Números
O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso.
O Cálculo se desenvolve sobre os números reais. Neles convivem três estruturas: as operações algébricas, a ordem e a propriedade de completude. Muitas regras elementares se tornam tão familiares pelo uso que sua origem acaba ficando oculta. Algumas perguntas simples permitem tornar essa estrutura visível:
Por que \(a\cdot 0=0\), se essa igualdade não foi colocada como axioma?
Por que podemos cancelar um fator não nulo?
De onde vem a regra do produto nulo?
Por que uma desigualdade muda de sentido quando multiplicamos seus dois membros por um número negativo?
Por que \(\sqrt2\) existe em \(\mathbb R\), embora não exista em \(\mathbb Q\)?
Como reconhecer uma fatoração útil?
Quando uma simplificação algébrica é realmente legítima?
Os axiomas algébricos governam as operações; os axiomas de ordem tornam compatíveis as operações e a comparação entre números; a completude exprime, de forma precisa, a ausência de lacunas na reta real. Fatoração e simplificação algébrica também se apoiam nas propriedades das operações e exigem atenção às restrições de domínio.
1.1 Dos naturais aos reais
Os primeiros conjuntos numéricos aparecem quando diferentes problemas exigem novas operações. Adotaremos a convenção de que o zero é um número natural:
Escreveremos \(\mathbb N^*=\mathbb N\setminus \{ 0\} \) para o conjunto dos naturais positivos. Os naturais são adequados para contar. Entretanto, uma subtração como \(3-5\) não tem resultado em \(\mathbb N\). A introdução dos números negativos conduz ao conjunto dos inteiros,
Nos inteiros podemos subtrair livremente, mas uma divisão como \(2/3\) ainda não produz um inteiro. Incluindo todas as razões entre inteiros, com denominador não nulo, obtemos os números racionais:
Essas ampliações podem ser resumidas pelas inclusões
Cada conjunto conserva as operações já existentes e acrescenta soluções para problemas que o anterior não resolvia. Ainda assim, os racionais não bastam.
Por que \(\mathbb Q\) não basta?
O comprimento da diagonal de um quadrado de lado \(1\) é, pelo teorema de Pitágoras, um número positivo cujo quadrado vale \(2\). Esse número não é racional.
Suponha que exista \(q\in \mathbb Q\) com \(q^2=2\). Podemos escrever \(q=m/n\), onde \(m,n\in \mathbb Z\), \(n\ne 0\), e a fração foi reduzida, isto é, \(m\) e \(n\) não possuem divisor comum maior que \(1\). Da igualdade \((m/n)^2=2\) obtemos
Logo, \(m^2\) é par e, portanto, \(m\) é par: se \(m\) fosse ímpar, seu quadrado também seria ímpar, pois \((2k+1)^2=2(2k^2+2k)+1\). Escrevendo \(m=2k\), resulta \(n^2=2k^2\), de modo que \(n\) também é par. Assim, \(m\) e \(n\) são ambos divisíveis por \(2\), contrariando o fato de que a fração estava reduzida.
Os números reais formam o conjunto denotado por \(\mathbb R\). Ele contém os racionais e também os irracionais, como \(\sqrt2\), \(\sqrt3\) e \(\pi \):
Um número real que não pertence a \(\mathbb Q\) é chamado de irracional. A propriedade de completude dará sentido preciso à ideia de que os reais “preenchem” as lacunas existentes entre os racionais.
Representações decimais
Todo número real admite uma representação decimal. Os números racionais são exatamente aqueles cuja representação decimal termina ou, a partir de alguma posição, repete periodicamente um bloco de algarismos. Por exemplo,
As representações decimais dos irracionais são infinitas e não periódicas.
Uma representação decimal não deve ser confundida com o próprio número. Um mesmo real pode possuir duas representações: por exemplo,
Para antecipar a ideia, seja \(x_n\) o decimal formado por \(n\) algarismos iguais a \(9\) depois da vírgula. Então
À medida que aumentamos \(n\), o erro \(1-x_n=10^{-n}\) pode se tornar menor do que qualquer tolerância previamente escolhida. O capítulo de limites dará um significado formal a esse processo de aproximação.
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1.2 Estrutura algébrica dos números reais
As operações de adição e multiplicação associam a cada par de números reais um novo número real. As propriedades fundamentais dessas operações são chamadas axiomas de corpo. Para todos \(a,b,c\in \mathbb R\), valem:
- A1.
\((a+b)+c=a+(b+c)\) (associatividade da adição);
- A2.
\(a+b=b+a\) (comutatividade da adição);
- A3.
existe \(0\in \mathbb R\) tal que \(a+0=a\) (neutro aditivo);
- A4.
para cada \(a\), existe \(-a\) tal que \(a+(-a)=0\) (oposto);
- A5.
\((ab)c=a(bc)\) (associatividade da multiplicação);
- A6.
\(ab=ba\) (comutatividade da multiplicação);
- A7.
existe \(1\in \mathbb R\), com \(1\ne 0\), tal que \(a\cdot 1=a\) (neutro multiplicativo);
- A8.
para cada \(a\ne 0\), existe \(a^{-1}\) tal que \(aa^{-1}=1\) (inverso);
- A9.
\(a(b+c)=ab+ac\) (distributividade).
Os axiomas são o ponto de partida. Muitas identidades familiares não aparecem na lista porque são consequências deles. Os resultados seguintes ilustram essa passagem dos axiomas para propriedades algébricas usuais.
Por que \(a\cdot 0=0\)?
Como \(0+0=0\), a distributividade fornece
Somando o oposto de \(a\cdot 0\) aos dois membros, obtemos \(0=a\cdot 0\).
Logo, a igualdade \(a\cdot 0=0\) não constitui um axioma adicional: ela decorre da distributividade e da existência do oposto aditivo.
Por que podemos cancelar um fator não nulo?
Como \(a\ne 0\), existe \(a^{-1}\). Multiplicando os dois membros de \(ab=ac\) por \(a^{-1}\) e usando a associatividade, temos
A condição \(a\ne 0\) é indispensável. Da igualdade \(0\cdot 2=0\cdot 5\) não podemos concluir que \(2=5\).
De onde vem a regra do produto nulo?
Se \(a=0\), a conclusão já está satisfeita. Se \(a\ne 0\), existe \(a^{-1}\) e podemos multiplicar \(ab=0\) por esse inverso:
Logo, ao menos um dos fatores é nulo.
É essa propriedade que permite resolver, por exemplo,
concluindo que \(x-2=0\) ou \(x+3=0\), isto é, \(x=2\) ou \(x=-3\).
O elemento neutro da adição é único. O oposto de cada número real é único. Se \(a\ne 0\) e \(ax=a\), então \(x=1\). \(a(-b)=-(ab)\). Se \(0\) e \(0'\) são neutros aditivos, então \(0=0+0'=0'\). Se \(b\) e \(c\) são opostos de \(a\), então \(b=b+0=b+(a+c)=(b+a)+c=0+c=c\). Multiplique \(ax=a\) por \(a^{-1}\): \(x=(a^{-1}a)x=a^{-1}a=1\). Temos \(ab+a(-b)=a(b-b)=a\cdot 0=0\). Portanto, \(a(-b)\) é o oposto de \(ab\) e, pela unicidade do oposto, \(a(-b)=-(ab)\).
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1.3 Fatoração de expressões algébricas
Fatorar uma expressão significa escrevê-la como um produto. A ideia fundamental já está contida na distributividade:
Quando passamos do membro direito para o esquerdo, desenvolvemos o produto; quando fazemos o caminho inverso, colocamos o fator comum em evidência. A fatoração não altera o valor da expressão. Ela apenas revela uma estrutura que pode estar escondida numa soma.
Na forma fatorada, zeros e fatores comuns tornam-se visíveis. A regra do produto nulo permite localizar zeros a partir dos fatores; em expressões fracionárias, a fatoração também identifica possíveis cancelamentos e as restrições que os acompanham.
Escolha da fatoração
A forma da expressão sugere a técnica adequada. Nos casos elementares, a sequência seguinte organiza as possibilidades mais frequentes:
procure um fator comum a todos os termos;
verifique se aparece algum produto notável;
com quatro termos, tente agrupá-los em pares;
em um trinômio quadrático, use as raízes ou decomponha o termo central;
examine novamente cada fator obtido.
O resultado pode sempre ser conferido desenvolvendo novamente o produto.
Fator comum
O fator comum deve dividir todos os termos da expressão. Quando os coeficientes são inteiros, convém retirar seu máximo divisor comum e, para cada letra, a menor potência que aparece em todos os termos.
Produtos notáveis e diferença de potências
Algumas identidades aparecem com frequência suficiente para merecer destaque:
Não são regras isoladas: todas podem ser verificadas desenvolvendo o membro direito. Por exemplo,
e
No segundo desenvolvimento, os termos intermediários se cancelam. O mesmo mecanismo aparece na identidade mais geral: para todo inteiro \(n\geq 2\),
Essa identidade será especialmente útil quando aparecer um quociente com \(a-b\) no denominador.
Agrupamento
Quando não existe um fator comum a todos os termos, pode existir um fator comum depois de um agrupamento adequado.
Trinômios quadráticos
Para fatorar
procuramos números \(r\) e \(t\) tais que \(r+t=s\) e \(rt=p\). Nesse caso,
Para um trinômio geral \(ax^2+bx+c\), com \(a\ne 0\), procuramos números \(u\) e \(v\) tais que
Substituímos então \(bx\) por \(ux+vx\) e tentamos agrupar os quatro termos.
De modo geral, se \(x_1\) e \(x_2\) são as raízes reais de \(ax^2+bx+c\), contando duas vezes uma eventual raiz dupla, então
Nem todo polinômio se decompõe em fatores lineares reais. Por exemplo, \(x^2+1\) não possui raiz real e, portanto, não pode ser escrito como produto de dois fatores lineares com coeficientes reais.
Completar quadrados
Fatorar destaca os zeros de uma expressão. Em outras situações, é mais útil reescrever a parte quadrática como um quadrado perfeito acrescido de uma constante. Esse procedimento é chamado de completar o quadrado.
De modo geral,
Se o coeficiente quadrático é \(a\ne 0\), colocamos \(a\) em evidência antes de aplicar o mesmo procedimento. A técnica reaparecerá no estudo das parábolas e na resolução de equações quadráticas.
\(8x^3-12x^2\). \(x^2-16\). \(x^2-6x+9\). \(x^3+2x^2-9x-18\). \(3x^2-5x-2\). \(x^4-1\). \(4x^2(2x-3)\). \((x-4)(x+4)\). \((x-3)^2\). \((x+2)(x^2-9)=(x+2)(x-3)(x+3)\). \((3x+1)(x-2)\). \((x^2-1)(x^2+1)=(x-1)(x+1)(x^2+1)\). \(x^3-5x^2+4x=0\). \(2x^2+x-3=0\). \(x^4-16=0\) no conjunto dos números reais. \(x(x^2-5x+4)=x(x-1)(x-4)=0\); logo, \(x\in \{ 0,1,4\} \). \((2x+3)(x-1)=0\); logo, \(x\in \{ -3/2,1\} \). \((x^2-4)(x^2+4)=(x-2)(x+2)(x^2+4)=0\). Como \(x^2+4\gt 0\) para todo real \(x\), temos \(x\in \{ -2,2\} \). \(x^2+8x+3\). \(x^2-10x+7\). \(3x^2+12x-1\). \((x+4)^2-13\). \((x-5)^2-18\). \(3(x+2)^2-13\).
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1.4 Simplificação de expressões algébricas
Simplificar uma expressão é escrevê-la de uma forma que torne sua estrutura ou seu cálculo mais transparentes, sem mudar seu valor. Há, porém, uma precaução essencial: devemos registrar desde o início os valores para os quais a expressão original não está definida. Essas restrições continuam válidas mesmo quando não aparecem na expressão simplificada.
Cancelar fatores, não parcelas
A lei do cancelamento permite escrever
O cancelamento é possível porque \(c\) multiplica todo o numerador e todo o denominador. Uma parcela de uma soma não pode ser cancelada.
Compare com
Não há um fator \(x\) comum a todo o numerador, de modo que “cancelar os \(x\)” seria incorreto.
Somar e dividir frações algébricas
Para somar frações, construímos um denominador comum. Por exemplo,
Em uma fração complexa, convém simplificar primeiro seu numerador e seu denominador ou multiplicar ambos por um denominador comum.
Radicais e conjugados
Os fatores \(a-b\) e \(a+b\) são chamados de conjugados. Como \((a-b)(a+b)=a^2-b^2\), multiplicar por um conjugado permite eliminar uma diferença de raízes no numerador ou no denominador.
Três manipulações frequentemente usadas não são identidades:
A fórmula correta para o primeiro quadrado está na seção anterior, e a identidade correta no segundo caso é \(\sqrt{x^2}=|x|\). Os valores \(a=b=1\) fornecem contraexemplos para a primeira e a terceira manipulações; \(x=-1\) fornece um contraexemplo para a segunda.
\(\dfrac {x^2-4}{x-2}\). \(\dfrac {x^2-1}{x^2+x}\). \(\dfrac 1x-\dfrac 1{x+1}\). \(\dfrac {\sqrt{x+1}-1}{x}\). \(x+2\), com \(x\ne 2\). \(\dfrac {x-1}{x}\), com \(x\ne 0,-1\). \(\dfrac 1{x(x+1)}\), com \(x\ne 0,-1\). \(\dfrac 1{\sqrt{x+1}+1}\), com \(x\geq -1\) e \(x\ne 0\). \(\dfrac {x+3}{x}=3\). \(\sqrt{x^2}=x\) para todo \(x\in \mathbb R\). \(\dfrac {x^2+2x}{x}=x+2\) para todo \(x\in \mathbb R\). \(\dfrac {x+3}{x}=1+\dfrac 3x\), com \(x\ne 0\). \(\sqrt{x^2}=|x|\); a igualdade \(\sqrt{x^2}=x\) vale apenas se \(x\geq 0\). A igualdade é válida apenas para \(x\ne 0\), pois a expressão original não está definida em \(x=0\).
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\(\dfrac {(z+w)^{-1}}{(z-w)^{-1}}\).
\((p^{-1}+q^{-1})^{-1}\).
\(\dfrac {\dfrac 1a+\dfrac 1b}{\dfrac ba-\dfrac ab}\).
\(\dfrac {\dfrac {8x^3y^2}{(x-2)^4}} {\dfrac {6x^2y}{(x-2)^{3/2}}}\).
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\(\dfrac {z-w}{z+w}\), com \(z+w\ne 0\) e \(z-w\ne 0\).
\(\dfrac {pq}{p+q}\), com \(p\ne 0\), \(q\ne 0\) e \(p+q\ne 0\).
\(\dfrac 1{b-a}\), com \(a\ne 0\), \(b\ne 0\) e \(b\ne \pm a\).
\(\dfrac {4xy}{3(x-2)^{5/2}}\), com \(x\gt 2\) e \(y\ne 0\).
\(\dfrac {(x+h)^2-x^2}{h}\).
\(\dfrac {(x+h)^3-x^3}{h}\).
\(\dfrac {\dfrac 1{(x+h)^2}-\dfrac 1{x^2}}{h}\).
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\(2x+h\).
\(3x^2+3xh+h^2\).
\(-\dfrac {2x+h}{x^2(x+h)^2}\), com \(x\ne 0\) e \(x+h\ne 0\).
1.5 Ordem e desigualdades
Além de somar e multiplicar números reais, podemos compará-los. A relação \(a\leq b\) significa que \(a\) é menor ou igual a \(b\). Ela satisfaz as seguintes propriedades:
- A10.
A ordem é reflexiva, antissimétrica, transitiva e total:
\[ a\leq a, \qquad (a\leq b\text{ e }b\leq a)\Rightarrow a=b, \]\[ (a\leq b\text{ e }b\leq c)\Rightarrow a\leq c, \qquad a\leq b\text{ ou }b\leq a. \]- A11.
Somar o mesmo número preserva a ordem:
\[ a\leq b\Rightarrow a+c\leq b+c. \]- A12.
Multiplicar pelo mesmo número não negativo preserva a ordem:
\[ a\leq b\text{ e }c\geq 0\Rightarrow ac\leq bc. \]
Esses são os axiomas de ordem. Observe que A12 fala apenas da multiplicação por números não negativos. A conhecida regra para números negativos será deduzida deles.
Por que multiplicar por um número negativo inverte a desigualdade?
Somando \(-c\) aos dois membros de \(c\lt 0\), obtemos \(0\lt -c\). Pelo axioma A12,
Como \(a(-c)=-ac\) e \(b(-c)=-bc\), temos \(-ac\leq -bc\). Somando \(ac+bc\) aos dois membros, obtemos \(bc\leq ac\), ou seja, \(ac\geq bc\).
Por exemplo, de \(2\lt 5\) podemos concluir que \(-6\gt -15\) ao multiplicar ambos os membros por \(-3\). A mudança de sentido não é uma convenção gráfica: ela decorre da compatibilidade entre a ordem e as operações.
Outra consequência útil é que todo quadrado é não negativo. Se \(x\geq 0\), isso decorre de A12 aplicado a \(0\leq x\). Se \(x\lt 0\), então \(-x\gt 0\) e \(x^2=(-x)^2\geq 0\).
Se \(a\leq b\), então \(-b\leq -a\). Se \(a\leq b\) e \(c\leq d\), então \(a+c\leq b+d\). Se \(0\leq a\lt b\), então \(a^2\lt b^2\). Se \(a,b\gt 0\) e \(a^2\lt b^2\), então \(a\lt b\). Some \(-a-b\) aos dois membros de \(a\leq b\). Temos \(a+c\leq b+c\leq b+d\); aplique a transitividade. Como \(a\lt b\) e \(a\geq 0\), \(a^2\leq ab\). Como \(a\lt b\) e \(b\gt 0\), \(ab\lt b^2\). Portanto, \(a^2\lt b^2\). Se \(a\geq b\gt 0\), multiplicando \(a\geq b\) sucessivamente pelos números positivos \(a\) e \(b\), obtemos \(a^2\geq ab\geq b^2\), contrariando a hipótese.
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1.6 Reta real, valor absoluto e intervalos
A reta real oferece uma representação geométrica dos números reais. Escolhemos um ponto para representar \(0\), outro ponto à sua direita para representar \(1\) e usamos a distância entre eles como unidade. A ordem corresponde à posição: \(a\lt b\) significa que o ponto associado a \(a\) está à esquerda daquele associado a \(b\).
O valor absoluto, ou módulo, de \(x\in \mathbb R\) é definido por
Portanto, \(|x|=x\) somente quando \(x\geq 0\). Se \(x\lt 0\), então \(|x|=-x\). Por exemplo,
Geometricamente, \(|x|\) é a distância de \(x\) até a origem. Mais geralmente, a distância entre \(x\) e \(y\) é
Essa interpretação é mais útil do que pensar no módulo apenas como um procedimento para “retirar o sinal”.
Para \(x,y\in \mathbb R\), valem as propriedades
A desigualdade \(|x+y|\leq |x|+|y|\) é chamada de desigualdade triangular. De fato,
Somando membro a membro, obtemos
e, portanto, \(|x+y|\leq |x|+|y|\). Geometricamente, na reta, a distância do percurso direto entre dois pontos não é maior que a de um percurso feito com um desvio. Em geral, não podemos substituir a desigualdade por uma igualdade. Com \(x=1\) e \(y=-1\), por exemplo,
Como retirar o módulo?
Para retirar um módulo, precisamos conhecer o sinal da expressão que está em seu interior. Quando aparecem vários módulos, os pontos em que essas expressões se anulam dividem a reta em intervalos nos quais os sinais permanecem fixos.
As expressões dentro dos módulos se anulam em \(x=-1\) e \(x=0\). Esses pontos determinam três casos:
se \(x\lt -1\), então \(x\lt 0\) e \(x+1\lt 0\); logo, \(f(x)=-x-(x+1)=-2x-1\);
se \(-1\leq x\lt 0\), então \(x\lt 0\) e \(x+1\geq 0\); logo, \(f(x)=-x+(x+1)=1\);
se \(x\geq 0\), então \(x\) e \(x+1\) são não negativos; logo, \(f(x)=x+(x+1)=2x+1\).
Portanto,
Outro padrão importante ocorre nas equações. Se \(a\geq 0\), então
Assim,
e as soluções são \(x=4\) e \(x=-1\). Se \(a\lt 0\), a equação \(|u|=a\) não possui solução real.
Intervalos
Dados \(a\lt b\), usamos as seguintes notações:
Parênteses indicam que o extremo não pertence ao intervalo; colchetes indicam que pertence. Para intervalos ilimitados, escrevemos, por exemplo,
Os símbolos \(\pm \infty \) nunca recebem colchetes, pois não representam números reais.
Um intervalo centrado em \(a\), com raio \(r\gt 0\), pode ser descrito de duas formas equivalentes:
Assim, \(|x-a|\lt r\) significa que \(x\) aproxima \(a\) com erro menor que \(r\). Para \(r\gt 0\), é útil guardar também as duas traduções geométricas
Na primeira, \(x\) está dentro do intervalo de raio \(r\); na segunda, está fora dele.
\(|x-3|\lt 2\). \(|x+1|\leq 4\). \(|x-5|\gt 1\). \((1,5)\). \([-5,3]\). \((-\infty ,4)\cup (6,+\infty )\).
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\(|x-2|+|x+1|\).
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1.7 Cotas, máximos e supremos
Considere um conjunto não vazio \(A\subset \mathbb R\). Dizemos que \(M\) é uma cota superior, ou um majorante, de \(A\) quando
Se existe uma cota superior, dizemos que \(A\) é limitado superiormente. De modo análogo, \(m\) é uma cota inferior, ou um minorante, quando \(m\leq x\) para todo \(x\in A\).
Uma cota superior pode estar muito acima dos elementos do conjunto. Por exemplo, \(2\), \(10\) e \(100\) são cotas superiores de \([0,1)\). Interessa-nos a menor delas.
Não devemos confundir supremo com máximo. O número \(M\) é o máximo de \(A\) quando \(M\in A\) e \(x\leq M\) para todo \(x\in A\). Portanto, todo máximo é um supremo que pertence ao conjunto; um supremo pode não pertencer a ele.
| Conjunto | mínimo | ínfimo | máximo | supremo |
|---|---|---|---|---|
| $[0,1]$ | $0$ | $0$ | $1$ | $1$ |
| $[0,1)$ | $0$ | $0$ | não existe | $1$ |
| $(0,1)$ | não existe | $0$ | não existe | $1$ |
| $\mathbb N$ | $0$ | $0$ | não existe | não existe |
A completude dos números reais
A propriedade que distingue decisivamente \(\mathbb R\) de \(\mathbb Q\) é a completude:
A afirmação correspondente para conjuntos limitados inferiormente também vale: todo conjunto não vazio e limitado inferiormente possui ínfimo. Em linguagem geométrica, a completude diz que uma fronteira obtida por aproximações sucessivas não desaparece por causa de uma lacuna na reta real.
Por que \(\sqrt2\) existe em \(\mathbb R\), embora não exista em \(\mathbb Q\)?
Considere
O conjunto é não vazio, pois \(1\in S\), e é limitado superiormente, pois nenhum \(x\geq 2\) pertence a \(S\). Pela completude, existe \(s=\sup S\). A posição de \(s\) é determinada pelos elementos cujos quadrados ainda são menores que \(2\). A propriedade de supremo força essa fronteira a satisfazer \(s^2=2\).
A demonstração detalhada verifica separadamente que as alternativas \(s^2\lt 2\) e \(s^2\gt 2\) contradizem a definição de supremo.
Se \(s^2\lt 2\), escolha \(h\gt 0\) suficientemente pequeno para que
Como \(0\lt h\lt 1\), temos \(h^2\lt h\). Portanto,
Logo, \(s+h\in S\), contradizendo o fato de \(s\) ser uma cota superior.
Como \(1\in S\), vale \(s\geq 1\gt 0\), o que legitima a divisão por \(2s\). Se \(s^2\gt 2\), escolha \(h\) com
Nesse caso,
Todo \(x\in S\) satisfaz \(x\lt s-h\); caso contrário, teríamos \(x^2\geq (s-h)^2\gt 2\). Assim, \(s-h\) seria uma cota superior de \(S\) menor que \(s\), novamente uma contradição. Restando apenas a possibilidade \(s^2=2\), concluímos que \(s=\sqrt2\).
A Proposição 1.1 mostra que essa fronteira não pertence a \(\mathbb Q\). O conjunto
é limitado superiormente, mas não possui supremo racional. Se um racional \(p\) fosse seu supremo, o mesmo argumento de pequenas perturbações, agora escolhendo \(h\) racional, mostraria que \(p^2=2\), o que é impossível. É nesse sentido preciso que os racionais possuem uma lacuna onde os reais contêm \(\sqrt2\).
\(A=(2,5]\). \(B=\{ 1/n:n\in \mathbb N^*\} \). \(C=\{ n/(n+1):n\in \mathbb N\} \). \(D=\mathbb Z\). \(\inf A=2\), sem mínimo; \(\sup A=\max A=5\). \(\inf B=0\), sem mínimo; \(\sup B=\max B=1\). \(\inf C=\min C=0\) e \(\sup C=1\), sem máximo. \(D\) não possui mínimo, máximo, ínfimo nem supremo em \(\mathbb R\).
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1.8 Potências e raízes
Para \(a\in \mathbb R\) e \(n\in \mathbb N^*\), definimos
Se \(a\ne 0\), definimos ainda
Neste livro, como valor numérico isolado, a expressão \(0^0\) permanecerá indefinida. Em uma soma polinomial, porém, \(x^0\) representa a função constante \(1\), inclusive quando o polinômio é avaliado em \(x=0\). Com expoentes inteiros, valem as propriedades usuais, respeitadas as condições que impedem divisões por zero:
A raiz \(n\)-ésima de um número \(a\) é um número real \(b\) tal que \(b^n=a\). Quando \(n\) é par, nenhum número negativo possui raiz \(n\)-ésima real, pois uma potência de expoente par de um número real é sempre não negativa. Se \(a\gt 0\), a equação
possui duas soluções reais, uma positiva e outra negativa. Isso acontece porque, para \(n\) par,
assim, se \(b\) é uma solução, \(-b\) também é. Quando \(a=0\), há apenas uma solução, \(b=0\).
Por convenção, o símbolo \(\sqrt[n]{a}\) representa sempre a solução não negativa. Portanto, por exemplo, \(b^2=9\) tem as duas soluções \(b=3\) e \(b=-3\), mas \(\sqrt9=3\). Quando \(n\) é ímpar, todo número real possui uma única raiz \(n\)-ésima real. Assim,
enquanto \(\sqrt{-8}\) não representa um número real.
Para uma base positiva \(a\) e um racional \(q=m/n\), com \(n\gt 0\), definimos
É possível demonstrar que o resultado não depende da fração escolhida para representar \(q\). Por exemplo,
Para bases negativas, a notação exige cuidado. Um expoente racional deve ser escrito em forma irredutível e só produz um valor real quando seu denominador é ímpar. Assim, \((-27)^{1/3}=-3\), mas não há uma definição real de \((-27)^x\) para todo expoente real \(x\).
Para \(a\gt 0\), a potência \(a^x\) também pode ser definida quando o expoente \(x\) é irracional. A construção utiliza aproximações racionais e a completude dos reais. Adotaremos aqui essa extensão e registraremos as propriedades que ela preserva:
para bases positivas, sempre que as expressões envolvidas estiverem definidas.
A desigualdade de Bernoulli fornece uma comparação fundamental entre uma potência e sua aproximação linear.
Para \(n=0\), há igualdade. Suponha que a desigualdade valha para algum \(n\in \mathbb {N}\). Como \(1+t\geq 0\),
A conclusão segue por indução.
As propriedades das potências e das raízes também permitem simplificar expressões algébricas, desde que as restrições sejam preservadas.
\(27^{2/3}\). \(16^{-3/4}\). \((-27)^{1/3}\). Explique por que \((-16)^{1/2}\) não é um número real. \(\dfrac {a^6a^{-2}}{a^3}\). \(\sqrt{18x^2}\). \(27^{2/3}=(\sqrt[3]{27})^2=9\). \(16^{-3/4}=1/16^{3/4}=1/8\). \((-27)^{1/3}=-3\). Todo quadrado real é não negativo; portanto, não existe real cujo quadrado seja \(-16\). \(a^{6-2-3}=a\), com \(a\ne 0\). \(3\sqrt2\, |x|\), para todo \(x\in \mathbb {R}\). \(a^0=1\). \(a^{-n}=1/a^n\). \(a^x\), para todo expoente real \(x\), é definido pelas regras acima.
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Síntese
A estrutura dos números reais reúne operações, ordem e completude. Dos axiomas algébricos decorrem propriedades como \(a\cdot 0=0\), o cancelamento e a regra do produto nulo; a distributividade está na base da fatoração e das manipulações algébricas. Os axiomas de ordem explicam as regras das desigualdades. A completude garante a existência de fronteiras como supremos e, em particular, permite estabelecer a existência de números como \(\sqrt2\).
Essas propriedades não são independentes das técnicas de cálculo algébrico: elas determinam quando uma transformação é válida, quais restrições de domínio devem ser preservadas e por que certas regras funcionam.