Variáveis Aleatórias
Até aqui, os resultados de um experimento permaneceram no espaço abstrato \(\Omega \). Para calcular com eles, precisamos transformá-los em números, vetores ou outros objetos conhecidos. Uma variável aleatória realiza essa tradução. A exigência de mensurabilidade garante que, ao formularmos uma pergunta sobre seu valor, a resposta corresponda a um evento do modelo.
4.1 Funções Mensuráveis
Uma função entre espaços mensuráveis deve respeitar as famílias de conjuntos que escolhemos observar. Essa compatibilidade é expressa pelas pré-imagens.
Dado uma função \(f : \Omega _1 \rightarrow \Omega _2\) que é \(\mathcal{F}_{1}-\mathcal{F}_{2}-\)mensurável então se \(\mathcal{F}_{1}\subset \mathcal{F}'_{1}\) claramente \(f\) é \(\mathcal{F}'_{1}-\mathcal{F}_{2}-\textbf{mensurável} .\)
O mesmo não ocorre se aumentarmos a \(\sigma \)-álgebra do contradomínio. Por exemplo, a identidade de \(\mathbb {R}\) em \(\mathbb {R}\), embora contínua, não é \(\mathcal{B}(\mathbb {R})\)–\(\overline{\mathcal{B}(\mathbb {R})}\)-mensurável: a pré-imagem de um conjunto Lebesgue mensurável não boreliano é o próprio conjunto. Em contraste, toda função contínua \(\mathbb {R}\to \mathbb {R}\) é \(\overline{\mathcal{B}(\mathbb {R})}\)–\(\mathcal{B}(\mathbb {R})\)-mensurável.
A família das funções mensuráveis é ampla: para funções reais, por exemplo, a continuidade é suficiente. Verificar diretamente a pré-imagem de todo conjunto mensurável, contudo, seria impraticável. O resultado seguinte permite trabalhar apenas com uma família geradora.
Considere \(\mathscr G := \{ A \in \sigma \langle \mathcal{A}\rangle : f^{-1}(A) \in \mathcal{F}_1 \} .\) Iremos demonstrar que \(\mathscr G = \sigma \langle \mathcal{A}\rangle .\)
Sabemos que \(\mathcal{A} \subseteq \mathscr G \subseteq \sigma \langle \mathcal{A}\rangle .\) Além disso temos que \(\sigma \langle \mathcal{A}\rangle \) é a \(\sigma \)-álgebra minimal contendo \(\mathcal{A} .\) Assim, basta demonstrar que \(\mathscr G\) é uma \(\sigma \)-álgebra.
Temos \(\Omega _2\in \mathscr G\), pois \(f^{-1}(\Omega _2)=\Omega _1\in \mathcal{F}_1\).
Demonstraremos que se \(A \in \mathscr G \Rightarrow A^\mathsf c\in \mathscr G .\)
Para isso observe que \(f^{-1}(A^\mathsf c) = (f^{-1}(A))^\mathsf c.\)
Demonstraremos que se \(A_1, A_2, \ldots \in \mathscr G\), então \(\bigcup _{n=1}^\infty A_n \in \mathscr G .\) Mas
Logo, \(\mathscr G\) é uma \(\sigma \)-álgebra e \(\mathcal{A}\subseteq \mathscr G\subseteq \sigma \langle \mathcal{A}\rangle \), o que implica \(\mathscr G=\sigma \langle \mathcal{A}\rangle \).
Sejam \((\Omega , \mathcal{F})\) um espaço mensurável e \(f:\Omega \rightarrow \mathbb {R}\) uma função real. Nestas condições são equivalentes as seguintes afirmativas:
\(f\) é \(\mathcal{F}-\mathcal{B}(\mathbb {R})\) mensurável (mensurável a Borel);
\(\{ \omega \in \Omega : f(\omega )\leq x\} =f^{-1}((-\infty , x])\in \mathcal{F}\) para todo \(x\in \mathbb {R}\);
\(\{ \omega \in \Omega : f(\omega )\lt x\} =f^{-1}((-\infty , x))\in \mathcal{F}\) para todo \(x\in \mathbb {R}\);
\(\{ \omega \in \Omega : f(\omega )\geq x\} =f^{-1}([x, +\infty ))\in \mathcal{F}\) para todo \(x\in \mathbb {R}\);
\(\{ \omega \in \Omega : f(\omega )\gt x\} =f^{-1}((x, +\infty ))\in \mathcal{F}\) para todo \(x\in \mathbb {R}\);
Basta lembrar que
Os exemplos seguintes mostram como a mensurabilidade aparece nas construções mais simples.
Dado um espaço mensurável \((\Omega , \mathcal{F})\) e \(A\in \mathcal{F}\), a função indicadora de \(A\), geralmente denotada por \(\mathbb {1}_A\) ou por \(I\{ A\} \) é definida por:
Agora, dado \(B\in \mathcal{B}(\mathbb {R})\) note que
E portanto, \(\mathbb {1}_A\) é uma função mensurável.
Podemos modificar o exemplo anterior de modo a criar uma função \(\xi \) cuja imagem seja um conjunto finito \(\{ a_1, \ldots , a_n\} .\)
Para isso tomemos uma partição \(A_1, A_2, \ldots , A_n\in \mathcal{F}\) de \(\Omega \) e defina
Neste caso, tomando os \(a_k\)´s distintos, teríamos que \(A_k=\xi ^{-1}( \{ a_k\} )\) e a mensurabilidade de \(\xi \) pode ser verificada observando que
onde a união acima é vazia se \(\{ k:a_k\in B\} =\emptyset .\)
A próxima proposição amplia a coleção de exemplos ao relacionar continuidade e mensurabilidade.
Da continuidade de \(f\), sabemos que \(f^{-1}(U)\) é aberto em \(\Omega _1\) sempre que \(U\) é aberto em \(\Omega _2\). Como os abertos geram \(\mathcal{B}(\Omega _2)\), o Teorema 4.3 mostra que \(f\) é \(\mathcal{B}(\Omega _1)\)–\(\mathcal{B}(\Omega _2)\)-mensurável.
Além de reconhecer funções mensuráveis, precisamos saber como combiná-las. O próximo resultado trata da composição.
Para todo conjunto mensurável \(A\) do espaço de chegada de \(f\),
Como \(f\) é mensurável, \(f^{-1}(A)\) é mensurável no espaço intermediário; como \(g\) é mensurável, a pré-imagem desse conjunto por \(g\) é mensurável no espaço inicial.
Se \(f:(\Omega , \mathcal{F})\rightarrow (\mathbb {R}^n, \mathcal{B}(\mathbb {R}^n))\) é uma função mensurável, tal que
com \(f_k:\Omega \rightarrow \mathbb {R}, k=1, \ldots , n\), então \(f_k\) é uma função mensurável, para cada \(k=1, \ldots , n .\)
Para ver isso tome a projeção canônica \(\pi _k:\mathbb {R}^n\rightarrow \mathbb {R}\) dada por \(\pi _k(x_1, \ldots , x_n)=x_k\) e note que
e, pelo corolário 4.4, \(\pi _k\) é mensurável.
Para ver que \(f_k\) é mensurável basta notar que \(f_k=\pi _k\circ f\), e o resultado segue da proposição 4.8.
4.2 Variáveis Aleatórias
Uma variável aleatória representa uma quantidade associada a um experimento. Ao lançar um dado duas vezes, podemos observar o primeiro resultado, o segundo ou a soma dos dois. Cada escolha define uma variável aleatória sobre o mesmo espaço amostral.
Formalmente, definimos uma variável aleatória como uma função real mensurável quando colocamos em \(\mathbb {R}\) a \(\sigma \)-álgebra de Borel \(\mathcal{B}(\mathbb {R}) .\)
No caso em que o espaço de chegada é \(\mathbb {R}^n\), a função mensurável \(\xi \) é denominada \(\textbf{{vetor aleat\'orio}} .\) Neste caso é comum denotarmos \(X=(X_1, \ldots ,X_n)\), onde cada \(X_k, k=1, \ldots , n\) é uma variável aleatória, como vimos no exemplo 4.9.
O primeiro exemplo que consideraremos é o lançamento de moeda. Nesse caso,temos que o espaço amostral é \(\Omega = \{ H,T\} \) e \(\mathcal{F}= \mathcal{P}(\Omega ) .\)
Considere a variável aleatória
definida como:
As funções simples da seção anterior recebem, no contexto probabilístico, a denominação seguinte.
É importante observar que uma variável aleatória simples pode ser expressa de várias maneiras diferentes, bastando para isso que escolhamos diferentes conjuntos mensuráveis mutuamente disjuntos. Além disso, para transformar \(A_1,\dots , A_n \in \mathcal{F}\) em uma partição, como usamos no exemplo de função simples, basta fazer \(A_0=(\cup _{k=1}^nA_k)^\mathsf c\) e \(a_0=0 .\) Com isso teremos
Retomamos agora o resultado da seção anterior na notação de variáveis aleatórias.
A implicação direta segue da definição. Para a recíproca, use o Teorema 4.3 e a identidade
Com efeito, \(\xi ^{-1}((-\infty ,a])=\{ \omega :\xi (\omega )\leq a\} \in \mathcal{F}\) por hipótese.
Adotaremos uma notação que permite formular os eventos diretamente em termos dos valores das variáveis.
Para uma variável aleatória \(\xi \) e um boreliano \(A\in \mathcal{B}(\mathbb {R})\), escreveremos:
Do mesmo modo, para \(a, b\in \mathbb {R}\),
e assim por diante.
Para variáveis aleatórias \(X, Y\), faremos
A notação destaca os valores de \(\xi \), mas continua designando eventos no espaço amostral. O domínio fica implícito, não desaparece.
4.3 Funções de Variáveis Aleatórias
Depois de construir variáveis aleatórias, queremos combiná-las sem abandonar a mensurabilidade. Vetores, somas, produtos, máximos e composições com funções borelianas preservam a estrutura necessária.
Utilizando o Teorema 4.3, basta verificar a mensurabilidade do mapa
em uma classe de geradores da \(\sigma \)-álgebra de Borel em \(\mathbb {R}^n\) como por exemplo os geradores
Para esse fim consideraremos as pré-imagens:
Logo, cada conjunto \(\{ \xi _k \leq a\} \) é mensurável (pois \(\xi _k\) é uma variável aleatória ), e suas intersecções são mensuráveis pelas propriedades de \(\sigma \)-álgebra.
A função \(f(\xi _1,\ldots ,\xi _n)\) é composição de duas funções mensuráveis:
a função
\[ \omega \mapsto (\xi _1(\omega ),\ldots , \xi _n(\omega )) \]é mensurável por 4.15.
a função
\[ (x_1,\ldots , x_n) \mapsto f(x_1,\ldots , x_n) ~ \]é mensurável por hipótese .
Como a composição de funções mensuráveis é mensurável temos o resultado desejado.
Como corolário do Teorema anterior temos que se \(\xi \) é a variável aleatória, então:
- [noitemsep]
\(\xi ^2\)
\(\sin (\xi )\)
\(e^\xi \)
são variáveis aleatórias.
Se \(\xi _1, \ldots , \xi _n\) são variáveis aleatórias, então:
\(\xi _1 + \cdots +\xi _n\)
\(\xi _1 \cdot \xi _2 \cdot \cdots \cdot \xi _n\)
são variáveis aleatórias.
Para todo \(a\in \mathbb {R}\),
logo o supremo é mensurável. De modo análogo,
e o Corolário 4.4 mostra que o ínfimo é mensurável. Finalmente,
de modo que ambos são mensuráveis pelas duas primeiras partes. Quando o limite pontual real existe, ele coincide com o limite superior e com o limite inferior, portanto também é mensurável.
Se \(\xi _1, \xi _2, \ldots \) são variáveis aleatórias e a série converge pontualmente para um valor real, então
também o é.
Esse fato é verdadeiro porque as somas parciais são variáveis aleatórias e a soma é seu limite pontual. Se, além disso, \(\xi _n\geq 0\) para todo \(n\), a soma também é o supremo das somas parciais.
4.4 Variáveis Aleatórias Geram \(\sigma \)-álgebras
Uma variável aleatória não registra necessariamente toda a informação do experimento. Nesta seção identificaremos precisamente a informação que pode ser recuperada a partir de seus valores.
Comecemos com um exemplo simples.
Considere o exemplo do lançamento de uma moeda \(n\) vezes, de maneira independente. Como de costume, tomamos o espaço amostral \(\Omega =\{ 0, 1\} ^n\) (“0” representando coroa e “1” representando cara), e o munimos com a \(\sigma \)-álgebra \(2^\Omega \), uma vez que o espaço é finito.
Seja então a variável aleatória \(N=\) número de caras observadas. Explicitamente, \(N:\Omega \to \mathbb {R}\) é dada por
Esta variável só enxerga o número de caras, e portanto não carrega consigo nenhuma informação sobre quais lançamentos tais caras foram observadas ou se existem ou não lançamentos consecutivos de cara.
Assim, se soubermos que \(N=3\), por exemplo, sabemos apenas que o resultado está no evento
e nada mais.
Qualquer evento cuja ocorrência possa ser decidida conhecendo apenas \(N\) tem a forma \(\{ N\in A\} \), com \(A\in \mathcal{B}(\mathbb {R}) .\) Neste caso,
e portanto toda informação dada por \(N\) pode ser vista como união de eventos \(\{ N=k\} .\)
É interessante observar que a família \(\{ \{ N\in A\} : A\in \mathcal{B}(\mathbb {R})\} \), que coleciona toda a informação contida na variável \(N\), é de fato uma \(\sigma \)-álgebra. Com efeito, ela contém \(\Omega =N^{-1}(\mathbb {R})\) e, como pré-imagens preservam complementos e uniões enumeráveis,
Com isso estamos prontos para a próxima definição.
Dada uma variável aleatória \(\xi \) definida em um espaço mensurável \((\Omega ,\mathcal{F})\), definimos a \(\sigma \)-álgebra gerada por \(\xi \), e denotamos por \(\sigma \langle \xi \rangle \), como a família
Analogamente, dado um vetor aleatório \(X=(X_1, X_2, \ldots , X_n)\), a \(\sigma \)-álgebra gerada por \(X_1, X_2, \ldots , X_n\) é a família
Como comentamos anteriormente, \(\sigma \langle \xi \rangle \) pode ser vista como a \(\sigma \)-álgebra que carrega toda a informação encapsulada pela variável aleatória \(\xi .\) Além disso, \(\sigma \langle \xi \rangle \) é a menor \(\sigma \)-álgebra de subconjuntos de \(\Omega \) para a qual \(\xi \) é mensurável.
O próximo resultado permite obter a \(\sigma \)-álgebra gerada por uma variável a partir de uma família geradora de borelianos.
Defina
Observe que \(\mathcal A\subseteq \mathcal{G}\subseteq \mathcal{B}(\mathbb {R})\). A classe \(\mathcal{G}\) contém \(\mathbb {R}\), pois \(\{ \xi \in \mathbb {R}\} =\Omega \in \mathcal{F}\). Se \(A\in \mathcal{G}\), então
e, se \(A_j\in \mathcal{G}\), então
Logo, \(\mathcal{G}\) é uma \(\sigma \)-álgebra que contém \(\mathcal A\), donde \(\mathcal{G}=\mathcal{B}(\mathbb {R})\). Isso prova a primeira afirmação. O argumento para vetores é idêntico, substituindo \(\mathbb {R}\) por \(\mathbb {R}^n\).
Basta notar que \(\mathcal{B}(\mathbb {R}^n)\) é gerada por \(\{ A_1\times \cdots \times A_n:A_k\in \mathcal{B}(\mathbb {R}), k=1, \ldots , n\} \) e que
Dados \(\Omega =\{ 0,1\} ^{\mathbb N}\) e \(\omega =(\omega _1,\omega _2,\ldots )\in \Omega \), considere a variável aleatória \(\xi _n:\Omega \rightarrow \mathbb {R}\) definida por \(\xi _n(\omega )=\omega _n\) e seja \(\mathcal F_n=\sigma \langle \xi _1,\ldots ,\xi _n\rangle \).
Calcule explicitamente \(\mathcal{F}_1\) e \(\mathcal{F}_2\)
Solução: Como \(\xi _1\) só toma dois valores \(0\) ou \(1\), \(\sigma \langle \xi _1\rangle \) é gerado por
Logo \(\mathcal{F}_1 = \{ \Omega , \emptyset , A_1, A_1^\mathsf c\} \)
De modo análogo, \(\sigma \langle \xi _2\rangle \) é gerado por
Assim \(\sigma \langle \xi _2\rangle = \{ \Omega , \emptyset , A_2, A_2^\mathsf c\} \)
Os quatro átomos de \(\mathcal F_2\) são
Logo, \(\mathcal F_2\) é a família de todas as uniões desses quatro átomos e possui \(2^4=16\) elementos. Essa descrição inclui, em particular, os dois eventos de paridade que faltariam numa lista formada apenas por linhas, colunas, átomos e complementos de átomos.
Se \(\eta =f(\xi )\) para alguma função boreliana \(f\), então \(\xi \) é \(\sigma \langle \xi \rangle \)–\(\mathcal{B}(\mathbb {R})\)-mensurável por definição. A composição \(f\circ \xi \) é, portanto, \(\sigma \langle \xi \rangle \)-mensurável.
Reciprocamente, suponha que \(\eta \) seja \(\sigma \langle \xi \rangle \)-mensurável. Considere a bijeção contínua
e ponha \(Z=h(\eta )\). Para \(n\geq 1\), defina a aproximação diádica
Ela assume apenas os valores \(k2^{-n}\), \(0\leq k\lt 2^n\). Cada conjunto \(A_{n,k}:=\{ Z_n=k2^{-n}\} \) pertence a \(\sigma \langle \xi \rangle \); logo, pela definição dessa \(\sigma \)-álgebra, existe \(B'_{n,k}\in \mathcal{B}(\mathbb {R})\) tal que \(A_{n,k}=\xi ^{-1}(B'_{n,k})\).
Podemos tornar esses borelianos disjuntos sem alterar suas pré-imagens: ponha \(B_{n,0}=B'_{n,0}\) e, para \(k\geq 1\),
De fato, as pré-imagens \(A_{n,k}\) já são disjuntas. A função boreliana
satisfaz \(g_n(\xi )=Z_n\). Como \(Z_n\to Z\), a função boreliana \(g:=\limsup _ng_n\) satisfaz \(g(\xi )=Z\) e toma valores em \((0,1)\) sobre \(\xi (\Omega )\). Finalmente, defina
A função \(f\) é boreliana e, para todo \(\omega \in \Omega \), \(f(\xi (\omega ))=\eta (\omega )\).
A \(\sigma \)-álgebra gerada reúne a informação registrada pela variável. Para trabalhar no espaço de seus valores, falta transportar também a probabilidade. O espaço original pode sair de cena; suas probabilidades, não.
4.5 Variáveis Aleatórias Induzem Medidas de Probabilidade em \(\mathbb {R}\)
Seja \(\xi \) uma variável aleatória real. Para todo \(A\in \mathcal{B}(\mathbb {R})\), defina
Essa função é uma probabilidade em \((\mathbb {R},\mathcal{B}(\mathbb {R}))\). De fato, \(\P _\xi (\mathbb {R})=\P (\Omega )=1\) e, para borelianos disjuntos \(A_1,A_2,\ldots \),
A probabilidade \(\P _\xi \) é denominada distribuição de \(\xi \).
Na teoria da medida, o objeto central é o estudo dos espaços de medida \( (\Omega , \mathcal{F}, \mu ) .\) Na teoria da probabilidade, em muitas situações tentamos esquecer rapidamente os espaços da medida e discutir as distribuições.
Falaremos mais sobre distribuições no Capítulo 6.
4.6 Independência de Variáveis Aleatórias
A independência de variáveis aleatórias significa que a informação produzida por uma delas não altera as probabilidades associadas às demais. Formalmente, isso se traduz na independência das \(\sigma \)-álgebras que elas geram.
Dado o espaço amostral de uma moeda \(\Omega =\{ 1,0\} \), considere \(\Omega _1=\Omega \times \Omega \), munido da \(\sigma \)-álgebra das partes e da probabilidade uniforme. Ou seja, para \(\omega =(\omega _1,\omega _2)\in \Omega _1\), vale \(\P (\{ \omega \} )=1/4\).
Considere as variáveis aleatórias:
As variáveis \(\xi \) e \(\eta \) são independentes.
Para cada \(k\), a família
é precisamente a \(\sigma \)-álgebra gerada por \(\xi _k\). Assim, a identidade que define a independência dessas \(\sigma \)-álgebras, aplicada a uma escolha \(\{ \xi _k\in B_k\} \) de cada uma, é exatamente a identidade da Definição 4.26. Isso prova as duas implicações.
Como consequência do Teorema anterior temos que:
A implicação direta é imediata, tomando \(B_k=(-\infty ,x_k]\) na definição de independência.
Para a recíproca, suponha a identidade do enunciado. Para cada \(k\), defina
Cada \(\mathscr A_k\) é um \(\pi \)-sistema. A hipótese também implica as identidades de independência para qualquer subcoleção dos índices. De fato, para omitir os índices fora de \(H\subseteq \{ 1,\ldots ,n\} \), substitua seus limiares por \(t\) e faça \(t\to \infty \); a continuidade por baixo fornece
Portanto, as famílias \(\mathscr A_k\) são independentes. Como
o teorema sobre \(\pi \)-sistemas independentes do capítulo anterior mostra que \(\sigma \langle \xi _1\rangle ,\ldots , \sigma \langle \xi _n\rangle \) são independentes. Pelo teorema precedente, as variáveis aleatórias são independentes.
Para borelianos \(B_1,\ldots ,B_n\), a mensurabilidade de cada \(f_k\) dá \(f_k^{-1}(B_k)\in \mathcal{B}(\mathbb {R})\). Além disso,
Pela independência das \(\xi _k\),
que é a identidade desejada.
Como consequência da última proposição temos que se \(\xi ,\eta \) são independentes, então \(\xi ^2, \eta ^4\) são independentes.
Suponha que \((\xi _n : n \in \mathbb {N})\) é uma sequência de variáveis aleatórias independentes. Então a \(\sigma \)-álgebra caudal \(\mathcal T\) de \((\sigma \langle \xi _n \rangle : n \in \mathbb {N})\) contém somente eventos de probabilidade \(0\) ou \(1 .\)
Mais ainda, toda variável aleatória mensurável com respeito a \(\mathcal T\) é constante quase certamente.
Aplicando o Teorema 4.28 a cada subcoleção finita, vemos que as \(\sigma \)-álgebras \(\sigma \langle \xi _n\rangle \), \(n\geq 1\), são independentes. A primeira afirmação é, portanto, exatamente a Lei \(0\)–\(1\) de Kolmogorov aplicada a essa sequência de \(\sigma \)-álgebras.
Seja agora \(\eta \) uma variável aleatória \(\mathcal T\)-mensurável. Para todo \(y\in \mathbb {R}\), o evento \(\{ \eta \leq y\} \) pertence a \(\mathcal T\); logo,
Como \(F(y)\to 0\) quando \(y\to -\infty \) e \(F(y)\to 1\) quando \(y\to \infty \), o número
é real. Pela monotonicidade de \(F\), temos \(F(y)=0\) para \(y\lt c\) e \(F(y)=1\) para \(y\gt c\). Escolhendo sequências racionais que se aproximam de \(c\) pelos dois lados e usando continuidade da probabilidade,
Consequentemente, \(\P (\eta =c)=1\).
Sejam \((\Omega ,\mathcal F)\), \((S,\mathcal S)\) e \((T,\mathcal T)\) espaços mensuráveis. Prove que a composição de duas funções mensuráveis é mensurável. Operações com variáveis aleatórias. Se \(X\) e \(Y\) são variáveis aleatórias reais no mesmo espaço de probabilidade \((\Omega ,\mathcal F,\P )\), prove que também são variáveis aleatórias: \(|X|\); \(X+Y\); \(XY\); \(\max \{ X,Y\} \); \(\min \{ X,Y\} \). Seja \(X\) uma variável aleatória tal que \(\P (X\gt 0)\gt 0\). Prove que existe \(\delta \gt 0\) para o qual \(\P (X\gt \delta )\gt 0\). Amostragem de uma variável exponencial. Seja \(U\sim \operatorname {U}(0,1)\) e fixe \(\lambda \gt 0\). Encontre uma função mensurável \(g:(0,1)\to [0,\infty )\) tal que \(X=g(U)\) tenha distribuição \(\operatorname {Exp}(\lambda )\). Prove sua afirmação calculando a função de distribuição de \(X\). A propriedade de falta de memória. Diremos que uma variável aleatória real não negativa \(X\) possui a propriedade de falta de memória quando para todos \(s,t\geq 0\) para os quais \(\P (X\gt s)\gt 0\). Mostre que essa identidade é equivalente a em todos os casos em que \(\P (X\gt s)\gt 0\). Prove que toda variável com distribuição exponencial possui a propriedade de falta de memória. Reciprocamente, suponha que \(X\) seja finita quase certamente, não degenerada e tenha a propriedade de falta de memória. Prove que \(X\sim \operatorname {Exp}(\lambda )\) para algum \(\lambda \gt 0\). Dica. Para \(G(t)=\P (X\gt t)\), obtenha \(G(s+t)=G(s)G(t)\). Resolva primeiro a equação nos racionais não negativos e use a monotonicidade de \(G\) para passar aos reais. No primeiro item ponha \(t=u-s\); a volta é a mesma substituição. Para uma exponencial, a razão \(\P (X\gt s+t)/\P (X\gt s)=e^{-\lambda t}\) prova a propriedade. Na recíproca, a não degenerescência, junto com o caso \(s=0\), implica \(\P (X\gt 0)=1\). Para \(G(t)=\P (X\gt t)\), a hipótese dá \(G(s+t)=G(s)G(t)\). Como \(X\) é finita, \(G(t)\downarrow 0\). Se \(G(1)=1\), então \(G(n)=1\) para todo \(n\); se \(G(1)=0\), então \(G(1/n)=0\), contradizendo \(G(1/n)\uparrow \P (X\gt 0)=1\). Portanto \(0\lt G(1)\lt 1\). Pondo \(\lambda =-\log G(1)\gt 0\), a equação dá \(G(q)=e^{-\lambda q}\) para todo racional \(q\geq 0\). A monotonicidade e aproximações racionais por ambos os lados estendem a fórmula a todo real \(t\geq 0\). Seja \(X\) uma variável aleatória independente de si mesma, isto é, suponha que \(\sigma (X)\) seja independente de \(\sigma (X)\). Prove que \(X\) é constante quase certamente. Fixe \(\varepsilon ,\delta \gt 0\) e seja \((X_i)_{i\geq 1}\) uma sequência de variáveis aleatórias não negativas e independentes tal que Prove que Se \(X\) e \(Y\) são independentes, prove que cada uma das famílias é independente. Variáveis mensuráveis numa partição enumerável. Seja \((E_n)_{n\geq 1}\) uma partição enumerável de \(\Omega \) em conjuntos não vazios e ponha \(\mathcal F=\sigma (E_n:n\geq 1)\). Prove que Caracterize todas as funções \(X:(\Omega ,\mathcal F)\to (\mathbb {R},\mathcal B(\mathbb {R}))\) mensuráveis. Ver solução
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