Capítulo 14

Formas Bilineares

Uma transformação linear descreve uma dependência linear em uma única variável. Muitas construções naturais, porém, recebem dois vetores: o produto de polinômios, o produto de matrizes, o determinante em dimensão dois e as várias noções de ortogonalidade são exemplos desse fenômeno. A condição adequada não é pedir linearidade no par de variáveis, mas linearidade em cada uma delas quando a outra permanece fixa.

Em dimensão finita, uma forma bilinear é determinada por uma matriz. A relação com o espaço dual permite descrever sua degenerescência. Estudaremos, em seguida, as formas simétricas, alternadas e hermitianas, e sua classificação por decomposições em blocos ortogonais elementares.

Salvo indicação em contrário, todos os espaços vetoriais serão considerados sobre um mesmo corpo \(\mathbb {K}\). As formas hermitianas aparecerão apenas sobre \(\mathbb {C}\), sempre com a convenção adotada no Capítulo 6: linearidade na primeira variável e linearidade conjugada na segunda.

14.1 Aplicações Bilineares

Definição 14.1 (Aplicação Bilinear)
Sejam \(V\), \(W\) e \(Z\) espaços vetoriais sobre \(\mathbb {K}\). Uma aplicação
\[ F:V\times W\longrightarrow Z \]
é denominada aplicação bilinear, ou mapa bilinear, se for linear em cada variável separadamente. Explicitamente, para \(\bm {v}_1,\bm {v}_2\in V\), \(\bm {w}_1,\bm {w}_2\in W\) e \(\lambda _1,\lambda _2\in \mathbb {K}\),
\begin{align*} F(\lambda _1\bm {v}_1+\lambda _2\bm {v}_2,\bm {w}) & =\lambda _1F(\bm {v}_1,\bm {w})+\lambda _2F(\bm {v}_2,\bm {w}),\\ F(\bm {v},\lambda _1\bm {w}_1+\lambda _2\bm {w}_2) & =\lambda _1F(\bm {v},\bm {w}_1)+\lambda _2F(\bm {v},\bm {w}_2). \end{align*}

Fixar a segunda variável transforma \(F\) em uma aplicação linear de \(V\) em \(Z\); fixar a primeira transforma \(F\) em uma aplicação linear de \(W\) em \(Z\). Em particular,

\[ F(\bm {v},\vec0)=F(\vec0,\bm {w})=\vec0 \]

para todos \(\bm {v}\in V\) e \(\bm {w}\in W\).

Observação 14.2
Uma aplicação bilinear não é, em geral, uma transformação linear no espaço produto \(V\times W\). De fato, ao expandirmos \(F(\bm {v}_1+\bm {v}_2,\bm {w}_1+\bm {w}_2)\) aparecem também os termos cruzados \(F(\bm {v}_1,\bm {w}_2)\) e \(F(\bm {v}_2,\bm {w}_1)\). É justamente a presença desses termos que torna a bilinearidade diferente da linearidade usual.

Definição 14.3 (Forma Bilinear)

Uma aplicação bilinear \(g:V\times W\to \mathbb {K}\) é denominada forma bilinear em \(V\times W\). Quando \(V=W\), dizemos simplesmente que \(g\) é uma forma bilinear em \(V\).

Denotaremos por \(\operatorname {Bil}(V,W;Z)\) o conjunto das aplicações bilineares de \(V\times W\) em \(Z\) e escreveremos \(\operatorname {Bil}(V,W)\) quando \(Z=\mathbb {K}\).

Exemplo 14.4 (Formas definidas por matrizes)
Seja \(A\in \mathcal{M}_{m, n}(\mathbb {K})\). A aplicação
\[ g:\mathbb {K}^m\times \mathbb {K}^n\longrightarrow \mathbb {K}, \qquad g(\bm {x},\bm {y})=\bm {x}^{\mathrm{t}}A\bm {y}, \]
é bilinear. Por exemplo, se
\[ A= \begin{bmatrix} 1 & 2 & -1 \\ 0 & 3 & 4 \end{bmatrix}, \]
então
\[ g(\bm {x},\bm {y}) =x_1y_1+(2x_1+3x_2)y_2+(-x_1+4x_2)y_3. \]
A expressão deixa visível que, mantendo uma das variáveis fixa, obtemos uma combinação linear das coordenadas da outra.

Exemplo 14.5 (Multiplicação em uma álgebra)
Se \(A\) é uma álgebra sobre \(\mathbb {K}\), sua multiplicação
\[ A\times A\longrightarrow A,\qquad (a,b)\longmapsto ab, \]
é bilinear. Isso vale, por exemplo, para a multiplicação de polinômios em \(\mathbb {K}[x]\) e para a multiplicação de matrizes quadradas. Observe que o valor agora pertence à própria álgebra; portanto, trata-se de uma aplicação bilinear, mas não de uma forma bilinear.

Exemplo 14.6 (Aplicações com valores vetoriais)
Seja \(\underline{\textsc{z}}=(\bm {z}_1,\ldots ,\bm {z}_q)\) uma base de \(Z\) e sejam \(g_1,\ldots ,g_q\in \operatorname {Bil}(V,W)\). Então
\[ F(\bm {v},\bm {w})=\sum _{k=1}^q g_k(\bm {v},\bm {w})\bm {z}_k \]
define uma aplicação bilinear de \(V\times W\) em \(Z\). Assim, uma aplicação bilinear com valores em um espaço de dimensão finita pode ser estudada coordenada por coordenada.

Teorema 14.7
Com as operações definidas ponto a ponto, \(\operatorname {Bil}(V,W;Z)\) é um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\).

Demonstração

A aplicação nula é bilinear. Se \(F,G\in \operatorname {Bil}(V,W;Z)\) e \(c\in \mathbb {K}\), devemos verificar que \(F+G\) e \(cF\) continuam lineares em cada variável. Para a primeira variável, por exemplo,

\begin{align*} (F+G)(\lambda _1\bm {v}_1+\lambda _2\bm {v}_2,\bm {w}) & =F(\lambda _1\bm {v}_1+\lambda _2\bm {v}_2,\bm {w}) +G(\lambda _1\bm {v}_1+\lambda _2\bm {v}_2,\bm {w})\\ & =\lambda _1(F+G)(\bm {v}_1,\bm {w}) +\lambda _2(F+G)(\bm {v}_2,\bm {w}), \end{align*}

e

\[ (cF)(\lambda _1\bm {v}_1+\lambda _2\bm {v}_2,\bm {w}) =\lambda _1(cF)(\bm {v}_1,\bm {w}) +\lambda _2(cF)(\bm {v}_2,\bm {w}). \]

Os mesmos cálculos na segunda variável completam a verificação. As demais propriedades de espaço vetorial são herdadas do espaço de todas as funções de \(V\times W\) em \(Z\).

Proposição 14.8
Se \(F:V\times W\to Z\) é bilinear e \(T:Z\to U\) é linear, então \(T\circ F:V\times W\to U\) é bilinear.

Demonstração

Para a primeira variável,

\begin{align*} (T\circ F)(\lambda _1\bm {v}_1+\lambda _2\bm {v}_2,\bm {w}) & =T\bigl(\lambda _1F(\bm {v}_1,\bm {w}) +\lambda _2F(\bm {v}_2,\bm {w})\bigr)\\ & =\lambda _1(T\circ F)(\bm {v}_1,\bm {w}) +\lambda _2(T\circ F)(\bm {v}_2,\bm {w}). \end{align*}

A demonstração para a segunda variável é idêntica.

Teorema 14.9 (Critério por Coordenadas)
Seja \(\underline{\textsc{z}}=(\bm {z}_1,\ldots ,\bm {z}_q)\) uma base de \(Z\) e escreva
\[ F(\bm {v},\bm {w})=\sum _{k=1}^q F_k(\bm {v},\bm {w})\bm {z}_k. \]
Então \(F:V\times W\to Z\) é bilinear se, e somente se, cada função \(F_k:V\times W\to \mathbb {K}\) é uma forma bilinear.

Demonstração

Se \(\pi _k:Z\to \mathbb {K}\) é o funcional que fornece a \(k\)-ésima coordenada na base \(\underline{\textsc{z}}\), então \(F_k=\pi _k\circ F\). Logo, se \(F\) é bilinear, a Proposição 14.8 mostra que cada \(F_k\) é bilinear.

Reciprocamente, se todas as funções \(F_k\) são bilineares, a linearidade em cada variável de \(F\) segue da linearidade de cada coordenada e da unicidade da representação na base \(\underline{\textsc{z}}\).

14.2 Matrizes de Formas Bilineares

Como ocorre com as transformações lineares, uma forma bilinear em espaços de dimensão finita fica determinada por seus valores nos vetores de duas bases. A diferença é que agora há um índice para cada variável.

Definição 14.10 (Matriz de uma Forma Bilinear)
Sejam \(\underline{\textsc{v}}=(\bm {v}_1,\ldots ,\bm {v}_m)\) uma base de \(V\), \(\underline{\textsc{w}}=(\bm {w}_1,\ldots ,\bm {w}_n)\) uma base de \(W\) e \(g\in \operatorname {Bil}(V,W)\). A matriz de \(g\) em relação às bases \(\underline{\textsc{v}}\) e \(\underline{\textsc{w}}\) é
\[ [g]_{\underline{\textsc{v}},\underline{\textsc{w}}} =\bigl(g(\bm {v}_i,\bm {w}_j)\bigr)_{\substack {1\leq i\leq m\\ 1\leq j\leq n}}. \]
Essa matriz também é chamada de matriz de Gram de \(g\) nessas bases. Quando \(V=W\) e a mesma base \(\underline{\textsc{v}}\) é usada nas duas variáveis, escrevemos simplesmente \([g]_{\underline{\textsc{v}}}\).

Teorema 14.11 (Representação Matricial)
Se \(G=[g]_{\underline{\textsc{v}},\underline{\textsc{w}}}\), então, para todos \(\bm {v}\in V\) e \(\bm {w}\in W\),
\[ g(\bm {v},\bm {w}) =[\bm {v}]_{\underline{\textsc{v}}}^{\mathrm{t}} G[\bm {w}]_{\underline{\textsc{w}}}. \]
Reciprocamente, cada matriz \(G\in \mathcal{M}_{m, n}(\mathbb {K})\) define uma única forma bilinear em \(V\times W\) por essa fórmula.

Demonstração

Escreva

\[ \bm {v}=\sum _{i=1}^m x_i\bm {v}_i \qquad \text{e}\qquad \bm {w}=\sum _{j=1}^n y_j\bm {w}_j. \]

A bilinearidade permite expandir uma variável de cada vez:

\[ g(\bm {v},\bm {w}) =\sum _{i=1}^m\sum _{j=1}^n x_i y_j\, g(\bm {v}_i,\bm {w}_j). \]

Essa soma dupla é precisamente o produto matricial \([\bm {v}]_{\underline{\textsc{v}}}^{\mathrm{t}}G[\bm {w}]_{\underline{\textsc{w}}}\).

Reciprocamente, dado \(G\), o Exemplo 14.4 mostra que a fórmula define uma forma bilinear. Seus valores nos pares \((\bm {v}_i,\bm {w}_j)\) são as entradas de \(G\), de modo que a forma é única.

Exemplo 14.12
Considere \(V=\mathbb {K}_2[x]\), com a base \(\underline{\textsc{p}}=(1,x,x^2)\), e a forma
\[ g(p,q)=p(0)q(0)+p'(0)q'(0). \]
Se \(p=a+bx+cx^2\) e \(q=r+sx+tx^2\), então
\[ g(p,q)=ar+bs = \begin{bmatrix} a & b & c \end{bmatrix} \begin{bmatrix} 1 & 0 & 0 \\ 0 & 1 & 0 \\ 0 & 0 & 0 \end{bmatrix} \begin{bmatrix} r \\ s \\ t \end{bmatrix}. \]
A matriz torna visível que o termo de grau dois não é detectado por \(g\). Retomaremos essa observação ao estudar formas degeneradas.

Corolário 14.13
Se \(V\), \(W\) e \(Z\) têm dimensões finitas, então
\[ \dim \operatorname {Bil}(V,W;Z) =(\dim V)(\dim W)(\dim Z). \]
Em particular,
\[ \dim \operatorname {Bil}(V,W)=(\dim V)(\dim W) \quad \text{e}\quad \dim \operatorname {Bil}(V,V)=(\dim V)^2. \]

Demonstração

Escolhidas bases de \(V\), \(W\) e \(Z\), uma aplicação bilinear \(F:V\times W\to Z\) fica determinada pelos coeficientes das imagens \(F(\bm {v}_i,\bm {w}_j)\) na base de \(Z\). Há \((\dim V)(\dim W)(\dim Z)\) coeficientes, que podem ser escolhidos arbitrariamente. O critério por coordenadas garante que cada escolha produz uma aplicação bilinear.

Teorema 14.14 (Mudança de Bases)
Sejam \(\underline{\textsc{v}}\) e \(\underline{\textsc{v}}'\) bases de \(V\), e \(\underline{\textsc{w}}\) e \(\underline{\textsc{w}}'\) bases de \(W\). Defina
\[ P=\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{v'}}\to \underline{\textsc{v}}}, \qquad Q=\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{w'}}\to \underline{\textsc{w}}}. \]
Se \(G=[g]_{\underline{\textsc{v}},\underline{\textsc{w}}}\) e \(G'=[g]_{\underline{\textsc{v}}',\underline{\textsc{w}}'}\), então
\[ G'=P^{\mathrm{t}}GQ. \]

Demonstração

Pela definição das matrizes de mudança de base,

\[ [\bm {v}]_{\underline{\textsc{v}}}=P[\bm {v}]_{\underline{\textsc{v}}'} \qquad \text{e}\qquad [\bm {w}]_{\underline{\textsc{w}}}=Q[\bm {w}]_{\underline{\textsc{w}}'}. \]

Substituindo essas relações na representação matricial de \(g\), obtemos

\begin{align*} g(\bm {v},\bm {w}) & =[\bm {v}]_{\underline{\textsc{v}}}^{\mathrm{t}} G[\bm {w}]_{\underline{\textsc{w}}}\\ & =[\bm {v}]_{\underline{\textsc{v}}'}^{\mathrm{t}} P^{\mathrm{t}}GQ[\bm {w}]_{\underline{\textsc{w}}'}. \end{align*}

Pela unicidade da matriz que representa a forma nas novas bases, \(G'=P^{\mathrm{t}}GQ\).

Exemplo 14.15
Considere o produto escalar usual em \(\mathbb {R}^2\) e a base canônica \(\underline{\textsc{e}}\). Na base
\[ \underline{\textsc{v}}=(\bm {e}_1+\bm {e}_2,\bm {e}_1-\bm {e}_2), \]
a matriz de mudança de base é
\[ P= \begin{bmatrix} 1 & 1 \\ 1 & -1 \end{bmatrix}. \]
Como \(G=I_2\) na base canônica,
\[ [g]_{\underline{\textsc{v}}}=P^{\mathrm{t}}P= \begin{bmatrix} 2 & 0 \\ 0 & 2 \end{bmatrix}. \]
A forma não mudou; mudou apenas sua matriz. Os vetores da nova base são ortogonais, mas têm norma \(\sqrt2\).

Observação 14.16
Quando \(V=W\) e usamos a mesma mudança de base nas duas variáveis, a transformação \(G\mapsto P^{\mathrm{t}}GP\) é chamada de congruência. Diferentemente da semelhança \(A\mapsto P^{-1}AP\), ela é a mudança de coordenadas apropriada para formas bilineares.

14.3 Dualidade e Degenerescência

Uma forma bilinear determina uma transformação linear com valores no espaço dual: fixada uma das entradas, a outra permanece como argumento de um funcional. Essa correspondência relaciona o estudo das formas bilineares ao das transformações lineares.

Teorema 14.17 (Dualidade das Formas Bilineares)
Para quaisquer espaços vetoriais \(V\) e \(W\), existem isomorfismos naturais
\[ \operatorname {Bil}(V,W) \cong \operatorname {Hom}(V,W^\ast ) \qquad \text{e}\qquad \operatorname {Bil}(V,W) \cong \operatorname {Hom}(W,V^\ast ). \]
Esses isomorfismos não dependem de escolhas de bases nem da hipótese de dimensão finita.

Demonstração

A uma forma \(g\in \operatorname {Bil}(V,W)\) associamos a transformação

\[ g_L:V\longrightarrow W^\ast , \qquad g_L(\bm {v})(\bm {w})=g(\bm {v},\bm {w}). \]

Para cada \(\bm {v}\), a função \(g_L(\bm {v})\) é um funcional em \(W\) porque \(g\) é linear na segunda variável. A linearidade de \(g_L\) segue da linearidade de \(g\) na primeira variável.

Reciprocamente, se \(T\in \operatorname {Hom}(V,W^\ast )\), definimos

\[ g_T(\bm {v},\bm {w})=T(\bm {v})(\bm {w}). \]

A linearidade de \(T\) fornece a linearidade na primeira variável, e o fato de \(T(\bm {v})\) ser um funcional fornece a linearidade na segunda. Logo, \(g_T\) é bilinear. As construções \(g\mapsto g_L\) e \(T\mapsto g_T\) são lineares e inversas entre si.

O segundo isomorfismo é obtido do mesmo modo, associando a \(g\) a

\[ g_R:W\longrightarrow V^\ast , \qquad g_R(\bm {w})(\bm {v})=g(\bm {v},\bm {w}). \]

Definição 14.18 (Radicais)
Se \(g\in \operatorname {Bil}(V,W)\), definimos o radical esquerdo e o radical direito de \(g\) por
\begin{align*} \operatorname {Rad}_{\! E}(g) & =\{ \bm {v}\in V\mid g(\bm {v},\bm {w})=0 \text{ para todo }\bm {w}\in W\} ,\\ \operatorname {Rad}_{\! D}(g) & =\{ \bm {w}\in W\mid g(\bm {v},\bm {w})=0 \text{ para todo }\bm {v}\in V\} . \end{align*}

Pelo Teorema 14.17,

\[ \operatorname {Rad}_{\! E}(g)=\ker g_L \qquad \text{e}\qquad \operatorname {Rad}_{\! D}(g)=\ker g_R. \]

Em particular, ambos são subespaços. Essa identificação caracteriza os radicais pelos vetores que anulam a forma quando colocados, respectivamente, na primeira ou na segunda entrada.

Proposição 14.19 (Radicais e Matriz)
Suponha que \(V\) e \(W\) tenham dimensão finita e seja \(G=[g]_{\underline{\textsc{v}},\underline{\textsc{w}}}\). Então
\[ [\operatorname {Rad}_{\! E}(g)]_{\underline{\textsc{v}}}=\ker (G^{\mathrm{t}}) \qquad \text{e}\qquad [\operatorname {Rad}_{\! D}(g)]_{\underline{\textsc{w}}}=\ker G. \]
Consequentemente,
\begin{align*} \dim \operatorname {Rad}_{\! E}(g)& =\dim V-\operatorname {posto}G,\\ \dim \operatorname {Rad}_{\! D}(g)& =\dim W-\operatorname {posto}G. \end{align*}

Demonstração

Um vetor \(\bm {v}\) pertence ao radical esquerdo se, e somente se,

\[ [\bm {v}]_{\underline{\textsc{v}}}^{\mathrm{t}} G[\bm {w}]_{\underline{\textsc{w}}}=0 \]

para toda coluna \([\bm {w}]_{\underline{\textsc{w}}}\). Isso equivale a \(G^{\mathrm{t}}[\bm {v}]_{\underline{\textsc{v}}}=\vec0\). A afirmação sobre o radical direito é análoga. As fórmulas das dimensões seguem do teorema do núcleo e da imagem.

Exemplo 14.20
Considere a forma em \(\mathbb {R}^2\) cuja matriz canônica é
\[ G= \begin{bmatrix} 0 & 1 \\ 0 & 0 \end{bmatrix}. \]
Então \(g(\bm {x},\bm {y})=x_1y_2\) e
\[ \operatorname {Rad}_{\! E}(g)=\langle \bm {e}_2\rangle , \qquad \operatorname {Rad}_{\! D}(g)=\langle \bm {e}_1\rangle . \]
Esse exemplo mostra que os dois radicais podem ser diferentes. No Exemplo 14.12, por outro lado, a matriz é simétrica e ambos os radicais são \(\langle x^2\rangle \).

Definição 14.21 (Forma Não Degenerada)
Uma forma \(g\in \operatorname {Bil}(V,W)\) é não degenerada se
\[ \operatorname {Rad}_{\! E}(g)=\{ \vec0\} \qquad \text{e}\qquad \operatorname {Rad}_{\! D}(g)=\{ \vec0\} . \]
Caso contrário, \(g\) é denominada degenerada.

Proposição 14.22
Se \(V\) tem dimensão finita e \(g\) é uma forma bilinear em \(V\), as seguintes afirmações são equivalentes:
  1. \(g\) é não degenerada;

  2. \(\operatorname {Rad}_{\! E}(g)=\{ \vec0\} \);

  3. \(\operatorname {Rad}_{\! D}(g)=\{ \vec0\} \);

  4. \(g_L:V\to V^\ast \) é um isomorfismo;

  5. a matriz de \(g\) em alguma — e, portanto, em toda — base é invertível.

Demonstração

Em uma base qualquer, os radicais correspondem aos núcleos de \(G^{\mathrm{t}}\) e \(G\). Como \(G\) é quadrada,

\[ \ker G=\{ \vec0\} \quad \Longleftrightarrow \quad \det G\neq 0 \quad \Longleftrightarrow \quad \ker G^{\mathrm{t}}=\{ \vec0\} . \]

Além disso, \(\ker g_L=\operatorname {Rad}_{\! E}(g)\) e \(\dim V=\dim V^\ast \); assim, \(g_L\) é injetiva se, e somente se, é um isomorfismo. Isso prova todas as equivalências.

Observação 14.23
Se \(g\in \operatorname {Bil}(V,W)\) é não degenerada e \(V,W\) têm dimensão finita, então a Proposição 14.19 implica \(\dim V=\operatorname {posto}G=\dim W\). Portanto, uma forma não degenerada entre dois espaços de dimensões diferentes não pode existir.

14.4 Simetria, Alternância e Formas Hermitianas

Até aqui as duas entradas de uma forma desempenharam papéis independentes. Quando ambas pertencem ao mesmo espaço, podemos compará-las e impor condições de simetria.

Definição 14.24 (Transposta de uma Forma)
Se \(g\) é uma forma bilinear em \(V\), sua forma transposta é
\[ g^{\mathrm{t}}(\bm {u},\bm {v})=g(\bm {v},\bm {u}). \]

Definição 14.25
Uma forma bilinear \(g\) em \(V\) é
  1. simétrica se \(g(\bm {u},\bm {v})=g(\bm {v},\bm {u})\);

  2. antissimétrica se \(g(\bm {u},\bm {v})=-g(\bm {v},\bm {u})\);

  3. alternada se \(g(\bm {v},\bm {v})=0\) para todo \(\bm {v}\in V\).

Uma forma simplética é uma forma bilinear alternada e não degenerada.

Definição 14.26 (Forma Sesquilinear e Forma Hermitiana)
Seja \(V\) um espaço vetorial complexo. Uma aplicação \(h:V\times V\to \mathbb {C}\) é uma forma sesquilinear se for linear na primeira variável e linear conjugada na segunda:
\[ h(\bm {u},\lambda _1\bm {v}_1+\lambda _2\bm {v}_2) =\overline{\lambda _1}h(\bm {u},\bm {v}_1) +\overline{\lambda _2}h(\bm {u},\bm {v}_2). \]
A forma adjunta de \(h\) é
\[ h^\ast (\bm {u},\bm {v})=\overline{h(\bm {v},\bm {u})}. \]
Dizemos que \(h\) é hermitiana se \(h^\ast =h\). Nesse caso, \(h(\bm {v},\bm {v})\) é real para todo \(\bm {v}\in V\).

Observação 14.27
Formas hermitianas não são formas bilineares complexas: a segunda variável é conjugado-linear. Essa distinção é indispensável. Neste livro, a expressão produto interno continua reservada às formas simétricas positivas definidas sobre \(\mathbb {R}\) e às formas hermitianas positivas definidas sobre \(\mathbb {C}\), como no Capítulo 6. As definições de radical e de não degenerescência se estendem literalmente às formas sesquilineares; para uma forma hermitiana, os radicais esquerdo e direito coincidem.

Proposição 14.28
Seja \(g\) uma forma bilinear em \(V\).
  1. Se \(g\) é alternada, então \(g\) é antissimétrica.

  2. Se \(\operatorname {char}(\mathbb {K})\neq 2\) e \(g\) é antissimétrica, então \(g\) é alternada.

  3. Se \(\operatorname {char}(\mathbb {K})=2\), as condições de simetria e antissimetria coincidem, mas não implicam alternância.

Demonstração

Se \(g\) é alternada, então

\[ 0=g(\bm {u}+\bm {v},\bm {u}+\bm {v}) =g(\bm {u},\bm {v})+g(\bm {v},\bm {u}), \]

pois os termos diagonais são nulos. Logo, \(g(\bm {u},\bm {v})=-g(\bm {v},\bm {u})\).

Reciprocamente, se \(g\) é antissimétrica,

\[ g(\bm {v},\bm {v})=-g(\bm {v},\bm {v}), \]

e, portanto, \(2g(\bm {v},\bm {v})=0\). Quando a característica é diferente de \(2\), segue que \(g(\bm {v},\bm {v})=0\).

Em característica \(2\), temos \(-1=1\), de modo que simetria e antissimetria expressam a mesma igualdade, mas essa igualdade não força os valores diagonais a serem nulos. Por exemplo, a forma em \(\mathbb {K}^2\) dada por

\[ g\bigl((x_1,x_2),(y_1,y_2)\bigr)=x_1y_1 \]

tem matriz \(\left[\begin{smallmatrix} 1 & 0 \\ 0 & 0 \end{smallmatrix}\right]\). Ela é simétrica e, portanto, também antissimétrica em característica \(2\), mas \(g(\bm {e}_1,\bm {e}_1)=1\); logo não é alternada.

Proposição 14.29 (Partes Simétrica e Antissimétrica)
Se \(\operatorname {char}(\mathbb {K})\neq 2\), toda forma bilinear \(g\) se decompõe de maneira única como
\[ g=g_s+g_a, \qquad g_s=\frac12(g+g^{\mathrm{t}}), \qquad g_a=\frac12(g-g^{\mathrm{t}}), \]
onde \(g_s\) é simétrica e \(g_a\) é alternada.

Demonstração

As identidades \(g_s^{\mathrm{t}}=g_s\) e \(g_a^{\mathrm{t}}=-g_a\) seguem diretamente das definições; pela Proposição 14.28, \(g_a\) é alternada. Além disso, \(g_s+g_a=g\).

Se \(g=s+a\) com \(s\) simétrica e \(a\) antissimétrica, então \(g^{\mathrm{t}}=s-a\). Somando e subtraindo as duas igualdades, obtemos necessariamente \(s=g_s\) e \(a=g_a\).

A função \(q_g:V\to \mathbb {K}\) definida por \(q_g(\bm {v})=g(\bm {v},\bm {v})\) é a forma quadrática associada a \(g\). Quando \(g\) é simétrica e \(\operatorname {char}(\mathbb {K})\neq 2\), a identidade de polarização

\[ g(\bm {u},\bm {v}) =\frac12\bigl(q_g(\bm {u}+\bm {v})-q_g(\bm {u})-q_g(\bm {v})\bigr) \]

mostra que os valores diagonais determinam toda a forma. Para uma forma bilinear arbitrária, esses valores enxergam apenas sua parte simétrica: a parte alternada desaparece em \(g(\bm {v},\bm {v})\).

Teorema 14.30 (Caracterização Matricial)
Se \(G=[g]_{\underline{\textsc{v}}}\), então:
  1. \([g^{\mathrm{t}}]_{\underline{\textsc{v}}}=G^{\mathrm{t}}\);

  2. \(g\) é simétrica se, e somente se, \(G^{\mathrm{t}}=G\);

  3. \(g\) é antissimétrica se, e somente se, \(G^{\mathrm{t}}=-G\);

  4. \(g\) é alternada se, e somente se, \(G^{\mathrm{t}}=-G\) e todas as entradas diagonais de \(G\) são nulas.

Se \(h\) é sesquilinear e sua matriz \(H\) é definida pela fórmula
\[ h(\bm {u},\bm {v}) =[\bm {u}]_{\underline{\textsc{v}}}^{\mathrm{t}} H\, \overline{[\bm {v}]_{\underline{\textsc{v}}}}, \]
então \(h\) é hermitiana se, e somente se, \(\overline{H}^{\mathrm{t}}=H\).

Demonstração

A entrada \((i,j)\) da matriz de \(g^{\mathrm{t}}\) é \(g^{\mathrm{t}}(\bm {v}_i,\bm {v}_j)=g(\bm {v}_j,\bm {v}_i)\), que é a entrada \((j,i)\) de \(G\). Isso prova o primeiro item, e os dois itens seguintes seguem imediatamente.

Se \(g\) é alternada, ela é antissimétrica e \(g(\bm {v}_i,\bm {v}_i)=0\) para todo \(i\). Reciprocamente, se \(G^{\mathrm{t}}=-G\) e sua diagonal é nula, então, para \(\bm {x}=(x_1,\ldots ,x_n)^{\mathrm{t}}\), os termos \(g_{ij}x_ix_j\) e \(g_{ji}x_jx_i\) se cancelam aos pares, enquanto os termos diagonais são nulos. Logo \(\bm {x}^{\mathrm{t}}G\bm {x}=0\).

No caso sesquilinear, a mesma comparação de entradas mostra que a matriz da forma adjunta é \(\overline H^{\mathrm{t}}\).

Exemplo 14.31 (Uma forma integral)
No espaço real \(C[a,b]\), seja \(w:[a,b]\to \mathbb {R}\) uma função contínua fixa. A expressão
\[ g(f_1,f_2)=\int _a^b w(x)f_1(x)f_2(x)\, dx \]
define uma forma bilinear simétrica. Se \(w(x)\gt 0\) em todo o intervalo, ela é positiva definida; se \(w\) muda de sinal, a forma continua simétrica, mas pode deixar de ser um produto interno.

Exemplo 14.32 (Polarização do determinante)
Para \(A,B\in \mathcal{M}_{2, 2}(\mathbb {K})\), defina
\[ g(A,B)=\det (A+B)-\det A-\det B. \]
Escrevendo \(A=(a_{ij})\) e \(B=(b_{ij})\), obtemos
\[ g(A,B)=a_{11}b_{22}+a_{22}b_{11} -a_{12}b_{21}-a_{21}b_{12}. \]
Portanto, \(g\) é uma forma bilinear simétrica. Além disso, \(g(A,A)=2\det A\): a forma recupera, por polarização, a forma quadrática dada pelo determinante em dimensão dois.

Exemplo 14.33 (Espaço de Minkowski)
Em \(\mathbb {R}^4\), a forma
\[ g(\bm {x},\bm {y}) =x_1y_1+x_2y_2+x_3y_3-x_4y_4 \]
é simétrica e não degenerada, mas não é positiva definida. Sua matriz canônica é \(\operatorname {diag}(1,1,1,-1)\). Vetores não nulos podem satisfazer \(g(\bm {x},\bm {x})=0\); por exemplo, \((1,0,0,1)\). Esses vetores são chamados de isotrópicos ou tipo luz.

Exemplo 14.34 (Forma simplética padrão)
Escreva os vetores de \(\mathbb {K}^{2n}\) como pares \((\bm {x},\vec{p})\), com \(\bm {x},\vec{p}\in \mathbb {K}^n\). A forma
\[ \omega \bigl((\bm {x},\vec{p}),(\bm {y},\vec{q})\bigr) =\bm {x}^{\mathrm{t}}\vec{q}-\vec{p}^{\mathrm{t}}\bm {y} \]
tem matriz
\[ J= \begin{bmatrix} 0 & I_n \\ -I_n & 0 \end{bmatrix}. \]
Ela é alternada e, como \(J\) é invertível, não degenerada. Portanto, \(\omega \) é uma forma simplética.

14.5 Ortogonalidade

Para uma forma bilinear arbitrária, a igualdade \(g(\bm {u},\bm {v})=0\) não implica necessariamente \(g(\bm {v},\bm {u})=0\). Nas formas simétricas, alternadas e hermitianas, entretanto, uma igualdade implica a outra. Nessas três classes, a ortogonalidade é uma relação simétrica.

Definição 14.35 (Ortogonalidade e Complemento Ortogonal)

Seja \(V\) munido de uma forma simétrica, alternada ou hermitiana. Dizemos que \(\bm {u},\bm {v}\in V\) são ortogonais se \(g(\bm {u},\bm {v})=0\), e escrevemos \(\bm {u}\perp \bm {v}\).

Se \(U\subseteq V\) é um subespaço, seu complemento ortogonal é

\[ U^\perp =\{ \bm {v}\in V\mid g(\bm {u},\bm {v})=0 \text{ para todo }\bm {u}\in U\} . \]

O complemento ortogonal é sempre um subespaço. Além disso, \(V^\perp =\operatorname {Rad}(g)\), onde, para as formas consideradas nesta seção, os radicais esquerdo e direito coincidem.

Definição 14.36
A restrição de \(g\) a \(U\) é a forma
\[ g\mathord {\upharpoonright }_{U\times U}:U\times U\longrightarrow \mathbb {K}. \]
Dizemos que \(U\) é um subespaço não degenerado se essa restrição for não degenerada. Equivalentemente,
\[ U\cap U^\perp =\{ \vec0\} . \]

Exemplo 14.37 (Uma reta isotrópica)
Considere em \(\mathbb {R}^2\) a forma
\[ g(\bm {x},\bm {y})=x_1y_1-x_2y_2 \]
e o subespaço \(U=\langle (1,1)\rangle \). Como \(g((1,1),(1,1))=0\), temos \(U\subseteq U^\perp \). Uma conta direta mostra que \(U^\perp =U\). Assim, embora a forma em \(\mathbb {R}^2\) seja não degenerada, sua restrição a \(U\) é degenerada e não existe decomposição \(\mathbb {R}^2=U\oplus U^\perp \). A hipótese de não degenerescência no próximo teorema é, portanto, essencial.

Teorema 14.38 (Decomposição Ortogonal)
Seja \(V\) um espaço de dimensão finita munido de uma forma simétrica, alternada ou hermitiana.
  1. Se \(U\subseteq V\) é não degenerado, então

    \[ V=U\oplus U^\perp . \]
  2. Se a forma em \(V\) é não degenerada, então, para todo subespaço \(U\subseteq V\),

    \[ \dim U^\perp =\dim V-\dim U \qquad \text{e}\qquad (U^\perp )^\perp =U. \]

Demonstração

Considere a aplicação

\[ T:V\longrightarrow U^\ast , \qquad T(\bm {v})(\bm {u})=g(\bm {u},\bm {v}). \]

No caso bilinear, \(T\) é linear; no caso hermitiano, é conjugado-linear. Neste último caso, podemos considerar \(T\) como uma transformação linear do espaço conjugado \(\overline V\) em \(U^\ast \); as dimensões de \(V\) e \(\overline V\) são iguais. Em ambos os casos, portanto, seu núcleo é \(U^\perp \) e vale a fórmula do núcleo e da imagem.

Se a restrição de \(g\) a \(U\) é não degenerada, a restrição de \(T\) a \(U\) é uma bijeção de \(U\) em \(U^\ast \) — conjugado-linear no caso hermitiano. Logo, \(T\) é sobrejetiva e

\[ \dim U^\perp =\dim \ker T=\dim V-\dim U. \]

Como \(U\cap U^\perp =\{ \vec0\} \), as dimensões mostram que \(V=U\oplus U^\perp \).

Agora suponha que a forma em \(V\) seja não degenerada. A aplicação associada de \(V\) em \(V^\ast \) é uma bijeção; compondo-a com a restrição \(V^\ast \to U^\ast \), vemos que \(T\) é sobrejetiva para qualquer \(U\). Portanto, \(\dim U^\perp =\dim V-\dim U\). A inclusão \(U\subseteq (U^\perp )^\perp \) é imediata, e

\[ \dim (U^\perp )^\perp =\dim V-\dim U^\perp =\dim U. \]

A inclusão entre subespaços de mesma dimensão é uma igualdade.

Observação 14.39
Em um espaço simplético, toda reta é degenerada, pois \(\omega (\bm {v},\bm {v})=0\). Por isso, a decomposição simplética começa com planos não degenerados, e não com retas. Essa diferença será decisiva na classificação.

14.6 Classificação

A congruência compara as matrizes de duas formas após mudanças de base; a noção intrínseca correspondente é a de isometria.

Definição 14.40 (Isometria)
Sejam \((V,g)\) e \((W,h)\) espaços munidos de formas do mesmo tipo. Uma isometria de \((V,g)\) em \((W,h)\) é um isomorfismo linear \(T:V\to W\) tal que
\[ h(T\bm {u},T\bm {v})=g(\bm {u},\bm {v}) \]
para todos \(\bm {u},\bm {v}\in V\). Quando existe uma isometria, dizemos que as formas, ou os espaços correspondentes, são isométricos.

Se duas bases são relacionadas por uma matriz \(P\), o Teorema 14.14 mostra que as matrizes de uma forma bilinear são relacionadas por

\[ G'=P^{\mathrm{t}}GP. \]

No caso hermitiano, com nossa convenção de linearidade na primeira variável, a relação correspondente é

\[ H'=P^{\mathrm{t}}H\overline P. \]

Assim, classificar formas equivale a classificar matrizes por congruência.

14.6.1 Os Blocos Elementares

Em dimensão um, uma forma bilinear simétrica tem a expressão

\[ g(x\bm {v},y\bm {v})=a\, xy, \qquad a=g(\bm {v},\bm {v}). \]

Se substituímos \(\bm {v}\) por \(c\bm {v}\), o coeficiente \(a\) é substituído por \(c^2a\). Portanto, sobre um corpo arbitrário, os blocos unidimensionais não nulos são classificados pelas classes de \(\mathbb {K}^\ast /(\mathbb {K}^\ast )^2\). Em particular:

  • sobre \(\mathbb {R}\), todo bloco não nulo é isométrico a \(xy\) ou a \(-xy\);

  • sobre \(\mathbb {C}\), todo bloco bilinear simétrico não nulo é isométrico a \(xy\).

Para uma forma hermitiana em uma reta complexa,

\[ h(z\bm {v},w\bm {v})=a\, z\overline w, \]

onde \(a=h(\bm {v},\bm {v})\in \mathbb {R}\). A troca \(\bm {v}\mapsto c\bm {v}\) multiplica \(a\) por \(|c|^2\); logo os blocos não nulos são \(z\overline w\) e \(-z\overline w\).

Uma forma alternada é nula em toda reta. Seu primeiro bloco não trivial tem dimensão dois:

\[ \omega \bigl((x_1,x_2),(y_1,y_2)\bigr)=x_1y_2-x_2y_1, \qquad J= \begin{bmatrix} 0 & 1 \\ -1 & 0 \end{bmatrix}. \]

Esse plano é não degenerado e será o bloco básico da geometria simplética.

Teorema 14.41 (Decomposição em Blocos)
Seja \(V\) um espaço vetorial de dimensão finita.
  1. Se \(g\) é uma forma bilinear simétrica e \(\operatorname {char}(\mathbb {K})\neq 2\), existe uma base na qual

    \[ [g]=\operatorname {diag}(a_1,\ldots ,a_s,0_{n-s}), \qquad a_i\neq 0. \]
  2. Se \(h\) é uma forma hermitiana em um espaço complexo, existe uma base na qual

    \[ [h]=\operatorname {diag}(I_p,-I_q,0_r). \]

    Nesse caso, \(p+q+r=\dim V\).

  3. Se \(\omega \) é uma forma alternada, existe uma base na qual

    \[ [\omega ] =\operatorname {diag}( \underbrace{J,\ldots ,J}_{s\text{ blocos}}, 0_r). \]

    Nesse caso, \(2s+r=\dim V\).

Demonstração

A ideia é a mesma nos três casos: encontrar um pequeno subespaço não degenerado, separá-lo por meio do Teorema 14.38 e aplicar indução ao complemento ortogonal.

No caso simétrico, suponha que \(g\) não seja nula. A identidade de polarização mostra que existe \(\bm {v}\in V\) com \(g(\bm {v},\bm {v})\neq 0\); caso contrário, \(g\) seria identicamente nula. A reta \(U=\langle \bm {v}\rangle \) é não degenerada. Logo \(V=U\oplus U^\perp \), e repetimos o argumento em \(U^\perp \). Quando a restrição restante se torna nula, completamos a base com uma base de seu radical. Isso produz a matriz diagonal do item a.

Para uma forma hermitiana não nula, também existe \(\bm {v}\) com \(h(\bm {v},\bm {v})\neq 0\). De fato, se todos os valores diagonais fossem nulos, as expansões de \(h(\bm {u}+\bm {v},\bm {u}+\bm {v})\) e \(h(\bm {u}+i\bm {v},\bm {u}+i\bm {v})\) mostrariam, respectivamente, que as partes real e imaginária de \(h(\bm {u},\bm {v})\) são nulas. A reta gerada por \(\bm {v}\) é, portanto, não degenerada. Após multiplicar \(\bm {v}\) por um escalar adequado, fazemos \(h(\bm {v},\bm {v})\) igual a \(1\) ou \(-1\). Decompomos novamente \(V=U\oplus U^\perp \) e aplicamos indução.

Finalmente, suponha que \(\omega \) seja alternada e não nula. Existem \(\bm {u},\bm {v}\) com \(\omega (\bm {u},\bm {v})\neq 0\). Reescalando \(\bm {u}\), podemos supor que \(\omega (\bm {u},\bm {v})=1\). Os vetores \(\bm {u},\bm {v}\) são linearmente independentes, e a matriz da restrição ao plano \(U=\langle \bm {u},\bm {v}\rangle \) é \(J\); em particular, \(U\) é não degenerado. Assim, \(V=U\oplus U^\perp \), e a indução fornece os demais blocos. A parte restante, quando nula, é o radical.

Corolário 14.42
Todo espaço simplético de dimensão finita tem dimensão par.

Demonstração

Se a forma alternada é não degenerada, não há bloco nulo na decomposição do Teorema 14.41. Como cada bloco \(J\) tem dimensão dois, \(\dim V=2s\).

14.6.2 Invariantes e Teorema de Inércia

A decomposição do teorema anterior não é única: há muitas bases ortogonais possíveis. O número de blocos de cada tipo, contudo, não depende da base.

Definição 14.43 (Índices de Inércia)
Para uma forma simétrica real ou hermitiana complexa, escrevemos
\[ [g]=\operatorname {diag}(I_p,-I_q,0_r) \]
em uma base adequada, com \(p+q+r=\dim V\). Os números \(p\), \(q\) e \(r\) são chamados, respectivamente, de índice positivo, índice negativo e índice de nulidade. A tripla \((p,q,r)\) é a inércia da forma. Quando \(r=0\), é comum chamar o par \((p,q)\) de assinatura; outra convenção chama \(p-q\) de assinatura.

Teorema 14.44 (Teorema de Inércia)
Em dimensão finita:
  1. uma forma bilinear simétrica real é determinada, a menos de isometria, por sua inércia \((p,q,r)\);

  2. uma forma hermitiana complexa é determinada, a menos de isometria, por sua inércia \((p,q,r)\);

  3. uma forma bilinear simétrica complexa é determinada, a menos de isometria, por sua dimensão e seu posto;

  4. uma forma alternada sobre \(\mathbb {K}\) é determinada, a menos de isometria, por sua dimensão e seu posto, sendo este sempre par.

Demonstração

A existência das formas normais segue do Teorema 14.41. No caso real simétrico, cada coeficiente diagonal não nulo pode ser normalizado para \(1\) ou \(-1\). No caso hermitiano, os coeficientes diagonais são reais e a mesma normalização é possível. No caso bilinear simétrico complexo, todo número complexo não nulo possui raiz quadrada, de modo que todos os coeficientes não nulos podem ser normalizados para \(1\). A forma alternada já aparece em blocos \(J\).

Resta justificar a unicidade de \(p\) e \(q\) nos dois primeiros casos. Considere uma decomposição

\[ V=V_+\oplus V_-\oplus V_0 \]

na qual a forma é positiva definida em \(V_+\), negativa definida em \(V_-\) e nula em \(V_0\). Se \(L\subseteq V\) é um subespaço no qual a forma é positiva definida, a projeção \(L\to V_+\) é injetiva. De fato, um vetor não nulo no núcleo dessa projeção pertenceria a \(V_-\oplus V_0\) e teria valor quadrático menor ou igual a zero, uma contradição. Logo, \(\dim L\leq \dim V_+=p\). Como \(V_+\) tem dimensão \(p\), esse número é a maior dimensão possível de um subespaço positivo definido e, portanto, é intrínseco à forma. O mesmo argumento aplicado a \(-g\) mostra que \(q\) também é intrínseco. Por fim, \(r=\dim \operatorname {Rad}(g)\).

Nos itens c e d, o posto determina o número de blocos não nulos: um por coordenada no caso simétrico complexo e metade do posto no caso alternado. A dimensão determina então o tamanho do bloco nulo. Formas com os mesmos invariantes possuem a mesma matriz normal e, por isso, são isométricas.

Exemplo 14.45 (Cálculo da inércia)
Considere em \(\mathbb {R}^3\) a forma quadrática
\[ q(x,y,z)=2x^2+2xy+2y^2-z^2. \]
Completando o quadrado,
\[ q(x,y,z) =2\left(x+\frac{y}{2}\right)^2+\frac32y^2-z^2. \]
A mudança de coordenadas é invertível e exibe duas direções positivas e uma negativa. Portanto, a forma bilinear simétrica associada tem inércia \((2,1,0)\). O Teorema 14.44 garante que nenhuma outra mudança de base pode alterar esses três números.

A representação por matrizes e a congruência permitem formular a classificação das formas em coordenadas. A decomposição ortogonal reduz suas matrizes a blocos elementares, cujos invariantes distinguem as classes de formas, independentemente das bases escolhidas.

No Capítulo 15, essa passagem da bilinearidade para a linearidade ganhará uma realização concreta. O produto tensorial transforma o Teorema 14.17 na identificação natural

\[ \operatorname {Bil}(V,W)\cong (V\otimes W)^*, \]

reunindo formas bilineares, dualidade e transformações lineares em uma mesma construção.