Parte
Derivadas

Capítulo 9

Derivadas

Sobre os que entram nos mesmos rios, águas sempre diferentes correm.
Heráclito, Fragmento 12
A derivada mede a variação local de uma função. Geometricamente, quando a tangente não é vertical, ela fornece o coeficiente angular da reta tangente; em problemas de movimento, fornece a velocidade instantânea; em outros contextos, descreve taxas de crescimento, decaimento e sensibilidade. Os problemas da tangente e da velocidade conduzem ao mesmo limite, que define a derivada. Sua relação com a continuidade e as regras de derivação permitem estudar as funções elementares. A derivada também determina uma aproximação local: perto de um ponto de diferenciabilidade, a função se comporta, em primeira aproximação, como uma função afim. A derivada é o coeficiente que determina essa aproximação local.

Figura 9.1 Retas tangentes em vários pontos da curva. As tangentes horizontais destacam o máximo e o mínimo locais.

Figura 9.1 Retas tangentes em vários pontos da curva. As tangentes horizontais destacam o máximo e o mínimo locais.

9.1 Motivações

9.1.1 O problema da reta tangente

Um dos problemas que conduzem à derivada é geométrico: determinar a reta tangente ao gráfico de uma função em um ponto. A tangente registra a direção local da curva e, quando não é vertical, fica determinada por seu coeficiente angular.

No início do século XVII, Pierre de Fermat desenvolveu métodos para determinar máximos e mínimos de certas funções. A Figura 9.1 ilustra a relação entre esse problema e as retas tangentes: suas inclinações variam ao longo da curva e se anulam nos dois extremos indicados.

Em um ponto interior no qual uma função diferenciável atinge um máximo ou um mínimo local, a reta tangente é horizontal. A procura por extremos conduz, portanto, ao estudo dos pontos em que a inclinação da tangente se anula.

Para uma curva geral, porém, a própria noção de tangente precisa ser formulada com cuidado. Dados uma função \(f\) e um ponto \(P\) de seu gráfico, procuramos uma reta que descreva a direção da curva nas proximidades de \(P\).

A experiência com a circunferência pode sugerir que a tangente seja uma reta que encontra a curva em um único ponto. Para gráficos de funções, porém, esse critério não basta, como mostram as figuras seguintes.

Ilustração: O problema da reta tangente

Na Figura 9.2a, a tangente cruza a curva em outro ponto; na Figura 9.2b, a reta encontra o gráfico uma única vez, mas não acompanha sua direção nesse ponto. O número de interseções, portanto, não caracteriza a tangência.

Quando a tangente não é vertical, podemos determiná-la por seu coeficiente angular. Para aproximar esse coeficiente, tomamos uma reta secante que passa pelo ponto fixo \(P\) e por um segundo ponto \(Q\) do gráfico. Se \(P=(a,f(a))\) e \(Q=(a+h,f(a+h))\), com \(h\neq 0\), o coeficiente angular da secante é

\[ m_{\mathrm{sec}}=\dfrac {f(a+h)-f(a)}{(a+h)-a}=\dfrac {f(a+h)-f(a)}{h}. \]

Figura 9.3 Quando \(Q\) se aproxima de \(P\), as retas secantes se aproximam da reta tangente.

Mantendo \(P\) fixo, fazemos \(Q\) se aproximar de \(P\), isto é, fazemos \(h\) tender a zero. Se os coeficientes angulares das secantes convergem para um número real \(m\), esse limite determina a inclinação da reta tangente:

\[ m=\lim \limits _{h\to 0}\dfrac {f(a+h)-f(a)}{h}. \]

A reta tangente no ponto fixo \(P=(a,f(a))\) tem, portanto, equação

\[ y-f(a)=m(x-a). \]

Esse limite será a derivada de \(f\) no ponto \(a\). Um primeiro cálculo ilustra sua obtenção; o estudo do movimento mostrará outra interpretação do mesmo quociente.

Exemplo 9.1
Determine a inclinação da reta tangente ao gráfico de \(f(x)=x^2\) no ponto \((a,a^2)\).

Solução
Pela definição, a inclinação da reta tangente no ponto \(a\) é
\[ m=\lim \limits _{h\to 0}\dfrac {f(a+h)-f(a)}{h}. \]
Para \(f(x)=x^2\), segue que
\begin{align*} m & =\lim \limits _{h\to 0}\dfrac {(a+h)^2-a^2}{h} \\ & =\lim \limits _{h\to 0}\dfrac {a^2+2ah+h^2-a^2}{h} \\ & =\lim \limits _{h\to 0}\dfrac {2ah+h^2}{h} \\ & =\lim \limits _{h\to 0}(2a+h) \\ & =2a. \end{align*}
Assim, a inclinação da reta tangente no ponto \(a\) é \(2a\).

9.1.2 O problema da velocidade

O mesmo quociente usado para calcular a inclinação de uma secante aparece no estudo da velocidade. Suponha que uma partícula se mova em linha reta e que sua posição no instante \(t\) seja dada por \(s(t)\). Para \(\Delta t\neq 0\), com os dois instantes no domínio de \(s\), a velocidade média entre \(t_0\) e \(t_0+\Delta t\) é

\[ v_m=\dfrac {\Delta s}{\Delta t}=\dfrac {s(t_0+\Delta t)-s(t_0)}{\Delta t}. \]

A velocidade média descreve o deslocamento por unidade de tempo nesse intervalo. Para obter a velocidade em um instante, fazemos o intervalo encolher, tomando o limite quando \(\Delta t\to 0\). No gráfico de posição em função do tempo, isso corresponde à passagem das secantes à tangente que acabamos de estudar.

Definição 9.1
Se uma partícula se move sobre uma reta e sua posição é descrita por \(s(t)\), então sua velocidade instantânea em \(t_0\) é
\[ v:=\lim _{\Delta t \to 0}\dfrac {s(t_0+\Delta t) - s(t_0)}{\Delta t} \]
desde que o limite exista e seja finito.

Exemplo 9.2
A posição de uma partícula é dada por \(s(t)=t^2-5t\), com \(s(t)\) em metros e \(t\geq 0\) em segundos. Determine a velocidade no instante \(a\geq 0\), calcule-a em \(t=0\) e em \(t=4\), identifique quando a partícula se move para a direita ou para a esquerda e determine quando ela está em repouso.

Solução
Para \(a\gt 0\), calculamos a velocidade pela definição:
\begin{align*} v(a) & =\lim _{\Delta t \to 0}\dfrac {s(a+\Delta t) - s(a)}{\Delta t} \\ & =\lim _{\Delta t \to 0}\dfrac {(a+\Delta t)^2-5(a+\Delta t) - a^2+5a}{\Delta t} \\ & =\lim _{\Delta t \to 0}\dfrac {a^2 + 2a\Delta t +(\Delta t)^2-5a-5\Delta t - a^2+5a}{\Delta t} \\ & =\lim _{\Delta t \to 0}\dfrac { 2a\Delta t +(\Delta t)^2-5\Delta t }{\Delta t} \\ & =\lim _{\Delta t \to 0} 2a +\Delta t-5 \\ & = 2a -5. \end{align*}
Logo, \(v(a)=2a-5\). No instante inicial, fazemos o mesmo cálculo com \(\Delta t\to 0^+\), pois o movimento está definido apenas para \(t\geq 0\). Obtemos \(v(0)=-5\, \mathrm{m/s}\); em \(t=4\), temos \(v(4)=3\, \mathrm{m/s}\). Para determinar quando a partícula se move para a direita, resolvemos
\[ 2a-5\gt 0 \quad \Longleftrightarrow \quad a\gt 5/2. \]
De modo análogo, a partícula se move para a esquerda quando
\[ 2a-5\lt 0 \quad \Longleftrightarrow \quad a\lt 5/2. \]
Como \(a\geq 0\), isso ocorre em \(0\leq a\lt 5/2\). Por fim, a partícula está em repouso se, e somente se, \(a=5/2\).

Taxas de variação

A posição e o tempo podem ser substituídos por outras grandezas. Se \(Q\) depende de uma variável \(x\), o quociente de suas variações mede quanto \(Q\) varia, em média, por unidade de \(x\).

Definição 9.2
A taxa de variação média de uma grandeza \(Q\) em relação à variável \(x\) entre \(a\) e \(a+h\), com \(h\neq 0\), é
\[ \dfrac {\Delta Q}{\Delta x}=\dfrac {Q(a+h)-Q(a)}{h}. \]

Assim como no cálculo da velocidade, a passagem ao limite fornece uma medida da variação em um ponto.

Definição 9.3
A taxa de variação instantânea de uma grandeza \(Q\) em relação à variável \(x\) no ponto \(a\) é
\[ \left.\frac{d Q}{d x}\right|_{x=a}=\lim \limits _{h\to 0}\dfrac {Q(a+h)-Q(a)}{h}, \]
desde que o limite exista e seja finito.

Por exemplo, quando a variável é o tempo, essa taxa pode representar a velocidade de um automóvel ou o crescimento de uma população de bactérias. Em outras situações, pode medir como o lucro de uma empresa varia com o volume de vendas. Em todos esses casos, calculamos um limite da mesma forma; a interpretação e as unidades dependem das grandezas envolvidas.

9.2 Definição de derivada

Os problemas da tangente e da velocidade conduzem à mesma expressão. Abstraindo as interpretações geométrica e física, obtemos a definição de derivada em um ponto.

Figura 9.4 A secante passa por P=(a,f(a)) e Q=(a+h,f(a+h)). Sua inclinação é a razão entre as variações vertical e horizontal.
Figura 9.4 A secante passa por \(P=(a,f(a))\) e \(Q=(a+h,f(a+h))\). Sua inclinação é a razão entre as variações vertical e horizontal.
Definição 9.4
Seja \(f\) uma função definida em um intervalo aberto que contém \(a\). A derivada de \(f\) em \(a\), denotada por \(f'(a)\), é
\[ f '(a)= \lim \limits _{h\to 0} \dfrac {f(a + h) -f(a)}{h}, \]
desde que o limite exista e seja finito.

O símbolo \(f'(a)\) lê-se “f linha de a”. Dizer que \(f'(a)\) existe significa que o limite da Definição 9.4 existe como um número real. Geometricamente, esse número é a inclinação da tangente ao gráfico em \((a,f(a))\), cuja equação podemos escrever como

\[ y-f(a)=f'(a)(x-a). \]

Exemplo 9.3
Calcule a derivada de \(g(x)=\sqrt{x}\) em \(x=4\).

Figura 9.5 Tangente a g(x)=√x em (4,2). O conjugado. A identidade (u-v)(u+v)=u^2-v^2 transforma o numerador em h, que pode ser simplificado antes de tomar o limite.

Figura 9.5 Tangente a \(g(x)=\sqrt{x}\) em \((4,2)\).

O conjugado. A identidade \((u-v)(u+v)=u^2-v^2\) transforma o numerador em \(h\), que pode ser simplificado antes de tomar o limite.

Solução

Pela definição de derivada,

\[ g'(4)=\lim \limits _{h\to 0}\frac{g(4+h)-g(4)}{h}. \]

Substituímos \(g(4)=2\) e \(g(4+h)=\sqrt{4+h}\) nesse quociente. O limite que procuramos é a inclinação da tangente representada na figura.

Para calcular o limite, multiplicamos o quociente pelo conjugado do numerador dividido por ele mesmo:

\begin{align*} g’(4) & = \lim \limits _{h\to 0} \dfrac {\sqrt{4+h}-2}{h} \\ & = \lim \limits _{h\to 0} \dfrac {\sqrt{4+h}-2}{h}\cdot \dfrac {\sqrt{4+h}+2}{\sqrt{4+h}+2} \\ & = \lim \limits _{h\to 0} \dfrac {4+h-4}{h\left( \sqrt{4+h}+2 \right)} \\ & = \lim \limits _{h\to 0} \dfrac {h}{h\left( \sqrt{4+h}+2 \right)} \\ & = \lim \limits _{h\to 0} \dfrac {1}{\sqrt{4+h}+2} \\ & = \dfrac {1}{4}. \end{align*}

Portanto, a reta tangente ao gráfico de \(g\) em \((4,2)\) tem coeficiente angular \(1/4\).

Exemplo 9.4
Calcule a derivada de \(f(x)= x\) no ponto \(a\).

Solução
Pela definição de derivada,
\begin{align*} f’(a) & = \lim \limits _{h\to 0} \dfrac {f(a+h)-f(a)}{h} \\ & = \lim \limits _{h\to 0} \dfrac {a+h-a}{h} \\ & = \lim \limits _{h\to 0}1=1. \end{align*}
Assim, \(f'(a)=1\) para todo \(a\in \mathbb {R}\).

9.2.1 Função derivada

Quando \(f'(a)\) existe, dizemos que \(f\) é diferenciável em \(a\). Se isso ocorre em todo ponto interior de seu domínio, dizemos simplesmente que \(f\) é diferenciável. Nas extremidades de intervalos, consideraremos separadamente as derivadas laterais.

Até aqui, calculamos a derivada em um ponto. Podemos também deixar esse ponto variar: a cada \(x\) em que a derivada existe, associamos o número \(f'(x)\). Obtemos assim a função derivada de \(f\), denotada por \(f'\), com domínio

\[ \operatorname {Dom}f'=\{ x\in \operatorname {Dom}f:f'(x)\text{ existe}\} . \]

O domínio de \(f'\) pode ser estritamente menor que o domínio de \(f\).

Exemplo 9.5
O Exemplo 9.4 mostra que \(f(x)=x\) é diferenciável em todos os reais. Assim, podemos definir sua função derivada \(f':\mathbb {R}\to \mathbb {R}\); nesse caso, ela é a função constante \(f'(x)=1\).

Exemplo 9.6
Calcule a derivada de \(f(x)=x^3+x^2\). Qual é o domínio de \(f'\)?

Solução
Pela definição,
\[ f'(x)=\lim \limits _{h\to 0}\dfrac {f(x+h)-f(x)}{h}. \]
Neste caso,
\begin{align*} f(x+h) & =x^3+3x^2h+3xh^2+h^3+x^2+2hx+h^2 \\ f(x) & =x^3+x^2. \end{align*}
Substituindo essas expressões no quociente e simplificando o fator \(h\),
\begin{align*} f’(x) & =\lim \limits _{h\to 0}\frac{x^3+3x^2h+3xh^2+h^3+x^2+2xh+h^2-(x^3+x^2)}{h}\\ & =\lim \limits _{h\to 0}\left(3x^2+3xh+h^2+2x+h\right)\\ & =3x^2+2x. \end{align*}
O limite existe para todo \(x\in \mathbb {R}\); portanto, \(\operatorname {Dom}f'=\mathbb {R}\).

Exemplo 9.7
Seja \(f(x)=\sqrt{x}\). Calcule a derivada de \(f\). Qual é o domínio de \(f'\)?

Solução
Para \(x\gt 0\), aplicamos a definição de derivada e racionalizamos o numerador:
\begin{align*} f’(x) & =\lim \limits _{h\to 0} \dfrac {\sqrt{x+h}-\sqrt{x} }{h} \\ & =\lim \limits _{h\to 0} \dfrac {\sqrt{x+h}-\sqrt{x} }{h}\cdot \dfrac {\sqrt{x+h}+\sqrt{x} }{\sqrt{x+h}+\sqrt{x}} \\ & =\lim \limits _{h\to 0} \dfrac {x+h-x }{h(\sqrt{x+h}+\sqrt{x})} \\ & =\lim \limits _{h\to 0} \dfrac {1 }{\sqrt{x+h}+\sqrt{x}} \\ & =\dfrac {1}{2\sqrt{x}}. \end{align*}
Portanto, \(\operatorname {Dom}f'=(0,\infty )\). Embora \(f\) esteja definida em \(x=0\), a derivada lateral direita não é finita: o quociente incremental tende a \(+\infty \) quando \(h\to 0^+\).

9.2.2 Definição equivalente de derivada

Na definição anterior, o ponto próximo de \(a\) foi escrito como \(a+h\). Podemos chamá-lo simplesmente de \(x\): nesse caso, \(h=x-a\), e \(h\to 0\) equivale a \(x\to a\). Para \(f\) definida em um intervalo aberto que contém \(a\), obtemos

\[ f'(a) = \displaystyle \lim _{x \rightarrow a} \dfrac {f(x)-f(a)}{x-a} \]

Podemos, portanto, usar a seguinte forma equivalente:

Definição 9.5
Seja \(f\) uma função definida em um intervalo aberto que contém \(a\). A derivada de \(f\) em \(a\), denotada por \(f'(a)\), é
\[ f'(a) = \displaystyle \lim _{x \rightarrow a} \dfrac {f(x)-f(a)}{x-a} \]
desde que o limite exista e seja finito.

Se escrevermos \(\Delta x=x-a\) e \(\Delta f=f(x)-f(a)\), a mesma expressão assume a forma

\[ f'(a)=\lim _{\Delta x\to 0}\frac{\Delta f}{\Delta x}. \]

Essa forma também esclarece a notação de Leibniz, na qual se explicita a variável em relação à qual a derivação é realizada.

Notação 9.8 (Notação de Leibniz)
A derivada de \(f\) em \(c\), denotada por \(f'(c)\), também pode ser escrita como
\[ \left. \frac{d f}{d x}\right|_{x=c} \]
Já a função derivada \(f'\) é denotada também do seguinte modo:
\[ \frac{d f}{d x} \]

Embora lembre um quociente, \(\frac{d f}{d x}\) denota a função derivada, obtida pelo limite dos quocientes incrementais. As duas formas da definição são equivalentes; escolhemos a que torna o cálculo mais simples.

Exemplo 9.9
Calcule a derivada de \(f(x)=x^{1/3}\) no ponto \(a\neq 0\).

Solução
Pela definição equivalente de derivada,
\begin{align*} \left. \frac{d f}{d x}\right|_{x=a} & =\displaystyle \lim _{x \rightarrow a} \dfrac {f(x)-f(a)}{x-a} \\ & =\displaystyle \lim _{x \rightarrow a} \dfrac {x^{1/3}-a^{1/3}}{x-a} \\ & =\displaystyle \lim _{x \rightarrow a} \dfrac {x^{1/3}-a^{1/3}}{(x^{1/3})^3-(a^{1/3})^3}. \end{align*}
Usamos a fatoração
\[ c^3-d^3=(c-d)(c^2+cd+d^2) \]
com \(c=x^{1/3}\) e \(d=a^{1/3}\). Logo,
\begin{align*} \left. \frac{d f}{d x}\right|_{x=a} & =\displaystyle \lim _{x \rightarrow a} \dfrac {x^{1/3}-a^{1/3}}{(x^{1/3}-a^{1/3})(x^{2/3}+x^{1/3}a^{1/3}+a^{2/3})} \\ & =\displaystyle \lim _{x \rightarrow a} \dfrac {1}{(x^{2/3}+x^{1/3}a^{1/3}+a^{2/3})} \\ & = \dfrac {1}{3a^{2/3}}. \end{align*}
A expressão é finita para \(a\neq 0\), conforme suposto no enunciado.

Exemplo 9.10
Seja \(f(x)= \begin{cases} x^2 \operatorname {sen}\frac{1}{x} & \text{ se } x\neq 0 \\ 0 & \text{ se } x=0.\end{cases}\) Mostre que existe \(f'(0)\).

Solução
Pela definição,
\begin{align*} f’(0) & = \lim _{x\to 0} \dfrac { x^2 \operatorname {sen}\frac{1}{x} -0 }{x-0} \\ & = \lim _{x\to 0}\underbrace{x}_{\to 0} \underbrace{\operatorname {sen}\frac{1}{x}}_{\text{ limitado}} \\ & =0. \end{align*}
A última igualdade decorre do teorema do confronto. Logo, \(f'(0)\) existe e vale \(0\).

9.2.3 Derivadas laterais

Em um ponto de junção, ou em uma extremidade do domínio, o quociente incremental pode ter comportamentos distintos de cada lado. As derivadas laterais registram separadamente esses dois limites:

Definição 9.6 (Derivadas Laterais)
A derivada pela direita é definida como
\[ f'_{+}(a):=\lim _{{ x\to a^+}}\dfrac {f(x)-f(a)}{x-a} \]
e a derivada pela esquerda é definida como
\[ f'_{-}(a):=\lim _{{ x\to a^-}}\dfrac {f(x)-f(a)}{x-a}. \]
Cada derivada lateral é definida quando o respectivo limite existe e é finito.

Se \(a\) é um ponto interior do domínio, \(f\) é diferenciável em \(a\) se, e somente se, as duas derivadas laterais existem e coincidem. Em uma extremidade do domínio, consideramos apenas a derivada lateral correspondente aos pontos em que a função está definida.

Exemplo 9.11
Considere a função
\[ f(x)=\begin{cases} x^2,& x\leq 1,\\ 2x-1,& x\gt 1. \end{cases} \]
Figura 9.6 Gráfico da função definida por uma parábola à esquerda de 1 e por uma reta à direita.
Figura 9.6 Gráfico da função definida por uma parábola à esquerda de \(1\) e por uma reta à direita.
Calcule as derivadas laterais em \(x=1\) e determine se \(f\) é diferenciável nesse ponto.

Solução
Como \(f(1)=1\), usamos esse mesmo valor nos dois quocientes incrementais. À esquerda de \(1\), temos \(f(x)=x^2\); logo,
\begin{align*} f’_-(1)& =\lim _{x\to 1^-}\frac{x^2-1}{x-1}\\ & =\lim _{x\to 1^-}(x+1)=2. \end{align*}
À direita, usamos \(f(x)=2x-1\):
\begin{align*} f’_+(1)& =\lim _{x\to 1^+}\frac{(2x-1)-1}{x-1}\\ & =\lim _{x\to 1^+}\frac{2(x-1)}{x-1}=2. \end{align*}
As duas derivadas laterais coincidem. Portanto, \(f\) é diferenciável em \(1\) e \(f'(1)=2\). A parábola e a reta se encontram com a mesma inclinação, como sugere o gráfico.

A igualdade das derivadas laterais é essencial. No exemplo seguinte, os dois limites existem, mas têm valores diferentes.

Exemplo 9.12
Mostre que a função \(f(x)=\left\lvert x\right\rvert \) não é diferenciável em \(0\).
Figura 9.7 O canto do gráfico de y=|x| reúne duas inclinações laterais diferentes em x=0.
Figura 9.7 O canto do gráfico de \(y=|x|\) reúne duas inclinações laterais diferentes em \(x=0\).

Solução

As derivadas laterais em \(0\) são

\begin{align*} f’_+(0)& =\lim _{x\to 0^+}\frac{|x|}{x}=\lim _{x\to 0^+}1=1,\\ f’_-(0)& =\lim _{x\to 0^-}\frac{|x|}{x}=\lim _{x\to 0^-}(-1)=-1. \end{align*}

Como \(f'_+(0)\neq f'_-(0)\), a função não é diferenciável em \(0\).

A função valor absoluto é contínua em \(0\), mas não é diferenciável nesse ponto. Assim, a continuidade não garante a existência da derivada. No sentido inverso, porém, a implicação sempre vale:

Teorema 9.13
Se \(f\) é diferenciável no ponto \(x\), então \(f\) é contínua em \(x\). Equivalentemente, se \(f\) não é contínua em \(x\) então \(f\) não é diferenciável em \(x\).

Demonstração

Como \(f\) é diferenciável em \(x\), temos que

\[ \lim _{y \rightarrow x}\frac{f(y)-f(x)}{y-x}=f'(x). \]

Para \(y\neq x\), escrevemos

\[ f(y)-f(x)=\frac{f(y)-f(x)}{y-x}(y-x). \]

Tomando limites quando \(y\to x\), obtemos

\[ \lim _{y\to x}\bigl(f(y)-f(x)\bigr)=f'(x)\cdot 0=0. \]

Assim, \(\lim _{y \rightarrow x} f(y) = f(x)\), logo \(f\) é contínua em \(x\).

Podemos agora combinar a continuidade e o cálculo das derivadas laterais para determinar os coeficientes de uma função por partes.

Exemplo 9.14
Determine \(a\) e \(b\) de modo que \( f(x)= \begin{cases} x^2 & x\lt 1 \\ a x+b & x\geq 1 \end{cases} \) seja diferenciável em todos os pontos.

Solução

Em cada um dos intervalos \((-\infty ,1)\) e \((1,\infty )\), a função é polinomial e, portanto, diferenciável. Resta analisar o ponto de junção.

A diferenciabilidade em \(x=1\) exige primeiro a continuidade:

\[ \lim _{x\to 1-}x^2=f(1)=a+b \quad \Longrightarrow \quad a+b=1. \]

Sob essa condição, \(f(1)=1\), e as derivadas laterais são

\[ f'_-(1)=\lim _{x\to 1^-}\frac{x^2-1}{x-1}=2 \]

e

\[ f'_+(1)=\lim _{x\to 1^+}\frac{ax+b-(a+b)}{x-1}=a. \]

Elas coincidem precisamente quando \(a=2\). Substituindo esse valor em \(a+b=1\), obtemos \(b=-1\). Logo, a função é diferenciável em todos os pontos se, e somente se,

\[ a=2\qquad \text{e}\qquad b=-1. \]

Exercício 9.1
Calcule a razão \(\dfrac {\Delta y}{\Delta x}\) para a função \(y=\dfrac {1}{x}\)
  1. no ponto 2 e \(\Delta x = 1\)

  2. no ponto 2 e \(\Delta x=0{,}1\)

  3. no ponto 2 e \(\Delta x=0{,}01\)

Ver solução
Para \(y=1/x\), no ponto \(x=2\),
\[ \frac{\Delta y}{\Delta x} =\frac{\dfrac 1{2+\Delta x}-\dfrac 12}{\Delta x} =-\frac{1}{2(2+\Delta x)}. \]
Substituindo os três incrementos pedidos, obtemos
  1. \(-1/6\).

  2. \(-5/21\).

  3. \(-50/201\).

Exercício 9.2
Quanto vale \(\lim _{ \Delta x \to 0}\dfrac {\Delta y}{\Delta x}\) para a função \(y=\dfrac {1}{x}\)?
Ver solução
\(-1/x^2\), para \(x\neq 0\).

Exercício 9.3

Para as funções a seguir, calcule a derivada no ponto indicado por meio do limite do quociente de Newton:

\[ f'(a)=\lim \limits _{h\to 0} \dfrac {f(a+h)-f(a)}{h} \]
  1. derivada de \(f(x)=x\) no ponto \(a=0\)

  2. derivada de \(f(x)=x^2+1\) no ponto \(a=1\)

  3. derivada de \(f(x)=x^2\) no ponto \(a=1\)

  4. derivada de \(f(x)=3x^3-x\) no ponto \(a=2\)

  5. derivada de \(f(x)=x^3\) no ponto \(a=-1\)

  6. derivada de \(f(x)=x^4\) no ponto \(a=0\)

  7. derivada de \(f(x)=\sqrt{x}\) no ponto \(a=4\)

  8. derivada de \(f(x)=\sqrt[3]{x}\) no ponto \(a=8\)

  9. derivada de \(f(x)=\dfrac {1}{x}\) no ponto \(a=1\)

  10. derivada de \(f(x)=\dfrac {1}{x}\) no ponto \(a=-1\)

Ver solução
  1. \(f'(0)=\lim _{h\to 0}(h-0)/h=1\).

  2. \(f'(1)=\lim _{h\to 0}[(1+h)^2+1-2]/h=\lim _{h\to 0}(2+h)=2\).

  3. \(f'(1)=\lim _{h\to 0}[(1+h)^2-1]/h=\lim _{h\to 0}(2+h)=2\).

  4. Pela definição e expansão do cubo,

    \begin{align*} f’(2)& =\lim _{h\to 0}\frac{3(2+h)^3-(2+h)-(3\cdot 2^3-2)}h\\ & =\lim _{h\to 0}(35+18h+3h^2)=35. \end{align*}
  5. \(f'(-1)=\lim _{h\to 0}[(-1+h)^3+1]/h=\lim _{h\to 0}(3-3h+h^2)=3\).

  6. \(f'(0)=\lim _{h\to 0}h^4/h=\lim _{h\to 0}h^3=0\).

  7. Racionalizando o quociente,

    \[ f'(4)=\lim _{h\to 0}\frac{\sqrt{4+h}-2}{h} =\lim _{h\to 0}\frac1{\sqrt{4+h}+2}=\frac14. \]
  8. Usando a diferença de cubos,

    \[ f'(8)=\lim _{h\to 0}\frac{\sqrt[3]{8+h}-2}{h} =\lim _{h\to 0}\frac1{(\sqrt[3]{8+h})^2+2\sqrt[3]{8+h}+4} =\frac1{12}. \]
  9. \(f'(1)=\lim _{h\to 0}[1/(1+h)-1]/h=\lim _{h\to 0}-1/(1+h)=-1\).

  10. \(f'(-1)=\lim _{h\to 0}[1/(-1+h)+1]/h=\lim _{h\to 0}1/(h-1)=-1\).

Exercício 9.4
Determine \(a,b\) reais de modo que a função \( f(x)= \begin{cases} x^2+2x & x\lt 1 \\ a x+b & x\geq 1 \end{cases} \)seja diferenciável em todos os pontos.
Ver solução
A continuidade em \(1\) exige \(a+b=3\). Sob essa condição, a derivada pela esquerda é \(2\cdot 1+2=4\), e a da direita é \(a\). Portanto, \(a=4\) e \(b=-1\). Com esses valores, a função é diferenciável na junção e nos demais pontos, onde é polinomial.

9.3 Derivadas das funções clássicas

A definição por limite permite calcular a derivada de qualquer função para a qual o limite exista. Para as funções elementares, porém, convém estabelecer fórmulas que possam ser reutilizadas. Elas serão deduzidas a partir da definição e dos limites fundamentais e formarão o repertório básico do cálculo diferencial.

Teorema 9.15 (Fórmulas de Derivação)
São válidas as seguintes fórmulas de derivação
  1. Se \(f(x) = c, \) então \( f'(x) =0 ,\)

  2. Se \(f(x)=x^n \) então \( \ f'(x) = n\, x^{n-1} \text{ para todo } n\) inteiro positivo,

  3. Se \(f(x)=\sqrt[n]{x}=x^{1/n}\), então \(f'(x)=\dfrac {1}{n}x^{\frac{1}{n}-1}\). Para \(n\) par, a fórmula vale em \(x\gt 0\); para \(n\) ímpar e \(n\geq 3\), vale em \(x\neq 0\); para \(n=1\), vale em todo \(x\in \mathbb {R}\),

  4. Se \(f(x) = \operatorname {sen}x \) então \( \ f'(x) = \cos x,\)

  5. Se \(f(x) = \cos x \) então \( \ f'(x) = -\operatorname {sen}x,\)

  6. Se \(f(x) = e^x \) então \(\ f'(x)= e^x ,\)

  7. Se \(f(x)=\ln x \) então \( \ f'(x) = \dfrac {1}{x},\quad x \gt 0 . \)

Demonstração

Para o item a, a definição fornece imediatamente

\[ f'(x)=\lim \limits _{h\to 0}\frac{c-c}{h}=0. \]

Apresentaremos duas demonstrações do item b. A primeira usa a fatoração

\[ y^n-x^n=(y-x)(y^{n-1}+y^{n-2}x+\cdots +yx^{n-2}+x^{n-1}). \]

Assim,

\begin{align*} f’(x) & = \lim _{y \to x} \dfrac {y^n-x^n}{y-x} \\ & = \lim _{y \to x} \dfrac {(y-x)(y^{n-1} + y^{n-2}x+ \cdots + yx^{n-2} + x^{n-1})}{y-x} \\ & = \lim _{y\to x} (y^{n-1} + y^{n-2}x+ \cdots + yx^{n-2} + x^{n-1}) \\ & = x^{n-1} + x^{n-1}+ \cdots + x^{n-1} + x^{n-1} \\ & = nx^{n-1}. \end{align*}

A segunda demonstração usa o binômio de Newton:

\begin{align*} f’(x) & =\lim \limits _{h\to 0}\frac{f(x+h)-f(x)}{h} \\ & = \lim \limits _{h\to 0}\frac{(x+h)^n-x^n}{h} \\ & =\lim \limits _{h\to 0}\frac{\left(x^n+nx^{n-1}h +\frac{n(n-1)x^{n-2}h^2}{1\cdot 2} +\cdots +h^n\right)-x^n}{h} \\ & =\lim \limits _{h\to 0}\frac{nx^{n-1}h+\frac{(n)(n-1)}{1\cdot 2} x^{n-2}h^2 +\cdots +h^n}{h} \\ & =\lim \limits _{h\to 0} \left( \vphantom {\frac12} nx^{n-1}+\frac{(n)(n-1)}{1\cdot 2}x^{n-2}h^1+\cdots +h^{n-1}\right) \\ & =nx^{n-1}+0+\cdots +0 \\ & =nx^{n-1}. \end{align*}

Para \(n=1\), o item b é a derivada da identidade, já calculada. As expansões anteriores são entendidas para \(n\geq 2\). Para o item c, fixemos \(x\) no interior do domínio e, quando \(n\geq 2\), suponhamos também \(x\neq 0\). Fazendo \(u=\sqrt[n]{y}\) e \(v=\sqrt[n]{x}\), temos \(u\to v\) quando \(y\to x\). Pelo item anterior,

\begin{align*} f’(x) & =\lim _{u\to v}\frac{u-v}{u^n-v^n}\\ & =\lim _{u\to v}\frac{1}{(u^n-v^n)/(u-v)}\\ & =\frac{1}{nv^{n-1}} =\frac1n x^{1/n-1}. \end{align*}

Para o item d, usamos a identidade de transformação de soma em produto:

\begin{align*} f’(x) & = \lim _{y \to x} \dfrac {\operatorname {sen}y -\operatorname {sen}\ x }{y-x} \\ & = \lim _{y \to x} \dfrac { 2\operatorname {sen}\left(\dfrac {y-x}{2}\right) \cos \left(\dfrac {y+x}{2}\right) }{y-x} \\ & =\lim _{y \to x} \dfrac {\operatorname {sen}\left(\dfrac {y-x}{2} \right) \cos \left(\dfrac {y+x}{2}\right)}{\dfrac {y-x}{2}} \\ & =\lim _{y \to x} \dfrac {\operatorname {sen}\left(\dfrac {y-x}{2} \right) }{\dfrac {y-x}{2}} \lim _{y \to x} \cos \left(\dfrac {y+x}{2}\right) \end{align*}

No primeiro limite, fazemos \(h=(y-x)/2\); assim, \(h\to 0\) quando \(y\to x\).

\begin{align*} f’(x) & =\lim _{h \to 0} \dfrac {\operatorname {sen}h}{h} \lim _{y \to x} \cos \left(\dfrac {y+x}{2}\right) \\ & =\cos x. \end{align*}

Usamos aqui o primeiro limite fundamental apresentado na Seção 7.26:

\[ \lim \limits _{h\to 0}\frac{\operatorname {sen}h}{h}=1. \]

Para o item e, aplicamos a fórmula da adição do cosseno:

\begin{align*} \frac{d }{d x}\cos x & =\lim _{h\to 0}\frac{\cos (x+h)-\cos x}{h}\\ & =\cos x\lim _{h\to 0}\frac{\cos h-1}{h} -\operatorname {sen}x\lim _{h\to 0}\frac{\operatorname {sen}h}{h}\\ & =-\operatorname {sen}x. \end{align*}

Na última passagem usamos, além do primeiro limite fundamental, a identidade \(\cos h-1=-2\operatorname {sen}^2(h/2)\). De fato,

\[ \frac{\cos h-1}{h} =-\operatorname {sen}\left(\frac h2\right) \frac{\operatorname {sen}(h/2)}{h/2}\longrightarrow 0\cdot 1=0. \]

Para o item f,

\[ f'(x)=\lim _{h\to 0}\frac{e^{x+h}-e^x}{h} =e^x\lim _{h\to 0}\frac{e^h-1}{h}=e^x. \]

Nesse cálculo, usamos o terceiro limite fundamental, enunciado no Teorema 8.23:

\[ \displaystyle \lim _{h \to 0} \dfrac {e^{h}-1}{h}=1. \]

Finalmente, para o item g e \(x\gt 0\),

\[ f'(x) = \lim _{h \to 0} \dfrac {\ln (x+h) - \ln x}{h} =\lim _{h \to 0}\frac1h\ln \left(1+\frac hx\right). \]

Fazendo \(u=h/x\), temos \(u\to 0\) e \(h=xu\). Portanto,

\[ f'(x)=\frac1x\lim _{u\to 0}\frac{\ln (1+u)}u =\frac1x\ln \left(\lim _{u\to 0}(1+u)^{1/u}\right) =\dfrac {1}{x}\ln e = \dfrac {1}{x}. \]

Na penúltima passagem, usamos o segundo limite fundamental, \(\displaystyle \lim _{u\to 0}(1+u)^{1/u}=e\).

As funções elementares aparecem com frequência combinadas por somas, produtos e quocientes. As regras de derivação permitem obter a derivada dessas combinações a partir das derivadas de suas componentes.

9.4 Regras de derivação

A estrutura algébrica da expressão determina a regra apropriada. Somas e múltiplos constantes se comportam linearmente; produtos e quocientes introduzem termos adicionais que decorrem diretamente do quociente incremental.

Teorema 9.16 (Derivada da Soma e Subtração)
Se \(f\) e \(g\) são funções diferenciáveis em \(x=a\) então a função \(f\pm g\) é diferenciável em \(a\) e
\[ \left(f\pm g\right)'(a)=f'(a) \pm g'(a). \]

Demonstração

Basta demonstrar o caso da soma; o caso da subtração é análogo. Seja \(h(x)=f(x)+g(x)\) e suponha que \(f\) e \(g\) sejam diferenciáveis em \(x\).

\begin{align*} h’(x) & = \lim _{t\to 0} \dfrac {h(x+t)-h(x)}{t} \\ & = \lim _{t\to 0} \dfrac {[f(x+t)+g(x+t)]-[f(x)+g(x)]}{t} \\ & = \lim _{t\to 0} \dfrac {f(x+t)-f(x)+g(x+t)-g(x)}{t} \\ & = \lim _{t\to 0} \dfrac {f(x+t)-f(x)}{t} + \lim _{t\to 0} \dfrac {g(x+t)-g(x)}{t} \\ & = f’(x)+g’(x). \end{align*}

Exemplo 9.17
Calcule a equação da reta tangente a \(f(x)=x^4+\sqrt{x}\) no ponto \(x=1\).

Solução
Pelas regras da soma e da potência,
\[ f'(x)=4x^3+\frac{1}{2\sqrt{x}},\qquad x\gt 0. \]
Assim, o coeficiente angular da tangente em \(x=1\) é
\[ m=f'(1)=4+\frac12=\frac92. \]
Como a reta passa por \((1,f(1))=(1,2)\), sua equação é
\[ y-2=\frac92(x-1). \]

Teorema 9.18 (Derivada do Produto por uma Constante)
Se \(f\) é uma função diferenciável em \(x\) e \(c\in \mathbb {R}\) então a função \(cf\) é diferenciável em \(x\) e
\[ \left(cf\right)'(x)=cf'(x). \]

Demonstração

Seja \(h=cf\). Pela definição de derivada e pela linearidade do limite,

\begin{align*} h’(x) & =\lim _{t\to 0}\frac{h(x+t)-h(x)}{t}\\ & =\lim _{t\to 0}\frac{c[f(x+t)-f(x)]}{t}\\ & =c\lim _{t\to 0}\frac{f(x+t)-f(x)}{t}\\ & =cf’(x). \end{align*}

Exemplo 9.19
Calcule a derivada de \(f(x)=2x^3-9x^2+12x+4\)

Solução
Aplicando a linearidade da derivada e a regra da potência,
\begin{align*} \frac{d }{d x}\left[2x^3-9x^2+12x+4\right] & = \frac{d }{d x}2x^3-\frac{d }{d x}9x^2+\frac{d }{d x}12x+\frac{d }{d x}4 \\ & =2 \frac{d }{d x}x^3-9\frac{d }{d x}x^2+12\frac{d }{d x}x+\frac{d }{d x}4 \\ & = 6x^2-18x+12. \end{align*}
A derivada está definida para todo \(x\in \mathbb {R}\).

Teorema 9.20 (Derivada do Produto)
Se \(f\) e \(g\) são funções diferenciáveis em \(x\) então a função \(f\cdot g\) é diferenciável em \(x\) e
\[ \left(f\cdot g\right)'(x)=f'(x) g(x) + f(x) g'(x). \]

Demonstração

Seja \(m=fg\). Somamos e subtraímos \(f(x)g(x+h)\) no numerador do quociente incremental:

\begin{align*} m’(x) & = \lim _{h\to 0} \dfrac {m(x+h)-m(x)}{h} \\ & = \lim _{h\to 0} \dfrac {f(x+h)g(x+h)-f(x)g(x)}{h} \\ & = \lim _{h\to 0} \dfrac {f(x+h)g(x+h)-f(x)g(x+h)+f(x)g(x+h)-f(x)g(x)}{h} \\ & = \lim _{h\to 0} \dfrac {[f(x+h)-f(x)] \cdot g(x+h) + f(x) \cdot [g(x+h)-g(x)]}{h} \\ & = \lim _{h\to 0} \dfrac {f(x+h)-f(x)}{h} \cdot \lim _{h\to 0} g(x+h) + \lim _{h\to 0} f(x) \cdot \lim _{h\to 0} \dfrac {g(x+h)-g(x)}{h} \\ & = f’(x)g(x)+f(x)g’(x). \end{align*}

No último passo, usamos também que toda função diferenciável é contínua, de modo que \(\lim _{h\to 0}g(x+h)=g(x)\).

Em todo ponto em que \(f\) e \(g\) são diferenciáveis, portanto,

\[ \left(f\cdot g\right)'(x)=f'(x) g(x) + f(x) g'(x). \]

Exemplo 9.21
Determine os pontos do gráfico de \(f(x)=2x^4-4x^2+4\) nos quais a reta tangente é horizontal.

Solução

A reta tangente é horizontal quando seu coeficiente angular é zero, isto é, quando \(f'(x)=0\). Como

\[ f'(x)=8x^3-8x=8x(x-1)(x+1), \]

isso ocorre em \(x=-1\), \(x=0\) e \(x=1\).

Calculando os valores da função,

\[ f(-1)=2,\qquad f(0)=4,\qquad f(1)=2. \]

Portanto, os pontos procurados são

\[ \boxed {(-1,2),\quad (0,4),\quad (1,2)}. \]

Exemplo 9.22
Calcule a derivada de \(f(x)=x\operatorname {sen}x\).

Solução
Pela regra do produto,
\begin{align*} f’(x) & = 1\cdot \operatorname {sen}x+x\cos x \\ & = \operatorname {sen}x+x\cos x. \end{align*}
A expressão é válida para todo \(x\in \mathbb {R}\).

Exemplo 9.23
Calcule a derivada de \(f(x)=\sqrt[3]{x^2}(x^2+x)\).

Solução
Para \(x\neq 0\), a regra do produto fornece
\begin{align*} f’(x) & =\frac{2}{3}x^{-1/3}(x^2+x)+x^{2/3}(2x+1)\\ & =\frac{x^{2/3}}{3}(8x+5). \end{align*}
Além disso, \(f'(0)=\lim _{h\to 0}(h^{8/3}+h^{5/3})/h=0\). Portanto, a última expressão estende-se a \(x=0\) e vale em todo \(\mathbb {R}\).

Exemplo 9.24
Calcule a derivada de \(g(x)=e^x \sqrt{x}\)

Solução
A função está definida para \(x\geq 0\). Para \(x\gt 0\), a regra do produto fornece
\begin{align*} g’(x) & = e^x\sqrt{x} + \dfrac {e^x}{2 \sqrt{x}}. \end{align*}
Em \(x=0\), a derivada lateral direita não é finita; assim, a fórmula vale em \(\operatorname {Dom}g'=(0,\infty )\).

Teorema 9.25 (Derivada do Quociente)
Se \(f\) e \(g\) são funções diferenciáveis em \(x=a\) com \(g(a) \neq 0\), então a função \(\dfrac {f}{g}\) é diferenciável em \(a\) com
\[ \left(\dfrac {f}{g}\right)'(a) = \dfrac {f’(a) g(a) - f(a) g’(a)}{(g(a))^2} . \]

Demonstração

Considere a função \(m=\frac{f}{g}\). Como \(g(a)\neq 0\) e \(g\) é contínua, existe \(\epsilon \gt 0\) tal que \(\left|{h}\right| \lt \epsilon \Longrightarrow g (a+h) \ne 0\). Ou seja, a função \(m\) está definida numa vizinhança de \(a\). Pela definição de derivada,

\begin{align*} m’(a) & =\lim \limits _{h\to 0}\frac1h\left(\frac{f(a+h)}{g(a+h)}-\frac{f(a)}{g(a)}\right)\\ & =\lim \limits _{h\to 0}\frac{g(a)\bigl(f(a+h)-f(a)\bigr)-f(a)\bigl(g(a+h)-g(a)\bigr)}{h\, g(a+h)g(a)}\\ & =\left(\lim \limits _{h\to 0}\frac1{g(a+h)g(a)}\right)\\ & \qquad {}\times \left[g(a)\lim \limits _{h\to 0}\frac{f(a+h)-f(a)}h-f(a)\lim \limits _{h\to 0}\frac{g(a+h)-g(a)}h\right]. \end{align*}

O primeiro limite é calculado pela continuidade de \(g\) em \(a\):

\[ \lim \limits _{h\to 0} \frac{1}{g(a+h) g (a)}= \frac1{g (a)^2}. \]

Os outros dois limites são, respectivamente, as definições das derivadas de \(f\) e \(g\) em \(a\):

\[ \lim \limits _{h\to 0} \frac{f (a+h) - f (a)}{ h} =f'(a) \quad \text{ e }\quad \lim \limits _{h\to 0}\frac{ g (a+h) - g (a) }{ h} =g'(a). \]

Portanto,

\[ m'(a)=\frac{f'(a)g(a)-f(a)g'(a)}{[g(a)]^2}. \]

Proposição 9.26
Se \(n\) é um inteiro positivo, \(x\neq 0\) e \(f(x)=x^{-n}\), então \(f'(x)=-n\, x^{-n-1}\).

Demonstração

\(f(x)= x^{-n}=\frac{1}{x^n}\) e logo \(f'(x) = \dfrac {-n\, x^{n-1} }{x^{2n}}=-n\, x^{-n-1}\).

Exemplo 9.27
Calcule a derivada de \(f(x) = \dfrac {2x^2 -x + 1}{x+1}\).

Solução
Para \(x\neq -1\), a regra do quociente fornece
\begin{align*} f’(x) & =\frac{(4x-1)(x+1)-(2x^2-x+1)}{(x+1)^2}\\ & =\frac{2(x^2+2x-1)}{(x+1)^2}. \end{align*}
Logo, \(\operatorname {Dom}f'=\mathbb {R}\setminus \{ -1\} \).

Exemplo 9.28
Calcule a derivada de \(\dfrac {4x - 2}{x^2 + 1}.\)

Solução
Como \(x^2+1\) nunca se anula, a regra do quociente é válida em todo \(\mathbb {R}\) e fornece
\begin{align*} \frac{d }{d x}\left[\frac{(4x - 2)}{x^2 + 1}\right] & = \frac{(4)(x^2 + 1) - (4x - 2)(2x)}{(x^2 + 1)^2} \\ & = \frac{-4x^2 + 4x + 4}{(x^2 + 1)^2}. \end{align*}

Exemplo 9.29
Calcule a derivada de \(f(x)=\frac{\sqrt{x}}{x^2+1}\)

Solução
A função está definida para \(x\geq 0\). Para \(x\gt 0\), a regra do quociente fornece
\begin{align*} f’(x) & = \dfrac { \dfrac {1}{2\sqrt{x}}(x^2+1)-2x\sqrt{x}}{(x^2+1)^2} \\ & = \dfrac {1-3x^2}{2\sqrt{x}(x^2+1)^2},\qquad x\gt 0. \end{align*}
Em \(x=0\), a derivada lateral direita não é finita. Portanto, \(\operatorname {Dom}f'=(0,\infty )\).

Exemplo 9.30
Calcule a derivada de \(\operatorname {tg}x\)

Solução
Como \(\operatorname {tg}x=\operatorname {sen}x/\cos x\), a regra do quociente fornece
\begin{align*} \frac{d }{d x} \operatorname {tg}x & = \frac{d }{d x}\left(\dfrac {\operatorname {sen}x}{\cos x}\right)\\ & = \dfrac {(\cos x)(\cos x)-\operatorname {sen}x(-\operatorname {sen}x)}{\cos ^2 x}\\ & = \dfrac {\cos ^2x+\operatorname {sen}^2x}{\cos ^2x}=\sec ^2x, \end{align*}
A fórmula é válida nos pontos em que \(\cos x\neq 0\), isto é, em cada intervalo do domínio da tangente.

Exemplo 9.31
Encontre todos os pontos no gráfico de \(y = x^3 - 3x\) em que a reta tangente é horizontal.

Figura 9.8 Tangentes horizontais ao gráfico de f(x)=x^3-3x. A equação f'(x)=0 fornece as abscissas. Para encontrar os pontos do gráfico, calculamos também f(x).

Figura 9.8 Tangentes horizontais ao gráfico de \(f(x)=x^3-3x\).

A equação \(f'(x)=0\) fornece as abscissas. Para encontrar os pontos do gráfico, calculamos também \(f(x)\).

Solução
A derivada é
\[ y'=3x^2-3. \]
A tangente é horizontal quando \(y'=0\). Portanto,
\[ 3x^2-3=0\quad \Longleftrightarrow \quad x=-1\ \text{ou}\ x=1. \]
Como \(f(-1)=2\) e \(f(1)=-2\), os pontos procurados são \((-1,2)\) e \((1,-2)\).

Exercício 9.5
Encontre as derivadas das seguintes funções:
  1. \(f(x)=3x^4+5x+8\)

  2. \(f(x)=x^7+6x^6+\dfrac {1}{5}x^5+ x^4+3x^3+x^2+\pi \)

  3. \(f(x)= ax^2+bx+c\)

  4. \(f(x)=ax^m+bx^{m+n}\), com \(m,n\in \mathbb {N}^*\)

  5. \(f(x)= \dfrac {\pi }{x^2}+\dfrac {\ln (4)}{x}+\sqrt{5}x+\ln (7)\)

  6. \(f(x)=\dfrac {2}{5x-3}-\dfrac {1}{x}\)

  7. \(f(x)=\dfrac {a}{\sqrt[3]{x^2}}-\dfrac {b}{x\sqrt[3]{x^2}}\)

Ver solução
Aplicando a regra da potência termo a termo e preservando as restrições de domínio, obtemos
  1. \(12x^3+5\).

  2. \(7x^6+36x^5+x^4+4x^3+9x^2+2x\).

  3. \(2ax+b\).

  4. \(amx^{m-1}+b(m+n)x^{m+n-1}\).

  5. \(-\dfrac {2\pi }{x^3}-\dfrac {\ln 4}{x^2}+\sqrt5\), para \(x\neq 0\).

  6. \(-\dfrac {10}{(5x-3)^2}+\dfrac 1{x^2}\), para \(x\neq 0\) e \(x\neq 3/5\).

  7. \(-\dfrac {2a}{3}x^{-5/3}+\dfrac {5b}{3}x^{-8/3}\), para \(x\neq 0\).

Exercício 9.6
Quantas retas tangentes à curva \(y=\dfrac {x}{x+1}\) passam pelo ponto \((1,2)\)? Em quais pontos essas retas tangentes tocam a curva?
Ver solução
A tangente no ponto de abscissa \(u\neq -1\) é
\[ y-\frac{u}{u+1}=\frac1{(u+1)^2}(x-u). \]
Para passar por \((1,2)\), ela deve satisfazer \((u+2)(u+1)=1-u\), isto é, \(u^2+4u+1=0\). Assim, há duas tangentes, nos pontos
\[ \left(-2+\sqrt3,\frac{1-\sqrt3}{2}\right) \quad \text{e}\quad \left(-2-\sqrt3,\frac{1+\sqrt3}{2}\right). \]
Suas inclinações são \(1/(-1+\sqrt3)^2\) e \(1/(-1-\sqrt3)^2\), respectivamente, e são distintas.
Exercício 9.7
Encontre as derivadas das seguintes funções:
  1. \(f(x)=5\operatorname {sen}(x)+6\cos (x)\)

  2. \(f(x)=\operatorname {tg}(x)-\operatorname {cotg}(x)\)

  3. \(f(x)=\dfrac {\operatorname {sen}(x)+\cos (x)}{\operatorname {sen}(x)-\cos (x)}\)

  4. \(f(x)=x\operatorname {cotg}(x)\)

  5. \(f(x)= (x-2)\operatorname {sen}(x)+ x^2\operatorname {tg}(x)+ \operatorname {sen}(x)\cos (x)\)

Ver solução
Usando as derivadas trigonométricas e, quando necessário, as regras do produto e do quociente, obtemos
  1. \(5\cos x-6\operatorname {sen}x\).

  2. \(\sec ^2x+\operatorname {cossec}^2x\), para \(\operatorname {sen}x\cos x\neq 0\).

  3. \(-\dfrac {2}{(\operatorname {sen}x-\cos x)^2}\), para \(\operatorname {sen}x\neq \cos x\).

  4. \(\operatorname {cotg}x-x\operatorname {cossec}^2x\), para \(\operatorname {sen}x\neq 0\).

  5. \(\operatorname {sen}x+(x-2)\cos x+2x\operatorname {tg}x+x^2\sec ^2x+\cos ^2x-\operatorname {sen}^2x\), para \(\cos x\neq 0\).

Exercício 9.8
Encontre as derivadas das seguintes funções:
  1. \(f(x)=x^7e^x\)

  2. \(f(x)=\dfrac {e^x}{x^2}\)

  3. \(f(x)=e^x\cos (x)\)

  4. \(f(x)=\dfrac {x^n}{\ln (x)}\), com \(n\in \mathbb {N}^*\)

  5. \(f(x)=x^3\ln (x)-\dfrac {x^3}{3}\)

Ver solução
Combinando as regras do produto e do quociente com \((e^x)'=e^x\) e \((\ln x)'=1/x\), obtemos
  1. \(e^x(x^7+7x^6)\).

  2. \(\dfrac {e^x}{x^2}-\dfrac {2e^x}{x^3}\), para \(x\neq 0\).

  3. \(e^x(\cos x-\operatorname {sen}x)\).

  4. \(\dfrac {x^{n-1}(n\ln x-1)}{(\ln x)^2}\), para \(x\gt 0\) e \(x\neq 1\).

  5. \(3x^2\ln x\), para \(x\gt 0\).

Exercício 9.9
Em que ponto a tangente à parábola \(y=x^2-7x+3\) é paralela à reta \(5x+y-3=0.\)
Ver solução
A reta \(5x+y-3=0\) tem coeficiente angular \(-5\). Como
\[ f'(x)=2x-7, \]
a tangente à parábola é paralela a essa reta quando \(2x-7=-5\), isto é, quando \(x=1\). Como \(f(1)=-3\), o ponto procurado é \((1,-3)\).
Exercício 9.10
Determine as equações das retas tangente e normal à curva \(y=x^3+2x^2-4x-3\) no ponto \((1,-4)\).
Ver solução
Para \(f(x)=x^3+2x^2-4x-3\),
\[ f'(x)=3x^2+4x-4, \]
e, portanto, \(f'(1)=3\). A reta tangente no ponto \((1,-4)\) é
\[ y+4=3(x-1). \]
Como a normal é perpendicular à tangente, seu coeficiente angular é \(-1/3\):
\[ y+4=-\frac13(x-1). \]
Exercício 9.11
Determine as equações das retas tangente e normal à curva \(y=x^3+2x^2-4x-3\) no ponto \((-2,5)\).
Ver solução
A derivada é \(f'(x)=3x^2+4x-4\), de modo que \(f'(-2)=0\). Assim, a tangente em \((-2,5)\) é horizontal,
\[ y=5, \]
e a reta normal é vertical,
\[ x=-2. \]
Exercício 9.12
Dado \(f(x)=\dfrac {1}{3}x^3-2x^2+3x+1\). Encontre os pontos do gráfico de \(f\) nos quais a tangente é horizontal.
Ver solução
Temos
\[ f'(x)=x^2-4x+3=(x-1)(x-3). \]
A tangente é horizontal quando \(f'(x)=0\), portanto em \(x=1\) e \(x=3\). Como \(f(1)=7/3\) e \(f(3)=1\), os pontos são
\[ (1,7/3)\qquad \text{e}\qquad (3,1). \]
Exercício 9.13
Dado o polinômio \(p(x)=ax^3+bx^2+cx+d\), usando a notação \(p''=(p')'\), determine \(a,b,c,d\) se \(p(0)=p(1)=-2\), \(p'(0)=-1\) e \(p''(0)=10\).
Ver solução
De \(p(0)=-2\) obtemos \(d=-2\), e de \(p'(0)=-1\) segue \(c=-1\). Como
\[ p''(x)=6ax+2b, \]
a condição \(p''(0)=10\) fornece \(b=5\). Por fim, \(p(1)=-2\) implica
\[ a+b+c+d=-2, \]
de onde \(a=-4\). Portanto,
\[ a=-4,\qquad b=5,\qquad c=-1,\qquad d=-2. \]

Exercício 9.14

Seja \(f\) a função definida como:

\[ f(x)= \left\{ \begin{array}{c} x^2\text{ se }x\leq c \\ ax+b\text{ se }x\gt c \end{array}\right. \]

Determine os valores de \(a,b\) em termos de \(c\) de modo que \(f'(c)\) exista.

Ver solução
A continuidade exige \(ac+b=c^2\) e a igualdade das derivadas laterais exige \(a=2c\). Logo, \(a=2c\) e \(b=-c^2\).
Exercício 9.15

Seja \(f\) a função definida como:

\[ f(x)= \left\{ \begin{array}{c} \operatorname {sen}(x)\text{ se }x\leq c \\ ax+b\text{ se }x\gt c \end{array}\right. \]

Determine os valores de \(a,b\) em termos de \(c\) de modo que \(f'(c)\) exista.

Ver solução
A continuidade exige \(ac+b=\operatorname {sen}c\) e a igualdade das derivadas laterais exige \(a=\cos c\). Logo, \(a=\cos c\) e \(b=\operatorname {sen}c-c\cos c\).
Exercício 9.16

Dado \(c\gt 0\), seja \(f\) a função definida como:

\[ f(x)= \left\{ \begin{array}{c} \dfrac {1}{\left\lvert x\right\rvert }\text{ se } \left\lvert x\right\rvert \geq c \\ a+bx^2\text{ se }\left\lvert x\right\rvert \lt c \end{array}\right. \]

Determine os valores de \(a,b\) em termos de \(c\) de modo que \(f'(c)\) exista.

Ver solução
Como \(c\gt 0\), a continuidade exige \(a+bc^2=1/c\). A derivada pela esquerda é \(2bc\) e pela direita é \(-1/c^2\). Portanto, \(b=-1/(2c^3)\) e \(a=3/(2c)\).

9.5 A regra da cadeia

Quando \(h=f\circ g\), uma variação da variável independente produz dois efeitos sucessivos: primeiro modifica o valor de \(g\) e, em seguida, modifica o valor de \(f\). A Regra da Cadeia descreve como essas duas variações locais se combinam.

Teorema 9.32 (Regra da Cadeia)
Se \(g\) é diferenciável em \(t_0\) e \(f\) é diferenciável em \(g(t_0)\), então \(h=f\circ g\) é diferenciável em \(t_0\) e

\begin{equation} h'(t_0)=f'(g(t_0))g'(t_0). \label{eq:cadeia} \tag{9.1} \end{equation}

Demonstração

Defina

\[ \Phi (u)= \begin{cases} \dfrac {f(u)-f(g(t_0))}{u-g(t_0)},& u\neq g(t_0),\\[2mm] f’(g(t_0)),& u=g(t_0). \end{cases} \]

Pela definição de derivada, \(\Phi (u)\to f'(g(t_0))\) quando \(u\to g(t_0)\); portanto, \(\Phi \) é contínua em \(g(t_0)\). Como a diferenciabilidade de \(g\) implica sua continuidade em \(t_0\), temos \(g(t)\to g(t_0)\). Além disso, para todo \(t\) próximo de \(t_0\),

\[ f(g(t))-f(g(t_0))=\Phi (g(t))\bigl(g(t)-g(t_0)\bigr), \]

inclusive quando \(g(t)=g(t_0)\). Assim,

\begin{align*} h’(t_0) & =\lim _{t\to t_0}\Phi (g(t))\frac{g(t)-g(t_0)}{t-t_0}\\ & =f’(g(t_0))g’(t_0). \end{align*}

Notação 9.33

Se \(x=g(t)\) e \(y=f(x)\), então \(y=f(g(t))\) e, nas condições do Teorema 9.32,

\begin{equation} \label{eq:cadeia2} \frac{d y}{d t}=\frac{d y}{d x}\, \frac{d x}{d t}. \tag{9.2} \end{equation}

Embora essa notação sugira um cancelamento de diferenciais, a igualdade é uma forma compacta de registrar a Regra da Cadeia, e não uma simples manipulação de frações.

Exemplo 9.34
Calcule a derivada de \( h(t)=\operatorname {sen}(t^2).\)

Solução
Decompomos \(h\) tomando \(g(t)=t^2\) e \(f(x)=\operatorname {sen}x\). Então \(h=f\circ g\), \(g'(t)=2t\) e \(f'(x)=\cos x\). Pela regra da cadeia,
\[ h'(t)=f'(g(t))g'(t)=2t\cos (t^2). \]

Nos exemplos seguintes, a decomposição em função externa e função interna torna visíveis os fatores produzidos pela regra da cadeia.

Exemplo 9.35
Calcule a derivada de \( h(t)=\ln (5t+3).\)

Solução
O domínio de \(h\) é \(t\gt -3/5\). Fazendo \(g(t)=5t+3\) e \(f(x)=\ln x\), temos \(h=f\circ g\), \(g'(t)=5\) e \(f'(x)=1/x\). Pela regra da cadeia,
\[ h'(t)=f'(g(t))g'(t)=\dfrac {5}{5t+3},\qquad t\gt -\frac35. \]

Exemplo 9.36
Calcule a derivada de \(h(x) = \cos \left(\sqrt{x}\right)\).

Solução
Tomamos \(g(x)=\sqrt{x}\) e \(f(u)=\cos u\), de modo que \(h=f\circ g\). Como \(g'(x)=1/(2\sqrt{x})\) e \(f'(u)=-\operatorname {sen}u\), a regra da cadeia fornece
\[ h'(x)=-\frac{\operatorname {sen}(\sqrt{x})}{2\sqrt{x}},\qquad x\gt 0. \]

Exemplo 9.37
Calcule a derivada de \(g(x)=e^{\sqrt{7x+1}}\).
Solução
Para que a função seja real, é necessário \(x\geq -1/7\). Nos pontos interiores desse domínio, a regra da cadeia fornece
\[ g'(x)=e^{\sqrt{7x+1}}\frac{7}{2\sqrt{7x+1}},\qquad x\gt -\frac17. \]
Em \(x=-1/7\), a derivada finita não existe; portanto, \(\operatorname {Dom}g'=(-1/7,\infty )\).
Com a regra da cadeia, podemos estender a derivação das potências inteiras \(x^n\) às potências reais \(x^c\), definidas por \(x^c=e^{c\ln x}\) para \(x\gt 0\).
Teorema 9.38 (Regra da Potência)
Se \(c\) é um número real, então, para \(x\gt 0\),
\[ (x^c)'=cx^{c-1}. \]

Demonstração

Para \(x\gt 0\), temos \(x^c=e^{c\ln x}\). Pela regra da cadeia,

\[ \frac{d }{d x}x^c =e^{c\ln x}\frac{c}{x} =x^c\frac{c}{x} =cx^{c-1}. \]

Observação 9.39
Se \(c=p/q\) está em forma irredutível e \(q\) é ímpar, a potência real \(x^c\) também está definida para \(x\lt 0\), e a fórmula \((x^c)'=cx^{c-1}\) vale nesses pontos negativos não nulos. Para um expoente real arbitrário, a construção \(x^c=e^{c\ln x}\) usada acima exige \(x\gt 0\). Assim, a regra deve sempre ser lida junto com o domínio da potência considerada.

Exemplo 9.40
Calcule a derivada de \(f(x)=\sqrt[3]{x^5}+\sqrt[5]{x^3}\).

Solução
Como os denominadores \(3\) e \(5\) são ímpares, podemos escrever
\[ f(x)=x^{5/3}+x^{3/5} \]
para todo \(x\in \mathbb {R}\). Pela Regra da Potência e pela observação anterior, para \(x\neq 0\),
\[ f'(x)=\frac53x^{2/3}+\frac35x^{-2/5} =\frac{5\sqrt[3]{x^2}}{3}+\frac{3}{5\sqrt[5]{x^2}}. \]
Em \(x=0\), o quociente incremental do termo \(x^{3/5}\) contém \(h^{3/5}/h=h^{-2/5}\), que não possui limite finito. Portanto, \(\operatorname {Dom}f'=\mathbb {R}\setminus \{ 0\} \).

Exemplo 9.41
Calcule a derivada de \((3x-7)^\pi \).

Solução
Pelas regras da cadeia e da potência,
\begin{align*} \frac{d }{d x}(3x-7)^\pi & =\pi (3x-7)^{\pi -1}\frac{d }{d x}(3x-7) \\ & = 3\pi (3x-7)^{\pi -1}. \end{align*}
A função real e sua derivada estão definidas para \(x\gt 7/3\).

Exercício 9.17
Para \(a\in \mathbb {R}\) e \(x\gt 0\), derive
\[ f(x)=x^{a/2}+x^{(a+4)/2}+ax^{a-1}. \]
Ver solução
Pela regra da potência para expoentes reais,
\[ f'(x)=\frac a2x^{a/2-1} +\frac{a+4}{2}x^{(a+2)/2} +a(a-1)x^{a-2},\qquad x\gt 0. \]

Exercício 9.18

Calcule as derivadas das seguintes funções:

Nível 1 — composições diretas.

  1. \(f(x)=(2x+10)^{12}\)

  2. \(f(t) = (3t-2)^{5}\)

  3. \(g(\theta ) = (\operatorname {sen}\theta +\cos \theta )^3\)

  4. \(h(t) = e^{3t^2+t-1}\)

  5. \(f(x) = \big(x+\frac{1}{x}\big)^4\)

  6. \(f(x) = \cos (3x)\)

  7. \(g(x) = \operatorname {tg}(5x)\)

    Nível 2 — composições aninhadas, logaritmos e exponenciais.

  8. \(h(t) = \operatorname {sen}^4(2t)\)

  9. \(p(t) = \cos ^3(t^2+3t+1)\)

  10. \(f(x) = \ln (\cos x)\)

  11. \(f(x) = \ln (x^2)\)

  12. \(f(x) = 2\ln (x)\)

  13. \(g(r) = e^{4r}\)

  14. \(g(t) = e^{\cos t}\)

  15. \(g(t) = 15^2\)

  16. \(\displaystyle m(w) = \frac{e^w}{e^{2w}}\)

    Nível 3 — regra da cadeia combinada com produto e quociente.

  17. \(\displaystyle m(w) = \frac{e^w+1}{e^{2w}}\)

  18. \(\displaystyle f(x) = \frac{e^{x^2}+x}{e^{2x^2}}\)

  19. \(f(x) = x^2\operatorname {sen}(5x)\)

  20. \(g(t) = \cos (t^2+3t)\operatorname {sen}(5t-7)\)

  21. \(g(t) = \cos (\frac1t)e^{5t^2}\)

Ver solução
Aplicamos a regra da cadeia em todos os itens e combinamos, nos últimos, as regras do produto e do quociente. As respostas estão organizadas nos mesmos três níveis do enunciado.
  1. Nível 1 — composições diretas.

  2. \(f'(x)=24(2x+10)^{11}\).

  3. \(f'(t)=15(3t-2)^4\).

  4. \(g'(\theta )=3(\operatorname {sen}\theta +\cos \theta )^2(\cos \theta -\operatorname {sen}\theta )\).

  5. \(h'(t)=(6t+1)e^{3t^2+t-1}\).

  6. \(f'(x)=4\bigl(x+1/x\bigr)^3\bigl(1-1/x^2\bigr)\), para \(x\neq 0\).

  7. \(f'(x)=-3\operatorname {sen}(3x)\).

  8. \(g'(x)=5\sec ^2(5x)\), para \(\cos (5x)\neq 0\).

  9. Nível 2 — composições aninhadas, logaritmos e exponenciais.

  10. \(h'(t)=8\operatorname {sen}^3(2t)\cos (2t)\).

  11. \(p'(t)=-3(2t+3)\cos ^2(t^2+3t+1)\operatorname {sen}(t^2+3t+1)\).

  12. \(f'(x)=-\operatorname {tg}x\), nos intervalos em que \(\cos x\gt 0\).

  13. \(f'(x)=2/x\), para \(x\neq 0\).

  14. \(f'(x)=2/x\), para \(x\gt 0\).

  15. \(g'(r)=4e^{4r}\).

  16. \(g'(t)=-e^{\cos t}\operatorname {sen}t\).

  17. \(g'(t)=0\).

  18. \(m'(w)=-e^{-w}\).

  19. Nível 3 — cadeia combinada com produto e quociente.

  20. \(m'(w)=-\dfrac {e^w+2}{e^{2w}}\).

  21. \(f'(x)=\dfrac {e^{2x^2}\bigl(2xe^{x^2}+1\bigr) -(e^{x^2}+x)\, 4x e^{2x^2}}{e^{4x^2}}\).

  22. \(f'(x)=2x\operatorname {sen}(5x)+5x^2\cos (5x)\).

  23. \(g'(t)=5\cos (t^2+3t)\cos (5t-7)-(2t+3)\operatorname {sen}(t^2+3t)\operatorname {sen}(5t-7)\).

  24. \(g'(t)=e^{5t^2}\left(10t\cos \frac1t+\frac{1}{t^2}\operatorname {sen}\frac1t\right)\), para \(t\neq 0\).

Exercício 9.19
Encontre as retas tangentes e normais nos pontos dados.
  1. \(f(x) = (4x^3-x)^{10}\) em \(x=0\)

  2. \(f(t) = (3t-2)^5\) em \(t=1\)

  3. \(g(\theta ) = (\operatorname {sen}\theta +\cos \theta )^3\) em \(\theta = \pi /2\)

  4. \(h(t) = e^{3t^2+t-1}\) em \(t=-1\)

Ver solução
Em cada item, calculamos primeiro a inclinação da tangente no ponto indicado. Quando essa inclinação é não nula, a normal tem coeficiente angular igual ao recíproco negativo.
  1. Tangente: \(y=0\). Normal: \(x=0\).

  2. Tangente: \(y-1=15(t-1)\). Normal: \(y-1=-\dfrac 1{15}(t-1)\).

  3. Tangente: \(y-1=-3(\theta -\pi /2)\). Normal: \(y-1=\dfrac 13(\theta -\pi /2)\).

  4. Tangente: \(y-e=-5e(t+1)\). Normal: \(y-e=\dfrac {1}{5e}(t+1)\).

Exercício 9.20
Para \(k\gt 0\) e \(x\gt 0\), calcule \( \frac{d}{dx}\big(\ln (kx)\big) \) de duas formas diferentes:
  1. usando a regra da cadeia; e

  2. primeiro usando a regra do logaritmo \(\ln (ab) = \ln a + \ln b\), e então calculando a derivada.

Ver solução
Se \(f(x)=\ln (kx)\), com \(k\gt 0\) e \(x\gt 0\), então, pela regra da cadeia,
\[ f'(x)=\frac{1}{kx}\, k=\frac1x. \]
Por outro lado, \(\ln (kx)=\ln k+\ln x\), de modo que
\[ f'(x)=0+\frac1x=\frac1x. \]
As duas formas, portanto, fornecem a mesma derivada.
Exercício 9.21
Para \(x\gt 0\) e \(k\in \mathbb {R}\), calcule \( \frac{d}{dx}\big(\ln (x^k)\big) \) de duas formas diferentes:
  1. usando a regra da cadeia; e

  2. primeiro usando a regra do logaritmo \(\ln (a^p) = p\ln a\), e então calculando a derivada.

Ver solução
Para \(x\gt 0\), aplicando a regra da cadeia a \(\ln (x^k)\),
\[ \frac{d}{dx}\ln (x^k)=\frac{kx^{k-1}}{x^k}=\frac{k}{x}. \]
A identidade \(\ln (x^k)=k\ln x\) fornece diretamente
\[ \frac{d}{dx}\bigl(k\ln x\bigr)=\frac{k}{x}, \]
confirmando o mesmo resultado.

Exercício 9.22

Mostre que a função

\[ f(x)= \begin{cases} x^{\frac{1}{3}}\operatorname {sen}\frac{1}{x} & \text{ se} x\neq 0 \\ 0 & \text{ se} x= 0 \end{cases} \]

é contínua em \(0\), mas não diferenciável nesse ponto.

Ver solução
Como \(|x^{1/3}\operatorname {sen}(1/x)|\leq |x|^{1/3}\to 0=f(0)\), a função é contínua em \(0\). Entretanto,
\[ \frac{f(h)-f(0)}h=h^{-2/3}\operatorname {sen}(1/h). \]
Tomando \(h_n=1/(\pi /2+2n\pi )\gt 0\), temos \(h_n\to 0\) e o quociente vale \(h_n^{-2/3}\to +\infty \). Tomando \(k_n=1/(3\pi /2+2n\pi )\gt 0\), temos \(k_n\to 0\) e o quociente vale \(-k_n^{-2/3}\to -\infty \). Logo, não há limite e \(f'(0)\) não existe.

9.6 Derivada da função inversa

Se \(I\) é um intervalo e \(f:I\to \mathbb {R}\) é contínua e injetiva, então \(f\) admite uma inversa \(f^{-1}:f(I)\to I\), também contínua. A reflexão dos gráficos em relação à reta \(y=x\) sugere como suas derivadas se relacionam: as inclinações correspondentes devem ser recíprocas, desde que não sejam nulas. O teorema a seguir formaliza essa observação.

Figura 9.9 A reflexão em y=x leva (1,2) a (2,1) e troca a inclinação 2 por 1/2. Aqui, f(x)=1+x^2, para x≥ 0.
Figura 9.9 A reflexão em \(y=x\) leva \((1,2)\) a \((2,1)\) e troca a inclinação \(2\) por \(1/2\). Aqui, \(f(x)=1+x^2\), para \(x\geq 0\).

Usaremos aqui o teorema de continuidade da inversa já demonstrado no capítulo de limites (Teorema 7.35).

Teorema 9.42 (Derivada da Função Inversa)
Seja \(f:I\to \mathbb {R}\) uma função injetiva e contínua, com \(I\) um intervalo. Se \(a\) é interior a \(I\), \(f\) é diferenciável em \(a\), \(f'(a)\neq 0\) e \(b=f(a)\), então \(f^{-1}\) é diferenciável em \(b\), e
\[ (f^{-1})'(b) = \dfrac {1}{f’(f^{-1}(b))}. \]

Demonstração

Escreva \(a=f^{-1}(b)\). Para \(x\neq b\), ponha \(y=f^{-1}(x)\). Pela injetividade de \(f\), temos \(y\neq a\); pela continuidade de \(f^{-1}\), garantida pelo Teorema 7.35, temos \(y\to a\) quando \(x\to b\). Portanto,

\begin{align*} (f^{-1})’(b) & =\lim \limits _{x\to b}\dfrac {f^{-1}(x)-f^{-1}(b)}{x-b} \\ & =\lim \limits _{y \rightarrow a}\dfrac {y-a}{f(y)-f(a)} \\ & =\lim \limits _{y \rightarrow a}\dfrac {1}{\dfrac {f(y)-f(a)}{y-a}} \\ & =\dfrac {1}{f’(a)}=\dfrac {1}{f’(f^{-1}(b))}. \end{align*}

Observação 9.43
Na notação de Leibniz, escrevendo \(y=f^{-1}(x)\) e, portanto, \(x=f(y)\), a fórmula assume a forma sugestiva
\[ \frac{d y}{d x}=\dfrac {1}{\frac{d x}{d y}}. \]
Essa escrita deve ser entendida como uma maneira de recordar o teorema, e não como uma divisão puramente algébrica de símbolos.

Exemplo 9.44
Para \(n\geq 2\), mostre, usando o teorema da derivada da função inversa, que
\[ g(x)=x^{1/n}\quad \Longrightarrow \quad g'(x)=\frac1n x^{1/n-1}. \]
Determine também o domínio em que essa derivada existe.

Solução
Observamos inicialmente que \(g(x)=x^{1/n}\) é a função inversa de \(f(x)=x^n\) quando restringimos \(f\) a \([0,\infty )\) se \(n\) é par; se \(n\) é ímpar, consideramos \(f:\mathbb {R}\to \mathbb {R}\). Em ambos os casos, o teorema da derivada da função inversa exige \(f'(g(x))\neq 0\); portanto,
\[ g'(x) = (f^{-1})'(x)= \frac{1}{f'(f^{-1}(x))} = \frac{1}{nx^\frac {n-1}{n}} = \frac{1}{n}\, x^{\frac{1}{n} -1}. \]
Se \(n\) é par, \(g\) está definida em \([0,\infty )\) e \(\operatorname {Dom}g'=(0,\infty )\). Se \(n\) é ímpar, \(g\) está definida em \(\mathbb {R}\) e \(\operatorname {Dom}g'=\mathbb {R}\setminus \{ 0\} \).

Exercício 9.23
Use diretamente o Teorema da Derivada da Função Inversa.
  1. Seja \(f(x)=x^3+x\). Sabendo que \(f(1)=2\), calcule \((f^{-1})'(2)\).

  2. Seja \(g(x)=x+\ln x\), para \(x\gt 0\). Sabendo que \(g(1)=1\), calcule \((g^{-1})'(1)\).

Ver solução
  1. Como \(f'(1)=4\), temos \((f^{-1})'(2)=1/4\).

  2. Como \(g'(1)=1+1=2\), temos \((g^{-1})'(1)=1/2\).

Exercício 9.24
Usando a definição por limite, calcule a derivada de \(f(x)=x^2-4x\) em \(x=3\). Escreva também a equação da reta tangente nesse ponto.
Ver solução
\[ f'(3)=\lim _{h\to 0}\frac{(3+h)^2-4(3+h)-(-3)}h =\lim _{h\to 0}(2+h)=2. \]
Como \(f(3)=-3\), a tangente é \(y+3=2(x-3)\), ou \(y=2x-9\).

Exercício 9.25
A posição de um carrinho é \(s(t)=t^3-6t^2+9t\), em metros. Determine velocidade e aceleração para \(t\geq 0\), os instantes em que o carrinho está em repouso e o sentido do movimento em cada intervalo relevante.
Ver solução
\(v(t)=3t^2-12t+9=3(t-1)(t-3)\) e \(a(t)=6t-12\). O carrinho está em repouso em \(t=1\) e \(t=3\); move-se no sentido positivo em \([0,1)\) e \((3,\infty )\) e no sentido negativo em \((1,3)\).
Exercício 9.26
Derive e simplifique
\[ y=\frac{(x^2+1)\sqrt{x}}{x-2},\qquad x\gt 0,\ x\ne 2. \]
Identifique onde cada regra de derivação é usada.
Ver solução
Usando as regras do produto, da potência e do quociente,
\[ y'=\frac{3x^3-10x^2-x-2}{2\sqrt{x}(x-2)^2}. \]
Exercício 9.27
A área de um círculo cresce segundo \(A(t)=\pi r(t)^2\). Se \(r(t)=2+0{,}15t\) cm, com \(t\) medido em segundos, determine \(A'(t)\) e interprete seu valor em \(t=10\).
Ver solução
\(A'(t)=2\pi r(t)r'(t)=0{,}3\pi (2+0{,}15t)\, \mathrm{cm^2/s}\). Em \(t=10\) s, a área cresce à taxa de \(1{,}05\pi \approx 3{,}30\, \mathrm{cm^2/s}\).

Exercício 9.28
Mostre, pela definição, que \(f(x)=|x|\) não é derivável em \(0\). Relacione sua conclusão com a geometria do gráfico.
Ver solução
O quociente \(|h|/h\) tende a \(1\) quando \(h\to 0^+\) e a \(-1\) quando \(h\to 0^-\). Como os limites laterais diferem, \(f'(0)\) não existe. No gráfico, isso corresponde ao vértice anguloso na origem.
Exercício 9.29
Determine os pontos em que \(y=\sqrt{1+\cos (4x^2)}\) é derivável, obtenha sua derivada nesses pontos e avalie-a em \(x=0\).
Ver solução
A função não é derivável nos zeros do radicando,
\[ x=\pm \frac12\sqrt{(2k+1)\pi },\qquad k=0,1,2,\ldots , \]
onde o gráfico tem pontos angulosos. Nos demais pontos,
\[ y'=-\frac{4x\operatorname {sen}(4x^2)}{\sqrt{1+\cos (4x^2)}}. \]
Em particular, \(y'(0)=0\).
Exercício 9.30
Para \(f(x)=x^3+x\), use a fórmula da derivada da inversa para calcular \((f^{-1})'(2)\) sem obter uma fórmula explícita para \(f^{-1}\).
Ver solução
Como \(f(1)=2\) e \(f'(1)=4\), temos \((f^{-1})'(2)=1/f'(1)=1/4\).
Exercício 9.31
O gráfico representa a distância percorrida por uma ciclista em função do tempo. A reta tracejada é secante ao gráfico em dois instantes próximos de \(t=6\) min.
Ilustração: Derivada da função inversa
Explique como usar a inclinação dessa secante para estimar a velocidade instantânea em \(t=6\) min e indique as unidades do resultado.
Ver solução
A inclinação da secante indicada é aproximadamente
\[ \frac{6{,}05-5{,}45}{6{,}5-5{,}5}=0{,}60\, \mathrm{km/min}. \]
Como os dois instantes cercam \(6\) min, esse valor estima \(s'(6)\); ele equivale a aproximadamente \(36\, \mathrm{km/h}\).