Capítulo 2

Funções e gráficos

É preciso medir tudo o que é mensurável e tentar tornar mensurável o que não o é diretamente.
Thomas-Henri Martin, Galilée, les droits de la science et la méthode des sciences physiques

2.1 Pares ordenados e o plano cartesiano

O plano cartesiano traduz relações numéricas em relações geométricas. Nele, uma equação pode descrever uma curva, uma desigualdade pode selecionar uma região e, mais adiante, uma função será representada por um conjunto de pontos. Para usar essa linguagem com precisão, começamos pelos pares ordenados.

Pares ordenados e produto cartesiano

Um par ordenado \((a,b)\) registra dois elementos numa ordem determinada: \(a\) é a primeira componente e \(b\) é a segunda. Em geral, \((a,b)\ne (b,a)\). Mais precisamente,

\[ (a,b)=(c,d)\Longleftrightarrow a=c\ \text{ e }\ b=d. \]

Dados dois conjuntos \(A\) e \(B\), seu produto cartesiano é o conjunto de todos os pares cuja primeira componente pertence a \(A\) e cuja segunda pertence a \(B\):

\[ A\times B=\{ (a,b):a\in A\text{ e }b\in B\} . \]

Exemplo 2.1
Se \(A=\{ 1,2\} \) e \(B=\{ u,v\} \), determine \(A\times B\).
Solução
Cada elemento de \(A\) deve ser combinado com cada elemento de \(B\):
\[ A\times B=\{ (1,u),(1,v),(2,u),(2,v)\} . \]
Observe que \((1,u)\) pertence a \(A\times B\), mas \((u,1)\) não pertence. A ordem das componentes faz parte da informação.

Coordenadas

O produto \(\mathbb {R}\times \mathbb {R}\), também escrito \(\mathbb {R}^2\), pode ser representado geometricamente pelo plano cartesiano. No ponto \(P=(x,y)\), o número \(x\) é a abscissa e determina a posição horizontal; o número \(y\) é a ordenada e determina a posição vertical. O ponto \((0,0)\) é a origem.

Figura 2.1 A primeira coordenada determina a posição horizontal; a segunda, a vertical.

Figura 2.1 A primeira coordenada determina a posição horizontal; a segunda, a vertical.

Os eixos dividem o plano em quatro quadrantes. Pontos sobre os eixos não pertencem a nenhum quadrante.

Quadrantesinal de $x$sinal de $y$
Ipositivopositivo
IInegativopositivo
IIInegativonegativo
IVpositivonegativo

Distância entre dois pontos

Se \(P=(x_1,y_1)\) e \(Q=(x_2,y_2)\), as diferenças horizontal e vertical são \(x_2-x_1\) e \(y_2-y_1\). Pelo teorema de Pitágoras, a distância entre os pontos é

\[ d(P,Q)=\sqrt{(x_2-x_1)^2+(y_2-y_1)^2}. \]

Os módulos \(|x_2-x_1|\) e \(|y_2-y_1|\) são os comprimentos dos catetos de um triângulo retângulo; a fórmula não precisa, portanto, ser memorizada como uma regra isolada.

Figura 2.2 A distância entre dois pontos decorre do teorema de Pitágoras.

Figura 2.2 A distância entre dois pontos decorre do teorema de Pitágoras.

Exemplo 2.2
Calcule a distância entre \(P=(-1,2)\) e \(Q=(3,-1)\).
Solução
As variações das coordenadas são \(3-(-1)=4\) e \(-1-2=-3\). Logo,
\[ d(P,Q)=\sqrt{4^2+(-3)^2}=\sqrt{25}=5. \]
Os sinais das variações podem mudar se invertermos a ordem dos pontos, mas os quadrados garantem a mesma distância.

Como ler regiões do plano?

Uma condição envolvendo \(x\) e \(y\) seleciona os pontos cujas coordenadas a satisfazem. A igualdade costuma descrever uma fronteira; uma desigualdade indica um dos lados ou uma região interior ou exterior.

Condiçãoregião correspondente
$x>1$à direita da reta vertical $x=1$
$y\leq2$abaixo da reta horizontal $y=2$, incluindo a reta
$y>x$acima da reta $y=x$
$x^2+y^2<4$interior do círculo de centro $(0,0)$ e raio $2$

Quando há mais de uma condição, procuramos sua interseção. Por exemplo,

\[ R=\{ (x,y)\in \mathbb {R}^2:x\geq 0\text{ e }-1\lt y\leq 2\} \]

é a parte do plano situada à direita do eixo \(y\), incluindo esse eixo, entre as retas horizontais \(y=-1\) e \(y=2\). A reta \(y=-1\) não pertence à região; as retas \(x=0\) e \(y=2\) pertencem. A mesma região pode ser escrita de forma compacta como

\[ R=[0,+\infty )\times (-1,2]. \]

Figura 2.3 Na representação de R, linhas contínuas indicam fronteiras incluídas; a linha tracejada indica uma fronteira excluída.

Figura 2.3 Na representação de \(R\), linhas contínuas indicam fronteiras incluídas; a linha tracejada indica uma fronteira excluída.

Exercício 2.1
Considere \(A=\{ 0,1\} \) e \(B=\{ -1,2\} \).
  1. Liste os elementos de \(A\times B\).

  2. Liste os elementos de \(B\times A\).

  3. Os dois produtos são iguais?

Ver solução
  1. \(A\times B=\{ (0,-1),(0,2),(1,-1),(1,2)\} \).

  2. \(B\times A=\{ (-1,0),(-1,1),(2,0),(2,1)\} \).

  3. Não. A ordem dos conjuntos determina a ordem das componentes.

Exercício 2.2
Considere \(P=(-2,1)\) e \(Q=(1,-3)\).
  1. Em que quadrante está cada ponto?

  2. Calcule \(d(P,Q)\).

Ver solução
  1. \(P\) está no segundo quadrante e \(Q\), no quarto.

  2. \(d(P,Q)=\sqrt{(1+2)^2+(-3-1)^2}=\sqrt{9+16}=5\).

Exercício 2.3
Descreva, em palavras, a região \(\{ (x,y)\in \mathbb {R}^2:x\lt 0\text{ e }y\geq 1\} \).
Ver solução
É a parte do plano à esquerda do eixo \(y\) e acima da reta \(y=1\). O eixo \(y\) não pertence à região; a reta \(y=1\) pertence.

2.2 O conceito de função

Os números reais permitem descrever grandezas; as funções descrevem como uma grandeza depende de outra. O volume de um gás, por exemplo, pode variar com a temperatura e a pressão, enquanto a posição de um corpo pode variar com o tempo. Essa linguagem de dependências faz das funções um dos conceitos centrais da Matemática e a base sobre a qual construiremos o Cálculo.

Definição 2.1
Sejam \(A\) e \(B\) conjuntos. Uma função \(f\) de \(A\) em \(B\) é uma regra que associa a cada elemento de \(A\) um único elemento de \(B\). Escrevemos
\[ f:A\longrightarrow B. \]
O conjunto \(A\) é o domínio de \(f\), denotado por \(\operatorname {Dom}f\), e \(B\) é seu contradomínio. Se \(x\in A\), o elemento associado a \(x\) é denotado por \(f(x)\) e chamado de imagem de \(x\).

Uma função possui, portanto, três ingredientes: domínio, contradomínio e regra de associação. Alterar qualquer um deles pode alterar a função. Neste livro estudaremos principalmente funções reais de uma variável real, isto é, funções cujos domínios e contradomínios são subconjuntos de \(\mathbb {R}\).

Adotaremos as convenções

\[ \mathbb {R}_+=[0,+\infty ),\qquad \mathbb {R}_+^*=(0,+\infty ),\qquad \mathbb {R}_-=(-\infty ,0],\qquad \mathbb {R}^*=\mathbb {R}\setminus \{ 0\} . \]

Também escreveremos \(\left[\! \left[x\right]\! \right]\) para a parte inteira, ou função piso, de \(x\), isto é, o maior inteiro menor ou igual a \(x\):

\[ \left[\! \left[x\right]\! \right]=\max \{ n\in \mathbb {Z}:n\leq x\} . \]

Definição 2.2 (Igualdade de funções)
Duas funções são iguais quando possuem o mesmo domínio, o mesmo contradomínio e atribuem a cada elemento do domínio a mesma imagem.

Embora fórmulas sejam uma maneira particularmente útil de descrever funções, elas não são a única. Uma função também pode ser especificada por uma tabela, por um gráfico, por uma definição em casos ou por um procedimento que determine univocamente cada valor.

Exemplo 2.3 (Domínio, contradomínio e imagem)
Considere as funções seguintes.
  1. \(f:\mathbb {R}\to \mathbb {R}\), dada por \(f(x)=x^2\);

  2. \(g:\mathbb {R}\to \mathbb {R}_+\), dada por \(g(x)=x^2\);

  3. \(h:\mathbb {R}\to \mathbb {R}\), dada por

    \[ h(x)= \begin{cases} 1,& x\in \mathbb {Q},\\ -1,& x\in \mathbb {R}\setminus \mathbb {Q}; \end{cases} \]
  4. \(u(x)=\dfrac {x^3+5x+6}{x^2-1}\), sem domínio indicado explicitamente.

Compare \(f\) e \(g\) como funções, determine a imagem de \(h\) e encontre o domínio natural de \(u\).

Solução

As funções \(f\) e \(g\) possuem a mesma expressão e o mesmo domínio, mas contradomínios diferentes; por isso, não são iguais. Em ambos os casos, os valores efetivamente assumidos formam o conjunto \(\mathbb {R}_+\).

A função \(h\), conhecida como função de Dirichlet, possui imagem \(\{ -1,1\} \). Sua regra está bem definida, embora decidir o valor de \(h\) em um número apresentado de maneira complicada possa exigir saber se esse número é racional ou irracional.

No último item, a expressão somente representa um número real quando \(x^2-1\neq 0\). Pela convenção usual, o domínio de \(u\) é, portanto, \(\mathbb {R}\setminus \{ -1,1\} \).

A convenção do domínio
Quando uma função é apresentada por uma fórmula e o domínio não é indicado, adotamos como domínio o maior conjunto de números reais para os quais a expressão possui sentido. Esse conjunto é chamado de domínio natural da função.

Uma função não precisa ser descrita por uma fórmula algébrica. A função de Euler

\[ \phi :\{ n\in \mathbb {N}:n\gt 1\} \longrightarrow \mathbb {N} \]

associa a \(n\) a quantidade de inteiros positivos menores que \(n\) e coprimos com ele. Por exemplo, \(\phi (2)=1\) e \(\phi (3)=\phi (4)=\phi (6)=2\). A regra é um procedimento aritmético inequívoco, e isso basta para definir uma função.

Além da imagem de um ponto, interessa-nos acompanhar conjuntos inteiros. Se \(f:A\to B\) e \(X\subset A\), definimos a imagem de \(X\) por \(f\) por

\[ f(X)=\{ f(x):x\in X\} . \]

Em particular, o conjunto imagem de \(f\) é

\[ \operatorname {Im}f=f(A)=\{ f(x):x\in A\} . \]

Observe que \(\operatorname {Im}f\subset B\), mas a igualdade não é automática.

O caminho inverso parte de um conjunto do contradomínio. Se \(Y\subset B\), a pré-imagem de \(Y\) é

\[ f^{-1}(Y)=\{ x\in A:f(x)\in Y\} . \]

Para um único valor \(y\in B\), escrevemos

\[ f^{-1}(\{ y\} )=\{ x\in A:f(x)=y\} . \]

Figura 2.4 Imagem de X e pré-imagem de Y por f.

Figura 2.4 Imagem de \(X\) e pré-imagem de \(Y\) por \(f\).

Exemplo 2.4
Para \(f:\mathbb {R}\to \mathbb {R}\), \(f(x)=x^2\), temos
\[ f([-2,1])=[0,4],\qquad f^{-1}(\{ 1\} )=\{ -1,1\} ,\qquad f^{-1}([0,4])=[-2,2]. \]
Já \(f^{-1}(\{ -2\} )=\varnothing \), pois um quadrado real não pode ser negativo.

O símbolo \(f^{-1}\) também será usado para funções inversas. O contexto distingue os dois significados: em \(f^{-1}(Y)\), o argumento é um conjunto e estamos tomando uma pré-imagem; em \(f^{-1}(y)\), quando a função inversa existir, o argumento será um elemento.

Exercício 2.4
Determine o domínio natural de cada expressão.
  1. \(\dfrac {x+1}{x^2-4}\).

  2. \(\sqrt{3-x}\).

  3. \(\dfrac {1}{\sqrt{x-2}}\).

  4. \(\dfrac {\sqrt{x}}{x-1}\).

Ver solução
  1. \(\mathbb {R}\setminus \{ -2,2\} \).

  2. \((-\infty ,3]\).

  3. \((2,+\infty )\): como a raiz está no denominador, é necessário \(x-2\gt 0\).

  4. \([0,1)\cup (1,+\infty )\).

Exercício 2.5
Considere as funções
\[ f:\mathbb {R}\to \mathbb {R},\quad g:[0,+\infty )\to \mathbb {R},\quad h:\mathbb {R}\to \mathbb {R},\quad k:\mathbb {R}\to [0,+\infty ), \]
todas dadas pela regra \(x\mapsto x^2\). As funções \(f\) e \(g\) são iguais? E \(h\) e \(k\)? Justifique pela definição de igualdade de funções.
Ver solução
Não em ambos os casos. As funções \(f\) e \(g\) têm domínios diferentes, enquanto \(h\) e \(k\) têm contradomínios diferentes. Igualdade de funções exige que domínio, contradomínio e regra coincidam. Nos quatro casos, a imagem é \([0,+\infty )\), o que mostra também que ter a mesma imagem não basta.

Exercício 2.6
Para \(f:\mathbb {R}\to \mathbb {R}\), \(f(x)=x^2-4\), determine \(f([-1,3])\), \(f^{-1}(\{ 0\} )\), \(f^{-1}([-4,0])\) e \(f^{-1}((-\infty ,-5))\).
Ver solução
\[ f([-1,3])=[-4,5],\qquad f^{-1}(\{ 0\} )=\{ -2,2\} , \]
\[ f^{-1}([-4,0])=[-2,2],\qquad f^{-1}((-\infty ,-5))=\varnothing . \]
No último caso, usamos que \(f(x)\geq -4\) para todo \(x\in \mathbb {R}\).

2.3 Gráficos de funções

O gráfico reúne, numa única representação, os valores de entrada e as imagens produzidas por uma função. Ele registra geometricamente a dependência entre esses valores.

Definição 2.3
Se \(f:A\to B\), com \(A,B\subset \mathbb {R}\), o gráfico de \(f\) é
\[ \operatorname {Graf}(f)=\{ (x,f(x)):x\in A\} =\{ (x,y)\in A\times B:y=f(x)\} . \]

Para cada \(x\in A\), há exatamente um ponto do gráfico com abscissa \(x\). Essa observação fornece o teste da reta vertical: um subconjunto do plano representa o gráfico de uma função de \(x\) quando nenhuma reta vertical o encontra em mais de um ponto. Se uma reta vertical encontra a figura duas vezes, a mesma entrada teria duas imagens.

Uma formulação em pares ordenados

Uma relação entre \(A\) e \(B\) é qualquer subconjunto de \(A\times B\). Ela é uma função de \(A\) em \(B\) exatamente quando, para todo \(x\in A\), existe um único \(y\in B\) tal que \((x,y)\) pertence à relação. Assim,

\[ R=\{ (1,u),(2,u),(2,v)\} \subset \{ 1,2,3\} \times \{ u,v\} \]

não define uma função de \(\{ 1,2,3\} \) em \(\{ u,v\} \): o elemento \(2\) aparece com duas segundas componentes, e o elemento \(3\) não aparece com nenhuma. Essa formulação é equivalente à definição anterior de função; ela apenas explicita a regra como um conjunto de pares.

O que se lê em um gráfico

O ponto \((a,f(a))\) permite ler o valor \(f(a)\). As interseções com o eixo horizontal correspondem aos zeros da função; os trechos acima e abaixo desse eixo indicam, respectivamente, onde \(f(x)\gt 0\) e onde \(f(x)\lt 0\). A projeção do gráfico sobre o eixo horizontal fornece o domínio, e a projeção sobre o eixo vertical fornece a imagem. Essas leituras dependem sempre dos pontos que efetivamente pertencem ao gráfico, inclusive nas extremidades de intervalos.

Exemplos 2.5
  1. \(f:[-1,2] \to \mathbb {R}\), \(f(x)=x^{2}\)

    Ilustração: O que se lê em um gráfico

    Figura 2.5 Gráfico de \(f(x)=x^2\) com domínio restrito a \([-1,2]\).

  2. \(g:\mathbb {Z}\to \mathbb {N}\), \(g(n)=|n|\)

    Ilustração: O que se lê em um gráfico

    Figura 2.6 Gráfico discreto de \(g(n)=|n|\).

  3. \(h:\mathbb {R}\to \mathbb {R}\), dada por

    \[ h(x)= \begin{cases} -x,& x\leq -1,\\ 1,& -1\lt x\leq 1,\\ 2-x,& x\gt 1. \end{cases} \]

    Ilustração: O que se lê em um gráfico

    Figura 2.7 Gráfico da função \(h\) definida por partes.

Comparar dois gráficos no mesmo plano também permite localizar soluções de equações e desigualdades. Uma interseção de abscissa \(a\) representa \(f(a)=g(a)\). Para uma mesma abscissa \(b\), se o ponto do gráfico de \(g\) está acima do ponto do gráfico de \(f\), então \(g(b)\gt f(b)\).

Figura 2.8 Comparação gráfica entre as funções f e g.

Figura 2.8 Comparação gráfica entre as funções \(f\) e \(g\).

Exercício 2.7
Uma estação registra, a cada hora, a temperatura \(T\) e a umidade relativa \(U\). Explique por que “\(U\) como função de \(T\)” pode falhar, ainda que ambas sejam funções do tempo. Construa uma tabela com quatro horários que ilustre sua resposta.
Ver solução
Para que \(U\) fosse função de \(T\), uma mesma temperatura teria de determinar sempre a mesma umidade. Um contraexemplo possível é
\[ \begin{array}{c|cccc} \text{horário}& 8\text{ h}& 9\text{ h}& 10\text{ h}& 11\text{ h}\\ \hline T\ ({}^\circ \mathrm C)& 20& 22& 22& 24\\ U\ (\% )& 80& 72& 65& 58 \end{array} \]
À temperatura de \(22\, {}^\circ \mathrm C\) correspondem duas umidades, embora \(T\) e \(U\) sejam, separadamente, funções do horário.
Exercício 2.8
Considere as duas semicircunferências do círculo \(x^2+y^2=16\). Escreva a semicircunferência superior como função de \(x\) e explique por que a união das duas semicircunferências não é o gráfico de uma função de \(x\).
Ver solução
A semicircunferência superior é \(y=\sqrt{16-x^2}\), com \(-4\leq x\leq 4\). Na união, para cada \(-4\lt x\lt 4\) há dois valores de \(y\), \(\pm \sqrt{16-x^2}\); por isso ela não passa no teste da reta vertical.
Exercício 2.9
Uma boia oscila suavemente durante dois minutos, é recolhida para um barco em poucos segundos e permanece no convés. Esboce sua altura em relação à superfície da água como função do tempo e descreva as hipóteses usadas no desenho.
Ver solução
Um esboço admissível é uma curva oscilatória contínua em \(0\leq t\leq 120\) s, seguida por uma subida rápida durante o recolhimento e por um trecho constante positivo quando a boia chega ao convés. O desenho pressupõe altura medida em relação à superfície média da água e transições contínuas; outros esboços são possíveis se essas hipóteses forem alteradas.
Exercício 2.10
A função \(D(n)\) fornece o número de arquivos em uma pasta depois de \(n\) operações, onde \(n\in \mathbb N\). Explique por que um gráfico de pontos é mais apropriado que uma curva contínua e dê um exemplo em que \(D\) diminua.
Ver solução
Como \(n\) conta operações, apenas valores inteiros não negativos têm sentido; ligar os pontos atribuiria valores a “frações de operação”. Por exemplo, se \(D(5)=12\) e a sexta operação exclui três arquivos, então \(D(6)=9\).

2.4 Operações e composição

A maior parte das funções elementares pode ser construída a partir de famílias simples por meio de soma, produto, quociente e composição. Ao realizar essas operações, porém, é preciso acompanhar os domínios.

Sejam \(f:D_f\to \mathbb {R}\) e \(g:D_g\to \mathbb {R}\). A soma e o produto são definidos no domínio comum \(D_f\cap D_g\) por

\[ (f+g)(x)=f(x)+g(x), \qquad (fg)(x)=f(x)g(x). \]

O quociente possui a restrição adicional de que o denominador não se anule:

\[ \left(\frac fg\right)(x)=\frac{f(x)}{g(x)}, \qquad \operatorname {Dom}\left(\frac fg\right) =\{ x\in D_f\cap D_g:g(x)\neq 0\} . \]

Se \(\alpha \in \mathbb {R}\), definimos ainda \((\alpha f)(x)=\alpha f(x)\) em \(D_f\). Esse produto pode ser visto como o produto de \(f\) pela função constante de valor \(\alpha \).

As propriedades algébricas dos números passam ponto a ponto para as funções, sempre que os dois membros estejam definidos no mesmo domínio.

Proposição 2.6
Para funções \(f,g,h\) com domínio comum, valem:
\begin{align*} (f+g)+h& =f+(g+h), & (fg)h& =f(gh),\\ f+g& =g+f, & fg& =gf,\\ (f+g)h& =fh+gh.& & \end{align*}
Exemplo 2.7 (Construindo funções polinomiais)
Toda função polinomial pode ser obtida a partir da função identidade \(\imath(x)=x\) e das funções constantes. Produtos sucessivos de \(\)
\(\) produzem as potências \(\)x^n\(\); a multiplicação por constantes produz os monômios \(c_nx^n\); somando-os, obtemos qualquer polinômio.
Exemplo

A composição encadeia duas dependências. Se \(g:A\to B\) e \(f:B\to C\), definimos

\[ (f\circ g)(x)=f(g(x)). \]

A ordem importa: primeiro aplicamos \(g\) e depois \(f\).

Figura 2.9 Na composição, primeiro atua g e depois atua f.

Figura 2.9 Na composição, primeiro atua \(g\) e depois atua \(f\).

Quando as funções são dadas em domínios naturais, a condição precisa é

\[ \operatorname {Dom}(f\circ g)=\{ x\in \operatorname {Dom}g:g(x)\in \operatorname {Dom}f\} . \]

Exemplo 2.8
Se \(f(x)=2x+3\) e \(g(x)=x-1\), então
\[ (f\circ g)(x)=2(x-1)+3=2x+1. \]
Em \(x=2\), calculamos primeiro \(g(2)=1\) e depois \(f(1)=5\). Na outra ordem,
\[ (g\circ f)(x)=(2x+3)-1=2x+2, \]
de modo que \((g\circ f)(2)=6\). As duas composições estão definidas em \(\mathbb {R}\), mas não são a mesma função.

Trocar a ordem pode alterar tanto a expressão quanto o domínio, como mostram os exemplos seguintes.

Exemplos 2.9
  1. Se \(f(x)=\sqrt{x}\) e \(g(x)=x^{2}\), então \(\operatorname {Dom}f = \mathbb {R}_{+}\), \(\operatorname {Dom}g=\mathbb {R}\) e:

    • \(\operatorname {Dom}(f \circ g)=\mathbb {R}\) e \((f \circ g)(x)=|x|\)

    • \(\operatorname {Dom}(g \circ f)=\mathbb {R}_{+}\) e \((g \circ f)(x)=x\)

  2. Se \(f(x)=1/x\) e \(g(x)=\sqrt{1-x}\), então \(\operatorname {Dom}f = \mathbb {R}^{*}\), \(\operatorname {Dom}g=(-\infty , 1]\) e:

    • \(\operatorname {Dom}(f \circ g)=(-\infty ,1)\) e \((f \circ g)(x)=\frac{1}{\sqrt{1-x}}\)

    • \(\operatorname {Dom}(g \circ f)=(-\infty ,0) \cup [1,+\infty )\) e \((g \circ f)(x)=\sqrt{\frac{x-1}{x}}\)

Exemplo 2.10 (O domínio acompanha a ordem da composição)
Sejam \(f(u)=\sqrt u\) e \(g(x)=(x-2)/(x+1)\). Determine \(f\circ g\) e \(g\circ f\), com seus domínios.
Solução

Na primeira ordem,

\[ (f\circ g)(x)=\sqrt{\frac{x-2}{x+1}}. \]

São necessárias duas condições: \(x\neq -1\), para que \(g(x)\) exista, e \(g(x)\geq 0\), para que seja possível aplicar a raiz quadrada. O numerador muda de sinal em \(2\) e o denominador em \(-1\). O quociente é positivo para \(x\lt -1\) e para \(x\gt 2\), negativo entre \(-1\) e \(2\), e nulo em \(2\). Consequentemente,

\[ \operatorname {Dom}(f\circ g)=(-\infty ,-1)\cup [2,\infty ). \]

O ponto \(2\) é incluído porque a raiz de zero existe; \(-1\) continua excluído porque anula o denominador.

Na ordem contrária,

\[ (g\circ f)(x)=\frac{\sqrt x-2}{\sqrt x+1}. \]

Primeiro precisamos de \(x\geq 0\). A condição seguinte seria \(\sqrt x\neq -1\), mas ela é automaticamente satisfeita: uma raiz quadrada real é não negativa. Portanto,

\[ \operatorname {Dom}(g\circ f)=[0,\infty ). \]

Por exemplo, \(x=-2\) é permitido na primeira composição e não na segunda; já \(x=0\) é permitido na segunda e não na primeira.

Exercício 2.11
Para \(f(x)=x^2\) e \(g(x)=x+1\), calcule \(f\circ g\) e \(g\circ f\), incluindo seus domínios. Compare os valores das duas composições em \(x=1\).
Ver solução
\((f\circ g)(x)=(x+1)^2\) e \((g\circ f)(x)=x^2+1\), ambas com domínio \(\mathbb {R}\). Em \(x=1\), os valores são \(4\) e \(2\).

Exercício 2.12
Sejam \(f(x)=\sqrt{x+1}\) e \(g(x)=3-x\). Determine as duas composições e seus domínios, indicando qual condição vem da raiz.
Ver solução
\((f\circ g)(x)=\sqrt{4-x}\), com \(x\leq 4\); \((g\circ f)(x)=3-\sqrt{x+1}\), com \(x\geq -1\).

Exercício 2.13
O gráfico de \(f\) passa por \((1,4)\) e \((3,-2)\), e \(g(x)=2x+1\).
  1. Determine dois pontos do gráfico de \(f\circ g\).

  2. Calcule \(g(f(1))\) e \(g(f(3))\).

  3. Use \(x=1\) para mostrar que as composições são diferentes, sem supor uma fórmula para \(f\).

Ver solução
Como \(g(0)=1\) e \(g(1)=3\), os pontos pedidos são \((0,4)\) e \((1,-2)\). Também \(g(f(1))=9\) e \(g(f(3))=-3\). Em particular, \((f\circ g)(1)=-2\neq 9=(g\circ f)(1)\).

Exercício 2.14
Para \(f(x)=\sqrt{4-x^2}\) e \(g(x)=1/(x-1)\), determine \(f\circ g\) e \(g\circ f\), com seus domínios.
Ver solução
\[ (f\circ g)(x)=\sqrt{4-\frac1{(x-1)^2}},\qquad \operatorname {Dom}(f\circ g)=(-\infty ,1/2]\cup [3/2,\infty ), \]
pois \(|x-1|\geq 1/2\). Na outra ordem,
\[ (g\circ f)(x)=\frac1{\sqrt{4-x^2}-1},\qquad \operatorname {Dom}(g\circ f)=[-2,2]\setminus \{ -\sqrt3,\sqrt3\} . \]
A raiz exige \(|x|\leq 2\) e o denominador exclui as soluções de \(\sqrt{4-x^2}=1\).

Exercício 2.15
Aprofundamento. Considere
\[ H(x)=\frac1{\sqrt{4-(2x-1)^2}}. \]
  1. Escreva \(H\) como composição de \(u(x)=2x-1\), \(v(t)=4-t^2\) e uma terceira função \(w\).

  2. Determine seu domínio, acompanhando as três etapas.

  3. Determine sua imagem.

Ver solução
Temos \(w(s)=1/\sqrt s\), com \(s\gt 0\), e \(H=w\circ v\circ u\). A condição \(4-(2x-1)^2\gt 0\) equivale a \(-1/2\lt x\lt 3/2\). Nesse intervalo, \(4-(2x-1)^2\) assume todos os valores de \((0,4]\); logo, \(\operatorname {Im}H=[1/2,\infty )\). O mínimo \(1/2\) é atingido em \(x=1/2\).

Exercício 2.16
Se \(f(x)=\sqrt{x+4}\) e \(g(x)=1/(x-1)\), determine os domínios de \(f+g\), \(fg\), \(f\circ g\) e \(g\circ f\). Em cada caso, mostre como surgem as restrições.
Ver solução
\[ \operatorname {Dom}(f+g)=\operatorname {Dom}(fg)=[-4,\infty )\setminus \{ 1\} . \]
Para \(f\circ g\), exigimos \(x\neq 1\) e \(1/(x-1)+4\geq 0\), logo
\[ \operatorname {Dom}(f\circ g)=(-\infty ,3/4]\cup (1,\infty ). \]
Para \(g\circ f\), exigimos \(x\geq -4\) e \(\sqrt{x+4}\neq 1\); portanto, \(\operatorname {Dom}(g\circ f)=[-4,\infty )\setminus \{ -3\} \).

Exercício 2.17
A função \(c(g)=1000g\) converte gramas em miligramas. O preço, em reais, de uma preparação é \(p(u)=0{,}018u+7\), com \(u\) em miligramas. Interprete \(p\circ c\) e determine seu domínio físico se a embalagem comporta, no máximo, \(2\) kg.
Ver solução
\((p\circ c)(g)=18g+7\) é o preço, em reais, de uma preparação com \(g\) gramas. O domínio físico é \(0\leq g\leq 2000\).

Exercício 2.18
Sejam \(f\) e \(g\) funções reais. Em que subconjuntos de \(\operatorname {Dom}f\cap \operatorname {Dom}g\) podemos definir uma função real por
\[ (f^g)(x)=f(x)^{g(x)}? \]
Explique por que os domínios de \(f\) e \(g\), sozinhos, não determinam a resposta.
Ver solução
Para expoentes reais arbitrários, uma escolha sempre válida é
\[ D=\{ x\in \operatorname {Dom}f\cap \operatorname {Dom}g:f(x)\gt 0\} . \]
Também podemos incluir pontos em que \(f(x)=0\) e \(g(x)\gt 0\). Bases negativas exigem restrições sobre os valores de \(g(x)\): a potência real existe, por exemplo, quando \(g(x)\) é inteiro ou é racional com denominador ímpar na forma irredutível. Portanto, as restrições dependem dos valores das funções, não apenas de seus domínios.

Exercício 2.19
Para cada função abaixo, encontre \(f(x+2)\), \(f(-x)\), \(f(x+h)\) e
\[ \frac{f(x+h)-f(x)}{h},\qquad h\neq 0. \]
  1. \(f(x)=x\)

  2. \(f(x)=3x+4\)

  3. \(f(x)=x^2\)

  4. \(f(x)=5x^2+1\)

  5. \(f(x)=x^2-x\)

  6. \(f(x)=x^3+x^2\)

Ver solução
  1. \(f(x+2)=x+2\), \(f(-x)=-x\), \(f(x+h)=x+h\); o quociente incremental é \(1\).

  2. \(f(x+2)=3x+10\), \(f(-x)=4-3x\), \(f(x+h)=3x+3h+4\); o quociente incremental é \(3\).

  3. \(f(x+2)=x^2+4x+4\), \(f(-x)=x^2\), \(f(x+h)=(x+h)^2\); o quociente incremental é \(2x+h\).

  4. \(f(x+2)=5x^2+20x+21\), \(f(-x)=5x^2+1\), \(f(x+h)=5(x+h)^2+1\); o quociente incremental é \(10x+5h\).

  5. \(f(x+2)=x^2+3x+2\), \(f(-x)=x^2+x\), \(f(x+h)=(x+h)^2-(x+h)\); o quociente incremental é \(2x+h-1\).

  6. \(f(x+2)=x^3+7x^2+16x+12\), \(f(-x)=-x^3+x^2\), \(f(x+h)=(x+h)^3+(x+h)^2\); o quociente incremental é \(3x^2+3xh+h^2+2x+h\).

2.5 Propriedades qualitativas

Uma fórmula informa como calcular valores; as propriedades qualitativas descrevem o comportamento global da função. Entre as mais importantes estão a monotonicidade e a maneira como domínio, imagem e contradomínio se correspondem.

2.5.1 Crescimento e decrescimento

Para funções reais, podemos investigar como as imagens se comportam quando a variável aumenta. Essa relação entre as ordens no domínio e na imagem é descrita pelas noções de crescimento e decrescimento:

Definição 2.4
Dada uma função \(f\) e dado um subconjunto \(A \subset \operatorname {Dom}f\), dizemos que:
  • \(f\) é crescente em \(A\) se, para todo \(a,b \in A\) com \(a\lt b\), resulta \(f(a)\lt f(b)\).

  • \(f\) é não decrescente em \(A\) se, para todo \(a,b \in A\) com \(a\lt b\), resulta \(f(a)\leq f(b)\).

  • \(f\) é decrescente em \(A\) se, para todo \(a,b \in A\) com \(a\lt b\), resulta \(f(a)\gt f(b)\).

  • \(f\) é não crescente em \(A\) se, para todo \(a,b \in A\) com \(a\lt b\), resulta \(f(a)\geq f(b)\).

Em qualquer um dos casos acima, dizemos que a função é monótona 1 . Em particular, quando a função é crescente ou decrescente, dizemos que é estritamente monótona.
Exemplos 2.11
  1. A função identidade é crescente em \(\mathbb {R}\).

  2. A função \(x^2\) é decrescente em \(\mathbb {R}_{-}\) e crescente em \(\mathbb {R}_{+}\).

  3. A função \(\left[\! \left[x\right]\! \right]\) é não decrescente em \(\mathbb {R}\). A mesma função é crescente em \(\mathbb {Z}\).

2.5.2 Injetividade e sobrejetividade

Dada uma função \(f:A\to B\), podemos fazer duas perguntas distintas. Valores diferentes do domínio podem produzir a mesma imagem? Todo elemento do contradomínio é atingido? As noções de injetividade e sobrejetividade respondem, respectivamente, a essas perguntas.

Definição 2.5
Uma função \(f:A\to B\) é injetora quando elementos distintos do domínio possuem imagens distintas. Equivalentemente, para quaisquer \(u,v\in A\),
\[ f(u)=f(v)\quad \Longrightarrow \quad u=v. \]

Definição 2.6
Uma função \(f:A\to B\) é sobrejetora quando \(\operatorname {Im}f=B\), isto é, quando todo elemento de \(B\) é imagem de pelo menos um elemento de \(A\).

Exemplo 2.12
Uma mesma expressão pode determinar funções com propriedades diferentes. Para \(x\mapsto x^2\), temos:
FunçãoInjetora?Sobrejetora?
$\bbR\to\bbR$nãonão
$\bbR\to[0,+\infty)$nãosim
$[0,+\infty)\to\bbR$simnão
$[0,+\infty)\to[0,+\infty)$simsim
De fato, em \(\mathbb {R}\) temos \(1^2=(-1)^2\), o que impede a injetividade. Por outro lado, todo \(y\geq 0\) pode ser escrito como \(y=(\sqrt y)^2\). Ao restringirmos o domínio a \([0,+\infty )\), eliminamos a duplicidade entre \(x\) e \(-x\); ao escolhermos \([0,+\infty )\) como contradomínio, nenhum valor fica sem ser atingido.

No gráfico, a injetividade pode ser reconhecida pelo teste da reta horizontal: uma função é injetora quando nenhuma reta horizontal encontra seu gráfico em mais de um ponto. O teste apenas traduz geometricamente o fato de que uma mesma imagem não pode provir de duas entradas distintas.

Figura 2.10 Uma reta horizontal pode encontrar x^2 duas vezes, mas encontra x^3 no máximo uma vez.

Figura 2.10 Uma reta horizontal pode encontrar \(x^2\) duas vezes, mas encontra \(x^3\) no máximo uma vez.

Definição 2.7
Uma função \(f:A \to B\) é bijetora se é, simultaneamente, injetora e sobrejetora.

Quando uma função é bijetora, cada elemento do contradomínio corresponde a exatamente um elemento do domínio. Podemos então inverter a associação.

Exercício 2.20
Determine os intervalos nos quais
\[ f(x)=\frac{x}{x+1} \]
é crescente ou decrescente. É possível dizer que \(f\) é monótona em todo o seu domínio?
Ver solução
Se \(x\lt y\) pertencem ao mesmo intervalo \((-\infty ,-1)\) ou \((-1,\infty )\), então
\[ f(y)-f(x)=\frac{y-x}{(x+1)(y+1)}\gt 0. \]
Logo, \(f\) é estritamente crescente em cada um desses intervalos. Ela não é monótona em todo o domínio: por exemplo, \(-2\lt 0\), mas \(f(-2)=2\gt 0=f(0)\).

Exercício 2.21
Mostre que toda função estritamente monótona é injetora.
Ver solução
Dados pontos distintos \(x\) e \(y\) do domínio, podemos supor \(x\lt y\). A monotonicidade estrita fornece \(f(x)\lt f(y)\) ou \(f(x)\gt f(y)\), conforme a função seja crescente ou decrescente. Em ambos os casos, \(f(x)\neq f(y)\); portanto, \(f\) é injetora.

Exercício 2.22
Dados os conjuntos \(A=\{ a,e,i,o,u\} \) e \(B=\{ 1,2,3,4,5\} \), diga quais das relações abaixo definem uma função \(f:A \to B\).
  1. \(R=\{ (e,1), (o,2)\} \)

  2. \(R=\{ (a,1), (e,1), (i,1), (o,2), (u,2)\} \)

  3. \(R=\{ (a,1), (e,2), (i,3), (o,4), (u,5)\} \)

  4. \(R=\{ (a,1), (e,1), (e,2), (i,1), (u,2), (u,5)\} \)

  5. \(R=\{ (a,3), (e,3), (i,3), (o,3), (u,3)\} \)

  6. \(R=\{ (a,1), (e,3), (i,3), (o,2), (u,2)\} \)

  7. \(R=\{ (a,2), (e,1), (i,4), (o,5), (u,3)\} \)

Ver solução
  1. Não: faltam imagens para \(a\), \(i\) e \(u\).

  2. Sim: cada elemento de \(A\) aparece exatamente uma vez como primeira coordenada.

  3. Sim, pelo mesmo motivo.

  4. Não: \(e\) e \(u\) têm duas imagens, e \(o\) não tem imagem.

  5. Sim: todos os elementos de \(A\) têm imagem \(3\).

  6. Sim: cada elemento de \(A\) tem uma única imagem.

  7. Sim: cada elemento de \(A\) tem uma única imagem.

Exercício 2.23
Para cada função que aparece no exercício acima, diga se é injetora, sobrejetora e/ou bijetora.
Ver solução
Nos itens 2, 5 e 6 do exercício anterior, as funções não são injetoras nem sobrejetoras: suas imagens são, respectivamente, \(\{ 1,2\} \), \(\{ 3\} \) e \(\{ 1,2,3\} \), e há valores repetidos. Nos itens 3 e 7, as funções são bijetoras, pois cada elemento de \(B\) aparece exatamente uma vez como imagem. Os itens 1 e 4 não definem funções de \(A\) em \(B\).
Exercício 2.24
Determine o conjunto imagem da função \(f:\mathbb {N}\to \mathbb {Z}\) dada por
\[ f(n)=(-1)^n n. \]
Ver solução
Se \(n=2k\), então \(f(n)=2k\); se \(n=2k+1\), então \(f(n)=-(2k+1)\). Portanto,
\[ \operatorname {Im}f=\{ 0,2,4,6,\ldots \} \cup \{ -1,-3,-5,\ldots \} . \]
Exercício 2.25
Considerando a função \(f\) do exercício anterior, determine o conjunto imagem da função \(g:\mathbb {N}\to \mathbb {Z}\) dada por \(g(n)=f(n)+f(n+1)\).
Ver solução
Temos \(g(n)=(-1)^nn+(-1)^{n+1}(n+1)=(-1)^{n+1}\). Assim, \(g(n)=-1\) se \(n\) é par e \(g(n)=1\) se \(n\) é ímpar, logo \(\operatorname {Im}g=\{ -1,1\} \).
Exercício 2.26
Aprofundamento. Seja \(A\) um conjunto (não vazio) com \(n\) elementos e seja \(B\) um conjunto qualquer. Mostre cada uma das seguintes afirmações:
  1. Se existe uma função injetora \(f:A \to B\), então \(B\) possui pelo menos \(n\) elementos.

  2. Se existe uma função sobrejetora \(f:A \to B\), então \(B\) possui no máximo \(n\) elementos.

  3. Conclua, das afirmações acima, a seguinte propriedade: dois conjuntos finitos 2 possuem o mesmo número de elementos se, e somente se, existe uma função bijetora entre tais conjuntos.

Ver solução
  1. Se \(f\) é injetora, os \(n\) elementos distintos de \(A\) têm \(n\) imagens distintas em \(B\). Logo, \(B\) tem pelo menos \(n\) elementos.

  2. Se \(f\) é sobrejetora, \(B=f(A)\). Uma lista de \(n\) imagens contém no máximo \(n\) valores distintos, logo \(B\) tem no máximo \(n\) elementos.

  3. Uma bijeção implica as duas desigualdades, portanto as cardinalidades são iguais. Reciprocamente, se \(A=\{ a_1,\ldots ,a_n\} \) e \(B=\{ b_1,\ldots ,b_n\} \), a regra \(f(a_i)=b_i\) define uma bijeção. Para os dois conjuntos vazios, a função vazia é bijetora.

Exercício 2.27
Para cada função, determine se é injetora, sobrejetora ou bijetora. Justifique sua resposta. Os quatro últimos itens são de aprofundamento.
  1. Se \(A=\{ 1,2,3,4,5,6,7\} \) e \(f:A\to A\) é dada por

    \[ f(x)= \begin{cases} x,& \text{se $x$ é ímpar},\\ x/2,& \text{se $x$ é par}. \end{cases} \]
  2. Se \(A=\{ 1,2,3,4,5,6,7\} \) e \(g :A \rightarrow A\) dada por:

    \[ g(x)=\begin{cases} x+1,& x\neq 7,\\ 1,& x=7. \end{cases} \]
  3. \(f : \mathbb {N}\rightarrow \mathbb {N}\), \(f(n)=3n+1\).

  4. \(f : \mathbb {Z}\rightarrow \mathbb {Z}\), \(f(n)=n - \lvert n\rvert \).

  5. \(f : \mathbb {R}\rightarrow \mathbb {R}\), \(f(x)=ax+b\) com \(a\neq 0\).

  6. \(f : \mathbb {R}\rightarrow \mathbb {R}\), \(f(x)=2x^{2}\) .

  7. \(f : (0,\infty ) \rightarrow \mathbb {R}\), \(f(x)=\dfrac {1}{x}\).

  8. \(f : \mathbb {R}^{*} \rightarrow \mathbb {R}\), \(f(x)=\dfrac {1}{x^2}\).

  9. \(f : [0,\infty ) \rightarrow \mathbb {R}\), \(f(x)=\sqrt{x}\).

  10. \(f : \mathbb {R}\rightarrow \mathbb {R}\times \mathbb {R}\), \(f(x)= (x,x)\).

  11. \(f : \mathbb {R}\rightarrow \mathbb {R}\times \mathbb {R}\), \(f(x)= (x,\lvert x\rvert )\).

  12. \(f : \mathbb {R}\times \mathbb {R}\rightarrow \mathbb {R}\), \(f(x,y)= x-\lvert y\rvert \).

  13. \(f : \mathbb {R}\times \mathbb {R}\rightarrow \mathbb {R}\times \mathbb {R}\), \(f(x,y)= (x, y^{3})\).

Ver solução
  1. Não é injetora, pois \(f(1)=f(2)=1\), nem sobrejetora: a imagem é \(\{ 1,2,3,5,7\} \).

  2. É bijetora: \(g\) permuta ciclicamente os sete elementos, com \(g(7)=1\) e \(g(k)=k+1\) para \(1\leq k\leq 6\).

  3. É injetora, pois \(3n+1=3m+1\) implica \(n=m\). Não é sobrejetora: \(0\) não pertence à imagem.

  4. Não é injetora, pois todos os inteiros não negativos têm imagem zero. Não é sobrejetora: a imagem é \(\{ 0,-2,-4,\ldots \} \).

  5. É bijetora, com inversa \(y\mapsto (y-b)/a\).

  6. Não é injetora, pois \(f(1)=f(-1)\), nem sobrejetora, pois a imagem é \([0,\infty )\).

  7. É injetora, mas não sobrejetora em \(\mathbb {R}\): a imagem é \((0,\infty )\).

  8. Não é injetora, pois \(f(1)=f(-1)\), nem sobrejetora: a imagem é \((0,\infty )\).

  9. É injetora, mas não sobrejetora em \(\mathbb {R}\): a imagem é \([0,\infty )\).

  10. É injetora; não é sobrejetora, pois a imagem é a diagonal \(\{ (t,t):t\in \mathbb {R}\} \).

  11. É injetora pela primeira coordenada; não é sobrejetora, pois a imagem é \(\{ (t,|t|):t\in \mathbb {R}\} \).

  12. É sobrejetora, pois \(f(z,0)=z\) para todo \(z\in \mathbb {R}\). Não é injetora: \(f(0,0)=f(1,1)=0\).

  13. É bijetora, com inversa \((u,v)\mapsto (u,\sqrt[3]{v})\).

Exercício 2.28
Para cada função, calcule \(f^{-1}(\{ 0\} )\), \(f^{-1}(\{ 1\} )\) e \(f^{-1}(\{ 2\} )\). O primeiro item retoma a definição; os demais são de aprofundamento.
  1. \(f : \mathbb {N}\rightarrow \mathbb {N}\), \(f(n)=3n+1\).

  2. \(f : \mathbb {R}\rightarrow \mathbb {R}\), \(f(x)= x-\lvert (x+2)^{2}-1\rvert \).

  3. \(f : [0,\infty ) \rightarrow \mathbb {R}\), \(f(x)= \sqrt{x+1}-\sqrt{x}\).

  4. \(f : \mathbb {R}\times \mathbb {R}\rightarrow \mathbb {R}\), \(f(x,y)= x-\lvert y\rvert \).

Ver solução
Em cada item, os três conjuntos são apresentados na ordem pedida.
  1. \(\varnothing \), \(\{ 0\} \) e \(\varnothing \).

  2. \(\varnothing \), \(\varnothing \) e \(\varnothing \). De fato,

    \[ f(x)=\begin{cases} x^2+5x+3,& -3\leq x\leq -1,\\ -x^2-3x-3,& x\leq -3\text{ ou }x\geq -1,\end{cases} \]

    e em todos esses intervalos \(f(x)\leq -1\). No intervalo central, \(f(x)+1=(x+1)(x+4)\leq 0\); fora dele, \(f(x)+1=-(x+1)(x+2)\leq 0\).

  3. \(\varnothing \), \(\{ 0\} \) e \(\varnothing \), pois

    \[ f(x)=\frac1{\sqrt{x+1}+\sqrt x}\in (0,1], \]

    e o valor \(1\) só é atingido em \(x=0\).

  4. \(\{ (|t|,t):t\in \mathbb {R}\} \), \(\{ (1+|t|,t):t\in \mathbb {R}\} \) e \(\{ (2+|t|,t):t\in \mathbb {R}\} \).

2.6 Função inversa

Inverter uma função significa recuperar a entrada a partir da saída. Para que isso seja possível em todo o contradomínio, duas condições são necessárias: saídas iguais não podem provir de entradas diferentes, e todo elemento do contradomínio precisa ser atingido. Essas são precisamente a injetividade e a sobrejetividade.

Quando \(C\subset A\), a função

\[ f|_C:C\longrightarrow B,\qquad f|_C(x)=f(x), \]

é a restrição de \(f\) a \(C\). Restringir o domínio pode eliminar repetições de valores e tornar uma função injetora. Por exemplo, \(x\mapsto x^2\) não é injetora em \(\mathbb {R}\), mas sua restrição a \([0,+\infty )\) é uma bijeção de \([0,+\infty )\) em \([0,+\infty )\).

No sentido oposto, uma extensão de \(g:A\to B\) a um conjunto \(C\supset A\) é uma função \(f:C\to B\) que coincide com \(g\) em \(A\). A restrição a um conjunto fixado é única; uma extensão, em geral, não é.

Proposição 2.13 (Bijetividade e existência da inversa)
Uma função \(f:A\to B\) possui uma função \(g:B\to A\) tal que
\[ g\circ f=\imath_ A \qquad \text{e}\qquad f\circ g=\imath_ B \]
se, e somente se, \(f\) é bijetora.

Demonstração

Suponha primeiro que tal função \(g\) exista. Se \(f(x_1)=f(x_2)\), aplicar \(g\) aos dois membros fornece \(x_1=x_2\); portanto, \(f\) é injetora. Além disso, para cada \(y\in B\), temos \(y=f(g(y))\), de modo que \(y\) é imagem de algum elemento de \(A\); logo, \(f\) é sobrejetora.

Reciprocamente, se \(f\) é bijetora, cada \(y\in B\) é imagem de um único \(x\in A\). Definindo \(g(y)=x\), obtemos as duas identidades acima.

Definição 2.8 (Função inversa)
Se \(f:A\to B\) é bijetora, sua função inversa é a função
\[ f^{-1}:B\longrightarrow A \]
definida por
\[ f^{-1}(y)=x\quad \Longleftrightarrow \quad f(x)=y. \]
Em particular,
\[ f^{-1}(f(x))=x\quad (x\in A), \qquad f(f^{-1}(y))=y\quad (y\in B). \]

Se \(f:A\to B\) é apenas injetora, ela se torna bijetora quando substituímos o contradomínio \(B\) por sua imagem \(f(A)\). Nesse caso, podemos inverter a função sobre sua imagem, obtendo \(f^{-1}:f(A)\to A\). É exatamente o que ocorre com \(x\mapsto x^2\) depois que restringimos seu domínio a \([0,+\infty )\).

Exemplo 2.14
Considere \(f:[0,1]\to [1,3]\), \(f(x)=2x+1\). A função é bijetora e, portanto, possui inversa \(f^{-1}:[1,3]\to [0,1]\). Partindo de \(y=2x+1\) e isolando \(x\), obtemos
\[ x=\frac{y-1}{2}. \]
Logo,
\[ f^{-1}(y)=\frac{y-1}{2},\qquad 1\leq y\leq 3. \]

Observação 2.15
A composição torna precisa a ideia de desfazer uma função: se \(f:A\to B\) é bijetora, então
\[ f^{-1}\circ f=\imath_ A, \qquad f\circ f^{-1}=\imath_ B, \]
onde \(\imath_ A\) e \(\imath_ B\) são as funções identidade nos conjuntos correspondentes.

Determinando a função inversa
  • Escreva \( y = f(x).\)

  • Resolva a equação anterior obtendo \(x\) em termos de \(y\).

  • A expressão obtida é \(f^{-1}(y)\). Ao desenhar \(f\) e \(f^{-1}\) no mesmo sistema de eixos, pode-se renomear uma única vez essa variável livre e escrever \(f^{-1}(x)\).

Exemplo 2.16
Calcule \(f^{-1}\) para a função \(f(x)=1+5x\).

Solução
Como \(y=1+5x\), isolando \(x\), temos
\[ x=\frac{y-1}{5}. \]
Logo, \(f^{-1}(y)=(y-1)/5\). Se renomearmos a variável livre para representar as duas funções no mesmo sistema de eixos, escrevemos
\[ f^{-1}(x)=\frac{x-1}{5}. \]

2.6.1 O gráfico da inversa

Se \(f:A\to B\) é bijetora, então

\[ y=f(x)\quad \Longleftrightarrow \quad x=f^{-1}(y). \]

Assim, a cada ponto \((x,y)\) do gráfico de \(f\) corresponde o ponto \((y,x)\) do gráfico de \(f^{-1}\). Esses pontos são simétricos em relação à reta \(y=x\); portanto, os gráficos de uma função e de sua inversa são reflexões um do outro em relação a essa reta.

Exemplo 2.17 (Uma função e sua inversa)
A função \(f:\mathbb {R}\to \mathbb {R}\), dada por \(f(x)=x^3\), é bijetora e sua inversa é \(f^{-1}(x)=\sqrt[3]{x}\). A figura ilustra a simetria entre os dois gráficos em relação à reta \(y=x\).

Figura 2.11 Gráficos de uma função e de sua inversa.

Exercício 2.29
Denotando por \(\)
\(\) a função identidade no conjunto correspondente, mostre que:
  1. \(\)

○f=f\(\) e \(f\circ \imath=f\); se \(f\) é inversível, então \(f\circ f^{-1}=\)\(\) e \(\)f^-1○f=\(\). Conclua que a função identidade é o elemento neutro da composição.
Exercício 2.30
Ver solução
Escreva \(\)
f:AB\(\), \(\imath_ A(x)=x\) em \(A\) e \(\imath_ B(y)=y\) em \(B\).

  1. Para \(x\in A\), \((\imath_ B\circ f)(x)=f(x)\) e \((f\circ \imath_ A)(x)=f(x)\). Os domínios e contradomínios também coincidem.

  2. Se \(f\) é bijetora, a definição de inversa dá \(f^{-1}(f(x))=x\) para \(x\in A\) e \(f(f^{-1}(y))=y\) para \(y\in B\). Logo, \(f^{-1}\circ f=\imath_ A\) e \(f\circ f^{-1}=\imath_ B\).

Solução
Exercício 2.31
Considere \(f:[0,2]\to [0,5]\), dada por \(f(x)=x^2\). Determine o domínio, o contradomínio e a imagem de \(f\). Explique por que ela não possui inversa definida em todo o contradomínio. Substitua então o contradomínio pela imagem e determine a inversa da função assim obtida.
Ver solução
Temos \(\operatorname {Dom}f=[0,2]\), contradomínio \([0,5]\) e \(\operatorname {Im}f=[0,4]\). A função é injetora, mas não é sobrejetora sobre \([0,5]\); por isso, não possui inversa com domínio \([0,5]\). Substituindo o contradomínio pela imagem, obtemos uma bijeção cuja inversa é
\[ f^{-1}:[0,4]\longrightarrow [0,2],\qquad f^{-1}(y)=\sqrt y. \]
Assim, o domínio de \(f^{-1}\) é a imagem de \(f\), não todo o contradomínio escolhido para \(f\).

Exercício 2.32
Encontre uma expressão para a inversa de
\[ f(x)=\frac{4x-1}{x+2},\qquad x\ne -2, \]
determine os domínios de \(f\) e de \(f^{-1}\) e verifique uma das composições.
Ver solução
\[ f^{-1}(x)=\frac{2x+1}{4-x},\qquad \operatorname {Dom}f=\mathbb {R}\setminus \{ -2\} ,\qquad \operatorname {Dom}f^{-1}=\mathbb {R}\setminus \{ 4\} . \]
Substituição direta fornece \(f^{-1}(f(x))=x\) para \(x\neq -2\).

Exercício 2.33
Um sensor apresenta a temperatura em Fahrenheit, \(F=1{,}8C+32\). Determine a função que recupera a temperatura em Celsius a partir de \(F\) e explique como as unidades do domínio e da imagem se alteram ao inverter a função.
Ver solução
\(C(F)=\frac59(F-32)\). A função original recebe graus Celsius e devolve graus Fahrenheit; a inversa recebe graus Fahrenheit e devolve graus Celsius.

Exercício 2.34
Prove que toda função da forma \(h(x)=a-x\), com \(a\in \mathbb {R}\), é sua própria inversa e interprete geometricamente o resultado.
Ver solução
\(h(h(x))=a-(a-x)=x\), logo \(h^{-1}=h\). Seu gráfico é a reta \(y=a-x\), simétrica em relação à reta \(y=x\).

Exercício 2.35
A distância registrada por um odômetro em função do tempo é não decrescente, mas pode apresentar trechos constantes. Discuta quando essa função admite uma inversa que forneça o tempo a partir da distância. Que informação adicional eliminaria a ambiguidade?
Ver solução
Uma inversa usual existe quando a distância é estritamente crescente. Em um trecho constante, vários instantes correspondem à mesma distância. A ambiguidade pode ser eliminada restringindo o domínio a um trecho estritamente crescente ou convencionando escolher, por exemplo, o primeiro instante em que a distância é atingida.

2.7 Transformações e simetrias dos gráficos

Conhecer um gráfico permite construir muitos outros sem recomeçar o esboço ponto a ponto. Alterações simples na expressão correspondem a deslocamentos, mudanças de escala ou reflexões no plano.

2.7.1 Translações

Se \(c\in \mathbb {R}\), comparemos

\[ g(x)=f(x)+c, \qquad h(x)=f(x+c). \]

Na primeira expressão, a constante é somada ao valor da função: cada ponto \((x,f(x))\) é levado a \((x,f(x)+c)\). O gráfico sofre uma translação vertical de \(|c|\) unidades, para cima quando \(c\gt 0\) e para baixo quando \(c\lt 0\).

Na segunda expressão, a constante altera a entrada da função. Para que \(h\) assuma em \(x\) o valor que \(f\) assumia em \(x+c\), o gráfico precisa deslocar-se horizontalmente no sentido oposto ao sinal de \(c\). Assim, \(f(x+c)\) corresponde a uma translação de \(|c|\) unidades para a esquerda quando \(c\gt 0\) e para a direita quando \(c\lt 0\).

Exemplo 2.18 (Translações vertical e horizontal)
Seja \(f:\mathbb {R}\to \mathbb {R}\), dada por \(f(x)=x^3-x\). Defina \(g,h:\mathbb {R}\to \mathbb {R}\) por
\[ g(x)=f(x)+2=x^3-x+2, \qquad h(x)=f(x-1)=x^3-3x^2+2x. \]
A figura ilustra essas transformações.

Figura 2.12 Translação horizontal e vertical do gráfico de \(f\).
O sinal aparentemente invertido na translação horizontal decorre justamente dessa comparação das entradas. Se \(c\gt 0\), o valor que estava na abscissa \(x+c\) passa a aparecer em \(x\), portanto mais à esquerda.

Os domínios também acompanham a transformação. Se \(f:A\to \mathbb {R}\), então \(f(x)+c\) continua definido em \(A\), enquanto

\[ \operatorname {Dom}(f(x+c))=\{ x\in \mathbb {R}:x+c\in A\} . \]

2.7.2 Mudanças de escala

Multiplicar uma coordenada por uma constante positiva produz uma mudança homogênea de escala. Para \(c\gt 0\), consideremos

\[ g(x)=c\, f(x), \qquad h(x)=f(cx). \]

No gráfico de \(g\), todas as ordenadas são multiplicadas por \(c\): temos uma mudança de escala vertical por fator \(c\). No gráfico de \(h\), o valor que \(f\) assumia em \(cx\) passa a aparecer em \(x\); por isso, a escala horizontal é multiplicada por \(1/c\).

Consequentemente, se \(c\gt 1\), \(cf(x)\) produz uma dilatação vertical, enquanto \(f(cx)\) produz uma contração horizontal. Se \(0\lt c\lt 1\), ocorre o contrário. A diferença é a mesma observada nas translações: alterações feitas fora de \(f\) atuam diretamente nos valores; alterações feitas no argumento atuam de maneira inversa no eixo horizontal.

Exemplo 2.19 (Escalas vertical e horizontal)
Seja \(f:\mathbb {R}\to \mathbb {R}\), dada por \(f(x)=x^3-x\). Defina \(g,h:\mathbb {R}\to \mathbb {R}\) por
\[ g(x)=2f(x)=2x^3-2x, \qquad h(x)=f(2x)=8x^3-2x. \]
A figura ilustra essas transformações.

Figura 2.13 Escala vertical em g=2f e escala horizontal em h(x)=f(2x).

Figura 2.13 Escala vertical em \(g=2f\) e escala horizontal em \(h(x)=f(2x)\).

2.7.3 Reflexões

As mudanças de escala anteriores usaram fatores positivos. A troca de sinal de uma coordenada introduz outro efeito geométrico: a reflexão. Dado um ponto \(P\) de coordenadas \((x,y)\), dizemos que:

  • o ponto de coordenadas \((x,-y)\) é o ponto simétrico de \(P\) relativamente ao eixo \(x\).

  • o ponto de coordenadas \((-x,y)\) é o ponto simétrico de \(P\) relativamente ao eixo \(y\).

  • o ponto de coordenadas \((-x,-y)\) é o ponto simétrico de \(P\) relativamente à origem \(O\).

Refletir em relação ao eixo \(x\) troca o sinal das ordenadas; refletir em relação ao eixo \(y\) troca o sinal das abscissas. Assim:

  • o gráfico de \(-f(x)\) é a reflexão do gráfico de \(f\) em relação ao eixo \(x\);

  • o gráfico de \(f(-x)\) é a reflexão do gráfico de \(f\) em relação ao eixo \(y\).

Exemplo 2.20 (Reflexões nos eixos coordenados)
Seja \(f(x)=x^2-3x+2\). As funções
\[ g(x)=-f(x)=-x^2+3x-2, \qquad h(x)=f(-x)=x^2+3x+2 \]
produzem, respectivamente, as reflexões do gráfico de \(f\) nos eixos \(x\) e \(y\).

Figura 2.14 Gráficos das funções obtidas através de reflexões em relação aos eixos coordenados.

Figura 2.14 Gráficos das funções obtidas através de reflexões em relação aos eixos coordenados.

2.7.4 Paridade

Uma reflexão pode levar o gráfico de uma função ao de outra ou pode deixá-lo inalterado. Quando o gráfico permanece o mesmo após uma reflexão em relação ao eixo \(y\), a função é chamada de par; quando permanece o mesmo após uma reflexão em relação à origem, a função é chamada de ímpar.

De fato, refletir \((x,f(x))\) em relação ao eixo \(y\) produz \((-x,f(x))\). Esse ponto pertence ao gráfico original exatamente quando \(f(-x)=f(x)\). De modo semelhante, a reflexão em relação à origem produz \((-x,-f(x))\), que pertence ao gráfico original exatamente quando \(f(-x)=-f(x)\).

Portanto, se \(f:A\to B\) e o domínio \(A\subset \mathbb {R}\) é simétrico em relação à origem, isto é, \(x\in A\) implica \(-x\in A\), então

  • \(f\) é par se, e somente se, \(f(-x)=f(x)\) para todo \(x\in A\);

  • \(f\) é ímpar se, e somente se, \(f(-x)=-f(x)\) para todo \(x\in A\).

Exemplos 2.21
  1. A função \(f(x)=x^4-4x^2+1\) é par.

    Ilustração: Paridade

    Figura 2.15 Simetria do gráfico de uma função par.

  2. A função \(g(x)=x^5-3x^3+2x\) é ímpar.

    Ilustração: Paridade

    Figura 2.16 Simetria do gráfico de uma função ímpar.

  3. A função \(h(x)=x^3+x^2\) não é nem par, nem ímpar.

    Ilustração: Paridade

    Figura 2.17 Gráfico de uma função que não é par nem ímpar.

2.7.5 Periodicidade

Nem toda simetria decorre de uma reflexão. Um gráfico pode também permanecer inalterado após uma translação horizontal. Esse comportamento caracteriza as funções periódicas.

Definição 2.9
Seja \(f:A\to \mathbb {R}\). Dizemos que \(f\) é periódica se existe \(r\gt 0\) tal que, para todo \(x\in \mathbb {R}\),
\[ x\in A\quad \Longleftrightarrow \quad x+r\in A, \]
e, sempre que \(x\in A\),
\[ f(x+r)=f(x). \]
Todo número \(r\gt 0\) que satisfaz as condições da definição é chamado de período de \(f\). A primeira condição garante que a translação não retire pontos do domínio; ela é automática quando \(A=\mathbb {R}\), mas é necessária, por exemplo, para tratar a tangente. Quando o conjunto dos períodos positivos possui um menor elemento \(T\), esse número é chamado de período fundamental. Assim, \(T\) satisfaz:

  1. \(x\in A\) se, e somente se, \(x+T\in A\), e \(f(x+T)=f(x)\) para todo \(x\in A\);

  2. nenhum número de \((0,T)\) é período de \(f\).

Uma função periódica não constante pode não ter período fundamental. A função de Dirichlet apresentada anteriormente é um exemplo: todo racional positivo é um período, mas não há um menor racional positivo. Para as funções periódicas com período fundamental que estudaremos a seguir, usaremos também a palavra período para designar esse menor valor, quando o contexto for claro.

Os exemplos clássicos são as funções trigonométricas, estudadas adiante. Antes delas, retomemos a parte inteira e consideremos a função

\[ f(x)=x-\left[\! \left[x\right]\! \right] \]

em que \(\left[\! \left[x\right]\! \right]\) denota, como definido anteriormente, o maior inteiro menor ou igual a \(x\). A função \(f\) é periódica, pois, para todo inteiro \(n\),

\[ f(x+n)=(x+n)-\left[\! \left[x+n\right]\! \right]=x+n-(\left[\! \left[x\right]\! \right]+n)=x-\left[\! \left[x\right]\! \right]=f(x) \]

Em particular, \(1\) é um período de \(f\). A figura mostra esse comportamento periódico.

Figura 2.18 Gráfico de uma função periódica de período 1.

Figura 2.18 Gráfico de uma função periódica de período \(1\).

Exercício 2.36
Verifique a identidade
\[ x^2+bx+c=\left(x+\frac b2\right)^2+\frac{4c-b^2}{4} \]
e conclua que o gráfico de \(y=x^2+bx+c\) pode ser obtido do gráfico de \(y=x^2\) por uma translação horizontal seguida de uma translação vertical.
Ver solução
Expandindo o quadrado, recuperamos \(x^2+bx+c\). A translação horizontal é de \(-b/2\), e a vertical, de \(c-b^2/4\). O vértice resultante é \((-b/2,c-b^2/4)\).

Exercício 2.37
Seja \(f:A\to \mathbb {R}\) e seja \(c\gt 0\). Para
\[ g(x)=cf(x),\qquad h(x)=f(cx), \]
compare os domínios de \(g\) e \(h\) com o domínio \(A\) de \(f\).
Ver solução
Temos \(\operatorname {Dom}g=A\). Já \(h(x)\) está definida quando \(cx\in A\); portanto,
\[ \operatorname {Dom}h=\{ x\in \mathbb {R}:cx\in A\} =\{ a/c:a\in A\} . \]

Exercício 2.38
Descreva as transformações e acompanhe o domínio.
  1. Obtenha \(y=\sqrt{x}+2\) a partir de \(y=\sqrt x\).

  2. Obtenha \(y=2\sqrt{x+3}-1\) a partir de \(y=\sqrt x\).

Ver solução
  1. Translação de duas unidades para cima. O domínio permanece \([0,+\infty )\).

  2. Primeiro, translação de três unidades para a esquerda, que leva o domínio a \([-3,+\infty )\); depois, escala vertical por fator \(2\) e translação de uma unidade para baixo, que não alteram o domínio.

Exercício 2.39
Seja \(f:A\to \mathbb {R}\). Para
\[ g(x)=-f(x),\qquad h(x)=f(-x), \]
compare os domínios de \(g\) e \(h\) com o domínio \(A\) de \(f\).
Ver solução
Temos \(\operatorname {Dom}g=A\) e
\[ \operatorname {Dom}h=\{ x\in \mathbb {R}:-x\in A\} =-A. \]
Assim, a reflexão no eixo \(x\) preserva o domínio, enquanto a reflexão no eixo \(y\) o substitui por seu simétrico em relação à origem.

Exercício 2.40
Responda às questões sobre paridade.
  1. O gráfico de uma função pode ser simétrico em relação ao eixo \(x\)? Em que caso?

  2. O que se pode dizer sobre o domínio de uma função par ou ímpar?

  3. Num domínio simétrico fixado, qual função é simultaneamente par e ímpar?

  4. Determine a paridade da soma e do produto de duas funções a partir da paridade das parcelas.

  5. Se \(f\) é par, \(g\) é ímpar e \(k\in \mathbb {R}\), discuta a paridade de

    \[ \begin{gathered} kf,\quad kg,\quad f+k,\quad g+k,\\ |f|,\quad |g|. \end{gathered} \]
Ver solução
  1. Sim, apenas para a função nula: a simetria exigiria que \((x,y)\) e \((x,-y)\) pertencessem ao gráfico, e a unicidade da imagem força \(y=0\).

  2. O domínio deve ser simétrico em relação à origem.

  3. A função nula. As duas identidades de paridade dão \(f(x)=f(-x)=-f(x)\).

  4. A soma de duas funções pares é par, e a de duas ímpares é ímpar. O produto de duas pares ou de duas ímpares é par; o produto de uma par por uma ímpar é ímpar. Para uma soma de par com ímpar, em geral não há paridade.

  5. \(kf\) é par, \(kg\) é ímpar e \(f+k\) é par. Se \(k=0\), então \(g+k\) é ímpar; se \(g\) é nula, \(g+k\) é par; nos demais casos, \(g+k\) não é par nem ímpar. As funções \(|f|\) e \(|g|\) são pares. A função nula deve ser lembrada como simultaneamente par e ímpar.

Exercício 2.41
A partir de \(y=x^2\), descreva, na ordem, transformações que produzam o gráfico de \(y=-3(x-2)^2+5\). Sem construir uma tabela de valores, localize o vértice e o eixo de simetria e determine domínio e imagem.
Ver solução
Translade duas unidades para a direita, dilate verticalmente por fator \(3\), reflita no eixo \(x\) e translade cinco unidades para cima. O vértice é \((2,5)\), o eixo é \(x=2\), o domínio é \(\mathbb {R}\) e a imagem é \((-\infty ,5]\).
Exercício 2.42
Seja \(u(x)=(f(x)+f(-x))/2\) e \(v(x)=(f(x)-f(-x))/2\), com domínio de \(f\) simétrico em relação à origem. Mostre que \(u\) é par, \(v\) é ímpar e \(f=u+v\).
Ver solução
Substituindo \(-x\), obtemos \(u(-x)=u(x)\) e \(v(-x)=-v(x)\). Além disso,
\[ u(x)+v(x)=\frac{f(x)+f(-x)+f(x)-f(-x)}2=f(x). \]

Exercício 2.43
Para \(f(x)=x-\left[\! \left[x\right]\! \right]\), mostre que os períodos positivos são exatamente os inteiros positivos e conclua que o período fundamental é \(1\).
Ver solução
Todo inteiro positivo \(n\) é período, pois \(\left[\! \left[x+n\right]\! \right]=\left[\! \left[x\right]\! \right]+n\). Reciprocamente, se \(r\gt 0\) é período, então \(f(r)=f(0)=0\); logo, \(r-[\! [r ]\! ]=0\) e \(r\) é inteiro. O menor período positivo é, portanto, \(1\).

  1. É também usual na literatura o termo monotônica.
  2. Voltaremos a essa noção mais adiante.