Capítulo 5

Integral de Lebesgue

No capítulo anterior, variáveis aleatórias apareceram como funções mensuráveis. Para trabalhar com médias, limites e valores esperados, precisamos agora integrar essas funções em espaços de medida gerais.

5.1 Integral de Lebesgue

A integral de Lebesgue é definida em um espaço de medida arbitrário \((\Omega ,\mathcal F,\mu )\). Não suporemos que \(\mu (\Omega )\) seja finita. Quando a finitude da medida for necessária, ela aparecerá explicitamente no enunciado; no caso de medidas de probabilidade, essa hipótese é automaticamente satisfeita.

Quando permitirmos funções com valores em \([0,\infty ]\), esse conjunto será munido da \(\sigma \)-álgebra gerada pelos intervalos \((a,\infty ]\), \(a\geq 0\). Equivalentemente, trata-se da \(\sigma \)-álgebra de Borel da reta estendida, restrita a \([0,\infty ]\). Assim, \(f:\Omega \to [0,\infty ]\) é mensurável se, e somente se, \(\{ f\gt a\} \in \mathcal{F}\) para todo \(a\geq 0\). Na aritmética de \([0,\infty ]\) adotaremos ainda as convenções

\[ 0\cdot \infty =\infty \cdot 0=0, \qquad a\cdot \infty =\infty \quad \text{para }a\gt 0. \]

A integral de Riemann organiza a soma particionando o domínio. Num espaço abstrato, essa geometria pode não existir. Lebesgue desloca a aproximação para os valores da função. A construção avança por camadas, começando pelas funções simples e chegando às funções mensuráveis gerais.

Se \(f\) é simples e não negativa, escrevemos

\[ f = \sum _{k=1}^n a_k \mathbb {1}_{A_k} \]

para alguma partição mensurável \(\Omega =\bigcup _{k=1}^nA_k\), com \(a_k\geq 0\), e definimos

\[ \displaystyle \int f \d{\mu } = \sum _{k=1}^n a_k \mu (A_k). \]

Essa soma assume valores em \([0,\infty ]\). Para uma função simples com valores reais, a mesma fórmula é usada sempre que a parte positiva ou a parte negativa tiver integral finita; em particular, ela é sempre bem definida para funções simples integráveis. Essa ressalva evita a forma indeterminada \(\infty -\infty \) quando a medida não é finita. Dois infinitos não se cancelam por cortesia da notação.

Para uma função mensurável não negativa \(f\), tomamos o supremo das integrais das funções simples que aproximam \(f\) por baixo:

\[ \displaystyle \int f\ \d{\mu } = \sup _{0 \leq \phi \leq f} \displaystyle \int \phi \ \d{\mu } \]

onde \(\phi \) percorre as funções simples não negativas. Se essa integral for finita, diremos que \(f\) é integrável.

Finalmente, para uma função mensurável geral, separamos suas partes positiva e negativa,

\[ f = f^+ - f^-, \]

onde \(f^+=\max (f,0)\) e \(f^-=\max (-f,0)\), e integramos cada parte. Assim, a construção inteira se apoia no primeiro caso: funções simples não negativas.

A construção exige primeiro uma verificação: a integral de uma função simples deve depender da função, não da representação escolhida.

Proposição 5.1
Dadas duas representações de uma função simples não negativa \(f\) por partições mensuráveis,
\[ f=\sum _{i=1}^{n}a_{i} \mathbb {1}_{A_i} \quad \text{e}\quad f=\sum _{j=1}^{m}b_{j} \mathbb {1}_{B_j} \]
então
\[ \sum _{i=1}^{n}a_{i} \mu ({A_i})= \sum _{j=1}^{m}b_{j} \mu (B_j) \]

Demonstração ▼

Os conjuntos \(A_i\cap B_j\) formam um refinamento comum das duas partições. Se \(A_i\cap B_j\neq \varnothing \), então \(f(x)=a_i=b_j\) nesse conjunto. Se a interseção é vazia, sua medida é zero, de modo que o termo correspondente também não contribui. Portanto,

\begin{align} \sum _{i=1}^{n}a_{i} \mu ({A_i}) & = \sum _{i=1}^{n} \sum _{j=1}^{m} a_{i}\mu (A_i\cap B_j) \tag{5.1} \\ & = \sum _{j=1}^{m}\sum _{i=1}^{n}b_{j} \mu (A_i\cap B_j) \tag{5.2} \\ & =\sum _{j=1}^{m}b_{j} \mu (B_j) \tag{5.3} \end{align}

As igualdades valem também quando o valor comum é \(+\infty \), pois todos os termos são não negativos. Para funções simples integráveis, aplica-se o mesmo argumento separadamente às partes positiva e negativa.

Figura 5.1 Partes positiva e negativa de uma função e representação de uma função simples numa partição finita. Adaptado de [ 26 ] .

Figura 5.1 Partes positiva e negativa de uma função e representação de uma função simples numa partição finita. Adaptado de [26].

Proposição 5.2 (Aproximação por Funções Simples)
Toda função mensurável não negativa \( f \colon \Omega \to [0,\infty ] \) é o limite pontual de uma sequência monótona crescente de funções simples não negativas. Reciprocamente, o limite pontual de uma sequência monótona crescente de funções simples é mensurável.

Demonstração ▼

\(\)

\(\)⇒\(\)\(\) Seja \(f\) mensurável e não negativa. Para cada \(n\in \mathbb N\), dividimos \([0,\infty ]\) em \(2^{2n}+1\) intervalos, dos quais \(2^{2n}\) têm comprimento \(2^{-n}\). Escreva

\[ I_{n, k} = \left[\frac{k-1}{2 ^n}, \frac{k}{2 ^n} \right) \]

para \( k = 1,2, \ldots , 2 ^{2n} \) e \(I_{n, 2 ^{2n} +1} = [2 ^n, \infty ] .\)

Para \(n\) fixo, os conjuntos \(I_{n,k}\) são disjuntos e cobrem \([0,\infty ]\). Defina então os conjuntos mensuráveis

\[ A_{n, k} = f ^{- 1} (I_{n, k}) \, \text{ para } k = 1,2, \ldots , 2 ^{2n} +1. \]

Então as funções simples

\[ f_n = \sum _{k = 1} ^{2 ^{2n} +1} \frac{k-1}{2 ^n} {\mathbf1} _{A_{n, k}} \]

satisfazem \(0\leq f_n\leq f_{n+1}\leq f\). De fato, elas são o arredondamento diádico de \(f\) por baixo, truncado na altura \(2^n\); nos pontos em que \(f\) é finita,

\[ f_n = \bigl(2^{-n}\lfloor 2^n f\rfloor \bigr)\wedge 2^n. \]

Para \(f(x)\lt \infty \), vale \(0\leq f(x)-f_n(x)\lt 2^{-n}\) tão logo \(f(x)\lt 2^n\); se \(f(x)=\infty \), então \(f_n(x)=2^n\). Logo \(f_n\uparrow f\) pontualmente. Se \( f \) for limitada, a convergência é uniforme.

\(\)\(\)⇐\(\)\(\) A recíproca segue do fato, já provado, de que o limite pontual de funções mensuráveis é mensurável.

Demonstração ▼

Assim, as funções simples fornecem aproximações canônicas das funções mensuráveis não negativas. Para funções limitadas, a construção pode ser refinada para dar controle uniforme.

Proposição 5.3 (Aproximação Uniforme por Funções Simples)
Sejam \(A\in \mathcal{F}\) e \(f\colon A\to [0,\infty )\) uma função mensurável e limitada, considerando em \(A\) a \(\sigma \)-álgebra traço. Para todo \(\varepsilon \gt 0\) existem funções simples mensuráveis \(\phi _{\varepsilon }\) e \(\psi _{\varepsilon }\) em \(A\) tais que:
  1. \(\phi _{\varepsilon }(x)\leq f(x)\leq \psi _{\varepsilon }(x) \) para todo \(x\in A .\)

  2. \(0\leq \psi _{\varepsilon }(x)-\phi _{\varepsilon }(x)\lt \varepsilon \) para todo \(x\in A .\)

Demonstração ▼

Escolha \(N\in \mathbb N\) tal que \(f\lt N\varepsilon \) em \(A\) e ponha

\[ A_k=\{ x\in A:k\varepsilon /2\leq f(x)\lt (k+1)\varepsilon /2\} , \qquad k=0,\ldots ,2N-1. \]

Esses conjuntos são mensuráveis e formam uma partição de \(A\). Defina

\[ \phi _\varepsilon =\sum _{k=0}^{2N-1}\frac{k\varepsilon }{2}\mathbb {1}_{A_k}, \qquad \psi _\varepsilon =\sum _{k=0}^{2N-1}\frac{(k+1)\varepsilon }{2}\mathbb {1}_{A_k}. \]

Em cada \(A_k\), a primeira função é o extremo inferior e a segunda o extremo superior do intervalo correspondente. Assim, \(\phi _\varepsilon \leq f\leq \psi _\varepsilon \) e \(\psi _\varepsilon -\phi _\varepsilon =\varepsilon /2\lt \varepsilon \).

Lema 5.4 (Passagem ao limite para aproximações simples)
Se \(0\leq s_n\uparrow f\) e cada \(s_n\) é simples, então
\[ \int s_n\, \d\mu \uparrow \int f\, \d\mu . \]

Demonstração ▼

Pela monotonicidade que decorre diretamente da definição por supremo, \(\alpha :=\lim _n\int s_n\, \d\mu \) existe e satisfaz \(\alpha \leq \int f\, \d\mu \). Para a desigualdade inversa, fixe uma função simples \(0\leq s\leq f\) e \(0\lt c\lt 1\). Os conjuntos

\[ E_n=\{ s_n\geq cs\} \]

crescem para \(\Omega \). Com efeito, se \(s(x)=0\) a afirmação é imediata; se \(s(x)\gt 0\), então \(cs(x)\lt s(x)\leq f(x)\) e \(s_n(x)\uparrow f(x)\). Como \(s\) é simples, a continuidade por baixo de \(\mu \), aplicada a cada conjunto de nível de \(s\), dá

\[ \alpha \geq \lim _n c\int _{E_n}s\, \d\mu =c\int s\, \d\mu . \]

Fazendo \(c\uparrow 1\) e tomando o supremo sobre todas as funções simples \(0\leq s\leq f\), obtemos \(\alpha \geq \int f\, \d\mu \).

Este lema é a forma elementar do princípio de convergência monótona: quando os aproximantes já são simples, a definição da integral contém o teorema. Mais adiante, o Teorema da Convergência Monótona reduzirá o caso geral exatamente a esta situação.

Figura 5.2 Refinamentos sucessivos de aproximações simples por baixo. Adaptado de [ 26 ] .

Figura 5.2 Refinamentos sucessivos de aproximações simples por baixo. Adaptado de [26].

Definição 5.5 (Integrável)
  1. Dizemos que \(f\) é \(\textbf{{integrável}}\) se \(|f|\) é integrável. Equivalentemente, se ambas as funções \(f^+\) e \(f^-\) são integráveis. E nesse caso definimos

\[ \displaystyle \int f\ \d{\mu } = \displaystyle \int f^+\ \d{\mu } - \displaystyle \int f^-\ \d{\mu }. \]
  1. Dizemos que \(f\) é \(\textbf{{quase integrável}}\) se pelo menos uma das funções \(f^+\) e \(f^-\) é integrável. E nesse caso também definimos

\[ \displaystyle \int f\ \d{\mu } = \displaystyle \int f^+\ \d{\mu } - \displaystyle \int f^-\ \d{\mu }. \]
  1. A integral em um conjunto mensurável \(A \subseteq \Omega \) é definida como

\[ \displaystyle \int _A f\ \d{\mu }= \displaystyle \int _\Omega f \cdot \mathbb {1}_A\ \d{\mu }. \]

5.2 Propriedades da integral de Lebesgue

As propriedades da integral seguem a mesma arquitetura de sua definição:

Estratégia dos três passos

  • primeiro, demonstramos a propriedade para funções simples;

  • depois, passamos às funções mensuráveis não negativas por aproximação monótona;

  • por fim, tratamos funções integráveis separando suas partes positiva e negativa.

Proposição 5.6 (Propriedades da integral)
Sejam \(f\) e \(g\) funções integráveis e \(a,b\in \mathbb {R}\). Então:
  1. (Monotonicidade.) Se \(f \leq g\) em quase todo ponto, então \(\displaystyle \int f\ \d{\mu } \leq \displaystyle \int g\ \d{\mu }\).

  2. Se \(f = g\) em quase todo ponto, então as integrais são iguais.

  3. (Linearidade.) \(\displaystyle \int (af + bg)\ \d{\mu } = a\displaystyle \int f\ \d{\mu } + b\displaystyle \int g\ \d{\mu }\).

  4. \(\left| \displaystyle \int f\ \d{\mu }\right| \leq \displaystyle \int |f|\ \d{\mu }\).

Demonstração ▼

Comecemos pela linearidade para funções não negativas. Para funções simples ela segue do refinamento comum das partições. De fato, se \(\varphi = \sum _i a_i \, \mathbb {1}_{A_i}\), \(\psi = \sum _j b_j \, \mathbb {1}_{B_j}\), então

\begin{align} \int _\Omega \varphi \d{\mu } + \int _\Omega \psi \d{\mu } & = \sum _i a_i \mu (A_i) + \sum _j b_j \mu (B_j) \tag{5.4} \\ & = \sum _i \sum _j a_i \mu (A_i \cap B_j) + \sum _j \sum _i b_j \mu (B_j \cap A_i) \tag{5.5} \\ & = \sum _i \sum _j (a_i+b_j) \, \mu (A_i \cap B_j) \tag{5.6} \\ & = \int _\Omega (\varphi + \psi ) \d{\mu }\, . \tag{5.7} \end{align}

Se \(f,g\geq 0\) e \(a,b\geq 0\), tome funções simples \(f_n\uparrow f\) e \(g_n\uparrow g\). Então \(af_n+bg_n\uparrow af+bg\). Pelo lema de passagem ao limite para aproximações simples,

\[ \int (af+bg)\, \d\mu =\lim _n\int (af_n+bg_n)\, \d\mu =a\int f\, \d\mu +b\int g\, \d\mu . \]

Agora sejam \(f\) e \(g\) integráveis e escreva

\[ af+bg=u-v, \]

onde

\[ u=a^+f^++a^-f^-+b^+g^++b^-g^-, \qquad v=a^+f^-+a^-f^++b^+g^-+b^-g^+. \]

As funções \(u\) e \(v\) são não negativas e integráveis. Como \((af+bg)^++v=(af+bg)^-+u\), a linearidade já provada para funções não negativas fornece

\[ \int (af+bg)\, \d\mu =\int u\, \d\mu -\int v\, \d\mu =a\int f\, \d\mu +b\int g\, \d\mu . \]

Precisamos ainda registrar por que conjuntos nulos não afetam a integral. Se \(N\in \mathcal{F}\) e \(\mu (N)=0\), então, para toda função não negativa \(h\),

\[ \int h\mathbb {1}_N\, \d\mu =0. \]

Com efeito, toda função simples abaixo de \(h\mathbb {1}_N\) se anula fora de \(N\) e, portanto, tem integral zero. Aplicando isso a \(h^+\) e \(h^-\), vemos que uma função integrável e qualquer modificação mensurável sua em \(N\) têm a mesma integral.

Para a monotonicidade, podemos assim modificar \(f\) e \(g\) no conjunto nulo excepcional e supor que \(f\leq g\) em todo ponto. A função \(g-f\) é não negativa e integrável; pela linearidade,

\[ 0\leq \int (g-f)\, \d\mu =\int g\, \d\mu -\int f\, \d\mu . \]

A igualdade quase certa implica as duas desigualdades e, portanto, a igualdade das integrais. Finalmente, de \(-|f|\leq f\leq |f|\) e da monotonicidade obtemos

\[ -\int |f|\, \d\mu \leq \int f\, \d\mu \leq \int |f|\, \d\mu , \]

o que prova a última afirmação.

Teorema 5.7

Sejam \((\Omega ,\mathcal F,\mu )\) um espaço de medida e \(f,g\colon \Omega \to [0,\infty ]\) funções mensuráveis. Então:

  1. \(\displaystyle \int _\Omega f \d{\mu }\lt \infty \) então \(f\lt \infty \) \(\mu \)-q.c.

  2. \( \displaystyle \int _\Omega f\d{\mu } =0 \Longleftrightarrow f=0\) \(\mu \)-q.c.

  3. Se \(f=g\) \(\mu \)-q.c. então \( \displaystyle \int _\Omega f \d{\mu } = \displaystyle \int _\Omega g \d{\mu } .\)

Demonstração ▼

Seja \(I=\{ f=\infty \} \). Para todo \(n\geq 1\), \(n\mathbb {1}_I\leq f\) e, portanto,

\[ n\mu (I)\leq \int f\, \d\mu . \]

Se a integral é finita, segue que \(\mu (I)=0\), o que prova o primeiro item.

Se \(f=0\) quase certamente, toda função simples \(0\leq s\leq f\) se anula fora de um conjunto nulo e tem integral zero. Pela definição por supremo, \(\int f\, \d\mu =0\). Reciprocamente, se a integral é zero, então, para \(A_n=\{ f\geq 1/n\} \),

\[ 0\leq \frac1n\mu (A_n) =\int \frac1n\mathbb {1}_{A_n}\, \d\mu \leq \int f\, \d\mu =0. \]

Como \(\{ f\gt 0\} =\bigcup _{n\geq 1}A_n\), temos \(f=0\) quase certamente.

Por fim, se \(f=g\) fora de um conjunto nulo \(N\), então \(f\mathbb {1}_{N^c}=g\mathbb {1}_{N^c}\). As integrais de \(f\mathbb {1}_N\) e \(g\mathbb {1}_N\) são zero pelo argumento do parágrafo anterior. A aditividade para funções não negativas conclui que \(\int f\, \d\mu =\int g\, \d\mu \), inclusive quando o valor comum é infinito.

Observação. Uma consequência do Teorema 5.7, item 2, aplicada às partes positiva e negativa, é que, para qualquer função \(f\colon \Omega \to \mathbb {R}\) cuja integral esteja definida, temos a liberdade de mudar os valores de \(f(\omega )\) num conjunto \(\mu \)-negligenciável sem alterar o valor da integral, desde que a função resultante seja mensurável.

Definição 5.8 (Integrável)
Seja \((\Omega ,\mathcal F,\mu )\) um espaço de medida. Denotamos por \(\L ^1(\mu )\) o conjunto das funções mensuráveis \(f:\Omega \to \mathbb {R}\) tais que
\[ \int _\Omega |f|\, \d\mu \lt \infty . \]

Em conjuntos de medida finita, a mensurabilidade é a única condição adicional necessária para que uma função limitada seja integrável.

Teorema 5.9
Sejam \(A\in \mathcal F\), com \(\mu (A)\lt \infty \), e \(f\colon A\to \mathbb {R}\) uma função limitada. Então \(f\) é Lebesgue integrável sobre \(A\) se e somente se \(f\) é mensurável para a \(\sigma \)-álgebra traço em \(A\).

Demonstração ▼

Pela definição adotada, toda função integrável é mensurável. Para a recíproca, suponha que \(f\) seja mensurável e escolha \(M\lt \infty \) tal que \(|f|\leq M\) em \(A\). Então

\[ \int _A|f|\, \d\mu \leq M\mu (A)\lt \infty , \]

e, portanto, \(f\) é integrável. É exatamente nesta estimativa que se usa a finitude de \(\mu (A)\); não é necessário supor que o espaço de medida seja completo.

5.3 Integração e Limites

Uma das razões para introduzir a integral de Lebesgue é sua estabilidade sob passagens ao limite. Os três teoremas desta seção distinguem as hipóteses que permitem trocar limite e integral. A ordem importa: cada resultado prepara o seguinte.

Teorema 5.10 (Teorema da Convergência Monótona)
Se \(f_n\colon \Omega \to [0,\infty ]\) são mensuráveis e \(f_n \uparrow f\), então \(\displaystyle \int f_n\ \d{\mu } \rightarrow \displaystyle \int f\ \d{\mu }\).

Demonstração ▼

Para cada \(n\), tome a aproximação diádica por baixo de \(f_n\) no nível \(n\):

\[ s_n(x)= \begin{cases} 2^{-n}\lfloor 2^n f_n(x)\rfloor , & f_n(x)\lt 2^n,\\[2mm] 2^n, & f_n(x)\geq 2^n. \end{cases} \]

Como na Proposição 5.2, cada \(s_n\) é simples e \(0\leq s_n\leq f_n\). Além disso, a aproximação diádica melhora quando o nível aumenta e \(f_n\leq f_{n+1}\); portanto

\[ s_n\leq s_{n+1}. \]

Como \(f_n\uparrow f\), também \(s_n\uparrow f\) pontualmente.

Pelo lema de passagem ao limite para aproximações simples,

\[ \int s_n\, \d\mu \uparrow \int f\, \d\mu . \]

Por monotonicidade,

\[ \int s_n\, \d\mu \leq \int f_n\, \d\mu \leq \int f\, \d\mu . \]

O teorema do confronto conclui que

\[ \int f_n\, \d\mu \longrightarrow \int f\, \d\mu . \]

Lema 5.11 (Lema de Fatou)

Se \(f_n\colon \Omega \to [0,\infty ]\) são mensuráveis, então

\[ \displaystyle \int \liminf _n f_n\ \d{\mu } \leq \liminf _n \displaystyle \int f_n \ \d{\mu }. \]

Demonstração ▼

Defina \(g_k(x)=\inf _{i\geq k}f_i(x)\). Então \(g_k\leq f_i\) para todo \(i\geq k\) e, portanto,

\[ \displaystyle \int g_k\d{\mu } \leq \inf _{i\geq k}\displaystyle \int f_i \d{\mu }. \]

Além disso, \(0 \leq g_1 \leq g_2 \leq \cdots \), cada \(g_k\) é mensurável e \(g_k\uparrow \liminf _n f_n\). Pelo Teorema da Convergência Monótona,

\[ \int \liminf _n f_n\, \d\mu =\lim _{k\to \infty }\int g_k\, \d\mu \leq \lim _{k\to \infty }\inf _{i\geq k}\int f_i\, \d\mu =\liminf _{n\to \infty }\int f_n\, \d\mu . \]

Definição 5.12 (Convergência quase todo ponto)
Dizemos que \(f_n \rightarrow f\) em quase todo ponto ou quase certamente (q.c.) se \(\mu \left(\{ \omega : f_n(\omega ) \not\rightarrow f(\omega )\} \right)= 0 .\)

Teorema 5.13 (Teorema da Convergência Dominada)
Se \(f_n\) e \(f\) são mensuráveis, \(f_n \rightarrow f\) q.c., \(|f_n| \leq g\) q.c. para todo \(n\), e \(g\geq 0\) é integrável, então
\[ \displaystyle \int f_n\ \d{\mu } \rightarrow \displaystyle \int f\ \d{\mu }. \]

Demonstração ▼

Alterando as funções num único conjunto nulo, podemos supor que a convergência e todas as dominações valham em todo ponto. Assim \(|f|\leq g\), de modo que \(f\in L^1(\mu )\), e \(|f_n-f|\leq 2g\). Podemos aplicar o Lema de Fatou para a função \(2g - |f_n - f|\) e obter que

\begin{align*} \displaystyle \int _\Omega 2g \d{\mu } & \leq \liminf _{n\to \infty }\displaystyle \int _\Omega (2g - |f_n - f|) \d{\mu } \\ & = \displaystyle \int _\Omega 2g \d{\mu } + \liminf _{n\to \infty }\left(-\displaystyle \int _\Omega |f_n - f| \d{\mu }\right) \\ & = \displaystyle \int _\Omega 2g \d{\mu } - \limsup _{n\to \infty }\displaystyle \int _\Omega |f_n - f|\d{\mu } \end{align*}

Como \(\int _\Omega 2g\, \d\mu \) é finita, podemos subtraí-la dos dois lados:

\[ \limsup _{n\to \infty } \displaystyle \int _\Omega |f_n - f|\d{\mu } \leq 0 \]

Portanto,

\[ \lim \limits _{n\to \infty }\displaystyle \int _\Omega |f_n -f| \d{\mu } = 0 \]

Por fim,

\[ \left|\int f_n\, \d\mu -\int f\, \d\mu \right| \leq \int |f_n-f|\, \d\mu \longrightarrow 0, \]

e, portanto,

\[ \lim \limits _{n\to \infty } \displaystyle \int _\Omega f_n \d{\mu } = \displaystyle \int _\Omega f\d{\mu } \]

5.4 Desigualdades integrais

As desigualdades desta seção pertencem à teoria da integral. Quando \(\mu =\P \) é uma medida de probabilidade, suas versões em termos de esperança são obtidas simplesmente escrevendo

\[ \mathbf{E}[X]=\int _\Omega X\, \d\P . \]

Jensen expressa a interação entre convexidade e integração; Young conduz a Hölder, e Hölder conduz a Minkowski. A última dessas desigualdades será precisamente a desigualdade triangular da norma de \(L^p\).

Definição 5.14
Uma função \(\varphi :\mathbb {R}\to \mathbb {R}\) é convexa se, para \(a,b\in \mathbb {R}\) e \(\alpha \in [0,1]\),
\[ \varphi (\alpha a+(1-\alpha )b) \leq \alpha \varphi (a)+(1-\alpha )\varphi (b). \]

Lema 5.15 (Reta de suporte)
Se \(\varphi :\mathbb {R}\to \mathbb {R}\) é convexa e \(t_0\in \mathbb {R}\), existe \(m\in \mathbb {R}\) tal que
\[ \varphi (t)\geq \varphi (t_0)+m(t-t_0), \qquad t\in \mathbb {R}. \]

Demonstração ▼

Para \(s\lt t_0\lt t\), a convexidade implica

\[ \frac{\varphi (t_0)-\varphi (s)}{t_0-s} \leq \frac{\varphi (t)-\varphi (t_0)}{t-t_0}. \]

Assim, qualquer número \(m\) entre o supremo das inclinações secantes à esquerda e o ínfimo das inclinações secantes à direita define uma reta de suporte em \(t_0\).

Teorema 5.16 (Desigualdade de Jensen)
Seja \(\mu \) uma medida finita com \(0\lt \mu (\Omega )\lt \infty \), seja \(f\in L^1(\mu )\) e seja \(\varphi :\mathbb {R}\to \mathbb {R}\) convexa. Então \(\varphi (f)\) tem integral bem definida em \((-\infty ,\infty ]\) e
\[ \varphi \! \left( \frac{1}{\mu (\Omega )} \int _\Omega f\, \d\mu \right) \leq \frac{1}{\mu (\Omega )} \int _\Omega \varphi (f)\, \d\mu . \]

Demonstração ▼

Ponha

\[ t_0=\frac{1}{\mu (\Omega )}\int _\Omega f\, \d\mu . \]

Pelo Lema 5.15, existe \(m\in \mathbb {R}\) tal que

\[ \varphi (t)\geq \varphi (t_0)+m(t-t_0). \]

A reta do lado direito, composta com \(f\), é integrável; portanto a parte negativa de \(\varphi (f)\) é integrável. Integrando,

\[ \int _\Omega \varphi (f)\, \d\mu \geq \mu (\Omega )\varphi (t_0) +m\left(\int _\Omega f\, \d\mu -\mu (\Omega )t_0\right), \]

e o último termo é zero.

Para uma medida de probabilidade, a desigualdade toma a forma

\[ \varphi \! \left(\int _\Omega f\, \d\mu \right) \leq \int _\Omega \varphi (f)\, \d\mu . \]

Proposição 5.17 (Desigualdade de Young)
Se \(1\lt p,q\lt \infty \) e \(1/p+1/q=1\), então, para \(u,v\geq 0\),
\[ uv\leq \frac{u^p}{p}+\frac{v^q}{q}. \]

Demonstração ▼

Para \(v\) fixado, a função

\[ h(u)=\frac{u^p}{p}-uv+\frac{v^q}{q} \]

atinge seu mínimo em \(u=v^{q-1}\). Nesse ponto, \(p(q-1)=q\) e \(1/p+1/q=1\), de modo que \(h(u)=0\).

Teorema 5.18 (Desigualdade de Hölder)
Se \(1\lt p\lt \infty \), \(q=p/(p-1)\) e \(f,g\) são mensuráveis com
\[ \int _\Omega |f|^p\, \d\mu \lt \infty , \qquad \int _\Omega |g|^q\, \d\mu \lt \infty , \]
então
\[ \int _\Omega |fg|\, \d\mu \leq \left(\int _\Omega |f|^p\, \d\mu \right)^{1/p} \left(\int _\Omega |g|^q\, \d\mu \right)^{1/q}. \]

Demonstração ▼

Se uma das integrais do lado direito é zero, o resultado segue do Teorema 5.7. Caso contrário, escreva

\[ a=\left(\int _\Omega |f|^p\, \d\mu \right)^{1/p}, \qquad b=\left(\int _\Omega |g|^q\, \d\mu \right)^{1/q}. \]

Pela desigualdade de Young,

\[ \frac{|f|}{a}\frac{|g|}{b} \leq \frac1p\frac{|f|^p}{a^p} +\frac1q\frac{|g|^q}{b^q}. \]

Integrando e usando \(1/p+1/q=1\), obtemos

\[ \frac{1}{ab}\int _\Omega |fg|\, \d\mu \leq 1. \]

Teorema 5.19 (Desigualdade de Minkowski)
Se \(1\leq p\lt \infty \) e \(f,g\) são mensuráveis com
\[ \int _\Omega |f|^p\, \d\mu \lt \infty , \qquad \int _\Omega |g|^p\, \d\mu \lt \infty , \]
então
\[ \left(\int _\Omega |f+g|^p\, \d\mu \right)^{1/p} \leq \left(\int _\Omega |f|^p\, \d\mu \right)^{1/p} + \left(\int _\Omega |g|^p\, \d\mu \right)^{1/p}. \]

Demonstração ▼

O caso \(p=1\) segue de \(|f+g|\leq |f|+|g|\). Para \(1\lt p\lt \infty \), seja \(q=p/(p-1)\). A desigualdade

\[ |f+g|^p\leq 2^{p-1}(|f|^p+|g|^p) \]

mostra primeiro que \(|f+g|^p\) é integrável. Se sua integral é zero, não há nada a provar. Caso contrário, Hölder fornece

\begin{align*} \int _\Omega |f+g|^p\, \d\mu & \leq \int _\Omega |f|\, |f+g|^{p-1}\, \d\mu +\int _\Omega |g|\, |f+g|^{p-1}\, \d\mu \\ & \leq \left[ \left(\int _\Omega |f|^p\, \d\mu \right)^{1/p} + \left(\int _\Omega |g|^p\, \d\mu \right)^{1/p} \right] \left(\int _\Omega |f+g|^p\, \d\mu \right)^{1/q}. \end{align*}

Como \((p-1)q=p\), a última integral é a correta para Hölder. Dividindo pelo último fator e usando \(p-p/q=1\), obtemos a desigualdade.

5.5 Espaços \(\L ^p\)

Pelas desigualdades de Hölder e Minkowski, demonstradas na seção anterior, a integral de Lebesgue fornece naturalmente uma família de espaços normados. A desigualdade de Hölder controla produtos; a de Minkowski fornece a desigualdade triangular.

Definição 5.20
  • Dado um espaço de medida \( (\Omega , \mathcal{F}, \mu ) \) e \(1\leq p\lt \infty \), definimos \( \L ^p (\Omega , \mathcal{F}, \mu ) \) como o espaço das classes de equivalência das funções mensuráveis tais que

    \[ \int \left\lvert f\right\rvert ^p \, \d(\mu ) \lt \infty \]

    sob a relação de equivalência de igualdade quase certa.

  • Para qualquer elemento \( f \in \L ^p (\Omega , \mathcal{F}, \mu ) \) definimos a \(p\)-norma como

    \begin{align*} \left\lVert f\right\rVert _p & = \left(\int \left\lvert f\right\rvert ^p \, \d(\mu ) \right) ^{\frac{1}{p}}. \end{align*}
  • Definimos \(\L ^\infty (\Omega ,\mathcal{F},\mu )\) como o espaço das classes de equivalência das funções mensuráveis essencialmente limitadas. Sua norma é

    \[ \left\lVert f\right\rVert _\infty :=\operatorname *{ess\, sup}_{\omega \in \Omega }|f(\omega )| =\inf \{ M\geq 0:|f|\leq M\ \text{quase certamente}\} . \]

Para \(1\leq p\lt \infty \), a desigualdade de Minkowski, Teorema 5.19, fornece

\[ \| f+g\| _p\leq \| f\| _p+\| g\| _p. \]

Para \(p=\infty \), a mesma desigualdade segue de \(|f+g|\leq |f|+|g|\) tomando supremos essenciais. A homogeneidade é imediata, e \(\| f\| _p=0\) implica \(f=0\) quase certamente pelo Teorema 5.7. Portanto \(L^p\) é um espaço vetorial normado.

Nos casos extremos, a versão de Hölder entre \(L^1\) e \(L^\infty \) segue diretamente de \(|fg|\leq \| g\| _\infty |f|\) e da desigualdade simétrica.

Proposição 5.21 (Completude de \(\L ^p\))
Para \(1\leq p\lt \infty \), o espaço vetorial normado \( \L ^p (\Omega , \mathcal{F}, \mu ) \) é completo.

Demonstração ▼

Seja \((f_n)\) uma sequência de Cauchy em \(\L ^p(\Omega ,\mathcal{F},\mu )\). Escolha recursivamente \(1\leq n_1\lt n_2\lt \cdots \) de modo que, para cada \(j\geq 1\),

\[ \| f_m-f_n\| _p\leq 2^{-j} \quad \text{sempre que }m,n\geq n_j. \]

Em particular, \(\| f_{n_{j+1}}-f_{n_j}\| _p\leq 2^{-j}\). Para

\[ G_N=\sum _{j=1}^N|f_{n_{j+1}}-f_{n_j}|, \]

a desigualdade de Minkowski fornece

\begin{align*} \| G_N\| _p & \leq \sum _{j=1}^N\| f_{n_{j+1}}-f_{n_j}\| _p \leq \sum _{j=1}^N2^{-j}\leq 1. \end{align*}

Como \(G_N\uparrow G:=\sum _{j=1}^\infty |f_{n_{j+1}}-f_{n_j}|\), o Teorema da Convergência Monótona implica \(\| G\| _p\leq 1\). Em particular, \(G\lt \infty \) quase certamente. Fora de um conjunto nulo, a série dos incrementos converge absolutamente; logo \((f_{n_j})\) é uma sequência de Cauchy em \(\mathbb {R}\). Defina \(f\) como seu limite nesse conjunto e como zero no complementar. A função \(f\) é mensurável.

Resta voltar da subsequência à sequência original. Dado \(\varepsilon \gt 0\), escolha \(N\) tal que \(\| f_m-f_n\| _p\lt \varepsilon \) sempre que \(m,n\geq N\). Para \(n\geq N\), o lema de Fatou e a convergência \(f_{n_j}\to f\) quase certamente dão

\[ \| f-f_n\| _p^p \leq \liminf _{j\to \infty }\| f_{n_j}-f_n\| _p^p \leq \varepsilon ^p. \]

Assim \(f-f_n\in \L ^p\), donde \(f\in \L ^p\), e a mesma estimativa mostra que \(\| f_n-f\| _p\to 0\). Portanto \(\L ^p\) é completo.

Sabemos que funções mensuráveis podem ser aproximadas pontualmente por funções simples. Para os espaços \(\L ^p\), essa aproximação pode ser feita também na norma.

Lema 5.22
Para \(1\leq p\lt \infty \), as funções simples integráveis são densas em \(\L ^p(\Omega ,\mathcal{F},\mu )\).

Demonstração ▼

Seja primeiro \(f\geq 0\) em \(\L ^p\). Pelo teorema de aproximação por funções simples, existem funções simples \(0\leq s_n\uparrow f\). Como \(0\leq f-s_n\leq f\),

\[ |f-s_n|^p\leq |f|^p, \]

e o lado direito é integrável. Pelo Teorema da Convergência Dominada, \(\left\lVert f-s_n\right\rVert _p\to 0\).

Para \(f\) real arbitrária, aplique o argumento a \(f^+\) e \(f^-\): escolha funções simples \(g_n\) e \(h_n\) tais que \(\left\lVert f^+-g_n\right\rVert _p\to 0\) e \(\left\lVert f^--h_n\right\rVert _p\to 0\). Então \(g_n-h_n\) é simples e, pela desigualdade de Minkowski,

\[ \left\lVert f-(g_n-h_n)\right\rVert _p \leq \left\lVert f^+-g_n\right\rVert _p+\left\lVert f^--h_n\right\rVert _p\longrightarrow 0. \]

A teoria da integral já está agora completa para os usos deste livro: sabemos passar a limites, controlar produtos e trabalhar em espaços \(L^p\). Podemos, então, voltar à integral de Riemann e comparar as duas construções sem interromper a cadeia principal.

5.6 Comparando a Integral de Lebesgue e de Riemann

As integrais de Riemann e Lebesgue não competem pelo mesmo território: a segunda amplia a primeira e se comporta melhor sob limites. Para tornar essa relação precisa, começamos recordando quais funções limitadas são integráveis no sentido de Riemann.

Teorema 5.23 (Critério de Lebesgue)

Uma função limitada num intervalo compacto \([a, b]\) é Riemann integrável se e somente se o conjunto de seus pontos de descontinuidade tem medida nula.

Demonstração ▼

Para \(x\in [a,b]\), defina a oscilação de \(f\) em \(x\) por

\[ \omega _f(x)=\inf _{\delta \gt 0} \left( \sup _{\substack {y\in [a,b]\\ |y-x|\lt \delta }}f(y) -\inf _{\substack {y\in [a,b]\\ |y-x|\lt \delta }}f(y) \right). \]

A função \(f\) é descontínua em \(x\) exatamente quando \(\omega _f(x)\gt 0\). Além disso, cada conjunto \(D_m=\{ x:\omega _f(x)\geq 1/m\} \) é fechado: se \(\omega _f(x)\lt 1/m\), alguma vizinhança de \(x\) tem oscilação menor que \(1/m\), e o mesmo vale numa vizinhança menor de cada ponto próximo de \(x\). Logo o conjunto de descontinuidades é \(D=\bigcup _{m\geq 1}D_m\).

Suponha primeiro que \(f\) seja Riemann integrável. Dado \(\eta \gt 0\), existe uma partição \(P\) para a qual a diferença entre as somas superior e inferior é menor que \(\eta /m\). Salvo pelos finitos pontos da partição, \(D_m\) está contido na união dos subintervalos \(J\) de \(P\) nos quais a oscilação de \(f\) é pelo menos \(1/m\). Portanto,

\[ \lambda (D_m) \leq \sum _{\operatorname {osc}_J(f)\geq 1/m}|J| \leq m\sum _{J\in P}\operatorname {osc}_J(f)|J| \lt \eta . \]

Assim, \(\lambda (D_m)=0\) para todo \(m\) e, por união enumerável, \(\lambda (D)=0\).

Reciprocamente, suponha que \(\lambda (D)=0\). Seja \(|f|\leq M\) e fixe \(\eta \gt 0\). O caso \(a=b\) é imediato; suponha \(a\lt b\). Pela regularidade exterior da medida de Lebesgue, existe um aberto \(G\supset D\) tal que

\[ \lambda (G)\lt \frac{\eta }{4(M+1)}. \]

O compacto \(K=[a,b]\setminus G\) é formado apenas por pontos de continuidade. Para cada \(x\in K\), escolha \(r_x\gt 0\) de modo que \(|f(y)-f(x)|\lt \eta /(8(b-a))\) quando \(|y-x|\lt 2r_x\). Extraia uma subcobertura finita dos intervalos de centro \(x\) e raio \(r_x\), e escolha \(\delta \gt 0\) menor que todos esses raios. Assim, todo intervalo de comprimento menor que \(\delta \) que encontra \(K\) tem oscilação menor que \(\eta /(4(b-a))\). Escolha uma partição de malha menor que \(\delta \). Nos subintervalos que encontram \(K\), a contribuição à diferença entre as somas de Darboux é menor que \(\eta /4\). Os demais estão contidos em \(G\) e contribuem, ao todo, menos que \(2M\lambda (G)\lt \eta /2\). Logo a diferença entre as somas superior e inferior é menor que \(\eta \). Pelo critério de Darboux, \(f\) é Riemann integrável.

Teorema 5.24
Se \(f:[a,b]\to \mathbb {R}\) é limitada e Riemann integrável, então \(f\) é Lebesgue integrável e as duas integrais coincidem.

Demonstração ▼

Denote por \(D\) o conjunto de descontinuidades de \(f\). Pelo critério anterior, \(\lambda (D)=0\). A restrição de \(f\) a \([a,b]\setminus D\) é contínua e, portanto, mensurável na \(\sigma \)-álgebra traço. Como a medida de Lebesgue é completa, qualquer subconjunto de \(D\) é mensurável. Segue que \(f\) é Lebesgue mensurável. Por ser limitada e estar definida num intervalo de medida finita, ela é Lebesgue integrável pelo Teorema 5.9.

Se \(I\) é sua integral de Riemann, para cada \(n\) existem funções escada \(\varphi _n\) e \(\psi _n\) tais que

\[ \varphi _n\leq f\leq \psi _n,\qquad \int _a^b\varphi _n(x)\, \d x\longrightarrow I, \qquad \int _a^b\psi _n(x)\, \d x\longrightarrow I. \]

Para funções escada, as integrais de Riemann e de Lebesgue coincidem. Pela monotonicidade da integral de Lebesgue,

\[ \int _a^b\varphi _n\, \d\lambda \leq \int _a^b f\, \d\lambda \leq \int _a^b\psi _n\, \d\lambda . \]

Fazendo \(n\to \infty \) e usando o teorema do confronto, obtemos \(\int _a^b f\, \d\lambda =I\).

Exemplo 5.25

Em \([0,1]\), considere a função indicadora dos racionais, \(f=\mathbb {1}_{\mathbb {Q}\cap [0,1]}\). Como \(\mathbb {Q}\) é enumerável, \(\lambda (\mathbb {Q}\cap [0,1]) = 0\). Logo \(\displaystyle \int f\ \d{\lambda } = 0\) e \(f\) é Lebesgue integrável.

Mas \(f\) não é Riemann integrável, pois o supremo em cada subintervalo de qualquer partição é \(1\) e o ínfimo é \(0\).

Lema 5.26 (Regularidade da medida de Lebesgue completada)
Se \(E\subset \mathbb {R}\) é Lebesgue mensurável e \(\lambda (E)\lt \infty \), então, para todo \(\varepsilon \gt 0\), existe um compacto \(K\subset E\) tal que \(\lambda (E\setminus K)\lt \varepsilon \).

Demonstração ▼

Pela definição da completação, podemos escrever \(E=B\cup N\), onde \(B\) é boreliano, \(B\subset E\), e \(N\) está contido em um boreliano de medida zero. Logo \(\lambda (B)=\lambda (E)\). Se \(\lambda (B)=0\), basta tomar \(K=\varnothing \). Caso contrário, a medida

\[ \nu (C)=\frac{\lambda (C\cap B)}{\lambda (B)},\qquad C\in \mathcal B(\mathbb {R}), \]

é uma probabilidade boreliana em \(\mathbb {R}\). Pela regularidade das probabilidades borelianas em espaços poloneses, demonstrada no Capítulo 2, existe compacto \(K\subset B\subset E\) com \(\nu (B\setminus K)\lt \varepsilon /\lambda (B)\), isto é, \(\lambda (E\setminus K)\lt \varepsilon \).

Teorema 5.27 (Teorema de Lusin)
Sejam \(A\subset \mathbb {R}\) um conjunto Lebesgue mensurável, com \(\lambda (A)\lt \infty \), e \(f\colon A\to \mathbb {R}\) uma função Lebesgue mensurável. Então, para todo \(\varepsilon \gt 0\), existe um conjunto compacto \(K \subset A\) com \(\lambda (A \smallsetminus K) \lt \varepsilon \), tal que a restrição de \(f\) a \(K\) é contínua.

Demonstração ▼

Seja \(\{ V_n\} _{n\in \mathbb N}\) uma enumeração dos intervalos abertos com extremos racionais. Para cada \(n\), os conjuntos mensuráveis \(f^{-1}(V_n)\) e \(A\setminus f^{-1}(V_n)\) têm medida finita. Pelo lema anterior, existem compactos

\[ K_n\subset f^{-1}(V_n) \quad \text{e}\quad K'_n\subset A\setminus f^{-1}(V_n) \]

tais que

\[ \lambda \bigl(f^{-1}(V_n)\setminus K_n\bigr) \lt \frac{\varepsilon }{2^{n+2}}, \qquad \lambda \bigl((A\setminus f^{-1}(V_n))\setminus K'_n\bigr) \lt \frac{\varepsilon }{2^{n+2}}. \]

Seja

\[ K = \bigcap _{n=1}^{\infty } \big(K_n \cup K'_n\big). \]

Cada \(K_n\cup K'_n\) é compacto; logo \(K\), sendo um fechado contido no primeiro deles, também é compacto. Além disso,

\[ \lambda (A\setminus K) \leq \sum _{n=1}^{\infty } \lambda \bigl(A\setminus (K_n\cup K'_n)\bigr) \lt \varepsilon . \]

Resta provar a continuidade. Fixe \(x\in K\) e um aberto \(V\) que contenha \(f(x)\). Escolha \(V_n\) tal que \(f(x)\in V_n\subset V\). Como \(x\in f^{-1}(V_n)\), temos \(x\notin K'_n\) e, pois \(x\in K\subset K_n\cup K'_n\), necessariamente \(x\in K_n\). O conjunto \(U=K\setminus K'_n\) é uma vizinhança aberta de \(x\) em \(K\). Se \(y\in U\), então \(y\in K_n\), novamente porque \(K\subset K_n\cup K'_n\); portanto, \(f(y)\in V_n\subset V\). Assim \(f|_K\) é contínua.

Com isso, temos a integral e os resultados de convergência que serão usados adiante.

Exercício 5.1

Seja \(C\subseteq [0,1]\) o conjunto de Cantor e seja \(\lambda \) a medida de Lebesgue. Calcule

\[ \int _C x^2\, \d\lambda (x). \]

Indique qual propriedade de \(C\) torna o cálculo imediato.

Ver solução
O conjunto de Cantor tem medida de Lebesgue zero. Como \(x^2\) é limitada em \([0,1]\), sua integral sobre um conjunto nulo é nula: \(\int _Cx^2\, \d\lambda =0\).
Exercício 5.2

Seja \(u\in L^1(\mathbb {R})\) e defina

\[ U(t)=\int _{\mathbb {R}}u(x)\cos (xt)\, \d x, \qquad t\in \mathbb {R}. \]

Use o Teorema da Convergência Dominada para provar que \(U\) é contínua em todo ponto de \(\mathbb {R}\).

Ver solução
Se \(t_n\to t\), então \(u(x)\cos (xt_n)\to u(x)\cos (xt)\) pontualmente e \(|u(x)\cos (xt_n)|\leq |u(x)|\in L^1\). Pela Convergência Dominada, \(U(t_n)\to U(t)\).
Exercício 5.3

Seja \((X,\mathcal F,\mu )\) um espaço de medida e sejam \(A_1,A_2,\ldots \in \mathcal F\). Prove que

\[ \mu \left( \bigcup _{N=1}^{\infty }\bigcap _{n=N}^{\infty }A_n \right) \leq \liminf _{n\to \infty }\mu (A_n). \]

Reescreva o conjunto do lado esquerdo como \(\liminf A_n\) e identifique o teorema de convergência usado na prova.

Ver solução
Ponha \(B_N=\bigcap _{n\geq N}A_n\). Então \(B_N\uparrow \liminf A_n\) e, para todo \(n\geq N\), \(\mu (B_N)\leq \mu (A_n)\); logo \(\mu (B_N)\leq \inf _{n\geq N}\mu (A_n)\). Pela continuidade por baixo da medida (equivalentemente, Convergência Monótona aplicada a \(\mathbb {1}_{B_N}\)),
\[ \mu (\liminf A_n)=\lim _N\mu (B_N) \leq \lim _N\inf _{n\geq N}\mu (A_n)=\liminf _n\mu (A_n). \]
Exercício 5.4

Seja \(f:X\to [0,\infty ]\) mensurável. Para \(n\geq 1\), defina

\[ f_n=(2^{-n}\lfloor 2^n f\rfloor )\wedge n, \]

adotando a convenção \(f_n(x)=n\) quando \(f(x)=\infty \). Prove que cada \(f_n\) é simples e mensurável e que

\[ 0\leq f_n\uparrow f \qquad \text{pontualmente}. \]

Explique por que essa construção fornece a aproximação por funções simples usada na definição da integral de Lebesgue.

Ver solução
\(f_n\) assume apenas os valores \(k2^{-n}\), \(0\leq k\lt n2^n\), e \(n\); suas fibras são pré-imagens de intervalos por \(f\), logo é simples e mensurável. A desigualdade \(2^{-(n+1)}\lfloor 2^{n+1}x\rfloor \geq 2^{-n}\lfloor 2^nx\rfloor \), junto com o aumento do truncamento, dá \(f_n\leq f_{n+1}\leq f\). Se \(f(x)\lt \infty \), o erro de arredondamento é menor que \(2^{-n}\) quando \(n\gt f(x)\); se \(f(x)=\infty \), \(f_n(x)=n\). Portanto \(f_n\uparrow f\). Assim \(\int f=\lim _n\int f_n\) pela Convergência Monótona, que é a aproximação canônica por simples.

Exercício 5.5 (title=Em medida infinita, os espaços \(L^p\) não se encaixam,difficulty=2)
Considere \(\mathbb N\) com a medida de contagem e \(1\le p'\lt p\lt \infty \).
  1. Escolha \(\alpha \) de modo que \(f(n)=n^{-\alpha }\) pertença a \(\ell ^p\) mas não a \(\ell ^{p'}\).

  2. Dê um exemplo em \(\ell ^\infty \setminus \ell ^{p'}\).

Ver solução
Escolha \(1/p\lt \alpha \le 1/p'\). Então \(\sum n^{-\alpha p}\lt \infty \), enquanto \(\sum n^{-\alpha p'}=\infty \). Para o segundo item, a sequência constante \(f(n)=1\) pertence a \(\ell ^\infty \) mas não a \(\ell ^{p'}\).

Exercício 5.6 (title=Aproximando borelianos por funções contínuas,difficulty=3)
Seja \(A\subseteq \mathbb R\) boreliano com \(\lambda (A)\lt \infty \). Usando a regularidade de Lebesgue, escolha \(K\subseteq A\subseteq U\), com \(K\) compacto, \(U\) aberto e \(\lambda (U\setminus K)\lt \varepsilon \). Construa uma função contínua \(f:\mathbb R\to [0,1]\) tal que \(\mathbb {1}_K\le f\le \mathbb {1}_U\) e conclua que \(\| f-\mathbb {1}_A\| _1\lt \varepsilon \).
Ver solução
Defina
\[ f(x)=\frac{d(x,U^c)}{d(x,K)+d(x,U^c)}. \]
O denominador é positivo, \(f\) é contínua, vale \(1\) em \(K\) e \(0\) em \(U^c\). Logo \(\mathbb {1}_K\le f\le \mathbb {1}_U\). Como \(K\subseteq A\subseteq U\),
\[ |f-\mathbb {1}_A|\le \mathbb {1}_{U\setminus K}, \]
e a norma \(L^1\) é menor que \(\varepsilon \).