Capítulo 8

Limites infinitos e no infinito

Segure o infinito na palma da mão e a eternidade em uma hora.
William Blake, Augúrios da Inocência
Uma função pode se aproximar de um valor quando a variável se afasta indefinidamente. Também pode crescer sem limite quando a variável se aproxima de um ponto finito. As duas situações envolvem a palavra “infinito”, mas descrevem comportamentos diferentes. Vamos ampliar a linguagem dos limites para distingui-los e reconhecer, nos gráficos, o que cada um significa.

8.1 Limites no infinito

Quando a variável cresce indefinidamente ou assume valores negativos cada vez maiores em módulo, os valores da função se aproximam de algum número? Queremos descrever essa aproximação e identificar as condições que a garantem.

Considere a função \(f(x)= \dfrac {x}{x^2+1}\), cujo gráfico é apresentado na Figura 8.1.

Figura 8.1 Gráfico de f(x)=(x)/(x^2+1).

Figura 8.1 Gráfico de \(f(x)=\dfrac {x}{x^2+1}\).

À medida que \(x\) cresce, os valores da função se aproximam de \(0\). Escrevemos

\[ \lim \limits _{x\to \infty } \dfrac {x}{x^2+1}=0. \]

Neste capítulo, \(x\to \infty \) e \(x\to +\infty \) têm o mesmo significado: a variável cresce sem limite. A função também se aproxima de \(0\) quando \(x\) assume valores negativos cada vez maiores em módulo. Escrevemos

\[ \lim \limits _{x\to -\infty } \dfrac {x}{x^2+1}=0. \]

Podemos modificar a noção de limite anterior de modo a lidar com esses casos. A modificação essencial é formalizar a afirmação de que “se \(x\) é suficientemente grande” por meio de “existe \(M\gt 0\) tal que, se \(x\gt M\)”.

Definição 8.1 (Limite quando \(x\to +\infty \))

Seja \(f\) definida para todo \(x\gt c\), para algum \(c\in \mathbb {R}\), e seja \(L\in \mathbb {R}\). Dizemos que

\[ \lim _{x\to +\infty }f(x)=L \]

se, para todo \(\varepsilon \gt 0\), existe \(M\gt 0\) tal que

\[ x\gt M\quad \Longrightarrow \quad |f(x)-L|\lt \varepsilon . \]

Definição 8.2 (Limite quando \(x\to -\infty \))
Seja \(f\) definida para todo \(x\lt c\), para algum \(c\in \mathbb {R}\), e seja \(L\in \mathbb {R}\). Dizemos que
\[ \lim _{x\to -\infty }f(x)=L \]
se, para todo \(\varepsilon \gt 0\), existe \(M\gt 0\) tal que
\[ x\lt -M\quad \Longrightarrow \quad |f(x)-L|\lt \varepsilon . \]

Geometricamente, se \(\lim _{x\to +\infty }f(x)=L\) ou \(\lim _{x\to -\infty }f(x)=L\), a reta \(y=L\) é uma assíntota horizontal do gráfico na extremidade correspondente. O limite deve ser analisado separadamente em \(+\infty \) e \(-\infty \), pois os resultados podem ser diferentes.

Exemplo 8.1
Mostre a partir da definição que \(\lim \limits _{x\to \infty } \dfrac {1}{x}=0\).

Solução
Queremos mostrar que existe \(M\) tal que, se \(x\gt M\), \(\left\lvert f(x)\right\rvert \lt \varepsilon \). Como \(x\) tende a \(+\infty \), basta considerar \(x\gt 0\). Nesse caso, \(\left\lvert f(x)\right\rvert \lt \varepsilon \) equivale a \(\frac{1}{x}\lt \varepsilon \), isto é, \(x\gt \frac{1}{\varepsilon }\). Escolhemos, portanto, \(M=\frac{1}{\varepsilon }\). Quando \(x\gt M\), então \(x\gt \frac{1}{\varepsilon }\) e, assim, \(0\lt \frac{1}{x}\lt \varepsilon \). Isso prova que \(\lim \limits _{x\to \infty } \dfrac {1}{x}=0\).

Exemplo 8.2
Mostre a partir da definição que \(\lim \limits _{x\to \infty } \dfrac {1}{\sqrt{x}}=0\).

Solução
Para \(\varepsilon \gt 0\), a condição \(1/\sqrt{x}\lt \varepsilon \) é equivalente a \(x\gt 1/\varepsilon ^2\). Portanto, a escolha \(M=1/\varepsilon ^2\) garante que \(x\gt M\) implique \(|1/\sqrt{x}-0|\lt \varepsilon \). A diferença em relação ao exemplo anterior está no limiar necessário, não na estrutura da demonstração.

Exemplo 8.3 (Um limite racional pela definição)
Mostre que \(\displaystyle \lim _{x\to +\infty }\frac{2x+1}{x+2}=2\).
Solução
A diferença em relação ao valor conjecturado é
\[ \left|\frac{2x+1}{x+2}-2\right|=\frac3{|x+2|}. \]
Se \(x\gt 1\), o denominador é positivo e maior que \(x\), de modo que a diferença é menor que \(3/x\). Dado \(\varepsilon \gt 0\), tome
\[ M=\max \{ 1,3/\varepsilon \} . \]
Para todo \(x\gt M\), a condição \(x\gt 1\) permite usar a estimativa e \(x\gt 3/\varepsilon \) garante \(3/x\lt \varepsilon \). Logo, a escolha de \(M\) satisfaz a definição. O máximo reúne uma condição para a estimativa e outra para a tolerância.

Exemplo 8.4 (Quando uma enzima está praticamente saturada)
Em um ensaio, a concentração \(S\) do substrato é medida em \(\mathrm{mmol/L}\) e a velocidade da reação enzimática, em \(\mu \mathrm{mol/min}\). Observa-se que essa velocidade se aproxima de \(80\, \mu \mathrm{mol/min}\) quando \(S\) aumenta. Para \(S=2\, \mathrm{mmol/L}\), a velocidade medida é \(40\, \mu \mathrm{mol/min}\). Adote um modelo de saturação da forma
\[ v(S)=\frac{aS}{b+S},\qquad S\geq 0,\quad a,b\gt 0. \]
Determine \(a\) e \(b\). O laboratório considera a enzima praticamente saturada quando sua velocidade atinge pelo menos \(95\% \) da velocidade limite. Qual é a menor concentração que satisfaz esse critério? A velocidade limite é atingida para alguma concentração finita?

Solução

O parâmetro \(a\) tem unidade de velocidade e \(b\) tem a mesma unidade de concentração que \(S\). Nos cálculos seguintes, usamos os valores numéricos de \(v\) em \(\mu \mathrm{mol/min}\) e de \(S\) e \(b\) em \(\mathrm{mmol/L}\). Dividindo numerador e denominador por \(S\), vemos que \(\lim _{S\to \infty }v(S)=a\). A primeira observação fornece, portanto, \(a=80\, \mu \mathrm{mol/min}\). Usando a medida realizada em \(S=2\),

\[ 40=\frac{80\cdot 2}{b+2}, \]

de onde \(b=2\, \mathrm{mmol/L}\). Assim, em valores numéricos nas unidades adotadas, o modelo calibrado é

\[ v(S)=\frac{80S}{S+2}. \]

A condição de saturação prática é \(v(S)\geq 0{,}95\cdot 80=76\). Como \(S+2\gt 0\),

\[ \frac{80S}{S+2}\geq 76 \quad \Longleftrightarrow \quad 80S\geq 76S+152 \quad \Longleftrightarrow \quad S\geq 38. \]

A menor concentração é, portanto, \(38\, \mathrm{mmol/L}\). Por outro lado,

\[ 80-v(S)=\frac{160}{S+2}\gt 0 \]

para todo \(S\) finito. A velocidade pode ficar tão próxima de \(80\, \mu \mathrm{mol/min}\) quanto se queira, mas nunca atinge exatamente esse valor no modelo.

Ilustração: Limites no infinito
Figura 8.2 O modelo tende ao platô \(80\); o nível de \(95\% \) é atingido em \(S=38\).

Exercício 8.1 (Aproximar-se também pode significar atravessar)

Considere, para \(x\geq 0\),

\[ f(x)=2+\frac{\operatorname {sen}x}{x+1}. \]

A reta tracejada é \(y=2\).

  1. Use \(|\operatorname {sen}x|\leq 1\) para justificar o limite de \(f\) quando \(x\to +\infty \). Indique um valor a partir do qual o majorante encontrado garanta \(|f(x)-2|\leq 0{,}01\).

  2. O gráfico encontra a reta \(y=2\) infinitas vezes e passa de um lado dela para o outro. Isso impede que ela seja uma assíntota horizontal? Explique o que o limite controla.

Ilustração: Limites no infinito

Ver solução
a) \(|f(x)-2|\leq 1/(x+1)\to 0\), logo o limite é \(2\). Para \(x\geq 99\), esse majorante é no máximo \(0{,}01\). b) Não. Os encontros ocorrem em \(x=n\pi \), \(n\geq 0\), e o sinal do desvio alterna entre eles. Uma assíntota horizontal exige que a distância vertical à reta tenda a zero; não exige aproximação monótona nem por um único lado.

Exercício 8.2 (Pequena diferença, grande erro relativo)
Dois modelos para uma quantidade residual são
\[ A(t)=\frac1{t+1},\qquad B(t)=\frac2{t+1},\qquad t\geq 0. \]
  1. Determine os limites de \(A\), \(B\) e \(B-A\) quando \(t\to +\infty \).

  2. Um relatório conclui que os modelos se tornam “percentualmente indistinguíveis”. Avalie a conclusão calculando \((B(t)-A(t))/A(t)\) e distinguindo erro absoluto de erro relativo.

Ver solução
a) Os três limites são zero. b) O erro relativo é constantemente \(1\), isto é, \(100\% \) em relação a \(A\). A diferença absoluta diminui até zero, mas \(B\) permanece sempre duas vezes maior que \(A\). Ter o mesmo limite não implica proximidade relativa.

Exercício 8.3
Mostre, a partir da definição, que
\[ \lim _{x\to +\infty }\frac{3}{x+2}=0. \]
Ver solução
Dado \(\varepsilon \gt 0\), tome \(M=3/\varepsilon \). Se \(x\gt M\), então \(x+2\gt x\gt M\) e
\[ 0\lt \frac3{x+2}\lt \frac3x\lt \varepsilon . \]
Exercício 8.4
Demonstre, usando a definição de limite no infinito, que \(\lim _{x\to \infty }7/(x+4)=0\). Para um erro máximo \(\varepsilon \), produza um limiar explícito \(N(\varepsilon )\).
Ver solução
Dado \(\varepsilon \gt 0\), tome \(N=7/\varepsilon \). Se \(x\gt N\), então
\[ \left|\frac7{x+4}\right|\lt \frac7x\lt \varepsilon . \]

Exercício 8.5
Determine as assíntotas horizontais de
\[ f(x)=\frac{2x}{\sqrt{x^2+1}}, \]
analisando separadamente \(x\to +\infty \) e \(x\to -\infty \).
Ver solução
Para \(x\gt 0\),
\[ f(x)=\frac2{\sqrt{1+1/x^2}}\longrightarrow 2. \]
Para \(x\lt 0\), usamos \(\sqrt{x^2}=|x|=-x\):
\[ f(x)=-\frac2{\sqrt{1+1/x^2}}\longrightarrow -2. \]
As assíntotas horizontais são \(y=2\) à direita e \(y=-2\) à esquerda.

Exercício 8.6 (Quantas vezes uma função racional encontra sua assíntota?)
Seja \(f=P/Q\) uma função racional não constante, na qual \(P\) e \(Q\) são polinômios reais de mesmo grau \(n\geq 1\), e seja \(y=L\) sua assíntota horizontal.
  1. Mostre que o gráfico de \(f\) encontra a reta \(y=L\) em, no máximo, \(n-1\) pontos. (Sugestão: estude o grau de \(P-LQ\).)

  2. Conclua que, para \(a,c\ne 0\) e \(ad-bc\ne 0\), o gráfico de

    \[ h(x)=\frac{ax+b}{cx+d} \]

    nunca encontra sua assíntota horizontal. Em contraste, mostre que o gráfico de

    \[ g(x)=\frac{x^2+x}{x^2+1} \]

    encontra sua assíntota horizontal uma única vez. Em que ponto?

  3. Compare com o primeiro exercício deste capítulo. Por que uma função racional não constante não pode cruzar sua assíntota horizontal infinitas vezes?

Ver solução
  1. Como \(P\) e \(Q\) têm mesmo grau, \(L\) é o quociente de seus coeficientes dominantes. Logo, os termos de grau \(n\) se cancelam em \(P-LQ\), que tem grau no máximo \(n-1\), a menos que seja o polinômio nulo. O último caso tornaria \(f\) constante em seu domínio, contrariando a hipótese. Todo encontro do gráfico com \(y=L\) satisfaz \(P(x)-LQ(x)=0\) e \(Q(x)\ne 0\). Portanto, há no máximo \(n-1\) encontros.

  2. Para \(h\), temos \(n=1\), de modo que não há encontros. Para \(g\), a assíntota horizontal é \(y=1\), e a equação \(g(x)=1\) equivale a \(x-1=0\), pois \(x^2+1\gt 0\). O único encontro é \((1,1)\).

  3. O exercício inicial apresentou uma função oscilatória que encontra sua assíntota infinitas vezes. Numa função racional não constante, esses encontros correspondem a raízes de um polinômio não nulo de grau finito, portanto só podem ser finitos.

8.2 Limites infinitos

Nos limites no infinito, acompanhamos a função quando a variável se afasta indefinidamente da origem. Também pode ocorrer que os valores da função cresçam sem limite quando a variável se aproxima de um ponto finito. É o que acontece no Exemplo 7.5: o limite \(\lim \limits _{x\to 0}\dfrac {1}{\left\lvert x\right\rvert }\) não existe como número real, mas seu comportamento pode ser descrito por um limite infinito.

Figura 8.3 A função 1/|x| não tem limite finito quando x tende a zero.

Figura 8.3 A função \(1/|x|\) não tem limite finito quando \(x\) tende a zero.
Dado um número positivo, \(1/|x|\) o ultrapassa para todo \(x\neq 0\) suficientemente próximo de zero, tanto pela esquerda quanto pela direita. Esse comportamento é expresso pela notação de limite infinito.

Para \(7/(x-4)\), os sinais são diferentes nos dois lados de \(4\): o denominador é negativo à esquerda e positivo à direita. Consideremos os limites laterais.

Figura 8.4 Limite infinito indicado pelo crescimento sem cota do gráfico.

Figura 8.4 Limite infinito indicado pelo crescimento sem cota do gráfico.
Quando \(x\) tende a \(4\) pela direita, \(\dfrac {7}{x-4}\) cresce sem limite. Quando \(x\) tende a \(4\) pela esquerda, assume valores negativos de módulo arbitrariamente grande. A Figura 8.4 ilustra esses dois comportamentos. Representamos esses comportamentos por:

\[ \lim \limits _{x\to 4^+}\dfrac {7}{x-4}=\infty \quad \text{ e }\quad \lim \limits _{x\to 4^-}\dfrac {7}{x-4}=-\infty \]

Definição 8.3 (Limites infinitos)
Seja \(f\) uma função definida em uma vizinhança de \(a\), exceto possivelmente no próprio ponto \(a\). Dizemos que
\[ \lim _{x\to a}f(x)=+\infty \]
se, para todo \(M\gt 0\), existe \(\delta \gt 0\) tal que
\[ 0\lt |x-a|\lt \delta \quad \Longrightarrow \quad f(x)\gt M. \]
Analogamente, dizemos que
\[ \lim _{x\to a}f(x)=-\infty \]
se, para todo \(M\gt 0\), existe \(\delta \gt 0\) tal que
\[ 0\lt |x-a|\lt \delta \quad \Longrightarrow \quad f(x)\lt -M. \]
Para o limite pela direita, substituímos \(0\lt |x-a|\lt \delta \) por \(0\lt x-a\lt \delta \); para o limite pela esquerda, usamos \(0\lt a-x\lt \delta \). Em cada caso, basta que \(f\) esteja definida no intervalo lateral correspondente. A desigualdade sobre \(f(x)\) permanece \(f(x)\gt M\) para \(+\infty \) e \(f(x)\lt -M\) para \(-\infty \).

Se pelo menos um dos limites laterais de \(f(x)\) quando \(x\to a\) é \(+\infty \) ou \(-\infty \), a reta \(x=a\) é uma assíntota vertical do gráfico. O sinal e o lado de aproximação descrevem para qual direção cada ramo se afasta.

Para definir limites infinitos quando \(x\) tende ao infinito, usamos um limiar \(A\gt 0\). Para todo \(M\gt 0\), deve existir \(A\gt 0\) de modo que:

  • \(x\gt A\Longrightarrow f(x)\gt M\), no caso \(\lim _{x\to +\infty }f(x)=+\infty \);

  • \(x\gt A\Longrightarrow f(x)\lt -M\), no caso \(\lim _{x\to +\infty }f(x)=-\infty \);

  • \(x\lt -A\Longrightarrow f(x)\gt M\), no caso \(\lim _{x\to -\infty }f(x)=+\infty \);

  • \(x\lt -A\Longrightarrow f(x)\lt -M\), no caso \(\lim _{x\to -\infty }f(x)=-\infty \).

Supomos, em cada caso, que o domínio de \(f\) contém a semirreta considerada.

Exemplo 8.5
Mostre que \(\lim \limits _{x\to \infty }x=\infty \).

Solução
Pela definição, dado \(M\gt 0\), devemos encontrar \(A\gt 0\) tal que \(x\gt A\) implique \(x\gt M\). Basta escolher \(A=M\).

Exemplo 8.6
Mostre que \(\lim \limits _{x\to \infty }x^2=\infty \).

Solução
Dado \(M\gt 0\), escolhemos \(A=\sqrt{M}\). Se \(x\gt A\), então \(x^2\gt M\), como desejado.

Exemplo 8.7 (Até onde a paisagem permanece nítida?)
Para uma configuração fixa de câmera, lente e abertura, seja \(H\) uma constante positiva. Se a câmera estiver focalizada a uma distância \(s\), com \(0\lt s\lt H\), um modelo aproximado fornece as extremidades da região considerada aceitavelmente nítida:
\[ d_{\mathrm{perto}}(s)=\frac{Hs}{H+s}, \qquad d_{\mathrm{longe}}(s)=\frac{Hs}{H-s}. \]
Em uma fotografia de teste focalizada a \(8\) metros, o ponto mais distante considerado nítido estava a \(24\) metros. Determine \(H\) e investigue o que ocorre com as duas extremidades quando \(s\to H^-\). Nessa configuração, uma pedra situada a \(5\) metros e o horizonte podem aparecer simultaneamente nítidos?

Figura 8.5 Esquema da região de profundidade de campo no modelo fotográfico.

Figura 8.5 Esquema da região de profundidade de campo no modelo fotográfico.

Solução

A fotografia de teste fornece

\[ 24=\frac{8H}{H-8}. \]

Logo, \(24H-192=8H\) e \(H=12\) metros. Consequentemente,

\[ \lim _{s\to 12^-}\frac{12s}{12+s}=6, \qquad \lim _{s\to 12^-}\frac{12s}{12-s}=+\infty . \]

Ao focalizar progressivamente mais perto de \(H\), o extremo distante da região nítida se afasta indefinidamente, enquanto o extremo próximo tende a \(6\) metros. Se a pedra de \(5\) metros está nítida, então \(d_{\mathrm{perto}}(s)=12s/(12+s)\leq 5\), isto é, \(s\leq 60/7\). Nesse caso, \(d_{\mathrm{longe}}(s)\leq 30\) metros, pois \(12s/(12-s)\leq 30\) equivale a \(s\leq 60/7\). Portanto, o horizonte não pode estar nítido junto com a pedra.

Ilustração: Limites infinitos

8.2.1 Propriedades dos limites infinitos e no infinito

As expressões \(+\infty \) e \(-\infty \) descrevem comportamentos; não são números reais acrescentados à reta. As regras para esses limites decorrem das definições e descrevem como tais comportamentos se combinam.

Para evitar repetições, escreveremos \(x\to \alpha \) para qualquer um dos casos \(x\to a\), \(x\to a^+\), \(x\to a^-\), \(x\to +\infty \) ou \(x\to -\infty \). As desigualdades mencionadas devem valer para \(x\) suficientemente próximo de \(\alpha \), no domínio correspondente.

Comparação e recíproco.

A comparação transfere para outra função um crescimento ou decrescimento já conhecido. O recíproco, por sua vez, troca grandezas próximas de zero por grandezas de módulo elevado, e vice-versa.

Proposição 8.8 (Comparação e recíproco)
  1. Se \(f(x)\geq g(x)\) e \(\lim _{x\to \alpha }g(x)=+\infty \), então \(\lim _{x\to \alpha }f(x)=+\infty \). Se \(f(x)\leq g(x)\) e \(\lim _{x\to \alpha }g(x)=-\infty \), então \(\lim _{x\to \alpha }f(x)=-\infty \).

  2. Se \(f(x)\to 0\) por valores positivos, então \(1/f(x)\to +\infty \); se \(f(x)\to 0\) por valores negativos, então \(1/f(x)\to -\infty \).

  3. Se \(|f(x)|\to +\infty \), então \(1/f(x)\to 0\).

Demonstração ▼

No primeiro item, dado \(M\gt 0\), a hipótese \(g(x)\to +\infty \) garante \(g(x)\gt M\) suficientemente perto de \(\alpha \); como \(f(x)\geq g(x)\), também \(f(x)\gt M\). O caso de \(-\infty \) é análogo.

No segundo item, suponha \(f(x)\to 0\) por valores positivos. Dado \(M\gt 0\), aplique a definição de limite com \(\varepsilon =1/M\): suficientemente perto de \(\alpha \), temos \(0\lt f(x)\lt 1/M\), logo \(1/f(x)\gt M\). O caso de valores negativos é obtido do mesmo modo.

No terceiro item, dado \(\varepsilon \gt 0\), escolha o limiar \(1/\varepsilon \). Se \(|f(x)|\gt 1/\varepsilon \), então

\[ \left|\frac1{f(x)}\right|\lt \varepsilon . \]

Observação 8.9 (Consequências imediatas)
As propriedades de comparação permitem obter os limites seguintes. Para as potências inteiras, comparamos com \(x\) ou \(-x\) em semirretas adequadas; para a exponencial de base \(c\gt 1\), usamos também a Proposição 1.13.
  1. Dado \(c\gt 1\), temos \(\lim \limits _{x\to \infty } c^x=\infty \). Para \(c=1\), o limite é \(1\); para \(0\lt c\lt 1\), é \(0\). De fato, se \(c\gt 1\) e \(x\geq n\in \mathbb {N}\), a monotonicidade e a desigualdade de Bernoulli dão \(c^x\geq c^n\geq 1+n(c-1)\), que cresce sem limite com \(n\). O caso \(0\lt c\lt 1\) segue escrevendo \(c^x=1/(1/c)^x\).

  2. Dado \(k\in \mathbb {N}^*\) então \(\lim \limits _{x\to \infty } x^k=\infty \).

  3. Dado \(k\in \mathbb {N}^*\) ímpar então \(\lim \limits _{x\to -\infty } x^k=-\infty \).

  4. Dado \(k\in \mathbb {N}^*\) par então \(\lim \limits _{x\to -\infty } x^k=\infty \).

Proposição 8.10 (Limites do logaritmo natural)
Temos
\[ \lim _{x\to +\infty }\ln x=+\infty \index{logaritmo!limites|hyperpage} \qquad \text{e}\qquad \lim _{x\to 0^+}\ln x=-\infty . \]

Demonstração ▼

Como \(\ln \) é crescente e \(\ln (2^n)=n\ln 2\), dado \(M\gt 0\) escolhemos \(n\) com \(n\ln 2\gt M\). Se \(x\gt 2^n\), então \(\ln x\gt n\ln 2\gt M\), o que prova o primeiro limite. Para o segundo, escreva

\[ \ln x=-\ln (1/x). \]

Quando \(x\to 0^+\), temos \(1/x\to +\infty \), e o primeiro limite fornece a conclusão.

Somas: qual termo domina?

Uma parcela limitada não altera um crescimento sem cota. Duas parcelas que divergem no mesmo sentido reforçam-se. Já parcelas que divergem em sentidos opostos competem entre si, e seus limites isolados não bastam para decidir o resultado.

Proposição 8.11 (Somas com limites infinitos)
Suponha que \(r\) seja limitada quando \(x\to \alpha \). Então:
  1. se \(f,g\to +\infty \), então \(f+g\to +\infty \); se \(f,g\to -\infty \), então \(f+g\to -\infty \);

  2. se \(f\to +\infty \), então \(f+r\to +\infty \); se \(f\to -\infty \), então \(f+r\to -\infty \);

  3. se \(f\to +\infty \) e \(h\to -\infty \), então \(f-h\to +\infty \) e \(h-f\to -\infty \).

Todos os limites são tomados quando \(x\to \alpha \).

Demonstração ▼

Para o primeiro item, dado \(M\gt 0\), fazemos \(f\gt M/2\) e \(g\gt M/2\) suficientemente perto de \(\alpha \); então \(f+g\gt M\). Os casos negativos são análogos.

Para o segundo item, existe \(K\gt 0\) tal que \(|r(x)|\leq K\) perto de \(\alpha \). Se \(f\to +\infty \), fazemos \(f\gt M+K\); então \(f+r\gt M\). O caso de \(-\infty \) é análogo.

No terceiro item, \(-h\to +\infty \), e a conclusão segue do primeiro caso aplicado a \(f+(-h)\). A outra diferença é tratada da mesma forma.

Produtos: o sinal decide.

Proposição 8.12 (Produtos com limites infinitos)

Suponha que \(f\to +\infty \) ou \(f\to -\infty \) quando \(x\to \alpha \). Se \(q(x)\to L\neq 0\), então \(q\) fica afastada de zero e conserva o sinal de \(L\) para \(x\) próximo de \(\alpha \). Assim, \(L\gt 0\) preserva o sentido da divergência de \(f\), enquanto \(L\lt 0\) o inverte.

Se cada um dos dois fatores tende a \(+\infty \) ou a \(-\infty \), o limite do produto segue a regra de sinais:

\[ \begin{array}{c|cc}& g\to +\infty & g\to -\infty \\ \hline f\to +\infty & fg\to +\infty & fg\to -\infty \\ f\to -\infty & fg\to -\infty & fg\to +\infty \end{array} \]

Todos os limites da tabela são tomados quando \(x\to \alpha \).

Demonstração ▼

Suponha primeiro \(f\to +\infty \) e \(q\to L\gt 0\). Como \(q\to L\), temos \(q(x)\gt L/2\) suficientemente perto de \(\alpha \). Dado \(M\gt 0\), fazemos também \(f(x)\gt 2M/L\). Então \(f(x)q(x)\gt M\). Se \(L\lt 0\), aplicamos o mesmo argumento a \(-q\), o que inverte o sinal do produto. Os casos \(f\to -\infty \) seguem aplicando o resultado a \(-f\).

Se ambos os fatores divergem, dado \(M\gt 0\) fazemos \(|f(x)|\gt \sqrt M\) e \(|g(x)|\gt \sqrt M\) perto de \(\alpha \). Assim, \(|f(x)g(x)|\gt M\); o sinal é determinado pelos sinais que os fatores mantêm para \(x\) suficientemente próximo de \(\alpha \), conforme a tabela.

Em particular, multiplicar por uma constante positiva preserva o sentido da divergência, e multiplicar por uma constante negativa o inverte. A constante zero é um caso separado: \(0\cdot f\) é a função nula. Isso não autoriza concluir nada quando um fator apenas tende a zero.

Formas indeterminadas não são resultados
Os símbolos \(\infty -\infty \) e \(0\cdot \infty \) não determinam, por si sós, um limite. Quando \(x\to +\infty \), por exemplo,
\[ x-x=0,\qquad (x+1)-x=1,\qquad x^2-x\longrightarrow +\infty ; \]
as três diferenças têm a forma aparente \(\infty -\infty \). Do mesmo modo,
\[ \frac1{x^2}\, x\longrightarrow 0,\qquad \frac1x\, x=1,\qquad \frac1{\sqrt x}\, x\longrightarrow +\infty , \]
embora em todas apareça \(0\cdot \infty \). É preciso simplificar ou comparar as funções antes de aplicar propriedades de limites.

Limites finitos quando a variável tende ao infinito.

Se o ponto de aproximação muda de um número real para \(+\infty \) ou \(-\infty \), mas os valores-limite continuam finitos, valem as mesmas propriedades algébricas estudadas no capítulo anterior.

Proposição 8.13 (Regras para limites finitos no infinito)
Se \(\alpha \in \{ -\infty ,+\infty \} \), \(f(x)\to A\) e \(g(x)\to B\) quando \(x\to \alpha \), com \(A,B\in \mathbb R\), então
\[ \begin{aligned} f+g& \to A+B, & f-g& \to A-B, & fg& \to AB,\\ cf& \to cA, & \frac{f}{g}& \to \frac AB\quad (B\neq 0). \end{aligned} \]
Também podemos passar ao limite no módulo, em potências inteiras positivas e na raiz quadrada, desde que seu domínio seja respeitado. Em particular, se \(f(x)\geq 0\) para \(x\) suficientemente próximo de \(\alpha \), então \(A\geq 0\) e \(\sqrt{f(x)}\to \sqrt A\).

Demonstração ▼

As demonstrações são as mesmas das regras de limites finitos já provadas: dado \(\varepsilon \gt 0\), controlamos cada parcela ou fator por uma condição válida para \(x\) suficientemente grande em módulo. A única mudança é substituir a vizinhança perfurada de um ponto por uma semirreta \(x\gt M\) ou \(x\lt -M\).

Teorema 8.14 (Teorema do Confronto no infinito)
Se \(\alpha \in \{ -\infty ,+\infty \} \) e, para \(x\) suficientemente próximo de \(\alpha \),
\[ f(x)\leq g(x)\leq h(x), \]
com
\[ \lim _{x\to \alpha }f(x)= \lim _{x\to \alpha }h(x)=L\in \mathbb {R}, \]
então \(\lim _{x\to \alpha }g(x)=L\).

Demonstração ▼

Dado \(\varepsilon \gt 0\), escolhemos \(M\gt 0\) maior que os limiares necessários para os limites de \(f\) e \(h\) e para a desigualdade \(f\leq g\leq h\). Assim, para \(x\gt M\) se \(\alpha =+\infty \), ou para \(x\lt -M\) se \(\alpha =-\infty \), temos

\[ L-\varepsilon \lt f(x)\leq g(x)\leq h(x)\lt L+\varepsilon . \]

Logo, \(|g(x)-L|\lt \varepsilon \), que é a definição do limite no infinito.

Exemplo 8.15 (A diferença aumenta, a razão se aproxima de um)
Para \(x\ge 1\), considere \(f(x)=x+\sqrt{x}\) e \(g(x)=x\). Calcule os limites de \(f(x)-g(x)\) e de \(f(x)/g(x)\) quando \(x\to +\infty \). Distinga as afirmações: a separação vertical entre os gráficos tende a zero; o acréscimo em relação a \(g(x)\) se torna proporcionalmente pequeno. Qual delas é verdadeira? Por que uma janela gráfica ampla pode sugerir uma proximidade enganosa?
[figuras/proposta-20261016-e8-1-1.tex
Figura 8.6 A aparência de proximidade no painel à esquerda se deve à escala; a separação vertical cresce, como evidencia o painel à direita.

Solução
A diferença absoluta é
\[ f(x)-g(x)=\sqrt{x}\longrightarrow +\infty . \]
Portanto, as curvas não se aproximam em distância vertical. Já a razão é
\[ \frac{f(x)}{g(x)}=1+\frac1{\sqrt{x}}\longrightarrow 1. \]
Em termos relativos, o acréscimo \(\sqrt{x}\) torna-se pequeno diante de \(x\), apesar de aumentar sem limite. Por exemplo, em \(x=100\) a diferença é \(10\), mas representa apenas \(10\% \) de \(g(100)\); em \(x=10\, 000\) a diferença é \(100\), mas representa apenas \(1\% \) de \(g(10\, 000)\).
Ideia
Duas expressões podem ser equivalentes em termos relativos, \(f(x)/g(x)\to 1\), sem que sua diferença tenda a zero. Interpretar um gráfico exige atenção à escala e à pergunta que está sendo feita.

Como escolher a regra.

Primeiro identifique separadamente o comportamento de cada parcela ou fator. Antes de aplicar uma propriedade, verifique suas hipóteses. Se surgir uma forma indeterminada, procure uma simplificação ou uma estimativa. Fatoração, divisão pelo termo dominante e multiplicação pelo conjugado são estratégias úteis nos exemplos seguintes.

Em particular, se numerador e denominador divergem em módulo, o quociente apresenta a forma indeterminada \(\infty /\infty \). Essa forma não informa o valor do limite: ele dependerá da rapidez relativa de crescimento das duas funções. Os exemplos seguintes mostram como revelar essa comparação por meio de simplificações algébricas.

Exemplo 8.16
Calcule \(\lim \limits _{x\to \infty } \dfrac {x^2+1}{x^2-1}\).

Solução
Para \(x\neq 0\), dividimos numerador e denominador por \(x^2\):
\[ \frac{x^2+1}{x^2-1} = \frac{1+1/x^2}{1-1/x^2}. \]
Como \(1/x^2\to 0\) quando \(x\to +\infty \), o numerador tende a \(1\) e o denominador também tende a \(1\neq 0\). Pela regra do quociente,
\[ \lim \limits _{x\to \infty }\frac{x^2+1}{x^2-1}=1. \]

Exemplo 8.17
Calcule \(\lim \limits _{x\to \infty }(2x^3-3x^2+1)\).

Solução
Colocando o termo de maior grau em evidência, obtemos, para \(x\neq 0\),
\[ 2x^3-3x^2+1=x^3\left(2-\frac3x+\frac1{x^3}\right). \]
Quando \(x\to +\infty \), o fator entre parênteses tende a \(2\gt 0\), enquanto \(x^3\to +\infty \). Pela propriedade do produto de uma função com limite positivo e outra com limite \(+\infty \),
\[ \lim \limits _{x\to \infty }(2x^3-3x^2+1)=+\infty . \]

Exemplo 8.18
Calcule \(\lim \limits _{x\to \infty } \dfrac {2x^3+3x^2+1}{4x^2-2x+1}\).

Solução
Para \(x\neq 0\), a fatoração dos termos de maior grau fornece
\begin{align*} \frac{2x^3+3x^2+1}{4x^2-2x+1} & =\frac{x^3(2+3/x+1/x^3)}{x^2(4-2/x+1/x^2)}\\ & =x\, \frac{2+3/x+1/x^3}{4-2/x+1/x^2}. \end{align*}
O quociente que multiplica \(x\) tende a \(2/4=1/2\gt 0\). Como \(x\to +\infty \), a propriedade multiplicativa dá
\[ \lim \limits _{x\to \infty }\frac{2x^3+3x^2+1}{4x^2-2x+1}=+\infty . \]

Exemplo 8.19
Calcule os limites de \(\dfrac {x}{\sqrt{9x^2+1}}\) quando \(x\) tende a \(+\infty \) e a \(-\infty \).
Solução
Para \(x\ne 0\), colocamos \(x^2\) em evidência dentro da raiz:
\[ \sqrt{9x^2+1}=|x|\sqrt{9+\frac1{x^2}}. \]
Se \(x\to +\infty \), então \(x\gt 0\) e \(|x|=x\). Assim,
\[ \lim _{x\to +\infty }\frac{x}{\sqrt{9x^2+1}} =\lim _{x\to +\infty }\frac1{\sqrt{9+1/x^2}}=\frac13. \]
Se \(x\to -\infty \), então \(x\lt 0\) e \(|x|=-x\). Nesse caso,
\[ \lim _{x\to -\infty }\frac{x}{\sqrt{9x^2+1}} =\lim _{x\to -\infty }\frac{-1}{\sqrt{9+1/x^2}}=-\frac13. \]
É o fator \(|x|\), e não simplesmente \(x\), que explica a diferença entre os dois limites.

Exemplo 8.20
Calcule \(\lim \limits _{x\to \infty } \dfrac {5x^3+x^2-3}{2x^3-x+5}\).

Solução
Para \(x\neq 0\), dividimos numerador e denominador por \(x^3\):
\[ \frac{5x^3+x^2-3}{2x^3-x+5} = \frac{5+1/x-3/x^3}{2-1/x^2+5/x^3}. \]
Quando \(x\to +\infty \), o numerador tende a \(5\) e o denominador tende a \(2\neq 0\). Pela regra do quociente,
\[ \lim \limits _{x\to \infty }\frac{5x^3+x^2-3}{2x^3-x+5}=\frac52. \]

Exemplo 8.21
Calcule \(\lim \limits _{x\to \infty } \dfrac {5x^2+x-3}{4x^4-x+2}\).

Solução
Para \(x\neq 0\), dividimos numerador e denominador por \(x^4\):
\[ \frac{5x^2+x-3}{4x^4-x+2} = \frac{5/x^2+1/x^3-3/x^4}{4-1/x^3+2/x^4}. \]
O numerador tende a \(0\) e o denominador a \(4\neq 0\). Pela regra do quociente,
\[ \lim \limits _{x\to \infty }\frac{5x^2+x-3}{4x^4-x+2}=0. \]

Os limites no infinito também permitem comparar uma função com uma reta não horizontal. Se

\[ \lim _{x\to +\infty }\bigl(f(x)-(mx+b)\bigr)=0 \quad \text{ou}\quad \lim _{x\to -\infty }\bigl(f(x)-(mx+b)\bigr)=0, \]

a reta \(y=mx+b\) é uma assíntota oblíqua na extremidade correspondente quando \(m\neq 0\). O caso \(m=0\) recupera uma assíntota horizontal.

Exercício 8.7 (Uma assíntota pode conter um ponto do gráfico)

A função está definida em toda a reta por

\[ f(x)=\begin{cases} (x-2)^{-2},& x\neq 2,\\ 1,& x=2.\end{cases} \]

As setas na parte superior da figura indicam a continuação dos ramos para fora da janela.

  1. Determine os limites laterais em \(2\) e compare-os com \(f(2)\). O ponto \((2,1)\) impede que \(x=2\) seja uma assíntota vertical?

  2. Seria possível tornar \(f\) contínua em \(2\) mudando apenas seu valor nesse ponto? Explique por que “tender a \(+\infty \)” não fornece um valor real para preencher o ponto.

Ilustração: Propriedades dos limites infinitos e no infinito

Ver solução
a) Os dois limites laterais são \(+\infty \), enquanto \(f(2)=1\). O ponto isolado não altera o comportamento próximo de \(2\), portanto \(x=2\) é uma assíntota vertical. b) Não. Qualquer valor real atribuído em \(2\) fica incompatível com valores próximos que ultrapassam toda cota fixa. O símbolo \(+\infty \) descreve esse crescimento sem limite; não é um número real que possa ser usado como valor de uma função real contínua.

Exercício 8.8 (Infinito menos infinito não é conclusão)
Dê exemplos de funções \(f\) e \(g\) com \(\lim _{x\to 0}f(x)=\lim _{x\to 0}g(x)=+\infty \) tais que \(\lim _{x\to 0}\bigl(f(x)-g(x)\bigr)\):
  1. seja \(0\);

  2. seja \(5\);

  3. seja \(+\infty \);

  4. não tenha limite, nem finito nem infinito.

O que esses exemplos mostram sobre a expressão \(\infty -\infty \)?
Ver solução
  1. \(f(x)=g(x)=1/x^2\).

  2. \(f(x)=1/x^2+5\) e \(g(x)=1/x^2\).

  3. \(f(x)=2/x^2\) e \(g(x)=1/x^2\).

  4. \(f(x)=1/x^2+\operatorname {sen}(1/x)\) e \(g(x)=1/x^2\).

Os limites de \(f\) e de \(g\) não determinam o limite da diferença: \(\infty -\infty \) é uma indeterminação.

Exercício 8.9 (Ter valores enormes não significa tender ao infinito)
Considere, para \(x\geq 0\),
\[ f(x)=x(1+\operatorname {sen}x), \qquad g(x)=x+\operatorname {sen}x. \]
  1. Mostre que \(f\) é não negativa e ilimitada superiormente.

  2. É verdade que \(f(x)\to +\infty \) quando \(x\to +\infty \)? A função tem algum limite real nessa extremidade? Justifique escolhendo duas famílias de pontos.

  3. Determine \(\lim _{x\to +\infty }g(x)\) e compare o papel do termo \(\operatorname {sen}x\) nas expressões de \(f\) e de \(g\).

Ver solução
  1. Como \(1+\operatorname {sen}x\geq 0\) e \(x\geq 0\), temos \(f(x)\geq 0\). Nos pontos \(x_n=2n\pi \), vale

    \[ f(x_n)=2n\pi \longrightarrow +\infty , \]

    logo \(f\) não é limitada superiormente.

  2. Nos pontos \(y_n=3\pi /2+2n\pi \), temos \(y_n\to +\infty \), mas \(f(y_n)=0\). Portanto, \(f(x)\) não tende a \(+\infty \). Também não pode ter limite real, pois \(f(x_n)\to +\infty \), enquanto \(f(y_n)=0\).

  3. Como \(-1\leq \operatorname {sen}x\leq 1\),

    \[ x-1\leq g(x)\leq x+1. \]

    Em particular, \(g(x)\geq x-1\to +\infty \), e assim \(g(x)\to +\infty \). Na primeira função, o fator oscilatório pode se anular e eliminar todo o crescimento de \(x\); na segunda, a oscilação acrescenta uma parcela limitada e não impede o crescimento sem limite.

Exercício 8.10
Mostre, a partir da definição, que
\[ \lim _{x\to 3}\frac1{(x-3)^2}=+\infty . \]
Ver solução
Dado \(M\gt 0\), tome \(\delta =1/\sqrt M\). Se \(0\lt |x-3|\lt \delta \), então \((x-3)^2\lt 1/M\) e, portanto, \(1/(x-3)^2\gt M\).

Exercício 8.11
Calcule os limites laterais de \((x+1)/(x-2)\) em \(x=2\) e identifique a assíntota vertical.
Ver solução
O numerador tende a \(3\gt 0\). Assim,
\[ \lim _{x\to 2^+}\frac{x+1}{x-2}=+\infty , \qquad \lim _{x\to 2^-}\frac{x+1}{x-2}=-\infty . \]
Logo, \(x=2\) é assíntota vertical. O limite bilateral não é \(+\infty \) nem \(-\infty \), pois os dois lados têm comportamentos opostos.
Exercício 8.12
Determine os pontos excluídos do domínio de
\[ g(x)=\frac{x^2-9}{(x-3)(x+1)}. \]
Explique por que \(g\) é contínua em seu domínio. Estude os limites nos pontos excluídos e diga em qual deles é possível obter uma extensão contínua.
Ver solução
O domínio é \(\mathbb {R}\setminus \{ -1,3\} \), e \(g\) é contínua nesse domínio. Para \(x\) pertencente a ele, \(g(x)=(x+3)/(x+1)\). Assim, \(\lim _{x\to 3}g(x)=3/2\): a extensão \(\widetilde g\) é contínua em \(\mathbb {R}\setminus \{ -1\} \) ao atribuir \(\widetilde g(3)=3/2\). Em \(x=-1\), os limites laterais são \(-\infty \) à esquerda e \(+\infty \) à direita; não há extensão contínua nesse ponto.

Exercício 8.13
Calcule os limites e determine as assíntotas pedidas.
  1. \(\displaystyle \lim \limits _{x\to \infty }\frac{3x^2-x}{5x^2+2}\).

  2. \(\displaystyle \lim \limits _{x\to -\infty }\frac{x}{\sqrt{9x^2+1}}\).

  3. \(\displaystyle \lim \limits _{x\to \infty }\bigl(\sqrt{x^2+x}-x\bigr)\).

  4. Determine, por limites, as assíntotas de \(f(x)=(2x^2-3)/(x^2-x-6)\).

Ver solução
  1. \(3/5\).

  2. \(-1/3\), pois, para \(x\lt 0\), \(\sqrt{x^2}=|x|=-x\).

  3. Racionalizando, \(\sqrt{x^2+x}-x=x/(\sqrt{x^2+x}+x)\to 1/2\).

  4. Como \(x^2-x-6=(x-3)(x+2)\) e o numerador não se anula em \(3\) nem em \(-2\), as assíntotas verticais são \(x=3\) e \(x=-2\). Além disso, \(\lim _{x\to \pm \infty }f(x)=2\), de modo que \(y=2\) é a assíntota horizontal.

Exercício 8.14
Encontre as constantes \(m\) e \(b\) para as quais
\[ \lim _{x\to \infty }\left(mx+b-\frac{x^3+1}{x^2+1}\right)=0. \]
Explique o significado geométrico da reta \(y=mx+b\).
Ver solução
A divisão polinomial fornece
\[ \frac{x^3+1}{x^2+1}=x+\frac{1-x}{x^2+1}. \]
Logo, a diferença tende a zero exatamente para \(m=1\) e \(b=0\). A reta \(y=x\) é a assíntota oblíqua do gráfico quando \(x\to \infty \); o mesmo cálculo mostra que ela também é assíntota quando \(x\to -\infty \).
Exercício 8.15
Determine as assíntotas horizontal, vertical e oblíqua, quando houver, de \(f(x)=(2x^2-3x+1)/(x-1)\). Faça um esboço que seja compatível com seus resultados.
Ver solução
Como \(2x^2-3x+1=(2x-1)(x-1)\), temos \(f(x)=2x-1\) para \(x\neq 1\). O gráfico é essa reta com um ponto removido em \((1,1)\). Não há assíntotas verticais ou horizontais; \(y=2x-1\) é a assíntota oblíqua.
Exercício 8.16
Encontre uma função afim \(p(x)\) tal que a diferença entre \(\dfrac {3x^3-2x+7}{x^2+4}\) e \(p(x)\) tenda a zero tanto quando \(x\to +\infty \) quanto quando \(x\to -\infty \). Justifique.
Ver solução
A divisão polinomial fornece
\[ \frac{3x^3-2x+7}{x^2+4}=3x+\frac{-14x+7}{x^2+4}. \]
Logo, a função simples é \(3x\), e a diferença tende a zero em ambas as extremidades.

Exercício 8.17 (Erro relativo pequeno não garante uma assíntota)
Para \(x\gt 0\), considere
\[ f(x)=x+\sqrt{x}. \]
  1. Calcule, quando \(x\to +\infty \),

    \[ \frac{f(x)}{x}, \qquad \frac{|f(x)-x|}{|f(x)|}, \qquad f(x)-x. \]
  2. Uma pessoa afirma que \(y=x\) é assíntota oblíqua porque o erro relativo da aproximação de \(f(x)\) por \(x\) tende a zero. Avalie o argumento pela definição de assíntota.

  3. Existe alguma outra assíntota oblíqua para \(f\) quando \(x\to +\infty \)? Justifique.

Ver solução
  1. Temos

    \[ \frac{f(x)}{x}=1+\frac1{\sqrt{x}}\longrightarrow 1, \]
    \[ \frac{|f(x)-x|}{|f(x)|} =\frac{\sqrt{x}}{x+\sqrt{x}} =\frac1{\sqrt{x}+1}\longrightarrow 0, \]

    mas \(f(x)-x=\sqrt{x}\to +\infty \).

  2. O argumento é incorreto: para que \(y=x\) seja assíntota oblíqua, a diferença \(f(x)-x\) deve tender a zero, não apenas ser pequena em comparação com o valor de \(f(x)\).

  3. Se \(f(x)-(mx+b)\to 0\), dividindo por \(x\) e usando \(x\to +\infty \), obtemos

    \[ 1+\frac1{\sqrt{x}}-m-\frac bx\longrightarrow 0, \]

    o que exige \(m=1\). Mas, para essa inclinação,

    \[ f(x)-(x+b)=\sqrt{x}-b\longrightarrow +\infty , \]

    independentemente de \(b\). Portanto, nenhuma reta é assíntota oblíqua nessa extremidade.

Exercício 8.18
Considere, para \(a\neq 0\) e \(b\neq 0\), a equação
\[ ax^2-bx+c=0, \]
em que \(b\) e \(c\) permanecem fixos enquanto \(a\to 0\).
  1. Mostre que as raízes são reais para \(a\) suficientemente próximo de zero. Identifique uma delas, \(r_1(a)\), e prove que \(r_1(a)\to c/b\).

  2. Para a outra raiz, \(r_2(a)\), mostre que \(|r_2(a)|\to +\infty \) e determine uma expressão simples \(h(a)\) tal que \(r_2(a)/h(a)\to 1\) quando \(a\to 0\).

  3. Explique por que isso é compatível com a equação limite \(-bx+c=0\).

Ver solução

Para \(a\) suficientemente próximo de \(0\), o discriminante \(\Delta =b^2-4ac\) é positivo, pois \(b\neq 0\). Na fórmula quadrática, escolhemos a raiz cujo numerador tende a zero: o sinal de menos quando \(b\gt 0\) e o de mais quando \(b\lt 0\). Multiplicando pelo conjugado, obtemos

\[ r_1= \begin{cases} \dfrac {2c}{b+\sqrt{\Delta }},& b\gt 0,\\[5pt] \dfrac {2c}{b-\sqrt{\Delta }},& b\lt 0. \end{cases} \]

Como \(\sqrt{\Delta }\to |b|\), o denominador tende a \(2b\) em ambos os casos; portanto, \(r_1\to c/b\).

Pela soma das raízes, \(r_2=b/a-r_1\). Como \(r_1\) permanece limitada,

\[ \frac{r_2}{b/a}=1-\frac{ar_1}{b}\longrightarrow 1. \]

Logo, \(r_2\) cresce em módulo sem limite e tem o mesmo comportamento dominante de \(b/a\). A equação limite, \(-bx+c=0\), conserva apenas a raiz finita \(c/b\).

Exercício 8.19
Os modelos abaixo descrevem três respostas com saturação:
\[ c(N)=\frac{12N}{5+N},\qquad P(I)=\frac{18I}{120+I},\qquad V(s)=\frac{3{,}6s}{2+s}. \]
Aqui, \(c\) é o consumo de presas por um predador em função da densidade \(N\); \(P\) é uma taxa de fotossíntese em função da intensidade luminosa \(I\); e \(V\) é o consumo de oxigênio durante exercício em função da intensidade \(s\). Neste exercício, as variáveis e as respostas são adimensionais: cada grandeza foi dividida por uma referência positiva fixa em sua unidade física. Consideramos \(N,I,s\geq 0\).
  1. Determine o limite de cada função quando sua variável tende a \(+\infty \) e interprete os três resultados.

  2. Em que valor da respectiva variável cada resposta atinge metade de seu valor-limite?

  3. Identifique a forma comum \(Ax/(B+x)\) e explique os papéis de \(A\) e \(B\).

Ver solução
  1. Os limites são, respectivamente, \(12\), \(18\) e \(3{,}6\). Em cada caso, o valor representa o platô previsto pelo modelo na escala normalizada.

  2. As metades dos platôs são atingidas quando \(N=5\), \(I=120\) e \(s=2\).

  3. Em \(Ax/(B+x)\), o parâmetro \(A\) é o valor-limite e \(B\) é o valor da variável no qual a resposta vale \(A/2\).

Exercício 8.20
A corrente de um circuito é \(I(R)=12/R\) A, onde \(R\gt 0\) é a resistência em ohms. Interprete \(\lim _{R\to 0^+}I(R)\) e \(\lim _{R\to \infty }I(R)\), apontando a limitação física do modelo quando \(R\to 0^+\).
Ver solução
\(\lim _{R\to 0^+}I(R)=+\infty \) e \(\lim _{R\to \infty }I(R)=0\). A primeira previsão não é fisicamente realizável: a fonte e os condutores possuem resistência interna e limites de corrente, ignorados pelo modelo \(12/R\).

8.3 O número \(e\) e as funções exponencial e logarítmica

Que valor resulta de elevar a uma potência cada vez maior uma base que se aproxima de \(1\)? Estudaremos a combinação em que a base é \(1+1/x\) e o expoente é \(x\), quando \(x\to +\infty \), e veremos como esse limite conduz a uma base especial para a exponencial e o logaritmo.

No estudo das funções exponenciais, anunciamos que o número \(e\) seria construído por meio de um limite. Vamos agora justificar a existência desse limite, utilizando a desigualdade de Bernoulli e a completude dos números reais, apresentada no Capítulo 1.

Teorema 8.22 (Segundo Limite Fundamental)
Existe um número real \(e\), com \(2\leq e\lt 3\), tal que
\[ \lim \limits _{x\to \infty }\left(1+\frac1x\right)^x=e. \]
Esse número, aproximadamente \(2{,}71828\), é o número de Euler, também chamado número de Neper.

Demonstração ▼

Começamos pelos valores inteiros de \(x\), considerando a sequência \(a_n=(1+1/n)^n\), para \(n\geq 1\). Para demonstrar sua convergência, será conveniente estudar a sequência auxiliar

\[ b_n=\left(1+\frac1n\right)^{n+1} =\left(1+\frac1n\right)a_n. \]

Essa escolha tem uma vantagem: mostraremos que \((b_n)\) é decrescente e limitada inferiormente, de modo que a completude garante sua convergência. Depois, bastará retirar o fator \(1+1/n\), que tende a \(1\).

Comparando dois termos consecutivos e aplicando a desigualdade de Bernoulli, obtemos

\[ \begin{aligned} \frac{b_n}{b_{n+1}} & =\frac{n+1}{n+2}\left(\frac{(n+1)^2}{n(n+2)}\right)^{n+1}\\[3pt]& =\frac{n+1}{n+2}\left(1+\frac1{n(n+2)}\right)^{n+1}\\[3pt]& \geq \frac{n+1}{n+2}\left(1+\frac{n+1}{n(n+2)}\right)\\[3pt]& =1+\frac1{n(n+2)^2}\gt 1. \end{aligned} \]

Portanto, \(b_{n+1}\lt b_n\), e a sequência é decrescente. Como todos os termos são maiores que \(1\), ela é também limitada inferiormente. Pela completude, converge para um número real, que denotaremos por \(e\).

Voltamos agora à sequência inicial. Como \(b_n\leq b_1=4\), temos \(0\lt b_n-a_n=b_n/(n+1)\leq 4/(n+1)\). Essa diferença se torna arbitrariamente pequena. Como \(b_n\to e\), também \(a_n\to e\). Além disso, a desigualdade de Bernoulli fornece \(a_n\geq 1+n(1/n)=2\), logo \(e\geq 2\). Por outro lado, como \((b_n)\) é decrescente, temos \(e\leq b_5=(6/5)^6\lt 3\).

Resta mostrar que o mesmo limite é obtido quando \(x\) assume valores reais. Para \(x\geq 1\), escolha o inteiro \(n\) tal que \(n\leq x\lt n+1\). Temos então \(1+1/(n+1)\leq 1+1/x\leq 1+1/n\). Como essas bases são maiores que \(1\), podemos comparar também os expoentes e concluir que

\[ \left(1+\frac1{n+1}\right)^n \leq \left(1+\frac1x\right)^x \leq \left(1+\frac1n\right)^{n+1}. \]

Quando \(x\to +\infty \), também \(n\to \infty \). O extremo direito é \(b_n\), que tende a \(e\). O extremo esquerdo pode ser escrito como \(a_{n+1}/(1+1/(n+1))\), que igualmente tende a \(e\).

Assim, dado \(\varepsilon \gt 0\), existe um inteiro \(N\) tal que, para todo \(n\geq N\), os dois extremos da desigualdade pertencem ao intervalo \((e-\varepsilon ,e+\varepsilon )\). Para \(x\geq N\), o inteiro escolhido satisfaz \(n\geq N\); logo, a expressão central também pertence a esse intervalo. Portanto,

\[ \lim \limits _{x\to \infty }\left(1+\frac1x\right)^x=e. \]

Isso conclui a demonstração.

Figura 8.7 lim _(x→ ∞ ) ( 1+(1)/(x) )^x=e

Figura 8.7 \(\lim \limits _{x\to \infty } \left( 1+\dfrac {1}{x} \right)^x=e\)

Exemplo 8.23
Calcule \(\lim \limits _{x\to \infty } \left( 1+\dfrac {5}{x} \right)^x\).

Solução
Queremos reconhecer a expressão \((1+1/t)^t\), cujo limite é \(e\). Para transformar \(5/x\) em \(1/t\), tomamos \(t=\dfrac {x}{5}\); assim, \(x=5t\) e \(t\to +\infty \) quando \(x\to +\infty \). Obtemos:
\begin{align*} \lim \limits _{x\to \infty } \left( 1+\dfrac {5}{x} \right)^x & = \lim \limits _{t \rightarrow \infty } \left( 1+\dfrac {1}{t} \right)^{5t} \\ & = \left( \lim \limits _{t \rightarrow \infty } \left( 1+\dfrac {1}{t} \right)^{t}\right)^5 \\ & = e^5 \end{align*}

Exemplo 8.24
Calcule \(\lim \limits _{x\to \infty } \left(\dfrac {x}{x+1} \right)^x\).

Solução
Dividindo o numerador e o denominador por \(x\), temos:
\begin{align*} \lim \limits _{x\to \infty } \left(\dfrac {x}{x+1} \right)^x & = \lim \limits _{x\to \infty } \left(\dfrac {1}{1+\dfrac {1}{x}} \right)^x \\ & = \lim \limits _{x\to \infty } \dfrac {1}{\left(1+\dfrac {1}{x}\right)^x} \\ & = e^{-1} \end{align*}

Definição 8.4
O logaritmo natural, introduzido na Seção 4.3, é a função inversa da exponencial de base \(e\), constante que acabamos de obter como limite. Assim,
\[ \ln :(0,\infty )\to \mathbb {R},\qquad \ln x=y\quad \Longleftrightarrow \quad e^y=x. \]
O gráfico da função logaritmo natural está representado abaixo:

Ilustração: O número \(e\) e as funções exponencial e logarítmica

Figura 8.8 Gráficos de \(y=\ln x\) e \(y=e^x\), simétricos em relação à reta \(y=x\).

Teorema 8.25 (Continuidade das funções exponencial e logarítmica)
Para \(c\gt 0\), a função \(x\mapsto c^x\) é contínua em \(\mathbb {R}\). Para \(c\gt 0\) e \(c\neq 1\), a função \(x\mapsto \log _c x\) é contínua em \((0,\infty )\).

Demonstração ▼

Suponha primeiro \(c\gt 1\). Dado \(\varepsilon \gt 0\), escolha um inteiro \(n\) tão grande que

\[ \frac{c-1}{n}\lt \varepsilon . \]

Escreva \(u=c^{1/n}-1\gt 0\). Pela desigualdade de Bernoulli,

\[ c=(1+u)^n\geq 1+nu, \]

de modo que

\[ 0\lt u\leq \frac{c-1}{n}\lt \varepsilon . \]

Além disso,

\[ 0\lt 1-c^{-1/n}=\frac{u}{1+u}\lt u\lt \varepsilon . \]

Se \(|h|\lt 1/n\), a monotonicidade da função exponencial dá

\[ c^{-1/n}\leq c^h\leq c^{1/n}, \]

e portanto \(|c^h-1|\lt \varepsilon \). Assim,

\[ \lim _{h\to 0}c^h=1. \]

Como \(c^{a+h}=c^a c^h\), segue que \(c^{a+h}\to c^a\), provando a continuidade em qualquer \(a\in \mathbb {R}\).

Se \(0\lt c\lt 1\), escrevemos \(c^x=1/(1/c)^x\) e usamos o caso anterior e a regra do quociente. Para \(c=1\), a função é constante.

Resta justificar que a exponencial atinge todos os valores positivos, como anunciamos no capítulo de funções exponenciais. Para \(c\gt 1\), já vimos que \(c^x\) cresce sem limite quando \(x\to +\infty \); quando \(x\to -\infty \), temos \(c^x=1/c^{-x}\to 0\). Se \(0\lt c\lt 1\), os dois comportamentos se invertem. Assim, dado \(y\gt 0\), podemos escolher \(u\lt v\) de modo que \(y\) fique entre \(c^u\) e \(c^v\). Pela continuidade demonstrada e pelo Teorema do Valor Intermediário, existe \(x\in [u,v]\) com \(c^x=y\).

Portanto, para \(c\neq 1\), a exponencial é uma bijeção contínua e estritamente monótona de \(\mathbb {R}\) em \((0,\infty )\). Pelo Teorema 7.37, sua inversa \(\log _c\) é contínua em \((0,\infty )\).

Em particular, tomando \(c=e\), tanto \(e^x\) quanto \(\ln x\) são contínuas em seus respectivos domínios.

Teorema 8.26 (Terceiro Limite Fundamental)
Para \(a\gt 0\), temos \(\displaystyle \lim \limits _{x\to 0}\frac{a^x-1}{x}=\ln a\).

Demonstração ▼

Comecemos pela relação

\[ \lim _{u\to 0}(1+u)^{1/u}=e. \]

Para \(u\to 0^+\), isso é o segundo limite fundamental com \(x=1/u\). Para \(u\to 0^-\), ponha \(v=-u/(1+u)\gt 0\). Então \(v\to 0^+\) e

\[ (1+u)^{1/u}=(1+v)^{(1+v)/v} =(1+v)^{1/v}(1+v)\longrightarrow e. \]

Pela continuidade do logaritmo,

\[ \frac{\ln (1+u)}u=\ln \bigl((1+u)^{1/u}\bigr)\longrightarrow \ln e=1.\index{logaritmo!limite fundamental|hyperpage} \]

Se \(a=1\), o quociente do enunciado é zero e a conclusão é imediata. Para \(a\gt 0\), \(a\neq 1\), faça \(u=a^x-1\). A continuidade da exponencial garante \(u\to 0\) quando \(x\to 0\), e \(u\neq 0\) se \(x\neq 0\). Além disso, \(x=\ln (1+u)/\ln a\), de modo que

\[ \frac{a^x-1}{x} =\ln a\, \frac{u}{\ln (1+u)} \longrightarrow \ln a. \]

Figura 8.9 lim _(x→ 0)(2^x-1)/(x)= ln 2.

Figura 8.9 \(\lim \limits _{x\to 0}\dfrac {2^x-1}{x}= \ln 2.\)

Exemplo 8.27
Calcule o limite \(\lim \limits _{x\to 2} \dfrac {3^{\frac{x-2}{5}}-1}{x-2}\).

Solução
Fazendo \(t=(x-2)/5\), temos \(x-2=5t\) e \(t\to 0\). Portanto,
\[ \lim \limits _{x\to 2}\frac{3^{(x-2)/5}-1}{x-2} = \lim \limits _{t \rightarrow 0}\frac{3^t-1}{5t} = \frac15\lim \limits _{t \rightarrow 0}\frac{3^t-1}{t} = \frac{\ln 3}{5}, \]
pelo Teorema 8.26 com \(a=3\).

8.3.1 Juro composto

Considere um capital inicial \(C\gt 0\), aplicado por \(k\) anos a uma taxa nominal anual \(r\geq 0\), escrita em forma decimal. Nos juros simples, a taxa incide sempre sobre o capital inicial, e o montante é \(C(1+rk)\).

Nos juros compostos, cada parcela de juros é incorporada ao saldo antes do período seguinte. Se a capitalização ocorre \(n\) vezes por ano, a taxa de cada período é \(r/n\). Depois de \(nk\) períodos, o montante é

\[ M_n=C\left(1+\frac rn\right)^{nk}. \]

Quando aumentamos a frequência de capitalização,

\[ M_n =C\left[\left(1+\frac rn\right)^n\right]^k \longrightarrow Ce^{rk}. \]

O valor \(Ce^{rk}\) corresponde ao modelo idealizado de capitalização contínua. O limite não afirma que instituições financeiras capitalizem infinitas vezes por ano; ele descreve o valor para o qual convergem os regimes com períodos cada vez menores.

8.3.2 Crescimento demográfico

Denote por \(P_0\gt 0\) a população inicial e suponha que a taxa de crescimento por unidade de população seja uma constante \(\lambda \gt 0\), medida em anos inversos. Essa hipótese já é uma idealização: populações reais sofrem variações de recursos, migração, mortalidade e natalidade.

Para estimar a população depois de \(t\) anos, divida o intervalo de tempo em \(n\) partes iguais. Em cada parte, o incremento relativo é aproximadamente \(\lambda t/n\); por isso,

\[ P_n(t)\approx P_0\left(1+\frac{\lambda t}{n}\right)^n. \]

Para \(t\gt 0\), escrevemos

\[ \left(1+\frac{\lambda t}{n}\right)^n = \left[ \left(1+\frac{1}{n/(\lambda t)}\right)^{n/(\lambda t)} \right]^{\lambda t}. \]

Quando as subdivisões se tornam cada vez mais finas, o Segundo Limite Fundamental mostra que a expressão entre colchetes se aproxima de \(e\). Assim, o modelo contínuo é

\[ P(t)=P_0e^{\lambda t}. \]

Para \(t=0\), a mesma fórmula fornece \(P(0)=P_0\). O mesmo padrão matemático aparece na capitalização contínua: em ambos os casos, a taxa instantânea de variação é proporcional ao valor da grandeza no instante considerado. Se a constante de proporcionalidade for negativa, o modelo descreve decaimento exponencial, como em uma primeira aproximação para a massa de uma substância radioativa.

Exercício 8.21 (Muitos fatores próximos de um)
Em um processo idealizado, uma quantidade inicial \(Q_0\gt 0\) passa por \(n\) etapas. Cada etapa multiplica a quantidade por \(1+c/n\), com \(c\gt 0\) fixo. Assim,
\[ Q_n=Q_0\left(1+\frac cn\right)^n. \]
  1. Uma pessoa argumenta que \(Q_n\to Q_0\), porque cada fator tende a \(1\). O que esse argumento deixa de considerar? Determine o limite correto.

  2. Se cada fator fosse \(1+c/n^2\), mantendo as \(n\) etapas, qual seria o limite da quantidade final? Use \(\lim _{u\to 0}\ln (1+u)/u=1\) para justificar a diferença entre os dois regimes.

Ver solução
a) O número de fatores também cresce. O limite fundamental dá \(Q_n\to Q_0e^c\), que é maior que \(Q_0\). b) Se \(\widetilde Q_n=Q_0(1+c/n^2)^n\), então
\[ \ln \frac{\widetilde Q_n}{Q_0} =\frac cn\, \frac{\ln (1+c/n^2)}{c/n^2}\longrightarrow 0. \]
Logo, \(\widetilde Q_n\to Q_0\). No primeiro modelo, a soma dos incrementos relativos por etapa é \(c\); no segundo, é \(c/n\to 0\), o que explica a diferença de escala.

Exercício 8.22 (Quanto tempo leva para dobrar? A regra do \(70\))
  1. Mostre que um capital inicial \(C\gt 0\), aplicado à taxa contínua \(r\gt 0\) ao ano, dobra em \(T=\dfrac {\ln 2}r\) anos.

  2. Como \(\ln 2\approx 0{,}693\), explique a regra prática “o tempo de duplicação é aproximadamente \(70\) dividido pela taxa percentual”.

  3. No modelo \(M(t)=C(1{,}07)^t\), com \(t\ge 0\) medido em anos, compare o tempo de duplicação \(\ln 2/\ln 1{,}07\) com a regra prática. Por que a regra funciona melhor para taxas pequenas?

Ver solução
  1. \(Ce^{rT}=2C\Longleftrightarrow rT=\ln 2\).

  2. Com a taxa em porcentagem, \(p=100r\), temos \(T=\dfrac {69{,}3}p\approx \dfrac {70}p\).

  3. \(\ln 2/\ln 1{,}07\approx 10{,}24\) anos, contra \(10\) pela regra. A regra usa \(\ln (1+r)\approx r\), aproximação que vem do limite \(\ln (1+r)/r\to 1\) quando \(r\to 0\); por isso é melhor para \(r\) pequeno.

Exercício 8.23
Calcule os três limites usando os resultados fundamentais associados a \(e\) e ao logaritmo. No último item, aplique o modelo de capitalização contínua.
  1. \(\displaystyle \lim \limits _{x\to \infty }\left(1+\frac3x\right)^{2x}\).

  2. \(\displaystyle \lim \limits _{x\to 0}\frac{e^{3x}-1}{x}\).

  3. \(\displaystyle \lim \limits _{x\to 0}\frac{\ln (1+5x)}{x}\).

  4. Um capital de R\$ 1.000,00 é aplicado por dois anos à taxa contínua de \(4\% \) ao ano. Determine o montante exato e uma aproximação em centavos.

Ver solução
  1. \(e^6\).

  2. \(3\).

  3. \(5\).

  4. \(1000e^{0{,}08}\approx \text{R\$ \, 1.083,29}\).

Exercício 8.24
Um capital de \(\text{R\$ }\, 10\, 000\) é aplicado por \(3\) anos a uma taxa nominal anual de \(6\% \). Determine o montante previsto pelo modelo de capitalização contínua.
Ver solução
Com \(C=10\, 000\), \(r=0{,}06\) e \(k=3\),
\[ M=Ce^{rk}=10\, 000e^{0{,}18}\approx R\$ \, 11\, 972{,}17. \]

Exercício 8.25
Um capital inicial \(C\gt 0\) é aplicado por um ano a uma taxa nominal anual \(r\gt 0\). Compare os montantes correspondentes à capitalização anual, mensal e contínua, mantendo a mesma taxa nominal.
Ver solução
Os três montantes são, respectivamente,
\[ C(1+r),\qquad C\left(1+\frac r{12}\right)^{12}, \qquad Ce^r. \]
A desigualdade de Bernoulli, estrita neste caso, dá
\[ \left(1+\frac r{12}\right)^{12}\gt 1+r. \]
Para comparar os dois últimos regimes, observe que
\[ \left(1+\frac r{24}\right)^2 =1+\frac r{12}+\frac{r^2}{576} \gt 1+\frac r{12}, \]
de onde
\[ \left(1+\frac r{24}\right)^{24} \gt \left(1+\frac r{12}\right)^{12}. \]
Além disso, para todo inteiro \(k\ge 1\), Bernoulli fornece
\[ \left(1+\frac r{24k}\right)^k\ge 1+\frac r{24}. \]
Elevando ambos os membros à potência \(24\) e fazendo \(k\to \infty \), concluímos que
\[ e^r\ge \left(1+\frac r{24}\right)^{24} \gt \left(1+\frac r{12}\right)^{12}. \]
Portanto,
\[ C(1+r)\lt C\left(1+\frac r{12}\right)^{12}\lt Ce^r. \]
O montante é maior quando a frequência de capitalização aumenta, sob a mesma taxa nominal anual positiva.

Exercício 8.26
Calcule os dois limites laterais de \(e^{1/x}\) quando \(x\to 0^+\) e \(x\to 0^-\), e explique por que não há limite bilateral em zero.
Ver solução
\(\lim _{x\to 0^+}e^{1/x}=+\infty \) e \(\lim _{x\to 0^-}e^{1/x}=0\). Como os comportamentos laterais diferem, não há limite bilateral em \(0\).

Exercício 8.27
A razão entre a massa de um medicamento no instante \(t\) e a massa inicial é \(M(t)/M(0)=e^{-0{,}18t}\), com \(t\) em horas e a constante \(0{,}18\) medida em \(\mathrm{h}^{-1}\). Determine o limite de \(M(t)/M(0)\) quando \(t\to \infty \) e o instante em que resta \(10\% \) da dose inicial.
Ver solução
A razão tende a \(0\). Para obter \(10\% \), \(e^{-0{,}18t}=0{,}1\), de onde \(t=\ln (10)/0{,}18\approx 12{,}79\) horas.