Modos de Convergência
Até aqui, limites apareceram em diferentes formas. Em probabilidade, porém, dizer que \(\xi _n\) se aproxima de \(\xi \) ainda exige especificar o sentido da convergência. Este capítulo organiza e compara essas noções.
10.1 Duas convergências determinísticas
Antes de usar a probabilidade, recordemos duas noções de convergência de funções. Elas não dependem de medida alguma e servirão sobretudo como contraste para as convergências probabilísticas.
10.1.1 Convergência pontual
Seja \(\Omega \) um conjunto e \(\xi _n,\xi \colon \Omega \to \mathbb {R}\). Dizemos que \(\xi _n\) converge pontualmente para \(\xi \) se, para todo \(x\in \Omega \),
O índice a partir do qual \(\xi _n(x)\) está próximo de \(\xi (x)\) pode depender do ponto \(x\).
10.1.2 Convergência uniforme
A distância uniforme entre duas funções \(\xi \) e \(\eta \) é
com valor possivelmente infinito. Dizemos que \(\xi _n\) converge uniformemente para \(\xi \) se
Agora um mesmo índice deve controlar simultaneamente todos os pontos do domínio. Em particular, convergência uniforme implica convergência pontual.
O exemplo seguinte separa as duas noções e reaparecerá, em espírito, nas convergências probabilísticas.
A diferença entre as duas noções está na ordem dos quantificadores. A partir de agora, a medida de probabilidade permitirá uma terceira possibilidade: admitir conjuntos excepcionais e controlar o seu tamanho.
10.2 Convergência em Espaços de Probabilidade
Passamos agora às convergências que usam a estrutura mensurável e a probabilidade. O conjunto excepcional deixa de ser apenas um defeito: seu tamanho passa a fazer parte da definição.
10.2.1 Convergência em Distribuição
A convergência em distribuição é a mais fraca entre as que estudaremos. Ela compara apenas as leis de \(\xi _n\) com a lei de \(\xi \), por meio de suas funções de distribuição. O espaço amostral fica fora de cena: as variáveis nem sequer precisam estar definidas no mesmo espaço de probabilidade.
A restrição aos pontos de continuidade de \(F_X\) é essencial. Considere \(X_n\equiv 1/n\) e \(X\equiv 0\) num mesmo espaço de probabilidade. Então \(X_n\to X\) pontualmente, uniformemente, quase certamente, em probabilidade e em \(L^p\), para todo \(p\geq 1\).
As funções de distribuição são
Para \(x\neq 0\), temos \(F_{X_n}(x)\to F_X(x)\), enquanto \(F_{X_n}(0)=0\not\to 1=F_X(0)\). Como \(0\) é precisamente o ponto de descontinuidade de \(F_X\), ainda assim \(X_n\xrightarrow d0\).
Ao trabalhar com variáveis aleatórias que tomam valores inteiros, o seguinte teorema é frequentemente útil.
Como \(\xi \) toma valores inteiros, sua função de distribuição \(F_\xi \) é contínua em todo \(x\in \mathbb {R}\setminus \{ 0,1,2,\ldots \} \). Se \(\xi _n\xrightarrow d\xi \), então
Assim, para \(k = 0,1,2, \cdots \), temos
Para provar a recíproca, suponha que
Se \(x\lt 0\), então \(F_{\xi _n}(x)=F_\xi (x)=0\). Se \(x\geq 0\), temos
onde \(\lfloor x\rfloor \) denota o maior inteiro menor ou igual a \(x\). Como, para \(x\) fixo, a soma é finita, podemos trocar o limite com a soma e obtemos
Pelo teorema anterior, basta mostrar que, para cada \(k=0,1,2,\ldots \),
Temos
Para \(k\) fixo, temos
Logo
que é a função de probabilidade de \(\operatorname {Poisson}(\lambda )\).
10.2.2 Convergência em Probabilidade
Na convergência em probabilidade, não exigimos proximidade em cada ponto; exigimos que a probabilidade de um afastamento fixo desapareça. No contexto da Teoria da Medida, essa noção é chamada de convergência em medida.
A sequência pode continuar errando, mas a região em que o erro é maior do que \(\epsilon \) deve tornar-se improvável.
Dado \(\xi _n \sim \operatorname {Exp}(n)\), então \(\xi _n \ \xrightarrow {\P }\ 0\).
Pois
Seja \(\xi \) uma variável aleatória e \(\xi _n=\xi +\eta _n\), com
onde \(\sigma \gt 0\) é uma constante. Então \(\xi _n \ \xrightarrow {\P }\ \xi \).
Pela desigualdade triangular para \(\eta _n-\mathbf{E}[ \eta _n] +\mathbf{E}[ \eta _n]\), temos
Então, para todo \(\epsilon \gt 0\) e todo \(n\gt 1/\epsilon \), temos
Logo \(\xi _n \ \xrightarrow {\P }\ \xi \).
10.2.3 Convergência Quase Certa
Na convergência quase certa, recuperamos a convergência pontual, permitindo apenas que ela falhe em um conjunto de probabilidade nula.
Começaremos com uma leve adaptação do exemplo 10.1, onde tínhamos uma sequência convergindo pontualmente.
Tome \(\Omega =[0,1]\), munido da \(\sigma \)-álgebra de Borel, e seja \(\P \) a medida de Lebesgue em \([0,1]\). Para \(n\geq 1\), defina
Para \(\omega \in (0,1]\), temos \(\xi _n(\omega )=0\) para todo \(n\gt 1/\omega \), de modo que \(\xi _n(\omega )\to 0\).
No entanto, vale também que \(\xi _n(0)=1\) para todo \(n\gt 0\), de modo que
e
Dizemos assim que \(\xi _n\rightarrow 0\) quase certamente, quando \(n\to \infty \).
Sejam \( \xi \) uma variável aleatória e \( \{ \xi _n\} _{n\geq 1} \) uma sequência de variáveis aleatórias definidas no mesmo espaço de probabilidade. Dizemos que \( \xi _n \) converge quase certamente para \( \xi \), isto é, \( \xi _n\xrightarrow {q.c.}\xi \) se
ou, equivalentemente, se
A convergência quase certa é uma convergência pontual em um conjunto de probabilidade \(1\): temos \(\xi _n(\omega )\to \xi (\omega )\) para quase todo \(\omega \), isto é, exceto possivelmente em um conjunto de probabilidade nula.
Em \(\Omega =[0,1]\), com a medida de Lebesgue, para \(n\geq 1\) definimos \(\xi _n(x)=\begin{cases} 1 \quad \text{se} \quad x\in \mathbb {Q} \\ 1/n \quad \text{caso contrário} \end{cases}\)
Essa sequência não converge pontualmente para a função constante zero, pois vale \(1\) em todo racional para todo \(n\), mas converge quase certamente para zero porque \(\mathbb {Q}\cap [0,1]\) tem medida de Lebesgue nula.
Imagine uma sequência de pagamentos diários que termina definitivamente na primeira ocorrência de um certo evento aleatório. Se esse evento tem probabilidade positiva e as tentativas são independentes, quase certamente ele ocorrerá em algum instante finito. Assim, o valor pago por dia converge quase certamente a zero.
Isso não significa que exista uma data determinística a partir da qual os pagamentos cessam. Em qualquer horizonte finito ainda pode haver probabilidade positiva de continuação. A convergência quase certa controla a trajetória inteira, mas não fornece um prazo uniforme.
Para \(k,n\geq 1\), ponha \(A_{k,n}=\{ |\xi _n-\xi |\geq 1/k\} \). Pela definição de convergência de sequências reais,
Se \(\xi _n\to \xi \) quase certamente, o evento à esquerda tem probabilidade zero; logo cada evento \(\{ A_{k,n}\ {\, \, \text{\textrm{ i.v.}} }\} \) tem probabilidade zero. Reciprocamente, se todos esses eventos têm probabilidade zero, sua união enumerável também tem probabilidade zero, e portanto \(\xi _n\to \xi \) quase certamente.
Por fim, a condição para todos os \(\epsilon \gt 0\) implica imediatamente a condição para \(\epsilon =1/k\). Para a recíproca, dado \(\epsilon \gt 0\), escolha \(k\) com \(1/k\leq \epsilon \) e use \(\{ |\xi _n-\xi |\geq \epsilon \} \subseteq A_{k,n}\).
Para cada \(k\geq 1\), aplique o primeiro lema de Borel–Cantelli aos eventos \(A_n^{(k)}=\{ |\xi _n-\xi |\gt 1/k\} \). A hipótese fornece \(\sum _n\P (A_n^{(k)})\lt \infty \), logo \(\P (A_n^{(k)}\ \mathrm{i.v.})=0\). Fora da união desses eventos-limite, para todo \(k\) temos eventualmente \(|\xi _n-\xi |\leq 1/k\); logo \(\xi _n\to \xi \). Portanto, \(\xi _n\xrightarrow {q.c.}\xi \).
Seja \((\xi _n)_{n\geq 1}\) uma sequência tal que
Então \(\xi _n \ \xrightarrow {q.c.}\ 0.\)
Pelo teorema anterior basta mostrar que
Como \(|\xi _n|=1/n\), a desigualdade \(|\xi _n|\gt \epsilon \) só pode ocorrer para \(n\lt 1/\epsilon \). Logo temos
Em \(\Omega =[0,1]\), com a medida de Lebesgue, para cada \(m\geq 2\), particione \([0,1]\) em \(m\) intervalos mensuráveis disjuntos \(I_{m,1},\ldots ,I_{m,m}\), cada um com medida \(1/m\), e enumere em blocos as funções indicadoras
Denote a sequência resultante por \((\xi _n)\). Em cada bloco, temos \(\P (\xi _n=1)=1/m\); portanto, ao avançarmos pelos blocos, \(\P (|\xi _n|\gt \epsilon )\to 0\) para todo \(0\lt \epsilon \lt 1\). Assim, \(\xi _n\to 0\) em probabilidade.
Por outro lado, em cada bloco e para cada \(\omega \in [0,1]\), exatamente uma das indicadoras vale \(1\) em \(\omega \) e as demais valem \(0\). Logo \((\xi _n(\omega ))\) assume os valores \(0\) e \(1\) infinitas vezes e não converge em nenhum ponto.
10.2.4 Convergência em \(\mathcal L^p\)
A convergência em \(\L ^p\) controla o tamanho médio do erro, medido pela potência \(p\).
Seja \(X_n \sim \operatorname {Uni}\left(0, \frac{1}{n}\right)\). Então \(X_n \xrightarrow {\L ^{p}}0\) para todo \(p \geq 1\).
A densidade de \(X_n\) é dada por
Então
Se \(p=q\), não há o que provar. Suponha \(p\lt q\) e ponha \(r=q/p\gt 1\), com expoente conjugado \(r'\). Aplicando Hölder a \(|\xi _n-\xi |^p\cdot 1\) e usando \(\P (\Omega )=1\), obtemos
Logo
Considere uma sequência \(\{ X_n\} \) tal que
Mostre que
\( X_n \xrightarrow {p} \ 0.\)
\(X_n\) não converge em \(\L ^p\) para qualquer \(p\geq 1\).
Para mostrar que \(X_n \ \xrightarrow {p} \ 0\), podemos escrever, para qualquer \(\epsilon \gt 0\)
\begin{align*} \lim _{n \rightarrow \infty } \P \big(| X_n | \geq \epsilon \big) & = \lim _{n \rightarrow \infty } \P (X_n = n ^2) \\ & = \lim _{n \rightarrow \infty } \frac{1}{n} \\ & = 0. \end{align*}Assim \(X_n \xrightarrow {p} 0\).
Para qualquer \(p\geq 1\), podemos escrever
\begin{align*} \lim _{n\to \infty }\mathbf{E}\left(|X_n|^p\right) & = \lim _{n\to \infty }\left(n^{2p}\frac1n\right) \\ & = \lim _{n \rightarrow \infty } n ^{2p-1} \\ & = \infty \qquad (\text{ pois $ p \geq 1 $}). \end{align*}Portanto, \(X_n\) não converge em \(\L ^p\) para qualquer \(p\geq 1\). Em particular, embora \(X_n\xrightarrow {\P }0\), o valor esperado de \(X_n\) não converge para \(0\).
10.3 Comparando os Modos de Convergência
As noções anteriores não formam apenas uma lista: há uma hierarquia entre elas, embora algumas implicações dependam de hipóteses adicionais. As relações principais estão resumidas no diagrama:
"
q.c. [r, Rightarrow] ¶ [u, Rightarrow, bend left=25, "dominação em \(\L ^q\)“] [r, Rightarrow] d
Convergência quase certa implica convergência em probabilidade
\(\xi _n \rightarrow \xi \) q.c. implica \(\xi _n \rightarrow \xi \) em probabilidade.
Se \(\xi _n \rightarrow \xi \) em probabilidade, então existe uma subsequência \(\xi _{n_k} \rightarrow \xi \) quase certamente.
Suponha \(\xi _n\to \xi \) q.c. e fixe \(\epsilon \gt 0\). Ponha \(A_n=\{ |\xi _n-\xi |\gt \epsilon \} \) e \(B_N=\bigcup _{n\geq N}A_n\). Então \(B_N\downarrow \limsup _n A_n\), cuja probabilidade é zero pelo Teorema 10.13. Como \(\P (B_1)\leq 1\lt \infty \), a continuidade da probabilidade por cima dá \(\P (B_N)\downarrow 0\). Para \(n\geq N\), \(A_n\subset B_N\); logo \(\P (A_n)\to 0\).
Concluímos portanto que \( \xi _n \rightarrow \xi \) em probabilidade.
Suponha \( \xi _n \rightarrow \xi \) em probabilidade. Queremos encontrar uma subsequência que converge quase certamente.
Pela convergência em probabilidade, podemos escolher recursivamente \(n_1\lt n_2\lt \cdots \) de modo que
\[ \P \left(|\xi _{n_k}-\xi |\gt \frac1k\right)\lt 2^{-k}, \qquad k=1,2,\ldots . \]Como \(\sum _k2^{-k}\lt \infty \), o primeiro lema de Borel–Cantelli mostra que \(|\xi _{n_k}-\xi |\gt 1/k\) ocorre apenas finitas vezes, quase certamente. Portanto, \(\xi _{n_k}\to \xi \) quase certamente.
Convergência em \(\L ^p\) implica convergência em Probabilidade
Usando a desigualdade de Markov, temos, para todo \(\epsilon \gt 0\),
Vimos que se a sequência \(\xi _n\) converge em \(\L ^p\) para \(\xi \) então a sequência também converge em probabilidade, porém a recíproca nem sempre é verdadeira.
Toda subsequência \((\xi _{n_k})\) possui, pela parte anterior, uma subsubsequência \((\xi _{n_{k_j}})\) que converge para \(\xi \) quase certamente. Ao passar ao limite nessa subsubsequência, obtemos \(|\xi |\leq \eta \) quase certamente. Consequentemente,
O lado direito é integrável e o lado esquerdo converge quase certamente para zero. Pelo Teorema da Convergência Dominada, \(\mathbf{E}|\xi _{n_{k_j}}-\xi |^p\to 0\).
Assim, toda subsequência da sequência numérica \(a_n=\mathbf{E}|\xi _n-\xi |^p\) possui uma subsubsequência convergente a zero. Se \(a_n\) não convergisse a zero, haveria uma subsequência limitada inferiormente por alguma constante positiva, uma contradição. Logo \(a_n\to 0\).
Decompondo nos conjuntos \(\{ \xi _n\leq \xi \} \) e \(\{ \xi _n\gt \xi \} \),
Além disso, \(0\leq (\xi -\xi _n)\mathbb {1}_{\{ \xi _n\leq \xi \} }\leq \xi \), e esse termo converge quase certamente para zero. A convergência dominada e a hipótese sobre as esperanças mostram que os dois termos da última expressão tendem a zero.
Convergência em Probabilidade implica Convergência em Distribuição
Tome \(\epsilon \gt 0\) e note que, como \(\xi _n\xrightarrow {\P }\xi \), então
Fixado também \(\delta \gt 0\), existe \(n_0\geq 1\) tal que
para todo \(n\geq n_0\).
Se \(\xi _n\leq x\) e \(|\xi _n-\xi |\leq \epsilon \), então \(\xi \leq x+\epsilon \). Logo, para \(n\geq n_0\),
Concluímos assim que
para todo \(\epsilon \gt 0\).
De modo análogo, se \(\xi \leq x-\epsilon \) e \(|\xi _n-\xi |\leq \epsilon \), então \(\xi _n\leq x\). Portanto,
Segue então que para todo \(\epsilon \gt 0\),
Tomando \(x\) como ponto de continuidade de \(F_\xi \) e fazendo \(\epsilon \downarrow 0\), encontramos
concluindo o resultado.
O núcleo conceitual do capítulo termina aqui. As implicações acima dizem como os quatro modos se relacionam; os exemplos anteriores mostram por que as recíprocas falham sem hipóteses adicionais. A partir deste ponto, mudamos de pergunta: em vez de comparar definições, passamos a desenvolver ferramentas para reconhecer limites em distribuição e extrair subsequências convergentes.
10.4 Ferramentas para convergência de leis
Há dois mecanismos principais nesta segunda parte. Skorokhod permite realizar leis convergentes num espaço comum, com convergência quase certa. Helly e tightness fornecem compacidade: permitem extrair subsequências e impedir que massa escape para o infinito. Estas ferramentas, juntamente com o critério de unicidade de limites subsequenciais, serão usadas novamente no capítulo do Teorema do Limite Central.
10.4.1 Representação de Skorokhod
A convergência em distribuição compara leis, não trajetórias, e por isso não exige que as variáveis estejam no mesmo espaço. O Teorema de Representação de Skorokhod mostra até onde podemos inverter essa fraqueza: em um espaço adequado, é possível realizar cópias com as mesmas leis que convergem quase certamente.
Sejam \(F_n\) e \(F\) as funções de distribuição de \(\xi _n\) e \(\xi \), respectivamente. Em \((0,1)\), munido da medida de Lebesgue, considere a variável uniforme \(U(u)=u\) e defina
onde as estrelas denotam as inversas generalizadas. Pela Proposição 6.9, \(\xi _n'\stackrel d=\xi _n\) e \(\xi '\stackrel d=\xi \).
Resta provar a convergência quase certa. Fixe \(u\in (0,1)\) em que \(F^*\) é contínua e fixe \(\varepsilon \gt 0\). Como uma função monótona possui no máximo uma quantidade enumerável de descontinuidades, podemos escolher um ponto de continuidade \(x_-\) de \(F\) tal que
Pela caracterização \(F^*(u)\leq x\Longleftrightarrow u\leq F(x)\), a desigualdade \(x_-\lt F^*(u)\) implica \(F(x_-)\lt u\). Como \(F_n(x_-)\to F(x_-)\), temos \(F_n(x_-)\lt u\) para todo \(n\) suficientemente grande e, novamente pela mesma caracterização,
Daí, \(\liminf _nF_n^*(u)\geq F^*(u)\).
Para obter a desigualdade oposta, a continuidade de \(F^*\) em \(u\) permite escolher \(u'\in (u,1)\) tão próximo de \(u\) que \(F^*(u')\lt F^*(u)+\varepsilon /2\). Escolha então um ponto de continuidade \(x_+\) de \(F\) no intervalo
Como \(F^*(u')\leq x_+\), temos \(u'\leq F(x_+)\). Portanto, \(F_n(x_+)\to F(x_+)\) e, como \(u'\gt u\), vale \(F_n(x_+)\gt u\) para todo \(n\) suficientemente grande. Segue que
e assim \(\limsup _nF_n^*(u)\leq F^*(u)\). Concluímos que \(F_n^*(u)\to F^*(u)\) em todo ponto de continuidade de \(F^*\).
Pelo Corolário 6.11, o conjunto \(D_{F^*}\) das descontinuidades de \(F^*\) é no máximo enumerável. Como \(U\) é uniforme, \(\P (U\in D_{F^*})=0\). Logo
como queríamos.
10.4.2 Seleção de Helly, tightness e Prokhorov
O Princípio de Seleção de Helly fornece uma forma de compacidade para funções de distribuição, mas exige uma ressalva: o limite obtido pode perder massa no infinito e, portanto, não ser ele próprio uma função de distribuição.
Enumere os racionais como \(\mathbb {Q}=\{ q_1,q_2,\ldots \} \). Como cada sequência \((F_n(q_j))_{n\geq 1}\) toma valores em \([0,1]\), aplicações sucessivas de Bolzano–Weierstrass e o argumento diagonal fornecem uma subsequência \((F_{n_k})\) para a qual \(F_{n_k}(q)\) converge para todo \(q\in \mathbb {Q}\). Escreva
A monotonicidade das funções \(F_{n_k}\) implica que \(G\) é não decrescente.
Defina, para \(x\in \mathbb {R}\),
É imediato que \(F\) toma valores em \([0,1]\) e é não decrescente. Além disso, se \(L=\inf _{y\gt x}F(y)\), então \(L\geq F(x)\). Reciprocamente, dado \(\varepsilon \gt 0\), escolha \(q\in \mathbb {Q}\), \(q\gt x\), tal que \(G(q)\lt F(x)+\varepsilon \) e depois escolha \(y\) com \(x\lt y\lt q\). Como o racional \(q\) participa do ínfimo que define \(F(y)\),
Logo \(L=F(x)\), o que prova a continuidade à direita de \(F\).
Resta provar a convergência. Fixe \(x\in \mathbb {R}\) e \(\varepsilon \gt 0\). Pela definição de \(F(x)\), existe \(q\in \mathbb {Q}\), \(q\gt x\), tal que \(G(q)\lt F(x)+\varepsilon /2\). Para \(k\) suficientemente grande, \(F_{n_k}(q)\lt F(x)+\varepsilon \) e, pela monotonicidade,
Portanto, \(\limsup _kF_{n_k}(x)\leq F(x)\).
Suponha agora que \(x\) seja ponto de continuidade de \(F\). Escolha \(r\lt x\) de modo que \(F(r)\gt F(x)-\varepsilon /2\) e um racional \(q\) com \(r\lt q\lt x\). Da definição de \(F(r)\),
Para \(k\) suficientemente grande, \(F_{n_k}(q)\gt F(x)-\varepsilon \) e, novamente pela monotonicidade,
Assim, \(\liminf _kF_{n_k}(x)\geq F(x)\). As duas estimativas provam que \(F_{n_k}(x)\to F(x)\) em todo ponto de continuidade de \(F\).
O princípio de seleção de Helly diz que, dada \((F_n)_{n\geq 1}\), alguma subsequência \(F_{n_k}(x)\) converge para uma função \(F(x)\) em todos os pontos de continuidade de \(F\). A função limite é não decrescente e contínua à direita, mas ainda pode não ser uma função de distribuição.
Falta garantir que
O princípio de Helly, sozinho, não garante essas duas igualdades: à medida que \(n\) cresce, pode haver massa de probabilidade escapando para \(+\infty \) ou para \(-\infty \), como mostra o exemplo abaixo.
Se \(U\) é uniforme em \([0,1]\) e \(\delta ,\epsilon \gt 0\) satisfazem \(\delta +\epsilon \lt 1\), defina
para \(n\ge 1\).
Para todo \(t\gt 0\),
de modo que quando \(n\to \infty \) uma “massa” de probabilidade \(\epsilon \) está sendo perdida em \(+\infty \) e \(\delta \) em \(-\infty \).
Consequentemente,
que é uma função não-decrescente e contínua pela direita, mas não é uma função distribuição.
Uma forma de resolver esse problema é garantir que a massa de probabilidade fique quase toda contida em um intervalo limitado, uniformemente ao longo da sequência. Isto é, para todo \(\epsilon \gt 0\) devem existir \(a,b\in \mathbb {R}\) tais que \(\P (a\lt X_n\leq b)\gt 1-\epsilon \) para todo \(n\geq 1\).
Esta propriedade é denominada tightness e está precisamente definida abaixo.
Fixe \(\varepsilon \gt 0\) e escreva \(F_n\) e \(F\) para as funções de distribuição de \(X_n\) e \(X\). Escolha pontos de continuidade \(a\lt b\) de \(F\) tais que
Como \(F_n(a)\to F(a)\) e \(F_n(b)\to F(b)\), para todo \(n\) suficientemente grande,
Restam apenas finitos índices. Para cada um deles, a continuidade por baixo em \(\{ |X_j|\leq M\} \uparrow \Omega \) permite escolher um intervalo compacto que contenha massa maior que \(1-\varepsilon \). Tome então um único intervalo compacto que contenha todos esses intervalos e também \([a,b]\). Esse intervalo funciona simultaneamente para todo \(n\).
Seja \(F_n(x)=\P _n((-\infty ,x])\). Pelo princípio de seleção de Helly, existem uma subsequência \((F_{n_k})\) e uma função \(F:\mathbb {R}\to [0,1]\), não decrescente e contínua à direita, tais que \(F_{n_k}(x)\to F(x)\) em todo ponto de continuidade de \(F\).
Fixe \(\varepsilon \gt 0\). Pela tightness, existe \([a_0,b_0]\) tal que \(\P _n([a_0,b_0])\gt 1-\varepsilon \) para todo \(n\). Como \(F\) possui no máximo uma quantidade enumerável de descontinuidades, podemos escolher pontos de continuidade \(a\lt a_0\) e \(b\gt b_0\). Então
Se \(L_-:=\lim _{x\to -\infty }F(x)\) e \(L_+:=\lim _{x\to \infty }F(x)\), segue que \(L_+-L_-\geq 1-\varepsilon \). Como isso vale para todo \(\varepsilon \gt 0\) e \(0\leq L_-\leq L_+\leq 1\), necessariamente \(L_-=0\) e \(L_+=1\).
Portanto, \(F\) é uma função de distribuição. Pela Proposição 6.9, existe uma variável aleatória \(X\) com função de distribuição \(F\); seja \(\P \) a lei de \(X\). A convergência obtida nos pontos de continuidade de \(F\) é precisamente \(\P _{n_k}\Rightarrow \P \).
Assim, tomando \(X\) uma variável aleatória com função distribuição \(F\), mostramos o seguinte resultado.
A família das distribuições \((\P _{X_n})\) é tight. Pelo teorema anterior, alguma subsequência \((\P _{X_{n_k}})\) converge fracamente para uma medida de probabilidade \(\P \). No espaço canônico \((\mathbb {R},\mathcal{B}(\mathbb {R}),\P )\), a aplicação identidade define uma variável aleatória \(X\) com lei \(\P \). Pela definição de convergência em distribuição, \(X_{n_k}\xrightarrow dX\).
A tightness impede que a massa escape e garante limites ao menos ao longo de subsequências. Para obter a convergência da sequência inteira, resta mostrar que todas as subsequências convergentes conduzem ao mesmo limite.
Denote por \(F\) a função de distribuição de \(X\) e por \(F_n\) a de \(X_n\). Se \(X_n\) não convergisse em distribuição para \(X\), existiriam um ponto de continuidade \(x\) de \(F\), uma constante \(\epsilon \gt 0\) e uma subsequência \((n_k)\) tais que
A subsequência \((X_{n_k})\) continua tight. Pela Proposição 10.32, ela possui uma subsubsequência convergente em distribuição; pela hipótese, seu limite é \(X\). Logo \(F_{n_{k_i}}(x)\to F(x)\), contradizendo a desigualdade anterior.
Esses modos de convergência serão usados repetidamente nos teoremas-limite.
Seja \((\xi _n)_{n\geq 1}\) uma sequência de variáveis aleatórias tal que onde \(\lambda \gt 0\) e \(\operatorname {Ge}_0(p)\) conta o número de fracassos antes do primeiro sucesso. Defina \(\eta _n=\xi _n/n\). Calcule \(\P (\eta _n\gt x)\) e mostre que \(\eta _n\) converge em distribuição para uma variável exponencial de taxa \(\lambda \). Sejam \((\xi _n)\) e \((\eta _n)\) duas sequências de variáveis aleatórias definidas no mesmo espaço de probabilidade. Suponha que Prove que \(\xi _n+\eta _n\xrightarrow {\P }\xi +\eta \). Considere uma sequência \((\xi _n)\) tal que Mostre que: \(\xi _n\xrightarrow {\P }0\). \(\xi _n\xrightarrow {\L ^r}0\) para \(0\lt r\lt 2\). \(\xi _n\) não converge para zero em \(\L ^r\) para \(r\geq 2\). \(\xi _n\xrightarrow {q.c.}0\). Suponha que \(\xi _n\xrightarrow {\L ^r}\xi \) para \(r\geq 1\). Mostre que Suponha que \(\xi _n\xrightarrow d\xi \) e \(\eta _n\xrightarrow {\P }c\), onde \(c\) é constante. Prove que Prove o Teorema da Aplicação Contínua para a convergência em probabilidade: se \(g:\mathbb {R}\to \mathbb {R}\) é contínua, então Seja \((\xi _n)\) uma sequência de variáveis aleatórias mutuamente independentes que converge em probabilidade para \(\xi \). Mostre que \(\xi \) é constante quase certamente. Dica. Escolha duas subsequências com índices disjuntos. Seus pares permanecem independentes, mas convergem em probabilidade para \((\xi ,\xi )\). Conclua que duas cópias independentes com a lei de \(\xi \) são iguais quase certamente. Prove que, se \(\xi _n\xrightarrow {\L ^2}\xi \), então Mostre diretamente que a convergência em \(\L ^p\) implica convergência em probabilidade para todo \(p\gt 0\). Dê um contraexemplo para a recíproca, por exemplo quando \(p=1\). Considere variáveis aleatórias \(\xi _1,\xi _2,\ldots \) com funções de distribuição \(F_1,F_2,\ldots \). Suponha que \(\xi _n\xrightarrow d\xi \) e que a função de distribuição \(F\) de \(\xi \) seja contínua. Prove que \(F_n\to F\) uniformemente, isto é, Considere variáveis aleatórias de valores inteiros \(\xi _1,\xi _2,\ldots \) e uma variável aleatória \(\xi \) também de valores inteiros. Mostre que \(\xi _n\xrightarrow d\xi \) se, e somente se, Na volta, justifique por que a massa não pode escapar para o infinito. Considere variáveis aleatórias independentes \(\xi _1,\xi _2,\ldots \), uniformemente distribuídas em \([0,1]\), e defina \(Z_n=\max _{k\leq n}\xi _k\). Prove que \(Z_n\to 1\) em probabilidade. Prove que \(Z_n\to 1\) quase certamente. Da hipergeométrica à binomial. Para cada \(n\geq 5\), uma urna contém \(n\) bolas azuis e \(n\) bolas vermelhas. Retiram-se dez bolas, sem reposição, e \(X_n\) denota o número de bolas azuis retiradas. Determine a lei de \(X_n\) e prove que Ver solução
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Se \(\mu (\Omega )\lt \infty \) e \(f_n\to f\) quase certamente, prove que, para todo \(\varepsilon \gt 0\), existe \(A\) com \(\mu (A)\lt \varepsilon \) tal que \(f_n\to f\) uniformemente em \(A^c\).
Sugestão: para \(m,N\ge 1\), use
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\(Q_n(U)\) tem distribuição \(F_n\) e \(Q(U)\) tem distribuição \(F\);
se \(u\) é ponto de continuidade de \(Q\), então \(Q_n(u)\to Q(u)\);
consequentemente, \(Q_n(U)\to Q(U)\) quase certamente.
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Para \(k\) fixo, mostre que
\[ \mathbf{E}[(I_n)_k] =(n)_k(1-p_n)^{k(n-k)+\binom k2}. \]Prove que
\[ \mathbf{E}[(I_n)_k]\longrightarrow e^{-ck}. \]Use o critério de convergência por momentos fatoriais para concluir
\[ I_n\xrightarrow d\operatorname {Poisson}(e^{-c}). \]