Capítulo 18

Martingalas

Com a esperança condicional e as filtrações já disponíveis, podemos estudar processos cuja evolução tem média condicional controlada. As martingalas são o caso central: dado o presente, o próximo valor tem esperança igual ao valor atual.

Neste capítulo, todos os processos são indexados por \(\mathbb N_0=\{ 0,1,2,\ldots \} \) e definidos em um espaço de probabilidade \((\Omega ,\mathcal{F},\P )\).

18.1 Martingalas, submartingalas e supermartingalas

A linguagem das filtrações permite distinguir um jogo justo daqueles que apresentam, condicionalmente à informação disponível, uma tendência favorável ou desfavorável.

Definição 18.1 (Martingala)
Um processo real \(X=(X_n)_{n\geq 0}\), adaptado a \((\mathcal{F}_n)\), é uma martingala se \(X_n\in L^1\) para todo \(n\) e
\[ \mathbf{E}[X_{n+1}\mid \mathcal{F}_n]=X_n\qquad \text{q.c.} \]
Ele é uma submartingala se
\[ \mathbf{E}[X_{n+1}\mid \mathcal{F}_n]\geq X_n\qquad \text{q.c.}, \]
e uma supermartingala se a desigualdade é invertida.

A tendência de crescimento ou decrescimento se refere à esperança condicional, não a cada trajetória. O processo \(X\) é uma martingala se, e somente se, é simultaneamente uma submartingala e uma supermartingala. Além disso, \(X\) é uma supermartingala se, e somente se, \(-X\) é uma submartingala. O prefixo super, portanto, não promete ganhos maiores.

Proposição 18.2 (Propriedade de vários passos)
Se \(X\) é uma martingala e \(0\leq m\leq n\), então
\[ \mathbf{E}[X_n\mid \mathcal{F}_m]=X_m\qquad \text{q.c.} \]
Para submartingalas, o lado esquerdo é maior ou igual a \(X_m\); para supermartingalas, é menor ou igual a \(X_m\).

Demonstração ▼

No caso de uma martingala, a propriedade da torre fornece

\[ \mathbf{E}[X_n\mid \mathcal{F}_m] =\mathbf{E}\! \left[\mathbf{E}[X_n\mid \mathcal{F}_{n-1}]\mid \mathcal{F}_m\right] =\mathbf{E}[X_{n-1}\mid \mathcal{F}_m]. \]

A repetição desse argumento termina em \(X_m\). No caso de uma submartingala, a monotonicidade da esperança condicional substitui cada igualdade por uma desigualdade no sentido correto. O caso das supermartingalas segue aplicando o resultado a \(-X\).

Tomando esperanças, obtemos

\[ \mathbf{E}X_n=\mathbf{E}X_0 \]

para martingalas. Para submartingalas, \((\mathbf{E}X_n)\) é crescente; para supermartingalas, decrescente. A recíproca não é verdadeira: a igualdade das esperanças não substitui a condição relativa à informação de cada instante.

Teorema 18.3 (Jensen para martingalas)

Se \(X\) é uma martingala, \(\varphi :\mathbb R\to \mathbb R\) é convexa e \(\varphi (X_n)\in L^1\) para todo \(n\), então \((\varphi (X_n))_{n\geq 0}\) é uma submartingala.

Mais geralmente, se \(X\) é uma submartingala e \(\varphi \) é convexa e não decrescente, então \((\varphi (X_n))\) é uma submartingala sempre que os termos forem integráveis.

Demonstração ▼

Pelo Teorema de Jensen condicional 14.16,

\[ \mathbf{E}[\varphi (X_{n+1})\mid \mathcal{F}_n] \geq \varphi \bigl(\mathbf{E}[X_{n+1}\mid \mathcal{F}_n]\bigr). \]

Se \(X\) é uma martingala, o último membro é \(\varphi (X_n)\). Se \(X\) é uma submartingala, usamos também que \(\varphi \) é não decrescente.

Em particular, se \(X\) é uma martingala e os termos envolvidos são integráveis, então \((|X_n|)\) e \((|X_n|^p)\), para \(p\geq 1\), são submartingalas.

18.2 Exemplos fundamentais

Somas centradas, produtos normalizados e esperanças condicionais fornecem três maneiras recorrentes de construir martingalas. O passeio aleatório permite vê-las em ação.

Exemplo 18.4 (Somas de variáveis independentes)
Se \(Y_1,Y_2,\ldots \) são independentes, integráveis e \(\mathbf{E}Y_k=0\), então
\[ S_0=0,\qquad S_n=\sum _{k=1}^nY_k \]
é uma martingala para \(\mathcal{F}_n=\sigma \langle Y_1,\ldots ,Y_n\rangle \). Como \(Y_{n+1}\) é independente de \(\mathcal{F}_n\), a Proposição 14.19 dá \(\mathbf{E}[Y_{n+1}\mid \mathcal{F}_n]=\mathbf{E}Y_{n+1}=0\). Portanto,
\[ \mathbf{E}[S_{n+1}\mid \mathcal{F}_n]=S_n. \]

Exemplo 18.5 (Produtos)
Se \(Y_1,Y_2,\ldots \) são independentes, integráveis e \(\mathbf{E}Y_k=1\), e se todo produto abaixo é integrável, então
\[ M_0=1,\qquad M_n=\prod _{k=1}^nY_k \]
é uma martingala para a filtração natural das variáveis \(Y_k\). Pela Proposição 14.19, \(\mathbf{E}[Y_{n+1}\mid \mathcal{F}_n]=1\); como \(M_n\) é \(\mathcal{F}_n\)-mensurável, a Proposição 14.18 fornece
\[ \mathbf{E}[M_{n+1}\mid \mathcal{F}_n] =M_n\mathbf{E}[Y_{n+1}\mid \mathcal{F}_n] =M_n. \]

Exemplo 18.6 (Esperanças condicionais)
Se \(Z\in L^1\), então
\[ M_n=\mathbf{E}[Z\mid \mathcal{F}_n] \]
é uma martingala. A propriedade da torre é exatamente a propriedade de martingala:
\[ \mathbf{E}[M_{n+1}\mid \mathcal{F}_n] =\mathbf{E}[Z\mid \mathcal{F}_n]=M_n. \]

Exemplo 18.7 (Passeio aleatório simples)
Se \(Y_1,Y_2,\ldots \) são independentes e \(\P (Y_k=1)=\P (Y_k=-1)=1/2\), o passeio \(S_n=Y_1+\cdots +Y_n\) é uma martingala. Também são martingalas
\[ S_n^2-n \qquad \text{e}\qquad \frac{\exp (\theta S_n)}{(\cosh \theta )^n},\quad \theta \in \mathbb R. \]
Para a primeira, a Proposição 14.19 fornece \(\mathbf{E}[Y_{n+1}\mid \mathcal{F}_n]=0\), e \(Y_{n+1}^2=1\). Para a segunda, a mesma propriedade, aplicada a \(e^{\theta Y_{n+1}}\), dá \(\mathbf{E}[e^{\theta Y_{n+1}}\mid \mathcal{F}_n]=\cosh \theta \).

18.3 Estratégias previsíveis e processos parados

Uma estratégia só pode usar a informação disponível antes de cada aposta. A previsibilidade registra essa restrição: o que se conhece de antemão é a aposta, não o ganho.

Definição 18.8 (Processo previsível)
Um processo \(H=(H_n)_{n\geq 1}\) é previsível se \(H_n\) é \(\mathcal{F}_{n-1}\)-mensurável para todo \(n\geq 1\). Sua transformada discreta de \(X\) é
\[ (H\mathbin {\boldsymbol \cdot }X)_n =\sum _{k=1}^nH_k(X_k-X_{k-1}), \qquad (H\mathbin {\boldsymbol \cdot }X)_0=0. \]

Nessa interpretação, \(X_k-X_{k-1}\) é o ganho unitário no passo \(k\), e \(H_k\), a aposta escolhida antes de esse ganho ser revelado. A transformada soma os ganhos produzidos pela estratégia.

Proposição 18.9 (Transformada de martingala)
Se \(X\) é uma martingala e \(H\) é previsível e limitado, então \((H\mathbin {\boldsymbol \cdot }X)_n\) é uma martingala. Se \(X\) é uma submartingala e \(H\) é previsível, limitado e não negativo, então a transformada é uma submartingala.

Demonstração ▼

Escrevendo \(\Delta X_k=X_k-X_{k-1}\), temos

\[ \mathbf{E}[H_k\Delta X_k\mid \mathcal{F}_{k-1}] =H_k\mathbf{E}[\Delta X_k\mid \mathcal{F}_{k-1}]. \]

O último membro é zero no caso de uma martingala e é não negativo no caso de uma submartingala com \(H_k\geq 0\). A limitação de \(H\) garante a integrabilidade.

Recorde que um tempo de parada é uma regra cuja decisão de parar no instante \(n\) depende apenas de \(\mathcal{F}_n\). Para um tempo de parada \(\tau \), o processo parado é

\[ X_n^\tau =X_{n\wedge \tau }, \qquad n\geq 0. \]

Se \(\tau =\infty \), convencionamos \(n\wedge \tau =n\). A identidade fundamental é

\begin{equation} \label{eq:processo-parado} X_{n\wedge \tau } =X_0+\sum _{k=1}^n\mathbb {1}_{\{ \tau \geq k\} } (X_k-X_{k-1}). \tag{18.1} \end{equation}

Como \(\{ \tau \geq k\} =\{ \tau \leq k-1\} ^{\mathsf c}\in \mathcal{F}_{k-1}\), os indicadores formam uma estratégia previsível: mantemos os incrementos até a parada e descartamos os seguintes.

Teorema 18.10 (Processo parado)
Se \(X\) é uma martingala e \(\tau \) é um tempo de parada, então \(X^\tau =(X_{n\wedge \tau })_{n\geq 0}\) é uma martingala. O mesmo vale para submartingalas e supermartingalas.

Demonstração ▼

A identidade (18.1) escreve \(X^\tau -X_0\) como a transformada de \(X\) pela estratégia previsível \(H_k=\mathbb {1}_{\{ \tau \geq k\} }\), que toma valores em \(\{ 0,1\} \). A Proposição 18.9 conclui a demonstração nos casos de martingalas e submartingalas. O caso das supermartingalas segue por simetria.

18.4 O teorema da parada de Doob

O processo parado conserva a propriedade de martingala em cada tempo determinístico. Para comparar diretamente os valores em dois tempos de parada, precisamos descrever a informação disponível nesses instantes aleatórios.

Definição 18.11 (Informação em um tempo de parada)
Para um tempo de parada \(\tau \), definimos
\[ \mathcal{F}_\tau = \{ A\in \mathcal{F}:A\cap \{ \tau \leq n\} \in \mathcal{F}_n \text{ para todo }n\geq 0\} . \]

Essa coleção é uma \(\sigma \)-álgebra. De fato, \(\Omega \in \mathcal{F}_\tau \), e as identidades

\[ A^{\mathsf c}\cap \{ \tau \leq n\} =\{ \tau \leq n\} \setminus \bigl(A\cap \{ \tau \leq n\} \bigr) \]

e

\[ \left(\bigcup _{j\geq 1}A_j\right)\cap \{ \tau \leq n\} =\bigcup _{j\geq 1}\bigl(A_j\cap \{ \tau \leq n\} \bigr) \]

mostram que \(\mathcal{F}_\tau \) é fechada por complementos e uniões enumeráveis.

Se \(\sigma \leq \tau \) e \(A\in \mathcal{F}_\sigma \), então

\[ A\cap \{ \tau \leq n\} =\bigl(A\cap \{ \sigma \leq n\} \bigr)\cap \{ \tau \leq n\} \in \mathcal{F}_n, \]

logo \(\mathcal{F}_\sigma \subseteq \mathcal{F}_\tau \). Finalmente, se \(X\) é adaptado e \(C\subseteq \mathbb R\) é boreliano, então

\[ \{ X_\tau \in C,\ \tau \lt \infty \} \cap \{ \tau \leq n\} =\bigcup _{k=0}^{n}\bigl(\{ \tau =k\} \cap \{ X_k\in C\} \bigr)\in \mathcal{F}_n. \]

Assim, \(X_\tau \) é \(\mathcal{F}_\tau \)-mensurável no evento \(\{ \tau \lt \infty \} \).

Teorema 18.12 (Amostragem opcional limitada)
Se \(X\) é uma submartingala e \(\sigma \leq \tau \leq N\) são tempos de parada, então
\[ X_\sigma \leq \mathbf{E}[X_\tau \mid \mathcal{F}_\sigma ] \qquad \text{q.c.} \]
Se \(X\) é uma martingala, há igualdade; se é uma supermartingala, a desigualdade é invertida.

Demonstração ▼

Como \(\sigma \) e \(\tau \) são limitados, as variáveis \(X_\sigma \) e \(X_\tau \) são integráveis. Além disso,

\[ X_\tau -X_\sigma =\sum _{k=1}^{N} \mathbb {1}_{\{ \sigma \lt k\leq \tau \} }(X_k-X_{k-1}). \]

Se \(A\in \mathcal{F}_\sigma \), então \(A\cap \{ \sigma \lt k\leq \tau \} \in \mathcal{F}_{k-1}\). Logo, para uma submartingala,

\begin{align*} \mathbf{E}[\mathbb {1}_A(X_\tau -X_\sigma )] & =\sum _{k=1}^{N}\mathbf{E}\! \left[ \mathbb {1}_{A\cap \{ \sigma \lt k\leq \tau \} } \mathbf{E}[X_k-X_{k-1}\mid \mathcal{F}_{k-1}]\right]\\ & \geq 0. \end{align*}

Essa desigualdade, válida para todo \(A\in \mathcal{F}_\sigma \), caracteriza \(X_\sigma \leq \mathbf{E}[X_\tau \mid \mathcal{F}_\sigma ]\). No caso de uma martingala, todos os termos são zero. O caso das supermartingalas segue de \(-X\).

Corolário 18.13 (Parada de Doob limitada)
Se \(X\) é uma martingala e \(\tau \leq N\) é um tempo de parada, então
\[ \mathbf{E}X_\tau =\mathbf{E}X_0. \]
Para uma submartingala, \(\mathbf{E}X_\tau \geq \mathbf{E}X_0\); para uma supermartingala, \(\mathbf{E}X_\tau \leq \mathbf{E}X_0\).

Demonstração ▼

Aplique o Teorema 18.12 aos tempos de parada \(\sigma =0\) e \(\tau \), e depois tome esperanças. Para uma martingala,

\[ X_0=\mathbf{E}[X_\tau \mid \mathcal{F}_0] \quad \Longrightarrow \quad \mathbf{E}X_0=\mathbf{E}X_\tau . \]

Nos casos de submartingala e supermartingala, a mesma operação preserva o sentido da desigualdade correspondente.

Com tempos limitados, não foi necessária uma passagem ao limite. Para estender o resultado a tempos de parada não limitados, precisamos justificar a passagem de \(X_{\tau \wedge n}\) a \(X_\tau \) também nas esperanças. A integrabilidade uniforme fornece esse controle.

Definição 18.14 (Integrabilidade uniforme)
Uma família \(\{ Z_i:i\in I\} \subset L^1\) é uniformemente integrável se
\[ \lim _{K\to \infty }\sup _{i\in I} \mathbf{E}\bigl[|Z_i|\mathbb {1}_{\{ |Z_i|\gt K\} }\bigr]=0. \]

Lema 18.15 (Critérios úteis)
Uma família dominada por uma variável integrável é uniformemente integrável. Além disso, se para algum \(p\gt 1\)
\[ \sup _{i\in I}\mathbf{E}|Z_i|^p\lt \infty , \]
então \(\{ Z_i:i\in I\} \) é uniformemente integrável.

Demonstração ▼

Se \(|Z_i|\leq Y\in L^1\), então

\[ |Z_i|\mathbb {1}_{\{ |Z_i|\gt K\} } \leq Y\mathbb {1}_{\{ Y\gt K\} }, \]

e o lado direito tem esperança tendendo a zero. No segundo caso,

\[ |Z_i|\mathbb {1}_{\{ |Z_i|\gt K\} } \leq K^{1-p}|Z_i|^p. \]

Lema 18.16 (Lema de Vitali)
Se \(Z_n\to Z\) q.c. e a família \(\{ Z_n:n\geq 1\} \) é uniformemente integrável, então \(Z\in L^1\) e \(Z_n\to Z\) em \(L^1\).

Demonstração ▼

A integrabilidade uniforme implica \(\sup _n\mathbf{E}|Z_n|\lt \infty \). Com efeito, escolhendo \(K\) tão grande que

\[ \sup _n\mathbf{E}\! \left[ |Z_n|\mathbb {1}_{\{ |Z_n|\gt K\} } \right]\leq 1, \]

temos, para todo \(n\),

\[ \mathbf{E}|Z_n| \leq K+\mathbf{E}\! \left[ |Z_n|\mathbb {1}_{\{ |Z_n|\gt K\} } \right] \leq K+1. \]

Pelo lema de Fatou, \(Z\in L^1\). Seja \(\varphi _K(x)=(-K)\vee (x\wedge K)\). Por convergência dominada,

\[ \mathbf{E}|\varphi _K(Z_n)-\varphi _K(Z)|\longrightarrow 0 \qquad (n\to \infty ). \]

Além disso,

\[ |Z_n-\varphi _K(Z_n)| \leq |Z_n|\mathbb {1}_{\{ |Z_n|\gt K\} }, \]

e vale a desigualdade análoga para \(Z\). Fazendo primeiro \(n\to \infty \) e depois \(K\to \infty \), obtemos \(\mathbf{E}|Z_n-Z|\to 0\).

Teorema 18.17 (Parada de Doob)
Seja \(X\) uma martingala e seja \(\tau \lt \infty \) q.c. Se a família
\[ \{ X_{\tau \wedge n}:n\geq 0\} \]
é uniformemente integrável, então
\[ \mathbf{E}X_\tau =\mathbf{E}X_0. \]
Em particular, a conclusão vale em cada uma das situações seguintes:
  1. existe \(Y\in L^1\) tal que \(|X_{\tau \wedge n}|\leq Y\) para todo \(n\);

  2. os incrementos satisfazem \(|X_n-X_{n-1}|\leq C\) q.c. e \(\mathbf{E}\tau \lt \infty \).

Para submartingalas e supermartingalas, sob a mesma integrabilidade uniforme, valem respectivamente as desigualdades \(\mathbf{E}X_\tau \geq \mathbf{E}X_0\) e \(\mathbf{E}X_\tau \leq \mathbf{E}X_0\).

Demonstração ▼

Pelo Corolário 18.13, \(\mathbf{E}X_{\tau \wedge n}=\mathbf{E}X_0\) para todo \(n\). Como \(\tau \lt \infty \) q.c., temos \(X_{\tau \wedge n}\to X_\tau \) q.c. O Lema 18.16 transforma essa convergência em convergência em \(L^1\), e portanto podemos passar ao limite nas esperanças. Para submartingalas e supermartingalas, fazemos a mesma passagem ao limite nas desigualdades da versão limitada.

A primeira condição particular implica integrabilidade uniforme pelo Lema 18.15. Sob a segunda,

\[ |X_{\tau \wedge n}| \leq |X_0|+\sum _{k=1}^{\tau \wedge n}|X_k-X_{k-1}| \leq |X_0|+C\tau , \]

e o último membro é integrável.

As hipóteses não são ornamento. Parar em tempo finito quase certamente não basta para preservar a esperança, como mostra o exemplo seguinte.

Exemplo 18.18 (Uma hipótese indispensável)

Seja \(S\) um passeio aleatório simples, com \(S_0=0\), e ponha

\[ \tau =\inf \{ n\geq 0:S_n=1\} . \]

Então \(\tau \lt \infty \) q.c., mas \(\mathbf{E}\tau =\infty \). Como \(S_\tau =1\),

\[ \mathbf{E}S_\tau =1\neq 0=\mathbf{E}S_0; \]

logo, a conclusão do teorema da parada falha.

Para justificar as duas afirmações sobre \(\tau \), introduzimos uma segunda barreira. Para \(a\geq 1\), seja

\[ \tau _a=\inf \{ n\geq 0:S_n\in \{ -a,1\} \} . \]

Em blocos de \(a+1\) passos existe uma probabilidade positiva, uniforme em relação ao ponto interior inicial, de atingir uma das duas barreiras. Assim, \(\tau _a\) tem cauda geométrica e \(\mathbf{E}\tau _a\lt \infty \). Aplicando o teorema da parada a \(S_n\),

\[ 0=\mathbf{E}S_{\tau _a} =\P (S_{\tau _a}=1)-a\P (S_{\tau _a}=-a), \]

de onde

\[ \P (S_{\tau _a}=1)=\frac{a}{a+1}. \]

Esses eventos crescem para \(\{ \tau \lt \infty \} \); portanto \(\P (\tau \lt \infty )=1\). Além disso,

\[ \bigl|S_{n\wedge \tau _a}^2-(n\wedge \tau _a)\bigr| \leq \max \{ a^2,1\} +\tau _a. \]

Logo, a família parada de \(S_n^2-n\) é dominada por uma variável integrável, e o teorema da parada fornece

\[ \mathbf{E}\tau _a=\mathbf{E}S_{\tau _a}^2=a. \]

Como \(\tau _a\leq \tau \), segue que \(\mathbf{E}\tau \geq a\) para todo \(a\), e portanto \(\mathbf{E}\tau =\infty \).

Com duas barreiras fixas, as condições de integrabilidade voltam a valer. A mesma estratégia de prova determina tanto a probabilidade de saída por cada lado quanto o tempo médio até a saída.

Exemplo 18.19 (Ruína do jogador)
Para inteiros \(a,b\geq 1\), seja
\[ \tau =\inf \{ n\geq 0:S_n\in \{ -a,b\} \} . \]
Como no exemplo anterior, \(\tau \) tem cauda geométrica e esperança finita. Se \(p=\P (S_\tau =b)\), a parada de \(S_n\) fornece
\[ 0=bp-a(1-p), \qquad \text{logo}\qquad p=\frac{a}{a+b}. \]
Como a família parada de \(S_n^2-n\) é dominada por \(\max \{ a^2,b^2\} +\tau \), uma segunda aplicação do teorema fornece
\[ \mathbf{E}\tau =\mathbf{E}S_\tau ^2 =b^2\frac{a}{a+b}+a^2\frac{b}{a+b}=ab. \]

18.5 Desigualdades e convergência de Doob

A desigualdade maximal controla a probabilidade de uma trajetória atingir um nível até certo instante. Para estudar a convergência, controlaremos também suas oscilações, contando os cruzamentos de um intervalo.

Teorema 18.20 (Desigualdade maximal de Doob)
Se \(X=(X_k)_{0\leq k\leq n}\) é uma submartingala não negativa e \(\lambda \gt 0\), então
\[ \lambda \, \P \! \left(\max _{0\leq k\leq n}X_k\geq \lambda \right) \leq \mathbf{E}\! \left[X_n\mathbb {1}_{\{ \max _{0\leq k\leq n}X_k \geq \lambda \} }\right] \leq \mathbf{E}X_n. \]
Em particular, se \(M\) é uma martingala,
\[ \P \! \left(\max _{0\leq k\leq n}|M_k|\geq \lambda \right) \leq \frac{\mathbf{E}|M_n|}{\lambda }. \]

Demonstração ▼

Seja \(A=\{ \max _{0\leq k\leq n}X_k\geq \lambda \} \) e seja \(T\) o primeiro instante em \(\{ 0,\ldots ,n\} \) no qual \(X_T\geq \lambda \), com a convenção \(T=n\) em \(A^{\mathsf c}\). O evento \(A\) pertence a \(\mathcal{F}_T\). Pela amostragem opcional entre \(T\) e \(n\),

\[ \lambda \P (A) \leq \mathbf{E}[X_T\mathbb {1}_A] \leq \mathbf{E}[X_n\mathbb {1}_A] \leq \mathbf{E}X_n. \]

Para uma martingala \(M\), aplicamos a primeira parte à submartingala \((|M_k|)\).

Para formular a desigualdade de cruzamentos, escrevemos \(x^- =\max \{ -x,0\} \). Fixados \(a\lt b\), um cruzamento ascendente completo de \([a,b]\) ocorre quando a trajetória visita primeiro \((-\infty ,a]\) e, depois, \([b,\infty )\). Seja \(U_n[a,b]\) o número máximo de tais cruzamentos disjuntos realizados até o instante \(n\).

Figura 18.1 Três cruzamentos ascendentes completos de [a,b], destacados em vinho. Uma nova contagem começa quando a trajetória retorna a (-∞ ,a] e termina ao alcançar novamente [b,∞ ).

Figura 18.1 Três cruzamentos ascendentes completos de \([a,b]\), destacados em vinho. Uma nova contagem começa quando a trajetória retorna a \((-\infty ,a]\) e termina ao alcançar novamente \([b,\infty )\).

Teorema 18.21 (Desigualdade de cruzamentos de Doob)
Se \((X_k)_{0\leq k\leq n}\) é uma supermartingala, então
\[ (b-a)\mathbf{E}U_n[a,b]\leq \mathbf{E}[(X_n-a)^-]. \]

Demonstração ▼

Considere a estratégia que compra uma unidade imediatamente depois de a trajetória estar em \((-\infty ,a]\) e a conserva até a primeira visita a \([b,\infty )\); então repete a operação. A posição \(H_k\in \{ 0,1\} \) mantida no passo \(k\) é previsível. Cada operação completa produz ao menos \(b-a\). Se ao final resta uma posição aberta, sua perda é no máximo \((X_n-a)^-\). Portanto, trajetória por trajetória,

\[ (H\mathbin {\boldsymbol \cdot }X)_n \geq (b-a)U_n[a,b]-(X_n-a)^-. \]

Como \(X\) é uma supermartingala e \(H\geq 0\), a transformada é uma supermartingala iniciada em zero; logo sua esperança é menor ou igual a zero. Tomando esperanças na desigualdade anterior, obtemos o resultado.

Se o limite inferior de uma trajetória é menor que seu limite superior, ela atravessa repetidamente algum intervalo entre os dois. A desigualdade anterior permitirá excluir essa oscilação. O controle uniforme das esperanças absolutas também impedirá que o limite seja infinito.

Teorema 18.22 (Convergência de Doob)
Se \(X=(X_n)_{n\geq 0}\) é uma supermartingala e
\[ \sup _{n\geq 0}\mathbf{E}|X_n|\lt \infty , \]
então existe uma variável aleatória finita \(X_\infty \) tal que
\[ X_n\longrightarrow X_\infty \qquad \text{q.c.} \]
O mesmo resultado vale para submartingalas.

Demonstração ▼

Para racionais \(a\lt b\), a desigualdade de cruzamentos implica

\[ \mathbf{E}U_n[a,b] \leq \frac{\mathbf{E}[(X_n-a)^-]}{b-a} \leq \frac{\sup _k\mathbf{E}|X_k|+|a|}{b-a}. \]

Como \(U_n[a,b]\) cresce com \(n\), defina

\[ U_\infty [a,b]=\lim _{n\to \infty }U_n[a,b]\in [0,\infty ]. \]

Pelo Teorema da Convergência Monótona,

\[ \mathbf{E}U_\infty [a,b] =\lim _{n\to \infty }\mathbf{E}U_n[a,b] \leq \frac{\sup _k\mathbf{E}|X_k|+|a|}{b-a}\lt \infty . \]

Logo \(U_\infty [a,b]\lt \infty \) q.c. Se \(\liminf X_n\lt \limsup X_n\), existem racionais \(a\lt b\) estritamente entre esses dois limites, e então ocorrem infinitos cruzamentos de \([a,b]\), uma contradição. Logo \(X_n\) possui limite no espaço estendido q.c.

Pelo lema de Fatou,

\[ \mathbf{E}\! \left[\liminf _{n\to \infty }|X_n|\right] \leq \liminf _{n\to \infty }\mathbf{E}|X_n|\lt \infty , \]

de modo que o limite é finito q.c. Para submartingalas, aplicamos o resultado a \(-X\).

Corolário 18.23 (Supermartingalas não negativas)
Toda supermartingala não negativa converge q.c. para uma variável aleatória finita.

Demonstração ▼

Como \(X_n\geq 0\) e \((\mathbf{E}X_n)\) é decrescente, \(\sup _n\mathbf{E}|X_n|=\mathbf{E}X_0\lt \infty \).

A convergência quase certa não garante a convergência em \(L^1\). Para controlar também as esperanças, voltamos à integrabilidade uniforme. O lema seguinte será usado para verificar essa condição em famílias de esperanças condicionais.

Lema 18.24 (Continuidade absoluta da integral)
Se \(Z\in L^1(\P )\), então, para todo \(\varepsilon \gt 0\), existe \(\delta \gt 0\) tal que
\[ \P (A)\lt \delta \quad \Longrightarrow \quad \mathbf{E}[|Z|\mathbb {1}_A]\lt \varepsilon \]
para todo \(A\in \mathcal{F}\).

Demonstração ▼

Escolha \(K\gt 0\) tal que

\[ \mathbf{E}[|Z|\mathbb {1}_{\{ |Z|\gt K\} }]\lt \frac{\varepsilon }{2}, \]

o que é possível pela Convergência Dominada. Ponha \(\delta =\varepsilon /(2K)\). Se \(\P (A)\lt \delta \), então

\[ \mathbf{E}[|Z|\mathbb {1}_A] \leq K\P (A) +\mathbf{E}[|Z|\mathbb {1}_{\{ |Z|\gt K\} }] \lt \varepsilon . \]

Teorema 18.25 (Convergência em \(L^1\))
Para uma martingala \(M=(M_n)_{n\geq 0}\), são equivalentes:
  1. a família \(\{ M_n:n\geq 0\} \) é uniformemente integrável;

  2. existe \(M_\infty \in L^1\) tal que \(M_n\to M_\infty \) q.c. e em \(L^1\);

  3. existe \(M_\infty \in L^1\) tal que

    \[ M_n=\mathbf{E}[M_\infty \mid \mathcal{F}_n] \qquad \text{q.c. para todo }n. \]

Demonstração ▼

Suponha primeiro que a família é uniformemente integrável. Em particular, ela é limitada em \(L^1\). Pelo Teorema 18.22, \(M_n\to M_\infty \) q.c.; o Lema 18.16 fornece a convergência em \(L^1\).

Se vale a segunda afirmação, então, para \(m\geq n\), \(M_n=\mathbf{E}[M_m\mid \mathcal{F}_n]\). A contração da esperança condicional em \(L^1\) permite fazer \(m\to \infty \), dando \(M_n=\mathbf{E}[M_\infty \mid \mathcal{F}_n]\).

Finalmente, a família de todas as esperanças condicionais de uma variável fixa \(Z\in L^1\) é uniformemente integrável. De fato, para \(Y=\mathbf{E}[Z\mid \mathcal{G}]\) e \(A=\{ |Y|\gt K\} \),

\[ \P (A)\leq \frac{\mathbf{E}|Z|}{K}. \]

Além disso, por Jensen condicional, \(|Y|\leq \mathbf{E}[|Z|\mid \mathcal{G}]\). Como \(A\in \mathcal{G}\),

\[ \mathbf{E}[|Y|\mathbb {1}_A] \leq \mathbf{E}\! \left[\mathbf{E}[|Z|\mid \mathcal{G}]\mathbb {1}_A\right] =\mathbf{E}[|Z|\mathbb {1}_A]. \]

Como a primeira desigualdade torna \(\P (A)\) uniformemente pequena quando \(K\to \infty \), o Lema 18.24 conclui a demonstração.

No exemplo das esperanças condicionais, o crescimento da informação permite identificar o limite: ele é a esperança de \(Z\) condicionada a toda a informação reunida pela filtração.

Corolário 18.26 (Teorema ascendente de Lévy)
Se \(Z\in L^1\), \(\mathcal{F}_n\uparrow \mathcal{F}_\infty \) e \(\mathcal{F}_\infty =\sigma \langle \bigcup _n\mathcal{F}_n\rangle \), então
\[ \mathbf{E}[Z\mid \mathcal{F}_n] \longrightarrow \mathbf{E}[Z\mid \mathcal{F}_\infty ] \]
q.c. e em \(L^1\).

Demonstração ▼

A martingala \(M_n=\mathbf{E}[Z\mid \mathcal{F}_n]\) é uniformemente integrável pelo teorema anterior. Seu limite \(M_\infty \) satisfaz \(\mathbf{E}[M_\infty \mathbb {1}_A]=\mathbf{E}[Z\mathbb {1}_A]\) para todo \(A\in \bigcup _n\mathcal{F}_n\). Um argumento de classe monótona estende a identidade a \(A\in \mathcal{F}_\infty \), identificando \(M_\infty =\mathbf{E}[Z\mid \mathcal{F}_\infty ]\).

18.6 Decomposição de Doob: o caso discreto de Doob–Meyer

Podemos separar os incrementos de um processo em sua média condicional e no desvio em relação a ela. Somando essas duas parcelas, obtemos uma parte previsível e uma martingala. Para uma submartingala, a parte previsível será crescente.

Definição 18.27 (Previsibilidade em zero)
Um processo adaptado \(A=(A_n)_{n\geq 0}\) é previsível se \(A_0\) é \(\mathcal{F}_0\)-mensurável e \(A_n\) é \(\mathcal{F}_{n-1}\)-mensurável para \(n\geq 1\).

Teorema 18.28 (Decomposição de Doob)
Se \(X=(X_n)_{n\geq 0}\) é um processo adaptado e integrável, então existe uma única decomposição
\[ X_n=M_n+A_n, \]
em que \(M\) é uma martingala e \(A\) é previsível, integrável e \(A_0=0\). Explicitamente,
\begin{align*} A_n& =\sum _{k=1}^n \mathbf{E}[X_k-X_{k-1}\mid \mathcal{F}_{k-1}],\\ M_n& =X_0+\sum _{k=1}^n \bigl(X_k-\mathbf{E}[X_k\mid \mathcal{F}_{k-1}]\bigr). \end{align*}
Além disso, \(X\) é uma submartingala se, e somente se, \(A\) é crescente; e \(X\) é uma supermartingala se, e somente se, \(A\) é decrescente.

Demonstração ▼

A fórmula mostra que \(A_0=0\) e que \(A_n-A_{n-1}\) é \(\mathcal{F}_{n-1}\)-mensurável. Como

\[ \mathbf{E}[M_n-M_{n-1}\mid \mathcal{F}_{n-1}] =\mathbf{E}[X_n-X_{n-1}\mid \mathcal{F}_{n-1}] -(A_n-A_{n-1})=0, \]

\(M\) é uma martingala. Se \(X=M+A=\widetilde M+\widetilde A\) são duas decomposições normalizadas, então \(M-\widetilde M=\widetilde A-A\) é ao mesmo tempo uma martingala e um processo previsível iniciado em zero. Seus incrementos são \(\mathcal{F}_{n-1}\)-mensuráveis e têm esperança condicional zero; portanto são nulos q.c. Isso prova a unicidade.

Por fim,

\[ A_n-A_{n-1} =\mathbf{E}[X_n-X_{n-1}\mid \mathcal{F}_{n-1}], \]

que é não negativo exatamente quando \(X\) é uma submartingala, e não positivo exatamente quando \(X\) é uma supermartingala.

A decomposição de Doob separa a flutuação martingala da tendência previsível.

Exercício 18.1

Seja \((\mathcal F_n)_{n\geq 0}\) uma filtração e seja \(Z\in L^1\). Prove diretamente, usando a propriedade da torre, que

\[ M_n=\mathbf{E}[Z\mid \mathcal F_n], \qquad n\geq 0, \]

é uma martingala. Prove também que ela é uniformemente integrável e identifique seu limite, tanto quase certamente quanto em \(L^1\), tomando \(\mathcal F_\infty =\sigma \langle \bigcup _{n\geq 0}\mathcal F_n\rangle \).

Ver solução
\(M_n\) é \(\mathcal F_n\)-mensurável, integrável e, pela torre, \(\mathbf{E}[M_{n+1}\mid \mathcal F_n]=\mathbf{E}[Z\mid \mathcal F_n]=M_n\). A família das esperanças condicionais de uma única variável \(L^1\) é uniformemente integrável: aproxime \(Z\) em \(L^1\) por uma variável limitada e use a contração condicional em \(L^1\). Pelo Teorema de Convergência de Doob e pela propriedade caracterizadora,
\[ M_n\longrightarrow \mathbf{E}[Z\mid \mathcal F_\infty ] \]
quase certamente e em \(L^1\).
Exercício 18.2

Sejam \(\xi _1,\xi _2,\ldots \) variáveis i.i.d. com \(\mathbf{E}[\xi _1]=0\) e \(\operatorname {Var}(\xi _1)=\sigma ^2\lt \infty \). Para \(S_n=\xi _1+\cdots +\xi _n\), adote \(S_0=0\) e tome \(\mathcal F_n=\sigma \langle \xi _1,\ldots ,\xi _n\rangle \), com \(\mathcal F_0=\{ \varnothing ,\Omega \} \). Prove que

\[ (S_n)_{n\geq 0} \quad \text{e}\quad (S_n^2-n\sigma ^2)_{n\geq 0} \]

são martingalas.

Ver solução
Como \(\xi _{n+1}\) é independente de \(\mathcal F_n\) e centrada, \(\mathbf{E}[S_{n+1}\mid \mathcal F_n]=S_n\). Além disso,
\[ \mathbf{E}[S_{n+1}^2\mid \mathcal F_n] =S_n^2+2S_n\mathbf{E}[\xi _{n+1}\mid \mathcal F_n] +\mathbf{E}[\xi _{n+1}^2]=S_n^2+\sigma ^2, \]
o que fornece a segunda propriedade após subtrair \((n+1)\sigma ^2\).
Exercício 18.3

Sejam \(\xi _1,\xi _2,\ldots \) variáveis i.i.d., defina \(S_0=0\), \(S_n=\xi _1+\cdots +\xi _n\) e tome a filtração natural. Suponha que \(m(\theta )=\mathbf{E}[e^{\theta \xi _1}]\lt \infty \) para algum \(\theta \in \mathbb {R}\). Prove que

\[ M_n=\frac{e^{\theta S_n}}{m(\theta )^n}, \qquad n\geq 0, \]

é uma martingala. Explique o que ocorre quando \(m(\theta )=0\).

Ver solução
Independência do novo incremento dá
\[ \mathbf{E}[M_{n+1}\mid \mathcal F_n] =\frac{e^{\theta S_n}}{m(\theta )^{n+1}} \mathbf{E}[e^{\theta \xi _{n+1}}]=M_n. \]
Integrabilidade e adaptação são imediatas. Como \(e^{\theta \xi _1}\gt 0\) quase certamente, sua esperança, quando finita, é estritamente positiva; portanto o caso \(m(\theta )=0\) não pode ocorrer.
Exercício 18.4

Seja \(M=(M_n)\) uma martingala em relação a uma filtração \((\mathcal F_n)\) e seja \(H=(H_n)_{n\geq 1}\) um processo previsível e limitado em relação à mesma filtração. Defina

\[ (H\boldsymbol \cdot M)_n =\sum _{k=1}^{n}H_k(M_k-M_{k-1}). \]

Prove diretamente que \((H\boldsymbol \cdot M)_n\) é uma martingala. Interprete o resultado como a impossibilidade de criar ganho médio positivo por uma estratégia de apostas que usa apenas a informação passada.

Ver solução
Cada soma é adaptada e integrável, pois \(H\) é previsível e limitado. Como \(H_k\) é \(\mathcal F_{k-1}\)-mensurável,
\[ \mathbf{E}[H_k(M_k-M_{k-1})\mid \mathcal F_{k-1}] =H_k\mathbf{E}[M_k-M_{k-1}\mid \mathcal F_{k-1}]=0. \]
Logo as somas parciais formam uma martingala. Assim qualquer aposta baseada apenas no passado multiplica um incremento de média condicional zero e não cria ganho esperado.
Exercício 18.5

Seja \((S_n)\) um passeio aleatório simples iniciado em \(S_0=0\), munido de sua filtração natural \(\mathcal F_n=\sigma \langle S_0,\ldots ,S_n\rangle \).

  1. Prove que para cada inteiro \(a\geq 1\), \(\tau _a=\inf \{ n\geq 0:S_n\geq a\} \) é um tempo de parada.

  2. Fixe \(N\) e considere

    \[ \rho =\sup \{ 0\leq n\leq N:S_n=0\} , \]

    com \(\rho =0\) se o conjunto estiver vazio. Mostre que, em geral, \(\rho \) não é um tempo de parada.

Ver solução
Temos \(\{ \tau _a\leq n\} =\{ \max _{0\leq k\leq n}S_k\geq a\} \in \mathcal F_n\), logo \(\tau _a\) é tempo de parada. Para \(n\lt N\), decidir \(\{ \rho \leq n\} \) exige saber se haverá uma visita a zero entre \(n+1\) e \(N\). Duas trajetórias com o mesmo prefixo até \(n\) podem diferir por um retorno posterior a zero; portanto esse evento não pertence, em geral, a \(\mathcal F_n\).
Exercício 18.6

Ruína do jogador por amostragem opcional. Seja \((S_n)\) um passeio aleatório simples iniciado em \(0\), e sejam \(a,b\geq 1\). Para

\[ \tau =\inf \{ n\geq 0:S_n\in \{ -a,b\} \} , \]

use a amostragem opcional, aplicada primeiro a \(\tau \wedge N\), para calcular \(\P (S_\tau =b)\). Em seguida, aplique o mesmo procedimento à martingala \(S_n^2-n\) para mostrar que

\[ \mathbf{E}[\tau ]=ab. \]

Justifique cuidadosamente as hipóteses que permitem cada passagem ao limite. Esse argumento também é frequentemente chamado de parada opcional.

Ver solução

Aplique primeiro o Teorema de Amostragem Opcional Limitada a \(\tau \wedge N\). O processo parado \(S_{\tau \wedge N}\) fica entre \(-a\) e \(b\). Além disso, em cada bloco de \(a+b\) passos há uma probabilidade positiva, uniforme no ponto inicial, de atingir uma das barreiras; portanto \(\tau \lt \infty \) quase certamente. Logo a passagem \(N\to \infty \) é justificada por convergência dominada. Se \(p=\P (S_\tau =b)\), então \(0=\mathbf{E}S_\tau =bp-a(1-p)\) e \(p=a/(a+b)\).

Para \(S_n^2-n\), a amostragem no tempo limitado \(\tau \wedge N\) dá \(\mathbf{E}[S_{\tau \wedge N}^2]=\mathbf{E}[\tau \wedge N]\). O lado esquerdo é dominado por \(\max \{ a^2,b^2\} \); convergência dominada à esquerda e monótona à direita mostram que \(\mathbf{E}\tau =\mathbf{E}S_\tau ^2\lt \infty \). Assim

\[ \mathbf{E}\tau =b^2\frac{a}{a+b}+a^2\frac{b}{a+b}=ab. \]
Exercício 18.7

Considere lançamentos independentes de uma moeda justa. Seja \(\mathcal F_n\) a informação gerada pelos primeiros \(n\) lançamentos e defina

\[ M_n=2^n\mathbb {1}_{\{ \text{os $n$ primeiros lançamentos são caras}\} }. \]

Prove que \((M_n)\) é uma martingala não negativa com \(\mathbf{E}[M_n]=1\) para todo \(n\), mas \(M_n\to 0\) quase certamente. Conclua que a família \(\{ M_n:n\geq 0\} \) não é uniformemente integrável e que a convergência não ocorre em \(L^1\).

Ver solução
Se \(H_n\) é o evento das primeiras \(n\) caras, então
\[ \mathbf{E}[M_{n+1}\mid \mathcal F_n] =2^{n+1}\mathbb {1}_{H_n}(1/2)=M_n, \qquad \mathbf{E}M_n=2^n2^{-n}=1. \]
Quase toda sequência apresenta uma coroa em tempo finito; depois disso \(M_n=0\), logo \(M_n\to 0\) quase certamente. Se a família fosse uniformemente integrável, essa convergência implicaria convergência em \(L^1\) e, portanto, \(\mathbf{E}M_n\to 0\), contradizendo \(\mathbf{E}M_n=1\).
Exercício 18.8

Sejam \(\xi _1,\xi _2,\ldots \) variáveis i.i.d. centradas, com \(\operatorname {Var}(\xi _1)=\sigma ^2\lt \infty \), e defina \(S_n=\xi _1+\cdots +\xi _n\) e \(\mathcal F_n=\sigma \langle \xi _1,\ldots ,\xi _n\rangle \). Calcule a decomposição de Doob da submartingala \(X_n=S_n^2\). Identifique explicitamente a parte martingala e o compensador previsível crescente.

Ver solução
Como \(\mathbf{E}[S_n^2-S_{n-1}^2\mid \mathcal F_{n-1}]=\sigma ^2\), o compensador é \(A_n=n\sigma ^2\) (com \(A_0=0\)). Logo a decomposição é
\[ S_n^2=M_n+A_n, \qquad M_n=S_n^2-n\sigma ^2, \]
onde \(M\) é martingala e \(A\) é previsível, crescente e inicia em zero.
Exercício 18.9

Seja \(S_n=\xi _1+\cdots +\xi _n\), onde os incrementos são independentes, centrados e têm variância comum \(\sigma ^2\lt \infty \). Use a desigualdade maximal de Doob aplicada à submartingala \(S_k^2\) para provar que, para todo \(r\gt 0\),

\[ \P \left(\max _{1\leq k\leq n}|S_k|\geq r\right) \leq \frac{n\sigma ^2}{r^2}. \]

Compare o resultado com a desigualdade maximal de Kolmogorov apresentada no Capítulo 11.

Ver solução
\(S_k^2\) é uma submartingala não negativa. A desigualdade maximal de Doob fornece
\[ \P \left(\max _{k\leq n}S_k^2\geq r^2\right) \leq \frac{\mathbf{E}[S_n^2]}{r^2}. \]
Independência e centramento dão \(\mathbf{E}[S_n^2]=n\sigma ^2\), e o evento à esquerda é exatamente \(\{ \max _{k\leq n}|S_k|\geq r\} \). Assim recuperamos, neste caso, a desigualdade maximal de Kolmogorov por uma rota mais geral.

Exercício 18.10 (title=Desigualdade de Azuma–Hoeffding,difficulty=4)
Seja \((M_k,\mathcal F_k)_{0\le k\le n}\) uma martingala com \(|M_k-M_{k-1}|\le c_k\) q.c.
  1. Prove a versão condicional do lema de Hoeffding.

  2. Mostre que

    \[ \mathbf{E}e^{t(M_n-M_0)} \le \exp \left\{ \frac{t^2}{2}\sum _{k=1}^n c_k^2\right\} . \]
  3. Conclua

    \[ \P (|M_n-M_0|\ge u) \le 2\exp \left\{ -\frac{u^2}{2\sum _{k=1}^n c_k^2}\right\} . \]
Ver solução
O lema de Hoeffding condicional aplicado a cada incremento dá, por iteração,
\[ \mathbf{E}e^{t(M_n-M_0)} \le e^{t^2\sum c_k^2/2}. \]
Markov exponencial fornece
\[ \P (M_n-M_0\ge u) \le \exp \{ -tu+t^2\sum c_k^2/2\} . \]
Otimizando em \(t=u/\sum c_k^2\), obtemos a cota unilateral. Aplicando o mesmo a \(-M\) e usando a união, segue a cota bilateral.

Exercício 18.11 (title=Grafos aleatórios: concentração do número de componentes,difficulty=4)
Enumere as \(N=\binom n2\) arestas potenciais de \(G(n,p)\) e revele seus estados uma a uma. Seja \(K\) o número de componentes conexas e defina
\[ Z_k=\mathbf{E}[K\mid X_1,\ldots ,X_k], \qquad 0\le k\le N. \]
  1. Mostre que \((Z_k)\) é uma martingala de Doob.

  2. Prove que alterar o estado de uma única aresta pode modificar \(K\) em no máximo uma unidade.

  3. Deduza que \(|Z_k-Z_{k-1}|\le 1\).

  4. Use Azuma–Hoeffding para provar

    \[ \P (|K-\mathbf{E}K|\ge t) \le 2\exp \left(-\frac{t^2}{2N}\right). \]
Ver solução
A propriedade de torre mostra que \(Z_k\) é martingala. Acrescentar ou remover uma única aresta pode, no máximo, unir duas componentes ou separar uma componente em duas; assim \(K\) muda em no máximo \(1\). Fixadas as primeiras \(k-1\) coordenadas, as duas esperanças condicionais correspondentes aos valores possíveis de \(X_k\) diferem em no máximo \(1\). Como \(Z_{k-1}\) é uma combinação convexa dessas duas quantidades, segue \(|Z_k-Z_{k-1}|\le 1\). Finalmente \(Z_0=\mathbf{E}K\) e \(Z_N=K\); Azuma–Hoeffding com \(c_k=1\) fornece
\[ \P (|K-\mathbf{E}K|\ge t) \le 2e^{-t^2/(2N)}. \]