)\gt 0\), é convexa em todo o domínio e não tem inflexões. O limite em \(2^+\) é \(0\), sem assíntota vertical; o ponto \((2,0)\) é aberto.

  6. Domínio \((2,\infty )\). \(f'=(x-2)(2\ln (x-2)+1)\): decresce até \(2+e^{-1/2}\) e cresce depois, com mínimo \(-1/(2e)\). \(f''=2\ln (x-2)+3\): \(C_\downarrow :(2,2+e^{-3/2})\) e \(C_\uparrow :(2+e^{-3/2},\infty )\). Inflexão \((2+e^{-3/2},-3/(2e^3))\); limite \(0\) em \(2^+\).

  7. Domínio \(\mathbb R\setminus \{ 0\} \). \(f'=8/x^3\): decresce em \((-\infty ,0)\) e cresce em \((0,\infty )\), sem extremos. Como \(f''=-24/x^4\lt 0\), é côncava para baixo em cada ramo, sem inflexões. Assíntotas \(x=0\) e \(y=1\).

  8. Domínio \(\mathbb R\setminus \{ 2,4\} \). Como

    \[ f'=-\frac{2(x^2-5x+7)}{(x-2)^2(x-4)^2}\lt 0, \]

    decresce em cada componente e não tem extremos. Seja \(r=(5+\sqrt[3]9-\sqrt[3]3)/2\), a única raiz de \(2x^3-15x^2+42x-44\), situada em \((2,4)\). A derivada segunda é duas vezes esse polinômio dividida por \((x-2)^3(x-4)^3\). Logo, \(C_\uparrow :(2,r)\) e \((4,\infty )\); \(C_\downarrow :(-\infty ,2)\) e \((r,4)\). A única inflexão é \((r,f(r))\). Assíntotas \(x=2\), \(x=4\) e \(y=1\).

  9. Domínio \(\mathbb R\setminus \{ 2,4\} \). Como \(f'=-2(x-1)(2x-5)/((x-2)^2(x-4)^2)\), decresce em \((-\infty ,1)\), \((5/2,4)\) e \((4,\infty )\), e cresce em \((1,2)\) e \((2,5/2)\). Mínimo local \(0\) em \(1\) e máximo local \(-3\) em \(5/2\). Seja \(r=(7-3\sqrt[3]3-\sqrt[3]9)/4\), a única raiz real de \(4x^3-21x^2+30x-4\). Temos \(r\lt 1\) e

    \[ f''=\frac{2(4x^3-21x^2+30x-4)}{(x-2)^3(x-4)^3}. \]

    Portanto, \(C_\uparrow :(r,2)\) e \((4,\infty )\); \(C_\downarrow :(-\infty ,r)\) e \((2,4)\). A única inflexão é \((r,f(r))\). Assíntotas \(x=2\), \(x=4\) e \(y=1\).

  10. Domínio \([-1,\infty )\). \(f'=(3x+2)/(2\sqrt{x+1})\): decresce em \((-1,-2/3)\) e cresce em \((-2/3,\infty )\), com mínimo \(-2/(3\sqrt3)\) em \(-2/3\). O extremo do domínio \(-1\) é máximo local relativo ao domínio, de valor \(0\). Como \(f''=(3x+4)/(4(x+1)^{3/2})\gt 0\) para \(x\gt -1\), a função é convexa, sem inflexões.

  11. \(f'=e^xx(x+2)\): cresce em \((-\infty ,-2)\) e \((0,\infty )\) e decresce em \((-2,0)\). Máximo local \(4/e^2\) em \(-2\) e mínimo global \(0\) em \(0\). Com \(r_\pm =-2\pm \sqrt2\), temos \(C_\uparrow :(-\infty ,r_-)\) e \((r_+,\infty )\) e \(C_\downarrow :(r_-,r_+)\). Inflexões \((r_\pm ,r_\pm ^2e^{r_\pm })\). Assíntota \(y=0\) apenas quando \(x\to -\infty \).

  12. Domínio \([-\pi ,\pi ]\). Cresce em \((-\pi ,-3\pi /4)\), \((-\pi /4,\pi /4)\) e \((3\pi /4,\pi )\); decresce nos dois intervalos restantes. Máximos \(1/2\) em \(-3\pi /4,\pi /4\) e mínimos \(-1/2\) em \(-\pi /4,3\pi /4\). Relativamente ao domínio fechado, \(-\pi \) também é mínimo local e \(\pi \) é máximo local, ambos de valor \(0\). Como \(f''=-2\operatorname {sen}(2x)\), \(C_\uparrow :(-\pi /2,0)\) e \((\pi /2,\pi )\) e \(C_\downarrow :(-\pi ,-\pi /2)\) e \((0,\pi /2)\). Inflexões em \(-\pi /2,0,\pi /2\), de ordenada \(0\).

  13. \(f'=2/(3\sqrt[3]{x-3})\) para \(x\neq 3\). Decresce até \(3\) e cresce depois; mínimo global \(2\) no ponto não derivável \(3\). A derivada segunda é negativa nos dois lados: côncava para baixo em \((-\infty ,3)\) e \((3,\infty )\), sem inflexão.

  14. \(f'=6x(x^2-1)^2\): decresce em \((-\infty ,0)\) e cresce em \((0,\infty )\). Mínimo global \(-1\) em \(0\); os críticos \(\pm 1\) não são extremos. Como \(f''=6(x^2-1)(5x^2-1)\), \(C_\uparrow :(-\infty ,-1)\), \((-1/\sqrt5,1/\sqrt5)\) e \((1,\infty )\); \(C_\downarrow :(-1,-1/\sqrt5)\) e \((1/\sqrt5,1)\). Inflexões \((\pm 1,0)\) e \((\pm 1/\sqrt5,-64/125)\).

  15. \(f'=2/\sqrt[3]x-1\) para \(x\neq 0\). Decresce em \((-\infty ,0)\) e \((8,\infty )\), e cresce em \((0,8)\). Mínimo local \(0\) em \(0\) e máximo local \(4\) em \(8\). Como \(f''=-2/(3x^{4/3})\lt 0\), é côncava para baixo em cada lado de \(0\), sem inflexões.

  16. Domínio \([-2,\infty )\). \(f'=3\sqrt{x+2}/2\gt 0\) para \(x\gt -2\): crescente, com mínimo global \(1\) no extremo \(-2\). Como \(f''=3/(4\sqrt{x+2})\gt 0\), é convexa, sem inflexões.

  17. Ímpar; zeros \(-1\), \(0\), \(1\), com tangentes verticais; \(f'=\dfrac {3x^2-1}{3\sqrt[3]{(x^3-x)^2}}\): máx. local em \(x=-1/\sqrt3\) e mín. local em \(x=1/\sqrt3\), valores \(\pm \sqrt[3]{2\sqrt3/9}\approx \pm 0{,}73\); côncava para cima em \((-\infty ,-1)\) e \((0,1)\), para baixo em \((-1,0)\) e \((1,\infty )\). A função cresce em \((-\infty ,-1/\sqrt3)\) e \((1/\sqrt3,\infty )\) e decresce em \((-1/\sqrt3,1/\sqrt3)\), respeitando os pontos de derivada inexistente. A concavidade muda nos três zeros \(x=-1,0,1\), que são pontos de inflexão com tangentes verticais. A assíntota é \(y=x\) nos dois sentidos.

  18. Ímpar; assíntotas \(x=\pm 1\) e \(y=x\); \(y'=\dfrac {x^2(x^2-3)}{(x^2-1)^2}\): máx. local \(-\tfrac {3\sqrt3}2\) em \(-\sqrt3\), mín. local \(\tfrac {3\sqrt3}2\) em \(\sqrt3\); inflexão em \(0\) (tangente horizontal, sem extremo). A função cresce em \((-\infty ,-\sqrt3)\) e \((\sqrt3,\infty )\), e decresce em \((-\sqrt3,-1)\), \((-1,1)\) e \((1,\sqrt3)\). É côncava para cima em \((-1,0)\) e \((1,\infty )\), e para baixo em \((-\infty ,-1)\) e \((0,1)\).

  19. Zero em \(0\); \(y\to 0\) quando \(x\to -\infty \) e \(y\to -\infty \) quando \(x\to +\infty \); máximo em \(x=-\tfrac 12\ln 3\), valor \(\tfrac 2{3\sqrt3}\); inflexão em \(x=-\ln 3\), valor \(\tfrac 8{27}\). Cresce em \((-\infty ,-\tfrac 12\ln 3)\) e decresce em \((-\tfrac 12\ln 3,\infty )\). Como \(y''=e^x-9e^{3x}\), é côncava para cima em \((-\infty ,-\ln 3)\) e para baixo em \((-\ln 3,\infty )\).

  20. \(y=\sqrt{(x+1)^2+4}\): mínimo \(2\) em \(x=-1\); sempre côncava para cima; assíntotas \(y=x+1\) em \(+\infty \) e \(y=-x-1\) em \(-\infty \) (ramo de hipérbole). A função decresce em \((-\infty ,-1)\) e cresce em \((-1,\infty )\). Como

    \[ y''=\frac4{((x+1)^2+4)^{3/2}}\gt 0, \]

    é côncava para cima em toda a reta e não tem pontos de inflexão.

  21. Assíntotas \(x=-1\), \(x=2\) e \(y=1\); \(f'=\dfrac {-x(x+4)}{(x-2)^2(x+1)^2}\): mín. local \(\tfrac 89\) em \(x=-4\), máx. local \(0\) em \(x=0\); cruza \(y=1\) em \(x=-2\); inflexão em \(x\approx -6{,}11\). A função cresce em \((-4,-1)\) e \((-1,0)\), e decresce em \((-\infty ,-4)\), \((0,2)\) e \((2,\infty )\). Seja \(r\approx -6{,}107\) a única raiz real de \(x^3+6x^2+4=0\). Como

    \[ f''=\frac{2(x^3+6x^2+4)}{(x-2)^3(x+1)^3}, \]

    ela é côncava para baixo em \((-\infty ,r)\) e \((-1,2)\), e para cima em \((r,-1)\) e \((2,\infty )\). O ponto de inflexão é \((r,f(r))\).

As figuras do gabarito a seguir ilustram os dezesseis primeiros itens.
Figura não resolvida: figuras/gabarito-8-23
Exercício 11.60
Esboce o gráfico das seguintes funções:
  1. \(x+\cos (x)\)

  2. \(x^{1/3}(x+4)\)

  3. \(\ln (x^4+27)\)

  4. \(\ln (1-\ln (x))\)

  5. \(e^{\frac{-1}{x+1}}\)

  6. \(\ln (\operatorname {tg}^2 x)\)

  7. \(\dfrac {e^x}{x^2-9}\)

  8. \(x\operatorname {tg}{x}\) \(\qquad -\pi /2 \lt x\lt \pi /2\)

  9. \(e^{\cos (x)}\)

  10. \(\dfrac {1}{1-\cos (x)}\) \(-2\pi \lt x\lt 2\pi \)

  11. \(t \sqrt[3]{t^2-4}\)

Ver solução
Os esboços ao final usam as informações abaixo. As abreviações \(C_\uparrow \) e \(C_\downarrow \) têm o mesmo sentido do exercício anterior. Cada intervalo é considerado separadamente; \(k\in \mathbb Z\) nas fórmulas periódicas.
  1. \(f'=1-\operatorname {sen}x\geq 0\) e só se anula em pontos isolados, portanto \(f\) cresce em toda a reta, sem extremos. \(f''=-\cos x\): \(C_\uparrow :(\pi /2+2k\pi ,3\pi /2+2k\pi )\) e \(C_\downarrow :(-\pi /2+2k\pi ,\pi /2+2k\pi )\). Inflexões \((\pi /2+k\pi ,\pi /2+k\pi )\). Não há assíntota oblíqua: \(f(x)-x=\cos x\) não possui limite no infinito.

  2. Domínio \(\mathbb R\). Para \(x\neq 0\), \(f'=4(x+1)/(3x^{2/3})\). Decresce até \(-1\) e cresce depois, com mínimo global \(-3\). O crítico \(0\) não é extremo. Como \(f''=4(x-2)/(9x^{5/3})\), \(C_\uparrow :(-\infty ,0)\) e \((2,\infty )\); \(C_\downarrow :(0,2)\). Inflexões \((0,0)\) e \((2,6\sqrt[3]2)\). Zeros \(-4\) e \(0\); sem assíntotas.

  3. Domínio \(\mathbb R\), função par. \(f'=4x^3/(x^4+27)\): decresce até \(0\) e cresce depois; mínimo \(\ln 27\). Como

    \[ f''=\frac{4x^2(81-x^4)}{(x^4+27)^2}, \]

    temos \(C_\uparrow :(-3,3)\) e \(C_\downarrow :(-\infty ,-3)\) e \((3,\infty )\). Inflexões \((\pm 3,\ln 108)\); \(0\) não é inflexão. Sem assíntotas.

  4. Domínio \((0,e)\). \(f'=-1/[x(1-\ln x)]\lt 0\): decrescente, sem extremos. Como \(f''=-\ln x/[x^2(1-\ln x)^2]\), \(C_\uparrow :(0,1)\) e \(C_\downarrow :(1,e)\); inflexão \((1,0)\). Assíntotas \(x=0\) e \(x=e\), com limites \(+\infty \) e \(-\infty \), respectivamente.

  5. Domínio \(\mathbb R\setminus \{ -1\} \). A função cresce em cada ramo, pois \(f'=e^{-1/(x+1)}/(x+1)^2\gt 0\). Como \(f''=-(2x+1)e^{-1/(x+1)}/(x+1)^4\), \(C_\uparrow :(-\infty ,-1)\) e \((-1,-1/2)\); \(C_\downarrow :(-1/2,\infty )\). Inflexão \((-1/2,e^{-2})\). Assíntotas \(y=1\) nas duas extremidades e \(x=-1\) pelo lado esquerdo; pelo lado direito, o limite em \(-1\) é \(0\).

  6. Domínio \(\mathbb R\setminus \{ k\pi /2:k\in \mathbb Z\} \); período \(\pi \). Temos \(f'=4/\operatorname {sen}(2x)\): cresce em \((k\pi ,k\pi +\pi /2)\) e decresce em \((k\pi -\pi /2,k\pi )\), sem extremos. Como \(f''=-8\cos (2x)/\operatorname {sen}^2(2x)\), em cada período \(C_\downarrow :(k\pi ,k\pi +\pi /4)\) e \((k\pi +3\pi /4,k\pi +\pi )\); \(C_\uparrow :(k\pi +\pi /4,k\pi +\pi /2)\) e \((k\pi +\pi /2,k\pi +3\pi /4)\). Inflexões \((\pi /4+k\pi /2,0)\). Assíntotas verticais em todos os pontos excluídos; limite \(-\infty \) em \(k\pi \) e \(+\infty \) em \(\pi /2+k\pi \).

  7. Domínio \(\mathbb R\setminus \{ -3,3\} \). Ponha \(r_\pm =1\pm \sqrt{10}\). Como \(f'=e^x(x^2-2x-9)/(x^2-9)^2\), cresce em \((-\infty ,-3)\), \((-3,r_-)\) e \((r_+,\infty )\), e decresce em \((r_-,3)\) e \((3,r_+)\). Máximo local em \(r_-\) e mínimo local em \(r_+\), com valores \(e^{r_\pm }/(2r_\pm )\). Além disso,

    \[ f''=\frac{e^x\bigl((x^2-2x-9)^2+2x^2+18\bigr)}{(x^2-9)^3}. \]

    Portanto, \(C_\uparrow :(-\infty ,-3)\) e \((3,\infty )\); \(C_\downarrow :(-3,3)\); sem inflexões. Assíntotas \(x=\pm 3\) e \(y=0\) apenas em \(-\infty \).

  8. Domínio \((-\pi /2,\pi /2)\), função par. \(f'=\operatorname {tg}x+x\sec ^2x\) tem o sinal de \(x\), logo há mínimo global \(0\) em \(0\). Como \(f''=2\sec ^2x(1+x\operatorname {tg}x)\gt 0\), é convexa, sem inflexões. Assíntotas \(x=\pm \pi /2\), com limites \(+\infty \).

  9. Domínio \(\mathbb R\), função par de período \(2\pi \). \(f'=-e^{\cos x}\operatorname {sen}x\): decresce em \((2k\pi ,(2k+1)\pi )\) e cresce em \(((2k-1)\pi ,2k\pi )\). Máximos \(e\) em \(2k\pi \) e mínimos \(e^{-1}\) em \((2k+1)\pi \). Escreva \(\alpha =\arccos ((\sqrt5-1)/2)\). Como \(f''=e^{\cos x}(\operatorname {sen}^2x-\cos x)\), \(C_\downarrow :(2k\pi -\alpha ,2k\pi +\alpha )\) e \(C_\uparrow :(2k\pi +\alpha ,2(k+1)\pi -\alpha )\). Inflexões em \(2k\pi \pm \alpha \), de valor \(e^{(\sqrt5-1)/2}\). Sem assíntotas.

  10. Domínio \((-2\pi ,0)\cup (0,2\pi )\), função par. \(f'=-\operatorname {sen}x/(1-\cos x)^2\): cresce em \((-\pi ,0)\) e \((\pi ,2\pi )\) e decresce em \((-2\pi ,-\pi )\) e \((0,\pi )\). Mínimos \(1/2\) em \(\pm \pi \). Como \(f''=(2+\cos x)/(1-\cos x)^2\gt 0\), é convexa em cada componente, sem inflexões. Assíntotas \(x=-2\pi ,0,2\pi \), com limites \(+\infty \) pelos lados do domínio.

  11. Domínio \(\mathbb R\), função ímpar. Para \(t\neq \pm 2\),

    \[ f'(t)=\frac{5t^2-12}{3\sqrt[3]{(t^2-4)^2}},\qquad f''(t)=\frac{2t(5t^2-36)}{9\sqrt[3]{(t^2-4)^5}}. \]

    Ponha \(r=\sqrt{12/5}\) e \(s=6/\sqrt5\). Cresce em \((-\infty ,-r)\) e \((r,\infty )\), inclusive através das tangentes verticais em \(\pm 2\), e decresce em \((-r,r)\). Máximo local \(r\sqrt[3]{8/5}\) em \(-r\) e mínimo local \(-r\sqrt[3]{8/5}\) em \(r\). Temos \(C_\uparrow :(-s,-2)\), \((0,2)\) e \((s,\infty )\); \(C_\downarrow :(-\infty ,-s)\), \((-2,0)\) e \((2,s)\). Inflexões em \(-s,-2,0,2,s\), com ordenadas dadas por \(f\); nos pontos \(\pm 2\) a continuidade e a mudança de concavidade bastam, embora a derivada não exista. Zeros \(-2,0,2\); sem assíntotas.

Figura não resolvida: figuras/gabarito-8-24
Exercício 11.61
Em cada item, considere \(a,b\in \mathbb {R}\). Determine os pontos críticos e os pontos de inflexão de \(f\) em função dos parâmetros, justificando as mudanças de concavidade.
  1. \(\displaystyle f(x) = \frac{a}{x^2+b^2}\)

  2. \(\displaystyle f(x) = \operatorname {sen}(ax+b)\)

  3. \(\displaystyle f(x) = (x-a)(x-b)\)

Ver solução
  1. Se \(b\neq 0\) e \(a\neq 0\), o único ponto crítico é \(0\), com valor \(a/b^2\), e as inflexões são \((\pm |b|/\sqrt3,3a/(4b^2))\). Isso segue de \(f'=-2ax/(x^2+b^2)^2\) e \(f''=2a(3x^2-b^2)/(x^2+b^2)^3\). Se \(b=0\) e \(a\neq 0\), o domínio exclui \(0\), e não há pontos críticos nem inflexões. Se \(a=0\), a função é constante em seu domínio: todo ponto do domínio é crítico e não há inflexões; quando também \(b=0\), o ponto \(0\) continua excluído.

  2. Se \(a\neq 0\), os críticos são \(x=(\pi /2+k\pi -b)/a\), com valores \((-1)^k\), e as inflexões são \(((k\pi -b)/a,0)\), \(k\in \mathbb Z\). Se \(a=0\), a função é constante: todos os pontos são críticos e não há inflexões.

  3. \(f'=2x-a-b\) e \(f''=2\). O único crítico é \((a+b)/2\), mínimo de valor \(-(a-b)^2/4\); não há inflexões.

Exercício 11.62 (Esboço a partir do sinal de \(f'\))
Esboce o gráfico de uma função \(f\), contínua em \(\mathbb {R}\) e derivável em todo \(x\neq 0\), tal que:
  1. \(f(0)=2\) e \(f(-1)=f(1)=-3\);

  2. \(f'(-1)=f'(1)=0\) e \(f'(0)\) não existe;

  3. \(f'(x)\gt 0\) para \(-1\lt x\lt 0\) e para \(x\gt 1\);

  4. \(f'(x)\lt 0\) para \(x\lt -1\) e para \(0\lt x\lt 1\).

Identifique os extremos locais e descreva o gráfico perto de \(x=0\).
Ver solução
\(f\) decresce em \((-\infty ,-1)\), cresce em \((-1,0)\), decresce em \((0,1)\) e cresce em \((1,\infty )\). Há mínimos locais \((-1,-3)\) e \((1,-3)\) e um máximo local \((0,2)\), onde o gráfico tem um bico: as inclinações laterais diferem. Um exemplo é \(f(x)=5(|x|-1)^2-3\), com derivadas laterais \(f'_-(0)=10\) e \(f'_+(0)=-10\).

\begin{tikzpicture} \end{tikzpicture}
[x=1.15cm,y=.42cm,>=Stealth,font=] [->,fuvPrimaria] (-2.5,0)–(2.6,0) node[right]\(x\); [->,fuvPrimaria] (0,-3.7)–(0,5) node[above]\(y\); [fuvNeutra,dashed] (-1,0)–(-1,-3) (1,0)–(1,-3); [fuvAlerta,thick,domain=-2.2:0,samples=60] plot (,5*(--1)^2-3); [fuvAlerta,thick,domain=0:2.2,samples=60] plot (,5*(-1)^2-3); in -1,1 fuvAlerta] (,-3) circle(1.8pt); fuvAlerta] (0,2) circle(1.8pt); [above right] at (0,2) \((0,2)\); [below] at (-1,-3) \((-1,-3)\); [below] at (1,-3) \((1,-3)\); [above] at (-1,0) \(-1\); [above] at (1,0) \(1\);
\end{tikzpicture}

Exercício 11.63 (Esboço com concavidade)
Esboce o gráfico de uma função \(f\), derivável em \(\mathbb {R}\), tal que:
  1. \(f(0)=2\), \(f(2)=4\) e \(f'(0)=f'(2)=0\);

  2. \(f'(x)\lt 0\) se \(|x-1|\gt 1\) e \(f'(x)\gt 0\) se \(|x-1|\lt 1\);

  3. \(f''(x)\gt 0\) se \(x\lt 1\) e \(f''(x)\lt 0\) se \(x\gt 1\).

Escreva primeiro as condições com módulo como uniões de intervalos.
Ver solução
\(|x-1|\gt 1\) significa \(x\lt 0\) ou \(x\gt 2\), e \(|x-1|\lt 1\) significa \(0\lt x\lt 2\). Assim, \(f\) decresce em \((-\infty ,0)\) e em \((2,\infty )\) e cresce em \((0,2)\): mínimo local \((0,2)\) e máximo local \((2,4)\). A concavidade muda em \(x=1\), que é ponto de inflexão. Um exemplo é
\begin{gather*} f(x)=2+\frac{3x^2-x^3}{2},\\ f’(x)=\frac32\, x(2-x),\qquad f”(x)=3(1-x); \end{gather*}
a inflexão é \((1,3)\).

\begin{tikzpicture} \end{tikzpicture}
[x=1.05cm,y=.62cm,>=Stealth,font=] [->,fuvPrimaria] (-1.4,0)–(3.6,0) node[right]\(x\); [->,fuvPrimaria] (0,-.3)–(0,5.4) node[above]\(y\); [fuvNeutra,dashed] (2,0)–(2,4) (1,0)–(1,3); [fuvAlerta,thick,domain=-1.1:3.15,samples=80] plot (,2+(3**-**)/2); fuvAlerta] (0,2) circle(1.8pt) (2,4) circle(1.8pt); fuvDestaque] (1,3) circle(1.8pt); [below right] at (0,2) \((0,2)\); [above] at (2,4) \((2,4)\); [fuvDestaque,right] at (1.06,2.55) inflexão; [below] at (1,0) \(1\); [below] at (2,0) \(2\);
\end{tikzpicture}

Exercício 11.64
Determine intervalos de crescimento, decrescimento, concavidade e pontos de inflexão de \(f(x)=x^3-3x^2-9x+2\). Use essas informações para fazer um esboço qualitativo.
Ver solução
\(f'=3(x+1)(x-3)\): a função cresce em \((-\infty ,-1)\) e \((3,\infty )\) e decresce em \((-1,3)\). Há máximo local em \((-1,7)\) e mínimo local em \((3,-25)\). Como \(f''=6(x-1)\), a concavidade é para baixo em \((-\infty ,1)\) e para cima em \((1,\infty )\), com inflexão em \((1,-9)\).

11.8 Problemas de otimização

Até aqui, partíamos de uma função para estudar seu comportamento. Nos problemas de otimização, a situação concreta vem primeiro: é preciso construir uma função que represente a grandeza a ser maximizada ou minimizada. Buscamos, então, seus extremos entre os valores admissíveis da variável, levando em conta as restrições do problema.

A dificuldade principal nem sempre está em derivar. Muitas vezes, está em escolher a grandeza que pode variar e perceber quais relações a restringem. Uma vez escrita a função, devemos ainda verificar seu domínio: um ponto crítico matematicamente correto pode descrever uma configuração impossível. Os exemplos seguintes mostram como essa passagem da situação para a expressão algébrica se faz em contextos bastante diversos.

Figura não resolvida: figuras/graficos-otimizacao-margem.tex
Exemplo 11.63 (Uma caixa sem tampa)
Uma caixa sem tampa deve ser construída a partir de uma folha quadrada de \(60\, \mathrm{cm}\) de lado. Para isso, recortam-se quadrados congruentes nos quatro cantos e dobram-se as abas restantes. Qual deve ser o lado dos quadrados recortados para que o volume da caixa seja máximo?

Figura não resolvida: figuras/otimizacao-caixa-aberta

Figura 11.45 Ao retirar quadrados de lado \(x\), a altura da caixa é \(x\) e cada lado da base passa a medir \(60-2x\).

Solução

Chamemos de \(x\) o lado dos quadrados retirados. Ao dobrar as abas, cada corte fornece a altura da caixa, enquanto a base fica com lado \(60-2x\). O volume é, portanto,

\[ V(x)=x(60-2x)^2. \]

Não basta, porém, maximizar essa expressão em toda a reta. Como não podemos recortar um quadrado de lado negativo nem retirar mais da metade da folha, temos

\[ 0\leq x\leq 30. \]

Nos dois extremos a caixa fica degenerada, com volume nulo. No interior do intervalo, a derivada é

\[ V'(x)=(60-2x)(60-6x). \]

O fator \(60-2x\) só se anula na extremidade \(x=30\); assim, o único ponto crítico interior é \(x=10\). Para decidir o máximo absoluto, comparamos

\[ V(0)=0,\qquad V(10)=10\cdot 40^2=16000,\qquad V(30)=0. \]

O maior volume possível é, portanto,

\[ 16000\, \mathrm{cm}^3, \]

obtido quando recortamos quadrados de lado \(10\, \mathrm{cm}\). A caixa ótima tem, portanto, base \(40\, \mathrm{cm}\times 40\, \mathrm{cm}\) e altura \(10\, \mathrm{cm}\).

O método de comparação de candidatos em um intervalo fechado não se aplica diretamente a todos os problemas. No exemplo seguinte, o raio pode assumir qualquer valor positivo; usaremos o sinal da derivada para localizar o mínimo global.

Exemplo 11.64 (A lata de leite perfeita)
Uma lata de leite cilíndrica e fechada deve armazenar um volume fixo \(V_0\gt 0\). Supondo que a mesma quantidade de material seja usada por unidade de área na lateral, na tampa e na base, determine as dimensões que minimizam a quantidade total de material. Em particular, qual é a razão entre a altura e o diâmetro da lata?

Figura não resolvida: figuras/otimizacao-lata
figure
Para um volume fixo \(V_0\), variam o raio \(r\) e a altura \(h\) da lata cilíndrica fechada.

Solução
Sejam \(r\) e \(h\) o raio da base e a altura da lata. A restrição de volume é

\begin{equation} V_0=\pi r^2h. \label{vollata} \tag{11.1} \end{equation}

A área total de material, incluindo a tampa e a base, é

\begin{equation} A=2\pi r^2+2\pi rh. \label{arealata} \tag{11.2} \end{equation}

Da restrição de volume,
\[ h=\frac{V_0}{\pi r^2}. \]
Substituindo em 11.2, obtemos uma função apenas do raio:
\[ A(r)=2\pi r^2+\frac{2V_0}{r}, \qquad r\gt 0. \]
Derivando,
\[ A'(r) =4\pi r-\frac{2V_0}{r^2} =\frac{2(2\pi r^3-V_0)}{r^2}. \]
Como \(r^2\gt 0\), a derivada é negativa antes de
\[ r_*=\left(\frac{V_0}{2\pi }\right)^{1/3} \]
e positiva depois desse ponto. Portanto, \(r_*\) fornece o mínimo global da área. A altura correspondente é
\[ h_*=\frac{V_0}{\pi r_*^2}=2r_*. \]
Assim, a lata que utiliza menos material tem
\[ \boxed {h=2r}, \]
isto é, sua altura é exatamente igual ao diâmetro da base.

A proporção ótima \(h=2r\) é consequência do volume fixo e do custo uniforme de material. Diferentemente da caixa anterior, o domínio admissível aqui é aberto e ilimitado; por isso, não basta comparar valores em extremidades.

Exemplo 11.65 (Quando abandonar uma fonte de alimento?)
Um animal leva um tempo fixo \(\tau \gt 0\) para chegar a uma fonte de alimento. Depois de permanecer nela por um tempo \(t\gt 0\), o ganho energético acumulado é modelado por
\[ G(t)=G_{\max }\frac{t}{b+t}, \qquad b\gt 0. \]
Depois de abandonar a fonte, um novo ciclo começa e exige novamente o tempo de deslocamento \(\tau \). Por quanto tempo o animal deve permanecer em cada fonte para maximizar o ganho médio de energia por unidade de tempo?

Figura não resolvida: figuras/otimizacao-forrageamento
figure
O deslocamento até a fonte consome tempo \(\tau \); a permanência dura \(t\). A curva à direita representa o ganho médio \(R(t)\), cujo máximo ocorre em \(t_*\).

Solução
O animal não ganha energia durante o deslocamento, mas esse tempo faz parte de cada ciclo. Se permanece \(t\) unidades de tempo na fonte e leva \(\tau \) para alcançar a próxima, o ganho médio por unidade de tempo é
\[ R(t)=\frac{G(t)}{t+\tau } =G_{\max }\frac{t}{(b+t)(t+\tau )}. \]
Derivando,
\[ R'(t) =G_{\max } \frac{b\tau -t^2}{(b+t)^2(t+\tau )^2}. \]
O denominador é positivo para \(t\gt 0\). Assim, \(R\) cresce enquanto \(t\lt \sqrt{b\tau }\) e decresce depois desse valor. Logo,
\[ \boxed {t_*=\sqrt{b\tau }}. \]
A fórmula dá uma interpretação direta: quanto mais demorado for alcançar outra fonte, mais compensa explorar a atual. Já o parâmetro \(b\) estabelece a escala de saturação do ganho, pois \(G(b)=G_{\max }/2\). O ótimo resulta do compromisso entre o ganho adicional, cada vez menor, e o tempo gasto para procurar alimento em outro lugar.

Exemplo 11.66
Um arame de comprimento \(L\gt 0\) será distribuído entre um quadrado e um triângulo equilátero. Determine a maior soma de áreas quando se admite comprimento zero para uma das partes. Se o corte tiver de produzir duas partes de comprimento estritamente positivo, essa soma máxima será atingida?

Solução

Se \(a\) é o lado do quadrado e \(b\), o lado do triângulo, a restrição é \(4a+3b=L\). A soma das áreas é

\[ A=a^2+\frac{\sqrt3}{4}b^2. \]

Substituindo \(a=(L-3b)/4\), obtemos

\begin{equation} \label{5.20} A(b)=\frac{(9+4\sqrt3)b^2-6Lb+L^2}{16}. \tag{11.3} \end{equation}

Quando se admite uma parte nula, \(0\leq b\leq L/3\). Se ambas devem ter comprimento positivo, o domínio é \(0\lt b\lt L/3\). Essa distinção aparentemente pequena mudará a resposta: uma coisa é o maior valor possível, outra é um valor do qual podemos nos aproximar sem jamais atingi-lo.

Temos

\[ A'(b)=\frac{(9+4\sqrt3)b-3L}{8}, \qquad A''(b)=\frac{9+4\sqrt3}{8}\gt 0. \]

A segunda derivada é positiva: o gráfico é estritamente convexo. Por isso, seu único ponto crítico, \(b=3L/(9+4\sqrt3)\), fornece o mínimo global. No intervalo fechado, o máximo deve ocorrer em uma extremidade. Os valores são

\[ A(0)=\frac{L^2}{16}, \qquad A(L/3)=\frac{\sqrt3L^2}{36}. \]

Como \(\sqrt3/36\lt 1/16\), o máximo ocorre em \(b=0\): todo o arame é usado no quadrado, de lado \(L/4\).

Se exigimos que as duas partes tenham comprimento positivo, porém, \(b=0\) deixa de ser permitido. Podemos tornar \(b\) tão pequeno quanto quisermos e fazer a soma das áreas aproximar-se de \(L^2/16\), mas nunca alcançar esse valor. Nesse domínio aberto não existe máximo: \(L^2/16\) é apenas o supremo. O cálculo não mudou; mudou o conjunto de configurações admissíveis.

O fato de o domínio ser um intervalo aberto não impede que uma função atinja um máximo ou um mínimo absoluto. Nesses casos, o estudo do sinal da derivada, como no esboço de gráficos, pode permitir identificar o extremo.

Exemplo 11.67 (Minimização da energia potencial entre duas cargas)

Duas cargas pontuais positivas \(q_1\) e \(q_2\) estão fixas nos pontos \(0\) e \(L\) de um eixo, com \(L\gt 0\). Em que posição entre elas devemos colocar uma terceira carga positiva para que sua energia potencial seja mínima?

A energia potencial de duas cargas pontuais positivas \(Q\) e \(q\), separadas por uma distância \(r\), é dada por

\[ U=\frac{kQq}{r}, \]

em que \(k\gt 0\) é uma constante. Como as contribuições das duas cargas fixas se somam, a energia potencial da terceira carga, de valor \(q\gt 0\), colocada na posição \(x\) entre elas, é

\[ U(x)=kq\left(\frac{q_1}{x}+\frac{q_2}{L-x}\right), \qquad 0\lt x\lt L. \]

Figura não resolvida: figuras/otimizacao-potencial-eletrostatico
Figura 11.46 O sinal de \(U'\) muda de negativo para positivo no ponto \(x_*\): a energia potencial decresce e depois cresce.

Solução

Derivando, obtemos

\[ U'(x)=kq\left(-\frac{q_1}{x^2}+\frac{q_2}{(L-x)^2}\right). \]

Como \(q_1,q_2\gt 0\) e \(0\lt x\lt L\), a condição \(U'(x)=0\) equivale a

\[ \frac{\sqrt{q_1}}{x}=\frac{\sqrt{q_2}}{L-x}. \]

Logo, o único ponto crítico é

\[ x_*=\frac{L\sqrt{q_1}}{\sqrt{q_1}+\sqrt{q_2}}. \]

O termo \(q_1/x^2\) decresce e o termo \(q_2/(L-x)^2\) cresce quando \(x\) aumenta. Assim, \(U'(x)\lt 0\) para \(x\lt x_*\) e \(U'(x)\gt 0\) para \(x\gt x_*\). Portanto, a energia potencial atinge seu mínimo absoluto em \(x_*\), apesar de o domínio ser um intervalo aberto.

Além disso, \(U(x)\to +\infty \) quando \(x\to 0^+\) ou \(x\to L^-\); logo, a função não possui máximo absoluto.

Exemplo 11.68
Uma calha será construída com uma folha de metal de \(30\, \mathrm{cm}\) de largura. As duas abas laterais, cada uma com \(10\, \mathrm{cm}\) de largura, serão dobradas para cima, formando um ângulo \(\theta \) com a horizontal. Determine o ângulo que maximiza a quantidade de água que a calha pode conter.

Ilustração: Problemas de otimização

Solução
O comprimento da calha não varia. Por isso, a quantidade de água que ela pode conter depende apenas da área de sua seção transversal. A Figura 11.47 mostra como calcular essa área a partir da inclinação das abas.
Figura não resolvida: figuras/otimizacao-calha
Figura 11.47 A seção trapezoidal decompõe-se em um retângulo e dois triângulos, com \(b=10\cos \theta \) e \(h=10\operatorname {sen}\theta \).
A seção é formada por um retângulo central e dois triângulos. Como \(b=10\cos \theta \) e \(h=10\operatorname {sen}\theta \), sua área é
\[ A=10h+ 2\left(\dfrac {1}{2} bh\right)=100 \operatorname {sen}\theta + (10 \operatorname {sen}\theta ) (10 \cos \theta ) \]
\[ A=100(\operatorname {sen}\theta +\operatorname {sen}\theta \cos \theta ) \]
As abas podem variar da posição horizontal à vertical, de modo que \(0\leq \theta \leq \pi /2\). Derivando, obtemos
\begin{align*} A’(\theta )& = 100(\cos \theta +\cos ^2 \theta - \operatorname {sen}^2 \theta ) \\ & = 100(\cos \theta +\cos ^2 \theta - (1- \cos ^2 \theta )) \\ & = 100(2 \cos ^2 \theta +\cos \theta - 1) \\ & = 100(2 \cos \theta -1)( \cos \theta +1) \end{align*}
No intervalo considerado, o fator \(\cos \theta +1\) é positivo. Portanto, o único ponto crítico é dado por \(\cos \theta =1/2\), isto é, \(\theta =\pi /3\). Para confirmar que se trata do máximo absoluto, basta comparar os valores nas extremidades e nesse ponto:
\[ A(0)=0,\qquad A(\pi /3)=75\sqrt3\approx 129{,}9,\qquad A(\pi /2)=100. \]
A inclinação que permite à calha comportar mais água é, assim, \(\boxed {\theta =\pi /3}\).

Exemplo 11.69 (A maior escada que contorna uma esquina)
Dois corredores perpendiculares têm larguras \(a\gt 0\) e \(b\gt 0\). Determine o maior comprimento de uma escada rígida que pode ser transportada horizontalmente ao contornar a esquina.

Figura 11.48 Na posição crítica, a escada toca as duas paredes externas e a quina interna. Para um ângulo θ , seu comprimento é L(θ )=dfrac asenθ +(b)/(cos θ ).

Figura 11.48 Na posição crítica, a escada toca as duas paredes externas e a quina interna. Para um ângulo \(\theta \), seu comprimento é \(L(\theta )=\dfrac {a}{\operatorname {sen}\theta }+\dfrac {b}{\cos \theta }\).

Solução

Para um ângulo \(\theta \in (0,\pi /2)\), a quina interna divide a escada em dois segmentos. Pela trigonometria da figura, seus comprimentos são

\[ \frac{a}{\operatorname {sen}\theta } \qquad \text{e}\qquad \frac{b}{\cos \theta }. \]

Assim,

\[ L(\theta )=\frac{a}{\operatorname {sen}\theta }+\frac{b}{\cos \theta }, \qquad 0\lt \theta \lt \frac{\pi }{2}. \]

Aqui aparece uma inversão interessante. Para cada inclinação, \(L(\theta )\) mede o comprimento disponível na posição em que a escada passa pela quina e toca as paredes externas. Durante a manobra, a escada precisa atravessar todas essas posições. Seu comprimento não pode exceder, portanto, a menor das aberturas disponíveis. É por isso que encontrar a maior escada exige minimizar \(L(\theta )\).

Derivando,

\[ L'(\theta ) =-\frac{a\cos \theta }{\operatorname {sen}^2\theta } +\frac{b\operatorname {sen}\theta }{\cos ^2\theta }. \]

A condição \(L'(\theta )=0\) equivale a

\[ b\operatorname {sen}^3\theta =a\cos ^3\theta , \]

ou seja,

\[ \operatorname {tg}\theta =\left(\frac{a}{b}\right)^{1/3}. \]

Como \(\operatorname {tg}\theta \) é estritamente crescente em \((0,\pi /2)\), esse é o único ponto crítico. Além disso,

\[ L(\theta )\longrightarrow +\infty \quad \text{quando}\quad \theta \to 0^+ \quad \text{ou}\quad \theta \to \left(\frac{\pi }{2}\right)^-. \]

Portanto, \(L\) atinge seu mínimo global nesse ponto.

Figura não resolvida: figuras/otimizacao-triangulo-uv

Para calcular esse mínimo, escrevemos \(u=a^{1/3}\) e \(v=b^{1/3}\). No ponto crítico, \(\operatorname {tg}\theta =u/v\); portanto,

\[ \operatorname {sen}\theta =\frac{u}{\sqrt{u^2+v^2}}, \qquad \cos \theta =\frac{v}{\sqrt{u^2+v^2}}. \]

Substituindo em \(L\),

\[ L_{\max } =\sqrt{u^2+v^2}\left(\frac{a}{u}+\frac{b}{v}\right) =(u^2+v^2)^{3/2}. \]

Portanto,

\[ \boxed {L_{\max }= \left(a^{2/3}+b^{2/3}\right)^{3/2}}. \]

Exemplo 11.70 (Princípio de Fermat e lei de Snell)
Dois meios homogêneos são separados por uma interface plana. No primeiro, a luz se propaga com velocidade \(v_1\); no segundo, com velocidade \(v_2\). Um raio deve ir de \(A=(0,a)\) a \(B=(L,-b)\), com \(a,b,L\gt 0\), atravessando a interface \(y=0\). Em que ponto deve ocorrer a passagem de um meio para o outro para que o tempo de percurso seja mínimo? Que relação os ângulos do caminho ótimo satisfazem?

Figura não resolvida: figuras/otimizacao-snell

Figura 11.49 O ponto \(P=(x,0)\) pode deslizar pela interface. O princípio de Fermat seleciona o caminho que minimiza o tempo total de percurso.

Solução

Se o raio cruza a interface em \(P=(x,0)\), com \(0\leq x\leq L\), as distâncias percorridas nos dois meios são

\[ AP=\sqrt{x^2+a^2} \qquad \text{e}\qquad PB=\sqrt{(L-x)^2+b^2}. \]

O tempo gasto em cada trecho é a distância percorrida dividida pela velocidade naquele meio. Assim, o tempo total é

\[ T(x)=\frac{\sqrt{x^2+a^2}}{v_1} +\frac{\sqrt{(L-x)^2+b^2}}{v_2}. \]

O objetivo é minimizar o tempo, não a distância. Quando as velocidades são diferentes, o trajeto mais rápido pode ser geometricamente mais longo: vale a pena percorrer um trecho maior no meio em que a luz se propaga mais depressa.

Derivando,

\[ T'(x)= \frac{x}{v_1\sqrt{x^2+a^2}} -\frac{L-x}{v_2\sqrt{(L-x)^2+b^2}}. \]

Além disso,

\[ T'(0)\lt 0 \qquad \text{e}\qquad T'(L)\gt 0, \]

de modo que existe um ponto crítico no interior. Mais ainda,

\[ T''(x)= \frac{a^2}{v_1(x^2+a^2)^{3/2}} +\frac{b^2}{v_2((L-x)^2+b^2)^{3/2}}\gt 0. \]

Assim, o tempo é estritamente convexo. Há exatamente um ponto crítico, e ele fornece o menor tempo de percurso.

No ponto de mínimo, \(T'(x)=0\), isto é,

\[ \frac{x}{v_1\sqrt{x^2+a^2}} = \frac{L-x}{v_2\sqrt{(L-x)^2+b^2}}. \]

Se \(\theta _1\) e \(\theta _2\) são os ângulos que os dois trechos do raio formam com a normal à interface, a Figura 11.49 mostra que

\[ \operatorname {sen}\theta _1=\frac{x}{\sqrt{x^2+a^2}}, \qquad \operatorname {sen}\theta _2=\frac{L-x}{\sqrt{(L-x)^2+b^2}}. \]

Assim, a condição de mínimo se transforma em

\[ \boxed {\frac{\operatorname {sen}\theta _1}{v_1} =\frac{\operatorname {sen}\theta _2}{v_2}}. \]

Se \(c\) é a velocidade da luz no vácuo e \(n_i=c/v_i\) é o índice de refração do meio \(i\), obtemos a forma usual da lei de Snell:

\[ n_1\operatorname {sen}\theta _1=n_2\operatorname {sen}\theta _2. \]

Neste modelo de dois meios homogêneos, a lei de Snell resulta da minimização do tempo de percurso.

Exemplo 11.71 (Por que o arco-íris aparece perto de \(42^\circ \)?)
Considere um raio de luz que entra em uma gota esférica de água, sofre uma reflexão interna e depois emerge. Se \(i\) é o ângulo de incidência e \(r\) o ângulo de refração, medidos em relação à normal à superfície, considere \(0\leq i\leq \pi /2\) e \(0\leq r\lt \pi /2\). A lei de Snell dá
\[ \operatorname {sen}i=n\, \operatorname {sen}r, \]
em que \(1\lt n\lt 2\) é o índice de refração da água em relação ao ar. Mostre que o desvio total do raio possui um valor mínimo e determine, para \(n=4/3\), o ângulo correspondente em relação à direção oposta ao Sol.

Figura não resolvida: figuras/otimizacao-arco-iris-margem
figure
O arco-íris primário aparece a cerca de \(42^\circ \) da direção antissolar.

Figura não resolvida: figuras/otimizacao-arco-iris
figure
Um raio entra na gota, sofre uma reflexão interna e emerge. O arco-íris primário corresponde ao desvio estacionário desse caminho óptico.

Solução

A geometria da gota permite escrever o desvio sofrido pelo raio. Na entrada e na saída, a direção muda em \(i-r\); na reflexão interna, em \(\pi -2r\). Somando essas contribuições, obtemos

\[ D(i)=\pi +2i-4r(i). \]

A relação entre \(i\) e \(r\) é dada pela lei de Snell,

\[ \operatorname {sen}i=n\, \operatorname {sen}r. \]

Diferenciando em relação a \(i\),

\[ \cos i=n\cos r\, \frac{dr}{di}, \]

e, assim,

\[ D'(i) =2-\frac{4\cos i}{n\cos r}. \]

Como \(n\cos r=\sqrt{n^2-\operatorname {sen}^2i}\), podemos escrever

\[ D'(i)=2-\frac{4\cos i}{\sqrt{n^2-\operatorname {sen}^2i}}, \qquad D''(i)=\frac{4(n^2-1)\operatorname {sen}i}{(n^2-\operatorname {sen}^2i)^{3/2}}\gt 0 \]

para \(0\lt i\lt \pi /2\). Portanto, \(D'\) é estritamente crescente nesse intervalo. Além disso,

\[ D'(0)=2-\frac4n\lt 0, \qquad D'(\pi /2)=2\gt 0. \]

Há, assim, um único ponto crítico interior: nele, \(D'\) passa de negativa a positiva, e o desvio atinge seu mínimo global. No ponto crítico,

\[ 2\cos i=n\cos r. \]

Combinando essa relação com \(\operatorname {sen}i=n\operatorname {sen}r\) e usando \(\operatorname {sen}^2i+\cos ^2i=1\), obtemos

\[ \operatorname {sen}^2r=\frac{4-n^2}{3n^2}. \]

Para \(n=4/3\),

\[ \operatorname {sen}^2r=\frac5{12}, \]

de modo que

\[ r\approx 40{,}2^\circ , \qquad i\approx 59{,}4^\circ . \]

Logo,

\[ D_{\min } =\pi +2i-4r \approx 138^\circ . \]

O observador mede o raio emergente em relação à direção oposta à luz solar, isto é, em relação ao ponto antissolar. O ângulo correspondente é

\[ \boxed {\alpha =\pi -D_{\min }\approx 42^\circ }. \]

O cálculo foi feito para um único índice de refração. Na água, esse índice varia ligeiramente com o comprimento de onda da luz. Cada cor tem, portanto, seu próprio ângulo de desvio mínimo, o que ajuda a explicar a separação das cores no arco-íris.

Exercício 11.65 (Uma exigência muda a melhor escolha)

O custo de uma escolha real \(x\geq 0\) é modelado por

\[ C(x)=(x-4)^2+4. \]

Uma exigência impõe \(x\geq m\), com \(m\geq 0\). Nos painéis, o trecho admissível está destacado.

  1. Determine a escolha de menor custo para \(m=2\) e para \(m=6\). No segundo caso, a derivada precisa ser zero na escolha ótima?

  2. Descreva a escolha ótima \(x_*(m)\) para todo \(m\geq 0\). Em que faixa o aumento da exigência ainda não altera a escolha, e a partir de quando passa a alterá-la?

Ilustração: Problemas de otimização

Ver solução
  1. Para \(m=2\), o mínimo ocorre em \(x=4\), com custo \(4\). Para \(m=6\), \(C\) é crescente em todo o conjunto admissível, e o mínimo ocorre na extremidade \(x=6\), com custo \(8\). Ali, \(C'(6)=4\neq 0\); a condição de Fermat se refere a extremos interiores, não a uma extremidade imposta pela restrição.

  2. \(x_*(m)=4\) para \(0\leq m\leq 4\) e \(x_*(m)=m\) para \(m\gt 4\). Até \(m=4\), a escolha sem restrição continua disponível; acima disso, a melhor escolha acompanha o menor valor permitido.

Exercício 11.66 (O inteiro mais próximo pode não ser o melhor)
Um modelo atribui ao número inteiro \(n\geq 1\) o custo
\[ C(n)=10n+\frac{61}{n}. \]
Para orientar a escolha, estende-se a expressão aos reais \(x\gt 0\).
  1. Encontre o mínimo do modelo contínuo e verifique que sua abscissa fica entre \(2\) e \(2{,}5\). Qual seria a escolha obtida por arredondamento para o inteiro mais próximo?

  2. Determine o melhor inteiro. Use a monotonicidade do modelo contínuo para explicar por que basta comparar \(2\) e \(3\), e decida se o arredondamento do item anterior era válido.

Ver solução
  1. \(C'(x)=10-61/x^2\) muda de negativo para positivo em \(x_* =\sqrt{61/10}\). O valor mínimo é \(C(x_*)=2\sqrt{610}\). Como \(4\lt 61/10\lt 25/4\), temos \(2\lt x_*\lt 2{,}5\); o arredondamento escolheria \(2\).

  2. \(C\) decresce antes de \(x_*\) e cresce depois. Entre os inteiros à esquerda, \(2\) é o melhor; entre os à direita, \(3\) é o melhor. Contudo,

    \[ C(2)=\frac{101}{2}=50{,}5,\qquad C(3)=\frac{151}{3}\approx 50{,}333, \]

    e \(C(3)\lt C(2)\). O ótimo inteiro é \(3\), embora \(2\) esteja mais perto do ótimo contínuo. Proximidade na variável não é o mesmo que proximidade no custo.

Exercício 11.67
Um homem dispõe de \(100\) metros de cerca e deseja construir um cercado retangular de área máxima. Quais devem ser as dimensões do cercado?
Figura não resolvida: figuras/otimizacao-cercado
Ver solução
Se os lados são \(x\) e \(y\), então \(2x+2y=100\), isto é, \(y=50-x\). Logo,
\[ A(x)=x(50-x),\qquad 0\leq x\leq 50. \]
Como \(A'(x)=50-2x\), o único ponto crítico interior é \(x=25\). Comparando com os extremos, \(A(0)=A(50)=0\) e \(A(25)=625\). Portanto, o cercado ótimo é um quadrado de lado \(25\, \mathrm m\), com área \(625\, \mathrm m^2\).

Exercício 11.68
Quais são as dimensões do retângulo de maior área contido no disco de raio \(1\)?
Ver solução
Se os lados são \(u,v\), a diagonal mede \(2\), logo \(u^2+v^2=4\). Assim, \(uv\leq (u^2+v^2)/2=2\), com igualdade quando \(u=v=\sqrt2\). O retângulo ótimo é um quadrado de lado \(\sqrt2\) e área \(2\).
Exercício 11.69
Encontre a área máxima de um triângulo retângulo com hipotenusa de comprimento 1.
Ver solução
Se os catetos são \(u,v\gt 0\), temos \(u^2+v^2=1\) e \(A=uv/2\leq (u^2+v^2)/4=1/4\). A igualdade ocorre no triângulo retângulo isósceles, com catetos \(1/\sqrt2\).

Exercício 11.70

Encontre as dimensões do triângulo isósceles de maior área que esteja inscrito na circunferência de raio \(R\).

Figura não resolvida: figuras/otimizacao-triangulo-circulo
Figura 11.50 A altura \(x\) e a base \(y\) determinam a área; o triângulo retângulo auxiliar fornece \((y/2)^2+(x-R)^2=R^2\).

Ver solução

O raio da circunferência impõe uma relação entre a altura e a base do triângulo. Se \(x\) é a altura, \(y\) a base e \(z\) um dos lados congruentes, então \(0\lt x\lt 2R\) e a área vale \(A=xy/2\). Pelo triângulo retângulo auxiliar da figura,

\[ \left(\frac y2\right)^2+(x-R)^2=R^2, \qquad y=2\sqrt{2Rx-x^2}. \]

Portanto, devemos maximizar

\[ A(x)=x\sqrt{2Rx-x^2},\qquad 0\lt x\lt 2R. \]

Sua derivada é

\[ A'(x)=\frac{x(3R-2x)}{\sqrt{2Rx-x^2}}. \]

Nesse intervalo, \(x\) e o denominador são positivos. O sinal de \(A'\) é, portanto, o de \(3R-2x\): a área cresce em \((0,3R/2)\) e decresce em \((3R/2,2R)\). Além disso, tende a zero nas duas extremidades. Concluímos que \(x=3R/2\) fornece efetivamente a maior área.

Substituindo na expressão da base, obtemos \(y=\sqrt3R\). Pelo Teorema de Pitágoras,

\[ z^2=\left(\frac{3R}{2}\right)^2+ \left(\frac{\sqrt3R}{2}\right)^2=3R^2. \]

Logo, \(z=y=\sqrt3R\): o triângulo ótimo é equilátero. Sua área máxima é

\[ A_{\max }=\frac12\cdot \frac{3R}{2}\cdot \sqrt3R =\frac{3\sqrt3}{4}R^2. \]

Exercício 11.71
Uma lata cilíndrica sem topo deve conter \(V\, \mathrm{cm}^3\) de líquido, com \(V\gt 0\). Supondo o mesmo custo por unidade de área na base e na lateral, determine as dimensões que minimizam o custo do metal utilizado.
Ver solução
A área de metal é \(A=\pi r^2+2\pi rh\) e o volume impõe \(h=V/(\pi r^2)\). Logo, \(A(r)=\pi r^2+2V/r\) e \(A'(r)=2\pi r-2V/r^2\). A função decresce até \(r=(V/\pi )^{1/3}\) e cresce depois. Portanto, \(r=h=(V/\pi )^{1/3}\), em centímetros.

Exercício 11.72 (Recipiente com paredes espessas)
Um recipiente cilíndrico de chumbo será usado para armazenar resíduos radioativos. As paredes laterais, a base e a tampa têm espessura uniforme de \(6\, \mathrm{cm}\). O volume do cilindro externo é \(16\pi \, \mathrm{m^3}\). Sejam \(R,H\) o raio e a altura externos, e \(r,h\) o raio e a altura da cavidade cilíndrica interna.
  1. Usando todas as medidas em metros, expresse \(H\), \(r\), \(h\) e a capacidade do recipiente em função de \(R\). Determine o domínio físico que garante raio e altura internos positivos.

  2. Determine as dimensões externas e internas que maximizam a capacidade. Justifique que o máximo é global e calcule seu valor.

  3. Considere uma espessura uniforme \(\delta \gt 0\), mantendo o volume externo. Para quais \(\delta \) há espaço interno? As dimensões externas ótimas e a capacidade máxima dependem de \(\delta \)?

Ver solução
  1. Escrevendo \(\delta =0{,}06\), em metros, temos

    \[ H=\frac{16}{R^2},\qquad r=R-\delta ,\qquad h=\frac{16}{R^2}-2\delta . \]

    Logo, a capacidade é

    \[ V_{\mathrm{int}}(R)=\pi (R-\delta )^2 \left(\frac{16}{R^2}-2\delta \right), \]

    com domínio \(\delta \lt R\lt \sqrt{8/\delta }\), pois precisamos de \(r\gt 0\) e \(h\gt 0\).

  2. A derivada é

    \[ V_{\mathrm{int}}'(R)=4\pi \delta (R-\delta ) \left(\frac8{R^3}-1\right). \]

    No domínio físico, ela é positiva para \(R\lt 2\) e negativa para \(R\gt 2\). Além disso, a capacidade tende a zero nas duas extremidades do domínio. O máximo global ocorre, portanto, em \(R=2\, \mathrm m\) e \(H=4\, \mathrm m\). As dimensões internas são \(r=1{,}94\, \mathrm m\) e \(h=3{,}88\, \mathrm m\), e a capacidade máxima é \(\pi (1{,}94)^2(3{,}88)\, \mathrm{m^3}\).

  3. O domínio é não vazio se e somente se \(\delta \lt \sqrt{8/\delta }\), isto é, \(0\lt \delta \lt 2\), com \(\delta \) em metros. Nesse caso, \(R=2\) pertence ao domínio e a mesma análise da derivada fornece as dimensões externas ótimas \(R=2\, \mathrm m\) e \(H=4\, \mathrm m\), independentes de \(\delta \). A capacidade máxima, porém, diminui com a espessura:

    \[ V_{\max }=\pi (2-\delta )^2(4-2\delta ) =2\pi (2-\delta )^3, \]

    em metros cúbicos.

Exercício 11.73

Uma caixa com tampa é feita a partir de uma folha quadrada de papel de \(12\, \mathrm{cm}\) de lado. A figura mostra a planificação da folha e a perspectiva da caixa montada. Na planificação, os retângulos identificados como base e tampa têm as mesmas dimensões, as abas laterais têm largura \(x\) e a altura da caixa montada é \(x\). Justifique, usando a planificação, as dimensões da base indicadas na perspectiva. Depois, determine as dimensões que maximizam o volume.

Ilustração: Problemas de otimização

Planificação esquemática.

Figura não resolvida: figuras/caixa-tampa-8-30

Ver solução
Na construção indicada, a altura é \(x\), e os lados da base medem \(6-x\) e \(12-2x\), em centímetros. Assim,
\[ V(x)=x(6-x)(12-2x)=2x(6-x)^2,\quad 0\leq x\leq 6. \]
Como \(V'(x)=6(x-2)(x-6)\), o volume cresce até \(x=2\) e decresce de \(2\) a \(6\). O máximo é \(64\, \mathrm{cm}^3\), obtido com altura \(2\, \mathrm{cm}\) e base \(4\, \mathrm{cm}\times 8\, \mathrm{cm}\).
Exercício 11.74

Uma fileira de soldados marcha perpendicularmente à própria frente e atravessa obliquamente uma fronteira reta entre dois terrenos. No primeiro terreno, cada soldado marcha com velocidade \(v_1\); no segundo, com velocidade \(v_2\). Quando o primeiro soldado da fileira atinge a fronteira no ponto \(A\), o último ainda está no primeiro terreno, no ponto \(B\). Após um intervalo \(\Delta t\), esse último soldado chega à fronteira no ponto \(C\), enquanto o primeiro chega ao ponto \(D\) no segundo terreno. As fileiras \(AB\) e \(CD\) são, respectivamente, as frentes antes e depois da mudança de direção.

Mostre, usando os dois triângulos retângulos formados e denotando por \(\theta _1\) e \(\theta _2\) os ângulos da direção de marcha com a normal à fronteira, que

\[ \frac{\operatorname {sen}\theta _1}{v_1} = \frac{\operatorname {sen}\theta _2}{v_2}. \]

Explique também para que lado a fileira gira quando \(v_2\lt v_1\).

Ver solução
Durante o intervalo \(\Delta t\), o soldado que ainda estava no primeiro terreno percorre
\[ BC=v_1\Delta t, \]
enquanto o que já entrou no segundo percorre
\[ AD=v_2\Delta t. \]
Como a direção de marcha é perpendicular à frente da fileira, os triângulos \(ABC\) e \(ACD\) são retângulos. A geometria fornece
\[ \operatorname {sen}\theta _1=\frac{BC}{AC} =\frac{v_1\Delta t}{AC}, \qquad \operatorname {sen}\theta _2=\frac{AD}{AC} =\frac{v_2\Delta t}{AC}. \]
Eliminando \(AC\) e \(\Delta t\), obtemos
\[ \frac{\operatorname {sen}\theta _1}{v_1} = \frac{\operatorname {sen}\theta _2}{v_2}. \]
Se \(v_2\lt v_1\), então \(\operatorname {sen}\theta _2\lt \operatorname {sen}\theta _1\) e, para ângulos entre \(0\) e \(\pi /2\), temos \(\theta _2\lt \theta _1\): a fileira gira em direção à normal. É exatamente a mesma relação geométrica que apareceu na lei de Snell.
Exercício 11.75
Um projétil é lançado, do nível do solo, com velocidade inicial \(v_0\gt 0\) e ângulo \(0\leq \theta \leq \pi /2\) com a horizontal. Desprezando a resistência do ar, seu alcance horizontal é dado por
\[ R(\theta )=\frac{v_0^2}{g}\operatorname {sen}(2\theta ). \]
Considere \(g\gt 0\) constante. Determine o ângulo que maximiza o alcance e o valor máximo correspondente.
Ver solução
Temos
\[ R'(\theta )=\frac{2v_0^2}{g}\cos (2\theta ). \]
O único ponto crítico interior é \(\theta =\pi /4\). Como o alcance é zero nos dois extremos e positivo no interior, esse ponto fornece o máximo: \(R_{\max }=v_0^2/g\).
Exercício 11.76
Em um modelo logístico, o crescimento natural de uma população de peixes de tamanho \(P\), com \(0\leq P\leq K\), é
\[ G(P)=rP\left(1-\frac{P}{K}\right),\qquad r,K\gt 0. \]
Uma retirada constante só pode ser sustentável se não exceder esse crescimento. Determine o tamanho da população que produz o maior rendimento sustentável e o valor desse rendimento.
Ver solução
Como \(G'(P)=r(1-2P/K)\) e \(G''(P)=-2r/K\lt 0\), o máximo ocorre em \(P=K/2\). Seu valor é \(G(K/2)=rK/4\).

Exercício 11.77 (Quando interromper uma reação?)

Considere duas reações consecutivas de primeira ordem,

\[ A\xrightarrow {k_1}B\xrightarrow {k_2}C, \]

em que \(B\) é o produto desejado e \(k_1,k_2\gt 0\), com \(k_1\neq k_2\). Partindo apenas de \(A\), com concentração inicial \([A]_0\), um modelo cinético fornece

\[ [B](t)=[A]_0\frac{k_1}{k_2-k_1} \left(e^{-k_1t}-e^{-k_2t}\right). \]

Em que instante a concentração do intermediário \(B\) é máxima?

Figura não resolvida: figuras/otimizacao-reacao-intermediario
figure
Em uma reação consecutiva, o intermediário \(B\) é primeiro produzido e depois consumido; existe um instante ótimo para interromper o processo.

Ver solução

Derivando,

\[ [B]'(t)=[A]_0\frac{k_1}{k_2-k_1} \left(-k_1e^{-k_1t}+k_2e^{-k_2t}\right). \]

O ponto crítico satisfaz

\[ k_2e^{-k_2t}=k_1e^{-k_1t}, \]

ou, equivalentemente,

\[ e^{(k_2-k_1)t}=\frac{k_2}{k_1}. \]

Logo,

\[ \boxed {\displaystyle t_*=\frac{\ln (k_2/k_1)}{k_2-k_1}}. \]

O instante encontrado é positivo, pois o numerador e o denominador têm o mesmo sinal. Além disso, a concentração de \(B\) começa em zero, é positiva para \(t\gt 0\) e volta a tender a zero quando \(t\to \infty \). Como esse é o único ponto crítico positivo, ele corresponde à concentração máxima do produto intermediário. Interromper a reação antes ou depois desse instante significa obter menos \(B\).

Se \(k_1=k_2=k\), o modelo limite é \([B](t)=[A]_0kt\, e^{-kt}\), cujo máximo ocorre em \(t=1/k\).

Exercício 11.78
A relação força–velocidade de um músculo é aproximada pela equação de Hill
\[ (F+a)(v+b)=(F_0+a)b, \]
em que \(a,b,F_0\gt 0\), \(F\) é a força e \(v\geq 0\) é a velocidade de encurtamento. A potência mecânica é \(P(v)=vF(v)\).
  1. Escreva \(F\) e \(P\) como funções de \(v\) e determine o intervalo fisicamente relevante em que \(F\geq 0\).

  2. Encontre a velocidade e a força que maximizam a potência.

  3. Determine a potência máxima.

Ver solução
Ponha \(s=\sqrt{1+F_0/a}\). Da relação dada,
\[ \begin{gathered} F(v)=\frac{bF_0-av}{v+b}, \\ P(v)=\frac{v(bF_0-av)}{v+b}, \\ 0\leq v\leq \frac{bF_0}{a}. \end{gathered} \]
A derivada tem o mesmo sinal de \(b^2F_0-av^2-2abv\). Seu único zero positivo é
\[ v_*=b(s-1). \]
A potência cresce antes e decresce depois desse ponto. Substituindo na relação de Hill, obtemos
\[ F_*=a(s-1), \qquad P_{\max }=ab(s-1)^2. \]
Exercício 11.79
Um modelo simples associa ao diâmetro \(d\gt 0\) de um prolongamento neuronal o custo
\[ J(d)=Ad^2+\frac{B}{\sqrt d},\qquad A,B\gt 0. \]
O primeiro termo representa custo de material e o segundo penaliza a condução lenta em diâmetros pequenos. Determine o diâmetro que minimiza \(J\) e justifique que o ponto encontrado é um mínimo.
Ver solução
Temos
\[ J'(d)=2Ad-\frac{B}{2}d^{-3/2}. \]
Logo, o único ponto crítico é
\[ d_*=\left(\frac{B}{4A}\right)^{2/5}. \]
Como \(J''(d)=2A+(3B/4)d^{-5/2}\gt 0\) para \(d\gt 0\), esse ponto é o único mínimo global.

Exercício 11.80
Determine o ponto da parábola \(y=x^2\) mais próximo da reta \(y=x-2\) e a distância desse ponto à reta.
Ver solução
A distância de \((x,x^2)\) à reta \(x-y-2=0\) é \(\dfrac {|x-x^2-2|}{\sqrt2}=\dfrac {x^2-x+2}{\sqrt2}\), pois \(x^2-x+2\gt 0\). O mínimo ocorre em \(x=1/2\): o ponto é \((1/2,1/4)\) e a distância é \(\dfrac {7}{4\sqrt2}=\dfrac {7\sqrt2}8\). Nesse ponto a tangente à parábola é paralela à reta.

Exercício 11.81
Dois vértices de um retângulo \(R\) estão sobre o eixo \(x\) e os outros dois sobre o gráfico de \(y=\dfrac x{1+x^2}\), com \(x\gt 0\). Girando \(R\) em torno do eixo \(x\), obtém-se um cilindro. Determine \(R\) para que o volume do cilindro seja máximo.
Ver solução
Se a altura do retângulo é \(h\in (0,1/2)\), as abscissas dos vértices superiores são as raízes de \(hx^2-x+h=0\), cuja diferença é \(w=\sqrt{1/h^2-4}\). O volume é
\[ V(h)=\pi h^2w=\pi h\sqrt{1-4h^2}. \]
\(V'(h)=0\) dá \(1-4h^2=4h^2\), isto é, \(h=\dfrac 1{2\sqrt2}\). Então \(w=2\), os vértices superiores têm abscissas \(\sqrt2\pm 1\) e \(V_{\max }=\pi /4\).

Exercício 11.82 (Seis jaulas)
Com \(300\) m de tela serão construídas seis jaulas retangulares idênticas, dispostas em \(2\) fileiras de \(3\) jaulas, como na figura. A tela é usada no contorno externo e em todas as divisórias internas. Sejam \(x\) a largura total e \(y\) a altura total do conjunto.
[x=.62cm,y=.62cm,>=Stealth,font=] fuvDestaque!12] (0,0) rectangle (6,4); [fuvDestaque,very thick] (0,0) rectangle (6,4); [fuvDestaque,very thick] (2,0)–(2,4) (4,0)–(4,4) (0,2)–(6,2); [<->,fuvPrimaria] (0,-.5)–(6,-.5) node[midway,below]x…

\begin{tikzpicture} \end{tikzpicture}
[x=.62cm,y=.62cm,>=Stealth,font=] fuvDestaque!12] (0,0) rectangle (6,4); [fuvDestaque,very thick] (0,0) rectangle (6,4); [fuvDestaque,very thick] (2,0)–(2,4) (4,0)–(4,4) (0,2)–(6,2); [<->,fuvPrimaria] (0,-.5)–(6,-.5) node[midway,below]\(x\); [<->,fuvPrimaria] (-.5,0)–(-.5,4) node[midway,left]\(y\);
\end{tikzpicture}

Determine \(x\) e \(y\) que maximizam a área total cercada. Calcule essa área e as dimensões de cada jaula.
Ver solução
A tela forma \(3\) segmentos horizontais de comprimento \(x\) e \(4\) verticais de comprimento \(y\): \(3x+4y=300\). A área é
\[ A(x)=x\, \frac{300-3x}{4},\qquad 0\lt x\lt 100. \]
\(A'(x)=(300-6x)/4=0\) dá \(x=50\); como \(A''\lt 0\), trata-se do máximo. Então \(y=37{,}5\) m e a área máxima é \(1875\ \mathrm{m^2}\). Cada jaula mede \(50/3\approx 16{,}7\) m por \(18{,}75\) m.

Exercício 11.83 (Máxima potência na carga)
Uma bateria de força eletromotriz \(V\) e resistência interna \(r\), ambas constantes e positivas, alimenta um resistor externo de resistência variável \(R\gt 0\). A corrente no circuito é \(I=V/(R+r)\), e a potência dissipada no resistor externo é \(P=I^2R\).

\begin{tikzpicture} \end{tikzpicture}
[circuit ee IEC,x=1.2cm,y=1.2cm,>=Stealth,font=, every info/.style=font=] [fuvNeutra,dashed,rounded corners=2pt] (-.75,-.25) rectangle (.75,2.45); [fuvNeutra,font=,align=center] at (0,-.6) bateria; [fuvPrimaria,thick] (0,0) to [battery=info=\(V\)] (0,1.05) to [resistor=info=\(r\)] (0,2.2) – (3,2.2) to [resistor=info’=\(R\)] (3,0) – (0,0); [->,fuvAlerta,thick] (1.05,2.45)–(1.95,2.45) node[midway,above]\(I\);
\end{tikzpicture}

  1. Escreva \(P\) como função de \(R\).

  2. Mostre que \(P\) é máxima quando \(R=r\) e calcule a potência máxima.

Ver solução
  1. \(P(R)=\dfrac {V^2R}{(R+r)^2}\), para \(R\gt 0\).

  2. \(P'(R)=V^2\, \dfrac {(R+r)^2-2R(R+r)}{(R+r)^4}=\dfrac {V^2(r-R)}{(R+r)^3}\). Assim, \(P\) cresce para \(R\lt r\) e decresce para \(R\gt r\); o máximo global ocorre em \(R=r\) e vale \(P(r)=\dfrac {V^2}{4r}\).

Exercício 11.84
Um cartaz deve ter área impressa de \(432\) cm\(^2\), margens laterais de \(3\) cm e margens superior e inferior de \(4\) cm. Determine as dimensões que minimizam a área total de papel.
Ilustração: Problemas de otimização
Ver solução
Se a região impressa mede \(x\) por \(y\), então \(xy=432\) e a área do papel é
\[ A(x)=(x+6)(432/x+8)=480+8x+2592/x. \]
Seu mínimo ocorre em \(x=18\, \mathrm{cm}\), quando \(y=24\, \mathrm{cm}\). Logo, o papel deve medir \(24\, \mathrm{cm}\times 32\, \mathrm{cm}\).

Exercício 11.85
A receita \(R(q)=120q-0{,}4q^2\) e o custo \(C(q)=18q+900\) estão em reais, considerando \(q\geq 0\) uma variável real que representa a quantidade produzida. Determine a produção que maximiza o lucro e o lucro máximo.
Ver solução
\(L(q)=R(q)-C(q)=-0{,}4q^2+102q-900\). O vértice ocorre em \(q=127{,}5\) e fornece \(L_{\max }=R\$ \, 5\, 602{,}50\). Se \(q\) precisar ser inteiro, \(127\) e \(128\) devem ser comparados; ambos dão \(R\$ \, 5\, 602{,}40\).

Exercício 11.86
Um cabo de fibra tem a temperatura, em graus Celsius, \(T(x)=20+7xe^{-x/4}\), onde \(x\geq 0\) está em metros a partir de um conector. Localize o ponto de maior temperatura e interprete o comportamento para valores grandes de \(x\).
Ver solução
\(T'(x)=7e^{-x/4}(1-x/4)\), logo a temperatura máxima ocorre a \(4\, \mathrm m\) do conector e vale \(20+28/e\approx 30{,}30\, {}^\circ \mathrm C\). Quando \(x\to \infty \), \(T(x)\to 20\, {}^\circ \mathrm C\).

Exercício 11.87 (Esfera inscrita em um cone)
Uma esfera de raio fixo \(r\gt 0\) está inscrita em um cone circular reto: ela é tangente à base e à superfície lateral do cone. Sejam \(R\) o raio da base e \(h\) a altura do cone.
  1. Use o corte axial para relacionar \(R\), \(h\) e \(r\). Expresse o volume do cone como função de \(h\) e determine o domínio admissível.

  2. Determine as dimensões do cone de menor volume e calcule esse volume. Justifique que o mínimo encontrado é global.

Ver solução
  1. No corte axial, a esfera determina a circunferência inscrita em um triângulo isósceles de base \(2R\), altura \(h\) e lados \(\ell =\sqrt{R^2+h^2}\). Decompondo o triângulo em três triângulos de altura \(r\), obtemos a relação entre sua área e seu semiperímetro:

    \[ Rh=r(R+\ell ). \]

    Como \(\ell \gt R\), segue que \(h\gt 2r\). Isolando a raiz e elevando ao quadrado, encontramos

    \[ R^2=\frac{r^2h}{h-2r},\qquad h\gt 2r. \]

    Portanto,

    \[ V(h)=\frac{\pi r^2h^2}{3(h-2r)}. \]

    Reciprocamente, cada \(h\gt 2r\) fornece um raio \(R\gt 0\) que satisfaz a relação geométrica.

  2. Temos

    \[ V'(h)=\frac{\pi r^2h(h-4r)}{3(h-2r)^2}. \]

    Assim, \(V\) decresce em \((2r,4r)\) e cresce em \((4r,\infty )\). Além disso, \(V(h)\to \infty \) tanto quando \(h\to 2r^+\) quanto quando \(h\to \infty \). O mínimo é global e ocorre em

    \[ \begin{gathered} h=4r,\qquad R=\sqrt2\, r,\\ V_{\min }=\frac{8\pi r^3}{3}. \end{gathered} \]

11.9 Polinômios de Taylor

Na aproximação linear, substituímos uma função por sua reta tangente perto de um ponto. A reta reproduz o valor da função e a inclinação de seu gráfico nesse ponto. As derivadas de ordens superiores fornecem mais informações sobre o comportamento local da função. Como incorporá-las numa aproximação polinomial mais precisa?

A ideia é substituir a reta por um polinômio que tenha, no ponto escolhido, o mesmo valor e as mesmas primeiras derivadas da função. Veremos como essas condições determinam o polinômio e, depois, como estimar o erro cometido ao usá-lo numa aproximação.

soleira base/.append style=breakable=false

Teorema 11.72 (Polinômio de Taylor)
Seja \(f\) uma função que possui derivadas até a ordem \(n\) numa vizinhança de \(a\). Existe um único polinômio \(P_n\), de grau no máximo \(n\), cujas derivadas até a ordem \(n\) coincidem com as de \(f\) em \(a\):
\[ P_n^{(k)}(a)=f^{(k)}(a),\qquad k=0,1,\ldots ,n. \]
Esse polinômio é dado por
\[ \begin{aligned} P_n(x)& =f(a)+f’(a)(x-a)+\frac{f''(a)}{2!}(x-a)^2+\cdots +\frac{f^{(n)}(a)}{n!}(x-a)^n\\ & =\sum _{k=0}^{n}\frac{f^{(k)}(a)}{k!}(x-a)^k. \end{aligned} \]
Ele é chamado polinômio de Taylor de ordem \(n\) de \(f\) centrado em \(a\). Adotamos as convenções \(f^{(0)}=f\) e \(0!=1\).

Demonstração ▼

Escrevamos um polinômio de grau no máximo \(n\) na forma

\[ P(x)=c_0+c_1(x-a)+\cdots +c_n(x-a)^n. \]

Ao derivar \(k\) vezes e calcular o resultado em \(a\), todos os termos se anulam, exceto aquele que contém \((x-a)^k\). Assim,

\[ P^{(k)}(a)=k!\, c_k. \]

Para obter \(P^{(k)}(a)=f^{(k)}(a)\), devemos, portanto, escolher \(c_k=f^{(k)}(a)/k!\). Essas escolhas fornecem a fórmula anunciada e mostram que nenhum outro polinômio pode satisfazer as mesmas condições.

O ponto \(a\) é o centro da aproximação. Quando \(a=0\), o polinômio também é chamado polinômio de Maclaurin; para \(n=0\), temos simplesmente \(P_0(x)=f(a)\).

As duas primeiras ordens recuperam aproximações familiares:

\[ P_1(x)=f(a)+f'(a)(x-a),\qquad P_2(x)=P_1(x)+\frac{f''(a)}{2}(x-a)^2. \]

O primeiro polinômio representa a reta tangente; o segundo incorpora também a derivada segunda. Seus erros, nas condições do teorema, tendem a zero mais rapidamente que \(x-a\) e \((x-a)^2\), respectivamente, como veremos ao estudar o resto de Taylor.

A ordem não é necessariamente o grau: alguns coeficientes podem se anular. O primeiro exemplo mostra isso de modo particularmente simples.

Exemplo 11.73
Determine os polinômios de Taylor de ordens \(1\) a \(5\) de \(f(x)=\operatorname {sen}x\), centrados em \(0\), e compare seus gráficos com o da função.
Solução
As derivadas de \(\operatorname {sen}x\) se repetem a cada quatro ordens: \(\cos x\), \(-\operatorname {sen}x\), \(-\cos x\) e \(\operatorname {sen}x\). Em \(0\), as derivadas de ordem par são nulas. Portanto,
\[ \begin{aligned} P_1(x)& =P_2(x)=x,\\ P_3(x)& =P_4(x)=x-\frac{x^3}{3!},\\ P_5(x)& =x-\frac{x^3}{3!}+\frac{x^5}{5!}. \end{aligned} \]
Assim, passar da ordem \(1\) para a \(2\), ou da \(3\) para a \(4\), não modifica o polinômio. A figura mostra os três polinômios distintos e como eles se aproximam do seno perto de \(0\).

Figura não resolvida: figuras/taylor-seno-P1-P5.tex
Figura 11.51 A função \(\operatorname {sen}x\) e seus polinômios de Taylor de ordens \(1\) a \(5\), centrados em \(0\). As ordens \(1\) e \(2\) produzem a mesma curva, assim como as ordens \(3\) e \(4\).

Exemplo 11.74
  1. Determine o polinômio de Taylor de ordem \(n\) de \(f(x)=e^x\) centrado em \(0\).

  2. Use \(P_5\) para aproximar \(e\).

Solução
  1. Todas as derivadas de \(e^x\) coincidem com a própria função e valem \(1\) em \(0\). Logo,

    \[ P_n(x)=1+x+\frac{x^2}{2!}+\cdots +\frac{x^n}{n!} =\sum _{k=0}^{n}\frac{x^k}{k!}. \]
  2. Como \(e=f(1)\), avaliamos o polinômio em \(x=1\):

    \[ P_5(1)=1+1+\frac12+\frac16+\frac1{24}+\frac1{120} =\frac{163}{60}\approx 2{,}71667. \]

    A Figura 11.52 compara os gráficos de \(f\) e \(P_5\). O valor obtido é uma aproximação de \(e\); falta determinar quão próximo ele está do valor exato.

Figura não resolvida: figuras/taylor-exponencial-P5.tex
Figura 11.52 A exponencial e seu polinômio \(P_5\), centrado em \(0\). A proximidade dos gráficos sugere a aproximação; a estimativa do resto permitirá justificá-la.

11.9.1 O erro da aproximação

Conhecer o polinômio e saber avaliá-lo não basta para garantir a precisão de um cálculo. Precisamos controlar a diferença

\[ E_n(x)=f(x)-P_n(x), \]

chamada também de resto de Taylor. O resultado seguinte expressa esse resto por meio de mais uma derivada de \(f\).

Teorema 11.75 (Fórmula de Taylor com resto de Lagrange)
Seja \(n\geq 0\) inteiro e seja \(f\) uma função \((n+1)\) vezes derivável em um intervalo aberto \(I\) que contém \(a\). Para cada \(x\in I\), \(x\ne a\), existe um ponto \(\xi \) estritamente entre \(a\) e \(x\) tal que
\[ f(x)=P_n(x)+\frac{f^{(n+1)}(\xi )}{(n+1)!}(x-a)^{n+1}. \]
Em particular, se \(|f^{(n+1)}(t)|\leq M\) no segmento entre \(a\) e \(x\), então
\[ |E_n(x)|\leq \frac{M}{(n+1)!}|x-a|^{n+1}. \]
Para \(x=a\), o erro é zero.

Demonstração ▼

Fixe \(x\neq a\). Para aplicar Rolle repetidamente, procuramos uma função que se anule em \(x\) e conserve, em \(a\), os zeros de \(f-P_n\) e de suas primeiras \(n\) derivadas. Um múltiplo de \((t-a)^{n+1}\) preserva esses zeros; escolhemos seu coeficiente para anular também o valor em \(x\). Definimos, portanto,

\[ \phi (t)=f(t)-P_n(t)-E_n(x)\left(\dfrac {t-a}{x-a}\right)^{n+1}. \]

Temos \(\phi (x)=0\) e, como \(P_n\) concorda com \(f\) e suas primeiras \(n\) derivadas em \(a\),

\[ \phi (a)=\phi '(a)=\cdots =\phi ^{(n)}(a)=0. \]

Rolle aplicado entre \(a\) e \(x\) fornece \(c_1\) estritamente entre esses pontos, com \(\phi ^{\prime }(c_1)=0\). Quando \(n\geq 1\), temos também \(\phi ^{\prime }(a)=0\), e uma nova aplicação, agora a \(\phi ^{\prime }\), fornece \(c_2\) entre \(a\) e \(c_1\), com \(\phi ^{\prime \prime }(c_2)=0\). Repetindo o argumento, usando \(\phi ^{(j)}(a)=0\) em cada etapa, obtemos \(c_{n+1}\) entre \(a\) e \(x\), com \(\phi ^{(n+1)}(c_{n+1})=0\). Cada aplicação é válida porque a derivada da etapa é contínua no segmento e derivável no interior. Tome \(\xi =c_{n+1}\). Portanto,

\[ 0=f^{(n+1)}(\xi )-\dfrac {(n+1)!\, E_n(x)}{(x-a)^{n+1}}, \]

de onde segue a fórmula desejada.

Em geral, não sabemos onde está \(\xi \). Para usar a estimativa, porém, não precisamos encontrá-lo: basta escolher uma cota superior \(M\) para o módulo da derivada no segmento indicado. A fórmula separa, assim, o papel das derivadas, da ordem escolhida e da distância ao centro.

No exemplo da exponencial, o centro é \(0\) e queremos calcular o valor em \(1\). Em \([0,1]\), todas as derivadas satisfazem \(0\lt e^t\leq e\lt 3\). Logo,

\[ 0\lt e-P_5(1)\lt \frac3{6!}=\frac1{240}. \]

Além de limitar o erro, o sinal do resto mostra que \(P_5(1)\) é menor que \(e\). Sem usar uma aproximação previamente conhecida de \(e\), obtivemos

\[ \frac{163}{60}\lt e\lt \frac{163}{60}+\frac1{240}=\frac{653}{240}. \]

Quando a derivada de ordem \(n+1\) é limitada numa vizinhança de \(a\), a mesma estimativa também recupera o comportamento local que vimos nas ordens \(1\) e \(2\):

\[ \left|\frac{E_n(x)}{(x-a)^n}\right| \leq \frac{M}{(n+1)!}|x-a|\longrightarrow 0 \qquad (x\to a). \]

Isso não significa que, num ponto fixo distante de \(a\), aumentar a ordem sempre melhore a aproximação. A cota superior para o módulo da derivada também pode variar com a ordem. O logaritmo permite observar essa diferença.

Exemplo 11.76
  1. Determine, para \(n\geq 1\), o polinômio de Taylor de ordem \(n\) de \(f(x)=\ln x\) centrado em \(1\).

  2. Use \(P_6\) para aproximar \(\ln (1{,}5)\).

  3. Use o mesmo polinômio para aproximar \(\ln 2\).

Solução
  1. As primeiras derivadas são \(f'(x)=1/x\), \(f''(x)=-1/x^2\) e \(f'''(x)=2/x^3\). A cada derivação, o sinal se alterna e surge o próximo fator inteiro. Para \(k\geq 1\),

    \[ f^{(k)}(x)=\frac{(-1)^{k-1}(k-1)!}{x^k}, \qquad f^{(k)}(1)=(-1)^{k-1}(k-1)!. \]

    Como \(f(1)=0\) e \((k-1)!/k!=1/k\), a definição fornece

    \[ \begin{aligned} P_n(x)& =(x-1)-\frac{(x-1)^2}{2}+\frac{(x-1)^3}{3} -\cdots +\frac{(-1)^{n-1}(x-1)^n}{n}\\ & =\sum _{k=1}^{n}\frac{(-1)^{k-1}}k(x-1)^k. \end{aligned} \]
  2. Em \(x=1{,}5\), temos \(x-1=1/2\). Portanto,

    \[ P_6(1{,}5)=\frac12-\frac18+\frac1{24}-\frac1{64} +\frac1{160}-\frac1{384} =\frac{259}{640}=0{,}4046875. \]
  3. Em \(x=2\), temos \(x-1=1\), de modo que

    \[ P_6(2)=1-\frac12+\frac13-\frac14+\frac15-\frac16 =\frac{37}{60}\approx 0{,}616667. \]
As duas aproximações usam a mesma ordem, mas a distância ao centro passou de \(1/2\) para \(1\). Vamos verificar como essa mudança afeta a estimativa do erro.

Figura não resolvida: figuras/taylor-logaritmo-P6.tex

Figura 11.53 O polinômio \(P_6\) e o logaritmo concordam no centro \(x=1\). A aproximação perde precisão à medida que nos afastamos desse ponto nos trechos representados.

Exemplo 11.77
Estime o erro das aproximações de \(\ln (1{,}5)\) e \(\ln 2\) obtidas com \(P_6\) no Exemplo 11.76.
Solução
O resto envolve a derivada de ordem \(7\). Para \(f(t)=\ln t\), temos
\[ f^{(7)}(t)=\frac{6!}{t^7}. \]
Os dois segmentos considerados estão contidos em \([1,2]\), onde \(0\lt f^{(7)}(t)\leq 6!=720\). Podemos, portanto, usar \(M=720\) nas duas estimativas. Como \(x\gt 1\), o resto é positivo: em ambos os casos, o polinômio fornece um valor menor que o logaritmo.
  1. Para \(x=1{,}5\), obtemos

    \[ 0\lt E_6(1{,}5)\leq \frac{720}{7!}\left(\frac12\right)^7 =\frac1{896}\lt 0{,}001117. \]

    Logo,

    \[ \frac{259}{640}\lt \ln (1{,}5) \leq \frac{259}{640}+\frac1{896}. \]
  2. Para \(x=2\), a estimativa é

    \[ 0\lt E_6(2)\leq \frac{720}{7!}=\frac17. \]

    Portanto,

    \[ \frac{37}{60}\lt \ln 2\leq \frac{37}{60}+\frac17=\frac{319}{420}. \]
A segunda cota é \(128\) vezes a primeira. A ordem e a cota superior para o módulo da derivada são as mesmas; o que mudou foi a distância ao centro, que aparece elevada à sétima potência. As estimativas dão garantias para os erros, não seus valores exatos.

A Figura 11.54 mostra o que ocorre ao usar o polinômio de ordem \(20\). Perto de \(1\), os gráficos ficam muito próximos, mas isso não se mantém em todo o intervalo desenhado. Para decidir onde usar um polinômio, precisamos considerar o resto, e não apenas sua ordem.

Figura não resolvida: figuras/taylor-logaritmo-P20.tex

Figura 11.54 O logaritmo e seu polinômio de Taylor de ordem \(20\), centrado em \(1\). Mesmo com ordem maior, o erro pode ser grande longe do centro.

Até aqui, escolhemos o polinômio e estimamos seu erro. Podemos também seguir o caminho inverso: fixar a precisão desejada e usar o resto para escolher a ordem da aproximação.

Exemplo 11.78
Use a fórmula do resto para determinar o menor número de termos da soma \(P_n(1)=\sum _{k=0}^n1/k!\) que aproxima \(e\) com erro inferior a \(10^{-5}\). Justifique que esse número é suficiente e que um termo a menos não basta.
Solução

Usamos o polinômio da exponencial centrado em \(0\) e o avaliamos em \(1\). Como \(f^{(n+1)}(t)=e^t\lt 3\) para \(0\leq t\leq 1\), o resto satisfaz

\[ 0\lt E_n(1)\lt \frac3{(n+1)!}. \]

Assim, basta escolher \(n\) de modo que \((n+1)!\gt 3\cdot 10^5\). Temos \(8!=40320\) e \(9!=362880\); portanto, \(n=8\) é a primeira ordem que atende a essa estimativa. Bastam nove termos, de \(1/0!\) até \(1/8!\), e obtemos

\[ e\approx P_8(1)=\sum _{k=0}^{8}\frac1{k!} =\frac{109601}{40320}\approx 2{,}71827877. \]

O erro de substituir \(e\) por essa soma é menor que \(3/9!\approx 8{,}27\cdot 10^{-6}\), como queríamos.

Essa cota superior garante que nove termos bastam, mas não decide, por si só, se oito termos seriam suficientes. Para a soma de oito termos, \(P_7(1)\), a fórmula de Lagrange fornece algum \(\xi \in (0,1)\) tal que

\[ e-P_7(1)=\frac{e^\xi }{8!}\gt \frac1{8!} =\frac1{40320}\gt 10^{-5}. \]

Logo, oito termos não bastam. Como as parcelas \(1/k!\) são positivas, as somas com menos termos são ainda menores e têm erro maior. Portanto, nove é o menor número de termos necessário.

A escolha do centro facilita o cálculo das derivadas; a escolha da ordem responde à precisão que procuramos. A estimativa do resto liga essas duas escolhas e transforma o polinômio em uma aproximação com erro controlado.

Exercício 11.88 (A aproximação permite decidir?)

Uma função \(f\) é três vezes continuamente derivável em um intervalo aberto que contém \([0,0{,}4]\) e satisfaz

\[ \begin{gathered} f(0)=1,\qquad f'(0)=-2,\qquad f''(0)=4,\\ |f^{(3)}(x)|\leq 6\quad \text{em }[0,0{,}4]. \end{gathered} \]

Seu polinômio de Taylor de ordem \(2\) é \(P_2(x)=1-2x+2x^2\). A faixa da figura é delimitada por \(P_2(x)-x^3\) e \(P_2(x)+x^3\).

  1. Use o resto de Taylor para obter um intervalo garantido para \(f(0{,}4)\).

  2. Quais afirmações ficam garantidas: \(f(0{,}4)\gt 0{,}45\) e \(f(0{,}4)\gt 0{,}52\)? Para a que não ficar garantida, apresente duas funções que satisfaçam os dados e deem respostas diferentes.

Ilustração: O erro da aproximação

Ver solução
  1. O resto satisfaz \(|f(x)-P_2(x)|\leq 6x^3/3!=x^3\) para \(0\leq x\leq 0{,}4\). Como \(P_2(0{,}4)=0{,}52\) e \((0{,}4)^3=0{,}064\), obtemos

    \[ 0{,}456\leq f(0{,}4)\leq 0{,}584. \]
  2. A primeira afirmação é garantida, pois \(0{,}456\gt 0{,}45\). A segunda não: as funções \(f_-(x)=P_2(x)-x^3\) e \(f_+(x)=P_2(x)+x^3\) têm os dados iniciais indicados e terceiras derivadas de módulo \(6\), mas dão \(0{,}456\lt 0{,}52\) e \(0{,}584\gt 0{,}52\), respectivamente.

Exercício 11.89 (Aumentar a ordem pode piorar a aproximação)
Seja \(P_n\) o polinômio de Taylor de ordem \(n\) de \(\ln x\) centrado em \(1\).
  1. Escreva \(P_n\) e calcule \(P_1(10)\), \(P_2(10)\) e \(P_3(10)\). As aproximações de \(\ln 10\) melhoram ao aumentar a ordem?

  2. Explique o comportamento observado.

  3. Proponha uma maneira de aproximar \(\ln 10\) usando apenas valores de \(P_n\) em pontos mais próximos de \(1\).

Ver solução
  1. Temos \(P_n(x)=\sum _{k=1}^n(-1)^{k+1}(x-1)^k/k\). Assim,

    \[ P_1(10)=9,\qquad P_2(10)=-31{,}5,\qquad P_3(10)=211{,}5. \]

    Para comparação, \(\ln 10\approx 2{,}303\). As três aproximações pioram e se alternam entre valores acima e abaixo do valor exato.

  2. Em \(x=10\), o módulo do termo de ordem \(k\) é \(9^k/k\). O quociente entre o módulo do próximo termo e o atual é \(9k/(k+1)\gt 1\), para \(k\geq 1\). Assim, os termos acrescentados crescem, em vez de representarem pequenas correções. A concordância das derivadas em \(1\) não garante uma boa aproximação em \(10\).

  3. Podemos usar

    \[ \ln 10=-3\ln (0{,}5)+\ln (1{,}25) \approx -3P_n(0{,}5)+P_n(1{,}25). \]

    Os dois argumentos estão mais próximos do centro. O erro dessa combinação é, em módulo, no máximo \(3|E_n(0{,}5)|+|E_n(1{,}25)|\) e deve ser estimado antes de escolher \(n\).

Exercício 11.90
Para cada função, determine o polinômio de Taylor de ordem \(2\) centrado no ponto indicado.
  1. \(\ln x\), em \(1\).

  2. \(e^x\), em \(0\).

  3. \(\operatorname {sen}x\), em \(0\).

  4. \(\cos x\), em \(0\).

  5. \(\star \)  \(\operatorname {senh}x\), em \(0\) (opcional; funções hiperbólicas).

  6. \(\star \)  \(\cosh x\), em \(0\) (opcional; funções hiperbólicas).

  7. \(\sqrt[3]{x}\), em \(1\).

  8. \(\sqrt{x}\), em \(4\).

  9. \(1/(1-x^2)\), em \(0\).

Ver solução
Escrevemos \(h=x-a\), em que \(a\) é o centro indicado em cada item.
  1. \(h=x-1\): \(P_2=h-h^2/2\).

  2. \(h=x\): \(P_2=1+h+h^2/2\).

  3. \(h=x\): \(P_2=h\).

  4. \(h=x\): \(P_2=1-h^2/2\).

  5. \(h=x\): \(P_2=h\).

  6. \(h=x\): \(P_2=1+h^2/2\).

  7. \(h=x-1\): \(P_2=1+h/3-h^2/9\).

  8. \(h=x-4\): \(P_2=2+h/4-h^2/64\).

  9. \(h=x\): \(P_2=1+h^2\).

Exercício 11.91
Use os polinômios de ordem \(2\) do exercício anterior para aproximar os valores abaixo. Em cada caso, indique o centro e estime o erro pela fórmula do resto.
  1. \(\ln (1{,}2)\).

  2. \(\sqrt{3{,}8}\).

  3. \(\operatorname {sen}(0{,}1)\).

  4. \(\operatorname {sen}(\pi /25)\).

  5. \(e^{0{,}003}\).

Ver solução
Usamos \(|E_2(x)|\leq M|x-a|^3/6\), escolhendo \(M\) no segmento entre o centro e o ponto de avaliação.
  1. Com \(a=1\), obtemos \(\ln (1{,}2)\approx 0{,}18\). Como \(f'''(t)=2/t^3\leq 2\) em \([1,1{,}2]\), \(0\lt E_2\leq 1/375\lt 0{,}002667\).

  2. Com \(a=4\), temos

    \[ \sqrt{3{,}8}\approx 2-\frac{0{,}2}{4}-\frac{0{,}2^2}{64} =1{,}949375. \]

    Em \([3{,}8,4]\), \(f'''(t)=3/(8t^{5/2})\leq 3/(8(3{,}8)^{5/2})\). Logo, \(|E_2|\leq 0{,}0005/(3{,}8)^{5/2}\lt 0{,}0000178\).

  3. Com \(a=0\), temos \(\operatorname {sen}(0{,}1)\approx 0{,}1\). Como \(|f'''|=|\cos |\leq 1\), o erro é, em módulo, no máximo \(0{,}1^3/6=1/6000\).

  4. Novamente com \(a=0\), temos \(\operatorname {sen}(\pi /25)\approx \pi /25\), com \(|E_2|\leq \pi ^3/93750\lt 0{,}000331\).

  5. Com \(a=0\), obtemos

    \[ e^{0{,}003}\approx 1+0{,}003+\frac{0{,}003^2}{2}=1{,}0030045. \]

    Em \([0,0{,}003]\), podemos usar \(f'''(t)=e^t\lt 3\). Portanto, \(0\lt E_2\lt 3(0{,}003)^3/6=1{,}35\cdot 10^{-8}\).

Exercício 11.92
Para cada função, determine o polinômio de Taylor de ordem \(5\) centrado no ponto indicado.
  1. \(\ln x\), em \(1\).

  2. \(e^x\), em \(0\).

  3. \(\operatorname {sen}x\), em \(0\).

  4. \(\cos x\), em \(0\).

  5. \(\star \)  \(\operatorname {senh}x\), em \(0\) (opcional; funções hiperbólicas).

  6. \(\star \)  \(\cosh x\), em \(0\) (opcional; funções hiperbólicas).

  7. \(x^{1/x}\), para \(x\gt 0\), em \(1\).

  8. \(\sqrt{x}\), em \(4\).

  9. \((1+x)^{\alpha }\), com \(\alpha \in \mathbb R\) e \(x\gt -1\), em \(0\).

Ver solução
Escrevemos novamente \(h=x-a\).
  1. \(h=x-1\): \(P_5=h-h^2/2+h^3/3-h^4/4+h^5/5\).

  2. \(h=x\): \(P_5=1+h+h^2/2+h^3/6+h^4/24+h^5/120\).

  3. \(h=x\): \(P_5=h-h^3/6+h^5/120\).

  4. \(h=x\): \(P_5=1-h^2/2+h^4/24\).

  5. \(h=x\): \(P_5=h+h^3/6+h^5/120\).

  6. \(h=x\): \(P_5=1+h^2/2+h^4/24\).

  7. \(h=x-1\): \(P_5=1+h-h^2+h^3/2+h^4/6-3h^5/4\).

  8. Para \(h=x-4\),

    \[ P_5=2+\frac h4-\frac{h^2}{64}+\frac{h^3}{512} -\frac{5h^4}{16384}+\frac{7h^5}{131072}. \]
  9. \(P_5(x)=\sum _{k=0}^{5}\binom \alpha k x^k\), onde

    \[ \binom \alpha 0=1,\qquad \binom \alpha k=\frac{\alpha (\alpha -1)\cdots (\alpha -k+1)}{k!} \quad (k\geq 1). \]
No item 7, podemos escrever \(x^{1/x}=\exp ((\ln x)/x)\) para calcular as derivadas em \(1\). No item 9, o produto no numerador vem das derivações sucessivas de \((1+x)^\alpha \).

Exercício 11.93
Use um polinômio de Taylor da exponencial, centrado em \(0\), para aproximar \(\sqrt e=e^{1/2}\) com erro inferior a \(10^{-6}\). Indique a ordem utilizada, o número de termos e uma cota para o erro.
Ver solução
Avaliamos \(P_n\) em \(x=1/2\). No segmento \([0,1/2]\), temos \(e^t\leq \sqrt e\lt 2\), pois \(e\lt 3\lt 4\). Assim,
\[ 0\lt E_n(1/2)\lt \frac{2}{2^{n+1}(n+1)!}. \]
Para \(n=7\), essa cota é menor que \(10^{-6}\). Bastam, portanto, oito termos, e obtemos
\[ \sqrt e\approx P_7(1/2)=\sum _{k=0}^{7}\frac1{2^k k!} =\frac{354541}{215040}\approx 1{,}64872117. \]
O erro da soma é menor que \(2/(2^8\, 8!)\lt 1{,}94\cdot 10^{-7}\).

Exercício 11.94 (Uma estimativa precisa ser justificada)
Considere a seguinte resolução:
Para \(f(x)=e^x\), o polinômio de Taylor de ordem \(2\) em torno de zero é \(P_2(x)=1+x+x^2/2\). Como \(f^{(3)}(0)=1\), o resto de Lagrange em \(x=1\) tem módulo no máximo \(1/6\). Portanto, \(e\le 8/3\).
  1. Quais passos estão corretos? Identifique o primeiro que não foi justificado.

  2. Sabendo que \(e\lt 3\), obtenha uma cota válida para o erro de \(P_2(1)\) como aproximação de \(e\).

  3. Determine o polinômio de Taylor \(P_3\) de \(e^x\) em torno de zero e use o sinal de seu resto em \(x=1\) para decidir se a conclusão \(e\le 8/3\) é verdadeira.

Ver solução
  1. A expressão de \(P_2\) e o cálculo \(f^{(3)}(0)=1\) estão corretos. O erro está em tratar a derivada no centro como majorante válido em todo o segmento. O resto de Lagrange garante que, para algum \(\xi \in (0,1)\),

    \[ e-P_2(1)=\frac{e^\xi }{3!}, \]

    e \(e^\xi \gt 1\), não \(e^\xi \le 1\).

  2. Para \(0\le s\le 1\), \(e^s\le e\lt 3\). Assim,

    \[ 0\lt e-P_2(1)=e-\frac52\lt \frac36=\frac12. \]

    Essa cota é correta, ainda que menos precisa que a cota apresentada no argumento.

  3. Como

    \[ P_3(1)=1+1+\frac12+\frac16=\frac83 \]

    e o resto é \(e^\eta /24\gt 0\), para algum \(\eta \in (0,1)\), temos

    \[ e=\frac83+\frac{e^\eta }{24}\gt \frac83. \]

    Portanto, a conclusão examinada é falsa.

Exercício 11.95
Use um polinômio de Taylor de \(\cos x\) centrado em \(0\) para calcular \(\cos 1\) com erro em módulo inferior a \(10^{-4}\). Justifique a ordem escolhida pela estimativa do resto.
Ver solução
O polinômio de ordem \(7\) coincide com o de ordem \(6\):
\[ P_7(x)=1-\frac{x^2}{2}+\frac{x^4}{24}-\frac{x^6}{720}. \]
O coeficiente de \(x^7\) é nulo, mas podemos usar a fórmula do resto de ordem \(7\). Como \(|f^{(8)}|=|\cos |\leq 1\), o erro em \(1\) é, em módulo, no máximo \(1/8!\lt 10^{-4}\). Portanto,
\[ \cos 1\approx P_7(1)=\frac{389}{720}\approx 0{,}5402778. \]

Exercício 11.96
Use o polinômio de Taylor de ordem \(4\) de \(\cos (2x)\), centrado em \(0\), para calcular o limite
\[ \lim _{x\to 0}\frac{1-\cos (2x)}{3x^2}. \]
Justifique por que o termo de erro não altera o resultado.
Ver solução
Temos \(P_4(x)=1-2x^2+(2/3)x^4\) e \(\cos (2x)=P_4(x)+E_4(x)\). Como a derivada de ordem \(5\) tem módulo no máximo \(32\), o resto satisfaz \(|E_4(x)|\leq 32|x|^5/5!\). Logo, \(E_4(x)/x^2\to 0\). Assim,
\[ \frac{1-\cos (2x)}{3x^2} =\frac23-\frac29x^2-\frac{E_4(x)}{3x^2} \longrightarrow \frac23. \]

Exercício 11.97
Obtenha o polinômio de Taylor de ordem \(2\) de \(\ln x\) centrado em \(x=1\) e use-o para aproximar \(\ln (1{,}06)\).
Ver solução
\(P_2(x)=(x-1)-(x-1)^2/2\). Portanto, \(\ln (1{,}06)\approx 0{,}06-0{,}06^2/2=0{,}0582\).

Exercício 11.98
Para \(f(x)=x^2e^{-x}\), calcule \(f(0)\), \(f'(0)\), \(f''(0)\) e \(f^{(3)}(0)\) e escreva o polinômio de Taylor de ordem \(3\) em torno de \(0\).
Ver solução
\(f(0)=0\), \(f'(0)=0\), \(f''(0)=2\) e \(f^{(3)}(0)=-6\). Assim, \(P_3(x)=x^2-x^3\).

11.10 \(\star \) Irracionalidade de e

O controle do erro de Taylor permite ir além do cálculo aproximado. Aplicado à função exponencial, ele fornece uma representação de \(e\) que usaremos para provar sua irracionalidade. Começaremos estabelecendo essa representação:

Teorema 11.79
\[ e=\lim _{n\to +\infty } \Bigl( 1 + 1 + \dfrac {1}{2} + \dfrac {1}{3!} + \dfrac {1}{4!} +\cdots + \dfrac {1}{n!}\Bigr) \]

Demonstração ▼

Como vimos, o polinômio de Taylor de ordem \(n\) da função \(f(x)=e^x\), centrado em \(0\), é \(\displaystyle P_n(x)=1+x+\dfrac {x^2}{2!}+\dfrac {x^3}{3!}+\dfrac {x^4}{4!}+\cdots +\dfrac {x^n}{n!}\). Para todo \(t\in [0,1]\), temos \(0\lt e^t=f^{(n+1)}(t)\leq e\lt 3\). Pelo Teorema 11.75, o erro da aproximação é dado por

\[ | e^1 - P_n(1)| = \Bigl| e - \Bigl( 1 + 1 + \dfrac {1}{2} + \dfrac {1}{3!} + \dfrac {1}{4!} +\cdots + \dfrac {1}{n!}\Bigr)\Bigr| = |E_n(1)| = \Bigl| \dfrac {f^{(n+1)}(\xi )}{(n+1)!}\Bigr| \]

para algum \(\xi \in (0,1)\). Logo,

\[ \Bigl| e - \Bigl( 1 + 1 + \dfrac {1}{2} + \dfrac {1}{3!} + \dfrac {1}{4!} +\cdots + \dfrac {1}{n!}\Bigr)\Bigr| \leq \dfrac {3}{(n+1)!}. \]

Finalmente, tomando o limite e aplicando o Teorema do Confronto obtemos

\[ \lim _{n\to +\infty } \Bigl( 1 + 1 + \dfrac {1}{2} + \dfrac {1}{3!} + \dfrac {1}{4!} +\cdots + \dfrac {1}{n!}\Bigr) = e. \]

Teorema 11.80
O número \(e\) é irracional.

Demonstração ▼

Suponha, por absurdo, que \(e=a/b\), com \(a\) e \(b\) inteiros positivos. Pelo teorema anterior, \(e\geq 1+1+\frac12\gt 2\); como \(e\lt 3\), não é inteiro e, portanto, \(b\geq 2\).

Todas as derivadas da função \(f(x)=e^x\) coincidem com a própria função. Aplicando a fórmula de Taylor em torno de \(0\), com resto de Lagrange, obtemos

\[ e=\sum _{k=0}^{b}\frac{1}{k!}+\frac{e^\xi }{(b+1)!}, \qquad 0\lt \xi \lt 1. \]

Multiplicamos por \(b!\) para eliminar os denominadores dos termos da soma e da fração \(a/b\). Assim,

\[ a(b-1)!-\sum _{k=0}^{b}\frac{b!}{k!} =\frac{e^\xi }{b+1}. \]

O lado esquerdo é um número inteiro, pois \(b!/k!\) é inteiro para todo \(0\leq k\leq b\). No entanto, como \(0\lt \xi \lt 1\), \(e\lt 3\) e \(b\geq 2\),

\[ 0\lt \frac{e^\xi }{b+1}\lt \frac{3}{b+1}\leq 1. \]

Teríamos, portanto, um número inteiro estritamente entre \(0\) e \(1\), o que é impossível. Logo, \(e\) é irracional.