Capítulo 15

Aplicações da integral

Dê-me um ponto de apoio e moverei a Terra.
Arquimedes, segundo Papo de Alexandria
Nas aplicações, a primeira etapa consiste em determinar qual integral representa a quantidade procurada. O princípio é o mesmo das somas de Riemann. Divide-se o objeto em pequenas partes, aproxima-se a contribuição de cada parte e passa-se ao limite. Áreas, volumes, trabalho, comprimento de arco, área de superfície e centro de massa diferem geometricamente, mas compartilham essa mesma estrutura de acumulação. Em cada caso, a escolha da variável e da contribuição elementar determina a fórmula integral.

15.1 Construção de fórmulas integrais

Considere uma função \(f\) limitada e contínua por partes em \([a,b]\) e uma partição

\[ P=\{ x_0,x_1,\ldots ,x_n\} ,\qquad a=x_0\lt x_1\lt \cdots \lt x_n=b. \]

Seja \(\Delta x_i=x_i-x_{i-1}\) o comprimento do \(i\)-ésimo subintervalo e escolha uma marca \(c_i\in [x_{i-1},x_i]\). A soma

\[ \sum _{i=1}^n f(c_i)\Delta x_i \]

é uma soma de Riemann. Para uma função limitada e contínua por partes, pelo Teorema 13.5, quando a malha da partição tende a zero,

\[ \lim _{\left\lvert P\right\rvert \to 0}\sum _{i=1}^n f(c_i)\Delta x_i=\int _a^b f(x)\mathop{}\! \mathrm{d} x. \]

Partições uniformes serão usadas com frequência por conveniência, mas não são essenciais. O princípio é sempre o mesmo: aproximar a quantidade por uma soma de pequenas contribuições e passar ao limite. O quadro a seguir resume essa construção.

Aplicação da Estratégia de Integrais Definidas
Considere uma quantidade \(Q\) cujo valor deve ser calculado.
  1. Divida a quantidade em \(n\) “subquantidades” menores de valores \(Q_i\).

  2. Identifique a variável \(x\) e a função \(f(x)\) de tal forma que cada subquantidade possa ser aproximada pelo produto \( f (c_i) \Delta x_i \), em que \( \Delta x_i \) representa uma pequena mudança em \( x \). Assim, \(Q_i \approx f (c_i) \Delta x_i \).

  3. Reconheça que \( Q= \sum _{i=1}^n Q_i \approx \sum _{i=1}^n f(c_i) \Delta x_i\), que é uma soma de Riemann.

  4. Fazendo \(\left\lvert P\right\rvert \to 0\), obtemos \( Q = \displaystyle \int _a^b f(x)\mathop{}\! \mathrm{d} x\).

15.2 Áreas

15.2.1 Área entre duas curvas

O problema da área sob um gráfico pode ser ampliado para uma região entre duas curvas. Em cada faixa vertical, a contribuição passa a depender da distância entre o gráfico superior e o inferior, mantendo a mesma construção por somas de Riemann.

Sejam \(f\) e \(g\) funções contínuas em \([a,b]\), tais que \(g(x) \leq f(x)\) para todo \(x \in [a,b]\); então, \(f(x) - g(x)\) é contínua em \([a,b]\) e \(f(x) - g(x)\geq 0\). Considere \(P=\{ x_0,\ldots ,x_n\} \) uma partição de \([a,b]\) em subintervalos de igual comprimento, então a soma de Riemann

\begin{equation*} \displaystyle \displaystyle \sum _{i=1}^n \left(f(x_i^{\star })-g(x_i^{\star })\right) \Delta x_i \end{equation*}

é uma aproximação para a área entre as curvas \(f(x)\) e \(g(x)\).

Figura 15.1 Cada retângulo tem altura f(x_i^*)-g(x_i^*), de modo que sua área aproxima a região entre as curvas.

Figura 15.1 Cada retângulo tem altura \(f(x_i^*)-g(x_i^*)\), de modo que sua área aproxima a região entre as curvas.

Figura 15.2 Aproximação da área entre duas curvas por retângulos.
Como \(f-g\) é contínua e não negativa em \([a,b]\), o limite das somas de Riemann existe e fornece a definição seguinte.
Definição 15.1 (Área entre curvas — faixas verticais)
Sejam \(f\) e \(g\) contínuas em \([a,b]\), com \(f(x)\geq g(x)\) em todo o intervalo. A área da região limitada por \(y=f(x)\), \(y=g(x)\), \(x=a\) e \(x=b\) é
\[ A=\int _a^b\bigl(f(x)-g(x)\bigr)\, \mathop{}\! \mathrm{d} x. \]

Exemplo 15.1
Calcule a área da região limitada por \(y=xe^{-x^2}\), \(y=e^x\), \(x=-1\) e \(x=1\).

Figura 15.3 Região limitada por y=xe^(-x^2), y=e^x, x=-1 e x=1.

Figura 15.3 Região limitada por \(y=xe^{-x^2}\), \(y=e^x\), \(x=-1\) e \(x=1\).

Solução
Para \(-1\leq x\leq 0\), temos \(xe^{-x^2}\leq 0\lt e^x\). Para \(0\lt x\leq 1\), vale \(xe^{-x^2}\leq x\leq 1\lt e^x\). Portanto, a área é dada por:
\begin{align*} A & =\displaystyle \int _{-1}^1(e^x-xe^{-x^2})\mathop{}\! \mathrm{d} x \\ & =\displaystyle \int _{-1}^1 e^x \mathop{}\! \mathrm{d} x -\displaystyle \int _{-1}^1 xe^{-x^2} \mathop{}\! \mathrm{d} x \\ \text{A segunda integral é nula por paridade. Também podemos usar a primitiva $-e^{-x^2}/2$ para seu integrando:} & =\left[e^x\right]_{-1}^{1}+\frac12\left[e^{-x^2}\right]_{-1}^{1} \\ & = \left(e^x +\dfrac {1}{2}e^{-x^2} \right)\bigg|^1_{-1} \\ & = e-\dfrac {1}{e} \end{align*}

Exemplo 15.2
Calcule a área da região compreendida entre os gráficos de \(y=x^2\) e \(y=\sqrt{x}\).

Figura 15.4 Área entre os gráficos de y=x^2 e y=√x.

Figura 15.4 Área entre os gráficos de \(y=x^2\) e \(y=\sqrt{x}\).

Solução
Primeiramente, determinaremos os pontos nos quais as curvas \(y=x^2\) e \(y=\sqrt{x}\) se intersectam. Igualando as equações, temos que \(x^2=\sqrt{x}\); resolvendo, obtemos que as curvas se intersectam em \(x=0\) e \(x=1\). Observamos que \( x^2\leq y \leq \sqrt{x}\) para todo \(x \in [0,1]\). Consequentemente, a área é dada pela integral:
\[ A = \displaystyle \int _0^1 (\sqrt{x} - x^2) \mathop{}\! \mathrm{d} x = \dfrac {1}{3}. \]

Exemplo 15.3
Mostre que a área do círculo de raio \(r\) é \(\pi r^2\).

Figura 15.5 A área do círculo é duas vezes a área sob o semicírculo superior y=√r^2-x^2.

Figura 15.5 A área do círculo é duas vezes a área sob o semicírculo superior \(y=\sqrt{r^2-x^2}\).

Solução
A área do círculo de raio \(r\) pode ser calculada pela integral
\[ \int _{-r}^r\Bigl[\sqrt{r^2-x^2}-\bigl(-\sqrt{r^2-x^2}\bigr)\Bigr]\, \mathop{}\! \mathrm{d} x =2\int _{-r}^r\sqrt{r^2-x^2}\, \mathop{}\! \mathrm{d} x. \]
Para calcular a integral, faremos a substituição: \(x=r \operatorname {sen}\theta \) e assim \(\mathop{}\! \mathrm{d} x=r\cos \theta \mathop{}\! \mathrm{d}\theta \). Usamos aqui a substituição trigonométrica estudada na Seção 14.4. Com essa substituição, temos que: \(\theta = \operatorname {arcsen}\left( \dfrac {x}{r} \right)\)
\begin{align*} \displaystyle \int _{-r}^r \sqrt{r^2 - x^2}\mathop{}\! \mathrm{d} x & =\displaystyle \int _{-\frac{\pi }{2}}^{\frac{\pi }{2}}\sqrt{r^2(1-\operatorname {sen}^2 \theta )} \cdot r \cos \theta \mathop{}\! \mathrm{d} \theta \\ & =\displaystyle \int _{-\frac{\pi }{2}}^{\frac{\pi }{2}} r^2 \cos ^2 \theta \mathop{}\! \mathrm{d} \theta \\ & =\dfrac {r^2}{2}\displaystyle \int _{-\frac{\pi }{2}}^{\frac{\pi }{2}}(1+\cos 2\theta )\mathop{}\! \mathrm{d} \theta \\ & =\dfrac {r^2}{2}\left( \theta \bigg|_{-\frac{\pi }{2}}^{\frac{\pi }{2}}+ \left[ \dfrac {1}{2} \operatorname {sen}2\theta \right]\bigg|_{-\frac{\pi }{2}}^{\frac{\pi }{2}} \right) \\ & =\dfrac {\pi r^2}{2} \end{align*}
Portanto, a área do círculo é \(2\cdot \dfrac {\pi r^2}{2}=\pi r^2\).

15.2.2 Integrando em relação a \(y\)

A escolha das faixas deve acompanhar a forma da região. Quando suas fronteiras são mais simples de descrever como funções de \(y\), faixas horizontais podem facilitar o cálculo; nesse caso, integramos em relação a \(y\) a distância entre as fronteiras direita e esquerda. Considere, por exemplo, a região \(R\) delimitada pelos gráficos de \(x = f (y)\) e \(x = g (y)\), em que \(f (y)\geq g(y)\), e pelas linhas horizontais \(y=c\) e \(y=d\). Nesse caso, a área é obtida integrando em relação a \(y\) a distância entre as fronteiras direita e esquerda.

Definição 15.2 (Área entre curvas — faixas horizontais)
Sejam \(f\) e \(g\) contínuas em \([c,d]\), com \(f(y)\geq g(y)\) em todo o intervalo. A área da região limitada por \(x=f(y)\), \(x=g(y)\), \(y=c\) e \(y=d\) é
\[ A=\int _c^d\bigl(f(y)-g(y)\bigr)\, \mathop{}\! \mathrm{d} y. \]

Exemplo 15.4
Calcule a área da região compreendida entre os gráficos de \(y=x-2\) e \(x=y^2\)

Figura 15.6 Região limitada por y=x-2 e x=y^2.

Figura 15.6 Região limitada por \(y=x-2\) e \(x=y^2\).

Solução

Começaremos calculando a intersecção das duas curvas: Igualando as equações, temos \(x=y+2=y^2\) e, logo, \(y^2-y-2=0\). Assim, as curvas se intersectam em \(y=-1\) e \(y=2\). Integrando em relação a \(y\), temos:

\begin{align*} A=\displaystyle \int _{-1}^{2} \big((y+2)-y^2\big) \mathop{}\! \mathrm{d} y =\left[ \dfrac {y^2}{2}+2y-\dfrac {y^3}{3}\right]_{-1}^{2}=\dfrac {9}{2}. \end{align*}

15.2.3 Curvas que se entrelaçam

Até aqui, identificamos uma curva superior e uma inferior em todo o intervalo. Se os gráficos se cruzam e trocam de posição, essa ordem precisa ser examinada por trechos. Para calcular a área entre \(f\) e \(g\), dividimos a região nos pontos de troca e, em cada sub-região, integramos a diferença entre a função que está acima e a que está abaixo.

Exemplo 15.5
Encontre a área da região \(R\) limitada pelos gráficos de \(y=\cos x\) e \(y=\dfrac {2}{\pi }x-1\) e as retas verticais \(x=0\) e \(x=\pi \).

Figura 15.7 Regiões entre y=cos x e y=2x/π -1 no intervalo [0,π ].

Figura 15.7 Regiões entre \(y=\cos x\) e \(y=2x/\pi -1\) no intervalo \([0,\pi ]\).

Solução
\begin{align*} A_1 & =\displaystyle \int _0^{\pi /2} [f(x)-g(x)]\mathop{}\! \mathrm{d} x \quad \text{ \scriptsize {f(x)>g(x)}}\\ & =\displaystyle \int _0^{\pi /2} \left[ \cos x - \left(\dfrac {2}{\pi }x-1\right) \right] \mathop{}\! \mathrm{d} x \\ & = \left[\operatorname {sen}x - \dfrac {x^2}{\pi }+x \right]\bigg|_0^{\pi /2}=\dfrac {4+\pi }{4} \end{align*}
e
\begin{align*} A_2 & =\displaystyle \int _{\pi /2}^{\pi } [g(x)-f(x)]\mathop{}\! \mathrm{d} x \quad \text{ \scriptsize {g(x)>f(x)}} \\ & =\displaystyle \int _{\pi /2}^{\pi } \left[ \dfrac {2}{\pi }x-1-\cos x \right] \mathop{}\! \mathrm{d} x \\ & = \left[ \dfrac {x^2}{\pi }-x -\operatorname {sen}x \right]\bigg|_{\pi /2}^{\pi }=\dfrac {4+\pi }{4} \end{align*}
Assim, a área total é
\[ A=A_1+A_2=2+\dfrac {\pi }{2} \]

Exercício 15.1
Nos seis itens seguintes, encontre a área da região sombreada no gráfico.
  1. Ilustração: Curvas que se entrelaçam

  2. Ilustração: Curvas que se entrelaçam

  3. Ilustração: Curvas que se entrelaçam

  4. Ilustração: Curvas que se entrelaçam

  5. Ilustração: Curvas que se entrelaçam

  6. Ilustração: Curvas que se entrelaçam

Ver solução
  1. Integrando a diferença entre as curvas em \([0,2\pi ]\), obtemos

    \[ A=\int _0^{2\pi }\left(\frac{x}{2}-\frac{\cos x}{2}+2\right)\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=\pi (\pi +4). \]
  2. Em \([-1,1]\),

    \[ A=\int _{-1}^{1}(-3x^3-x^2+2x+3)\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=\frac{16}{3}. \]
  3. A altura da região é constante e igual a \(1\), logo \(A=\int _0^\pi 1\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=\pi \).

  4. Em \([0,\pi /4]\),

    \[ A=\int _0^{\pi /4}\bigl(\sec ^2x-\operatorname {sen}(4x)\bigr)\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=\frac12. \]
  5. Como \(4^x\geq 2^x\) em \([0,1]\),

    \[ A=\int _0^1(4^x-2^x)\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=\frac{1}{2\ln 2}=\frac1{\ln 4}. \]
  6. Novamente a altura é \(1\) em um intervalo de comprimento \(\pi \), portanto \(A=\pi \).

Exercício 15.2
Esboce a região delimitada pelas curvas e decida se a integração deve ser feita em relação à variável \(x\) ou \(y\). Desenhe um retângulo típico com sua altura e largura. Finalmente ache a área da região.
  1. \(y=x+1, \quad y=9-x^2, \quad x=-1, \quad x=2\)

  2. \(y=\operatorname {sen}(x), \quad y=x^2\)

  3. \(y=x^2, y=x^4\)

  4. \(\sqrt{x}+\sqrt{y}=1 \quad x+y=1\)

  5. \(y=1/x, \quad y=1/x^2, \quad x=2 \)

  6. \(x=2y^2 \quad x+y=1\)

  7. \(y=\cos x,\quad y=1-2x/\pi \)

  8. \(y=\operatorname {sen}(\pi x) \quad y=x^2-x \quad x=2\)

  9. \(y=\sec ^2x,\quad y=\cos x,\quad x=-\pi /3,\quad x=\pi /3\).

Ver solução
  1. Faixas verticais em \([-1,2]\), altura \((9-x^2)-(x+1)\). Assim, \(A=\int _{-1}^2(8-x-x^2)\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=\frac{39}{2}\).

  2. Seja \(a\approx 0{,}876726\) a raiz positiva de \(\operatorname {sen}a=a^2\). A região está em \(0\leq x\leq a\), entre \(x^2\) e \(\operatorname {sen}x\). Logo, \(A=\int _0^a(\operatorname {sen}x-x^2)\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=1-\cos a-a^3/3\approx 0{,}135698\). A raiz é única em \((0,1)\), pois \(\operatorname {sen}x-x^2\) é estritamente côncava ali, começa com derivada positiva e vale um número negativo em \(1\).

  3. Faixas verticais em \([-1,1]\), altura \(x^2-x^4\). Logo, \(A=\int _{-1}^1(x^2-x^4)\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=\frac{4}{15}\).

  4. No primeiro quadrante, \(y=(1-\sqrt x)^2\) e \(y=1-x\), para \(0\leq x\leq 1\). Então \(A=\int _0^1[1-x-(1-\sqrt x)^2]\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=\frac{1}{3}\).

  5. As curvas se encontram em \(x=1\). Para \(1\leq x\leq 2\), \(1/x\geq 1/x^2\). Assim, \(A=\int _1^2(x^{-1}-x^{-2})\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=\ln 2-1/2\).

  6. Faixas horizontais, \(-1\leq y\leq 1/2\), entre \(x=2y^2\) e \(x=1-y\). Portanto \(A=\int _{-1}^{1/2}(1-y-2y^2)\, \mathop{}\! \mathrm{d} y=\frac{9}{8}\).

  7. As interseções ocorrem em \(0\), \(\pi /2\) e \(\pi \). A área das duas regiões é \(A=2\int _0^{\pi /2}(\cos x-1+2x/\pi )\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=2-\pi /2\). Em \([0,\pi /2]\), a concavidade do cosseno o coloca acima da corda; a simetria em torno de \((\pi /2,0)\) descreve a outra metade.

  8. As fronteiras trocam de ordem em \(x=1\). No intervalo \([0,1]\), o seno é não negativo e \(x^2-x\) é não positivo; em \([1,2]\), ocorre o contrário. Assim, \(A=\int _0^1[\operatorname {sen}(\pi x)-x^2+x]\, \mathop{}\! \mathrm{d} x+\int _1^2[x^2-x-\operatorname {sen}(\pi x)]\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=1+\frac{4}{\pi }\).

  9. Faixas verticais entre \(\cos x\) e \(\sec ^2x\), para \(-\pi /3\leq x\leq \pi /3\). Portanto \(A=2\int _0^{\pi /3}(\sec ^2x-\cos x)\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=\sqrt3\).

Nos esboços a seguir, o segmento tracejado indica a altura (ou a largura, no item 6) de uma faixa típica; sua espessura é \(\mathop{}\! \mathrm{d} x\) (ou \(\mathop{}\! \mathrm{d} y\)). As curvas e os intervalos usados no cálculo estão identificados em cada item. Ilustração: Curvas que se entrelaçam
Exercício 15.3
Ache a área da região delimitada pela parábola \(y=x^2\), pela reta tangente a essa parábola no ponto \((1,1)\) e pelo eixo \(x\).
Ver solução
A tangente é \(y=2x-1\), que encontra o eixo \(x\) em \(x=1/2\). A região tem fronteira superior \(x^2\); a inferior é \(0\) em \([0,1/2]\) e \(2x-1\) em \([1/2,1]\). Logo, \(A=\int _0^{1/2}x^2\, \mathop{}\! \mathrm{d} x+\int _{1/2}^1[x^2-(2x-1)]\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=1/12\).
Exercício 15.4
Ache o número \(b\) tal que a reta \(y=b\) divida a região limitada pelas curvas \(y=x^2\) e \(y=4\) em duas regiões de áreas iguais.
Ver solução
A região tem \(0\leq y\leq 4\) e \(-\sqrt y\leq x\leq \sqrt y\). Uma faixa horizontal tem largura \(2\sqrt y\), de modo que sua área total é
\[ A=\int _0^4 2\sqrt y\, \mathop{}\! \mathrm{d} y=\frac{32}{3}. \]
A reta \(y=b\), com \(0\lt b\lt 4\), divide a área ao meio quando
\[ \int _0^b2\sqrt y\, \mathop{}\! \mathrm{d} y=\frac{16}{3}. \]
Portanto, \(\frac43 b^{3/2}=\frac{16}{3}\) e \(b=4^{2/3}\).
Exercício 15.5
Determine \(c\) para que a área da região delimitada pelas parábolas \(y=x^2-c^2\) e \(y=c^2-x^2\) seja 576.
Ver solução
As curvas se encontram em \(x=\pm |c|\). A área é \(\int _{-|c|}^{|c|}2(c^2-x^2)\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=8|c|^3/3\). Igualando a \(576\), obtemos \(|c|^3=216\), portanto \(c=6\) ou \(c=-6\). Se \(c\) for convencionado como parâmetro positivo, a resposta é \(6\).
Exercício 15.6
Use integração para deduzir a área da elipse
\[ \frac{x^2}{a^2}+\frac{y^2}{b^2}=1, \qquad a,b\gt 0. \]
Ver solução
Por simetria, basta calcular quatro vezes a área no primeiro quadrante. Ali, \(y=b\sqrt{1-x^2/a^2}\), portanto
\[ A=4b\int _0^a\sqrt{1-\frac{x^2}{a^2}}\, \mathop{}\! \mathrm{d} x. \]
Com \(x=a\operatorname {sen}\theta \), \(0\leq \theta \leq \pi /2\), obtemos
\[ A=4ab\int _0^{\pi /2}\cos ^2\theta \, \mathop{}\! \mathrm{d}\theta =4ab\frac{\pi }{4}=\pi ab. \]
Exercício 15.7
Nos próximos itens encontre a área da região delimitada pelas funções de duas maneiras: 1. descrevendo as fronteiras como funções de \(x\), e 2. descrevendo as fronteiras como funções de \(y\).
  1. Ilustração: Curvas que se entrelaçam

  2. Ilustração: Curvas que se entrelaçam

  3. Ilustração: Curvas que se entrelaçam

  4. Ilustração: Curvas que se entrelaçam

Ver solução
  1. Em \(x\): \(A=\int _0^1x^2\, \mathop{}\! \mathrm{d} x+\int _1^3(x-3)^2/4\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=1\). Em \(y\): \(A=\int _1^2[3-3\sqrt{y-1}]\, \mathop{}\! \mathrm{d} y=1\).

  2. Em \(x\): \(A=\int _0^1(\sqrt x+x/2)\, \mathop{}\! \mathrm{d} x+\int _1^2(3-3x/2)\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=5/3\). Em \(y\): \(A=\int _{-1}^0[(3-y)/2+2y]\, \mathop{}\! \mathrm{d} y+\int _0^1[(3-y)/2-y^2]\, \mathop{}\! \mathrm{d} y=5/3\).

  3. Em \(y\): \(A=\int _{-2}^1(1-y/2-y^2/2)\, \mathop{}\! \mathrm{d} y=9/4\). Em \(x\): \(A=\int _0^{1/2}2\sqrt{2x}\, \mathop{}\! \mathrm{d} x+\int _{1/2}^2[2-2x+\sqrt{2x}]\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=9/4\).

  4. Em \(x\): \(A=\int _0^1x^{1/3}\, \mathop{}\! \mathrm{d} x-\int _{1/2}^1\sqrt{x-1/2}\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=3/4-\sqrt2/6\). Em \(y\): \(A=\int _0^{1/\sqrt2}(y^2+1/2-y^3)\, \mathop{}\! \mathrm{d} y+\int _{1/\sqrt2}^1(1-y^3)\, \mathop{}\! \mathrm{d} y=3/4-\sqrt2/6\).

15.3 Volume

15.3.1 Secções transversais

Para calcular áreas, somamos contribuições de faixas estreitas. No espaço, podemos proceder de modo semelhante, dividindo um sólido em fatias: a área de cada secção transversal, multiplicada pela espessura, aproxima o volume da fatia.

Seja \( S \) um sólido limitado pelos planos \(x=a\) e \(x=b\), como o primeiro da Figura 15.8. Quando interceptamos o sólido \( S \) com um plano, obtemos uma região plana denominada secção transversal de \(S.\) Na segunda imagem da figura 15.8 apresentamos uma seção transversal de \(S\).

Figura 15.8 Um plano perpendicular ao eixo x corta o sólido S em uma região de área A(x). Figura 15.8 Um plano perpendicular ao eixo x corta o sólido S em uma região de área A(x).

Figura 15.8 Um plano perpendicular ao eixo \(x\) corta o sólido \(S\) em uma região de área \(A(x)\).

Denotaremos por \( A(x) \) a área da secção transversal perpendicular ao eixo \(x\) e que passa pelo ponto \(x\), com \(x \in [a,b]\). Para obter uma soma de Riemann, considere uma partição \(P=(x_i)\) de \([a,b]\) e divida o sólido \(S\) em \(n\) fatias pelos planos \(P_{x_1},\ldots ,P_{x_{n-1}}\). A Figura 15.9a representa essa decomposição. Escolhemos, então, pontos \( x^*_i \in [x_{i-1},x_i] \) e consideramos a seção transversal que passa por \(x^*_i\). O volume da i-ésima fatia \( S_i \) pode ser aproximado pelo volume do cilindro reto cuja base é a seção que passa por \(x^*_i\) e cuja altura é \(\Delta x_i .\) A aproximação por cilindros é apresentada na Figura 15.9b.

(a) Fatias do sólido (b) Aproximação do sólido por cilindros
(a) Fatias do sólido
(a) Fatias do sólido (b) Aproximação do sólido por cilindros
(b) Aproximação do sólido por cilindros
Como a área da base de cada cilindro é \( A(x^*_i) \) e sua altura é \(\Delta x_i\), uma aproximação para o volume da i-ésima fatia \(S_i \) é

Figura 15.9 A fatia de espessura Δ x_i tem volume aproximado A(x_i^*)Δ x_i.

Figura 15.9 A fatia de espessura \(\Delta x_i\) tem volume aproximado \(A(x_i^*)\Delta x_i\).

\[ V(S_i) \approx A(x^*_i) \Delta x_i. \]

Somando os volumes dessas fatias, obtemos uma aproximação para o volume total:

\[ V \approx \displaystyle \sum _{i=1}^n A(x^*_i) \Delta x_i. \]

Fazendo o tamanho da partição tender a zero, \(\left\lvert P\right\rvert \to 0\), temos:

\[ V = \displaystyle \lim _{\left\lvert P\right\rvert \to 0}\displaystyle \sum _{i=1}^n A(x^*_i) \Delta x_i = \displaystyle \int _a^b A(x) \mathop{}\! \mathrm{d} x . \]

Definição 15.3 (Volume por seções transversais)
Seja \(S\) um sólido limitado pelos planos perpendiculares ao eixo \(x\) em \(x=a\) e \(x=b\). Se a área da seção transversal perpendicular ao eixo é \(A(x)\), com \(A\) contínua em \([a,b]\), definimos o volume de \(S\) por
\[ V=\int _a^b A(x)\, \mathop{}\! \mathrm{d} x. \]

Exemplo 15.6
Determine o volume de uma pirâmide com base quadrada de lado \(l\) e altura \(h\).

Figura 15.10 A seção à altura y é um quadrado de lado 2x; a semelhança fornece x/(l/2)=(h-y)/h.

Figura 15.10 A seção à altura \(y\) é um quadrado de lado \(2x\); a semelhança fornece \(x/(l/2)=(h-y)/h\).

Solução

Uma fatia da pirâmide à altura \(y\) é um quadrado de lado \(2x\). Por semelhança de triângulos,

\[ \frac{x}{l/2}=\frac{h-y}{h}, \qquad \text{isto é,}\qquad x=\frac{l}{2h}(h-y). \]

Logo, a área da seção transversal é

\[ A(y)=(2x)^2=4x^2=\frac{l^2}{h^2}(h-y)^2. \]

Como a pirâmide está entre os planos \(y=0\) e \(y=h\), temos que o volume é dado pela integral:

\begin{align*} V & = \displaystyle \int _{0}^{h} A(y) \mathop{}\! \mathrm{d} y= \displaystyle \int _{0}^{h}\dfrac {l^2}{h^2}(h-y)^2\mathop{}\! \mathrm{d} y\\ & =\left[-\dfrac {l^2}{3h^2}(h-y)^3\right]\bigg|_0^h= \dfrac {1}{3}l^2h \end{align*}

Exemplo 15.7
Mostre que o volume da esfera de raio \(r\) é \(\dfrac {4 \pi r^3} 3\).

Figura 15.11 Na posição x, a seção da esfera é um círculo de raio R(x)=√r^2-x^2.

Figura 15.11 Na posição \(x\), a seção da esfera é um círculo de raio \(R(x)=\sqrt{r^2-x^2}\).

Solução
A seção transversal da esfera por \(x\) é um círculo de raio \(R(x)\). Pelo Teorema de Pitágoras, temos que \(R(x) = \sqrt{r^2 - x^2}\). Logo, o volume é dado por
\begin{align*} V & =\pi \displaystyle \int _{-r}^r \left({\sqrt{r^2 - x^2} }\right)^2 \mathop{}\! \mathrm{d} x\\ & =\pi \displaystyle \int _{-r}^r \left({r^2 - x^2}\right) \mathop{}\! \mathrm{d} x \\ & =\left.{\pi \ r^2 x - \pi \dfrac {x^3} 3} \ \right\vert _{x=-r}^{x=r} \\ & = \left({\pi r^3 - \pi \dfrac {r^3} 3}\right) - \left(-\pi r^3+\frac{\pi r^3}{3}\right)\\ & =2 \pi r^3 - \dfrac 2 3 \pi r^3\\ & = \dfrac {4 \pi r^3} 3 \end{align*}

Exemplo 15.8 (Sólido de Steinmetz)
Calcule o volume da região delimitada pela intersecção de dois cilindros, ambos de raio \(r\), se os eixos dos cilindros se intersectam perpendicularmente.

Figura 15.12 Sólido de Steinmetz e suas seções transversais quadradas.

Solução
Uma seção do sólido perpendicular ao eixo \(z\) é um quadrado de lado \(2x\). Uma vez que o sólido é obtido a partir da intersecção de dois cilindros de raio \(r\), a metade do lado do quadrado, \(x\), e a altura \(z\) são relacionadas por
\[ x^2+z^2=r^2 \]
Dessa forma, a área do quadrado é \(A=(2x)^2\), que pode ser expressa em termos de \(z\) como
\[ A(z)=4x^2=4(r^2-z^2). \]
O método de integração por seções transversais fornece, então, por simetria, que o volume é dado por
\[ V=2\int _0^rA(z)\, \mathop{}\! \mathrm{d} z=8\int _0^r(r^2-z^2)\, \mathop{}\! \mathrm{d} z=8\left(r^3-\frac{r^3}{3}\right)=\frac{16}{3}r^3. \]

15.3.2 Sólidos de revolução

Um caso particular importante no qual podemos utilizar o método das seções transversais ocorre quando o sólido \( S \) é obtido por rotação, em torno do eixo \(x,\) da região

\[ A = \{ (x,y) \in \mathbb {R}^2\mid a\leq x\leq b,\ 0\leq y\leq f(x)\} , \]

onde \(f\) é contínua e não negativa em \([a,b]\).

Ilustração: Sólidos de revolução

Figura 15.13 Uma fatia perpendicular ao eixo de rotação é aproximada por um disco de raio f(x_i^*) e espessura Δ x_i.

Figura 15.13 Uma fatia perpendicular ao eixo de rotação é aproximada por um disco de raio \(f(x_i^*)\) e espessura \(\Delta x_i\).
Nesse caso, temos que a área da seção transversal que passa por \(x\) é

\[ A(x) = \pi [f(x)]^2. \]

Consequentemente, temos que o volume do sólido \(S\) obtido por rotação, em torno do eixo \(x,\) do conjunto \(A\) é

\[ V = \displaystyle \pi \displaystyle \int ^b_a[f(x)]^2\mathop{}\! \mathrm{d} x. \]
Método dos Discos
Seja \(f\) contínua e não negativa em \([a,b]\). Seja \(S\) o sólido obtido pela rotação da região entre \(y=0\) e \(y=f(x)\), para \(a\leq x\leq b\), em torno do eixo \(x\). O volume do sólido \(S\) é dado por
\[ V = \pi \displaystyle \int _a^b f(x)^2 \mathop{}\! \mathrm{d} x. \]

Exemplo 15.9
Encontre o volume do sólido obtido pela rotação em torno do eixo \(x\) da região sob a curva \( y = \sqrt{x} \) de \(0\) até \(4\).

Solução
Quando fatiamos o sólido por um plano perpendicular ao eixo \(x\) e que passa pelo ponto \(x,\) obtemos um disco de raio \(\sqrt{x}.\) Logo a área da secção transversal é
\[ A(x) = \pi (\sqrt{x})^2 = \pi x . \]
Portanto, o volume do sólido é
\[ V = \displaystyle \int _0^4 A(x) \mathop{}\! \mathrm{d} x = \pi \displaystyle \int _0^4 x \mathop{}\! \mathrm{d} x = \pi \dfrac {x^2}{2}\bigg|_0^4 = 8\pi . \]

De modo similar, para determinar o volume de um sólido obtido com a rotação, em torno do eixo \(y\), de uma região compreendida entre o eixo \(y\) e a curva \( x = f(y), c \leq y \leq d,\) observamos que a secção transversal é um círculo de área \(A(y) = \pi [f(y)]^2\quad \) e, consequentemente, o volume é dado por

\[ V = \displaystyle \displaystyle \int _c^d A(y)\, \mathop{}\! \mathrm{d} y. \]

Exemplo 15.10
Calcule o volume do sólido obtido pela rotação, em torno do eixo \(y,\) da região compreendida entre o eixo \( y \) e a curva \(x = \dfrac {2}{y}, 1 \leq y \leq 4.\)

Solução
O volume é
\[ V = \displaystyle \int _1^4 A(y)\, \mathop{}\! \mathrm{d} y = \pi \displaystyle \int _1^4 \left(\dfrac {2}{y} \right)^2\mathop{}\! \mathrm{d} y = 4 \pi \left( -\dfrac {1}{y}\right) \bigg|_1^4 = 3\pi . \]

Exemplo 15.11
Calcule o volume do sólido obtido pela rotação, em torno do eixo \(y\), da região compreendida entre a parábola \( y = x^2 \) e a reta \( y = 2x \) no primeiro quadrante.

Solução
A reta e a parábola se cortam em \( y = 0 \) e \(y=4, \) portanto os limites de integração são \( c = 0 \) e \( d = 4.\) O volume pode ser expresso então como
\[ V = V_1 - V_2 \]
em que \(V_1\) e \(V_2\) são os volumes dos sólidos obtidos pela rotação, em torno do eixo \(y,\) das curvas \( R(y) = \sqrt{y} \) e \( r(y) = \dfrac {y}{2},\) respectivamente. Assim,
\[ V_1 = \pi \displaystyle \int _0^4 (\sqrt{y})^2\mathop{}\! \mathrm{d} y = 8\pi \qquad V_2 = \pi \displaystyle \int _0^4 \dfrac {y^2}{4}\mathop{}\! \mathrm{d} y = \dfrac {16\pi }{3}. \]
Portanto, \( V = 8\pi - \dfrac {16\pi }{3} = \dfrac {8\pi }{3}.\)

Exemplo 15.12
Deduza a fórmula do volume do toro obtido ao girarmos o círculo \(x^2+(y-R)^2=r^2\), com \(R\gt r\gt 0\), em torno do eixo \(x\).

Figura 15.14 Toro obtido pela rotação de um círculo em torno do eixo x.

Figura 15.14 Toro obtido pela rotação de um círculo em torno do eixo \(x\).

Solução
A região é delimitada superiormente por \(y=R + \sqrt{r^2-x^2}\) e inferiormente por \(y=R - \sqrt{r^2-x^2}\) com \(x\in [-r,r]\). Assim, definindo \(K=\sqrt{r^2-x^2}\), o volume do toro é dado pela integral
\[ \displaystyle \int _{-r}^r \pi [ (R+K)^2 - (R-K)^2] \mathop{}\! \mathrm{d} x = \displaystyle \int _{-r}^r 4\pi R K \mathop{}\! \mathrm{d} x = 4\pi R\displaystyle \int _{-r}^r \sqrt{r^2-x^2} \mathop{}\! \mathrm{d} x. \]
Como \(\displaystyle \int _{-r}^r \sqrt{r^2-x^2} \mathop{}\! \mathrm{d} x\) é metade da área do círculo de raio \(r\), esta integral vale \(\dfrac {\pi r^2}{2}\). Assim o volume do toro é \(4\pi R \dfrac {\pi r^2}{2}= (2\pi R) (\pi r^2)\).


Exercício 15.8
Nos Exercícios 1 - 4, uma região do plano cartesiano é sombreada. Use o método das seções transversais para encontrar o volume do sólido de revolução formado pela rotação da região em torno do eixo x.
  1. Ilustração: Sólidos de revolução

  2. Ilustração: Sólidos de revolução

  3. Ilustração: Sólidos de revolução

  4. Ilustração: Sólidos de revolução

Ver solução
  1. As áreas das seções são \(\pi (x-x^2)\), de modo que \(V=\pi \int _0^1(x-x^2)\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=\pi /6\).

  2. O raio é \(3-x^2\) em \([-\sqrt3,\sqrt3]\); assim,

    \[ V=\pi \int _{-\sqrt3}^{\sqrt3}(3-x^2)^2\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=\frac{48\sqrt3\, \pi }{5}. \]
  3. Como o raio é \(5x\) para \(1\leq x\leq 2\), temos \(V=25\pi \int _1^2x^2\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=175\pi /3\).

  4. O método dos discos fornece \(V=\pi \int _0^{\pi /2}\cos ^2x\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=\pi ^2/4\).

Exercício 15.9
Nos Exercícios 1 - 4, uma região do plano cartesiano é sombreada. Use o método das seções transversais para encontrar o volume do sólido de revolução formado pela rotação da região em torno do eixo y.
  1. Ilustração: Sólidos de revolução

  2. Ilustração: Sólidos de revolução

  3. Ilustração: Sólidos de revolução

  4. Ilustração: Sólidos de revolução

Ver solução
  1. A área da arruela é \(\pi (y^2-y^4)\), logo \(V=\pi \int _0^1(y^2-y^4)\, \mathop{}\! \mathrm{d} y=2\pi /15\).

  2. As seções têm área \(\pi (3-y)\) para \(0\leq y\leq 3\), portanto \(V=9\pi /2\).

  3. Como a seção à altura \(y\) tem raio \(y/5\), obtemos \(V=\pi \int _5^{10}y^2/25\, \mathop{}\! \mathrm{d} y=35\pi /3\).

  4. Temos \(V=\pi \int _0^1(\arccos y)^2\, \mathop{}\! \mathrm{d} y=\pi ^2-2\pi \). Por partes, uma primitiva é \(y(\arccos y)^2-2\arccos y\sqrt{1-y^2}-2y\).

Exercício 15.10
Nos próximos itens, uma região do plano cartesiano é descrita. Encontre o volume do sólido de revolução formado pela rotação da região em torno de cada um dos eixos dados.
  1. Região limitada por: \(y=\sqrt{x}\), \(y=0\) e \(x=1\). Rotacionada em torno:

    1. o eixo \(x\)

    2. \(y=1\)

    3. o eixo \(y\)

    4. \(x=1\)

  2. Região limitada por: \(y=4-x^2\) e \(y=0\). Rotacionada em torno:

    1. o eixo \(x\)

    2. \(y=4\)

    3. \(y=-1\)

    4. \(x=2\)

  3. O triângulo de vértices \((1,1)\), \((1,2)\) e \((2,1)\). Rotacionada em torno:

    1. do eixo \(x\)

    2. de \(y=2\)

    3. do eixo \(y\)

    4. de \(x=1\)

  4. Região limitada por \(y=x^2-2x+2\) e \(y=2x-1\). Rotacionada em torno:

    1. o eixo \(x\)

    2. \(y=1\)

    3. \(y=5\)

  5. Região limitada por \(y=1/\sqrt{x^2+1}\), \(x=-1\), \(x=1\) e o eixo \(x\). Rotacionada em torno:

    1. do eixo \(x\)

    2. de \(y=1\)

    3. de \(y=-1\)

  6. Região limitada por \(y=2x\), \(y=x\) e \(x=2\). Rotacionada em torno:

    1. do eixo \(x\)

    2. \(y=4\)

    3. do eixo \(y\)

    4. \(x=2\)

Ver solução
    1. Em torno do eixo \(x\), \(V=\pi \int _0^1x\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=\pi /2\).

    2. Em torno de \(y=1\), as arruelas têm área \(\pi [1-(1-\sqrt x)^2]=\pi (2\sqrt x-x)\); portanto, \(V=5\pi /6\).

    3. Em torno do eixo \(y\), arruelas horizontais têm raio externo \(1\) e raio interno \(y^2\); assim, \(V=\pi \int _0^1(1-y^4)\, \mathop{}\! \mathrm{d} y=4\pi /5\).

    4. Em torno de \(x=1\), usamos discos horizontais de raio \(1-y^2\): \(V=\pi \int _0^1(1-y^2)^2\, \mathop{}\! \mathrm{d} y=8\pi /15\).

    1. Em torno do eixo \(x\), \(V=\pi \int _{-2}^{2}(4-x^2)^2\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=512\pi /15\).

    2. Em torno de \(y=4\), \(V=\pi \int _{-2}^{2}(16-x^4)\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=256\pi /5\).

    3. Em torno de \(y=-1\), \(V=\pi \int _{-2}^{2}[(5-x^2)^2-1]\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=832\pi /15\).

    4. Em torno de \(x=2\), use seções horizontais. Para \(0\leq y\leq 4\), os raios externo e interno são \(2+\sqrt{4-y}\) e \(2-\sqrt{4-y}\); portanto,

      \[ V=\pi \int _0^4\left[(2+\sqrt{4-y})^2-(2-\sqrt{4-y})^2\right]\, \mathop{}\! \mathrm{d} y =\frac{128\pi }{3}. \]
    1. Em torno do eixo \(x\), \(V=\pi \int _1^2[(3-x)^2-1]\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=4\pi /3\).

    2. Em torno de \(y=2\), \(V=\pi \int _1^2[1-(x-1)^2]\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=2\pi /3\).

    3. Em torno do eixo \(y\), as seções horizontais são arruelas de raio externo \(3-y\) e raio interno \(1\): \(V=\pi \int _1^2[(3-y)^2-1]\, \mathop{}\! \mathrm{d} y=4\pi /3\).

    4. Em torno de \(x=1\), discos horizontais de raio \(2-y\) fornecem \(V=\pi \int _1^2(2-y)^2\, \mathop{}\! \mathrm{d} y=\pi /3\).

    1. Em torno do eixo \(x\),

      \[ V=\pi \int _1^3[(2x-1)^2-(x^2-2x+2)^2]\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=\frac{104\pi }{15}. \]
    2. Em torno de \(y=1\),

      \[ V=\pi \int _1^3[(2x-2)^2-(x-1)^4]\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=\frac{64\pi }{15}. \]
    3. Em torno de \(y=5\),

      \[ V=\pi \int _1^3[(3+2x-x^2)^2-(6-2x)^2]\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=\frac{32\pi }{5}. \]
    1. Em torno do eixo \(x\), \(V=\pi \int _{-1}^{1}\frac{\mathop{}\! \mathrm{d} x}{1+x^2}=\pi ^2/2\).

    2. Em torno de \(y=1\),

      \[ V=\pi \int _{-1}^{1}\left(\frac{2}{\sqrt{1+x^2}}-\frac{1}{1+x^2}\right)\mathop{}\! \mathrm{d} x =4\pi \ln (1+\sqrt2)-\frac{\pi ^2}{2}. \]
    3. Em torno de \(y=-1\),

      \[ V=\pi \int _{-1}^{1}\left(\frac{2}{\sqrt{1+x^2}}+\frac{1}{1+x^2}\right)\mathop{}\! \mathrm{d} x =4\pi \ln (1+\sqrt2)+\frac{\pi ^2}{2}. \]
    1. Em torno do eixo \(x\), \(V=3\pi \int _0^2x^2\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=8\pi \).

    2. Em torno de \(y=4\), \(V=\pi \int _0^2[(4-x)^2-(4-2x)^2]\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=8\pi \).

    3. Em torno do eixo \(y\), usamos arruelas horizontais em dois intervalos:

      \[ V=\pi \int _0^2\left(y^2-\frac{y^2}{4}\right)\, \mathop{}\! \mathrm{d} y +\pi \int _2^4\left(4-\frac{y^2}{4}\right)\, \mathop{}\! \mathrm{d} y =\frac{16\pi }{3}. \]
    4. Em torno de \(x=2\), novamente dividimos as seções horizontais:

      \[ V=\pi \int _0^2\left[\left(2-\frac y2\right)^2-(2-y)^2\right]\, \mathop{}\! \mathrm{d} y +\pi \int _2^4\left(2-\frac y2\right)^2\, \mathop{}\! \mathrm{d} y =\frac{8\pi }{3}. \]
A ordem dos subitens é a dos eixos em cada enunciado. As integrais foram montadas com raios externos e internos não negativos; quando a descrição da seção horizontal muda com a altura, dividimos a integral nos intervalos correspondentes.
Exercício 15.11
Calcule o volume de um cone circular reto com altura 10 e raio da base 5. Ilustração: Sólidos de revolução
Ver solução
Medindo \(x\) a partir do vértice, a seção a distância \(x\in [0,10]\) tem raio \(x/2\) e área \(A(x)=\pi x^2/4\). Portanto, \(V=\int _0^{10}\pi x^2/4\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=250\pi /3\) unidades cúbicas.
Exercício 15.12
Calcule o volume de um cone circular oblíquo com altura 10 e raio da base 5. (Dica: todas as seções transversais são círculos). Ilustração: Sólidos de revolução
Ver solução
As seções paralelas à base, a uma mesma distância perpendicular do vértice, têm o mesmo raio que no cone do Exercício 15.11. Pelo princípio de Cavalieri, ou integrando \(A(x)=\pi x^2/4\) de \(0\) a \(10\), obtemos \(V=250\pi /3\) unidades cúbicas.
Exercício 15.13
Calcule o volume de uma pirâmide de altura 10 cuja base é um triângulo retângulo isósceles com catetos de comprimento 4. Ilustração: Sólidos de revolução
Ver solução
A distância perpendicular \(x\) ao vértice varia de \(0\) a \(10\). Por semelhança, cada seção tem catetos \(2x/5\) e área \(A(x)=\tfrac 12(2x/5)^2=2x^2/25\). Logo, \(V=\int _0^{10}2x^2/25\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=80/3\) unidades cúbicas.
Exercício 15.14
Calcule o volume do sólido de comprimento 10 representado a seguir. Uma extremidade é um quadrado de lado 5; a outra é um triângulo de base e altura 5, e as faces que as ligam são planas. Ilustração: Sólidos de revolução
Ver solução
Medimos \(x\in [0,10]\) a partir da face quadrada. A seção perpendicular ao comprimento é um trapézio de altura \(5\), base inferior \(5\) e base superior \(5-x/2\). Assim, \(A(x)=\frac52[5+(5-x/2)]=25-5x/4\). O volume é \(V=\int _0^{10}(25-5x/4)\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=375/2=187{,}5\) unidades cúbicas.

15.3.3 Cascas cilíndricas

A escolha da decomposição pode simplificar um volume de revolução. Cortes perpendiculares ao eixo de rotação produzem discos ou arruelas; faixas paralelas ao eixo produzem cascas cilíndricas. Nesta segunda descrição, cada faixa gera aproximadamente a superfície lateral de um cilindro fino.

Considere o sólido \( S\) obtido pela rotação, em torno do eixo \(y,\) da região limitada por \( y = f(x), \) onde \(f(x) \geq 0,\) e pelas retas \(y=0\), \(x=a\) e \(x=b\), com \(0\leq a\lt b\) e \(f\) contínua.

Figura 15.16 Sólido S obtido pela rotação, em torno do eixo y, da região limitada por y = f(x)Figura 15.16 Sólido S obtido pela rotação, em torno do eixo y, da região limitada por y = f(x)

Figura 15.16 Sólido S obtido pela rotação, em torno do eixo y, da região limitada por y = f(x)

Figura 15.16 Sólido \( S\) obtido pela rotação, em torno do eixo \(y,\) da região limitada por \( y = f(x)\)
Seja \( P = (x_i) \) uma partição do intervalo \( [a,b] \) e seja \( x^*_i \in [x_{i-1}, x_i ]\) o ponto médio do i-ésimo intervalo, \( x^*_i = (x_i + x_{i-1})/2.\) Se o retângulo com base \( \Delta x_i = (x_i - x_{i-1}) \) e altura \(f(x^*_i) \) é girado ao redor do eixo \(y,\) então o resultado é uma casca cilíndrica cujo volume é

\[ V_i = (2 \pi x^*_i) f(x^*_i) \Delta x_i = \textrm{[circunferência][altura][espessura]}. \]

Figura 15.17 Casca cilíndrica, espessura e desenvolvimento de sua superfície lateral.Figura 15.17 Casca cilíndrica, espessura e desenvolvimento de sua superfície lateral.

Figura 15.17 Casca cilíndrica, espessura e desenvolvimento de sua superfície lateral.

Figura 15.17 Casca cilíndrica, espessura e desenvolvimento de sua superfície lateral.
Portanto uma aproximação para o volume \( V \) de \(S \) é dada pela soma dos volumes dessas seções:

\[ V \approx \displaystyle \sum _{i=1}^n V_i = \displaystyle \sum _{i=1}^n (2 \pi x^*_i) f(x^*_i) \Delta x_i . \]

Esta aproximação torna-se melhor quando \(\left\lvert P\right\rvert =\displaystyle \max _{1\leq i\leq n}\Delta x_i \to 0.\) Então definimos o volume do sólido \(S\) obtido pela rotação, em torno do eixo \(y,\) da região limitada por \( y = f(x), \) onde \(f(x) \geq 0, y =0, x =a\) e \(x = b\) por

\[ V = \displaystyle 2 \pi \lim _{\left\lvert P\right\rvert \to 0} \displaystyle \sum _{i=1}^n x^*_i f(x^*_i) \Delta x_i = 2 \pi \displaystyle \int _a^b x f(x) \mathop{}\! \mathrm{d} x . \]

Definição 15.4 (Volume por cascas cilíndricas)
Seja \(f\) contínua e não negativa em \([a,b]\), com \(0\leq a\lt b\), e seja \(S\) o sólido obtido pela rotação, em torno do eixo \(y\), da região entre \(y=0\) e \(y=f(x)\). Com raio \(r(x)=x\) e altura \(h(x)=f(x)\), definimos
\[ V=2\pi \int _a^b r(x)h(x)\, \mathop{}\! \mathrm{d} x. \]

Exemplo 15.13
Encontre o volume do sólido formado pela rotação da região limitada por \(y=0\), \(y=1/(1+x^2)\), \(x=0\) e \(x=2\) em torno do eixo \(y\).

Figura 15.18 Região e cascas cilíndricas do sólido de revolução. Figura 15.18 Região e cascas cilíndricas do sólido de revolução.

Figura 15.18 Região e cascas cilíndricas do sólido de revolução.

Solução
Nesse caso temos que o raio da casca cilíndrica é \(r(x)=x\) e a altura é \(y=1/(1+x^2)\). Como a região é limitada pelos planos \(x=0\) e \(x=2\), temos que o volume é dado por
\begin{align*} V & = 2\pi \displaystyle \int _0^2 \dfrac {x}{1+x^2} \mathop{}\! \mathrm{d} x. \text{Fazendo a substituição $u=1+x^2$, temos $\mathop{}\! \mathrm{d} u = 2x \mathop{}\! \mathrm{d} x$. Além disso $u(0) = 1$ e $u(2) = 5$.} & = \pi \displaystyle \int _1^5 \dfrac {1}{u}\mathop{}\! \mathrm{d} u \\ & = \pi \ln u\Big|_1^5 \\ & = \pi \ln 5 \approx 5{,}056. \end{align*}

Exemplo 15.14
Determine o volume do sólido obtido pela rotação, em torno do eixo \(y,\) da região limitada por \( y = 2x^2-x^3 \) e \( y = 0.\)

Figura 15.19 Rotação da região sob y=2x^2-x^3 em torno do eixo y.Figura 15.19 Rotação da região sob y=2x^2-x^3 em torno do eixo y.

Figura 15.19 Rotação da região sob \(y=2x^2-x^3\) em torno do eixo \(y\).

Solução
A função \(2x^2-x^3 \) intercepta o eixo \(x\) em \(x=0\) e \(x=2\). Logo podemos expressar o volume como:
\begin{align*} V & = 2 \pi \displaystyle \int _0^2 x f(x)\mathop{}\! \mathrm{d} x = 2 \pi \displaystyle \int _0^2 x (2x^2-x^3)\mathop{}\! \mathrm{d} x\\ & = 2 \pi \displaystyle \int _0^2 (2x^3-x^4) \mathop{}\! \mathrm{d} x = 2 \pi (8 - \dfrac {32}{5}) = \dfrac {16}{5} \pi . \end{align*}

Exercício 15.15
Nos exercícios a seguir, uma região do plano cartesiano é sombreada. Use o método das cascas cilíndricas para encontrar o volume do sólido de revolução formado pela rotação da região em torno do eixo \(y\). No primeiro item, basta usar a metade da região com \(x\geq 0\): a metade simétrica gera o mesmo sólido.
  1. Ilustração: Cascas cilíndricas

  2. Ilustração: Cascas cilíndricas

  3. Ilustração: Cascas cilíndricas

  4. Ilustração: Cascas cilíndricas

Ver solução
  1. Por simetria, usamos apenas \(0\leq x\leq \sqrt3\). As cascas têm raio \(x\) e altura \(3-x^2\):

    \[ V=2\pi \int _0^{\sqrt3}x(3-x^2)\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=\frac{9\pi }{2}. \]
  2. Para \(0\leq x\leq 1\), a altura é \(10-5=5\); para \(1\leq x\leq 2\), é \(10-5x\). Assim,

    \[ V=2\pi \left(\int _0^1 5x\, \mathop{}\! \mathrm{d} x+\int _1^2 x(10-5x)\, \mathop{}\! \mathrm{d} x\right)=\frac{35\pi }{3}. \]
  3. \(V=2\pi \int _0^{\pi /2}x\cos x\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=2\pi [x\operatorname {sen}x+\cos x]_0^{\pi /2}=\pi ^2-2\pi \).

  4. \(V=2\pi \int _0^1x(\sqrt x-x)\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=2\pi (2/5-1/3)=2\pi /15\).

15.4 Trabalho

A acumulação de pequenas contribuições também aparece em grandezas físicas. Quando uma força varia com a posição, dividimos o deslocamento em trechos nos quais ela pode ser aproximada por uma força constante; a soma dos trabalhos nesses trechos conduz à integral. Começamos lembrando que no caso de uma força constante \( F,\) o trabalho realizado ao mover um objeto sob ação dessa força é definido pelo produto de sua componente na direção do movimento pelo deslocamento orientado \(d\):

\[ \tau = F d , \qquad \textrm{ trabalho = força } \times \textrm{ deslocamento}. \]

Agora consideremos o deslocamento de uma partícula de \(x=a\) até \(x=b\) com \(a\lt b\) e suponhamos que a força dependa da posição, isto é, \(F=F(x)\), e que a força seja contínua no intervalo \([a,b]\). Considere então \(P = (x_i)\) uma partição do intervalo \([a,b]\) com marcas \( x^*_i\in [x_{i-1},x_i], \ i=1,\ldots , n .\) Se o tamanho do \(i\)-ésimo intervalo \(\Delta x_i=x_i-x_{i-1}\) for suficientemente pequeno, \( F \) será praticamente constante nesse intervalo, e então o trabalho realizado pela força de \(x_{i-1}\) até \(x_i\) é aproximadamente

\[ \tau _i\approx F(x^*_i)\Delta x_i. \]

Logo podemos aproximar o trabalho realizado por \(F\) de \(a\) até \(b\) pela soma dos trabalhos realizados nos intervalos \([x_{i-1},x_i]\), \(i=1,2,\ldots ,n\), isto é

\[ \tau \approx \displaystyle \sum _{i=1}^n F(x^*_i)\Delta x_i. \]

Fazendo o tamanho dos intervalos diminuir, a aproximação será melhor, o que nos motiva a definir trabalho como segue.

Definição 15.5
O trabalho \(\tau \) realizado por uma força \(F\) sobre uma partícula no deslocamento de \(x=a\) até \(x=b\) é dado por
\[ \displaystyle \tau = \lim _{\left\lvert P\right\rvert \to 0} \displaystyle \sum _{i=1}^n F(x^*_i)\Delta x_i = \displaystyle \int ^b_aF(x)\mathop{}\! \mathrm{d} x. \]

Exemplo 15.15
Calcule o trabalho realizado pela força gravitacional quando um corpo de massa \(m\) kg é deslocado radialmente da superfície da Terra até uma altura \(h\gt 0\) m. Determine também o trabalho necessário para elevá-lo lentamente, desprezando outras forças e a rotação da Terra. Utilize o fato de que a força da gravidade exercida por uma massa \(M\) sobre outra massa \(m\) é dada por
\[ F=\frac{-GMm}{r^2} \]
Figura 15.20 Força gravitacional ao longo do deslocamento radial.

Figura 15.20 Força gravitacional ao longo do deslocamento radial.

Solução
Como podemos aproximar o trabalho realizado? Dividimos o caminho a partir da superfície até a altura final em \( n \) pequenos subcaminhos. Em cada subcaminho a força da gravidade é mais ou menos constante, com valor \(\displaystyle -GMm/r_i^2\) a distância \(\displaystyle r_i\). Logo o trabalho realizado pela gravidade durante o deslocamento do objeto de \(\displaystyle r_i\) até \(\displaystyle r_{i+1}\) é aproximadamente \(\displaystyle -GMm/r_i^2\Delta r\) e assim o trabalho total pode ser aproximado por
\[ \sum _{i=0}^{n-1} \frac{-GMm}{r_i^2}\Delta r, \]
No limite,
\[ W=\int _{r_0}^{r_1} \frac{-GMm}{r^2}\, dr, \]
onde \(\displaystyle r_0\) é o raio da Terra e \(\displaystyle r_1\) é \(\displaystyle r_0+h\) Assim, o trabalho é
\[ W=\int _{r_0}^{r_1} \frac{-GMm}{r^2}\, dr= -\left.\frac{-GMm}{r}\right|_{r_0}^{r_1}=\frac{GMm}{r_1}-\frac{GMm}{r_0}. \]
Como \(r_1\gt r_0\), esse trabalho é negativo. Para a elevação lenta, o agente externo exerce força oposta à gravidade e realiza trabalho \(W_{\mathrm{ext}}=GMm(1/r_0-1/r_1)\gt 0\). Colocar o corpo em órbita exigiria considerar também sua energia cinética orbital, que não faz parte deste deslocamento radial.

Exemplo 15.16 (Calculando o Trabalho)
Uma corda de escalada de 50m está pendurada na beira de um precipício. Quanto trabalho é realizado ao puxar a corda até o topo? Considere que a corda tem massa de 66g/m.

Ilustração: Trabalho

Figura 15.21 Modelo para o trabalho realizado ao erguer uma corda.

Figura 15.21 Modelo para o trabalho realizado ao erguer uma corda.

Solução
Denote por \( x \) a quantidade de corda puxada; dessa forma, a quantidade de corda ainda pendurada é \( 50 - x \). Cada metro de corda tem massa de 66 g, ou \(0{,}066\) kg. A massa da corda ainda pendurada é \(0{,}066(50-x)\) kg; multiplicando essa massa pela aceleração da gravidade, de \(9{,}8\, \mathrm{m/s^2}\), temos uma força variável descrita por
\[ F (x) = (9{,}8)(0{,}066)(50-x) = 0{,}6468(50-x). \]
Assim, a quantidade total de trabalho realizado ao puxar a corda é
\[ W = \int _0 ^{50} 0{,}6468(50-x) \mathop{}\! \mathrm{d} x = 808{,}5\ \text{J}. \]

Exemplo 15.17 (Relação entre Trabalho e Energia Cinética)
Uma partícula de massa \(m\) desloca-se sobre o eixo \(x\) com função de posição \(x=x(t)\), com \(x_0=x(t_0)\) e \(x_1=x(t_1)\). Suponha que \(m\gt 0\) seja constante, que \(x(t)\) tenha duas derivadas contínuas em \([t_0,t_1]\) e que a força resultante \(f\) seja contínua em um intervalo que contenha toda a trajetória, com \(f(x(t))=mx''(t)\). Seja \(v=v(t)\) a função que descreve a velocidade da partícula, com \(v_0=v(t_0)\) e \(v_1=v(t_1)\). Mostre que o trabalho realizado pela resultante de \(x_0\) até \(x_1\) é igual à variação na energia cinética, isto é,
\[ \displaystyle \displaystyle \int ^{x_1}_{x_0} f(x)\mathop{}\! \mathrm{d} x = \dfrac {1}{2} mv^2_1 - \dfrac {1}{2}mv^2_0 = \dfrac {1}{2} mv^2(t)\bigg|_{t_0}^{t_1}. \]

Solução
A posição é dada por \(x=x(t)\). Logo \(\mathop{}\! \mathrm{d} x=x'(t)\mathop{}\! \mathrm{d} t\). Como \(x_0=x(t_0)\) e \(x_1=x(t_1)\), então para \(x=x_0,t=t_0\) e, para \(x=x_1,t=t_1\). Assim

\begin{equation} \label{eq:trabalho-parametrizado} \displaystyle \int _{x_0}^{x_1}f(x) \mathop{}\! \mathrm{d} x=\displaystyle \int _{t_0}^{t_1}f(\underbrace{x(t)}_{x})\underbrace{x'(t)\mathop{}\! \mathrm{d} t}_{\mathop{}\! \mathrm{d} x} =\displaystyle \int _{t_0}^{t_1}f(x(t))v(t)\mathop{}\! \mathrm{d} t. \tag{15.1} \end{equation}

Pela 2ª Lei de Newton, temos

\begin{equation} \label{eq:segunda-lei-trabalho} f(x(t))=m\cdot a(t), \tag{15.2} \end{equation}

onde \(a=a(t)\) é a aceleração da partícula no instante \(t\). Fazendo a mudança de variável \(v = v(t)\), \(\mathop{}\! \mathrm{d} v=v'(t) \mathop{}\! \mathrm{d} t = a(t) \mathop{}\! \mathrm{d} t\), para \( t = t_0, v = v_0\) e para \( t=t_1, v=v_1;\) portanto, de (15.1) e (15.2),
\begin{align*} \displaystyle \int _{x_0}^{x_1}f(x)\mathop{}\! \mathrm{d} x & =\displaystyle \int _{t_0}^{t_1}f(x(t))v(t)\mathop{}\! \mathrm{d} t\\ & =\displaystyle \int _{t_0}^{t_1}ma(t)v(t)\mathop{}\! \mathrm{d} t\\ & =m\displaystyle \int _{t_0}^{t_1}\underbrace{v(t)}_v\underbrace{a(t)\mathop{}\! \mathrm{d} t}_{\mathop{}\! \mathrm{d} v}\\ & =m\displaystyle \int _{v_0}^{v_1}v\, \mathop{}\! \mathrm{d} v =m\dfrac {v^2}{2}\bigg|_{v_0}^{v_1} =\dfrac {1}{2}mv_1^2-\dfrac {1}{2}mv_0^2. \end{align*}

15.4.1 Molas e a lei de Hooke

A Lei de Hooke afirma que a força necessária para comprimir ou esticar uma mola \( x \) unidades a partir de seu comprimento natural é proporcional a \( x \); isto é, essa força é \( F (x) = kx \) para alguma constante \( k \). Por exemplo, se uma força de 1 N estende uma mola em 2 cm, então uma força de 5 N alongará a mola em 10 cm. Convertendo as distâncias para metros, temos que alongar essa mola em 0,02 m requer uma força de \( F (0{,}02) = k (0{,}02) = 1 \) N; portanto, \( k = 1 / 0{,}02 = 50 \) N / m.

Exemplo 15.18
Uma força de \(90\, \mathrm N\) estende uma mola de seu comprimento natural, \(7\, \mathrm{cm}\), até \(12\, \mathrm{cm}\). Quanto trabalho é realizado nessa deformação?

Ilustração: Molas e a lei de Hooke

Figura 15.22 Comparação entre o comprimento natural e uma configuração alongada da mola.

Solução
Na Lei de Hooke, a variável é a deformação em relação ao comprimento natural, e não o comprimento total da mola. Neste caso, a extensão é \(12-7=5\, \mathrm{cm}=0{,}05\, \mathrm m\), como indica a Figura 15.23.
Figura 15.23 A força alonga a mola de 7 cm para 12 cm; a variável da Lei de Hooke é a extensão x=5 cm.
Figura 15.23 A força alonga a mola de \(7\) cm para \(12\) cm; a variável da Lei de Hooke é a extensão \(x=5\) cm.
Como \(F(x)=kx\) e \(F(0{,}05)=90\), temos \(k=1800\, \mathrm{N/m}\). O trabalho realizado é, portanto,
\begin{align*} W & = \int _0^{0{,}05}1800x\, \mathop{}\! \mathrm{d} x \\ & =900x^2\Big|_0^{0{,}05} =2{,}25\, \mathrm J. \end{align*}

Exemplo 15.19
Suponha que um tanque de água tem a forma de um cone circular reto com a ponta na parte inferior, e tem 10 metros de altura e raio de 2 metros. Se o tanque está cheio, quanto trabalho é necessário para bombear toda a água para fora por cima do tanque?

Ilustração: Molas e a lei de Hooke

Figura 15.24 Uma lâmina à profundidade h tem raio r(h)=(10-h)/5 e precisa ser elevada a distância h.

Figura 15.24 Uma lâmina à profundidade \(h\) tem raio \(r(h)=(10-h)/5\) e precisa ser elevada a distância \(h\).

Solução
Para aproximar o trabalho, dividiremos a água no tanque em secções horizontais, aproximaremos o volume de água em uma secção por um disco fino, e calculamos a quantidade de trabalho necessária para levantar cada disco para o topo do tanque. Como de costume, tomamos o limite fazendo as secções mais finas, obtendo o trabalho total. Na profundidade \(h\) a secção transversal circular através do tanque tem um raio \(r=(10-h)/5\), usando semelhança de triângulos, e área \(\displaystyle \pi (10-h)^2/25\). Uma seção do tanque em profundidade \( h \), portanto, tem um volume de aproximadamente \(\displaystyle \pi (10-h)^2/25\Delta h\) e logo contém \(\displaystyle \sigma \pi (10-h)^2/25\Delta h\) quilogramas de água, onde \(\sigma \) é a densidade da água em quilogramas por metro cúbico; \(\sigma \approx 1000\). Assim a força da gravidade sobre esta quantidade de água é \(\displaystyle 9{,}8\sigma \pi (10-h)^2/25\Delta h\), e, finalmente, esta seção de água deve ser levantada uma distância \( h \), o que exige \(\displaystyle h9{,}8\sigma \pi (10-h)^2/25\Delta h\) newton-metros de trabalho. Logo o trabalho total é dado por
\[ W=\frac{9{,}8\sigma \pi }{25} \int _0^{10} h(10-h)^2\, dh=\frac{980000}3\pi \approx 1026254\quad \hbox{newton-metros.} \]

Exercício 15.16
Uma força variável \(F(x)=10+x\) newtons atua na direção do movimento enquanto um corpo se desloca de \(x=0\) a \(x=4\) metros. Calcule o trabalho realizado.
Ver solução
\[ W=\int _0^4(10+x)\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=\left[10x+\frac{x^2}{2}\right]_0^4=48\ \mathrm J. \]
Exercício 15.17
Uma força de intensidade \(F(x)=300/(1+x)\) newtons atua formando um ângulo constante de \(60^\circ \) com a direção do movimento. Calcule o trabalho realizado quando o corpo se desloca de \(x=0\) a \(x=3\) metros.
Ver solução
A componente da força na direção do movimento é \(F(x)\cos 60^\circ \). Logo,
\[ W=\int _0^3\frac{300}{1+x}\frac12\, \mathop{}\! \mathrm{d} x =150\ln 4\ \mathrm J. \]
Exercício 15.18
Uma força atrativa radial tem intensidade \(F(r)=k/r^2\), com \(k\gt 0\). Calcule o trabalho necessário para afastar lentamente uma partícula da distância \(r=a\) até \(r=b\gt a\) do centro de atração.
Ver solução
Para afastar a partícula lentamente, a força externa deve ter intensidade \(k/r^2\) no sentido do deslocamento. Assim,
\[ W=\int _a^b\frac{k}{r^2}\, \mathop{}\! \mathrm{d} r =k\left(\frac1a-\frac1b\right). \]
Exercício 15.19
Uma mola obedece à lei de Hooke \(F(x)=kx\). Para \(k=40\, \mathrm{N/m}\), calcule o trabalho necessário para aumentar sua deformação de \(0{,}10\) m para \(0{,}25\) m.
Ver solução
\[ W=\int _{0{,}10}^{0{,}25}40x\, \mathop{}\! \mathrm{d} x =20\bigl(0{,}25^2-0{,}10^2\bigr)=1{,}05\ \mathrm J. \]

Exercício 15.20
Uma mola requer \(18\, \mathrm N\) para ser alongada \(0{,}12\, \mathrm m\) além do comprimento natural. Determine o trabalho necessário para alongá-la de \(0{,}05\, \mathrm m\) a \(0{,}20\, \mathrm m\).
Ver solução
Pela lei de Hooke, \(k=18/0{,}12=150\, \mathrm{N/m}\). Assim,
\[ W=\int _{0{,}05}^{0{,}20}150x\, \mathop{}\! \mathrm{d} x =75\bigl(0{,}20^2-0{,}05^2\bigr) =2{,}8125\, \mathrm J. \]
Exercício 15.21
Uma corda de \(20\, \mathrm m\) tem massa linear constante \(0{,}5\, \mathrm{kg/m}\) e pende verticalmente do alto de um edifício. Calcule o trabalho necessário para recolhê-la inteiramente, usando \(g=9{,}8\, \mathrm{m/s^2}\).
Ver solução
Um elemento situado a uma distância \(y\) do topo percorre a distância \(y\) e tem peso por unidade de comprimento \(0{,}5g\). Logo,
\[ W=0{,}5g\int _0^{20}y\, \mathop{}\! \mathrm{d} y =4{,}9\cdot 200 =980\, \mathrm J. \]
Exercício 15.22
Um tanque cilíndrico de raio \(2\, \mathrm m\) e altura \(5\, \mathrm m\) está cheio de água. Calcule o trabalho necessário para bombear toda a água até a borda superior, usando \(\rho g=9800\, \mathrm{N/m^3}\).
Ver solução
Uma lâmina horizontal à altura \(y\) tem volume \(4\pi \, \mathop{}\! \mathrm{d} y\) e precisa subir \(5-y\). Portanto,
\[ W=9800\cdot 4\pi \int _0^5(5-y)\, \mathop{}\! \mathrm{d} y =490000\pi \, \mathrm J. \]

15.5 Forças hidrostáticas

A pressão em um fluido em repouso aumenta com a profundidade. Se \(y\) é a profundidade medida a partir da superfície da água, a diferença entre a pressão do fluido e a pressão atmosférica é

\[ p(y)=\rho gy, \]

onde \(\rho \) é a densidade do fluido e \(g\) é a aceleração da gravidade. Assim, uma faixa horizontal de largura \(w(y)\) e espessura \(\mathop{}\! \mathrm{d} y\) recebe uma força aproximada

\[ \mathop{}\! \mathrm{d} F=\rho gy\, w(y)\, \mathop{}\! \mathrm{d} y. \]

A força total sobre uma superfície vertical é obtida somando, por integração, as forças exercidas sobre essas faixas.

Exemplo 15.20 (Força sobre uma comporta retangular)
Uma comporta retangular vertical tem \(2\, \mathrm m\) de largura e \(3\, \mathrm m\) de altura, com a borda superior ao nível da água. A uma profundidade \(y\), em metros, a pressão é \(p(y)=9800y\) Pa. Modele uma faixa horizontal de espessura \(\mathop{}\! \mathrm{d} y\), escreva a integral da força hidrostática total sobre a comporta e calcule seu valor.

Ilustração: Forças hidrostáticas

Solução
A faixa situada à profundidade \(y\) tem área aproximada
\[ \mathop{}\! \mathrm{d} A=2\, \mathop{}\! \mathrm{d} y. \]
Consequentemente, a força exercida sobre ela é
\[ \mathop{}\! \mathrm{d} F=p(y)\, \mathop{}\! \mathrm{d} A=9800y\cdot 2\, \mathop{}\! \mathrm{d} y. \]
Integrando da superfície até a borda inferior da comporta, obtemos
\[ F=\int _0^3 19600y\, \mathop{}\! \mathrm{d} y =19600\left[\frac{y^2}{2}\right]_0^3 =88200\, \mathrm N. \]

Exemplo 15.21 (É possível abrir a porta de um carro submerso?)

Um experimento popularizado pelo programa MythBusters 5 investigou se uma pessoa conseguiria abrir a porta de um automóvel submerso antes que a cabine se enchesse de água.

Considere o seguinte modelo idealizado. O carro permanece na posição normal e uma de suas portas é representada por um retângulo vertical de largura \(b=1{,}00\, \mathrm m\) e altura \(H=1{,}20\, \mathrm m\). A borda superior da porta está à profundidade \(a=0{,}40\, \mathrm m\). A porta abre para fora, suas dobradiças formam um eixo vertical em uma das bordas e o puxador está na borda oposta. Tome a densidade da água como \(\rho =1000\, \mathrm{kg/m^3}\) e \(g=9{,}8\, \mathrm{m/s^2}\).

Inicialmente, a cabine contém apenas ar à pressão atmosférica. Despreze a pressão produzida pelo ar acima da pressão atmosférica, o atrito nas dobradiças e a resistência da vedação.

Ilustração: Forças hidrostáticas
  1. Mostre que a força resultante exercida pela água sobre a porta é

    \[ F_0=\rho g b\int _a^{a+H}y\, \mathop{}\! \mathrm{d} y =\rho g bH\left(a+\frac H2\right), \]

    e calcule seu valor.

  2. A profundidade \(y_R\) do ponto de aplicação da força resultante é definida pela igualdade entre os momentos em torno de um eixo horizontal na superfície:

    \[ y_RF_0=\rho gb\int _a^{a+H}y^2\, \mathop{}\! \mathrm{d} y. \]

    Calcule \(y_R\) e compare-o com a profundidade do centro geométrico da porta.

  3. Calcule o momento da pressão em relação ao eixo vertical das dobradiças. Em seguida, determine a força perpendicular que uma pessoa precisaria exercer no puxador para iniciar a abertura. Seria possível abrir a porta se a pessoa conseguisse exercer no máximo \(600\, \mathrm N\)?

  4. A água começa agora a entrar na cabine. Seja \(c\) a profundidade, medida a partir da superfície exterior, em que se encontra a superfície da água no interior. Assim, \(c\) diminui à medida que a cabine se enche e \(c=0\) corresponde à igualdade entre os níveis interno e externo. Suponha que a pressão do ar no interior continue igual à atmosférica. Determine a força resultante \(F(c)\) para \(0\leq c\leq a+H\).

  5. Determine quão próximos devem estar os dois níveis para que a força necessária no puxador não ultrapasse \(600\, \mathrm N\). Interprete o resultado à luz do experimento.

Figura 15.25 Modelo da porta e diferença c entre os níveis de água. A ilustração editorial apresenta a situação física; este esquema identifica as grandezas do modelo.

Figura 15.25 Modelo da porta e diferença c entre os níveis de água. A ilustração editorial apresenta a situação física; este esquema identifica as grandezas do modelo.

Figura 15.25 Modelo da porta e diferença \(c\) entre os níveis de água. A ilustração editorial apresenta a situação física; este esquema identifica as grandezas do modelo.

Solução

À profundidade \(y\), a pressão exterior é \(p_{\mathrm{atm}}+\rho gy\), enquanto a pressão interior inicial é \(p_{\mathrm{atm}}\). A pressão atmosférica atua dos dois lados e se cancela. Uma faixa horizontal da porta, de altura \(\mathop{}\! \mathrm{d} y\), tem área \(b\, \mathop{}\! \mathrm{d} y\); portanto,

\[ \mathop{}\! \mathrm{d} F=\rho gyb\, \mathop{}\! \mathrm{d} y. \]

Somando as contribuições desde a borda superior até a inferior,

\begin{align*} F_0 & =\rho gb\int _a^{a+H}y\, \mathop{}\! \mathrm{d} y\\ & =\rho gb\frac{(a+H)^2-a^2}{2} =\rho gbH\left(a+\frac H2\right). \end{align*}

Com os valores fornecidos,

\[ F_0=1000\cdot 9{,}8\cdot 1\cdot 1{,}2\cdot 1 =11760\, \mathrm N. \]

A profundidade da força resultante é

\[ y_R= \frac{\displaystyle \int _a^{a+H}y^2\, \mathop{}\! \mathrm{d} y}{\displaystyle \int _a^{a+H}y\, \mathop{}\! \mathrm{d} y} =\frac{(1{,}6^3-0{,}4^3)/3}{(1{,}6^2-0{,}4^2)/2} =1{,}12\, \mathrm m. \]

O centro geométrico está à profundidade \(a+H/2=1{,}00\, \mathrm m\). O centro de pressão fica abaixo dele porque as faixas inferiores recebem maior pressão.

A pressão é uniforme ao longo de cada faixa horizontal. Por isso, a resultante da faixa atua no ponto médio de sua largura, a uma distância \(b/2\) do eixo vertical das dobradiças. Assim,

\[ \tau _0 =\int _a^{a+H}\frac b2\, \rho gby\, \mathop{}\! \mathrm{d} y =\frac b2F_0 =5880\, \mathrm{N\, m}. \]

Uma força \(P_0\) aplicada perpendicularmente no puxador possui braço \(b\), de modo que

\[ P_0b=\tau _0 \quad \Longrightarrow \quad P_0=\frac{F_0}{2}=5880\, \mathrm N. \]

Esse valor é quase dez vezes o limite de \(600\, \mathrm N\) estipulado no enunciado. No modelo, a porta não pode ser aberta nessa etapa.

Quando a superfície interna está à profundidade \(c\), a parte da porta situada acima desse nível ainda tem ar no lado interior; nela, a diferença de pressão é \(\rho gy\). Abaixo do nível interno, as pressões são

\[ p_{\mathrm{ext}}=p_{\mathrm{atm}}+\rho gy, \qquad p_{\mathrm{int}}=p_{\mathrm{atm}}+\rho g(y-c), \]

e sua diferença é a constante \(\rho gc\). Consequentemente,

\[ F(c)=\rho gb \begin{cases} Hc, & 0\leq c\leq a,\\[2mm] \displaystyle \int _a^c y\, \mathop{}\! \mathrm{d} y+\int _c^{a+H}c\, \mathop{}\! \mathrm{d} y, & a\lt c\leq a+H. \end{cases} \]

Após calcular as integrais,

\[ F(c)=\rho gb \begin{cases} Hc, & 0\leq c\leq a,\\[1mm] \displaystyle c(a+H)-\frac{c^2+a^2}{2}, & a\lt c\leq a+H. \end{cases} \]

As duas expressões coincidem em \(c=a\), e para \(c=a+H\) recuperamos \(F_0\). Quando \(c=0\), as pressões hidrostáticas dos dois lados coincidem ponto a ponto e a força resultante se anula.

Como a distribuição continua uniforme na direção horizontal, a força necessária no puxador é \(P(c)=F(c)/2\). O limiar procurado ocorre no primeiro caso da função por partes:

\[ \frac{\rho gbHc}{2}\leq 600 \quad \Longleftrightarrow \quad c\leq \frac{1200}{1000\cdot 9{,}8\cdot 1\cdot 1{,}2} \approx 0{,}102\, \mathrm m. \]

Assim, dentro das hipóteses do modelo, os níveis interno e externo precisam diferir por no máximo aproximadamente \(10\, \mathrm{cm}\). Isso explica por que a porta permanece praticamente bloqueada durante boa parte do enchimento e se torna manejável somente quando as pressões estão quase equalizadas.

Observação 15.22
O cálculo anterior é um modelo para a força sobre a porta, não uma orientação de sobrevivência. Ele desconsidera o movimento do veículo, a compressão do ar, vazamentos, deformações, a vedação e outros fatores importantes em uma situação real. Em uma emergência, recomenda-se sair pela janela o mais cedo possível; aguardar a equalização das pressões para tentar abrir a porta é apenas um último recurso quando a janela não pode ser utilizada.

Exercício 15.23
Nos exercícios a seguir, use \(g=9{,}8\, \mathrm{m/s^2}\) e despreze a pressão atmosférica, que atua dos dois lados da placa quando pertinente.
  1. Uma comporta retangular vertical tem \(2\, \mathrm m\) de largura, sua borda superior coincide com a superfície da água e sua borda inferior está a \(3\, \mathrm m\) de profundidade. Calcule a força hidrostática resultante.

  2. Uma janela retangular vertical de \(2\, \mathrm m\) de largura estende-se da profundidade de \(2\, \mathrm m\) à de \(4\, \mathrm m\) em água. Calcule a força hidrostática resultante.

  3. Uma placa triangular vertical tem o vértice na superfície da água e base horizontal de \(2\, \mathrm m\) a \(3\, \mathrm m\) de profundidade. Calcule a força hidrostática sobre a placa.

  4. Uma comporta retangular vertical de \(1{,}2\, \mathrm m\) de largura e \(2\, \mathrm m\) de altura tem sua borda superior a \(1\, \mathrm m\) da superfície de um óleo de densidade \(850\, \mathrm{kg/m^3}\). Calcule a força resultante.

Ver solução
Adotando \(\rho =1000\, \mathrm{kg/m^3}\) para a água:
  1. \(F=1000\cdot 9{,}8\cdot 2\int _0^3y\, \mathop{}\! \mathrm{d} y =88200\, \mathrm N\).

  2. \(F=1000\cdot 9{,}8\cdot 2\int _2^4y\, \mathop{}\! \mathrm{d} y =117600\, \mathrm N\).

  3. À profundidade \(y\), a largura é \(2y/3\). Logo, \(F=1000\cdot 9{,}8\int _0^3y(2y/3)\, \mathop{}\! \mathrm{d} y=58800\, \mathrm N\).

  4. \(F=850\cdot 9{,}8\cdot 1{,}2\int _1^3y\, \mathop{}\! \mathrm{d} y =39984\, \mathrm N\).

Exercício 15.24
Uma escotilha circular horizontal de raio \(0{,}5\, \mathrm m\) está a \(3\, \mathrm m\) abaixo da superfície da água. Calcule a força hidrostática sobre ela.
Ver solução
A pressão é constante em toda a escotilha: \(p=1000\cdot 9{,}8\cdot 3\). Como a área é \(\pi (0{,}5)^2=\pi /4\),
\[ F=7350\pi \, \mathrm N. \]
Exercício 15.25
Uma placa retangular vertical de largura \(L\) e altura \(H\) tem a borda superior à profundidade \(d\). Mostre que a força hidrostática é
\[ F=\rho g\, LH\left(d+\frac H2\right). \]
Ver solução
À profundidade \(y\), a faixa tem área \(L\, \mathop{}\! \mathrm{d} y\). Logo,
\[ F=\rho gL\int _d^{d+H}y\, \mathop{}\! \mathrm{d} y =\rho g\, LH\left(d+\frac H2\right). \]
Exercício 15.26
Uma placa triangular vertical tem base horizontal de \(3\, \mathrm m\) na superfície da água e vértice a \(4\, \mathrm m\) de profundidade. Calcule a força hidrostática resultante.
Ver solução
À profundidade \(y\), a largura é \(w(y)=3(1-y/4)\). Portanto,
\[ F=9800\int _0^4 y\, 3\left(1-\frac y4\right)\, \mathop{}\! \mathrm{d} y =78400\, \mathrm N. \]
Exercício 15.27
Uma janela semicircular vertical de raio \(1\, \mathrm m\) tem o diâmetro sobre a superfície da água e o semicírculo abaixo dela. Calcule a força hidrostática.
Ver solução
À profundidade \(y\), a largura é \(2\sqrt{1-y^2}\). Assim,
\[ F=9800\int _0^1 2y\sqrt{1-y^2}\, \mathop{}\! \mathrm{d} y =\frac{19600}{3}\, \mathrm N. \]
Exercício 15.28
Uma placa retangular vertical de \(2\, \mathrm m\) de largura e \(3\, \mathrm m\) de altura tem centro geométrico a \(4\, \mathrm m\) de profundidade. Calcule a força hidrostática e verifique que ela é \(\rho g\) vezes a área vezes a profundidade do centro.
Ver solução
A placa ocupa as profundidades \(2{,}5\leq y\leq 5{,}5\). Logo,
\[ F=9800\cdot 2\int _{2{,}5}^{5{,}5}y\, \mathop{}\! \mathrm{d} y =235200\, \mathrm N. \]
Como a área é \(6\, \mathrm{m^2}\), o mesmo valor é \(1000\cdot 9{,}8\cdot 6\cdot 4\).
Exercício 15.29
Uma comporta quadrada vertical de lado \(1{,}5\, \mathrm m\) tem a borda superior a \(0{,}5\, \mathrm m\) da superfície de um óleo de densidade \(800\, \mathrm{kg/m^3}\). Calcule a força hidrostática.
Ver solução
\[ F=800\cdot 9{,}8\cdot 1{,}5\int _{0{,}5}^{2}y\, \mathop{}\! \mathrm{d} y =22050\, \mathrm N. \]

15.6 Comprimento de arco e área superficial

15.6.1 Comprimento de arco

O mesmo princípio de aproximação permite medir uma curva. Para isso, usamos uma poligonal, cujo comprimento é a soma dos comprimentos de seus segmentos, e refinamos essa aproximação. Suponhamos que a curva \( C\) seja dada pela equação \( y = f(x) ,\) onde \(f\) tem derivada contínua em \([a,b]\). Seja \( P= (x_i) \) uma partição de \([a,b].\) Então a poligonal com vértices \( (x_i, f(x_i))\) é uma aproximação para \(C.\) O comprimento da curva \(C\) é aproximadamente o comprimento da poligonal, e a aproximação torna-se melhor quando \(\left\lvert P\right\rvert \to 0 .\)

Figura 15.26 Aproximação de uma curva por uma poligonal inscrita.

Figura 15.26 Aproximação de uma curva por uma poligonal inscrita.
O comprimento da poligonal é

\[ L(P) = \displaystyle \sum _{i=1}^n \sqrt{(x_i - x_{i-1})^2 + (f(x_i) - f(x_{i-1}))^2}. \]

Aplicando o Teorema do Valor Médio 11.14 em cada intervalo \([x_{i-1},x_i],\) existe um \(x^*_i \in (x_{i-1},x_i) \) tal que

\[ f(x_i) - f(x_{i-1}) = f'(x^*_i)(x_i - x_{i-1}) = f'(x^*_i)\Delta x_i. \]

Dessa forma,

\[ L(P) = \displaystyle \sum _{i=1}^n \sqrt{(\Delta x_i)^2 + (f'(x^*_i)\Delta x_i)^2} = \displaystyle \sum _{i=1}^n \sqrt{1+(f'(x^*_i))^2}\, \Delta x_i . \]

Então, definimos o comprimento da curva \( C\) por

\[ L = \displaystyle \lim _{\left\lvert P\right\rvert \to 0} \displaystyle \sum _{i=1}^n \sqrt{1+(f'(x^*_i))^2}\, \Delta x_i = \displaystyle \int _a^b \sqrt{1+ [f'(x)]^2} \mathop{}\! \mathrm{d} x . \]

Exemplo 15.23
Calcule o comprimento de arco da curva \(f(x) =x^{3/2}\), com \( 1 \leq x \leq 4\).

Solução
Como \( f(x)=x^{3/2}\), temos que \( f'(x) = \dfrac {3}{2} x^{1/2} ,\) e assim,
\[ L = \displaystyle \int _1^4 \sqrt{1 + \dfrac {9}{4} x}\mathop{}\! \mathrm{d} x . \]
Fazendo a substituição, \( u = 1 + \dfrac {9}{4} x, \) então \( \mathop{}\! \mathrm{d} u = \dfrac {9}{4} \mathop{}\! \mathrm{d} x. \) Quando \( x = 1, u = \dfrac {13}{4}; \) quando \( x = 4 , u = 10.\) Consequentemente,
\[ L = \dfrac {4}{9} \displaystyle \int _{13/4}^{10} \sqrt{u}\mathop{}\! \mathrm{d} u = \dfrac {4}{9}\dfrac {2}{3} u^{3/2} \bigg|_{13/4}^{10} = \dfrac {8}{27} \left[ 10^{3/2} - \left(\dfrac {13}{4}\right)^{3/2} \right] . \]

15.6.2 Comprimento de uma curva paramétrica

Uma curva plana pode ser descrita por duas funções de um parâmetro,

\[ \gamma (t)=(x(t),y(t)),\qquad \alpha \leq t\leq \beta . \]

Essa descrição também permite tratar curvas que não são gráficos de uma única função de \(x\), como uma circunferência. Suponhamos que \(x\) e \(y\) tenham derivadas contínuas em \([\alpha ,\beta ]\). As duas coordenadas variam com taxas \(x'(t)\) e \(y'(t)\). Pelo Teorema de Pitágoras, a velocidade escalar com que o ponto percorre a curva é

\[ \sqrt{[x'(t)]^2+[y'(t)]^2}. \]

O comprimento percorrido, contando cada trecho tantas vezes quantas a parametrização o percorra, é

\[ L=\int _\alpha ^\beta \sqrt{[x'(t)]^2+[y'(t)]^2}\, \mathop{}\! \mathrm{d} t. \]

Se a curva é percorrida uma única vez, essa integral é o comprimento geométrico de seu traçado. A fórmula também vale para curvas continuamente diferenciáveis por partes, somando-se os comprimentos dos trechos.

Para justificar a fórmula, tome uma partição \(\alpha =t_0\lt \cdots \lt t_n=\beta \). O comprimento da poligonal inscrita é

\[ \sum _{i=1}^n\sqrt{[x(t_i)-x(t_{i-1})]^2+[y(t_i)-y(t_{i-1})]^2}. \]

Pelo Teorema do Valor Médio, os incrementos de \(x\) e \(y\) são suas respectivas derivadas em pontos do subintervalo, multiplicadas por \(\Delta t_i\). Esses pontos não precisam coincidir, mas a continuidade uniforme das derivadas em \([\alpha ,\beta ]\) permite substituí-los por uma mesma marca, com um erro total que tende a zero quando a norma da partição tende a zero. O limite das somas é, portanto, a integral da velocidade escalar.

Exemplo 15.24
Para a circunferência \(x(t)=R\cos t\), \(y(t)=R\operatorname {sen}t\), com \(R\gt 0\) e \(0\leq t\leq 2\pi \), temos
\[ \sqrt{[x'(t)]^2+[y'(t)]^2} =\sqrt{R^2\operatorname {sen}^2t+R^2\cos ^2t}=R. \]
Assim, seu comprimento é \(\int _0^{2\pi }R\, \mathop{}\! \mathrm{d} t=2\pi R\). Se tomarmos \(x(t)=t\) e \(y(t)=f(t)\), recuperamos a fórmula anterior para o comprimento do gráfico de \(f\). Se mantivermos as mesmas equações no intervalo \(0\leq t\leq 4\pi \), o traço geométrico continua sendo a mesma circunferência, mas ela é percorrida duas vezes; por isso a integral vale \(4\pi R\).

15.6.3 Área superficial

A aproximação de uma curva por uma poligonal também permite estudar a superfície gerada por sua rotação. Já usamos a rotação de uma região para calcular volumes; ao girar apenas sua curva de fronteira, o comprimento de cada pequeno segmento passa a contribuir para a área superficial.

Ilustração: Área superficial
Figura 15.27 Ao girar a poligonal inscrita em torno do eixo \(x\), cada segmento gera um tronco de cone.

Podemos aproximar a área da superfície pela área da superfície gerada pela revolução de uma poligonal plana em torno de um eixo desse plano. Consideremos \(f\) não negativa em \([a,b]\), com derivada contínua nesse intervalo fechado. Seja \(P=(x_i)\) uma partição de \([a,b].\) Consideremos a poligonal com vértices \( (x_i, f(x_i)) \) e, girando-a ao redor do eixo \( x\), obtemos uma aproximação para a superfície. Seja \(A\) a área lateral da superfície gerada pela rotação da poligonal da figura abaixo. Lembramos que a área lateral, \(A\), do tronco de cone é dada por

\[ A_T= \pi (r_1+r_2) g = 2\pi r g \]

onde \( r = \dfrac {1}{2}(r_1+r_2).\)

Para obter a área lateral de um sólido de revolução em torno do eixo \(x\), aproximamos sua superfície por uma união de troncos de cone e somamos as respectivas áreas laterais. Se denotarmos por \(L_i\) o comprimento do segmento entre os pontos \((x_{i-1},f(x_{i-1}))\) e \((x_i,f(x_i))\), então

\[ L_i=\sqrt{(\Delta x_i)^2+[f(x_i)-f(x_{i-1})]^2}. \]

Pelo Teorema do Valor Médio, existe \(x_i^*\in (x_{i-1},x_i)\) tal que \(f(x_i)-f(x_{i-1})=f'(x_i^*)\Delta x_i\). Portanto, para esse segmento,

\[ L_i=\sqrt{1+[f'(x_i^{*})]^2}\, \Delta x_i. \]

Os raios do tronco são \(R = f(x_i)\) e \(r = f(x_{i-1})\). Assim, a área da superfície de um dos troncos de cone é aproximadamente

\[ 2\pi \dfrac {f(x_{i-1})+f(x_i)}2\sqrt{1+[f'(x_i^{*})]^2} \Delta x_i. \]

Como \(f\) é uma função contínua, pelo TVI, existe \(d_i\) em \([x_{i-1},x_i]\) tal que \( f(d_i) = \dfrac {f(x_{i-1})+f(x_i)}2\); logo:

\[ 2\pi f(d_i)\sqrt{1+f'(x_i^{*})^2} \Delta x_i. \]

Somando sobre todos os subintervalos, temos

\[ \text{Área Superficial}\approx \displaystyle \sum _{i=1}^n 2\pi f(d_i)\sqrt{1+f'(x_i^{*})^2} \Delta x_i, \]

As marcas \(d_i\) e \(x_i^*\) podem ser diferentes. Pela continuidade uniforme de \(f\), podemos substituir \(f(d_i)\) por \(f(x_i^*)\): o erro absoluto total é limitado por \(2\pi (b-a)M\omega _f(\left\lvert P\right\rvert )\), onde \(M=\max _{[a,b]}\sqrt{1+f'(x)^2}\) e \(\omega _f(\delta )=\sup _{|u-v|\leq \delta }|f(u)-f(v)|\to 0\). A soma resultante é uma soma de Riemann. Tomando o limite, temos

\[ \text{Área Superficial} = 2\pi \displaystyle \int _a^b f(x)\sqrt{1+f'(x)^2}\mathop{}\! \mathrm{d} x. \]

A área da superfície do sólido formado pela rotação do gráfico de \(y=f(x)\) ao redor do eixo \(y\), com \(a,b\geq 0\), é

\[ \text{Área Superficial} = 2\pi \displaystyle \int _a^b x\sqrt{1+f'(x)^2} \mathop{}\! \mathrm{d} x. \]

Exemplo 15.25
Determine a área de superfície do sólido formado pela revolução da curva \(y=x^3\) em \([0,2]\) em torno do eixo \(x\).

Figura 15.28 Superfície gerada pela rotação de y=x^3 em torno do eixo x. Figura 15.28 Superfície gerada pela rotação de y=x^3 em torno do eixo x.

Figura 15.28 Superfície gerada pela rotação de \(y=x^3\) em torno do eixo \(x\).

Solução
\begin{align*} A & = \int _0^2 2\pi x^3\sqrt{1+9x^4}\, \mathop{}\! \mathrm{d} x\\ \text{Com $u=1+9x^4$, temos $\mathop{}\! \mathrm{d} u=36x^3\, \mathop{}\! \mathrm{d} x$ e os novos extremos são $1$ e $145$:} & = \dfrac {\pi }{18} \int _{1}^{145} u^{1/2}\, \mathop{}\! \mathrm{d} u\\ & =\dfrac {\pi }{27}\left[u^{3/2}\right]_{1}^{145} =\frac{\pi }{27}(145\sqrt{145}-1)\approx 203{,}04. \end{align*}

Exemplo 15.26
Determine a área de superfície do sólido formado pela revolução da curva \(y=x^2\) em \([0,1]\) em torno do eixo \(y\).

Figura 15.29 Superfície gerada pela rotação de y=x^2 em torno do eixo y. Figura 15.29 Superfície gerada pela rotação de y=x^2 em torno do eixo y.

Figura 15.29 Superfície gerada pela rotação de \(y=x^2\) em torno do eixo \(y\).

Solução
Uma vez que estamos girando em torno do eixo \( y \), o “raio” do sólido não é \( f (x)\), mas sim \( x \). Assim, a integral para calcular a área de superfície é:
\begin{align*} A & = 2\pi \displaystyle \int _0^1x\sqrt{1+(2x)^2}\mathop{}\! \mathrm{d} x. \text{Substituição $u=1+4x^2$; novos extremos $u=1$ e $u=5$. } & = \dfrac {\pi }4\displaystyle \int _1^5 \sqrt{u}\mathop{}\! \mathrm{d} u \\ & = \left.\dfrac {\pi }{4}\dfrac 23 u^{3/2}\right|_1^5 \\ & = \dfrac {\pi }6\left(5\sqrt{5}-1\right) \\ & \approx 5{,}33. \end{align*}

Exemplo 15.27
Encontre a área da superfície obtida pela rotação da curva \( y = \sqrt{4-x^2}, \) \( -1 \leq x \leq 1, \) ao redor do eixo \(x.\)
Solução
Temos \( f'(x) = \dfrac {-x}{\sqrt{4-x^2}}, \) e assim,
\begin{align*} S & = 2 \pi \displaystyle \int _{-1}^1 \sqrt{4-x^2} \sqrt{ 1 + \dfrac {x^2}{4-x^2}} \mathop{}\! \mathrm{d} x \\ & =2 \pi \displaystyle \int _{-1}^1 \sqrt{4-x^2} \dfrac {2}{\sqrt{4-x^2}} \mathop{}\! \mathrm{d} x \\ & = 4 \pi \displaystyle \int _{-1}^1 1 \mathop{}\! \mathrm{d} x = 8 \pi . \end{align*}

Exercício 15.30
Calcule o comprimento do arco de \(y=\frac23x^{3/2}\) para \(0\leq x\leq 1\).
Ver solução
Como \(y'=\sqrt x\),
\[ L=\int _0^1\sqrt{1+x}\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=\frac23\bigl(2\sqrt2-1\bigr). \]
Exercício 15.31
A rotação do segmento \(y=x\), \(0\leq x\leq R\), em torno do eixo \(x\) gera a superfície lateral de um cone. Calcule sua área pela integral e confira-a pela fórmula geométrica.
Ver solução
Como \(y'=1\),
\[ A=2\pi \int _0^R x\sqrt2\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=\pi \sqrt2\, R^2. \]
O cone tem raio \(R\) e geratriz \(R\sqrt2\), logo sua área lateral é também \(\pi R(R\sqrt2)\).

Exercício 15.32
Encontre o comprimento do arco de \(y=\tfrac 23(x+1)^{3/2}\) entre \(x=0\) e \(x=3\).
Ver solução
Como \(y'=\sqrt{x+1}\),
\[ L=\int _0^3\sqrt{x+2}\, \mathop{}\! \mathrm{d} x =\frac23\left(5^{3/2}-2^{3/2}\right). \]
Exercício 15.33
Uma curva \(y=f(x)\geq 0\) gira em torno do eixo \(x\). Explique, a partir de pequenos troncos de cone, por que a área da superfície envolve o fator \(2\pi f(x)\sqrt{1+[f'(x)]^2}\).
Ver solução
Um pequeno segmento tem comprimento \(\mathop{}\! \mathrm{d} s\approx \sqrt{1+[f'(x)]^2}\, \mathop{}\! \mathrm{d} x\) e, ao girar, percorre uma circunferência de raio \(f(x)\) e comprimento \(2\pi f(x)\). A área lateral do pequeno tronco é aproximadamente \(2\pi f(x)\sqrt{1+[f'(x)]^2}\, \mathop{}\! \mathrm{d} x\); a soma limite produz a integral.
Exercício 15.34
A curva paramétrica \(x=R\cos t\), \(y=R\operatorname {sen}t\), \(0\leq t\leq \pi /2\), descreve um quarto de circunferência. Calcule seu comprimento pela fórmula paramétrica.
Ver solução
\[ \sqrt{(x')^2+(y')^2} =\sqrt{R^2\operatorname {sen}^2t+R^2\cos ^2t}=R, \]
portanto \(L=R\int _0^{\pi /2}\mathop{}\! \mathrm{d} t=\pi R/2\).
Exercício 15.35
Calcule o comprimento da curva paramétrica
\[ x(t)=\frac{t^3}{3},\qquad y(t)=\frac{t^2}{2}, \qquad 0\leq t\leq 1. \]
Ver solução
Como \(x'(t)=t^2\) e \(y'(t)=t\),
\[ L=\int _0^1 t\sqrt{1+t^2}\, \mathop{}\! \mathrm{d} t =\frac13\left(2^{3/2}-1\right). \]
Exercício 15.36
Faça o semicírculo \(y=\sqrt{R^2-x^2}\), \(-R\leq x\leq R\), girar em torno do eixo \(x\) e recupere a área \(4\pi R^2\) da esfera.
Ver solução
A derivada de \(y=\sqrt{R^2-x^2}\) não é finita nos extremos. Por isso, fixamos primeiro \(0\lt c\lt R\) e calculamos a área gerada pelo arco com \(-c\leq x\leq c\), onde as hipóteses da fórmula estão satisfeitas. Como
\[ y'=-\frac{x}{\sqrt{R^2-x^2}}, \qquad \sqrt{1+(y')^2}=\frac{R}{\sqrt{R^2-x^2}}, \]
temos
\[ A(c)=2\pi \int _{-c}^{c} \sqrt{R^2-x^2}\, \frac{R}{\sqrt{R^2-x^2}}\, \mathop{}\! \mathrm{d} x =4\pi Rc. \]
Fazendo \(c\to R^-\), obtemos
\[ A=\lim _{c\to R^-}A(c)=4\pi R^2. \]

15.7 Centro de massa

O centro de massa é uma média ponderada pela distribuição de massa. Para uma placa contínua, massa e posição são acumuladas simultaneamente; as somas de momentos conduzem, no limite, às fórmulas integrais para suas coordenadas.

Consideremos uma placa fina com densidade uniforme \(\rho \gt 0\) que ocupa uma região \(R\) do plano. Desejamos encontrar o centro de massa da placa. Suponha que a região seja da forma

\[ R= \left\{ (x,y)\in \mathbb {R}^2; \ a\leq x\leq b, \ 0\leq y\leq f(x)\right\} , \]

onde \(f\) é função definida e contínua em \([a,b]\), com \(f(x)\geq 0\) em \([a,b]\) e \(\int _a^bf(x)\, \mathop{}\! \mathrm{d} x\gt 0\).

Ilustração: Centro de massa
Figura 15.30 Região \(R\) ocupada por uma placa de densidade uniforme.

Consideremos uma partição \(P=(x_i)\) de \([a,b]\) e escolhamos o ponto \( x^*_i \) como o ponto médio do intervalo \([x_{i-1},x_i],\) isto é, \( x^*_i = \dfrac {x_i+x_{i-1}}{2}.\) Isto determina uma aproximação por retângulos de \(R\).

Ilustração: Centro de massa
Figura 15.31 Retângulos que aproximam \(R\) e cujos centros aproximam a distribuição de massa.

O centro de massa do retângulo \(R_i\) é seu centro \( \displaystyle \left( x^*_i, \dfrac {f(x^*_i)}{2}\right) .\) Como sua área é \( f(x^*_i)\Delta x_i ;\) temos que a massa do \(i\)-ésimo retângulo é

\begin{equation} m_i = \rho \underbrace{\Delta x_i}_\text { base} \underbrace{f(x^*_i)}_\text { altura} .\label{equa-r} \tag{15.3} \end{equation}

Logo, o centro de massa da região formada pela união dos retângulos \(R_1,R_2\ldots R_n\) é

\begin{align*} \bar{x} & =\dfrac {\displaystyle \sum _{i=1}^n x^*_i m_i}{\displaystyle \sum _{i=1}^n m_i} =\dfrac {\displaystyle \sum _{i=1}^n x^*_i\rho f(x^*_i)\Delta x_i}{\displaystyle \sum _{i=1}^n \rho f(x^*_i)\Delta x_i} =\dfrac {\displaystyle \sum _{i=1}^n x^*_i f(x^*_i)\Delta x_i}{\displaystyle \sum _{i=1}^n f(x^*_i)\Delta x_i} \end{align*}
\begin{align*} \bar{y} & =\dfrac {\displaystyle \sum _{i=1}^n\dfrac {f(x^*_i)}{2}\ m_i}{\displaystyle \sum _{i=1}^n m_i} = \dfrac {\dfrac {1}{2}\displaystyle \sum _{i=1}^n f(x^*_i)\rho f(x^*_i)\Delta x_i} {\displaystyle \sum _{i=1}^n \rho f(x^*_i)\Delta x_i} =\dfrac {\dfrac {1}{2}\displaystyle \sum _{i=1}^n f^2(x^*_i) \Delta x_i} {\displaystyle \sum _{i=1}^n f(x^*_i)\Delta x_i} \end{align*}

Fazendo o tamanho da partição tender a zero, \(\left\lvert P\right\rvert \rightarrow 0\), obtemos as coordenadas do centro de massa da região \(R\)

\begin{align*} \bar{x}=\dfrac {\displaystyle \displaystyle \int ^b_a x f(x)\mathop{}\! \mathrm{d} x}{\displaystyle \displaystyle \int ^b_a f(x)\mathop{}\! \mathrm{d} x} \qquad \bar{y} & = \dfrac {\dfrac {1}{2}\displaystyle \int ^b_af^2(x)\mathop{}\! \mathrm{d} x}{\displaystyle \displaystyle \int ^b_a f(x)\mathop{}\! \mathrm{d} x} \end{align*}

O argumento anterior motiva a definição:

Definição 15.6
Para uma placa de densidade uniforme \(\rho \gt 0\) que ocupa a região sob \(f\geq 0\) em \([a,b]\), com \(f\) contínua e área \(A_0=\int _a^bf(x)\, \mathop{}\! \mathrm{d} x\gt 0\), o centro de massa (ou centroide da região) é o ponto \((\bar x,\bar y)\) definido por
\[ \bar x=\frac1{A_0}\int _a^bxf(x)\, \mathop{}\! \mathrm{d} x,\qquad \bar y=\frac1{2A_0}\int _a^bf(x)^2\, \mathop{}\! \mathrm{d} x. \]
A densidade constante cancela nos quocientes; por isso o ponto depende apenas da geometria da região.

Exemplo 15.28
Calcule o centro de massa da região limitada pelas curvas \( y = \cos x, \) \( y = 0, x=0\) e \( x= \pi /2.\)

Solução
A área total da região é \( \displaystyle A_0 = \displaystyle \int _0^{\pi /2} \cos x \mathop{}\! \mathrm{d} x = \operatorname {sen}x \bigg|_0^{\pi /2} = 1;\) assim,
\begin{align*} \bar{x} & = \dfrac {1}{A_0}\displaystyle \int ^{\pi /2}_0 x f(x)\mathop{}\! \mathrm{d} x = \displaystyle \int ^{\pi /2}_0 x\cos x\mathop{}\! \mathrm{d} x\\ & = x\operatorname {sen}x\bigg|_0^{\pi /2}-\displaystyle \int ^{\pi /2}_0\operatorname {sen}x\mathop{}\! \mathrm{d} x = \dfrac {\pi }{2}-1, \end{align*}
\[ \bar{y} = \dfrac {1}{2A_0}\displaystyle \displaystyle \int ^{\pi /2}_0 f^2(x)\mathop{}\! \mathrm{d} x = \dfrac {1}{2} \displaystyle \displaystyle \int ^{\pi /2}_0 \cos ^2x\mathop{}\! \mathrm{d} x = \dfrac {1}{4}\displaystyle \displaystyle \int ^{\pi /2}_0 (1 + \cos (2 x))\mathop{}\! \mathrm{d} x \]
\[ = \dfrac {1}{4} \left( x + \dfrac {1}{2} \operatorname {sen}(2x) \right) \bigg|_0^{\pi /2} = \dfrac {\pi }{8}. \]
Portanto, o centro de massa é \( \displaystyle \left(\dfrac {\pi }{2} - 1, \dfrac {\pi }{8}\right).\)

Exemplo 15.29
Calcule o centro de massa do semicírculo de raio \(r\).

Ilustração: Centro de massa

Figura 15.32 Semicírculo usado no cálculo do centro de massa.

Solução
Por simetria \(\bar{x}=0\). Por outro lado
\begin{align*} \bar{y} & = \dfrac {\dfrac {1}{2}\displaystyle \int ^b_af^2(x)\mathop{}\! \mathrm{d} x}{\displaystyle \displaystyle \int ^b_a f(x)\mathop{}\! \mathrm{d} x} \\ & = \dfrac {\dfrac {1}{2}\displaystyle \int _{-r}^{r}(r^2-x^2)\mathop{}\! \mathrm{d} x}{\dfrac {\pi r^2}{2}} \\ & = \frac{4 r}{3 \pi } \end{align*}

15.7.1 Centro de massa da região entre duas curvas

Para uma placa de densidade uniforme e área total \(A_0\gt 0\), se a região \(R\) está entre os gráficos de funções contínuas \( y = f(x) \) e \( y = g(x) ,\) onde \( f(x) \geq g(x), \) então o mesmo argumento anterior pode ser usado para mostrar que o centro de massa de

\[ R= \left\{ (x,y)\in \mathbb {R}^2; \ a\leq x\leq b, g(x) \leq y\leq f(x)\right\} \]

é dado por

\[ \bar{x} =\dfrac {1}{A_0} \displaystyle \displaystyle \int ^b_a x [f(x)-g(x)]\mathop{}\! \mathrm{d} x \ , \ \quad \bar{y} =\dfrac {1}{2A_0} \displaystyle \displaystyle \int ^b_a [f^2(x)-g^2(x)] \mathop{}\! \mathrm{d} x. \]

Ilustração: Centro de massa da região entre duas curvas

Figura 15.33 Centroide de uma região plana entre duas curvas.

Exemplo 15.30
Determine o centro de massa da região \(A\) limitada pela reta \(y=x\) e pela parábola \(y=x^2\).

Solução
A área total da região é
\[ A_0 = \displaystyle \int _0^1 (x-x^2)\mathop{}\! \mathrm{d} x = \dfrac {x^2}{2} - \dfrac {x^3}{3} \bigg|_0^1 = \dfrac {1}{6}. \]
Portanto,
\[ \bar{x}= 6 \displaystyle \int _0^1 x(x-x^2)\mathop{}\! \mathrm{d} x = 6 \left( \dfrac {x^3}{3} - \dfrac {x^4}{4} \right) \bigg|_0^1 = \dfrac {1}{2}, \]
\[ \bar{y}= 6 \dfrac {1}{2}\displaystyle \int _0^1 (x^2- x^4) \mathop{}\! \mathrm{d} x = 3 \left( \dfrac {x^3}{3} - \dfrac {x^5}{5} \right) \bigg|_0^1 = \dfrac {2}{5}. \]
O centro de massa é \( \displaystyle \left(\dfrac {1}{2}, \dfrac {2}{5}\right).\)

Exercício 15.37
\(\star \) Determine o centro de massa da região sob a reta \(y=1-x\) em \(0\leq x\leq 1\), supondo densidade uniforme.
Ver solução
A área é \(A_0=1/2\). Portanto,
\[ \bar x=\frac1{A_0}\int _0^1x(1-x)\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=\frac13, \qquad \bar y=\frac1{2A_0}\int _0^1(1-x)^2\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=\frac13. \]

15.7.2 \(\star \) Teorema de Pappus

O centroide estabelece uma nova conexão com os sólidos de revolução. Conhecendo sua distância ao eixo de rotação e a área da região, podemos calcular o volume por meio do Teorema de Pappus, sob as condições enunciadas a seguir.

Teorema 15.31 (Teorema de Pappus)
Seja \(R\) uma região plana, que se situa inteiramente de um dos lados de uma reta \(L\) no mesmo plano. Se denotarmos por \(r\) a distância entre o centroide de \(R\) e a reta \(L\), então o volume \(V\) do sólido de revolução obtido a partir da rotação de \(R\) ao redor de \(L\) é dado por
\[ V = 2\pi r A_0 \]
onde \(A_0\) é a área de \(R\).

O teorema vale na generalidade enunciada. Demonstraremos apenas o caso que usaremos neste curso: depois de escolher coordenadas em que \(L\) é o eixo \(y\), a região é descrita entre dois gráficos contínuos,

\[ g(x)\leq y\leq f(x),\qquad a\leq x\leq b, \]

com \(0\leq a\lt b\).

Demonstração

Nesse caso, a fórmula do centroide fornece

\[ A_0\bar x=\int _a^b x\, [f(x)-g(x)]\, \mathop{}\! \mathrm{d} x. \]

Por cascas cilíndricas, o volume gerado pela rotação da mesma região é

\[ V=2\pi \int _a^b x\, [f(x)-g(x)]\, \mathop{}\! \mathrm{d} x =2\pi \bar x A_0. \]

Como a região está de um único lado do eixo, \(\bar x\) é precisamente a distância do centroide a \(L\), e a fórmula de Pappus segue nesse caso.

Figura 15.34 Ao girar em torno de \(L\), o centroide \(C\) percorre \(2\pi r\); o volume gerado é essa distância vezes a área de \(R\).

Exemplo 15.32 (Volume do toro)
Calcule o volume do toro obtido ao rotacionar o círculo de raio \(r\), cujo centro é \((R,0)\), com \(R\gt r\gt 0\), em torno do eixo \(y\), usando o Teorema de Pappus.

Ilustração: \(\star \) Teorema de Pappus

Figura 15.35 O círculo gerador tem área \(\pi r^2\), e seu centroide percorre uma circunferência de raio \(R\).

Solução
Como a área do círculo é \(\pi r^2\) e a distância entre o centroide do círculo gerador e o eixo \(y\) é \(R\), o volume do toro é
\[ V=2\pi ^2Rr^2. \]
É o mesmo valor obtido pelo método das seções transversais no Exemplo 15.12.

Exemplo 15.33 (Volume da Esfera)
Calcule o volume da esfera usando o Teorema de Pappus.

Solução
Ilustração: \(\star \) Teorema de Pappus
Figura 15.36 O semicírculo gira em torno de seu diâmetro; seu centroide está a \(4r/(3\pi )\) do eixo.

O centroide do semicírculo está a \(\dfrac {4r}{3\pi }\) da origem e, logo, o volume é

\[ V=2\pi \times \frac{4r}{3\pi }\times \frac{\pi r^2}{2}=\frac{4}{3}\pi r^3. \]

Esse resultado coincide com o cálculo por seções transversais do Exemplo 15.7.

Exercício 15.38
Uma chapa homogênea ocupa a região sob \(y=4-x^2\) e acima do eixo \(x\). Use simetria e integrais para localizar seu centro de massa.
Ver solução
Por simetria, \(\bar x=0\). A área é \(A_0=32/3\) e
\[ M_x=\frac12\int _{-2}^2(4-x^2)^2\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=\frac{256}{15}. \]
Logo, \(\bar y=M_x/A_0=8/5\), e o centro de massa é \((0,8/5)\).
Exercício 15.39
Determine o centro de massa da região sob \(y=x^2\) em \(0\leq x\leq 1\).
Ver solução
A área é \(A_0=1/3\). Assim,
\[ \bar x=\frac{\int _0^1x^3\, \mathop{}\! \mathrm{d} x}{1/3}=\frac34, \qquad \bar y=\frac{\frac12\int _0^1x^4\, \mathop{}\! \mathrm{d} x}{1/3}=\frac3{10}. \]
Exercício 15.40
Determine o centro de massa da região sob \(y=1-x^2\) em \(-1\leq x\leq 1\).
Ver solução
Por simetria, \(\bar x=0\). Como
\[ A_0=\frac43,\qquad M_x=\frac12\int _{-1}^1(1-x^2)^2\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=\frac8{15}, \]
temos \(\bar y=2/5\).
Exercício 15.41
Determine o centro de massa da região entre \(y=1\) e \(y=x^2\), para \(-1\leq x\leq 1\).
Ver solução
Por simetria, \(\bar x=0\). A área é \(A_0=4/3\) e
\[ M_x=\frac12\int _{-1}^1(1-x^4)\, \mathop{}\! \mathrm{d} x=\frac45. \]
Logo, \(\bar y=M_x/A_0=3/5\).
Exercício 15.42
\(\star \) Use o Teorema de Pappus e o volume conhecido da esfera para recuperar a distância do centroide de um semicírculo de raio \(r\) ao seu diâmetro.
Ver solução
A área do semicírculo é \(\pi r^2/2\). Se \(d\) é a distância procurada, Pappus fornece
\[ \frac43\pi r^3 =2\pi d\, \frac{\pi r^2}{2}. \]
Portanto,
\[ d=\frac{4r}{3\pi }. \]
Exercício 15.43
\(\star \) O retângulo \(R\leq x\leq R+a\), \(0\leq y\leq h\), com \(R\gt 0\), gira em torno do eixo \(y\). Use Pappus para calcular o volume e confira pela fórmula da coroa circular.
Ver solução
O retângulo tem área \(ah\) e centroide a distância \(R+a/2\) do eixo. Assim,
\[ V=2\pi \left(R+\frac a2\right)ah =\pi \bigl((R+a)^2-R^2\bigr)h, \]
que coincide com a área da coroa circular vezes a altura.

  1. O experimento foi apresentado no episódio Underwater Car, exibido em 2007.