Capítulo 5

Espaços Duais

Um funcional linear transforma vetores em escalares. O espaço dual é formado por todos esses funcionais. Seu estudo relaciona as coordenadas dos vetores, as equações que definem subespaços e as transformações lineares entre espaços. Essas relações são descritas pelas bases duais, pelos aniquiladores e pela transformação transposta.

5.1 Espaços Duais

Definição 5.1 (Funcional Linear)
Seja \(V\) um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\). Uma transformação linear \(f\colon V\to \mathbb {K}\) é denominada funcional linear (ou simplesmente funcional) em \(V\).
Os funcionais lineares também são chamados de covetores, sobretudo na literatura de Física.

Definição 5.2 (Espaço Dual)
O espaço vetorial de todos os funcionais lineares em \(V\) é denominado espaço dual de \(V\) e denotado por
\[ V^{\ast }=\operatorname {Hom}_{\mathbb {K}}(V,\mathbb {K}). \]

Exemplo 5.3
Cada vetor \(a=(a_1,\ldots ,a_n)\in \mathbb {K}^n\) determina o funcional
\[ f_a(x_1,\ldots ,x_n)=\sum _{i=1}^n a_i x_i. \]
Reciprocamente, veremos que todo funcional em \(\mathbb {K}^n\) tem essa forma. Sobre \(\mathbb {R}\), por exemplo, a escolha \(a=(1/n,\ldots ,1/n)\) fornece o funcional média:
\[ \operatorname {m\acute{e}dia}(x_1,\ldots ,x_n)=\frac1n\sum _{i=1}^n x_i. \]

Exemplo 5.4
A aplicação \(E_0\colon \mathbb {K}[x]\to \mathbb {K}\), definida por \(E_0(p)=p(0)\), é um funcional linear, chamado de avaliação em \(0\). Mais geralmente, para cada \(c\in \mathbb {K}\), a expressão \(E_c(p)=p(c)\) define o funcional de avaliação em \(c\).

Exemplo 5.5
No espaço \(C[a,b]\) das funções reais contínuas em \([a,b]\), a aplicação
\[ I\colon C[a,b]\longrightarrow \mathbb {R}, \qquad I(\alpha )=\int _a^b\alpha (x)\, dx, \]
é um funcional linear.

Exemplo 5.6
No espaço \(\mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K})\) das matrizes quadradas \(n\times n\), a aplicação traço, \(A\mapsto \operatorname {tr}(A)\), é um funcional linear.

Como \(\operatorname {im}f\) é um subespaço de \(\mathbb {K}\), há apenas duas possibilidades:

  • \(\operatorname {im}f=\{ 0\} \), caso em que \(f\) é o funcional nulo;

  • \(\operatorname {im}f=\mathbb {K}\), caso em que \(f\) é sobrejetivo.

Portanto, todo funcional linear não nulo é sobrejetivo. Se, além disso, \(V\) tem dimensão finita, o teorema do núcleo e da imagem fornece

\[ \dim (\ker f)=\dim (V)-1. \]

Teorema 5.7
  1. Para cada vetor não nulo \(\bm {v}\in V\), existe \(f\in V^{\ast }\) tal que \(f(\bm {v})\neq 0\).

  2. Um vetor \(\bm {v}\in V\) é nulo se, e somente se, \(f(\bm {v})=0\) para todo \(f\in V^{\ast }\).

  3. Se \(f\in V^{\ast }\) e \(f(\bm {x})\neq 0\), então

    \[ V=\langle \bm {x}\rangle \oplus \ker f. \]
  4. Dois funcionais não nulos \(f,g\in V^{\ast }\) têm o mesmo núcleo se, e somente se, existe \(\lambda \in \mathbb {K}\), com \(\lambda \neq 0\), tal que \(f=\lambda g\).

Demonstração

a Estenda o conjunto linearmente independente \(\{ \bm {v}\} \) a uma base \(\underline{\textsc{B}}\) de \(V\). Existe um único funcional \(f\) que assume o valor \(1\) em \(\bm {v}\) e o valor \(0\) nos demais vetores de \(\underline{\textsc{B}}\). Em particular, \(f(\bm {v})=1\neq 0\).

b Se \(\bm {v}=\vec0\), então \(f(\bm {v})=0\) para todo \(f\in V^{\ast }\). A recíproca é a contrapositiva do item a.

c Para qualquer \(\bm {v}\in V\),

\[ \bm {v}=\frac{f(\bm {v})}{f(\bm {x})}\bm {x}+ \left(\bm {v}-\frac{f(\bm {v})}{f(\bm {x})}\bm {x}\right), \]

e o termo entre parênteses pertence a \(\ker f\). Além disso, se \(a\bm {x}\in \ker f\), então \(af(\bm {x})=0\) e, portanto, \(a=0\). Logo, a soma é direta.

d Se \(f=\lambda g\), com \(\lambda \neq 0\), então \(\ker f=\ker g\). Reciprocamente, suponha que \(K=\ker f=\ker g\) e escolha \(\bm {x}\notin K\). Pelo item c, \(V=\langle \bm {x}\rangle \oplus K\). Tomando \(\lambda =f(\bm {x})/g(\bm {x})\), os funcionais \(f\) e \(\lambda g\) coincidem em \(\bm {x}\) e se anulam em \(K\); logo, coincidem em todo \(V\).

Figura 5.1 Se V tem dimensão finita n e f≠ 0, as fibras de f são subespaços afins paralelos a ker f, de dimensão n-1. Cada fibra é levada a um único ponto de K.

Figura 5.1 Se \(V\) tem dimensão finita \(n\) e \(f\neq 0\), as fibras de \(f\) são subespaços afins paralelos a \(\ker f\), de dimensão \(n-1\). Cada fibra é levada a um único ponto de \(\mathbb {K}\).

5.1.1 Bases duais

Seja \(V\) um espaço vetorial com base \(\underline{\textsc{B}}=\{ \bm {x}_i\, \mid \, i\in \Delta \} \). Para cada \(i\in \Delta \), definimos o funcional coordenada \(\bm {x}_i^{\ast }\in V^{\ast }\) por

\[ \bm {x}_i^{\ast }(\bm {x}_j)=\delta _{ij}, \]

onde \(\delta _{ij}\) é o delta de Kronecker: vale \(1\) se \(i=j\) e \(0\) caso contrário. Como todo vetor de \(V\) é combinação linear de um número finito de elementos de \(\underline{\textsc{B}}\), esses valores determinam \(\bm {x}_i^{\ast }\) de maneira única por linearidade.

Teorema 5.8
Seja \(V\) um espaço vetorial com base \(\underline{\textsc{B}}=\{ \bm {x}_i\, \mid \, i\in \Delta \} \).
  1. O conjunto \(\underline{\textsc{B}}^{\ast }=\{ \bm {x}_i^{\ast }\, \mid \, i\in \Delta \} \) é linearmente independente.

  2. Se \(V\) tem dimensão finita, então \(\underline{\textsc{B}}^{\ast }\) é uma base de \(V^{\ast }\), denominada base dual de \(\underline{\textsc{B}}\).

Demonstração

a Considere uma combinação linear finita

\[ a_1\bm {x}_{i_1}^{\ast }+\cdots +a_r\bm {x}_{i_r}^{\ast }=0. \]

Aplicando ambos os lados a \(\bm {x}_{i_k}\), obtemos \(a_k=0\). Portanto, \(\underline{\textsc{B}}^{\ast }\) é linearmente independente.

b Escreva \(\underline{\textsc{B}}=(\bm {x}_1,\ldots ,\bm {x}_n)\). Para todo \(f\in V^{\ast }\), temos

\[ f=\sum _{j=1}^n f(\bm {x}_j)\bm {x}_j^{\ast }, \]

pois os dois lados assumem o mesmo valor em cada vetor da base \(\underline{\textsc{B}}\). Assim, \(\underline{\textsc{B}}^{\ast }\) também gera \(V^{\ast }\).

Segue-se do teorema anterior que, se \(V\) tem dimensão finita, então

\[ \dim (V^{\ast })=\dim (V). \]

Em dimensão infinita, os funcionais coordenada continuam linearmente independentes, mas em geral não geram todo o espaço dual.

Leitura opcional: o dual em dimensão infinita.

O restante desta subseção compara cardinalidades em dimensão infinita e pode ser omitido numa primeira leitura.

Exemplo 5.9
Seja \(V\) um espaço vetorial de dimensão infinita sobre \(\mathbb {Z}_2=\{ 0,1\} \), com base \(\underline{\textsc{B}}\). Cada vetor de \(V\) corresponde a um subconjunto finito de \(\underline{\textsc{B}}\): o conjunto dos vetores da base que aparecem com coeficiente \(1\) em sua expansão. Portanto,
\[ |V|=|\mathscr {P}_0(\underline{\textsc{B}})|=|\underline{\textsc{B}}|, \]
onde \(\mathscr {P}_0(\underline{\textsc{B}})\) denota o conjunto das partes finitas de \(\underline{\textsc{B}}\). Por outro lado, um funcional em \(V\) é determinado livremente por seus valores em \(\underline{\textsc{B}}\). Logo, cada funcional corresponde ao subconjunto dos elementos de \(\underline{\textsc{B}}\) nos quais assume o valor \(1\), e
\[ |V^{\ast }|=|\mathscr {P}(\underline{\textsc{B}})|\gt |\underline{\textsc{B}}|=|V|. \]
Em particular, \(V\) e \(V^{\ast }\) não podem ser isomorfos. Como o corpo é finito, a cardinalidade de um espaço vetorial de dimensão infinita coincide com a cardinalidade de uma de suas bases; assim, neste exemplo, \(\dim (V^{\ast })\gt \dim (V)\).

Teorema 5.10
Seja \(V\) um espaço vetorial. Então
\[ \dim (V)\leq \dim (V^{\ast }). \]
Se \(V\) tem dimensão finita, ocorre a igualdade.

Demonstração

Os funcionais coordenada associados a uma base de \(V\) formam um conjunto linearmente independente em \(V^{\ast }\); portanto, \(\dim (V)\leq \dim (V^{\ast })\). A igualdade no caso de dimensão finita foi provada no Teorema 5.8.

Em dimensão infinita, a desigualdade é sempre estrita. Esse fato é uma consequência do teorema de Erdős–Kaplansky sobre a dimensão do espaço de todas as funções de uma base em \(\mathbb {K}\). Como sua demonstração exige resultados de aritmética cardinal que não serão usados adiante, registramos aqui o resultado, mas não o incluímos no enunciado demonstrado.

Exemplo 5.11
Todo funcional em \(\mathbb {K}^n\) tem a forma
\[ f_a(x_1,\ldots ,x_n)=a_1x_1+\cdots +a_nx_n \]
para um único vetor de coeficientes \(a=(a_1,\ldots ,a_n)\). Assim, \((\mathbb {K}^n)^{\ast }\) é canonicamente isomorfo ao espaço dos vetores-linha de comprimento \(n\).

Definição 5.12 (Hiperplano)
Seja \(V\) um espaço vetorial de dimensão finita \(n\). Um subespaço \(H\subseteq V\) é denominado hiperplano quando \(\dim (H)=n-1\).

Teorema 5.13
Seja \(V\) um espaço vetorial de dimensão finita.
  1. Se \(0\neq f\in V^{\ast }\), então \(\ker f\) é um hiperplano.

  2. Todo hiperplano de \(V\) é o núcleo de algum funcional não nulo em \(V^{\ast }\).

Demonstração

O primeiro item decorre do teorema do núcleo e da imagem, pois \(\dim (\operatorname {im}f)=1\). Para o segundo, seja \((\bm {v}_1,\ldots ,\bm {v}_{n-1})\) uma base de um hiperplano \(H\) e complete-a com \(\bm {v}_n\) para obter uma base de \(V\). O funcional definido por \(f(\bm {v}_i)=0\) para \(i\lt n\) e \(f(\bm {v}_n)=1\) satisfaz \(\ker f=H\).

5.1.2 Bidual

Aplicando novamente a construção do dual, obtemos o espaço dos funcionais lineares definidos em \(V^{\ast }\).

Definição 5.14 (Espaço Bidual)
O espaço bidual de \(V\) é
\[ V^{**}\coloneqq \operatorname {Hom}(V^{\ast },\mathbb {K}). \]

Cada vetor \(\bm {v}\in V\) determina um elemento de \(V^{**}\) por avaliação. Isso define a aplicação natural

\[ \tau _V\colon V\longrightarrow V^{**}, \qquad \tau _V(\bm {v})(f)=f(\bm {v}). \]

A notação \(\tau _V\) ressalta que a aplicação depende apenas do espaço \(V\), e não da escolha de uma base.

Teorema 5.15
A aplicação natural \(\tau _V\colon V\to V^{**}\) é linear e injetiva. Se \(V\) tem dimensão finita, então \(\tau _V\) é um isomorfismo.

Demonstração

Para \(a,b\in \mathbb {K}\), \(\bm {u},\bm {v}\in V\) e \(f\in V^{\ast }\), temos

\[ \tau _V(a\bm {u}+b\bm {v})(f) =f(a\bm {u}+b\bm {v}) =\bigl(a\tau _V(\bm {u})+b\tau _V(\bm {v})\bigr)(f). \]

Logo, \(\tau _V\) é linear. Se \(\tau _V(\bm {v})=0\), então \(f(\bm {v})=0\) para todo \(f\in V^{\ast }\); pelo Teorema 5.7, \(\bm {v}=\vec0\). Portanto, \(\tau _V\) é injetiva. Quando \(V\) tem dimensão finita,

\[ \dim (V^{**})=\dim (V^{\ast })=\dim (V), \]

de modo que a injetividade implica a sobrejetividade.

Um espaço \(V\) é denominado algebricamente reflexivo quando a aplicação natural \(\tau _V\) é sobrejetiva. Em dimensão finita, podemos então identificar canonicamente \(V\) e \(V^{**}\). O teorema anterior, junto com a desigualdade estrita de Erdős–Kaplansky registrada acima, mostra que um espaço vetorial é algebricamente reflexivo se, e somente se, tem dimensão finita.

Exemplo 5.16
Considere o espaço
\[ V=\bigoplus _{k\geq 1}\mathbb {Z}_2\vec e_k, \]
formado pelas sequências binárias com apenas um número finito de entradas iguais a \(1\). Os funcionais coordenada \(\vec e_k^{\ast }\) são linearmente independentes em \(V^{\ast }\). Pelo teorema de extensão de funcionais, existe \(F\in V^{**}\) tal que
\[ F(\vec e_k^{\ast })=1 \qquad \text{para todo }k\geq 1. \]
Por outro lado, para cada \(\bm {v}\in V\), temos \(\tau _V(\bm {v})(\vec e_k^{\ast })=\vec e_k^{\ast }(\bm {v})=0\) para todo \(k\) suficientemente grande. Logo, \(F\) não pertence à imagem de \(\tau _V\), e \(V\) não é algebricamente reflexivo.

Exercício 5.1

Seja \(V=\mathbb {R}_2[x]\) o espaço dos polinômios reais de grau menor ou igual a dois.

  1. Mostre que os funcionais \(f_1(p)=\displaystyle \int _0^1p(x)\, dx\), \(f_2(p)=\displaystyle \int _0^2p(x)\, dx\) e \(f_3(p)=\displaystyle \int _0^3p(x)\, dx\) formam uma base de \(V^{\ast }\).

  2. Encontre a base de \(V\) dual à base \((f_1,f_2,f_3)\) de \(V^{\ast }\).

Exercício 5.2

Seja \(V\) um espaço vetorial e sejam \(\bm {v}_1\neq \bm {v}_2\) em \(V\). Prove que existe \(f\in V^{\ast }\) tal que \(f(\bm {v}_1)\neq f(\bm {v}_2)\).

Exercício 5.3

Sejam \(f,g\in V^{\ast }\) não nulos. Suponha que \(f(\bm {v})=0\) se, e somente se, \(g(\bm {v})=0\). Prove que \(f=\lambda g\) para algum \(\lambda \in \mathbb {K}\) não nulo.

Exercício 5.4

Sejam \(\bm {y}\in V\setminus \{ \vec0\} \) e \(f\in V^{\ast }\setminus \{ 0\} \). Defina \(T\colon V\to V\) por \(T(\bm {x})=f(\bm {x})\bm {y}\). Uma transformação definida dessa maneira é denominada díade.

  1. Mostre que \(\dim (\operatorname {im}T)=1\).

  2. Se \(S\in \operatorname {Hom}(V,V)\) satisfaz \(\dim (\operatorname {im}S)=1\), mostre que \(S\) é uma díade.

Exercício 5.5

Seja \(V=C([0,1])\) o espaço real das funções contínuas em \([0,1]\). Defina

\[ \phi \colon V\longrightarrow V^{\ast }, \qquad \phi (f)(g)=\int _0^1 f(x)g(x)\, dx. \]

Mostre que \(\phi \) é linear e injetiva.

Exercício 5.6

Seja \(V\) um espaço vetorial de dimensão finita e seja \(W=V\oplus V^{\ast }\). Usando a aplicação natural \(\tau _V\colon V\to V^{**}\) e a identificação \(W^{\ast }\cong V^{\ast }\oplus V^{**}\), mostre que

\[ \Phi \colon W\longrightarrow W^{\ast }, \qquad \Phi (\bm {x},f)=(f,\tau _V(\bm {x})), \]

é um isomorfismo.

Exercício 5.7

Prove que \((V_1\oplus \cdots \oplus V_n)^{\ast }\cong V_1^{\ast }\oplus \cdots \oplus V_n^{\ast }\).

Exercício 5.8

Seja \(\bm {v}\in V\) fixo. Prove que a aplicação de avaliação

\[ \tau _V(\bm {v})\colon V^{\ast }\longrightarrow \mathbb {K}, \qquad \tau _V(\bm {v})(f)=f(\bm {v}), \]

é um elemento de \(V^{**}\).

Exercício 5.9

Seja \(V=\mathbb {R}[x]\). Quais das aplicações a seguir são elementos de \(V^{\ast }\)?

  1. \( T(p)=\displaystyle \int _{0}^{1}p(x)dx. \)

  2. \( T( p)=\displaystyle \int _{0}^{1}p(x)^{2}dx. \)

  3. \( T(p)=\displaystyle \int _{0}^{1}x^{2}p(x)dx. \)

  4. \( T(p)=p'. \)

  5. \( T(p)=p'(0). \)

Exercício 5.10

Suponha que \(\mathbb {K}\) seja um corpo finito e que \(\dim (V)=n\). Para cada \(m\leq n\), mostre que o número de subespaços de \(V\) de dimensão \(m\) é igual ao número de subespaços de dimensão \(n-m\).

Exercício 5.11

Defina \(\operatorname {tr}(A)=\displaystyle \sum _{i=1}^n a_{ii}\) para \(A=(a_{ij})\in \mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K})\). Mostre que

\[ \operatorname {tr} \in \left(\mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K})\right)^{\ast }. \]

Exercício 5.12

Mostre que \(\operatorname {tr} (AB)=\operatorname {tr} (BA)\) para todo \(A, B\in \mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K}) .\)

Exercício 5.13

Sejam \(m,n\in \mathbb {N}\) e \(f_1,\ldots ,f_m\in (\mathbb {K}^n)^{\ast }\). Defina \(T\colon \mathbb {K}^n\to \mathbb {K}^m\) por

\[ T(\bm {x})=(f_1(\bm {x}),\ldots ,f_m(\bm {x})). \]
  1. Mostre que \(T\in \operatorname {Hom}_{\mathbb {K}}(\mathbb {K}^{n},\ \mathbb {K}^{m})\).

  2. Mostre que todo \(T\in \operatorname {Hom}_{\mathbb {K}}(\mathbb {K}^{n},\ \mathbb {K}^{m})\) é dado desta maneira para alguns \(f_{1}, \ldots , f_{m}.\)

Exercício 5.14

Seja \(V\) um espaço vetorial de dimensão finita sobre \(\mathbb {C}\). Dados vetores não nulos \(\bm {x}_1,\ldots ,\bm {x}_n\in V\), mostre que existe \(f\in V^{\ast }\) tal que \(f(\bm {x}_k)\neq 0\) para todo \(k=1,\ldots ,n\).

5.2 Aniquiladores

Definição 5.17 (Aniquilador)
Sejam \(V\) um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\) e \(M\subseteq V\). O aniquilador de \(M\) em \(V^{\ast }\) é o subespaço
\[ M^{\perp }=\operatorname {Aniq}_{V^{\ast }}(M) \coloneqq \{ f\in V^{\ast }\, \mid \, f(\bm {u})=0 \text{ para todo }\bm {u}\in M\} . \]

Assim, \(M^{\perp }\) reúne os funcionais que anulam todos os vetores de \(M\). Ele é um subespaço de \(V^{\ast }\) mesmo quando \(M\) não é um subespaço de \(V\).

Teorema 5.18
  1. \(M^{\perp }=(\langle M\rangle )^{\perp }\).

  2. Se \(M\subseteq N\subseteq V\), então \(N^{\perp }\subseteq M^{\perp }\).

  3. Se \(V\) tem dimensão finita, então

    \[ \tau _V(\langle M\rangle )=M^{\perp \perp }. \]

    Em particular, sob a identificação natural entre \(V\) e \(V^{**}\), temos \(S^{\perp \perp }=S\) para todo subespaço \(S\subseteq V\).

  4. Se \(S,T\subseteq V\) são subespaços, então

    \[ (S\cap T)^{\perp }=S^{\perp }+T^{\perp } \quad \text{e}\quad (S+T)^{\perp }=S^{\perp }\cap T^{\perp }. \]

Demonstração

a Um funcional se anula em \(M\) se, e somente se, pela linearidade, se anula em todas as combinações lineares de elementos de \(M\).

b Se \(f\) se anula em \(N\), então se anula no subconjunto \(M\).

c Ponha \(S=\langle M\rangle \). Se \(\bm {s}\in S\) e \(f\in S^{\perp }\), então \(\tau _V(\bm {s})(f)=f(\bm {s})=0\); logo, \(\tau _V(S)\subseteq S^{\perp \perp }\). Como \(V\) tem dimensão finita, todo elemento de \(V^{**}\) é da forma \(\tau _V(\bm {v})\). Se \(\bm {v}\notin S\), estenda uma base de \(S\) acrescentando \(\bm {v}\) e defina \(g\in V^{\ast }\) de modo que \(g\) se anule em \(S\) e \(g(\bm {v})=1\). Então \(g\in S^{\perp }\), mas \(\tau _V(\bm {v})(g)\neq 0\). Portanto, \(\tau _V(\bm {v})\notin S^{\perp \perp }\), o que prova a inclusão inversa.

d Um funcional se anula em \(S+T\) se, e somente se, anula \(S\) e \(T\); daí

\[ (S+T)^{\perp }=S^{\perp }\cap T^{\perp }. \]

Além disso, \(S^{\perp }+T^{\perp }\subseteq (S\cap T)^{\perp }\). Para provar a inclusão inversa, escolha decomposições

\[ S=S'\oplus (S\cap T),\qquad T=(S\cap T)\oplus T' \]

e um complemento \(U\) tais que

\[ V=S'\oplus (S\cap T)\oplus T'\oplus U. \]

Se \(f\in (S\cap T)^{\perp }\), defina \(g\) como \(f\) em \(S'\oplus U\) e como zero em \((S\cap T)\oplus T'\). Defina \(h\) como \(f\) em \(T'\) e como zero nos demais termos. Então \(g\in T^{\perp }\), \(h\in S^{\perp }\) e \(f=g+h\).

5.2.1 Aniquiladores e Somas Diretas

Teorema 5.19
Seja \(V=S\oplus T\).
  1. A extensão por zero em \(S\) define um isomorfismo \(T^{\ast }\cong S^{\perp }\).

  2. Se \(V\) tem dimensão finita, então

    \[ \dim (S^{\perp })=\mathrm{codim}\, _V(S)=\dim (V)-\dim (S). \]

Demonstração

Dado \(f\in T^{\ast }\), defina \(\widetilde f\in V^{\ast }\) por

\[ \widetilde f(\bm {s}+\bm {t})=f(\bm {t}), \qquad \bm {s}\in S,\quad \bm {t}\in T. \]

A aplicação \(f\mapsto \widetilde f\) é linear, tem imagem em \(S^{\perp }\) e sua inversa é a restrição a \(T\). Isso prova o primeiro item. Se \(V\) tem dimensão finita, então

\[ \dim (S^{\perp })=\dim (T^{\ast })=\dim (T) =\dim (V)-\dim (S). \]

Exemplo 5.20
A hipótese de dimensão finita no segundo item é essencial. Seja \(V\) o espaço sobre \(\mathbb {Z}_2\) com base enumerável \((\vec e_1,\vec e_2,\ldots )\), seja \(S=\langle \vec e_1\rangle \) e seja \(T=\langle \vec e_2,\vec e_3,\ldots \rangle \). Então \(V=S\oplus T\), e \(T\) é isomorfo a \(V\). Consequentemente, \(S^{\perp }\cong T^{\ast }\cong V^{\ast }\), embora \(S\) tenha codimensão \(1\).

O aniquilador fornece uma maneira de descrever o espaço dual de uma soma direta.

Teorema 5.21
Se \(V=S\oplus T\), então
\[ V^{\ast }=S^{\perp }\oplus T^{\perp }. \]

Demonstração

Como \(S\cap T=\{ \vec0\} \), o Teorema 5.18

\[ V^{\ast }=(S\cap T)^{\perp }=S^{\perp }+T^{\perp }. \]

Além disso, um funcional que pertence a \(S^{\perp }\cap T^{\perp }\) anula \(S+T=V\) e, portanto, é nulo. A soma é, assim, direta.

Exercício 5.15

Seja \(A=\{ f_1,\ldots ,f_r\} \subseteq V^{\ast }\). Defina o aniquilador de \(A\) em \(V\) por

\[ A^{\perp }=\{ \bm {v}\in V\, \mid \, f(\bm {v})=0\text{ para todo }f\in A\} . \]

Mostre que \(A^{\perp }=\displaystyle \bigcap _{i=1}^r\ker f_i\).

Exercício 5.16

Seja \(V\) de dimensão finita, seja \(A=\{ f_1,\ldots ,f_r\} \subseteq V^{\ast }\) e suponha que \(g\in V^{\ast }\) se anule em \(A^{\perp }\). Mostre que \(g\in \langle A\rangle \).

Exercício 5.17

Seja \(V\) um espaço vetorial de dimensão finita. Para subespaços \(W_1,W_2\subseteq V\), mostre que:

  1. \(\operatorname {Aniq}(W_1\cap W_2)=\operatorname {Aniq}(W_1)+\operatorname {Aniq}(W_2)\).

  2. \(\operatorname {Aniq}(W_1+W_2)=\operatorname {Aniq}(W_1)\cap \operatorname {Aniq}(W_2)\).

Exercício 5.18

Seja \(U\subseteq V\) um subespaço. Mostre diretamente que \(U^{\perp }\) é um subespaço de \(V^{\ast }\).

Exercício 5.19

Determine os aniquiladores de \(\{ \vec0\} \) e de \(V\).

Exercício 5.20

Seja \(V\) um espaço vetorial de dimensão finita e seja \(U\subseteq V\) um subespaço não nulo. Mostre que \(U^{\perp }\neq V^{\ast }\).

Exercício 5.21

Seja \(V\) de dimensão finita e seja \(U\subseteq V\) um subespaço. Mostre que \(\dim V=\dim U+\dim U^{\perp }\).

Exercício 5.22

Sejam \(U,W\subseteq V\) subespaços. Mostre que \(U\subseteq W\) implica \(W^{\perp }\subseteq U^{\perp }\).

Exercício 5.23

Suponha que \(m\lt n\) e que \(f_1,\ldots ,f_m\) sejam funcionais em um espaço \(n\)-dimensional \(V\). Prove que existe \(\bm {x}\neq \vec0\) tal que \(f_j(\bm {x})=0\) para todo \(j=1,\ldots ,m\). O que esse resultado afirma sobre sistemas lineares homogêneos?

Exercício 5.24

Suponha que \(m\lt n\) e que \(f_1,\ldots ,f_m\in V^{\ast }\), onde \(\dim (V)=n\). Determine as condições sobre \(\alpha _1,\ldots ,\alpha _m\in \mathbb {K}\) para que exista \(\bm {x}\in V\) tal que \(f_j(\bm {x})=\alpha _j\) para todo \(j\). Interprete o resultado em termos de sistemas lineares.

Exercício 5.25

Seja \(V_0\subset V_1\subset \cdots \subset V_n\) uma bandeira maximal em \(V\). Mostre que

\[ V_n^{\perp }\subset V_{n-1}^{\perp }\subset \cdots \subset V_0^{\perp } \]

é uma bandeira maximal em \(V^{\ast }\).

Exercício 5.26

Seja \(V\) um espaço vetorial de dimensão \(n\) e seja \(W\subsetneq V\) um subespaço de dimensão \(k\).

  1. Mostre que existem funcionais \(f_1,\ldots ,f_{n-k}\in V^{\ast }\) tais que

    \[ W=\bigcap _{i=1}^{n-k}\ker f_i. \]
  2. Conclua, usando o Teorema 5.13, que \(W\) é a interseção de \(n-k\) hiperplanos.

5.3 Transposta de uma Transformação Linear

Definição 5.22 (Transposta de uma Transformação)
Seja \(T\colon V\to W\) uma transformação linear. A transposta algébrica de \(T\) é a transformação
\[ T^{\ast }\colon W^{\ast }\longrightarrow V^{\ast }, \qquad T^{\ast }(f)=f\circ T. \]
Assim, para \(f\in W^{\ast }\) e \(\bm {v}\in V\),
\[ \bigl(T^{\ast }(f)\bigr)(\bm {v})=f\bigl(T(\bm {v})\bigr). \]
Também usaremos a notação \(T^{\mathrm{t}}\) para essa transformação.

Teorema 5.23 (Propriedades da Transposta de uma Transformação)
  1. Para \(T,S\in \operatorname {Hom}(V,W)\) e \(a,b\in \mathbb {K}\),

    \[ (aT+bS)^{\ast }=aT^{\ast }+bS^{\ast }. \]
  2. Para \(S\in \operatorname {Hom}(V,W)\) e \(T\in \operatorname {Hom}(W,U)\),

    \[ (T\circ S)^{\ast }=S^{\ast }\circ T^{\ast }. \]
  3. Se \(T\colon V\to W\) é invertível, então

    \[ (T^{-1})^{\ast }=(T^{\ast })^{-1}. \]

Demonstração

As igualdades seguem diretamente da definição. Para \(f\in W^{\ast }\),

\[ (aT+bS)^{\ast }(f) =f\circ (aT+bS) =a(f\circ T)+b(f\circ S). \]

Para \(f\in U^{\ast }\),

\[ (T\circ S)^{\ast }(f) =f\circ T\circ S =S^{\ast }\bigl(T^{\ast }(f)\bigr). \]

Por fim,

\[ T^{\ast }\circ (T^{-1})^{\ast } =(T^{-1}\circ T)^{\ast }=\operatorname {I}_{V^{\ast }}, \]

e, analogamente, \((T^{-1})^{\ast }\circ T^{\ast }=\operatorname {I}_{W^{\ast }}\).

Aplicando duas vezes a construção anterior, obtemos \(T^{**}\colon V^{**}\to W^{**}\). Embora \(T\) e \(T^{**}\) tenham domínios e contradomínios diferentes, eles são compatíveis com as aplicações naturais.

Teorema 5.24
Seja \(T\colon V\to W\) linear. Então
\[ T^{**}\circ \tau _V=\tau _W\circ T. \]
Em outras palavras, o diagrama a seguir é comutativo: Ilustração: Transposta de uma Transformação Linear Se \(V\) e \(W\) têm dimensão finita, as aplicações naturais identificam \(T^{**}\) com \(T\).

Demonstração

Para \(\bm {v}\in V\) e \(f\in W^{\ast }\),

\[ \bigl(T^{**}(\tau _V(\bm {v}))\bigr)(f) =\tau _V(\bm {v})(T^{\ast }f) =(f\circ T)(\bm {v}) =\tau _W(T\bm {v})(f). \]

Isso prova a igualdade das transformações.

O próximo resultado descreve o núcleo e a imagem da transposta de uma transformação linear.

Teorema 5.25
Seja \(T\colon V\to W\) linear. Então
  1. \(\ker (T^{\ast })=(\operatorname {im}T)^{\perp }\);

  2. \(\operatorname {im}(T^{\ast })=(\ker T)^{\perp }\).

Demonstração

a Um funcional \(g\in W^{\ast }\) pertence a \(\ker (T^{\ast })\) se, e somente se, \(g\circ T=0\), isto é, se, e somente se, \(g\) se anula em \(\operatorname {im}T\).

b Se \(f=T^{\ast }(g)=g\circ T\), então \(f\) se anula em \(\ker T\). Logo, \(\operatorname {im}(T^{\ast })\subseteq (\ker T)^{\perp }\).

Reciprocamente, seja \(f\in (\ker T)^{\perp }\) e escolha um complemento \(S\) de \(\ker T\) em \(V\). A restrição \(T\mathord {\upharpoonright }_S\colon S\to \operatorname {im}T\) é um isomorfismo. Defina \(g_0\colon \operatorname {im}T\to \mathbb {K}\) por

\[ g_0(T\bm {s})=f(\bm {s}). \]

Essa definição é válida, e \(g_0\) pode ser estendido a um funcional \(g\in W^{\ast }\). Se \(\bm {v}=\bm {u}+\bm {s}\), com \(\bm {u}\in \ker T\) e \(\bm {s}\in S\), então

\[ T^{\ast }(g)(\bm {v})=g(T\bm {s})=f(\bm {s})=f(\bm {v}). \]

Portanto, \(f=T^{\ast }(g)\).

Corolário 5.26
Seja \(T\colon V\to W\) linear, com \(V\) e \(W\) de dimensões finitas. Então
\[ \operatorname {posto}(T)=\operatorname {posto}(T^{\ast }). \]

Demonstração

Pelo teorema anterior e pelo Teorema 5.19,

\[ \dim (\operatorname {im}T^{\ast }) =\dim ((\ker T)^{\perp }) =\dim (V)-\dim (\ker T) =\operatorname {posto}(T). \]

Teorema 5.27
Seja \(T\colon V\to W\) linear, com \(V\) e \(W\) de dimensões finitas. Se \(\underline{\textsc{B}}=(\vec b_1,\ldots ,\vec b_n)\) e \(\underline{\textsc{C}}=(\vec c_1,\ldots ,\vec c_m)\) são bases de \(V\) e \(W\), respectivamente, então
\[ [T^{\ast }]_{\underline{\textsc{C}}^{\ast },\underline{\textsc{B}}^{\ast }} =\bigl([T]_{\underline{\textsc{B}},\underline{\textsc{C}}}\bigr)^{\mathrm{t}}. \]

Demonstração

Escreva \(T(\vec b_j)=\sum _{i=1}^m a_{ij}\vec c_i\). Para todo \(i\) e \(j\),

\[ \bigl(T^{\ast }(\vec c_i^{\ast })\bigr)(\vec b_j) =\vec c_i^{\ast }(T(\vec b_j)) =a_{ij}. \]

Portanto, as coordenadas de \(T^{\ast }(\vec c_i^{\ast })\) na base \(\underline{\textsc{B}}^{\ast }\) formam a \(i\)-ésima linha de \([T]_{\underline{\textsc{B}},\underline{\textsc{C}}}\), o que prova a fórmula.

Exercício 5.27

Se \(V=S\oplus T\), prove que \(V^{\ast }=S^{\perp }\oplus T^{\perp }\).

Exercício 5.28

Mostre que a transposta da transformação nula é nula e que \((\operatorname {I}_V)^{\ast }=\operatorname {I}_{V^{\ast }}\).

Exercício 5.29

Seja \(S\subseteq V\) um subespaço. Prove que \((V/S)^{\ast }\cong S^{\perp }\).

Exercício 5.30

Verifique as seguintes identidades:

  1. \((T+S)^{\ast }=T^{\ast }+S^{\ast }\), para \(T,S\in \operatorname {Hom}(V,W)\).

  2. \((\lambda T)^{\ast }=\lambda T^{\ast }\), para \(\lambda \in \mathbb {K}\) e \(T\in \operatorname {Hom}(V,W)\).

Exercício 5.31

Sejam \(V\) e \(W\) de dimensões finitas e \(T\in \operatorname {Hom}(V,W)\). Prove que \(\operatorname {posto}(T)=\operatorname {posto}(T^{\ast })\).

Exercício 5.32

Se \(T\colon U\to V\) e \(S\colon V\to W\) são lineares, prove que

\[ (S\circ T)^{\ast }=T^{\ast }\circ S^{\ast }. \]

Observe a inversão da ordem na transposta de uma composição.

Exercício 5.33

Se \(T\colon V\to W\) é invertível, prove que \(T^{\ast }\colon W^{\ast }\to V^{\ast }\) também é invertível e que \((T^{-1})^{\ast }=(T^{\ast })^{-1}\).

Exercício 5.34

Se \(T\) é uma díade em \(V\), mostre que \(T^{\ast }\) é uma díade em \(V^{\ast }\).

Exercício 5.35

Sejam \(\tau _V\colon V\to V^{**}\) e \(\tau _W\colon W\to W^{**}\) as aplicações naturais. Mostre que, para todo \(T\in \operatorname {Hom}(V,W)\), o diagrama a seguir é comutativo: Ilustração: Transposta de uma Transformação Linear

Exercício 5.36

Se Ilustração: Transposta de uma Transformação Linear é uma sequência exata curta de espaços vetoriais, mostre que Ilustração: Transposta de uma Transformação Linear é exata.

Exercício 5.37

Sejam \(V,W\) espaços vetoriais de dimensão finita e \(T\in \operatorname {Hom}(V,W)\). Mostre que:

  1. \(T\) é injetiva se, e somente se, \(T^{\ast }\) é sobrejetiva.

  2. \(T\) é sobrejetiva se, e somente se, \(T^{\ast }\) é injetiva.

  3. \(T\) é bijetiva se, e somente se, \(T^{\ast }\) é bijetiva.

5.4 Sistemas de Equações

Um sistema de \(m\) equações lineares em \(n\) variáveis pode ser escrito como

\[ A\bm {x}=\vec b, \]

onde \(A\) é a matriz dos coeficientes. Nesta seção, usaremos funcionais lineares para interpretar o sistema homogêneo \(A\bm {x}=\vec0\).

Seja \(\underline{\textsc{e}}=(\bm {e}_1,\ldots ,\bm {e}_n)\) a base padrão de \(\mathbb {K}^n\), e seja \(\underline{\textsc{e}}^{\ast }\) sua base dual. Todo funcional \(f\in (\mathbb {K}^n)^{\ast }\) pode ser escrito como

\[ f=a_1\bm {e}_1^{\ast }+\cdots +a_n\bm {e}_n^{\ast }. \]

Para \(\bm {x}=x_1\bm {e}_1+\cdots +x_n\bm {e}_n\), temos

\[ f(\bm {x})=a_1x_1+\cdots +a_nx_n. \]

Assim, uma equação linear homogênea é precisamente a condição de pertencer ao núcleo de um funcional.

Teorema 5.28
Seja \(A=(a_{ij})\in \mathcal{M}_{m, n}(\mathbb {K})\) e, para \(i=1,\ldots ,m\), defina
\[ f_i=a_{i1}\bm {e}_1^{\ast }+\cdots +a_{in}\bm {e}_n^{\ast }. \]
Então
\[ \{ \bm {x}\in \mathbb {K}^n\, \mid \, A\bm {x}=\vec0\} =\bigcap _{i=1}^m\ker f_i. \]

Demonstração

A \(i\)-ésima coordenada de \(A\bm {x}\) é \(f_i(\bm {x})\). Portanto, \(A\bm {x}=\vec0\) se, e somente se, \(f_i(\bm {x})=0\) para todo \(i\).

Logo, resolver um sistema homogêneo equivale a determinar a interseção dos núcleos dos funcionais associados às linhas de sua matriz.

As operações elementares sobre as linhas admitem a seguinte interpretação na lista \((f_1,\ldots ,f_m)\):

  • trocar duas linhas corresponde a permutar dois funcionais;

  • multiplicar uma linha por \(\lambda \neq 0\) corresponde a substituir \(f_i\) por \(\lambda f_i\);

  • somar \(\lambda \) vezes a linha \(i\) à linha \(j\) corresponde a substituir \(f_j\) por \(f_j+\lambda f_i\).

Cada operação preserva o subespaço gerado pelos funcionais. Portanto, se \(U\) é obtida de \(A\) por operações elementares, os funcionais associados às linhas de \(A\) e de \(U\) geram o mesmo subespaço de \((\mathbb {K}^n)^{\ast }\). Como as linhas não nulas de uma matriz escalonada reduzida são linearmente independentes, elas formam uma base desse subespaço.

Já demonstramos no Teorema 2.80, por meio de operações elementares, que os postos por linhas e por colunas coincidem. A dualidade fornece agora uma segunda demonstração.

Teorema 5.29
Seja \(A\) uma matriz sobre \(\mathbb {K}\). Então seu posto por linhas é igual ao seu posto por colunas:
\[ \operatorname {posto}_l A=\operatorname {posto}_c A. \]

Demonstração

Se \(T_A\) é a transformação representada por \(A\), então \(\operatorname {posto}_c A=\operatorname {posto}(T_A)\). A matriz da transposta \(T_A^*\) nas bases duais é \(A^{\mathrm{t}}\); portanto, \(\operatorname {posto}_l A=\operatorname {posto}_c(A^{\mathrm{t}})=\operatorname {posto}(T_A^*)\). Pelo corolário anterior, \(\operatorname {posto}(T_A^*)=\operatorname {posto}(T_A)\), e o resultado segue.

Proposição 5.30
Seja \(A\in \mathcal{M}_{m, n}(\mathbb {K})\) e seja \(U\) sua forma escalonada reduzida. Então
\[ U\bm {v}=\vec0 \quad \Longleftrightarrow \quad A\bm {v}=\vec0. \]

Demonstração

Sejam \(f_1,\ldots ,f_m\) os funcionais associados às linhas de \(A\) e \(g_1,\ldots ,g_r\) os associados às linhas não nulas de \(U\). As operações elementares preservam o espaço gerado pelas linhas; logo,

\[ \langle f_1,\ldots ,f_m\rangle =\langle g_1,\ldots ,g_r\rangle . \]

Os dois espaços gerados têm o mesmo aniquilador em \(\mathbb {K}^n\). Pelo Teorema 5.28, esse aniquilador é o conjunto de soluções tanto de \(A\bm {v}=\vec0\) quanto de \(U\bm {v}=\vec0\).