Sobre os que entram nos mesmos rios, águas sempre diferentes correm.
A derivada mede a variação local de uma função. Geometricamente, quando a tangente não é vertical, ela fornece o coeficiente angular da reta tangente; em problemas de movimento, fornece a velocidade instantânea; em outros contextos, descreve taxas de crescimento, decaimento e sensibilidade. Os problemas da tangente e da velocidade conduzem ao mesmo limite, que define a derivada. Sua relação com a continuidade e as regras de derivação permitem estudar as funções elementares. A derivada também determina uma aproximação local: perto de um ponto de diferenciabilidade, a função se comporta, em primeira aproximação, como uma função afim. A derivada é o coeficiente que determina essa aproximação local.
Figura9.1Retas tangentes em vários pontos da curva. As tangentes horizontais destacam o máximo e o mínimo locais.
9.1 Motivações
9.1.1 O problema da reta tangente
Um dos problemas que conduzem à derivada é geométrico: determinar a reta tangente ao gráfico de uma função em um ponto. A tangente registra a direção local da curva e, quando não é vertical, fica determinada por seu coeficiente angular.
No início do século XVII, Pierre de Fermat desenvolveu métodos para determinar máximos e mínimos de certas funções. A Figura 9.1 ilustra a relação entre esse problema e as retas tangentes: suas inclinações variam ao longo da curva e se anulam nos dois extremos indicados.
Em um ponto interior no qual uma função diferenciável atinge um máximo ou um mínimo local, a reta tangente é horizontal. A procura por extremos conduz, portanto, ao estudo dos pontos em que a inclinação da tangente se anula.
Para uma curva geral, porém, a própria noção de tangente precisa ser formulada com cuidado. Dados uma função \(f\) e um ponto \(P\) de seu gráfico, procuramos uma reta que descreva a direção da curva nas proximidades de \(P\).
A experiência com a circunferência pode sugerir que a tangente seja uma reta que encontra a curva em um único ponto. Para gráficos de funções, porém, esse critério não basta, como mostram as figuras seguintes.
Na Figura 9.2a, a tangente cruza a curva em outro ponto; na Figura 9.2b, a reta encontra o gráfico uma única vez, mas não acompanha sua direção nesse ponto. O número de interseções, portanto, não caracteriza a tangência.
Quando a tangente não é vertical, podemos determiná-la por seu coeficiente angular. Para aproximar esse coeficiente, tomamos uma reta secante que passa pelo ponto fixo \(P\) e por um segundo ponto \(Q\) do gráfico. Se \(P=(a,f(a))\) e \(Q=(a+h,f(a+h))\), com \(h\neq 0\), o coeficiente angular da secante é
Figura9.3Quando \(Q\) se aproxima de \(P\), as retas secantes se aproximam da reta tangente.
Mantendo \(P\) fixo, fazemos \(Q\) se aproximar de \(P\), isto é, fazemos \(h\) tender a zero. Se os coeficientes angulares das secantes convergem para um número real \(m\), esse limite determina a inclinação da reta tangente:
A reta tangente no ponto fixo \(P=(a,f(a))\) tem, portanto, equação
\[ y-f(a)=m(x-a). \]
Esse limite será a derivada de \(f\) no ponto \(a\). Um primeiro cálculo ilustra sua obtenção; o estudo do movimento mostrará outra interpretação do mesmo quociente.
Exemplo 9.1
Determine a inclinação da reta tangente ao gráfico de \(f(x)=x^2\) no ponto \((a,a^2)\).
Solução
Pela definição, a inclinação da reta tangente no ponto \(a\) é
Assim, a inclinação da reta tangente no ponto \(a\) é \(2a\).
9.1.2 O problema da velocidade
O mesmo quociente usado para calcular a inclinação de uma secante aparece no estudo da velocidade. Suponha que uma partícula se mova em linha reta e que sua posição no instante \(t\) seja dada por \(s(t)\). Para \(\Delta t\neq 0\), com os dois instantes no domínio de \(s\), a velocidade média entre \(t_0\) e \(t_0+\Delta t\) é
A velocidade média descreve o deslocamento por unidade de tempo nesse intervalo. Para obter a velocidade em um instante, fazemos o intervalo encolher, tomando o limite quando \(\Delta t\to 0\). No gráfico de posição em função do tempo, isso corresponde à passagem das secantes à tangente que acabamos de estudar.
Definição 9.1
Se uma partícula se move sobre uma reta e sua posição é descrita por \(s(t)\), então sua velocidade instantânea em \(t_0\) é
A posição de uma partícula é dada por \(s(t)=t^2-5t\), com \(s(t)\) em metros e \(t\geq 0\) em segundos. Determine a velocidade no instante \(a\geq 0\), calcule-a em \(t=0\) e em \(t=4\), identifique quando a partícula se move para a direita ou para a esquerda e determine quando ela está em repouso.
Solução
Para \(a\gt 0\), calculamos a velocidade pela definição:
\begin{align*} v(a) & =\lim _{\Delta t \to 0}\dfrac {s(a+\Delta t) - s(a)}{\Delta t} \\ & =\lim _{\Delta t \to 0}\dfrac {(a+\Delta t)^2-5(a+\Delta t) - a^2+5a}{\Delta t} \\ & =\lim _{\Delta t \to 0}\dfrac {a^2 + 2a\Delta t +(\Delta t)^2-5a-5\Delta t - a^2+5a}{\Delta t} \\ & =\lim _{\Delta t \to 0}\dfrac { 2a\Delta t +(\Delta t)^2-5\Delta t }{\Delta t} \\ & =\lim _{\Delta t \to 0} 2a +\Delta t-5 \\ & = 2a -5. \end{align*}
Logo, \(v(a)=2a-5\). No instante inicial, fazemos o mesmo cálculo com \(\Delta t\to 0^+\), pois o movimento está definido apenas para \(t\geq 0\). Obtemos \(v(0)=-5\, \mathrm{m/s}\); em \(t=4\), temos \(v(4)=3\, \mathrm{m/s}\). Para determinar quando a partícula se move para a direita, resolvemos
Como \(a\geq 0\), isso ocorre em \(0\leq a\lt 5/2\). Por fim, a partícula está em repouso se, e somente se, \(a=5/2\).
Taxas de variação
A posição e o tempo podem ser substituídos por outras grandezas. Se \(Q\) depende de uma variável \(x\), o quociente de suas variações mede quanto \(Q\) varia, em média, por unidade de \(x\).
Definição 9.2
A taxa de variação média de uma grandeza \(Q\) em relação à variável \(x\) entre \(a\) e \(a+h\), com \(h\neq 0\), é
Por exemplo, quando a variável é o tempo, essa taxa pode representar a velocidade de um automóvel ou o crescimento de uma população de bactérias. Em outras situações, pode medir como o lucro de uma empresa varia com o volume de vendas. Em todos esses casos, calculamos um limite da mesma forma; a interpretação e as unidades dependem das grandezas envolvidas.
9.2 Definição de derivada
Os problemas da tangente e da velocidade conduzem à mesma expressão. Abstraindo as interpretações geométrica e física, obtemos a definição de derivada em um ponto. Figura9.4A secante passa por \(P=(a,f(a))\) e \(Q=(a+h,f(a+h))\). Sua inclinação é a razão entre as variações vertical e horizontal.
Definição 9.4
Seja \(f\) uma função definida em um intervalo aberto que contém \(a\). A derivada de \(f\) em \(a\), denotada por \(f'(a)\), é
O símbolo \(f'(a)\) lê-se “f linha de a”. Dizer que \(f'(a)\) existe significa que o limite da Definição 9.4 existe como um número real. Geometricamente, esse número é a inclinação da tangente ao gráfico em \((a,f(a))\), cuja equação podemos escrever como
\[ y-f(a)=f'(a)(x-a). \]
Exemplo 9.3
Calcule a derivada de \(g(x)=\sqrt{x}\) em \(x=4\).
Figura9.5Tangente a \(g(x)=\sqrt{x}\) em \((4,2)\).
O conjugado. A identidade \((u-v)(u+v)=u^2-v^2\) transforma o numerador em \(h\), que pode ser simplificado antes de tomar o limite.
Assim, \(f'(a)=1\) para todo \(a\in \mathbb {R}\).
9.2.1 Função derivada
Quando \(f'(a)\) existe, dizemos que \(f\) é diferenciável em \(a\). Se isso ocorre em todo ponto interior de seu domínio, dizemos simplesmente que \(f\) é diferenciável. Nas extremidades de intervalos, consideraremos separadamente as derivadas laterais.
Até aqui, calculamos a derivada em um ponto. Podemos também deixar esse ponto variar: a cada \(x\) em que a derivada existe, associamos o número \(f'(x)\). Obtemos assim a função derivada de \(f\), denotada por \(f'\), com domínio
O domínio de \(f'\) pode ser estritamente menor que o domínio de \(f\).
Exemplo 9.5
O Exemplo 9.4 mostra que \(f(x)=x\) é diferenciável em todos os reais. Assim, podemos definir sua função derivada \(f':\mathbb {R}\to \mathbb {R}\); nesse caso, ela é a função constante \(f'(x)=1\).
Exemplo 9.6
Calcule a derivada de \(f(x)=x^3+x^2\). Qual é o domínio de \(f'\)?
Portanto, \(\operatorname {Dom}f'=(0,\infty )\). Embora \(f\) esteja definida em \(x=0\), a derivada lateral direita não é finita: o quociente incremental tende a \(+\infty \) quando \(h\to 0^+\).
9.2.2 Definição equivalente de derivada
Na definição anterior, o ponto próximo de \(a\) foi escrito como \(a+h\). Podemos chamá-lo simplesmente de \(x\): nesse caso, \(h=x-a\), e \(h\to 0\) equivale a \(x\to a\). Para \(f\) definida em um intervalo aberto que contém \(a\), obtemos
Essa forma também esclarece a notação de Leibniz, na qual se explicita a variável em relação à qual a derivação é realizada.
Notação 9.8 (Notação de Leibniz)
A derivada de \(f\) em \(c\), denotada por \(f'(c)\), também pode ser escrita como
\[ \left. \frac{d f}{d x}\right|_{x=c} \]
Já a função derivada \(f'\) é denotada também do seguinte modo:
\[ \frac{d f}{d x} \]
Embora lembre um quociente, \(\frac{d f}{d x}\) denota a função derivada, obtida pelo limite dos quocientes incrementais. As duas formas da definição são equivalentes; escolhemos a que torna o cálculo mais simples.
Exemplo 9.9
Calcule a derivada de \(f(x)=x^{1/3}\) no ponto \(a\neq 0\).
A última igualdade decorre do teorema do confronto. Logo, \(f'(0)\) existe e vale \(0\).
9.2.3 Derivadas laterais
Em um ponto de junção, ou em uma extremidade do domínio, o quociente incremental pode ter comportamentos distintos de cada lado. As derivadas laterais registram separadamente esses dois limites:
Cada derivada lateral é definida quando o respectivo limite existe e é finito.
Se \(a\) é um ponto interior do domínio, \(f\) é diferenciável em \(a\) se, e somente se, as duas derivadas laterais existem e coincidem. Em uma extremidade do domínio, consideramos apenas a derivada lateral correspondente aos pontos em que a função está definida.
Figura9.6Gráfico da função definida por uma parábola à esquerda de \(1\) e por uma reta à direita. Calcule as derivadas laterais em \(x=1\) e determine se \(f\) é diferenciável nesse ponto.
Solução
Como \(f(1)=1\), usamos esse mesmo valor nos dois quocientes incrementais. À esquerda de \(1\), temos \(f(x)=x^2\); logo,
As duas derivadas laterais coincidem. Portanto, \(f\) é diferenciável em \(1\) e \(f'(1)=2\). A parábola e a reta se encontram com a mesma inclinação, como sugere o gráfico.
A igualdade das derivadas laterais é essencial. No exemplo seguinte, os dois limites existem, mas têm valores diferentes.
Exemplo 9.12
Mostre que a função \(f(x)=\left\lvert x\right\rvert \) não é diferenciável em \(0\).
Figura9.7O canto do gráfico de \(y=|x|\) reúne duas inclinações laterais diferentes em \(x=0\).
Como \(f'_+(0)\neq f'_-(0)\), a função não é diferenciável em \(0\).
A função valor absoluto é contínua em \(0\), mas não é diferenciável nesse ponto. Assim, a continuidade não garante a existência da derivada. No sentido inverso, porém, a implicação sempre vale:
Teorema 9.13
Se \(f\) é diferenciável no ponto \(x\), então \(f\) é contínua em \(x\). Equivalentemente, se \(f\) não é contínua em \(x\) então \(f\) não é diferenciável em \(x\).
Elas coincidem precisamente quando \(a=2\). Substituindo esse valor em \(a+b=1\), obtemos \(b=-1\). Logo, a função é diferenciável em todos os pontos se, e somente se,
\[ a=2\qquad \text{e}\qquad b=-1. \]
Exercício 9.1
Calcule a razão \(\dfrac {\Delta y}{\Delta x}\) para a função \(y=\dfrac {1}{x}\)
Determine \(a,b\) reais de modo que a função \( f(x)= \begin{cases} x^2+2x & x\lt 1 \\ a x+b & x\geq 1 \end{cases} \)seja diferenciável em todos os pontos. Ver solução
A continuidade em \(1\) exige \(a+b=3\). Sob essa condição, a derivada pela esquerda é \(2\cdot 1+2=4\), e a da direita é \(a\). Portanto, \(a=4\) e \(b=-1\). Com esses valores, a função é diferenciável na junção e nos demais pontos, onde é polinomial.
9.3 Derivadas das funções clássicas
A definição por limite permite calcular a derivada de qualquer função para a qual o limite exista. Para as funções elementares, porém, convém estabelecer fórmulas que possam ser reutilizadas. Elas serão deduzidas a partir da definição e dos limites fundamentais e formarão o repertório básico do cálculo diferencial.
Teorema 9.15 (Fórmulas de Derivação)
São válidas as seguintes fórmulas de derivação
Se \(f(x) = c, \) então \( f'(x) =0 ,\)
Se \(f(x)=x^n \) então \( \ f'(x) = n\, x^{n-1} \text{ para todo } n\) inteiro positivo,
Se \(f(x)=\sqrt[n]{x}=x^{1/n}\), então \(f'(x)=\dfrac {1}{n}x^{\frac{1}{n}-1}\). Para \(n\) par, a fórmula vale em \(x\gt 0\); para \(n\) ímpar e \(n\geq 3\), vale em \(x\neq 0\); para \(n=1\), vale em todo \(x\in \mathbb {R}\),
Se \(f(x) = \operatorname {sen}x \) então \( \ f'(x) = \cos x,\)
Se \(f(x) = \cos x \) então \( \ f'(x) = -\operatorname {sen}x,\)
Se \(f(x) = e^x \) então \(\ f'(x)= e^x ,\)
Se \(f(x)=\ln x \) então \( \ f'(x) = \dfrac {1}{x},\quad x \gt 0 . \)
Para \(n=1\), o item b é a derivada da identidade, já calculada. As expansões anteriores são entendidas para \(n\geq 2\). Para o item c, fixemos \(x\) no interior do domínio e, quando \(n\geq 2\), suponhamos também \(x\neq 0\). Fazendo \(u=\sqrt[n]{y}\) e \(v=\sqrt[n]{x}\), temos \(u\to v\) quando \(y\to x\). Pelo item anterior,
Na penúltima passagem, usamos o segundo limite fundamental, \(\displaystyle \lim _{u\to 0}(1+u)^{1/u}=e\).
As funções elementares aparecem com frequência combinadas por somas, produtos e quocientes. As regras de derivação permitem obter a derivada dessas combinações a partir das derivadas de suas componentes.
9.4 Regras de derivação
A estrutura algébrica da expressão determina a regra apropriada. Somas e múltiplos constantes se comportam linearmente; produtos e quocientes introduzem termos adicionais que decorrem diretamente do quociente incremental.
Teorema 9.16 (Derivada da Soma e Subtração)
Se \(f\) e \(g\) são funções diferenciáveis em \(x=a\) então a função \(f\pm g\) é diferenciável em \(a\) e
\[ \left(f\pm g\right)'(a)=f'(a) \pm g'(a). \]
Demonstração▼
Basta demonstrar o caso da soma; o caso da subtração é análogo. Seja \(h(x)=f(x)+g(x)\) e suponha que \(f\) e \(g\) sejam diferenciáveis em \(x\).
Considere a função \(m=\frac{f}{g}\). Como \(g(a)\neq 0\) e \(g\) é contínua, existe \(\epsilon \gt 0\) tal que \(\left|{h}\right| \lt \epsilon \Longrightarrow g (a+h) \ne 0\). Ou seja, a função \(m\) está definida numa vizinhança de \(a\). Pela definição de derivada,
\(f(x)=\dfrac {x^n}{\ln (x)}\), com \(n\in \mathbb {N}^*\)
\(f(x)=x^3\ln (x)-\dfrac {x^3}{3}\)
Ver solução
Combinando as regras do produto e do quociente com \((e^x)'=e^x\) e \((\ln x)'=1/x\), obtemos
\(e^x(x^7+7x^6)\).
\(\dfrac {e^x}{x^2}-\dfrac {2e^x}{x^3}\), para \(x\neq 0\).
\(e^x(\cos x-\operatorname {sen}x)\).
\(\dfrac {x^{n-1}(n\ln x-1)}{(\ln x)^2}\), para \(x\gt 0\) e \(x\neq 1\).
\(3x^2\ln x\), para \(x\gt 0\).
Exercício 9.9
Em que ponto a tangente à parábola \(y=x^2-7x+3\) é paralela à reta \(5x+y-3=0.\) Ver solução
A reta \(5x+y-3=0\) tem coeficiente angular \(-5\). Como
\[ f'(x)=2x-7, \]
a tangente à parábola é paralela a essa reta quando \(2x-7=-5\), isto é, quando \(x=1\). Como \(f(1)=-3\), o ponto procurado é \((1,-3)\).
Exercício 9.10
Determine as equações das retas tangente e normal à curva \(y=x^3+2x^2-4x-3\) no ponto \((1,-4)\). Ver solução
Para \(f(x)=x^3+2x^2-4x-3\),
\[ f'(x)=3x^2+4x-4, \]
e, portanto, \(f'(1)=3\). A reta tangente no ponto \((1,-4)\) é
\[ y+4=3(x-1). \]
Como a normal é perpendicular à tangente, seu coeficiente angular é \(-1/3\):
\[ y+4=-\frac13(x-1). \]
Exercício 9.11
Determine as equações das retas tangente e normal à curva \(y=x^3+2x^2-4x-3\) no ponto \((-2,5)\). Ver solução
A derivada é \(f'(x)=3x^2+4x-4\), de modo que \(f'(-2)=0\). Assim, a tangente em \((-2,5)\) é horizontal,
\[ y=5, \]
e a reta normal é vertical,
\[ x=-2. \]
Exercício 9.12
Dado \(f(x)=\dfrac {1}{3}x^3-2x^2+3x+1\). Encontre os pontos do gráfico de \(f\) nos quais a tangente é horizontal. Ver solução
Temos
\[ f'(x)=x^2-4x+3=(x-1)(x-3). \]
A tangente é horizontal quando \(f'(x)=0\), portanto em \(x=1\) e \(x=3\). Como \(f(1)=7/3\) e \(f(3)=1\), os pontos são
\[ (1,7/3)\qquad \text{e}\qquad (3,1). \]
Exercício 9.13
Dado o polinômio \(p(x)=ax^3+bx^2+cx+d\), usando a notação \(p''=(p')'\), determine \(a,b,c,d\) se \(p(0)=p(1)=-2\), \(p'(0)=-1\) e \(p''(0)=10\). Ver solução
De \(p(0)=-2\) obtemos \(d=-2\), e de \(p'(0)=-1\) segue \(c=-1\). Como
\[ p''(x)=6ax+2b, \]
a condição \(p''(0)=10\) fornece \(b=5\). Por fim, \(p(1)=-2\) implica
\[ a+b+c+d=-2, \]
de onde \(a=-4\). Portanto,
\[ a=-4,\qquad b=5,\qquad c=-1,\qquad d=-2. \]
Exercício 9.14
Seja \(f\) a função definida como:
\[ f(x)= \left\{ \begin{array}{c} x^2\text{ se }x\leq c \\ ax+b\text{ se }x\gt c \end{array}\right. \]
Determine os valores de \(a,b\) em termos de \(c\) de modo que \(f'(c)\) exista.
Ver solução
A continuidade exige \(ac+b=c^2\) e a igualdade das derivadas laterais exige \(a=2c\). Logo, \(a=2c\) e \(b=-c^2\).
Exercício 9.15
Seja \(f\) a função definida como:
\[ f(x)= \left\{ \begin{array}{c} \operatorname {sen}(x)\text{ se }x\leq c \\ ax+b\text{ se }x\gt c \end{array}\right. \]
Determine os valores de \(a,b\) em termos de \(c\) de modo que \(f'(c)\) exista.
Ver solução
A continuidade exige \(ac+b=\operatorname {sen}c\) e a igualdade das derivadas laterais exige \(a=\cos c\). Logo, \(a=\cos c\) e \(b=\operatorname {sen}c-c\cos c\).
Exercício 9.16
Dado \(c\gt 0\), seja \(f\) a função definida como:
\[ f(x)= \left\{ \begin{array}{c} \dfrac {1}{\left\lvert x\right\rvert }\text{ se } \left\lvert x\right\rvert \geq c \\ a+bx^2\text{ se }\left\lvert x\right\rvert \lt c \end{array}\right. \]
Determine os valores de \(a,b\) em termos de \(c\) de modo que \(f'(c)\) exista.
Ver solução
Como \(c\gt 0\), a continuidade exige \(a+bc^2=1/c\). A derivada pela esquerda é \(2bc\) e pela direita é \(-1/c^2\). Portanto, \(b=-1/(2c^3)\) e \(a=3/(2c)\).
9.5 A regra da cadeia
Quando \(h=f\circ g\), uma variação da variável independente produz dois efeitos sucessivos: primeiro modifica o valor de \(g\) e, em seguida, modifica o valor de \(f\). A Regra da Cadeia descreve como essas duas variações locais se combinam.
Teorema 9.32 (Regra da Cadeia)
Se \(g\) é diferenciável em \(t_0\) e \(f\) é diferenciável em \(g(t_0)\), então \(h=f\circ g\) é diferenciável em \(t_0\) e
Pela definição de derivada, \(\Phi (u)\to f'(g(t_0))\) quando \(u\to g(t_0)\); portanto, \(\Phi \) é contínua em \(g(t_0)\). Como a diferenciabilidade de \(g\) implica sua continuidade em \(t_0\), temos \(g(t)\to g(t_0)\). Além disso, para todo \(t\) próximo de \(t_0\),
Embora essa notação sugira um cancelamento de diferenciais, a igualdade é uma forma compacta de registrar a Regra da Cadeia, e não uma simples manipulação de frações.
Exemplo 9.34
Calcule a derivada de \( h(t)=\operatorname {sen}(t^2).\)
Solução
Decompomos \(h\) tomando \(g(t)=t^2\) e \(f(x)=\operatorname {sen}x\). Então \(h=f\circ g\), \(g'(t)=2t\) e \(f'(x)=\cos x\). Pela regra da cadeia,
\[ h'(t)=f'(g(t))g'(t)=2t\cos (t^2). \]
Nos exemplos seguintes, a decomposição em função externa e função interna torna visíveis os fatores produzidos pela regra da cadeia.
Exemplo 9.35
Calcule a derivada de \( h(t)=\ln (5t+3).\)
Solução
O domínio de \(h\) é \(t\gt -3/5\). Fazendo \(g(t)=5t+3\) e \(f(x)=\ln x\), temos \(h=f\circ g\), \(g'(t)=5\) e \(f'(x)=1/x\). Pela regra da cadeia,
Calcule a derivada de \(h(x) = \cos \left(\sqrt{x}\right)\).
Solução
Tomamos \(g(x)=\sqrt{x}\) e \(f(u)=\cos u\), de modo que \(h=f\circ g\). Como \(g'(x)=1/(2\sqrt{x})\) e \(f'(u)=-\operatorname {sen}u\), a regra da cadeia fornece
Em \(x=-1/7\), a derivada finita não existe; portanto, \(\operatorname {Dom}g'=(-1/7,\infty )\).
Com a regra da cadeia, podemos estender a derivação das potências inteiras \(x^n\) às potências reais \(x^c\), definidas por \(x^c=e^{c\ln x}\) para \(x\gt 0\).
Teorema 9.38 (Regra da Potência)
Se \(c\) é um número real, então, para \(x\gt 0\),
\[ (x^c)'=cx^{c-1}. \]
Demonstração▼
Para \(x\gt 0\), temos \(x^c=e^{c\ln x}\). Pela regra da cadeia,
Se \(c=p/q\) está em forma irredutível e \(q\) é ímpar, a potência real \(x^c\) também está definida para \(x\lt 0\), e a fórmula \((x^c)'=cx^{c-1}\) vale nesses pontos negativos não nulos. Para um expoente real arbitrário, a construção \(x^c=e^{c\ln x}\) usada acima exige \(x\gt 0\). Assim, a regra deve sempre ser lida junto com o domínio da potência considerada.
Exemplo 9.40
Calcule a derivada de \(f(x)=\sqrt[3]{x^5}+\sqrt[5]{x^3}\).
Solução
Como os denominadores \(3\) e \(5\) são ímpares, podemos escrever
\[ f(x)=x^{5/3}+x^{3/5} \]
para todo \(x\in \mathbb {R}\). Pela Regra da Potência e pela observação anterior, para \(x\neq 0\),
Em \(x=0\), o quociente incremental do termo \(x^{3/5}\) contém \(h^{3/5}/h=h^{-2/5}\), que não possui limite finito. Portanto, \(\operatorname {Dom}f'=\mathbb {R}\setminus \{ 0\} \).
Aplicamos a regra da cadeia em todos os itens e combinamos, nos últimos, as regras do produto e do quociente. As respostas estão organizadas nos mesmos três níveis do enunciado.
Em cada item, calculamos primeiro a inclinação da tangente no ponto indicado. Quando essa inclinação é não nula, a normal tem coeficiente angular igual ao recíproco negativo.
Tomando \(h_n=1/(\pi /2+2n\pi )\gt 0\), temos \(h_n\to 0\) e o quociente vale \(h_n^{-2/3}\to +\infty \). Tomando \(k_n=1/(3\pi /2+2n\pi )\gt 0\), temos \(k_n\to 0\) e o quociente vale \(-k_n^{-2/3}\to -\infty \). Logo, não há limite e \(f'(0)\) não existe.
9.6 Derivada da função inversa
Se \(I\) é um intervalo e \(f:I\to \mathbb {R}\) é contínua e injetiva, então \(f\) admite uma inversa \(f^{-1}:f(I)\to I\), também contínua. A reflexão dos gráficos em relação à reta \(y=x\) sugere como suas derivadas se relacionam: as inclinações correspondentes devem ser recíprocas, desde que não sejam nulas. O teorema a seguir formaliza essa observação. Figura9.9A reflexão em \(y=x\) leva \((1,2)\) a \((2,1)\) e troca a inclinação \(2\) por \(1/2\). Aqui, \(f(x)=1+x^2\), para \(x\geq 0\).
Usaremos aqui o teorema de continuidade da inversa já demonstrado no capítulo de limites (Teorema 7.35).
Teorema 9.42 (Derivada da Função Inversa)
Seja \(f:I\to \mathbb {R}\) uma função injetiva e contínua, com \(I\) um intervalo. Se \(a\) é interior a \(I\), \(f\) é diferenciável em \(a\), \(f'(a)\neq 0\) e \(b=f(a)\), então \(f^{-1}\) é diferenciável em \(b\), e
\[ (f^{-1})'(b) = \dfrac {1}{f’(f^{-1}(b))}. \]
Demonstração▼
Escreva \(a=f^{-1}(b)\). Para \(x\neq b\), ponha \(y=f^{-1}(x)\). Pela injetividade de \(f\), temos \(y\neq a\); pela continuidade de \(f^{-1}\), garantida pelo Teorema 7.35, temos \(y\to a\) quando \(x\to b\). Portanto,
Determine também o domínio em que essa derivada existe.
Solução
Observamos inicialmente que \(g(x)=x^{1/n}\) é a função inversa de \(f(x)=x^n\) quando restringimos \(f\) a \([0,\infty )\) se \(n\) é par; se \(n\) é ímpar, consideramos \(f:\mathbb {R}\to \mathbb {R}\). Em ambos os casos, o teorema da derivada da função inversa exige \(f'(g(x))\neq 0\); portanto,
Se \(n\) é par, \(g\) está definida em \([0,\infty )\) e \(\operatorname {Dom}g'=(0,\infty )\). Se \(n\) é ímpar, \(g\) está definida em \(\mathbb {R}\) e \(\operatorname {Dom}g'=\mathbb {R}\setminus \{ 0\} \).
Exercício 9.23
Use diretamente o Teorema da Derivada da Função Inversa.
Seja \(f(x)=x^3+x\). Sabendo que \(f(1)=2\), calcule \((f^{-1})'(2)\).
Seja \(g(x)=x+\ln x\), para \(x\gt 0\). Sabendo que \(g(1)=1\), calcule \((g^{-1})'(1)\).
Ver solução
Como \(f'(1)=4\), temos \((f^{-1})'(2)=1/4\).
Como \(g'(1)=1+1=2\), temos \((g^{-1})'(1)=1/2\).
Exercício 9.24
Usando a definição por limite, calcule a derivada de \(f(x)=x^2-4x\) em \(x=3\). Escreva também a equação da reta tangente nesse ponto. Ver solução
Como \(f(3)=-3\), a tangente é \(y+3=2(x-3)\), ou \(y=2x-9\).
Exercício 9.25
A posição de um carrinho é \(s(t)=t^3-6t^2+9t\), em metros. Determine velocidade e aceleração para \(t\geq 0\), os instantes em que o carrinho está em repouso e o sentido do movimento em cada intervalo relevante. Ver solução
\(v(t)=3t^2-12t+9=3(t-1)(t-3)\) e \(a(t)=6t-12\). O carrinho está em repouso em \(t=1\) e \(t=3\); move-se no sentido positivo em \([0,1)\) e \((3,\infty )\) e no sentido negativo em \((1,3)\).
Identifique onde cada regra de derivação é usada. Ver solução
Usando as regras do produto, da potência e do quociente,
\[ y'=\frac{3x^3-10x^2-x-2}{2\sqrt{x}(x-2)^2}. \]
Exercício 9.27
A área de um círculo cresce segundo \(A(t)=\pi r(t)^2\). Se \(r(t)=2+0{,}15t\) cm, com \(t\) medido em segundos, determine \(A'(t)\) e interprete seu valor em \(t=10\). Ver solução
\(A'(t)=2\pi r(t)r'(t)=0{,}3\pi (2+0{,}15t)\, \mathrm{cm^2/s}\). Em \(t=10\) s, a área cresce à taxa de \(1{,}05\pi \approx 3{,}30\, \mathrm{cm^2/s}\).
Exercício 9.28
Mostre, pela definição, que \(f(x)=|x|\) não é derivável em \(0\). Relacione sua conclusão com a geometria do gráfico. Ver solução
O quociente \(|h|/h\) tende a \(1\) quando \(h\to 0^+\) e a \(-1\) quando \(h\to 0^-\). Como os limites laterais diferem, \(f'(0)\) não existe. No gráfico, isso corresponde ao vértice anguloso na origem.
Exercício 9.29
Determine os pontos em que \(y=\sqrt{1+\cos (4x^2)}\) é derivável, obtenha sua derivada nesses pontos e avalie-a em \(x=0\). Ver solução
Para \(f(x)=x^3+x\), use a fórmula da derivada da inversa para calcular \((f^{-1})'(2)\) sem obter uma fórmula explícita para \(f^{-1}\). Ver solução
Como \(f(1)=2\) e \(f'(1)=4\), temos \((f^{-1})'(2)=1/f'(1)=1/4\).
Exercício 9.31
O gráfico representa a distância percorrida por uma ciclista em função do tempo. A reta tracejada é secante ao gráfico em dois instantes próximos de \(t=6\) min.
Explique como usar a inclinação dessa secante para estimar a velocidade instantânea em \(t=6\) min e indique as unidades do resultado. Ver solução
A inclinação da secante indicada é aproximadamente