Acoplamento
Comparar as distribuições de duas variáveis aleatórias nem sempre permite comparar diretamente seus valores. Se elas vivem em espaços amostrais diferentes, expressões como \(\xi (\omega )-\eta (\omega )\) sequer estão definidas: não há, a princípio, um mesmo resultado \(\omega \) no qual possamos observar as duas variáveis.
O acoplamento contorna essa dificuldade construindo cópias das variáveis num espaço de probabilidade comum. As distribuições marginais permanecem inalteradas, mas a dependência entre as cópias pode ser escolhida de acordo com o problema. Essa liberdade permite ordenar duas variáveis, fazer duas trajetórias se encontrarem ou estimar a diferença entre distribuições pela probabilidade de desacordo entre as cópias.
Comecemos com duas moedas cujas probabilidades de sucesso são \(q\) e \(r\), com \(0\leq q\lt r\leq 1\). Se as lançarmos independentemente, a primeira pode produzir sucesso e a segunda, fracasso. Entretanto, escolhendo uma única variável \(U\sim \operatorname {Uni}[0,1]\) e definindo
obtemos as distribuições desejadas e, ao mesmo tempo, a relação \(\xi \leq \eta \) em todo resultado. Cada moeda conserva sua lei; a novidade está na companhia.
9.1 Construções conjuntas
Um acoplamento de \(\mu \) e \(\nu \) é uma medida de probabilidade \(\widehat\mu \) em \((E\times E,\mathcal E\otimes \mathcal E)\) cujas marginais são \(\mu \) e \(\nu \):
\[ \widehat\mu \circ \pi _1^{-1}=\mu , \qquad \widehat\mu \circ \pi _2^{-1}=\nu , \]onde \(\pi _1(x,y)=x\) e \(\pi _2(x,y)=y\).
Um acoplamento de variáveis aleatórias \(\xi \) e \(\eta \), ambas com valores em \((E,\mathcal E)\), é um par \((\widehat\xi ,\widehat\eta )\) definido num mesmo espaço de probabilidade e tal que
\[ \widehat\xi \stackrel{\mathrm d}=\xi , \qquad \widehat\eta \stackrel{\mathrm d}=\eta . \]
Denotaremos por \(\mathcal C(\mu ,\nu )\) o conjunto dos acoplamentos de \(\mu \) e \(\nu \). A medida produto \(\mu \otimes \nu \) sempre pertence a esse conjunto e corresponde ao acoplamento independente. Se \(\mu =\nu \), há também o acoplamento diagonal: escolha \(Z\) com distribuição \(\mu \) e tome \((Z,Z)\). Esses dois extremos mostram que as marginais não determinam a distribuição conjunta. A independência é uma escolha, não uma cláusula da definição.
Sejam \(\xi \) e \(\eta \) variáveis de Bernoulli com parâmetros \(0\leq q\lt r\leq 1\). No acoplamento independente, com as linhas indexadas pelo valor da primeira variável e as colunas pelo valor da segunda, a distribuição conjunta é
Nesse caso, o evento \(\{ \xi =1,\eta =0\} \) tem probabilidade \(q(1-r)\gt 0\) quando \(0\lt q\lt r\lt 1\).
No acoplamento construído na abertura do capítulo,
a distribuição conjunta é
Agora \(\xi \leq \eta \) sempre. Por isso, essa construção é chamada de acoplamento monótono.
A mesma distribuição conjunta admite outra construção. Tome variáveis independentes \(\xi _0\sim \operatorname {Be}(q)\) e \(\zeta \sim \operatorname {Be}((r-q)/(1-q))\) e faça \(\eta _0=\xi _0\vee \zeta \). Então \(\eta _0\sim \operatorname {Be}(r)\) e \(\xi _0\leq \eta _0\). O mecanismo é diferente, mas o acoplamento é o mesmo em lei.
9.2 Acoplamento de processos
Para comparar processos, é preciso preservar mais do que a distribuição em cada instante: a dependência temporal também faz parte de sua lei.
Exigir apenas \(\widehat X_t\stackrel{\mathrm d}=X_t\) para cada \(t\) não é suficiente. Por exemplo, sejam \(X_0\) e \(X_1\) moedas justas independentes e seja \(Y_0=Y_1=Z\), onde \(Z\) é uma moeda justa. Em cada instante, \(X_t\stackrel{\mathrm d}=Y_t\), mas
As marginais unidimensionais coincidem, mas não registram que um dos processos lança uma nova moeda e o outro repete a primeira. As leis das trajetórias são diferentes.
9.3 Variação total
A escolha da dependência só será útil à comparação se pudermos relacioná-la a uma quantidade que dependa apenas das marginais. A distância de variação total fornece essa ligação.
No Capítulo 13, veremos que \(\mu -\nu \) é uma medida com sinal e que
As caracterizações de que precisamos aqui admitem provas diretas, sem recorrer à teoria de medidas com sinal.
Escreva \(a_x=\mu (\{ x\} )-\nu (\{ x\} )\) e \(A_+=\{ x\in E:a_x\geq 0\} \). Como \(\sum _xa_x=0\),
Para todo \(A\subseteq E\),
e a cota é atingida em \(A=A_+\). Aplicando o mesmo argumento a \(\nu -\mu \), obtemos a fórmula.
Se \(0\leq f\leq 1\), a representação por camadas do Corolário 8.12 dá
O valor absoluto dessa expressão é no máximo \(d_{\mathrm{TV}}(\mu ,\nu )\). Por outro lado, tomando \(f=\mathbb {1}_A\) e aproximando o supremo sobre \(A\), obtemos a igualdade no primeiro supremo.
Se \(|f|\leq 1\), então \(g=(f+1)/2\) satisfaz \(0\leq g\leq 1\). Como \(\mu (E)=\nu (E)=1\),
Isso prova a segunda igualdade.
A definição por eventos fornece a desigualdade triangular:
para quaisquer probabilidades \(\mu \), \(\nu \) e \(\rho \).
9.4 A desigualdade de acoplamento
Para todo \(A\in \mathcal E\),
Trocando \(\mu \) e \(\nu \), obtemos a mesma cota para \(\nu (A)-\mu (A)\). Basta tomar o supremo sobre \(A\).
O lado direito depende do acoplamento; o esquerdo, apenas das marginais. Podemos, portanto, escolher as cópias de modo a reduzir a probabilidade de desacordo, sem mudar as distribuições que queremos comparar.
As variáveis \(f(\widehat\xi )\) e \(f(\widehat\eta )\) coincidem quando \(\widehat\xi =\widehat\eta \). Logo,
9.5 Acoplamentos maximais
A desigualdade de acoplamento fornece uma cota para qualquer construção conjunta. Cabe perguntar se alguma escolha atinge a própria distância de variação total.
O adjetivo se refere à coincidência: é o desacordo que queremos minimizar.
Escreva \(\mu (x)=\mu (\{ x\} )\), \(\nu (x)=\nu (\{ x\} )\) e ponha
Pela Proposição 9.7,
Se \(a=1\), então \(\mu =\nu \) e o acoplamento diagonal resolve o problema. Suponha \(a\lt 1\) e defina
Quando \(a\gt 0\), defina também
Escolha \(B\sim \operatorname {Be}(a)\). Se \(B=1\), escolha \(W\) com distribuição \(\gamma _0\) e faça \(\widehat\xi =\widehat\eta =W\). Se \(B=0\), escolha \(U\sim \gamma _\mu \) e \(V\sim \gamma _\nu \), independentemente, e faça \((\widehat\xi ,\widehat\eta )=(U,V)\). Quando \(a=0\), usamos apenas a segunda etapa.
As distribuições residuais possuem suportes disjuntos: \(\gamma _\mu (x)\gt 0\) implica \(\mu (x)\gt \nu (x)\), enquanto \(\gamma _\nu (x)\gt 0\) implica \(\nu (x)\gt \mu (x)\). Portanto, na segunda etapa, \(U\neq V\) quase certamente. Além disso, para todo \(x\in E\),
com a interpretação evidente quando \(a=0\). Assim, as marginais estão corretas e
A desigualdade de acoplamento mostra que nenhuma construção pode produzir uma probabilidade de desacordo menor.
No exemplo das moedas, o acoplamento monótono da Figura 9.1 satisfaz
Portanto, ele é simultaneamente monótono e maximal. Essas propriedades não se confundem: uma ordena as cópias; a outra maximiza a probabilidade de coincidência. Para essas moedas, a mesma construção faz as duas coisas.
Se os acoplamentos existem, a desigualdade de acoplamento fornece a convergência em variação total. Reciprocamente, escolha para cada \(n\) um acoplamento maximal e aplique o Teorema 9.13.
9.6 Uma família inteira no mesmo espaço: percolação
A mesma ideia permite comparar, num único espaço, toda uma família de modelos. Retomemos a percolação de elos discutida na Seção 3.3.
Seja \(G=(V,E_G)\) um grafo com conjunto enumerável de arestas. No espaço \([0,1]^{E_G}\), escolha variáveis independentes \((U_e)_{e\in E_G}\), todas uniformes em \([0,1]\). Para cada \(p\in [0,1]\), defina a configuração
Uma aresta está aberta na configuração \(\omega _p\) precisamente quando sua marca uniforme não excede \(p\).
Uma propriedade \(A\subseteq \{ 0,1\} ^{E_G}\) é chamada crescente se
onde a ordem entre configurações é coordenada a coordenada.
Para \(p\) fixado, as variáveis \(\omega _p(e)\) são independentes e
Logo, \(\omega _p\) possui a lei produto da percolação de parâmetro \(p\).
Se \(p\leq q\), então, para todo \(u\in [0,1]\),
Aplicando essa desigualdade a cada marca \(U_e\), obtemos \(\omega _p\leq \omega _q\). A afirmação vale ponto a ponto no espaço das marcas e, portanto, simultaneamente para todos os pares \(p\leq q\). Finalmente, se \(A\) é crescente,
e a desigualdade entre as probabilidades segue ao tomar esperanças.
O evento de que dois vértices estejam ligados por um caminho aberto é crescente. Também é crescente o evento de que o cluster aberto de um vértice \(x\) seja infinito. Portanto,
é não decrescente em \(p\), como foi usado na construção da probabilidade crítica na Seção 3.3. A comparação entre probabilidades decorre agora de uma inclusão entre configurações construídas no mesmo espaço.
O acoplamento preserva cada modelo e escolhe como eles serão observados juntos. Neste exemplo, essa escolha transforma a ordem entre os parâmetros numa ordem entre as próprias configurações.
Acoplamentos
Sejam \(X\sim \operatorname {Be}(q)\) e \(Y\sim \operatorname {Be}(r)\), com \(0\leq q\leq r\leq 1\).
Mostre que todo acoplamento de \(X\) e \(Y\) é determinado pelo valor \(a=\P (X=1,Y=1)\).
Determine o intervalo de valores possíveis de \(a\).
Identifique nesse intervalo os acoplamentos independente e monótono, este último caracterizado por \(X\leq Y\) quase certamente. Qual deles minimiza \(\P (X\neq Y)\)? Calcule esse mínimo.
Ver solução
Sejam \(X_0,X_1\) moedas justas independentes e seja \(Y_0=Y_1=Z\), onde \(Z\) é uma moeda justa.
Verifique que \(X_t\stackrel{\mathrm d}=Y_t\) para \(t=0,1\).
Mostre que os vetores \((X_0,X_1)\) e \((Y_0,Y_1)\) não possuem a mesma lei. Explique por que marginais unidimensionais corretas não bastam na definição de acoplamento de processos.
Ver solução
Sejam \(\mu \) e \(\nu \) probabilidades num espaço mensurável \(E\), seja \((X,Y)\) um acoplamento de \(\mu \) e \(\nu \) e seja \(f:E\to S\) mensurável. Mostre que \((f(X),f(Y))\) é um acoplamento das medidas-imagem de \(\mu \) e \(\nu \) por \(f\). Deduza que
quando \(E\) é finito ou enumerável. Prove também a desigualdade diretamente, a partir da definição por supremo, sem a hipótese de enumerabilidade.
Ver solução
Para \(i=1,\ldots ,n\), seja \((X_i,Y_i)\) um acoplamento de \(\mu _i\) e \(\nu _i\), e suponha que esses pares sejam independentes.
Mostre que
\[ \P \bigl((X_1,\ldots ,X_n)\neq (Y_1,\ldots ,Y_n)\bigr) \leq \sum _{i=1}^n\P (X_i\neq Y_i). \]Usando acoplamentos maximais, prove, para espaços finitos ou enumeráveis,
\[ d_{\mathrm{TV}} \left(\bigotimes _{i=1}^n\mu _i, \bigotimes _{i=1}^n\nu _i\right) \leq \sum _{i=1}^n d_{\mathrm{TV}}(\mu _i,\nu _i). \]
Ver solução
Use o acoplamento de variáveis de Poisson construído no capítulo para provar que, se \(\lambda _n,\lambda \geq 0\) e \(\lambda _n\to \lambda \), então
Ver solução
No acoplamento simultâneo da percolação de elos num grafo localmente finito \(G\), fixe vértices \(x\) e \(y\) e denote por \(C_x\) o aglomerado aberto de \(x\).
Mostre diretamente que o evento \(\{ x\longleftrightarrow y\} \) é crescente.
Para \(n\geq 1\), seja \(A_n\) o evento de que \(x\) esteja ligado por um caminho aberto a algum vértice a distância pelo menos \(n\). Mostre que \(A_n\) é crescente e que
\[ \{ |C_x|=\infty \} =\bigcap _{n\geq 1}A_n \]num grafo localmente finito.
Conclua novamente que \(p\mapsto \theta _x(p)\) é não decrescente.