Capítulo 16

Processos de Markov

No capítulo anterior, filtrações passaram a registrar a informação disponível ao longo do tempo. A propriedade de Markov aparece quando o estado presente resume, para a previsão do futuro, toda a informação relevante do passado. Núcleos de transição dão a forma mensurável dessa ideia.

16.1 O presente como resumo do passado

Se \(X=(X_n)_{n\geq 0}\) é adaptado a \((\mathcal{F}_n)\), toda a informação observada até o instante \(n\) está contida em \(\mathcal{F}_n\). A propriedade de Markov exige que, para prever o passo seguinte, essa informação possa ser substituída pelo estado \(X_n\).

Definição 16.1 (Núcleo de transição)
Um núcleo de transição em \((S,\mathcal S)\) é uma aplicação
\[ P:S\times \mathcal S\longrightarrow [0,1] \]
tal que:
  1. para cada \(x\in S\), \(A\mapsto P(x,A)\) é uma medida de probabilidade em \((S,\mathcal S)\);

  2. para cada \(A\in \mathcal S\), \(x\mapsto P(x,A)\) é mensurável.

O número \(P(x,A)\) é a probabilidade de o próximo estado pertencer a \(A\) quando o estado atual é \(x\). O núcleo atua tanto em funções quanto em medidas:

\[ Pf(x)=\int _S f(y)P(x,\d y), \qquad \mu P(A)=\int _S P(x,A)\mu (\d x). \]

Se \(f\) é limitada e mensurável, então \(Pf\) também é limitada e mensurável. Além disso, \(P1=1\), \(P\) preserva positividade e \(\| Pf\| _\infty \leq \| f\| _\infty \).

Definição 16.2 (Processo de Markov homogêneo)
Um processo \(X=(X_n)_{n\geq 0}\), adaptado a \((\mathcal{F}_n)\) e com valores em \((S,\mathcal S)\), é um processo de Markov homogêneo com núcleo \(P\) se, para toda função mensurável limitada \(f:S\to \mathbb {R}\),

\begin{equation} \label{eq:markov-esperanca-condicional} \mathbf{E}[f(X_{n+1})\mid \mathcal{F}_n]=Pf(X_n) \qquad \text{q.c.} \tag{16.1} \end{equation}

Com \(f=\mathbb {1}_A\), a definição assume a forma

\[ \P (X_{n+1}\in A\mid \mathcal{F}_n)=P(X_n,A). \]

Para a filtração natural, isso pode ser escrito informalmente como

\[ \P (X_{n+1}\in A\mid X_0,\ldots ,X_n) =\P (X_{n+1}\in A\mid X_n). \]

A igualdade não diz que o futuro é independente do passado. Ela afirma que a dependência relevante para a previsão é mediada pelo estado presente.

Figura 16.1 Na propriedade de Markov, o estado presente contém a informação do passado necessária para prever o futuro.

Figura 16.1 Na propriedade de Markov, o estado presente contém a informação do passado necessária para prever o futuro.

Exemplo 16.3 (Quando o estado guarda informação suficiente)

Se \(\xi _1,\xi _2,\ldots \) são i.i.d. com lei \(\nu \) e \(S_{n+1}=S_n+\xi _{n+1}\), então

\[ P(x,A)=\nu (A-x) \]

é o núcleo do passeio aleatório. Conhecido \(S_n\), a distribuição do próximo passo não depende de como o processo chegou a \(S_n\).

Em contraste, a sequência \(Y_n=\xi _n+\xi _{n-1}\) não precisa ser markoviana quando o estado observado é apenas \(Y_n\): o valor de \(\xi _n\), que influencia \(Y_{n+1}\), não é em geral recuperado de \(Y_n\). Ampliar o estado para \((\xi _{n-1},\xi _n)\) restaura a propriedade de Markov.

Esse exemplo contém uma regra de modelagem importante: a propriedade de Markov não é apenas uma característica do fenômeno, mas também da escolha do estado.

16.2 Cadeias e modelos com estado contínuo

Se \(S\) é finito ou enumerável, usa-se a notação

\[ p(x,y)=P(x,\{ y\} ). \]

A matriz \(P=(p(x,y))_{x,y\in S}\) é estocástica: seus elementos são não negativos e cada linha soma um. Nesse caso, processos de Markov são chamados cadeias de Markov.

Exemplo 16.4 (Um sistema com dois estados)
No espaço \(S=\{ 0,1\} \), a matriz de transição
\[ P=\begin{pmatrix} 1-a & a \\ b & 1-b \end{pmatrix}, \qquad 0\leq a,b\leq 1, \]
descreve uma cadeia em que, do estado \(0\), o sistema muda para \(1\) com probabilidade \(a\); do estado \(1\), retorna a \(0\) com probabilidade \(b\).

Figura 16.2 Grafo de transição de uma cadeia com dois estados.

Figura 16.2 Grafo de transição de uma cadeia com dois estados.

Em espaços não enumeráveis, uma matriz não é adequada: a probabilidade de atingir um ponto específico pode ser zero. O núcleo substitui as linhas da matriz por medidas de probabilidade.

Exemplo 16.5 (Processo autorregressivo)
Se
\[ X_{n+1}=\varphi X_n+\varepsilon _{n+1}, \]
onde as inovações são i.i.d., independentes do passado e têm lei \(\nu \), o núcleo é
\[ P(x,A)=\nu (A-\varphi x). \]
Equivalentemente,
\[ Pf(x)=\int _{\mathbb {R}} f(\varphi x+z)\nu (\d z). \]
Se \(\varepsilon _n\sim \mathcal N(0,\sigma ^2)\), então \(X_{n+1}\mid X_n=x\sim \mathcal N(\varphi x,\sigma ^2)\).

Proposição 16.6 (Leis finito-dimensionais)
Se \(X_0\) tem lei \(\mu \) e \(X\) é markoviano com núcleo \(P\), então
\begin{align*} & \P (X_0\in A_0,\ldots ,X_n\in A_n)\\ & \quad =\int _{A_0}\mu (\d x_0) \int _{A_1}P(x_0,\d x_1)\cdots \int _{A_n}P(x_{n-1},\d x_n). \end{align*}

Demonstração ▼

A fórmula resulta do condicionamento sucessivo em \(\mathcal{F}_{n-1},\ldots ,\mathcal{F}_0\) e de aplicações repetidas de (16.1) às funções indicadoras.

Nas condições do Teorema de Extensão de Kolmogorov da Seção 8.9, a recíproca também vale: uma lei inicial e um núcleo produzem, pela fórmula anterior, uma família consistente de leis finito-dimensionais, e a extensão constrói uma probabilidade no espaço de trajetórias \(S^{\mathbb N_0}\).

16.3 Composição de núcleos e Chapman–Kolmogorov

Se \(P\) e \(Q\) são núcleos em \((S,\mathcal S)\), sua composição é o núcleo

\[ PQ(x,A)=\int _S Q(y,A)P(x,\d y). \]

O núcleo \(P\) realiza o primeiro passo e \(Q\), o segundo. A composição é associativa. Com \(P^0=I\), onde \(I(x,A)=\mathbb {1}_A(x)\), as potências são dadas recursivamente por \(P^{n+1}=P^nP\).

Proposição 16.7 (Transições em vários passos)
Se \(X\) é markoviano com núcleo \(P\), então, para \(m,n\geq 0\) e \(f\) mensurável limitada,
\[ \mathbf{E}[f(X_{m+n})\mid \mathcal{F}_m]=P^nf(X_m) \qquad \text{q.c.} \]

Demonstração ▼

Para \(n=1\), essa é a definição. Se a afirmação vale para \(n\), a propriedade da torre dá

\begin{align*} \mathbf{E}[f(X_{m+n+1})\mid \mathcal{F}_m] & =\mathbf{E}\! \left[\mathbf{E}[f(X_{m+n+1})\mid \mathcal{F}_{m+n}]\mid \mathcal{F}_m\right]\\ & =\mathbf{E}[Pf(X_{m+n})\mid \mathcal{F}_m]\\ & =P^n(Pf)(X_m)=P^{n+1}f(X_m). \end{align*}

Para funções indicadoras, a proposição anterior fornece a equação de Chapman–Kolmogorov:

Teorema 16.8 (Chapman–Kolmogorov)
Para \(m,n\geq 0\),

\begin{equation} \label{eq:chapman-kolmogorov-kernel} P^{m+n}(x,A)=\int _S P^n(y,A)P^m(x,\d y). \tag{16.2} \end{equation}

No caso enumerável,
\[ p^{(m+n)}(x,z)=\sum _{y\in S}p^{(m)}(x,y)p^{(n)}(y,z). \]

Figura 16.3 Chapman–Kolmogorov decompõe uma transição pela posição em um tempo intermediário.

Figura 16.3 Chapman–Kolmogorov decompõe uma transição pela posição em um tempo intermediário.

Exemplo 16.9 (Dois passos numa cadeia de dois estados)
Para a matriz da Figura 16.2,
\[ P^2(0,1)=(1-a)a+a(1-b)=a(2-a-b). \]
Há duas maneiras de terminar em \(1\): permanecer em \(0\) e depois mudar, ou mudar no primeiro passo e permanecer em \(1\) no segundo.

16.4 Semigrupos de Markov

A família \((P^n)_{n\geq 0}\) satisfaz

\[ P^0=I, \qquad P^{m+n}=P^mP^n. \]

Esse é o exemplo discreto de um semigrupo de Markov. Em tempo contínuo, uma família de núcleos \((P_t)_{t\geq 0}\) é um semigrupo de Markov se

\[ P_0=I, \qquad P_{s+t}=P_sP_t, \]

e cada \(P_t\) preserva constantes e positividade. A equação de Chapman–Kolmogorov assume a forma

\[ P_{s+t}(x,A)=\int _S P_t(y,A)P_s(x,\d y). \]

Exemplo 16.10 (O semigrupo browniano)
Para \(t\gt 0\), a densidade de transição browniana é
\[ p_t(x,y)=\frac1{\sqrt{2\pi t}} \exp \! \left\{ -\frac{(y-x)^2}{2t}\right\} , \]
e o operador correspondente é
\[ P_tf(x)=\int _{\mathbb {R}} f(y)p_t(x,y)\, \d y. \]
A convolução de uma normal de variância \(s\) com uma normal de variância \(t\) é normal de variância \(s+t\). Portanto,
\[ P_sP_t=P_{s+t}. \]
Esse é o semigrupo do movimento browniano: partindo de \(x\), a posição após tempo \(t\) tem distribuição \(\mathcal N(x,t)\). Além disso, para a filtração natural do movimento browniano e toda função mensurável limitada \(f\),
\[ \mathbf{E}[f(B_{s+t})\mid \mathcal{F}_s^B]=P_tf(B_s), \]
pois o incremento \(B_{s+t}-B_s\) é independente de \(\mathcal{F}_s^B\) e tem lei \(\mathcal N(0,t)\). A Proposição 14.20, aplicada a \(Y=B_s\) e \(Z=B_{s+t}-B_s\), fornece essa identidade.

Exemplo 16.11 (O semigrupo de Poisson)
Se \(N\) é um processo de Poisson de taxa \(\lambda \), então, para \(j\geq i\),
\[ P_t(i,\{ j\} )=e^{-\lambda t} \frac{(\lambda t)^{j-i}}{(j-i)!}, \]
e a probabilidade é zero para \(j\lt i\). A identidade de semigrupo é a identidade de convolução para distribuições de Poisson independentes. Para a filtração natural,
\[ \mathbf{E}[f(N_{s+t})\mid \mathcal{F}_s^N]=P_tf(N_s), \]
porque o incremento \(N_{s+t}-N_s\) é independente de \(\mathcal{F}_s^N\) e tem distribuição \(\operatorname {Poisson}(\lambda t)\). Novamente, a Proposição 14.20 fornece a identidade.

Esses exemplos introduzem o tempo contínuo sem desenvolver ainda geradores, cadeias de salto ou equações diferenciais para semigrupos. O ponto aqui é a estrutura comum: evoluir por \(s\) unidades e depois por \(t\) equivale a evoluir por \(s+t\).

16.5 Distribuições invariantes

Uma lei inicial \(\pi \) é preservada pela dinâmica quando aplicar uma transição não a altera.

Definição 16.12 (Distribuição invariante)
Uma probabilidade \(\pi \) em \((S,\mathcal S)\) é invariante para o núcleo \(P\) se
\[ \pi P=\pi , \]
isto é,
\[ \pi (A)=\int _S P(x,A)\pi (\d x) \qquad \text{para todo }A\in \mathcal S. \]

No caso finito, tratando \(\pi \) como vetor-linha, a condição é \(\pi P=\pi \).

Proposição 16.13
Se \(X_0\sim \pi \) e \(\pi \) é invariante para \(P\), então \(X_n\sim \pi \) para todo \(n\). Mais ainda, as leis finito-dimensionais são invariantes por deslocamentos no tempo: o processo iniciado em \(\pi \) é estritamente estacionário, no sentido do capítulo anterior.

Demonstração ▼

Por indução, a lei de \(X_n\) é \(\pi P^n=\pi \). Para as leis conjuntas, a fórmula das leis finito-dimensionais, combinada com a identidade \(\pi P^m=\pi \), permite deslocar todos os tempos por \(m\).

Exemplo 16.14 (Equilíbrio em dois estados)
Para \(a+b\gt 0\), a cadeia de dois estados possui distribuição invariante
\[ \pi (0)=\frac{b}{a+b}, \qquad \pi (1)=\frac{a}{a+b}. \]
De fato, o fluxo de \(0\) para \(1\) é \(\pi (0)a=ab/(a+b)\), igual ao fluxo de \(1\) para \(0\), \(\pi (1)b\).

Figura 16.4 No equilíbrio, os fluxos entre os dois estados se compensam.

Figura 16.4 No equilíbrio, os fluxos entre os dois estados se compensam.

Exemplo 16.15 (Equilíbrio de um processo autorregressivo)
No processo autorregressivo
\[ X_{n+1}=\varphi X_n+\varepsilon _{n+1}, \qquad \varepsilon _n\sim \mathcal N(0,\sigma ^2), \qquad |\varphi |\lt 1, \]
a distribuição normal
\[ \mathcal N\! \left(0,\frac{\sigma ^2}{1-\varphi ^2}\right) \]
é invariante. De fato, se \(X_n\) tem essa distribuição, então, pela independência da inovação,
\[ \operatorname {Var}(X_{n+1}) =\varphi ^2\frac{\sigma ^2}{1-\varphi ^2}+\sigma ^2 =\frac{\sigma ^2}{1-\varphi ^2}. \]
A média continua sendo zero, e a normalidade é preservada por combinações lineares de gaussianas independentes.

Exemplo 16.16 (Modelo de Ehrenfest)
Há \(N\) partículas distribuídas entre duas urnas. A cada passo, uma partícula é escolhida uniformemente e transferida para a outra urna. Se \(X_n\) é o número de partículas na primeira urna, então
\[ P(k,k+1)=\frac{N-k}{N}, \qquad P(k,k-1)=\frac{k}{N}. \]
A distribuição
\[ \pi (k)=\binom Nk2^{-N}, \qquad k=0,\ldots ,N, \]
é invariante. Com efeito,
\[ \pi (k)P(k,k+1) =\pi (k+1)P(k+1,k), \]
como se verifica diretamente pelas identidades binomiais.

Teorema 16.17 (Existência no caso finito)
Todo núcleo de Markov em um espaço finito possui ao menos uma distribuição invariante.

Demonstração ▼

A partir de uma distribuição inicial \(\mu \), formam-se as médias de Cesàro

\[ \pi _n=\frac1n\sum _{k=0}^{n-1}\mu P^k. \]

O simplex das probabilidades em \(S\) é compacto, logo alguma subsequência \(\pi _{n_j}\) converge para uma probabilidade \(\pi \). Além disso,

\[ \pi _nP-\pi _n=\frac{\mu P^n-\mu }{n}\longrightarrow 0. \]

O limite ao longo dessa subsequência satisfaz \(\pi P=\pi \).

As distribuições invariantes serão retomadas na teoria ergódica.

Exercício 16.1

Seja \(P\) um núcleo de Markov. Prove que \(P\) é uma contração na norma do supremo: para toda função mensurável limitada \(f\),

\[ \| Pf\| _\infty \leq \| f\| _\infty . \]
Ver solução
Para todo \(x\),
\[ |Pf(x)|\leq \int |f(y)|P(x,\d y)\leq \| f\| _\infty P(x,S) =\| f\| _\infty . \]

Exercício 16.2

Mostre que a composição de dois núcleos de Markov é um núcleo de Markov.

Ver solução
Para cada \(x\), a integração de \(Q(y,\cdot )\) contra a probabilidade \(P(x,\d y)\) produz uma probabilidade. Para cada \(A\), a mensurabilidade de \(x\mapsto \int Q(y,A)P(x,\d y)\) segue primeiro para funções simples e depois por aproximação monótona.

Exercício 16.3

Considere a cadeia com matriz

\[ P=\begin{pmatrix} 1-a & a \\ b & 1-b \end{pmatrix}, \qquad 0\lt a,b\lt 1. \]

Calcule \(\P (X_n=1)\) em função de \(\P (X_0=1)\).

Ver solução
Se \(q_n=\P (X_n=1)\), então \(q_{n+1}=a+(1-a-b)q_n\). O ponto fixo é \(q_*=a/(a+b)\), portanto
\[ q_n=q_*+(1-a-b)^n(q_0-q_*). \]

Exercício 16.4

Se \(X_{n+1}=\varphi X_n+\varepsilon _{n+1}\), com inovações i.i.d. de lei \(\nu \), prove diretamente a propriedade de Markov em relação à filtração \(\mathcal{F}_n=\sigma \langle X_0,\varepsilon _1,\ldots ,\varepsilon _n\rangle \).

Ver solução
Para \(f\) limitada,
\[ \mathbf{E}[f(X_{n+1})\mid \mathcal{F}_n] =\mathbf{E}[f(\varphi X_n+\varepsilon _{n+1})\mid \mathcal{F}_n] =\int f(\varphi X_n+z)\nu (\d z), \]
pois \(\varepsilon _{n+1}\) é independente de \(\mathcal{F}_n\). O último membro depende do passado apenas por \(X_n\).

Exercício 16.5

Para o passeio aleatório simples em \(\mathbb {Z}\), determine \(P^2(x,\{ y\} )\) e \(P^3(x,\{ y\} )\).

Ver solução
Em dois passos, as probabilidades são \(1/4,1/2,1/4\) para \(y=x-2,x,x+2\). Em três passos, são \(1/8,3/8,3/8,1/8\) para \(y=x-3,x-1,x+1,x+3\), respectivamente, e zero nos demais estados.

Exercício 16.6

Prove Chapman–Kolmogorov diretamente para o núcleo browniano usando a soma de duas variáveis normais independentes.

Ver solução
Se \(Y-x\sim \mathcal N(0,s)\) e, condicionalmente a \(Y\), \(Z-Y\sim \mathcal N(0,t)\) de forma independente, então \(Z-x=(Y-x)+(Z-Y)\sim \mathcal N(0,s+t)\). Logo
\[ \int _{\mathbb {R}} p_s(x,y)p_t(y,z)\, \d y=p_{s+t}(x,z), \]
que é a identidade desejada.

Exercício 16.7

Se \(\pi \) é invariante para \(P\), prove que é invariante para \(P^n\) para todo \(n\geq 0\). Mostre também que qualquer combinação convexa de distribuições invariantes é invariante.

Ver solução
Por indução, \(\pi P^n=(\pi P^{n-1})P=\pi P=\pi \). Se \(\pi =\alpha \pi _1+(1-\alpha )\pi _2\), a linearidade dá \(\pi P=\alpha \pi _1P+(1-\alpha )\pi _2P=\pi \).

Exercício 16.8

Verifique detalhadamente que a distribuição binomial de parâmetro \(1/2\) é invariante para a cadeia de Ehrenfest. Interprete a distribuição diretamente no modelo das partículas.

Ver solução
Para \(0\leq k\lt N\),
\[ \binom Nk2^{-N}\frac{N-k}{N} =\binom N{k+1}2^{-N}\frac{k+1}{N}. \]
Os fluxos entre estados vizinhos se equilibram, logo \(\pi P=\pi \). Se cada partícula escolhe independentemente uma das duas urnas com probabilidade \(1/2\), o número de partículas na primeira urna tem precisamente essa lei.

Exercício 16.9

Dê um exemplo de uma cadeia finita com mais de uma distribuição invariante e outro de uma cadeia com distribuição invariante única que não converge para ela a partir de todo estado inicial.

Ver solução
A matriz identidade tem toda distribuição como invariante. Para o segundo caso, tome a cadeia determinística que alterna entre \(0\) e \(1\): \(P(0,1)=P(1,0)=1\). A única invariante é \((1/2,1/2)\), mas, partindo de um estado fixo, as distribuições alternam e não convergem.

Exercício 16.10 (title=Passado e futuro condicionalmente independentes,difficulty=4)
Seja \((X_n)\) um processo de Markov homogêneo e fixe \(n\). Mostre que, dado \(X_n\), o passado \(\sigma \langle X_0,\ldots ,X_{n-1}\rangle \) e qualquer bloco futuro \(\sigma \langle X_{n+1},\ldots ,X_{n+r}\rangle \) são condicionalmente independentes. Prove a fatoração correspondente para funções limitadas do passado e do bloco futuro.
Ver solução
Iterando a propriedade de Markov, existe função mensurável \(G_r\) tal que
\[ \mathbf{E}[g(X_{n+1},\ldots ,X_{n+r})\mid \mathcal F_n]=G_r(X_n). \]
Se \(F=f(X_0,\ldots ,X_{n-1})\), então
\[ \mathbf{E}[Fg\mid X_n] =\mathbf{E}[F\, G_r(X_n)\mid X_n] =G_r(X_n)\mathbf{E}[F\mid X_n]. \]
Como \(G_r(X_n)=\mathbf{E}[g\mid X_n]\), obtemos a fatoração. Uma classe monótona estende o argumento.

Exercício 16.11 (title=Compensando o drift de uma cadeia,difficulty=3)
Seja \((X_n)\) uma cadeia de Markov real e suponha
\[ m(x)=\mathbf{E}[X_{n+1}-X_n\mid X_n=x]. \]
Mostre que
\[ M_n=X_n-X_0-\sum _{k=0}^{n-1}m(X_k) \]
é uma martingala. Se
\[ v(x)=\mathbf{E}[(X_{n+1}-X_n-m(X_n))^2\mid X_n=x], \]
prove que
\[ M_n^2-\sum _{k=0}^{n-1}v(X_k) \]
também é uma martingala.
Ver solução
Temos
\[ \Delta M_{n+1}=X_{n+1}-X_n-m(X_n), \qquad \mathbf{E}[\Delta M_{n+1}\mid \mathcal F_n]=0. \]
Logo \(M\) é martingala. Além disso,
\[ M_{n+1}^2-M_n^2 =2M_n\Delta M_{n+1}+(\Delta M_{n+1})^2. \]
Condicionando em \(\mathcal F_n\), o primeiro termo desaparece e o segundo tem esperança \(v(X_n)\), provando a segunda afirmação.

Exercício 16.12 (title=Grafos aleatórios: reamostragem local e reversibilidade,difficulty=3)
Considere a seguinte cadeia no conjunto dos grafos em \([n]\). Em cada passo, escolha uniformemente uma das \(N=\binom n2\) arestas potenciais e reamostre seu estado como Bernoulli\((p)\), independentemente do passado.
  1. Mostre que essa dinâmica define uma cadeia de Markov.

  2. Denote por \(\pi \) a lei \(G(n,p)\). Prove a identidade de balanço detalhado

    \[ \pi (g)P(g,h)=\pi (h)P(h,g) \]

    para todos os grafos \(g,h\).

  3. Conclua que \(\pi \) é invariante.

Ver solução
O próximo estado depende do grafo atual apenas pela aresta escolhida e pelo novo Bernoulli, portanto a dinâmica é markoviana. Se \(g\) e \(h\) diferem em mais de uma aresta, ambos os lados do balanço são zero. Se diferem apenas em \(e\), com \(g_e=0\) e \(h_e=1\), então
\[ P(g,h)=\frac pN,\qquad P(h,g)=\frac{1-p}{N}. \]
Escrevendo \(\pi (g)\) e \(\pi (h)\) como produtos sobre as arestas, todos os fatores comuns se cancelam e resta
\[ (1-p)\frac pN=p\frac{1-p}{N}. \]
O caso inverso é idêntico e o caso \(g=h\) é trivial. Somando a identidade em \(g\), obtemos
\[ \sum _g\pi (g)P(g,h)=\pi (h)\sum _gP(h,g)=\pi (h), \]
logo \(\pi \) é invariante.