Teoria ergódica
Distribuições invariantes descrevem equilíbrio; a teoria ergódica pergunta o que pode ser recuperado desse equilíbrio ao longo de uma única trajetória. Sob hipóteses adequadas, médias temporais convergem para médias probabilísticas.
17.1 Transformações que preservam medida
Seja \((\Omega ,\mathcal{F},\P )\) um espaço de probabilidade e \(T:\Omega \to \Omega \) mensurável.
Quando \(T\) preserva medida, observar
não altera a distribuição marginal. Para \(f\in L^1\), definimos a média orbital
A questão central será saber se essas médias convergem e o que permanece no limite. Em geral, pode sobreviver alguma informação preservada pela dinâmica. A ergodicidade corresponde ao caso em que essa informação invariante é trivial.
Ergodicidade não significa independência. Ela afirma que o sistema não possui uma decomposição mensurável não trivial preservada pela dinâmica.
Se \(T\) é ergódica e \(f\circ T=f\), então \(\{ f\le a\} \in \mathcal I_T\) para todo \(a\in \mathbb R\). A função de distribuição de \(f\) só pode assumir os valores \(0\) e \(1\), logo a lei de \(f\) é degenerada.
Reciprocamente, se \(A\in \mathcal I_T\), então \(\mathbb {1}_A\circ T=\mathbb {1}_A\) quase certamente. Pela hipótese, \(\mathbb {1}_A\) é constante quase certamente, e portanto \(\P (A)\in \{ 0,1\} \).
17.2 Recorrência de Poincaré
Antes de estudar médias temporais, há uma consequência elementar da preservação de medida que já contém uma ideia ergódica importante: conjuntos de probabilidade positiva são revisitados. A razão é simples. Num espaço de medida finita, um conjunto de massa positiva não pode produzir indefinidamente cópias disjuntas de mesma massa.
Seja
Os conjuntos \(T^{-k}B\), \(k\ge 0\), são disjuntos. De fato, se \(i\lt j\) e \(\omega \) pertencesse a \(T^{-i}B\cap T^{-j}B\), então \(T^i\omega \in B\) retornaria a \(A\) no instante \(j-i\), contradizendo a definição de \(B\).
Como \(T\) preserva medida,
para todo \(k\). A soma das probabilidades dos conjuntos disjuntos \(T^{-k}B\) não pode exceder um, logo \(\P (B)=0\).
Se um ponto de \(A\) retornasse apenas um número finito de vezes, sua última visita produziria um ponto de \(B\). O conjunto desses pontos está contido em \(\bigcup _{k\ge 0}T^{-k}B\), que é nulo.
17.3 O Teorema Ergódico de Birkhoff
Para provar a convergência das médias orbitais, precisaremos controlar o crescimento das somas parciais. A desigualdade seguinte fará esse trabalho. Para \(f\in L^1\), escreva
Ponha
Como
no evento \(E_n=\{ M_n\gt 0\} \) temos
Fora de \(E_n\), \(M_n=0\), e portanto, em todo \(\Omega \),
Integrando e usando a invariância de \(\P \),
Aplique agora a primeira parte a \(g-\lambda \). O evento correspondente é
e a desigualdade obtida é
Fazendo \(n\to \infty \), segue a forma maximal.
A prova pode ser feita diretamente em \(L^1\). A ideia é retirar de \(f\) sua parte invariante e mostrar, pela desigualdade maximal, que o restante não pode ter média orbital persistentemente positiva nem negativa.
Ponha
Como \(m\) é \(\mathcal I_T\)-mensurável, temos \(m\circ T=m\) q.c.; basta aplicar a definição de \(\mathcal I_T\) aos conjuntos \(\{ m\le a\} \), \(a\in \mathbb Q\).
Fixe \(\varepsilon \gt 0\) e escreva
Considere
A identidade
mostra que \(A\in \mathcal I_T\).
Aplique o Lema 17.5 a \(\psi \mathbb {1}_A\). Pela invariância de \(A\),
Os eventos maximais correspondentes crescem para \(A\); logo, pela Convergência Dominada,
Mas, como \(A\in \mathcal I_T\),
e portanto
Assim \(\P (A)=0\).
Logo \(\sup _nS_n\psi \lt \infty \) quase certamente e
Aplicando o mesmo argumento a \(-f\),
Tomando \(\varepsilon =1/j\), \(j\ge 1\), concluímos
Se \(T\) é ergódica, \(m\) é constante quase certamente; como \(\mathbf{E}m=\mathbf{E}f\), essa constante é \(\mathbf{E}f\).
17.4 Três médias temporais
O Teorema de Birkhoff ganha conteúdo quando escolhemos a transformação e o observável. Os três exemplos seguintes mostram situações bastante diferentes: independência, dinâmica determinística e dependência markoviana.
17.4.1 O shift de Bernoulli e a Lei Forte
Seja \((E,\mathcal E,\mu )\) um espaço de probabilidade e considere
O shift é
A invariância da medida produto é imediata nos cilindros e se estende à \(\sigma \)-álgebra produto. Se \(A\) é invariante, então, para todo \(n\), \(A=T^{-n}A\) a menos de conjunto nulo. Mas \(T^{-n}A\) depende apenas das coordenadas \(n,n+1,\ldots \). Assim \(A\) pertence, módulo conjuntos nulos, à \(\sigma \)-álgebra caudal. Pela Lei zero–um de Kolmogorov, \(\P (A)\in \{ 0,1\} \).
Se \(X_k(\omega )=\omega _k\) e \(\mu \) é uma probabilidade em \(\mathbb R\) com primeiro momento finito, então \(X_k=X_0\circ T^k\). Birkhoff fornece
A Lei Forte dos Grandes Números reaparece, portanto, como um teorema sobre médias orbitais. A mesma ideia permite contar padrões locais ao longo de uma trajetória.
No shift de moedas justas, fixe uma palavra binária \(w\) de comprimento \(r\) e seja \(f_w\) a indicadora de que as primeiras \(r\) coordenadas formam \(w\). Então
e Birkhoff mostra que, para quase toda sequência,
Interpretando a sequência como expansão binária, obtemos que quase todo número de \([0,1]\) é normal em base \(2\).
17.4.2 Rotação irracional
Considere o círculo \(\mathbb T=\mathbb R/\mathbb Z\), com medida de Lebesgue, e
A transformação preserva medida.
Se \(A\) é invariante, ponha \(h=\mathbb {1}_A\). Então \(h(x+\alpha )=h(x)\) quase certamente. Para o coeficiente de Fourier de ordem \(k\),
Se \(k\ne 0\), a irracionalidade de \(\alpha \) implica \(e^{2\pi ik\alpha }\ne 1\), logo \(\widehat h(k)=0\). Pela densidade dos polinômios trigonométricos, \(h\) é constante quase certamente. Como \(h\) é indicadora, \(\lambda (A)\in \{ 0,1\} \).
Aplicando Birkhoff à indicadora de um intervalo \(I\subset \mathbb T\),
para quase todo \(x\). Esse exemplo separa duas ideias que podem parecer próximas no início: ergodicidade não exige independência nem sequer uma dinâmica aleatória.
17.4.3 Frequências em cadeias de Markov
Uma distribuição invariante diz que a lei de uma cadeia estacionária não muda com o tempo. A ergodicidade acrescenta algo diferente: ao longo de uma única trajetória, as frequências empíricas recuperam essa distribuição. No espaço de trajetórias, isso é novamente uma aplicação de Birkhoff ao shift.
Se \((X_n)\) é uma cadeia estacionária ergódica com distribuição invariante \(\pi \), então, para toda função integrável \(f\),
no caso enumerável. Em particular,
Cadeias finitas irreducíveis, iniciadas em sua distribuição invariante, fornecem o exemplo básico dessa situação.
17.5 ↯Ergodicidade espacial e percolação
Até aqui, as médias foram tomadas ao longo do tempo, isto é, de uma órbita gerada por uma única transformação. Em modelos espaciais, a mesma ideia usa as translações do reticulado e médias sobre regiões cada vez maiores. Seja \((\tau _x)_{x\in \mathbb Z^d}\) uma ação de \(\mathbb Z^d\) que preserva \(\P \). Escreva
Usaremos a versão multidimensional do teorema ergódico.
A demonstração multiparamétrica não será desenvolvida aqui; a forma acima é a única de que precisaremos.
Considere agora percolação de elos de Bernoulli em \(\mathbb Z^d\): cada aresta entre vizinhos mais próximos está aberta com probabilidade \(p\), de modo independente das demais. A medida produto é denotada por \(\P _p\).
Se \(A\) e \(B\) são eventos cilíndricos, então, para \(|x|\) suficientemente grande, \(A\) e \(\tau _xB\) dependem de conjuntos disjuntos de arestas. Logo
A aproximação de eventos mensuráveis por cilindros estende essa convergência a todos \(A,B\in \mathcal{F}\):
Se \(A\) é invariante por translações, o lado esquerdo é sempre \(\P _p(A)\). Portanto
e \(\P _p(A)\in \{ 0,1\} \).
A primeira consequência não exige sequer formar médias. Seja \(N_\infty \) o número de clusters abertos infinitos. Como
a ergodicidade implica imediatamente que existe
tal que
A teoria ergódica não determina o valor de \(c\); isso exige argumentos adicionais de percolação. Ela mostra algo anterior e fundamental: o número macroscópico de clusters infinitos não continua aleatório.
A segunda consequência já é uma média espacial. Se \(C(x)\) é o cluster aberto de \(x\) e
aplique o Teorema 17.10 a
Obtemos
Assim, a probabilidade de a origem pertencer a um cluster infinito reaparece como a densidade espacial dos vértices que pertencem a clusters infinitos.
A mesma ideia fornece uma quantidade mais refinada: a densidade de clusters. Adote a convenção \(1/\infty =0\) e defina
Se \(K_n\) denota o número de componentes do subgrafo aberto induzido por \(\Lambda _n\), então
De fato, o teorema ergódico espacial dá
Cada cluster finito inteiramente contido em \(\Lambda _n\) contribui exatamente uma unidade à soma. As discrepâncias vêm apenas de clusters que encontram a fronteira. Se \(\partial \Lambda _n\) é a fronteira interna da caixa, cada componente produzida por esse corte contém ao menos um vértice de \(\partial \Lambda _n\), e portanto
Como
segue a convergência anunciada.
A teoria ergódica transforma, assim, médias probabilísticas em frequências observáveis.
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Use a expansão binária para relacionar \(T\) ao shift de moedas justas.
Conclua que \(T\) é ergódica.
Mostre que, para quase todo \(x\),
\[ \frac1n\# \{ 0\le k\lt n:T^kx\in [0,1/2)\} \longrightarrow \frac12. \]
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mostre que a densidade de arestas abertas em caixas crescentes converge quase certamente para \(p\);
mostre que a densidade de vértices cujas \(2d\) arestas incidentes estão fechadas converge quase certamente para
\[ (1-p)^{2d}. \]
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Escolha uma regra translacional para contar cada aresta exatamente uma vez, por exemplo apenas arestas orientadas nas direções coordenadas positivas. A indicadora de que a aresta na origem está aberta tem esperança \(p\); o Teorema 17.10 fornece a primeira convergência.
Para o segundo item, use a indicadora de que todas as \(2d\) arestas incidentes à origem estão fechadas. Pela independência, sua esperança é \((1-p)^{2d}\). A média espacial dessa indicadora é precisamente a densidade correspondente, e o mesmo teorema conclui.