Capítulo 7

Valor Esperado

O capítulo anterior descreveu a lei de uma variável aleatória. Agora queremos extrair dela algumas quantidades numéricas. A mais básica é a esperança, que associa à variável uma média de seus valores.

7.1 Esperança como integral

Considere, para motivar a definição, uma variável simples

\[ \xi =\sum _{k=1}^na_k\cdot \mathbb {1}_{A_k}, \]

com \(A_1,A_2,\ldots ,A_n\) disjuntos. Então a média ponderada \(m(\xi )\) dos valores que \(\xi \) assume é

\[ m(\xi )=\sum _{k=1}^na_k\, \P (A_k)=\int \xi \d\P . \]

Isso conduz à definição geral.

Definição 7.1 (Valor Esperado ou Esperança)
Se \(\xi \) é uma variável aleatória definida em \((\Omega , \mathcal{F}, \P )\), seu valor esperado, esperança ou média é definido como
\[ \mathbf{E}[ \xi ] := \displaystyle \int _\Omega \xi d\P \]

Usaremos aqui a mesma nomenclatura das integrais de Lebesgue. Diremos que \(\xi \) é integrável se \(\mathbf{E}|\xi |\lt \infty \), o que equivale a \(\mathbf{E}[\xi ^+]\lt \infty \) e \(\mathbf{E}[\xi ^-]\lt \infty \). Mais geralmente, a esperança de \(\xi \) está bem definida, possivelmente como \(+\infty \) ou \(-\infty \), se ao menos uma das quantidades \(\mathbf{E}[\xi ^+]\) e \(\mathbf{E}[\xi ^-]\) for finita; nesse caso, dizemos que \(\xi \) é quase integrável.

A definição recupera imediatamente o cálculo para variáveis simples.

Para uma variável aleatória simples \(\xi =\sum _{k=1}^n a_k\mathbb {1}_{A_k}\), com os \(A_k\) disjuntos,

\[ \mathbf{E}[\xi ]=\sum _{k=1}^n a_k\P (A_k). \]

O caso particular das indicadoras estabelece uma ligação direta entre esperança e probabilidade.

Em particular, para todo evento \(A\in \mathcal{F}\),

\[ \mathbf{E}[\mathbb {1}_A]=\P (A). \]

Definida pela integral de Lebesgue, a esperança herda as propriedades seguintes.

Teorema 7.2
Suponha que \(\xi ,\eta \) sejam variáveis aleatórias integráveis. Então
  1. (Linearidade) \(\mathbf{E}[a\xi + b\eta ] = a\mathbf{E}[ \xi ] + b\mathbf{E}[ \eta ]\) para quaisquer números reais \(a, b\).

  2. Se \(\xi \equiv b\in \mathbb {R}\), constante, então \(\mathbf{E}[\xi ] = b\) (escrevemos também que \(\mathbf{E}[b]=b\)).

  3. Se \(\xi \geq 0\) então \(\mathbf{E}[ \xi ] \geq 0\).

  4. (Monotonicidade) Se \(\xi \geq \eta \) então \(\mathbf{E}[ \xi ] \geq \mathbf{E}[ \eta ]\).

  5. (Desigualdade triangular) \(\left\lvert \mathbf{E}[\xi ]\right\rvert \leq \mathbf{E}[\left\lvert \xi \right\rvert ]\)

  6. Se \(0\leq \xi _n\uparrow \xi \), então \(\mathbf{E}[\xi ]=\lim _{n\to \infty }\mathbf{E}[\xi _n]\), admitindo-se o valor \(+\infty \).

Demonstração ▼

Como \(\mathbf{E}[\xi ]=\int _\Omega \xi \, \d\P \), a linearidade para funções integráveis, a positividade, a monotonicidade, a desigualdade triangular e a convergência monótona são exatamente as propriedades da integral de Lebesgue demonstradas no capítulo anterior. Para explicitar o único ponto específico de uma probabilidade, se \(\xi \equiv b\), então \(\xi =b\mathbb {1}_\Omega \) e

\[ \mathbf{E}[b]=b\, \P (\Omega )=b. \]

Exemplo 7.3

Suponha que uma esfera seja colorida de modo que \(90\% \) de sua área seja vermelha e \(10\% \) seja azul, com a região vermelha mensurável. Fixe um cubo inscrito e escolha ao acaso uma rotação do cubo segundo a probabilidade uniforme — a medida de Haar normalizada — em \(SO(3)\). Para cada vértice \(v_i\) do cubo, sua imagem pela rotação é então uniformemente distribuída na esfera.

Seja \(\xi _i\) a indicadora de que o \(i\)-ésimo vértice cai na região vermelha. Então \(\mathbf{E}[\xi _i]=0{,}9\) para todo \(i\) e \(N=\xi _1+\cdots +\xi _8\) é o número de vértices vermelhos. Por linearidade da esperança,

\[ \mathbf{E}[N]=\sum _{i=1}^8\mathbf{E}[\xi _i]=8\cdot 0{,}9=7{,}2. \]

Se toda rotação tivesse no máximo sete vértices vermelhos, teríamos \(N\leq 7\) quase certamente e, portanto, \(\mathbf{E}[N]\leq 7\), uma contradição. Logo existe uma rotação para a qual os oito vértices estão em pontos vermelhos da esfera.

Esse é um exemplo da utilização de técnicas probabilísticas para provar fatos determinísticos. Observe que não exigimos que as variáveis \(\xi _i\) sejam independentes.

Temos também a seguinte caracterização do operador esperança.

Teorema 7.4 (Caracterização da Esperança)
A esperança é o único operador linear \(T:\L ^1(\Omega ,\mathcal{F},\P )\to \mathbb {R}\) que satisfaz:
  • continuidade na norma de \(\L ^1\): se \(\| \xi _n-\xi \| _1\to 0\), então \(T(\xi _n)\to T(\xi )\);

  • relação com a probabilidade: \(T(\mathbb {1}_A)=\P (A)\) para todo \(A\in \mathcal{F}\).

Demonstração ▼

O operador \(\xi \mapsto \int _\Omega \xi \, \d\P \) é linear, \(|\mathbf{E}[\xi ]|\leq \| \xi \| _1\) e \(\mathbf{E}[\mathbb {1}_A]=\P (A)\); portanto, possui as propriedades anunciadas.

Reciprocamente, seja \(T\) um operador com essas propriedades. Se \(s=\sum _{j=1}^m a_j\mathbb {1}_{A_j}\) é simples, a linearidade e a condição sobre indicadoras dão

\[ T(s)=\sum _{j=1}^m a_j\P (A_j)=\mathbf{E}[s]. \]

As funções simples são densas em \(\L ^1\): para \(\xi \in \L ^1\), escolha simples \(s_n\) com \(\| s_n-\xi \| _1\to 0\). Pela continuidade de \(T\) e pela estimativa \(|\mathbf{E}[s_n-\xi ]|\leq \| s_n-\xi \| _1\),

\[ T(\xi )=\lim _nT(s_n)=\lim _n\mathbf{E}[s_n]=\mathbf{E}[\xi ]. \]

Isso prova a unicidade.

Como já vimos, uma propriedade que falha apenas num evento de probabilidade zero vale quase certamente, abreviado por q.c. A integral de Lebesgue ignora conjuntos nulos; a esperança, portanto, respeita naturalmente essa identificação.

Proposição 7.5
Dadas variáveis aleatórias \(\xi \) e \(\eta \), vale que
  1. Se \(\xi =0\ q.c\) então \(\mathbf{E}[\xi ]=0\);

  2. Se \(\xi =\eta \ q.c\) e \(\xi \) é integrável ou \(\mathbf{E}[\xi ]=\pm \infty \), então \(\mathbf{E}[\eta ]=\mathbf{E}[\xi ]\);

  3. Se \(\xi \leq \eta \ q.c.\) e \(\eta \) é integrável, então \(\mathbf{E}[\xi ]\leq \mathbf{E}[\eta ]\) (\(\mathbf{E}[\xi ]\) pode ser \(-\infty \)) .

  4. Se \(\xi \geq 0\) e \(\mathbf{E}[\xi ]=0\), então \(\xi =0\ q.c.\).

Demonstração ▼
  1. Como \(\xi ^+=\xi ^-=0\) quase certamente, ambas as integrais são nulas e, portanto, \(\mathbf{E}[\xi ]=0\).

  2. Da igualdade quase certa seguem \(\xi ^+=\eta ^+\) e \(\xi ^-=\eta ^-\) quase certamente. As integrais das partes positiva e negativa coincidem; logo a existência e o valor da esperança de \(\eta \) são os mesmos que os de \(\xi \).

  3. Defina

    \[ \xi ^*=\xi \mathbb {1}_{\{ \xi \leq \eta \} }+\eta \mathbb {1}_{\{ \xi \gt \eta \} }. \]

    Então \(\xi ^*=\xi \) quase certamente e \(\xi ^*\leq \eta \) em todo ponto. Além disso, \((\xi ^*)^+\leq \eta ^+\), de modo que a parte positiva de \(\xi ^*\) é integrável. Por monotonicidade, \(\mathbf{E}[\xi ]=\mathbf{E}[\xi ^*]\leq \mathbf{E}[\eta ]\), admitindo-se o valor \(-\infty \).

  4. Dado \(\epsilon \gt 0\), defina \(\eta _\epsilon =\epsilon \mathbb {1}_{\{ \xi \gt \epsilon \} }\) e observe que \(\eta _\epsilon \leq \xi \) para todo \(\epsilon \gt 0\). Segue que

    \[ \epsilon \P (\xi \gt \epsilon )=\mathbf{E}[\eta _\epsilon ]\leq \mathbf{E}[\xi ]=0, \]

    e portanto \(\P (\xi \gt \epsilon )=0\) para todo \(\epsilon \gt 0\).

    Como \(\{ \xi \gt 0\} =\bigcup _{n\geq 1}\{ \xi \gt 1/n\} \), concluímos que \(\P (\xi \gt 0)=0\). Como \(\xi \geq 0\), segue que \(\xi =0\) quase certamente.

7.2 Esperança e distribuição

A definição \(\mathbf{E}[\xi ]=\int _\Omega \xi \, \d\P \) parece depender do espaço amostral. Para calcular a esperança, porém, a informação relevante é apenas a distribuição de \(\xi \). Esse fato é uma manifestação geral da integração por uma medida imagem.

Teorema 7.6 (Integração pela distribuição)
Se \(\xi \) é uma variável aleatória com distribuição \(\P _\xi \) e \(\varphi :\mathbb {R}\to \mathbb {R}\) é mensurável, então
\[ \mathbf{E}[\varphi (\xi )] = \int _{\mathbb {R}}\varphi (x)\, \d\P _\xi (x), \]
sempre que um dos lados esteja bem definido; nesse caso, o outro também está. Em particular,
\[ \mathbf{E}[\xi ]=\int _{\mathbb {R}}x\, \d\P _\xi (x). \]

Demonstração ▼

Para uma função simples não negativa

\[ \varphi =\sum _{k=1}^m a_k\mathbb {1}_{A_k}, \]

a definição da distribuição induzida dá

\[ \mathbf{E}[\varphi (\xi )] =\sum _{k=1}^m a_k\P (\xi \in A_k) =\sum _{k=1}^m a_k\P _\xi (A_k) =\int _{\mathbb {R}}\varphi \, \d\P _\xi . \]

Se \(\varphi \geq 0\) é mensurável, escolha funções simples \(\varphi _n\uparrow \varphi \) e aplique o Teorema da Convergência Monótona aos dois lados. Para uma função mensurável arbitrária, aplique o caso não negativo a \(\varphi ^+\) e \(\varphi ^-\). A escolha \(\varphi (x)=x\) fornece a última identidade.

Corolário 7.7 (A distribuição determina a esperança)
Se \(\xi \overset {\mathrm d}=\eta \) e \(\xi \) é integrável, então \(\eta \) também é integrável e
\[ \mathbf{E}[\xi ]=\mathbf{E}[\eta ]. \]
Mais geralmente, para toda função mensurável \(\varphi \), \(\mathbf{E}[\varphi (\xi )]=\mathbf{E}[\varphi (\eta )]\) sempre que essas esperanças estejam bem definidas.

Demonstração ▼

As distribuições de \(\xi \) e \(\eta \) coincidem. Basta aplicar o Teorema 7.6 a \(\varphi \) e, para a integrabilidade, a \(x\mapsto |x|\).

7.2.1 Variáveis aleatórias discretas

Se \(\xi \) assume valores num conjunto enumerável \(S=\{ x_1,x_2,\ldots \} \), sua distribuição é determinada pelas massas \(p_k=\P (\xi =x_k)\). Integrar em relação a essa distribuição significa somar com esses pesos.

Proposição 7.8
Se \(\xi \) é discreta, com valores em \(S=\{ x_1,x_2,\ldots \} \), e \(\varphi :\mathbb {R}\to \mathbb {R}\) é mensurável, então
\[ \mathbf{E}[\varphi (\xi )] = \sum _{k=1}^{\infty } \varphi (x_k)\P (\xi =x_k), \]
sempre que um dos lados esteja bem definido. Em particular, se \(\xi \) é não negativa ou integrável,
\[ \mathbf{E}[\xi ] = \sum _{k=1}^{\infty }x_k\P (\xi =x_k). \]

Demonstração ▼

A distribuição de \(\xi \) é

\[ \P _\xi =\sum _{k\geq 1}\P (\xi =x_k)\, \delta _{x_k}. \]

A fórmula segue do Teorema 7.6; para funções não negativas, a soma é entendida como limite das somas parciais. No caso integrável, a série é absolutamente convergente porque

\[ \sum _k|\varphi (x_k)|\P (\xi =x_k)=\mathbf{E}|\varphi (\xi )|\lt \infty . \]

7.2.2 Variáveis aleatórias absolutamente contínuas

Se a distribuição de \(\xi \) possui densidade \(f\), a medida \(\P _\xi \) é dada por \(f\, \d\lambda \). O teorema anterior assume então sua forma mais familiar.

Proposição 7.9
Se \(\xi \) tem densidade \(f\) e \(\varphi :\mathbb {R}\to \mathbb {R}\) é mensurável, então
\[ \mathbf{E}[\varphi (\xi )] = \int _{\mathbb {R}}\varphi (x)f(x)\, \d x, \]
sempre que um dos lados esteja bem definido.

Demonstração ▼

Pelo Teorema 7.6,

\[ \mathbf{E}[\varphi (\xi )] =\int _{\mathbb {R}}\varphi \, \d\P _\xi . \]

Como \(\P _\xi (A)=\int _A f\, \d\lambda \), a integral em relação a \(\P _\xi \) é exatamente a integral de \(\varphi f\) em relação à medida de Lebesgue.

7.2.3 Vetores aleatórios

Nada no argumento anterior é peculiar à reta. Se \(X=(X_1,\ldots ,X_n)\) é um vetor aleatório, sua distribuição conjunta \(\P _X\) é uma probabilidade em \(\mathbb {R}^n\). As distribuições marginais são obtidas por projeção; por exemplo,

\[ \P _{X_k}(B) = \P _X(\mathbb {R}^{k-1}\times B\times \mathbb {R}^{n-k}). \]

As marginais, em geral, não determinam a distribuição conjunta.

Teorema 7.10
Se \(X=(X_1,\ldots ,X_n)\) é um vetor aleatório com distribuição \(\P _X\) e \(\varphi :\mathbb {R}^n\to \mathbb {R}\) é mensurável, então
\[ \mathbf{E}[\varphi (X_1,\ldots ,X_n)] = \int _{\mathbb {R}^n}\varphi (x_1,\ldots ,x_n)\, \d\P _X(x_1,\ldots ,x_n), \]
sempre que um dos lados esteja bem definido.

Demonstração ▼

É o mesmo argumento do Teorema 7.6, agora para a medida imagem \(\P _X\) em \(\mathbb {R}^n\).

Se \(X_1,\ldots ,X_n\) são discretas, com valores em \(S_1,\ldots ,S_n\), então

\[ \mathbf{E}[\varphi (X_1,\ldots ,X_n)] = \sum _{x_1\in S_1}\cdots \sum _{x_n\in S_n} \varphi (x_1,\ldots ,x_n) \P (X_1=x_1,\ldots ,X_n=x_n). \]

Se, por outro lado, o vetor \(X\) possui densidade conjunta \(f:\mathbb {R}^n\to [0,\infty )\), então

\[ \mathbf{E}[\varphi (X)] = \int _{\mathbb {R}^n}\varphi (x)f(x)\, \d x. \]

Ter densidade para cada coordenada separadamente não garante a existência de uma densidade conjunta.

7.2.4 Integração em relação à função de distribuição

Uma função de distribuição \(F\) determina uma única probabilidade \(\P _F\) em \((\mathbb {R},\mathcal B(\mathbb {R}))\) tal que

\[ \P _F((a,b])=F(b)-F(a),\qquad a\lt b. \]

De fato, a existência segue da construção de uma variável com função de distribuição prescrita, e a unicidade segue porque os intervalos \((-\infty ,x]\) geram \(\mathcal B(\mathbb {R})\).

Definição 7.11 (Integração em relação à distribuição)
Para uma função mensurável \(g\) integrável em relação a \(\P _F\), escrevemos
\[ \mathbf{E}_F[g] := \int _{\mathbb {R}}g(x)\, \d F(x) := \int _{\mathbb {R}}g(x)\, \d\P _F(x). \]
Essa é a integral de Lebesgue–Stieltjes associada a \(F\).

Proposição 7.12
Se
\[ F(t)=\sum _{i\geq 1}p_i\mathbb {1}_{\{ t_i\leq t\} }, \qquad p_i\geq 0,\quad \sum _i p_i=1, \]
então, para toda função mensurável \(g\geq 0\),
\[ \int _{\mathbb {R}}g\, \d F = \sum _i p_i g(t_i). \]
A mesma fórmula vale para \(g\) integrável, com convergência absoluta.

Demonstração ▼

A medida \(\P _F\) é a medida atômica \(\sum _i p_i\delta _{t_i}\).

Proposição 7.13
Se \(F\) é absolutamente contínua com densidade \(f\), então, para toda função mensurável \(g\geq 0\),
\[ \int _{\mathbb {R}}g\, \d F = \int _{\mathbb {R}}g(x)f(x)\, \d x. \]
A mesma identidade vale para \(g\) integrável.

Demonstração ▼

Nesse caso, \(\P _F=f\, \d\lambda \).

Com essa notação, o Teorema 7.6 pode ser escrito de forma compacta como

\[ \mathbf{E}[g(\xi )] = \int _{\mathbb {R}}g(x)\, \d F_\xi (x). \]

Exemplo 7.14
Se \(\xi \sim \operatorname {Exp}(\lambda )\), então
\[ \mathbf{E}[\xi ^n] = \int _0^\infty x^n\lambda \mathrm e^{-\lambda x}\, \d x = \frac{n!}{\lambda ^n}. \]

7.3 Momentos, variância e covariância

A esperança fornece um centro, mas não descreve sozinha a forma da distribuição. Os momentos registram outras escalas; a variância mede a dispersão quadrática em torno da média; a covariância compara as flutuações de duas variáveis.

Definição 7.15 (Momentos, variância e covariância)
Se \(\xi \) é uma variável aleatória em \((\Omega ,\mathcal{F},\P )\):
  • Dado \(n\in \mathbb {N}\) e \(\xi \in \L ^n(\P )\),

    \[ m_k:=\mathbf{E}[\xi ^k], \qquad M_k:=\mathbf{E}[|\xi |^k], \qquad k=1,\dots ,n, \]

    são denominados, respectivamente, o \(k\)-ésimo momento e o \(k\)-ésimo momento absoluto de \(\xi \).

  • Se \(\xi \in \L ^2(\P )\), então

    \[ \operatorname {Var}[\xi ]:=\mathbf{E}[(\xi -\mathbf{E}[\xi ])^2] \]

    é a variância de \(\xi \). O número \(\sigma :=\sqrt{\operatorname {Var}[\xi ]}\) é denominado desvio padrão de \(\xi \).

  • Se \(\xi ,\eta \in \L ^2(\P )\), definimos a covariância por

    \[ \operatorname {Cov}[\xi ,\eta ]:=\mathbf{E}\left[(\xi -\mathbf{E}[\xi ])(\eta -\mathbf{E}[\eta ])\right] \]

    As variáveis \(\xi \) e \(\eta \) são ditas não correlacionadas se \(\operatorname {Cov}[\xi ,\eta ]=0\).

  • Se \(\xi \) e \(\eta \) não são quase certamente constantes, seu coeficiente de correlação é

    \[ \rho (\xi ,\eta )= \frac{\operatorname {Cov}(\xi ,\eta )}{\sigma _\xi \sigma _\eta }. \]

Exemplo 7.16 (Comparação de momentos)
Seja \(\xi \) uma variável aleatória e sejam \(0\lt p\lt q\). Se \(\mathbf{E}|\xi |^q\lt \infty \), então \(\mathbf{E}|\xi |^p\lt \infty \). Para \(M\gt 0\), ponha
\[ \eta _M=|\xi |^p\wedge M. \]
Aplicando Jensen, Teorema 5.16, à medida de probabilidade \(\P \) e à função convexa \(\varphi (x)=|x|^{q/p}\),
\[ \mathbf{E}[\eta _M]^{q/p} \leq \mathbf{E}[\eta _M^{q/p}] \leq \mathbf{E}|\xi |^q. \]
Portanto
\[ \mathbf{E}[\eta _M]\leq \bigl(\mathbf{E}|\xi |^q\bigr)^{p/q}. \]
Como \(\eta _M\uparrow |\xi |^p\), o Teorema da Convergência Monótona fornece
\[ \mathbf{E}|\xi |^p\leq \bigl(\mathbf{E}|\xi |^q\bigr)^{p/q}\lt \infty . \]

A expressão da variância deve ser lida como uma distância quadrática média à esperança. Para cada resultado \(\omega \), o desvio \(\xi (\omega )-\mathbf{E}[\xi ]\) indica quanto o valor observado ficou acima ou abaixo do centro. Se simplesmente fizéssemos a média desses desvios, os positivos e negativos se cancelariam. Ao elevá-los ao quadrado, todos passam a contribuir positivamente e os afastamentos maiores recebem peso maior.

Assim, variância pequena significa que a distribuição está fortemente concentrada em torno da média, enquanto variância grande indica maior dispersão. Como o quadrado também eleva ao quadrado a unidade de medida, o desvio padrão \(\sqrt{\operatorname {Var}[\xi ]}\) costuma ser mais fácil de interpretar: ele mede a dispersão na mesma unidade de \(\xi \).

Proposição 7.17 (Propriedades da Variância e Covariância)
Dadas \(\xi ,\eta \in \L ^2(\P )\), temos:
  1. \(\operatorname {Var}[\xi ]\geq 0\)

  2. \(\operatorname {Var}[\xi ] = \mathbf{E}[\xi ^2] - \mathbf{E}[\xi ]^2\).

  3. \(\operatorname {Var}[\xi ] = 0 \Longleftrightarrow \xi = \mathbf{E}[\xi ]\) quase certamente.

  4. A aplicação \(f : \mathbb {R}\to \mathbb {R}\), \(x \longmapsto \mathbf{E}[(\xi - x)^2 ]\) tem um mínimo em \(\mathbf{E}[\xi ]\) com \(f(\mathbf{E}[\xi ]) = \operatorname {Var}[\xi ]\).

  5. \(\operatorname {Var}[a\xi +b]=a^2\operatorname {Var}[\xi ]\) para \(a,b\in \mathbb {R}\).

  6. \(\operatorname {Cov}[\xi ,\eta ]=\mathbf{E}[\xi \eta ]-\mathbf{E}[\xi ]\mathbf{E}[\eta ]\).

  7. \(\operatorname {Var}[\xi +\eta ]=\operatorname {Var}[\xi ]+\operatorname {Var}[\eta ]+2\operatorname {Cov}[\xi ,\eta ]\).

  8. \(\operatorname {Cov}[\xi ,\xi ]=\operatorname {Var}[\xi ]\).

Demonstração ▼
  1. Segue da definição, pois \((\xi -\mathbf{E}[\xi ])^2\geq 0\).

  2. Segue da linearidade da esperança. De fato

    \begin{align*} \operatorname {Var}[\xi ]& =\mathbf{E}[(\xi -\mathbf{E}[\xi ])^2]\\ & =\mathbf{E}[\xi ^2]-2\mathbf{E}[\xi ]^2+\mathbf{E}[\xi ]^2\\ & =\mathbf{E}[\xi ^2]-\mathbf{E}[\xi ]^2. \end{align*}
  3. Se \(\operatorname {Var}[\xi ]=0\), a variável não negativa \((\xi -\mathbf{E}[\xi ])^2\) tem esperança nula; logo é nula quase certamente. A recíproca é imediata.

  4. A identidade

    \[ \mathbf{E}[(\xi -x)^2] =\operatorname {Var}[\xi ]+(x-\mathbf{E}[\xi ])^2 \]

    mostra que o mínimo é atingido em \(x=\mathbf{E}[\xi ]\) e vale \(\operatorname {Var}[\xi ]\).

  5. Como \(a\xi +b-\mathbf{E}[a\xi +b]=a(\xi -\mathbf{E}[\xi ])\), temos \(\operatorname {Var}[a\xi +b]=a^2\operatorname {Var}[\xi ]\).

  6. Segue da linearidade da esperança que

    \begin{align*} \operatorname {Cov}[\xi ,\eta ]& =\mathbf{E}[(\xi -\mathbf{E}[\xi ])(\eta -\mathbf{E}[\eta ])]\\ & =\mathbf{E}[\xi \eta ]-\mathbf{E}[\xi ]\mathbf{E}[\eta ]. \end{align*}
  7. Segue da linearidade da esperança e dos itens anteriores que

    \begin{align*} \operatorname {Var}(\xi +\eta ) & =\mathbf{E}[\xi ^2]+\mathbf{E}[\eta ^2]+2\mathbf{E}[\xi \eta ] -\mathbf{E}[\xi ]^2-\mathbf{E}[\eta ]^2-2\mathbf{E}[\xi ]\mathbf{E}[\eta ]\\ & =\operatorname {Var}[\xi ]+\operatorname {Var}[\eta ]+2\operatorname {Cov}[\xi ,\eta ]. \end{align*}
  8. Segue direto da definição.

O item 4 dá uma interpretação geométrica simples. Entre todas as constantes \(x\), a esperança é aquela que minimiza o erro quadrático médio \(\mathbf{E}[(\xi -x)^2]\); a variância é precisamente o valor mínimo desse erro.

Exemplo 7.18

Seja \(\xi \in \L ^2(\P )\) com \(\operatorname {Var}[\xi ]\gt 0\) e seja \(\eta =aX+b\), com \(a\neq 0\). Temos então \(\mathbf{E}[\eta ]=a\mathbf{E}[\xi ]+b\) e \(\operatorname {Var}[\eta ]=a^2\operatorname {Var}[\xi ]\).

Da mesma forma temos que \(\operatorname {Cov}[\xi ,\eta ]=\mathbf{E}[(\xi -\mathbf{E}[\xi ])(aX+b-(a\mathbf{E}[\xi ]+b))]=a\operatorname {Var}[\xi ].\)

Segue que

\[ \rho (\xi ,\eta )=\frac{a\operatorname {Var}[\xi ]}{\sqrt{a^2(\operatorname {Var}[\xi ])^2}}=\operatorname {sinal}(a)=\begin{cases} 1;& a\gt 0\\ -1;& a\lt 0\end{cases}. \]

A covariância e a correlação registram a associação linear entre as variáveis. Nesse exemplo, vemos que, se \(\eta =aX+b\), então \(\operatorname {Cov}[\xi ,\eta ]\) tem o mesmo sinal de \(a\) e \(\rho (\xi ,\eta )\) é \(1\) ou \(-1\), de acordo com o sinal de \(a\).

Teorema 7.19 (Independência e produto de esperanças)
Sejam \(\xi ,\eta \) variáveis aleatórias independentes e integráveis. Então \(\xi \eta \) é integrável e
\[ \mathbf{E}[\xi \eta ]=\mathbf{E}[\xi ]\mathbf{E}[\eta ]. \]
Em particular, se \(\xi ,\eta \in \L ^2(\P )\), então elas não são correlacionadas.

Demonstração ▼

Suponha primeiro que \(\xi \) e \(\eta \) sejam simples, com valores \(x_1,\ldots ,x_n\) e \(y_1,\ldots ,y_m\). Então

\begin{align*} \mathbf{E}[\xi \eta ] & = \sum _{i=1}^n \sum _{j=1}^m x_iy_j\P [\xi =x_i,\eta =y_j] \\ & = \sum _{i=1}^n \sum _{j=1}^m x_iy_j\P [\xi =x_i]\P [\eta =y_j]\quad \mbox{ (pela independência)} \\ & = \left(\sum _{i=1}^n x_i\P [\xi =x_i]\right) \left(\sum _{j=1}^m y_j\P [\eta =y_j]\right) \\ & =\mathbf{E}[\xi ]\mathbf{E}[\eta ]. \end{align*}

Se \(\xi ,\eta \geq 0\), escolha funções simples \(\xi _n\uparrow \xi \) e \(\eta _n\uparrow \eta \), obtidas por transformações mensuráveis separadas. A independência é preservada e \(\xi _n\eta _n\uparrow \xi \eta \). Pela Convergência Monótona,

\[ \mathbf{E}[\xi \eta ] =\lim _n\mathbf{E}[\xi _n\eta _n] =\lim _n\mathbf{E}[\xi _n]\mathbf{E}[\eta _n] =\mathbf{E}[\xi ]\mathbf{E}[\eta ]. \]

Aplicando esse caso a \(|\xi |\) e \(|\eta |\), obtemos \(\mathbf{E}|\xi \eta |=\mathbf{E}|\xi |\, \mathbf{E}|\eta |\lt \infty \). Por fim, decomponha \(\xi \) e \(\eta \) em partes positiva e negativa e use a linearidade. Se ambas pertencem a \(\L ^2\), a fórmula da covariância dá \(\operatorname {Cov}[\xi ,\eta ]=0\).

Vimos assim que variáveis aleatórias independentes têm covariância nula, quando possuem segundo momento finito. A recíproca não é verdadeira, como mostra o Exercício 7.20, ao final do capítulo.

Para somas de variáveis independentes, a covariância desaparece e as variâncias se somam.

Corolário 7.20
Se \(\xi _1,\ldots ,\xi _n\in \L ^2(\P )\) são variáveis aleatórias independentes, então
\[ \operatorname {Var}[\xi _1+\cdots +\xi _n]=\operatorname {Var}[\xi _1]+\cdots +\operatorname {Var}[\xi _n]. \]

Demonstração ▼

Para \(n=2\) temos

\[ \operatorname {Var}[\xi _1+\xi _2]=\operatorname {Var}[\xi _1]+\operatorname {Var}[\xi _2]+2\operatorname {Cov}[\xi _1,\xi _2]=\operatorname {Var}[\xi _1]+\operatorname {Var}[\xi _2]. \]

Os demais casos seguem por indução, pois \(\xi _1+\cdots +\xi _{n-1}\) é independente de \(\xi _n\).

Proposição 7.21
A aplicação \(\operatorname {Cov}: \L ^2 (\P ) \times \L ^2(\P ) \to \mathbb {R}\) é uma forma simétrica bilinear positiva semidefinida e \(\operatorname {Cov}[\xi , \eta ] = 0\) se \(\eta \) é constante quase certamente.

Demonstração ▼

Se \(\widetilde\xi =\xi -\mathbf{E}[\xi ]\) e \(\widetilde\eta =\eta -\mathbf{E}[\eta ]\), então \(\operatorname {Cov}[\xi ,\eta ]=\mathbf{E}[\widetilde\xi \widetilde\eta ]\). A linearidade em cada entrada e a simetria seguem da linearidade da esperança e do produto. Além disso,

\[ \operatorname {Cov}[\xi ,\xi ]=\mathbf{E}[\widetilde\xi ^2]=\operatorname {Var}[\xi ]\geq 0, \]

de modo que a forma é positiva semidefinida. Se \(\eta =c\) quase certamente, então \(\widetilde\eta =0\) quase certamente e \(\operatorname {Cov}[\xi ,\eta ]=0\).

Proposição 7.22 (Desigualdade de Cauchy–Schwarz)
Se \(\xi , \eta \in \L ^2 (\P )\), então
\[ \operatorname {Cov}[\xi , \eta ]^2\leq \operatorname {Var}[\xi ]\operatorname {Var}[\eta ]. \]
A igualdade é válida se, e somente se, existirem \(a, b, c \in \mathbb {R}\), não todas nulas, e tais que \(a\xi + b\eta + c = 0\) q.c.

Demonstração ▼

Aplicando Hölder, Teorema 5.18, com \(p=q=2\) às variáveis centradas

\[ \widetilde\xi =\xi -\mathbf{E}[\xi ], \qquad \widetilde\eta =\eta -\mathbf{E}[\eta ], \]

obtemos

\[ |\operatorname {Cov}[\xi ,\eta ]| =\bigl|\mathbf{E}[\widetilde\xi \, \widetilde\eta ]\bigr| \leq \| \widetilde\xi \| _2\| \widetilde\eta \| _2 = \sqrt{\operatorname {Var}[\xi ]\operatorname {Var}[\eta ]}. \]

Para o caso de igualdade, se \(\operatorname {Var}[\eta ]=0\), então \(\eta \) é constante quase certamente e a dependência afim é imediata. Se \(\operatorname {Var}[\eta ]\gt 0\), ponha

\[ \theta =-\frac{\operatorname {Cov}[\xi ,\eta ]}{\operatorname {Var}[\eta ]}. \]

Então

\[ \operatorname {Var}[\xi +\theta \eta ] = \operatorname {Var}[\xi ] -\frac{\operatorname {Cov}[\xi ,\eta ]^2}{\operatorname {Var}[\eta ]}. \]

Logo há igualdade se, e somente se, \(\operatorname {Var}[\xi +\theta \eta ]=0\), isto é, se \(\xi +\theta \eta \) é constante quase certamente. Isso equivale à existência de \(a,b,c\in \mathbb {R}\), não todos nulos, com \(a\xi +b\eta +c=0\) quase certamente; a recíproca é imediata.

Corolário 7.23
Dadas variáveis não constantes \(\xi ,\eta \in \L ^2(\P )\), então
\[ |\rho (\xi ,\eta )|\leq 1, \]
com igualdade se, e somente se, existirem constantes \(a,b,c\in \mathbb {R}\), não todas nulas, tais que \(aX+bY+c=0\) quase certamente.

Demonstração ▼

Divida a desigualdade de Cauchy–Schwarz por \(\operatorname {Var}[\xi ]\operatorname {Var}[\eta ]\gt 0\) e use sua caracterização do caso de igualdade.

Proposição 7.24 (Fórmula das caudas)
Se \(\xi \) é uma variável aleatória não negativa, sem hipótese de integrabilidade, então
\[ \mathbf{E}[\xi ] = \int _0^\infty \P (\xi \gt t)\, \d t, \]
com a igualdade entendida em \([0,\infty ]\).

Demonstração ▼

Comecemos com \(\xi \) simples. Liste seus valores positivos distintos como

\[ 0\lt a_1\lt \cdots \lt a_m \]

e ponha \(a_0=0\). Então

\[ \xi = \sum _{j=1}^m (a_j-a_{j-1})\mathbb {1}_{\{ \xi \geq a_j\} }. \]

Logo

\[ \mathbf{E}\xi = \sum _{j=1}^m (a_j-a_{j-1})\P (\xi \geq a_j). \]

Por outro lado, para \(a_{j-1}\leq t\lt a_j\),

\[ \P (\xi \gt t)=\P (\xi \geq a_j), \]

e portanto a integral das caudas é exatamente a mesma soma.

Para \(\xi \) mensurável não negativa, escolha funções simples \(0\leq \xi _n\uparrow \xi \), como na Proposição 5.2. Pela convergência monótona,

\[ \mathbf{E}\xi _n\uparrow \mathbf{E}\xi . \]

Para cada \(t\geq 0\), os eventos \(\{ \xi _n\gt t\} \) crescem para \(\{ \xi \gt t\} \), de modo que

\[ \P (\xi _n\gt t)\uparrow \P (\xi \gt t). \]

Aplicando novamente a convergência monótona, agora à medida de Lebesgue em \([0,\infty )\),

\[ \int _0^\infty \P (\xi _n\gt t)\, \d t \uparrow \int _0^\infty \P (\xi \gt t)\, \d t. \]

Como a identidade vale para cada \(\xi _n\), vale também para \(\xi \).

A fórmula também admite, depois de Tonelli, uma demonstração estrutural de uma linha; ela reaparecerá como exercício no capítulo de medida produto.

7.4 Desigualdades de cauda

Momentos fornecem informação sobre a distribuição mesmo quando não conhecemos sua forma explícita. As desigualdades desta seção convertem essa informação em cotas para probabilidades de cauda.

Teorema 7.25 (Desigualdade de Markov)
Se \(\xi \geq 0\), então, para todo \(t\gt 0\),
\[ \P (\xi \geq t) \leq \frac{\mathbf{E}[\xi ]}{t}. \]

Demonstração ▼

Como

\[ t\mathbb {1}_{\{ \xi \geq t\} }\leq \xi , \]

a monotonicidade da esperança fornece

\[ t\, \P (\xi \geq t) = \mathbf{E}\! \left[t\mathbb {1}_{\{ \xi \geq t\} }\right] \leq \mathbf{E}[\xi ]. \]

A mesma ideia pode ser aplicada depois de transformar a variável.

Teorema 7.26 (Desigualdade de Markov generalizada)
Se \(\varphi :[0,\infty )\to [0,\infty )\) é não decrescente e \(\varphi (t)\gt 0\), então
\[ \P (|\xi |\geq t) \leq \frac{\mathbf{E}[\varphi (|\xi |)]}{\varphi (t)}. \]

Demonstração ▼

No evento \(\{ |\xi |\geq t\} \),

\[ \varphi (t)\leq \varphi (|\xi |). \]

Logo

\[ \varphi (t)\mathbb {1}_{\{ |\xi |\geq t\} } \leq \varphi (|\xi |), \]

e basta tomar esperanças.

Corolário 7.27 (Controle por momentos)
Para \(p\gt 0\),
\[ \P (|\xi |\geq t) \leq \frac{\mathbf{E}|\xi |^p}{t^p}, \qquad t\gt 0, \]
sempre que o momento do lado direito esteja definido.

Demonstração ▼

Aplique a desigualdade de Markov generalizada a \(\varphi (x)=x^p\).

Essa estimativa também mostra que, se \(\xi \in L^q\) e \(q\gt p\gt 0\), então

\[ t^p\P (|\xi |\gt t)\longrightarrow 0. \]

De fato, o controle com o momento de ordem \(q\) fornece uma potência extra de \(t\) no denominador.

Teorema 7.28 (Desigualdade de Chebyshev)
Se \(\xi \in L^2(\P )\), com média \(\mu \) e variância \(\sigma ^2\), então
\[ \P (|\xi -\mu |\geq t) \leq \frac{\sigma ^2}{t^2}, \qquad t\gt 0. \]
Equivalentemente,
\[ \P (|\xi -\mu |\geq t\sigma ) \leq \frac1{t^2}, \qquad t\gt 0, \]
quando \(\sigma \gt 0\).

Demonstração ▼

Aplique o corolário anterior, com \(p=2\), à variável \(\xi -\mu \). Como

\[ \mathbf{E}|\xi -\mu |^2=\operatorname {Var}(\xi )=\sigma ^2, \]

a primeira desigualdade segue imediatamente; a segunda é apenas uma reescrita na escala do desvio padrão.

Exemplo 7.29

Considere o experimento de lançar uma moeda de maneira sequencial e independente. Para cada \(n\geq 1\), defina \(\xi _n\) como a indicadora de que observamos cara no \(n\)-ésimo lançamento. Suponha que em um lançamento da moeda, a probabilidade de observar cara é \(p\in (0,1)\).

Com isso temos que as variáveis \(\xi _1, \xi _2,\ldots \) são independentes com \(\mathbf{E}[\xi _n]=p\) e \(\operatorname {Var}[\xi _n]=p(1-p)\).

Queremos medir a proporção de caras observadas em \(n\) lançamentos, e para isso definiremos \(S_n=\xi _1+\cdots +\xi _n\). Isto é, \(S_n\) é o total de caras observadas em \(n\) lançamentos.

Segue assim que

\[ \mathbf{E}[S_n]=n\, p, \]

e, como \(\xi _1,\ldots ,\xi _n\) são independentes,

\[ \operatorname {Var}(S_n)=n\, p(1-p). \]

Tome agora \(\epsilon \gt 0\) pequeno e note que

\[ \P \left(\left|\frac{S_n}{n}-p\right|\gt \epsilon \right) =\P (|S_n-np|\gt n\epsilon ) \leq \frac{\operatorname {Var}(S_n)}{n^2\epsilon ^2} =\frac{p(1-p)}{n\epsilon ^2}. \]

Concluímos assim que

\[ \P \left(\left|\frac{S_n}{n}-p\right|\gt \epsilon \right)\rightarrow 0, \]

quando \(n\to \infty \), para todo \(\epsilon \gt 0\).

7.5 ↯Funções Geradoras de Probabilidade

Considere uma variável aleatória \( \xi \), tomando valores nos naturais. Seja \( p_r = \P (\xi = r) \).

Definição 7.30 (Função Geradora de Probabilidade)
A função geradora de probabilidade de \( \xi \) é definida como
\[ p(z)=\mathbf{E}[z^\xi ] =\sum _{r=0}^\infty \P (\xi =r)z^r =p_0+p_1z+p_2z^2+\cdots , \qquad |z|\leq 1. \]

Observamos que função geradora de probabilidade é uma série de potência e converge absolutamente para \( | z | \leq 1 \), pois

\[ | p (z) | \leq \sum _r p_r | z ^r | \leq \sum _r p_r = 1. \]

A função geradora reúne as probabilidades nos coeficientes de uma série. Sua utilidade aparece quando operações sobre variáveis se traduzem em operações algébricas sobre essas funções.

Para \(\xi \sim \operatorname {Poisson}(\lambda )\), a soma da série dá

\[ p(z)=\mathbf{E}[z^\xi ]=e^{\lambda (z-1)}. \]

Retornaremos a essa expressão depois de relacionar as derivadas de \(p\) aos momentos fatoriais.

Teorema 7.31
A distribuição de \( \xi \) é determinada exclusivamente pela sua função geradora de probabilidade.

Demonstração ▼

No interior do intervalo de convergência, podemos diferenciar a série termo a termo. Assim,

\[ \left. \frac{d^n}{dz ^n} p (z) \right| _{z = 0} = n! p_n. \]

Logo \(p_n=p^{(n)}(0)/n!\) para todo \(n\geq 0\), e recuperamos toda a distribuição.

Teorema 7.32 (Lema de Abel)
\[ \mathbf{E}[\xi ]=\lim _{z\uparrow 1}p'(z), \]
admitindo-se o valor \(+\infty \). Se \(p'\) possui extensão contínua a \(1\), então \(\mathbf{E}[\xi ]=p'(1)\).

Demonstração ▼

Para \(0\lt z\lt 1\), a diferenciação termo a termo dá

\[ p'(z)=\sum _{r=1}^\infty rp_rz^{r-1}. \]

Quando \(z\uparrow 1\), cada parcela cresce para \(rp_r\). Pelo Teorema da Convergência Monótona aplicado à medida de contagem em \(\mathbb {N}\),

\[ \lim _{z\uparrow 1}p'(z) =\sum _{r=1}^\infty rp_r =\mathbf{E}[\xi ]. \]

A última afirmação é imediata da continuidade em \(1\).

Teorema 7.33
\[ \mathbf{E}[\xi (\xi -1)]=\lim _{z\uparrow 1}p''(z), \]
admitindo-se o valor \(+\infty \).

Demonstração ▼

Para \(0\lt z\lt 1\),

\[ p''(z)=\sum _{r=2}^\infty r(r-1)p_rz^{r-2}. \]

As parcelas são não negativas e crescem quando \(z\uparrow 1\). A Convergência Monótona fornece

\[ \lim _{z\uparrow 1}p''(z) =\sum _{r=2}^\infty r(r-1)p_r =\mathbf{E}[\xi (\xi -1)]. \]

Exemplo 7.34
Para \(\xi \sim \operatorname {Poisson}(\lambda )\), já obtivemos \(p(z)=e^{\lambda (z-1)}\). Portanto
\[ \mathbf{E}[\xi ]=p'(1)=\lambda , \qquad \mathbf{E}[\xi (\xi -1)]=p''(1)=\lambda ^2, \]
e, consequentemente,
\[ \operatorname {Var}(\xi )=\lambda . \]

Teorema 7.35
Suponha que \( \xi _1, \xi _2, \cdots , \xi _n \) sejam variáveis aleatórias independentes com funções geradoras de probabilidade \( p_1, p_2, \cdots , p_n \). Então, a função geradora de probabilidade de \( \xi _1 + \xi _2 + \cdots + \xi _n \) é \( p_1 (z) p_2 (z) \cdots p_n (z) \).

Demonstração ▼
\[ \mathbf{E}[z ^{\xi _1 + \cdots + \xi _n}] = \mathbf{E}[z ^{\xi _1} \cdots z ^{\xi _n}] = \mathbf{E}[z ^{\xi _1}] \cdots \mathbf{E}[z ^{\xi _n }] = p_1 (z) \cdots p_n (z). \]

Exemplo 7.36

Se \( \xi \) e \( \eta \) forem variáveis aleatórias de Poisson independentes com parâmetros \( \lambda , \mu \) respectivamente, então

\[ \mathbf{E}[t ^{\xi + \eta }] = \mathbf{E}[t ^\xi ] \mathbf{E}[t ^\eta ] = e ^{\lambda (t - 1)} e ^{\mu (t - 1)} = e ^{(\lambda + \mu ) (t - 1)} \]

Portanto, \( \xi + \eta \sim \operatorname {Poisson}(\lambda + \mu ) \).

Também podemos fazê-lo diretamente:

\[ \P (\xi + \eta = r) = \sum _{i = 0} ^r \P (\xi = i, \eta = r - i) = \sum _{i = 0} ^r \P (\xi = i) \P (\eta = r - i), \]

mas é muito mais complicado.

Somas de um número aleatório de termos

As funções geradoras também permitem estudar somas cujo número de parcelas é aleatório. Numa seguradora, por exemplo, tanto o número de pedidos de indenização quanto o valor de cada pedido podem variar. A soma reúne as duas fontes de aleatoriedade.

Exemplo 7.37

Sejam \(\xi _1,\xi _2,\ldots \) variáveis aleatórias i.i.d. com valores em \(\mathbb {N}\) e função geradora

\[ p(z)=\mathbf{E}[z^{\xi _1}]. \]

Seja \(N\), também com valores em \(\mathbb {N}\), independente de todas as \(\xi _i\), e denote por \(h\) sua função geradora. Para

\[ S=\xi _1+\cdots +\xi _N, \]

com \(S=0\) quando \(N=0\), decompomos segundo os eventos \(\{ N=n\} \):

\begin{align*} \mathbf{E}[z^S] & =\sum _{n=0}^{\infty } \mathbf{E}\! \left[z^S\mathbb {1}_{\{ N=n\} }\right]\\ & =\sum _{n=0}^{\infty } \P (N=n)\, \mathbf{E}[z^{\xi _1+\cdots +\xi _n}]\\ & =\sum _{n=0}^{\infty }\P (N=n)\, p(z)^n =h(p(z)). \end{align*}

A independência de \(N\) e das parcelas é exatamente o que permite separar o segundo membro.

Quando os momentos necessários são finitos, derivar em \(z=1\) fornece

\[ \mathbf{E}[S]=\mathbf{E}[N]\, \mathbf{E}[\xi _1] \]

e

\[ \operatorname {Var}(S) = \mathbf{E}[N]\operatorname {Var}(\xi _1) +\mathbf{E}[\xi _1]^2\operatorname {Var}(N). \]

7.6 ↯Processos de Ramificação

Processos de ramificação são uma das aplicações mais naturais das funções geradoras. O modelo clássico de Galton–Watson descreve uma população em que cada indivíduo produz um número aleatório de descendentes segundo a mesma lei, independentemente dos demais. Historicamente, o problema foi motivado pelo desaparecimento de sobrenomes; matematicamente, a mesma estrutura aparece em populações, epidemias e árvores aleatórias.

Se \(\xi _n\) denota o tamanho da \(n\)-ésima geração, partimos de um único indivíduo e supomos:

  1. \( \xi _0 = 1 \)

  2. Cada indivíduo vive por uma unidade de tempo e produz \( k \) descendentes com probabilidade \( p_k \).

  3. Os números de descendentes de indivíduos distintos e de gerações distintas são independentes. Assim,

    \[ \xi _{n + 1} = \eta _1 ^n + \eta _2 ^n + \cdots + \eta _{\xi _n} ^n, \]

    onde as variáveis \(\eta _i^n\) são independentes, identicamente distribuídas como \(\xi _1\) e independentes da história até a geração \(n\).

Figura 7.1 Realização de um processo de ramificação; esquema baseado em [ 14 ] .

Figura 7.1 Realização de um processo de ramificação; esquema baseado em [14].

A função geradora transforma a recorrência do processo de ramificação numa relação de composição. Seja \( F (z) \) a função geradora de probabilidade de \( \eta _i ^n \). Então

\[ F (z) = \mathbf{E}[z ^{\eta _i ^n}] = \mathbf{E}[z ^{\xi _1}] = \sum _{k = 0} ^\infty p_k z ^k. \]

Definimos

\[ F_n(z)=\mathbf{E}[z^{\xi _n}],\qquad F_0(z)=z. \]

O principal teorema dos processos de ramificação que provaremos nesta seção é

Teorema 7.38
Para \(0\leq z\leq 1\),
\[ F_{n+1}(z)=F_n(F(z))=F(F_n(z))=F^{\circ (n+1)}(z). \]

Demonstração ▼

Decompondo segundo os eventos \(\{ \xi _n=k\} \),

\begin{align*} F_{n+1}(z) & =\sum _{k=0}^{\infty } \mathbf{E}\! \left[z^{\xi _{n+1}}\mathbb {1}_{\{ \xi _n=k\} }\right]\\ & =\sum _{k=0}^{\infty } \P (\xi _n=k)\, \mathbf{E}[z^{\eta _1^n+\cdots +\eta _k^n}]\\ & =\sum _{k=0}^{\infty }\P (\xi _n=k)F(z)^k =F_n(F(z)). \end{align*}

A segunda igualdade usa que as descendências da geração seguinte são independentes do evento \(\{ \xi _n=k\} \); a terceira usa a independência entre os \(k\) indivíduos.

Como \(F_0\) é a identidade, a recorrência mostra por indução que \(F_n=F^{\circ n}\). Assim,

\[ F_n\circ F=F^{\circ (n+1)}=F\circ F_n. \]

Teorema 7.39
Suponha que
\[ \mathbf{E}[\xi _1] = \sum k p_k = \mu \]
e
\[ \operatorname {Var}(\xi _1)=\sum _{k=0}^\infty (k-\mu )^2p_k=\sigma ^2\lt \infty . \]
Então
\[ \mathbf{E}[\xi _n]=\mu ^n,\qquad \operatorname {Var}(\xi _n)=\sigma ^2\mu ^{n-1} (1+\mu +\cdots +\mu ^{n-1}). \]

Demonstração ▼

Ponha

\[ A_k=\{ \xi _{n-1}=k\} . \]

No evento \(A_k\),

\[ \xi _n=\eta _1^{n-1}+\cdots +\eta _k^{n-1}. \]

Como as variáveis de descendência são independentes de \(A_k\) e têm média \(\mu \),

\begin{align*} \mathbf{E}[\xi _n] & =\sum _{k=0}^{\infty }\mathbf{E}[\xi _n\mathbb {1}_{A_k}]\\ & =\sum _{k=0}^{\infty } k\mu \, \P (A_k) =\mu \, \mathbf{E}[\xi _{n-1}]. \end{align*}

Com \(\xi _0=1\), obtemos

\[ \mathbf{E}[\xi _n]=\mu ^n. \]

Para o segundo momento, a soma de \(k\) cópias independentes de \(\xi _1\) possui variância \(k\sigma ^2\) e média \(k\mu \); portanto

\[ \mathbf{E}\! \left[ (\eta _1^{n-1}+\cdots +\eta _k^{n-1})^2 \right] = k\sigma ^2+k^2\mu ^2. \]

Decompondo novamente segundo os eventos \(A_k\),

\[ \mathbf{E}[\xi _n^2] = \sigma ^2\mathbf{E}[\xi _{n-1}] +\mu ^2\mathbf{E}[\xi _{n-1}^2]. \]

Escrevendo \(V_n=\operatorname {Var}(\xi _n)\) e usando \(\mathbf{E}[\xi _{n-1}]=\mu ^{n-1}\),

\[ V_n = \mu ^2V_{n-1}+\sigma ^2\mu ^{n-1}, \qquad V_0=0. \]

Uma indução fornece

\[ V_n = \sigma ^2\mu ^{n-1} (1+\mu +\cdots +\mu ^{n-1}). \]

Probabilidade de Extinção

Considere \(A_n=\{ \xi _n=0\} \), o evento de que a população já esteja extinta na \(n\)-ésima geração. Seja \(q\) a probabilidade de extinção eventual e

\[ A=\bigcup _{n=1}^\infty A_n =\{ \text{a extinção ocorre eventualmente}\} . \]

Como \( A_1 \subseteq A_2 \subseteq A_3 \subseteq \cdots \), sabemos que

\[ q = \P (A) = \lim _{n \to \infty } \P (A_n) = \lim _{n \to \infty } \P (\xi _n = 0). \]

Como

\[ \P (\xi _n=0)=F_n(0), \]

e \(F\) é contínua em \([0,1]\), temos

\[ F (q) = F \left(\lim _{n \to \infty } F_n (0) \right) = \lim _{n \to \infty } F (F_n (0)) = \lim _{n \to \infty } F_{n + 1} (0) = q. \]

assim

\[ F (q) = q. \]

A mesma equação pode ser obtida decompondo o evento de extinção segundo o número de indivíduos da primeira geração. Se \(A\) é o evento de extinção eventual, então

\[ \P (A\cap \{ \xi _1=k\} )=p_k q^k, \]

pois as \(k\) linhagens descendentes evoluem independentemente e cada uma se extingue com probabilidade \(q\). Somando em \(k\),

\[ q=\sum _{k=0}^{\infty }p_kq^k=F(q). \]

Isso significa que para encontrar a probabilidade de extinção, precisamos encontrar um ponto fixo de \( F \).

Teorema 7.40
A probabilidade de extinção \(q\) é a menor solução em \([0,1]\) da equação \(F(s)=s\). Escreva \(\mu =\mathbf{E}[\xi _1]\).
  1. Se \(\mu \leq 1\) e \(\P (\xi _1=1)\lt 1\), então \(q=1\).

  2. Se \(\mu \gt 1\), então \(q\lt 1\).

  3. No caso degenerado \(\P (\xi _1=1)=1\), temos \(q=0\).

Demonstração ▼

Já vimos que \(F(q)=q\). Se \(\alpha \in [0,1]\) é qualquer outro ponto fixo, então \(F_0(0)=0\leq \alpha \) e, pela monotonicidade de \(F\), \(F_{n+1}(0)=F(F_n(0))\leq F(\alpha )=\alpha \). Portanto,

\[ q=\lim _{n\to \infty }F_n(0)\leq \alpha , \]

e \(q\) é o menor ponto fixo.

A função \(G(s)=F(s)-s\) é convexa, \(G(1)=0\) e \(F'(1-)=\mu \). Se \(\mu \leq 1\), a convexidade dá, para \(s\lt 1\),

\[ \frac{F(1)-F(s)}{1-s}\leq F'(1-)=\mu \leq 1, \]

de modo que \(F(s)\geq s\). Se houvesse igualdade para algum \(s\lt 1\), a convexidade e a igualdade das inclinações forçariam \(F(t)=t\) em \([s,1]\); pela identidade de séries de potências, isso significaria \(F(t)=t\) em todo \((-1,1)\), isto é, \(\P (\xi _1=1)=1\). Fora desse caso degenerado, não há ponto fixo abaixo de \(1\), e portanto \(q=1\).

Se \(\mu \gt 1\), então \(G'(1-)\gt 0\) e, consequentemente, \(G(s)\lt 0\) para \(s\lt 1\) suficientemente próximo de \(1\). Como \(G(0)=F(0)\geq 0\), a continuidade fornece um ponto fixo em \([0,1)\); logo o menor deles satisfaz \(q\lt 1\). Finalmente, no caso degenerado \(\P (\xi _1=1)=1\), temos \(F(s)=s\) para todo \(s\); cada indivíduo tem exatamente um descendente e a população nunca se extingue, de modo que \(q=0\).

7.7 ↯Funções Geradoras de Momento

Definição 7.41

A função geradora de momentos de \(\xi \) é

\[ M_\xi (t)=\mathbf{E}[\mathrm e^{t\xi }], \]

desde que essa esperança seja finita para todo \(t\) em algum intervalo \((-h,h)\), com \(h\gt 0\).

Para variáveis discretas ou absolutamente contínuas temos que

\[ M_\xi (t)=\mathbf{E}[\mathrm e^{t\xi }]=\begin{cases} \sum _i \mathrm e^{t x_i} p(x_i) & \text{se $\xi $ é discreta},\\ \int _{\mathbb {R}} \mathrm e^{t x} f(x)\, \d x & \text{se $\xi $ é absolutamente contínua}. \end{cases} \]

Teorema 7.42
Se \(M_\xi \) é finita em \((-h,h)\), então é infinitamente diferenciável nesse intervalo e, para \(n\geq 1\) e \(|t|\lt h\),
\[ M_{\xi }^{(n)}(t)=\frac{d^n}{dt^n}\mathbb {E}\left(e^{t\xi }\right)=\mathbb {E}\left(\frac{d^n}{dt^n}e^{t\xi }\right) = \mathbb {E}\left(\xi ^ne^{t\xi }\right). \]

Demonstração ▼

Fixe \(t\) com \(|t|\lt h\) e escolha \(\delta \gt 0\) tal que \(|t|+2\delta \lt h\). Existe \(C_{n,\delta }\) tal que \(|x|^n\leq C_{n,\delta }\mathrm e^{\delta |x|}\). Para \(s\) numa vizinhança suficientemente pequena de \(t\),

\[ |x|^n\mathrm e^{sx} \leq C_{n,\delta } \bigl(\mathrm e^{(t+2\delta )x} +\mathrm e^{(t-2\delta )x}\bigr). \]

O lado direito é integrável pela hipótese sobre \(M_\xi \). O teorema de diferenciação sob o sinal de integral, obtido da Convergência Dominada, pode então ser aplicado sucessivamente e fornece a fórmula.

Teorema 7.43
Se \(\xi \) e \(\eta \) são independentes e suas funções geradoras de momentos são finitas num intervalo comum em torno de \(0\), então
\[ M_{\xi +\eta }(t)=M_\xi (t)M_\eta (t) \]
nesse intervalo.

Demonstração ▼
\begin{align*} M_{\xi + \eta } (t) & = \mathbb {E}\! \left[e ^{t (\xi + \eta )}\right] \\ & = \mathbb {E}\! \left[e ^{t \xi } e ^{t \eta }\right] \\ & = \mathbb {E}\! \left[e ^{t \xi }\right] \mathbb {E}\! \left[e ^{t \eta }\right] \\ & = M_\xi (t) M_\eta (t). \end{align*}

Teorema 7.44 (Unicidade da função geradora de momentos)
A função geradora de momento determina de forma única a distribuição de probabilidade.

A demonstração usa continuação analítica e a unicidade da transformada de Fourier, ferramentas que serão desenvolvidas no Capítulo 12. Voltaremos então a este resultado e o provaremos após o Teorema da Unicidade de Fourier.

Teorema 7.45 (FGM da distribuição normal)
Se \(\zeta \sim \mathcal N(\mu ,\sigma ^2)\), então
\[ M_\zeta (t)=\exp \left(\mu t+\frac{\sigma ^2t^2}{2}\right). \]

Demonstração ▼
\begin{align*} M_\zeta (t) & = \mathbb {E}\! \left[e ^{t \zeta }\right] \\ & = \frac{1}{\sqrt{2 \pi \sigma ^2}} \int _{- \infty } ^{\infty } e ^{t x} e ^{- (x- \mu ) ^2 / (2 \sigma ^2)} \, dx \\ & = \frac{1}{\sqrt{2 \pi \sigma ^2}} \int _{- \infty } ^{\infty } \exp \left(\frac{- (x ^2 - 2 \mu x + \mu ^2 - 2 \sigma ^2 t x)}{2 \sigma ^2} \right) \, dx \end{align*}

Completando o quadrado:

\begin{align*} x ^2 - 2 \mu x + \mu ^2 -2 \sigma ^2 t x & = x ^2 - 2 (\mu + \sigma ^2 t) x + \mu ^2 \\ & = (x - (\mu + \sigma ^2 t)) ^2 - (\mu + \sigma ^2 t) ^2 + \mu ^2 \\ & = (x - (\mu + \sigma ^2 t)) ^2 - \sigma ^4 t ^2 - 2 \mu \sigma ^2 t. \end{align*}

Então voltando ao cálculo da função geradora de momento

\begin{align*} M_\zeta (t) & = \frac{1}{\sqrt{2\pi \sigma ^2}} \int _{-\infty }^{\infty } \exp \left( \frac{-\left( (x - (\mu + \sigma ^2 t))^2 - \sigma ^4 t^2 - 2 \mu \sigma ^2 t \right)}{2\sigma ^2} \right)\, dx \\ & = \frac{1}{\sqrt{2\pi \sigma ^2}} \exp \left( \frac{\sigma ^4 t^2 + 2 \mu \sigma ^2 t}{2 \sigma ^2} \right) \int _{-\infty }^{\infty } \exp \left( \frac{ -(x - (\mu + \sigma ^2 t))^2}{2\sigma ^2} \right) \, dx \\ & = \exp \left( \frac{\sigma ^4 t^2 + 2 \mu \sigma ^2 t}{2 \sigma ^2} \right) \\ & = \exp \left( \mu t + \sigma ^2 t^2/2 \right) \end{align*}

Teorema 7.46
Se \(\zeta _1 \sim \mathcal{N} (\mu _1, \sigma _1 ^2) \), e \(\zeta _2 \sim \mathcal{N} (\mu _2, \sigma _2 ^2) \) e \(\zeta _1 \) e \(\zeta _2 \) são independentes, então \(\zeta _1 + \zeta _2 \sim \mathcal{N} (\mu _1 + \mu _2, \sigma _1 ^2 + \sigma _2 ^2) \). Ou seja, a soma de variáveis aleatórias normais independentes é uma variável aleatória normal cuja média é a soma das médias e cuja variância é a soma das variâncias.

Demonstração ▼

Calculamos a função geradora de momento da soma usando o teorema sobre somas de variáveis aleatórias independentes.

\begin{align*} M_{\zeta _1 + \zeta _2} (t) & = M_{\zeta _1} (t) M_{\zeta _2} (t) \\ & = \exp (\mu _1 t + \sigma _1 ^2 t ^2/2) \exp (\mu _2 t + \sigma _2 ^2 t ^2/2) \\ & = \exp ((\mu _1 + \mu _2) t + (\sigma _1 ^2 + \sigma _2 ^2) t ^2/2) \end{align*}

Essa é a função geradora de momentos de \(\mathcal N(\mu _1+\mu _2,\sigma _1^2+\sigma _2^2)\). Pelo Teorema 7.44, as distribuições coincidem.

7.8 ↯Entropia

A esperança também pode resumir quantidades que não são observações físicas da variável. Em teoria da informação, associa-se a um evento de probabilidade \(p\) uma quantidade \(I(p)\) que mede quão informativa é sua ocorrência. Eventos raros devem carregar mais informação; eventos certos, nenhuma. A forma dessa função é praticamente forçada por quatro propriedades.

Definição 7.47 (Informação)

Uma medida de informação é uma função \(I:(0,1]\to [0,\infty )\) com as seguintes propriedades:

  1. A informação é uma quantidade não negativa: \( I (p) \ge 0 \).

  2. Se um evento tiver probabilidade 1, não obtemos informações da ocorrência do evento: \( I (1) = 0 \).

  3. Se ocorrerem dois eventos independentes (cuja probabilidade conjunta é o produto de suas probabilidades individuais), então a informação que obtemos ao observar os eventos é a soma das duas informações: \( I (p_1 \cdot p_2) = I (p_1) + I (p_2). \) (Esta é a propriedade fundamental)

  4. A medida de informação depende continuamente da probabilidade.

Essas propriedades determinam a forma de \(I\). De fato, defina \(J(x)=I(\mathrm e^{-x})\) para \(x\geq 0\). Então \(J\) é contínua, não negativa e

\[ J(x+y)=I(\mathrm e^{-x}\mathrm e^{-y})=J(x)+J(y). \]

A equação aditiva contínua em \([0,\infty )\) implica \(J(x)=cx\) para alguma constante \(c\geq 0\). Logo

\[ I(p)=-c\log p. \]

Se a informação não for identicamente nula, então \(c\gt 0\) e podemos escolher uma base \(b\gt 1\) de modo que

\[ I(p)=\log _b(1/p)=-\log _b p. \]

A escolha da base determina apenas a unidade de informação.

Normalmente, pensamos em termos de \( \log _2 (p) \).

Com logaritmos na base \(2\), um lançamento de uma moeda justa fornece \(-\log _2(1/2)=1\) bit; \(n\) lançamentos independentes fornecem \(n\) bits.

Entropia

Se uma variável aleatória discreta \(X\) assume os valores \(a_1,\ldots ,a_n\) com probabilidades \(p_1,\ldots ,p_n\), a informação observada quando \(X=a_i\) é

\[ \log \frac1{p_i}. \]

Sua média é, portanto,

\[ \sum _{i=1}^n p_i\log \frac1{p_i}. \]

Essa média é a entropia.

Definição 7.48
Para uma distribuição discreta \(P=\{ p_1,\ldots ,p_n\} \), definimos
\[ H(P) := \sum _{i=1}^n p_i\log \frac1{p_i}, \]
com a convenção \(0\log (1/0)=0\).

Se \(X\) tem função de massa \(p\), escrevemos

\[ H(X) = \mathbf{E}\! \left[\log \frac1{p(X)}\right]. \]

Assim, a entropia é literalmente o valor esperado da informação contida na observação.

Há uma expressão formalmente análoga para distribuições absolutamente contínuas com densidade \(f\),

\[ h(f) = \int _{\mathbb {R}} f(x)\log \frac1{f(x)}\, \d x, \]

quando a integral está bem definida. Essa entropia diferencial pode ser negativa e muda sob transformações de escala; por isso não deve ser confundida com a entropia discreta.

Teorema 7.49 (Desigualdade de Gibbs)

Considere as distribuições de probabilidade, \( P = \{ p_1, p_2, \ldots , p_n \} \) e \( Q = \{ q_1, q_2, \ldots , q_n \} \), onde \( p_i, q_i \ge 0 \) e \( \sum _i p_i = \sum _i q_i = 1 \). Então

\[ -\sum p_i \log q_i \geq -\sum p_i \log p_i \]

com as convenções \(0\log 0=0\) e \(-p_i\log q_i=+\infty \) se \(p_i\gt 0=q_i\). A igualdade ocorre se, e somente se, \(p_i=q_i\) para todo \(i\).

Demonstração ▼

Se existe \(i\) com \(p_i\gt 0=q_i\), o lado esquerdo é infinito e a desigualdade é imediata. Caso contrário, omitimos os índices com \(p_i=0\) e usamos \(\log x\leq x-1\):

\begin{align*} \sum _{i:p_i\gt 0}p_i\log \left(\frac{q_i}{p_i}\right) & \leq \sum _{i:p_i\gt 0}p_i\left(\frac{q_i}{p_i}-1\right)\\ & =\sum _{i:p_i\gt 0}q_i-1\leq 0. \end{align*}

Isso equivale à desigualdade anunciada. A igualdade em \(\log x\leq x-1\) ocorre apenas quando \(x=1\); portanto, ela exige \(q_i=p_i\) para todo índice com \(p_i\gt 0\). Como ambas as famílias somam \(1\), também não pode haver massa de \(Q\) fora desse suporte, e \(p_i=q_i\) para todo \(i\).

A desigualdade de Gibbs permite identificar a distribuição de maior entropia entre \(n\) resultados possíveis. Para uma distribuição \( P = \{ p_1, p_2, \ldots , p_n \} \), temos

\begin{align*} H (P) - \log (n) & = \sum _{i = 1} ^n p_i \log (1 / p_i) - \log (n) \\ & = \sum _{i = 1} ^n p_i \log (1 / p_i) - \log (n) \sum _{i = 1} ^n p_i \\ & = \sum _{i = 1} ^n p_i \log (1 / p_i) - \sum _{i = 1} ^n p_i \log (n) \\ & = \sum _{i = 1} ^n p_i (\log (1 / p_i) - \log (n)) \\ & = \sum _{i = 1} ^n p_i (\log (1 / p_i) + \log (1 / n)) \\ & = \sum _{i = 1} ^n p_i \log \left(\frac{1 / n}{p_i} \right) \\ & \le 0, \end{align*}

com igualdade somente quando \( p_i = \frac{1}{n} \) para todos \( i \). A distribuição uniforme maximiza, portanto, a informação média por observação: sem resultados favorecidos, a surpresa fica mais bem distribuída.

Exercício 7.1

Seja \(X\) uma variável aleatória discreta com valores distintos \(x_1,x_2,\ldots \). Suponha que

\[ \sum _{k=1}^{\infty }|x_k|\P (X=x_k)\lt \infty . \]

Prove, a partir da definição da integral de Lebesgue, que

\begin{equation} \mathbf{E}[X]=\sum _{k=1}^{\infty }x_k\P (X=x_k). \label{simple_expectation} \tag{7.1} \end{equation}

Ver solução
Escreva \(X^+=\sum _kx_k^+\mathbb {1}_{\{ X=x_k\} }\) e \(X^-=\sum _kx_k^-\mathbb {1}_{\{ X=x_k\} }\). Por Convergência Monótona, \(\mathbf{E}[X^\pm ]=\sum _kx_k^\pm \P (X=x_k)\). A hipótese torna ambas as somas finitas; subtraindo-as resulta a fórmula pedida.
Exercício 7.2

Construa variáveis aleatórias \(X,Y:[0,1]\to \mathbb {R}\), no espaço com medida de Lebesgue, tais que

\[ \P (X\gt Y)\gt \frac12, \qquad \mathbf{E}[X]\lt \mathbf{E}[Y]. \]

Calcule explicitamente as duas probabilidades e as duas esperanças.

Ver solução
Em \([0,1]\), ponha \((X,Y)=(1,0)\) em \([0,3/4]\) e \((X,Y)=(0,4)\) em \((3/4,1]\). Então \(\P (X\gt Y)=3/4\), enquanto \(\mathbf{E}[X]=3/4\lt 1=\mathbf{E}[Y]\).
Exercício 7.3

Prove que, para toda função boreliana \(g:\mathbb {R}\to \mathbb {R}\),

\[ \xi \overset {\mathrm d}=\eta \quad \Longrightarrow \quad g(\xi )\overset {\mathrm d}=g(\eta ). \]

Compare com os casos concretos \(g(x)=x^+\) e \(g(x)=x^-\) estudados no Capítulo 6.

Ver solução
Para todo boreliano \(B\),
\[ \P (g(\xi )\in B)=\P (\xi \in g^{-1}(B)) =\P (\eta \in g^{-1}(B))=\P (g(\eta )\in B), \]
pois \(g^{-1}(B)\) é boreliano. Isso prova a afirmação para qualquer transformação boreliana e contém, em particular, os exemplos do Capítulo 6.
Exercício 7.4

Seja \(X_1,X_2,\ldots \) uma sequência de variáveis aleatórias mutuamente independentes. Prove que as \(\sigma \)-álgebras

\[ \sigma \langle X_1,X_3,X_5,\ldots \rangle \quad \text{e}\quad \sigma \langle X_2,X_4,X_6,\ldots \rangle \]

são independentes.

Ver solução
Eventos que dependem de finitas coordenadas ímpares são independentes de eventos que dependem de finitas coordenadas pares. Essas duas famílias de cilindros são \(\pi \)-sistemas e geram as \(\sigma \)-álgebras exibidas. Duas aplicações do Teorema \(\pi \)–\(\lambda \) estendem a identidade de produto às \(\sigma \)-álgebras geradas.
Exercício 7.5

Sejam \(X_1,X_2,\ldots \) variáveis aleatórias i.i.d., com média \(\mu \) e variância \(\sigma ^2\lt \infty \). Seja \(N\) uma variável aleatória com valores em \(\mathbb {N}_0\), independente da sequência, com

\[ \mathbf{E}[N]=m, \qquad \operatorname {Var}(N)=v\lt \infty . \]

Defina

\[ S=\sum _{i=1}^{N}X_i =\sum _{i=1}^{\infty }X_i\mathbb {1}_{\{ N\geq i\} }, \]

com a convenção de que a soma vazia vale zero. Calcule \(\mathbf{E}[S]\) e \(\operatorname {Var}(S)\).

Ver solução
Decomponha pela partição \(\{ N=n\} \), lembrando que \(N\) é independente da sequência. Para cada \(n\) fixo, \(\mathbf{E}[X_1+\cdots +X_n]=n\mu \) e \(\mathbf{E}[(X_1+\cdots +X_n)^2]=n\sigma ^2+n^2\mu ^2\). Somando,
\[ \mathbf{E}[S]=\sum _{n\geq 0}\P (N=n)\, n\mu =m\mu , \qquad \mathbf{E}[S^2]=\sum _{n\geq 0}\P (N=n)\bigl(n\sigma ^2+n^2\mu ^2\bigr) =\sigma ^2\mathbf{E}[N]+\mu ^2\mathbf{E}[N^2]. \]
Portanto
\[ \operatorname {Var}(S)=\sigma ^2m+\mu ^2\bigl(\mathbf{E}[N^2]-m^2\bigr)=m\sigma ^2+v\mu ^2 . \]
Exercício 7.6

Prove a desigualdade de Cauchy–Schwarz: se \(X,Y\in L^2(\P )\), então

\[ |\mathbf{E}[XY]|\leq \sqrt{\mathbf{E}[X^2]\mathbf{E}[Y^2]}. \]

Prove também que há igualdade se, e somente se, \(X\) e \(Y\) são linearmente dependentes como elementos de \(L^2(\P )\).

Ver solução
Para todo \(t\in \mathbb {R}\), \(0\leq \mathbf{E}[(X-tY)^2]=\mathbf{E}[X^2]-2t\mathbf{E}[XY]+t^2\mathbf{E}[Y^2]\). Se \(\mathbf{E}[Y^2]\gt 0\), o discriminante não pode ser positivo, o que dá a desigualdade; o caso \(Y=0\) é imediato. Há igualdade exatamente quando o mínimo quadrático é zero, isto é, quando \(X=(\mathbf{E}[XY]/\mathbf{E}[Y^2])Y\) quase certamente. Incluindo o caso nulo, isso equivale à dependência linear em \(L^2\).
Exercício 7.7

Sejam \(X\) e \(Z\) variáveis aleatórias independentes, ambas com distribuição normal padrão. Para \(a,b\in \mathbb {R}\), não ambos nulos, defina

\[ Y=aX+bZ. \]
  1. Calcule \(\operatorname {Corr}(X,Y)\).

  2. Verifique diretamente que \(|\operatorname {Corr}(X,Y)|\leq 1\).

  3. Determine as condições necessárias e suficientes sobre \(a\) e \(b\) para que \(\operatorname {Corr}(X,Y)=1\).

  4. Faça o mesmo para \(\operatorname {Corr}(X,Y)=-1\).

Ver solução
\(\operatorname {Cov}(X,Y)=a\), \(\operatorname {Var}(X)=1\) e \(\operatorname {Var}(Y)=a^2+b^2\), logo
\[ \operatorname {Corr}(X,Y)=\frac{a}{\sqrt{a^2+b^2}}. \]
Seu módulo é no máximo um porque \(a^2\leq a^2+b^2\). A correlação é \(1\) se, e somente se, \(b=0\) e \(a\gt 0\); é \(-1\) se, e somente se, \(b=0\) e \(a\lt 0\).
Exercício 7.8 (title=Problema do Pareamento)

 Suponha que \(n\geq 2\) pessoas deixem seus chapéus no vestiário e, ao final, os chapéus sejam devolvidos segundo uma permutação uniforme. Seja \(X\) o número de pessoas que recebem o próprio chapéu. Calcule \(\mathbf{E}[X]\) e \(\operatorname {Var}(X)\).

Ver solução
Escreva \(X=\sum _{i=1}^nI_i\), onde \(I_i\) indica um ponto fixo. Então \(\mathbf{E}I_i=1/n\) e, para \(i\neq j\), \(\mathbf{E}[I_iI_j]=1/[n(n-1)]\). Assim
\[ \mathbf{E}X=1, \qquad \operatorname {Var}X=n\frac1n\left(1-\frac1n\right) +n(n-1)\left(\frac1{n(n-1)}-\frac1{n^2}\right)=1. \]
Exercício 7.9

Seja \(X\) uma variável aleatória real. Prove que

\[ \mathbf{E}|X|=\infty \quad \Longrightarrow \quad \sum _{n=0}^{\infty }\P (|X|\gt n)=\infty . \]

Mostre, de fato, as desigualdades que relacionam a série acima com \(\mathbf{E}|X|\).

Ver solução
Ponha \(Z=|X|\). Pontualmente, o número de inteiros \(n\geq 1\) com \(n\lt Z\) é \(\lceil Z\rceil -1\leq Z\) e o número de inteiros \(n\geq 0\) com \(n\lt Z\) é \(\lceil Z\rceil \geq Z\), isto é,
\[ \sum _{n\geq 1}\mathbb {1}_{\{ Z\gt n\} }\leq Z\leq \sum _{n\geq 0}\mathbb {1}_{\{ Z\gt n\} } . \]
Tomando esperanças e trocando soma com esperança pela Convergência Monótona (os termos são não negativos),
\[ \sum _{n=1}^\infty \P (Z\gt n) \leq \mathbf{E}Z \leq \sum _{n=0}^\infty \P (Z\gt n). \]
Se \(\mathbf{E}|X|=\infty \), a desigualdade da direita força a divergência da série que começa em \(n=0\).
Exercício 7.10

Seja \(X\) uma variável aleatória real. Prove que, para todo \(\varepsilon \gt 0\), existe uma variável aleatória limitada \(X_\varepsilon \) tal que

\[ \P (X\neq X_\varepsilon )\lt \varepsilon . \]

Faça a construção por truncamento e indique uma cota determinística para \(|X_\varepsilon |\).

Ver solução
Como \(\{ |X|\gt M\} \downarrow \varnothing \), escolha \(M\) com \(\P (|X|\gt M)\lt \varepsilon \) e defina \(X_\varepsilon =(-M)\vee (X\wedge M)\). Então \(|X_\varepsilon |\leq M\) e \(X_\varepsilon =X\) em \(\{ |X|\leq M\} \), de modo que \(\P (X\neq X_\varepsilon )\lt \varepsilon \).
Exercício 7.11

Coletor de cupons. Cada pacote contém, de maneira independente, uma figurinha escolhida uniformemente entre \(n\) tipos. Determine o número esperado de pacotes necessários para obter ao menos uma figurinha de cada tipo.

Ver solução
Depois de obter \(k\) tipos, a probabilidade de o pacote seguinte trazer um tipo novo é \((n-k)/n\). O tempo de espera correspondente é geométrico de média \(n/(n-k)\). Somando para \(k=0,\ldots ,n-1\),
\[ \mathbf{E}T=\sum _{k=0}^{n-1}\frac{n}{n-k} =n\sum _{j=1}^n\frac1j=nH_n. \]
Exercício 7.12

Seja \(X\) uma variável aleatória com valores em \(\mathbb {N}_0\) e segundo momento finito. Sua função geradora de probabilidades é

\[ G_X(s)=\mathbf{E}[s^X]=\sum _{i=0}^{\infty }\P (X=i)s^i, \qquad 0\leq s\leq 1. \]

Justifique as derivações em \(s=1\) pela esquerda e prove que

\[ \operatorname {Var}(X)=G_X''(1)+G_X'(1)-G_X'(1)^2. \]
Ver solução
Para \(0\lt s\lt 1\), derive termo a termo. Quando \(s\uparrow 1\), os termos são não negativos e a Convergência Monótona dá \(G_X'(1-)=\mathbf{E}X\) e \(G_X''(1-)=\mathbf{E}[X(X-1)]\); ambos são finitos pela hipótese de segundo momento. Como \(\mathbf{E}[X^2]=\mathbf{E}[X(X-1)]+\mathbf{E}X\), subtraímos \((\mathbf{E}X)^2\) e obtemos a fórmula.

Desigualdades

Exercício 7.13

Uma moeda justa é lançada independentemente \(n\) vezes, e \(S_n\) denota o número de caras. Use a desigualdade de Chebyshev para provar que, para todo \(\varepsilon \gt 0\),

\[ \lim _{n\to \infty } \P \left(\left|\frac{S_n}{n}-\frac12\right|\lt \varepsilon \right)=1. \]
Ver solução
\(\mathbf{E}(S_n/n)=1/2\) e \(\operatorname {Var}(S_n/n)=1/(4n)\). Portanto, por Chebyshev,
\[ \P \left(\left|S_n/n-1/2\right|\geq \varepsilon \right) \leq \frac{1}{4n\varepsilon ^2}\longrightarrow 0. \]
Exercício 7.14

Dígitos binários e função geradora exponencial. Para \(\omega \in [0,1)\), seja \(d_k(\omega )\in \{ 0,1\} \) o \(k\)-ésimo dígito de sua expansão binária; nos racionais diádicos, escolha a expansão que termina em zeros. Defina

\[ z_k(\omega )=2d_k(\omega )-1, \qquad s_n(\omega )=\sum _{k=1}^{n}z_k(\omega ). \]

Com respeito à medida de Lebesgue, prove que

\begin{equation} M_n(t):=\int _0^1e^{t s_n(\omega )}\, \d\omega =\left(\frac{e^t+e^{-t}}2\right)^n, \qquad t\in \mathbb {R}. \label{ex1a} \tag{7.2} \end{equation}

Diferenciando em \(t=0\), conclua que

\[ \int _0^1s_n(\omega )\, \d\omega =0, \qquad \int _0^1s_n(\omega )^2\, \d\omega =n. \]

Dica. Divida \([0,1)\) nos intervalos diádicos \([k/2^n,(k+1)/2^n)\), \(0\leq k\lt 2^n\).

Ver solução
Nos \(2^n\) intervalos diádicos, os vetores \((d_1,\ldots ,d_n)\) percorrem \(\{ 0,1\} ^n\) com pesos \(2^{-n}\) (os extremos não importam). Assim
\[ M_n(t)=2^{-n}\sum _{z_1,\ldots ,z_n\in \{ -1,1\} } e^{t(z_1+\cdots +z_n)} =\left(\frac{e^t+e^{-t}}2\right)^n. \]
Como a soma é finita, podemos derivar: \(M_n'(0)=0\) e \(M_n''(0)=n\), que são, respectivamente, as duas integrais pedidas.
Exercício 7.15

Cota exponencial para os dígitos binários. Com a notação do exercício anterior, prove que, para todo \(\varepsilon \gt 0\),

\begin{equation} \P \left(\left|\frac{s_n}{n}\right|\geq \varepsilon \right) \leq 2e^{-n\varepsilon ^2/2}. \label{eq:exp-ineq-sn} \tag{7.3} \end{equation}

Dica. Use (7.2), o argumento exponencial de Markov e

\[ \frac{e^x+e^{-x}}2\leq e^{x^2/2}, \qquad x\in \mathbb {R}. \]
Ver solução
Para \(t\gt 0\), Markov e (7.2) dão
\[ \P (s_n\geq n\varepsilon ) \leq e^{-tn\varepsilon }M_n(t) \leq \exp \{ n(t^2/2-t\varepsilon )\} . \]
O mínimo ocorre em \(t=\varepsilon \) e vale \(e^{-n\varepsilon ^2/2}\). Aplique o mesmo argumento a \(-s_n\) e use a subaditividade.
Exercício 7.16

Demonstração probabilística do Teorema de Weierstrass. Se \(f:[0,1]\to \mathbb {R}\) é contínua, use a desigualdade de Chebyshev e a continuidade uniforme de \(f\) para provar que

\[ \sum _{k=0}^{n} f\left(\frac{k}{n}\right) \binom nk x^k(1-x)^{n-k} \longrightarrow f(x) \]

uniformemente em \(x\in [0,1]\).

Dica. Para cada \(x\), tome \(S_n\sim \operatorname {Binomial}(n,x)\) e escreva o polinômio acima como \(\mathbf{E}[f(S_n/n)]\). Separe os eventos \(\{ |S_n/n-x|\lt \delta \} \) e \(\{ |S_n/n-x|\geq \delta \} \) usando uma escolha de \(\delta \) que não dependa de \(x\).

Ver solução
Se \(S_n\sim \operatorname {Binomial}(n,x)\), o polinômio é \(B_nf(x)=\mathbf{E}[f(S_n/n)]\). Dado \(\varepsilon \gt 0\), a continuidade uniforme fornece \(\delta \gt 0\) tal que \(|u-x|\lt \delta \) implica \(|f(u)-f(x)|\lt \varepsilon \). Se \(M=\| f\| _\infty \), então, uniformemente em \(x\),
\[ |B_nf(x)-f(x)| \leq \varepsilon +2M\P (|S_n/n-x|\geq \delta ) \leq \varepsilon +\frac{M}{2n\delta ^2}, \]
pois \(\operatorname {Var}(S_n/n)=x(1-x)/n\leq 1/(4n)\). Tome \(n\to \infty \) e depois \(\varepsilon \downarrow 0\).
Exercício 7.17

Otimalidade da desigualdade de Chebyshev. Fixe \(t\geq 1\), \(\mu \in \mathbb {R}\) e \(\sigma \gt 0\). Construa uma variável aleatória \(X\) com média \(\mu \) e variância \(\sigma ^2\) tal que

\[ \P (|X-\mu |\geq t\sigma )=\frac1{t^2}. \]
Ver solução
Defina \(X=\mu +t\sigma \) e \(X=\mu -t\sigma \), cada um com probabilidade \(1/(2t^2)\), e \(X=\mu \) com probabilidade \(1-1/t^2\). Por simetria, \(\mathbf{E}X=\mu \); além disso, \(\operatorname {Var}X=t^2\sigma ^2(1/t^2)=\sigma ^2\), e o evento indicado ocorre exatamente nos dois valores extremos.
Exercício 7.18

Seja \(X\) uma variável aleatória não negativa com \(\mathbf{E}[X]\lt \infty \), e defina \(X_n=X\wedge n\).

  1. Dê um exemplo para o qual \(\mathbf{E}[X^2]=\infty \).

  2. Prove que, para todo \(p\gt 2\),

    \[ \sum _{n=1}^{\infty }n^{-p}\mathbf{E}[X_n^2]\lt \infty . \]
  3. Prove que a conclusão continua válida no caso-limite \(p=2\).

    Dica para o último item. Para cada \(x\geq 0\), estime \(\sum _{n\geq 1}n^{-2}(x\wedge n)^2\) separando os índices \(n\leq x\) e \(n\gt x\).

Ver solução
Um exemplo é \(\P (X=k)=\zeta (3)^{-1}k^{-3}\), \(k\geq 1\): o primeiro momento é finito e o segundo diverge. Para \(p\gt 2\), \((X\wedge n)^2\leq nX\), logo
\[ \sum _n n^{-p}\mathbf{E}[X_n^2] \leq \mathbf{E}X\sum _n n^{1-p}\lt \infty . \]
Para \(p=2\), troque soma e esperança pela Convergência Monótona (os termos são não negativos) e use a separação sugerida: com uma constante universal \(C\),
\[ \sum _{n\geq 1}\frac{(x\wedge n)^2}{n^2} \leq \lfloor x\rfloor +x^2\sum _{n\gt x}n^{-2} \leq C(1+x). \]
Integrando, a soma continua finita porque \(X\in L^1\).
Exercício 7.19

Sejam \(X_1,\ldots ,X_n\) variáveis aleatórias reais independentes e \(S_k=X_1+\cdots +X_k\). Prove a desigualdade de Etemadi: para todo \(t\gt 0\),

\[ \P \left(\max _{1\leq k\leq n}|S_k|\geq t\right) \leq 3\max _{1\leq k\leq n}\P (|S_k|\geq t/3). \]

Dica. Para \(r\gt 0\), considere os eventos disjuntos de primeira passagem

\[ A_j= \left\{ \max _{1\leq k\lt j}|S_k|\lt 3r,\ |S_j|\geq 3r \right\} , \qquad j=1,\ldots ,n. \]

Use a independência de \(A_j\) e \(S_n-S_j\) e trate separadamente o caso em que \(\max _k\P (|S_k|\geq r)\gt 1/3\).

Ver solução
Ponha \(p=\max _{k\leq n}\P (|S_k|\geq r)\). Se \(p\geq 1/3\), a cota é trivial. Suponha \(p\lt 1/3\). Pela desigualdade triangular,
\[ \P (|S_n-S_j|\gt 2r) \leq \P (|S_n|\gt r)+\P (|S_j|\gt r)\leq 2p. \]
Como \(A_j\) depende de \(X_1,\ldots ,X_j\) e é independente de \(S_n-S_j\),
\[ (1-2p)\sum _j\P (A_j) \leq \sum _j\P (A_j,|S_n-S_j|\leq 2r) \leq \P (|S_n|\geq r)\leq p. \]
Assim \(\P (\max _{k\leq n}|S_k|\geq 3r)=\sum _j\P (A_j)\leq 3p\). Tome \(r=t/3\).
Exercício 7.20

Dê um exemplo de variáveis aleatórias limitadas e dependentes \(X\) e \(Y\) tais que \(\operatorname {Cov}(X,Y)=0\). Calcule a covariância e mostre diretamente que as variáveis não são independentes.

Dica. Tome uma variável \(X\) centrada e procure \(Y\) que seja nula sempre que \(X\neq 0\).

Ver solução
Num espaço equiprovável de três pontos, tome \(X=-1,0,1\) e \(Y=\mathbb {1}_{\{ X=0\} }\). Então \(\mathbf{E}X=0\) e \(XY=0\) sempre, logo \(\operatorname {Cov}(X,Y)=0\). As variáveis são dependentes, pois \(\P (Y=1)=1/3\), mas \(\P (Y=1\mid X=0)=1\). Ambas são limitadas.

Exercício 7.21 (title=Desigualdade de Paley–Zygmund em zero,difficulty=2)
Seja \(X\ge 0\), \(X\in L^2\) e \(\mathbf{E}X\gt 0\). Prove que
\[ \P (X\gt 0)\ge \frac{(\mathbf{E}X)^2}{\mathbf{E}[X^2]}. \]
Ver solução
Como \(X=X\mathbb {1}_{\{ X\gt 0\} }\), Cauchy–Schwarz fornece
\[ \mathbf{E}X\le (\mathbf{E}X^2)^{1/2}\P (X\gt 0)^{1/2}. \]
Elevando ao quadrado e rearranjando, obtemos a desigualdade.

Exercício 7.22 (title=Integrabilidade vista por Borel–Cantelli,difficulty=3)
Sejam \(X_1,X_2,\ldots \) i.i.d. e não negativas.
  1. Se \(\mathbf{E}X_1\lt \infty \), prove que \(X_n/n\to 0\) quase certamente.

  2. Se \(\mathbf{E}X_1=\infty \), prove que

    \[ \limsup _{n\to \infty }\frac{X_n}{n}=\infty \qquad \text{quase certamente}. \]
Ver solução

Se \(\mathbf{E}X_1\lt \infty \), para todo \(\varepsilon \gt 0\),

\[ \sum _n\P (X_n\gt \varepsilon n) =\sum _n\P (X_1\gt \varepsilon n)\lt \infty \]

pela Proposição 7.24. Borel–Cantelli e a interseção sobre \(\varepsilon =1/m\) dão \(X_n/n\to 0\).

Se \(\mathbf{E}X_1=\infty \), para cada \(M\gt 0\),

\[ \sum _n\P (X_n\gt Mn)=\infty . \]

Os eventos são independentes; pelo segundo Borel–Cantelli ocorrem infinitas vezes. Intersectando sobre \(M\in \mathbb N\), o limsup é infinito.

Exercício 7.23 (title=Cota de Chernoff para Bernoullis independentes,difficulty=3)
Sejam \(X_1,\ldots ,X_n\) Bernoulli independentes, com \(\P (X_i=1)=p_i\), e ponha
\[ S=\sum _iX_i,\qquad \mu =\mathbf{E}S=\sum _i p_i. \]
  1. Mostre que, para \(t\gt 0\),

    \[ \mathbf{E}e^{tS}\le \exp \{ \mu (e^t-1)\} . \]
  2. Use Markov exponencial e \(t=\log (1+\delta )\) para provar

    \[ \P (S\ge (1+\delta )\mu ) \le \left(\frac{e^\delta }{(1+\delta )^{1+\delta }}\right)^\mu . \]
Ver solução
Pela independência,
\[ \mathbf{E}e^{tS} =\prod _i(1-p_i+p_ie^t) =\prod _i(1+p_i(e^t-1)) \le e^{\mu (e^t-1)}. \]
Logo
\[ \P (S\ge (1+\delta )\mu ) \le \exp \{ \mu (e^t-1-t(1+\delta ))\} . \]
Com \(t=\log (1+\delta )\), obtemos exatamente a cota anunciada.

Exercício 7.24 (title=O domínio da função cumulante,difficulty=3)
Seja
\[ M(t)=\mathbf{E}e^{tX},\qquad \Lambda (t)=\log M(t) \]
nos pontos em que \(M(t)\lt \infty \).
  1. Use Hölder, Teorema 5.18, para mostrar que \(D=\{ t:M(t)\lt \infty \} \) é um intervalo.

  2. Se \(t\) está no interior de \(D\), prove que \(\mathbf{E}[|X|^ke^{tX}]\lt \infty \) para todo \(k\ge 1\).

  3. Conclua que \(M\) e \(\Lambda \) são \(C^\infty \) no interior de \(D\) e

    \[ \Lambda '(t)=\frac{\mathbf{E}[Xe^{tX}]}{\mathbf{E}[e^{tX}]}. \]
Ver solução
Se \(s,u\in D\) e \(t=(1-\theta )s+\theta u\), Hölder, Teorema 5.18, dá
\[ M(t)\le M(s)^{1-\theta }M(u)^\theta \lt \infty . \]
Logo \(D\) é intervalo. Se \(t\) é interior, escolha \(\eta \gt 0\) com \(t\pm \eta \in D\). Como \(|x|^k\le C_{k,\eta }e^{\eta |x|}\),
\[ |X|^ke^{tX}\le C_{k,\eta }\bigl(e^{(t+\eta )X}+e^{(t-\eta )X}\bigr), \]
que é integrável. Podemos derivar sob a esperança: \(M^{(k)}(t)=\mathbf{E}[X^ke^{tX}]\). Como \(M\gt 0\), \(\Lambda =\log M\) é suave e a fórmula para \(\Lambda '\) segue.

Exercício 7.25 (title=Grafos aleatórios: número esperado de cópias de um subgrafo,difficulty=3)
Seja \(H\) um grafo fixo, com \(v(H)\) vértices, \(e(H)\) arestas e grupo de automorfismos de tamanho \(a(H)\). Seja \(X_H\) o número de cópias não rotuladas de \(H\) em \(G(n,p)\).
  1. Escreva \(X_H\) como soma de indicadoras indexada por injeções dos vértices de \(H\) em \([n]\).

  2. Corrija a supercontagem produzida pelos automorfismos e prove

    \[ \mathbf{E}X_H=\frac{(n)_{v(H)}}{a(H)}p^{e(H)}. \]
  3. Especialize a fórmula para arestas, caminhos de comprimento dois, triângulos e cliques \(K_r\).

Ver solução
Para cada injeção \(\phi :V(H)\to [n]\), seja \(I_\phi \) a indicadora de que todas as arestas de \(H\) aparecem entre as imagens. Então \(\mathbf{E}I_\phi =p^{e(H)}\). Cada cópia não rotulada de \(H\) é contada exatamente \(a(H)\) vezes pelas injeções que diferem por automorfismos. Logo
\[ X_H=\frac1{a(H)}\sum _\phi I_\phi \]
e, por linearidade,
\[ \mathbf{E}X_H=\frac{(n)_{v(H)}}{a(H)}p^{e(H)}. \]
Para \(K_r\), por exemplo, \(a(K_r)=r!\) e \(\mathbf{E}X_{K_r}=\binom nr p^{\binom r2}\).

Exercício 7.26 (title=Grafos aleatórios: vértices isolados e a escala \(\log n/n\),difficulty=3)
Seja \(I\) o número de vértices isolados de \(G(n,p)\).
  1. Prove que

    \[ \mathbf{E}I=n(1-p)^{n-1}. \]
  2. Tome \(p_n=(\log n+c_n)/n\). Mostre que

    \[ \mathbf{E}I\sim e^{-c_n}. \]
  3. Conclua que, se \(c_n\to +\infty \), não há vértices isolados com alta probabilidade.

  4. Se \(c_n\to -\infty \), explique por que \(\mathbf{E}I\to \infty \), sozinho, não prova que existe vértice isolado com alta probabilidade.

Ver solução
Se \(I_v\) indica que \(v\) é isolado, então \(\P (I_v=1)=(1-p)^{n-1}\) e
\[ \mathbf{E}I=\sum _v\mathbf{E}I_v=n(1-p)^{n-1}. \]
Para \(p_n=(\log n+c_n)/n\), usando \(\log (1-p_n)=-p_n+O(p_n^2)\),
\[ \log \mathbf{E}I =\log n+(n-1)\log (1-p_n) =-c_n+o(1). \]
Se \(c_n\to +\infty \), Markov dá \(\P (I\gt 0)\le \mathbf{E}I\to 0\). Quando \(c_n\to -\infty \), a esperança diverge, mas uma variável pode ter esperança grande por valores raros e enormes; é necessário controlar também flutuações, por exemplo pelo segundo momento.

Exercício 7.27 (title=Grafos aleatórios: o limiar de triângulos pelo método dos momentos,difficulty=4)
Seja \(T\) o número de triângulos de \(G(n,p)\). Resolva o problema seguindo as etapas:
  1. escreva \(T=\sum _\alpha I_\alpha \) e calcule \(\mathbf{E}T\);

  2. classifique pares de triângulos distintos conforme compartilhem uma aresta ou não;

  3. determine quais covariâncias são nulas e prove

    \[ \operatorname {Var}(T) = \binom n3(p^3-p^6) +2\binom n2\binom {n-2}2(p^5-p^6); \]
  4. use Markov para mostrar que \(np\to 0\) implica \(\P (T\gt 0)\to 0\);

  5. mostre que, se \(np\to \infty \),

    \[ \frac{\operatorname {Var}(T)}{(\mathbf{E}T)^2}\longrightarrow 0 \]

    e conclua que \(\P (T\gt 0)\to 1\).

Ver solução

Há \(\binom n3\) triângulos e cada um aparece com probabilidade \(p^3\), portanto

\[ \mathbf{E}T=\binom n3p^3. \]

Triângulos distintos que não compartilham aresta usam conjuntos disjuntos de coordenadas e são independentes. Se compartilham uma aresta, a união contém cinco arestas, logo

\[ \operatorname {Cov}(I_\alpha ,I_\beta )=p^5-p^6. \]

Existem \(\binom n2\binom {n-2}2\) pares não ordenados desse tipo, o que dá a fórmula da variância.

Se \(np\to 0\), então \(\mathbf{E}T\sim (np)^3/6\to 0\) e Markov conclui. Se \(np\to \infty \),

\[ \frac{\operatorname {Var}(T)}{(\mathbf{E}T)^2} =O\! \left(\frac1{n^3p^3}+\frac1{n^2p}\right)\to 0. \]

Chebyshev dá \(\P (|T-\mathbf{E}T|\ge \mathbf{E}T)\to 0\); como \(\{ T=0\} \) está contido nesse evento, \(\P (T\gt 0)\to 1\).

Exercício 7.28 (title=Grafos aleatórios: uma cota para a clique máxima,difficulty=4)
Em \(G(n,1/2)\), seja \(X_r\) o número de cliques com \(r\) vértices e defina
\[ \omega (G)=\max \{ |C|:C\text{ é uma clique}\} . \]
  1. Prove que

    \[ \mathbf{E}X_r=\binom nr2^{-\binom r2}. \]
  2. Para \(\varepsilon \gt 0\), tome \(r_n=\lceil (2+\varepsilon )\log _2 n\rceil \) e mostre que \(\mathbf{E}X_{r_n}\to 0\).

  3. Conclua que

    \[ \P \bigl(\omega (G(n,1/2))\ge r_n\bigr)\to 0. \]
Ver solução
Cada conjunto de \(r\) vértices forma clique se suas \(\binom r2\) arestas estiverem presentes, evento de probabilidade \(2^{-\binom r2}\). Logo
\[ \mathbf{E}X_r=\binom nr2^{-\binom r2}. \]
Usando \(\binom nr\le n^r\),
\[ \log _2\mathbf{E}X_r \le r\log _2 n-\frac{r(r-1)}2. \]
Para \(r=(2+\varepsilon )\log _2n+O(1)\), o coeficiente do termo \((\log _2n)^2\) é
\[ (2+\varepsilon )-\frac{(2+\varepsilon )^2}{2}\lt 0, \]
logo a esperança tende a zero. Por Markov, \(\P (X_{r_n}\ge 1)\le \mathbf{E}X_{r_n}\to 0\).