Capítulo 6

Produto Interno

Os axiomas de espaço vetorial descrevem a adição e a multiplicação por escalares, mas não definem comprimento, ângulo ou perpendicularidade. O produto interno acrescenta essas noções à estrutura linear.

O produto escalar de \(\mathbb {R}^n\) fornece o modelo para a definição abstrata. A partir de suas propriedades, definimos a norma, a ortogonalidade e as projeções; a adjunta relaciona o produto interno aos operadores. A seção opcional sobre espaços de Hilbert trata dessas construções quando a dimensão é infinita e a completeza precisa ser considerada.

Definição 6.1 (Produto Escalar)
Sejam \(\bm {u}=(u_1,\ldots ,u_n)\) e \(\bm {v}=(v_1,\ldots ,v_n)\) vetores de \(\mathbb {R}^n\). O produto escalar de \(\bm {u}\) e \(\bm {v}\) é
\[ \bm {u}\cdot \bm {v}=\sum _{i=1}^n u_iv_i =u_1v_1+\cdots +u_nv_n. \]

O comprimento de \(\bm {u}\) e o ângulo entre dois vetores não nulos podem ser recuperados desse único número:

\[ \lVert \bm {u}\rVert =\sqrt{\bm {u}\cdot \bm {u}}, \qquad \cos \theta (\bm {u},\bm {v}) =\frac{\bm {u}\cdot \bm {v}}{\lVert \bm {u}\rVert \lVert \bm {v}\rVert }. \]

Em particular, \(\lVert \bm {u}\rVert \) é a distância do ponto \(\bm {u}\) à origem.

As propriedades algébricas que tornam possível essa interpretação são as seguintes.

Teorema 6.2
Sejam \( \bm {u}, \bm {v}, \bm {w}\in \mathbb {R}^{n} \) e \( \lambda \in \mathbb {R}\). Então:
  1. \( \bm {u}\cdot \bm {u}\geq 0 \) e \( \bm {u}\cdot \bm {u}= 0 \) se, e somente se, \( \bm {u}= \vec0 \). Dizemos que o produto escalar é positivo definido.

  2. \( \bm {u}\cdot \bm {v}= \bm {v}\cdot \bm {u}\). Dizemos que o produto escalar é simétrico.

  3. \( (\bm {u}+\bm {v}) \cdot \bm {w}= \bm {u}\cdot \bm {w}+\bm {v}\cdot \bm {w}\). Dizemos que o produto escalar é aditivo no primeiro argumento.

  4. \( (\lambda \bm {u}) \cdot \bm {v}= \bm {u}\cdot (\lambda \bm {v}) = \lambda (\bm {u}\cdot \bm {v}) \). Dizemos que o produto escalar é homogêneo em relação aos escalares.

Demonstração

Escreva \(\bm {u}=(u_1,\ldots ,u_n)\), \(\bm {v}=(v_1,\ldots ,v_n)\) e \(\bm {w}=(w_1,\ldots ,w_n)\). Então

\[ \bm {u}\cdot \bm {u}=\sum _{i=1}^n u_i^2\geq 0, \]

e essa soma é zero exatamente quando \(u_i=0\) para todo \(i\), isto é, quando \(\bm {u}=\vec0\). Além disso,

\[ \bm {u}\cdot \bm {v}=\sum _{i=1}^n u_iv_i =\sum _{i=1}^n v_iu_i=\bm {v}\cdot \bm {u}, \]
\[ (\bm {u}+\bm {v})\cdot \bm {w}=\sum _{i=1}^n(u_i+v_i)w_i =\bm {u}\cdot \bm {w}+\bm {v}\cdot \bm {w}, \]

e

\[ (\lambda \bm {u})\cdot \bm {v}=\sum _{i=1}^n\lambda u_iv_i =\lambda (\bm {u}\cdot \bm {v}) =\bm {u}\cdot (\lambda \bm {v}). \]

Tomaremos essas propriedades como axiomas e as transportaremos para espaços vetoriais abstratos. No caso complexo, a simetria precisa envolver conjugação: é ela que garante que \(\langle \bm {v},\bm {v}\rangle \) seja real e não negativo.

6.1 Produto Interno

Neste capítulo, \(\mathbb {K}\) denotará \(\mathbb {R}\) ou \(\mathbb {C}\), e \(\overline\lambda \) indicará o conjugado de \(\lambda \in \mathbb {C}\).

Definição 6.3 (Produto Interno)

Seja \(V\) um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\). Um produto interno em \(V\) é uma função \(\langle \ ,\ \rangle :V\times V\to \mathbb {K}\) com as seguintes propriedades:

  1. Linear na primeira coordenada: para todos \( \bm {u},\bm {v}\in V \) e \( \lambda _1, \lambda _2 \in \mathbb {K}\)

    \[ \langle \lambda _1\bm {u}+\lambda _2\bm {v}, \ \bm {w}\rangle = \lambda _1 \langle \bm {u}, \ \bm {w}\rangle +\lambda _2 \langle \bm {v}, \ \bm {w}\rangle \]
  2. Simétrico:

    \[ \langle \bm {u}, \ \bm {v}\rangle = \overline{\langle \bm {v}, \bm {u}\rangle } \quad \text{ (simetria Hermitiana) } \]
  3. Positivo definido: Para todo \(\bm {v}\in V, \)

    \[ \langle \bm {v},\bm {v}\rangle \geq 0 \text{ e } \langle \bm {v},\bm {v}\rangle = 0 \text{ se, e somente se, }\bm {v}= \vec0 . \]

Quando \(\mathbb {K}= \mathbb {R}\) a condição de simetria se reduz a

\[ \langle \bm {u}, \ \bm {v}\rangle = \langle \bm {v}, \ \bm {u}\rangle \quad \text{ (simetria) }. \]

Um espaço vetorial \( V \), munido de um produto interno, é denominado espaço com produto interno.

Observe que um subespaço vetorial \( S \) de um espaço com produto interno \( V \) também é um espaço com produto interno com a restrição do produto interno de \( V \) a \( S. \)

Proposição 6.4
  1. Se \(\mathbb {K}= \mathbb {R}\), então o produto interno é linear em ambas as coordenadas, ou seja, o produto interno é bilinear.

  2. No entanto, se \(\mathbb {K}= \mathbb {C}\), então o produto interno é linear na primeira coordenada e conjugado-linear na segunda, isto é,

    \[ \langle \bm {w}, \lambda _1\bm {u}+\lambda _2\bm {v}\rangle = \overline{\lambda _1} \langle \bm {w}, \bm {u}\rangle +\overline{\lambda _2} \langle \bm {w}, \bm {v}\rangle . \]
  3. \(\langle \vec0,\bm {v}\rangle =\langle \bm {v},\vec0\rangle =0\).

Demonstração

Se \(\mathbb {K}=\mathbb {R}\), a linearidade na segunda coordenada segue da simetria e da linearidade na primeira. De fato,

\begin{align*} \langle \bm {w},\lambda _1\bm {u}+\lambda _2\bm {v}\rangle & =\langle \lambda _1\bm {u}+\lambda _2\bm {v},\bm {w}\rangle \\ & =\lambda _1\langle \bm {u},\bm {w}\rangle +\lambda _2\langle \bm {v},\bm {w}\rangle \\ & =\lambda _1\langle \bm {w},\bm {u}\rangle +\lambda _2\langle \bm {w},\bm {v}\rangle . \end{align*}

Se \(\mathbb {K}= \mathbb {C}\), então

\[ \langle \bm {w}, \lambda _1\bm {u}+\lambda _2\bm {v}\rangle = \overline{\langle \lambda _1\bm {u}+\lambda _2\bm {v}, \bm {w}\rangle } = \overline{\lambda _1} \overline{\langle \bm {u}, \bm {w}\rangle }+\overline{\lambda _2} \overline{ \langle \bm {v}, \bm {w}\rangle } = \overline{\lambda _1} \langle \bm {w}, \bm {u}\rangle +\overline{\lambda _2} \langle \bm {w}, \bm {v}\rangle \]

Finalmente, pela linearidade na primeira coordenada, \(\langle \vec0,\bm {v}\rangle =\langle \vec0+\vec0,\bm {v}\rangle =2\langle \vec0,\bm {v}\rangle \), logo \(\langle \vec0,\bm {v}\rangle =0\). Pela simetria hermitiana, também \(\langle \bm {v},\vec0\rangle =0\).

Assim, um produto interno complexo é linear na primeira coordenada e conjugado-linear na segunda. Dizemos, por isso, que ele é sesquilinear: o prefixo latino sesqui significa “uma vez e meia”.

Exemplo 6.5
O espaço vetorial \( \mathbb {R}^{n} \) é um espaço com produto interno com o produto escalar, definido por
\[ \langle (x_{1}, \ \ldots , \ x_{n}), \ (y_{1}, \ \ldots , \ y_{n}) \rangle = x_{1} y_{1 }+\cdots +x_{n} y_{n} \]
O espaço com produto interno \( \mathbb {R}^{n} \) é geralmente denominado espaço euclidiano \( n \)-dimensional.

Exemplo 6.6
O espaço vetorial \( \mathbb {C}^{n} \) é um espaço com produto interno com o produto escalar definido por
\[ \langle (x_{1}, \ldots , x_{n}), (y_{1}, \ldots , y_{n}) \rangle = x_{1} \overline{y}_{1}+\cdots +x_{n} \overline{y}_{n} \]
Esse espaço com produto interno costuma ser denominado espaço hermitiano \( n \)-dimensional.

Exemplo 6.7
Se o espaço vetorial \(V\) possui uma base \(\underline{\textsc{B}}=\{ \bm {v}_{1},\ \ldots ,\ \bm {v}_{n}\} , \) então
\[ \langle \bm {x},\ \bm {y}\rangle =[\bm {x}]_{\underline{\textsc{B}}}^{T}[\overline{\bm {y}}]_{\underline{\textsc{B}}} \]
define um produto interno em \(V.\)

Exemplo 6.8
Para \( A, B \in \mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K}) \) definimos
\[ \langle A, \ B \rangle = \operatorname {tr} (A^{\mathrm{t}} \overline{B}) \ . \]
Então \(\langle \cdot ,\cdot \rangle \) é um produto interno em \( \mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K}) \) conhecido como produto interno da Frobenius.

Exemplo 6.9

O espaço vetorial \( C [a, \ b] \) de todas as funções contínuas reais no intervalo fechado \( [a, \ b] \) é um espaço de produto interno com

\[ \langle f, \ g \rangle = \displaystyle \int _{a}^{b} f (x) g (x)dx \]

Vamos provar apenas que é positivo definido.

Ou seja, vamos provar que se

  • \( f \) é contínuo no intervalo fechado \( [a, b] \).

  • \( f \ge 0 \) em \( (a, b) \).

Então, \( f = 0 \) em \( [a, b] \) ou \( \displaystyle \int _a^b f (t) dt\gt 0 \).

Sejam \( m \) e \( M \) os valores mínimo e máximo de \( f \) no intervalo \( [a, b] \). Portanto, temos \( 0 \le m \le f (t) \le M \) para todos os \( t \) em \( [a, b] \).

Se \( M = 0 \), então \( f \) é identicamente nula.

Então agora assuma que \( M\gt 0 \). Se \( m = M \), então \( f (t) = M \) para todos os \( t \) e \( \displaystyle \int _a^b f (t) dt = M (b -a)\gt 0 \) e terminamos a demonstração.

Assim podemos assumir que \( m \lt M \). Então o número \( A = \frac{1}{2} (M+m) \) é positivo e estritamente menor que \( M \). Seja \( f (c) = M \), com \( c \) em \( [a, b] \). Como \( f \) é contínua em \( [a, b] \), temos que \( f \) é maior que \( A \) se estivermos perto o suficiente de \( t = c \). Logo existe uma vizinhança \( [p, q] \) contendo \( c \), de modo que \( f (t) \ge A \) nesse intervalo, onde temos: \( a \le p \lt q \le b \) e \( p \le c \le q \). Então, como \( f (t) \ge 0 \) em \( [a, b] \), temos \( \displaystyle \int _a^pf (t) dt \ge 0 \) e \( \displaystyle \int _q^bf (t) dt \ge 0 \), então obtemos:

\begin{align*} \displaystyle \int _a^b f (t) dt & = \displaystyle \int _a^p f (t) dt+\displaystyle \int _p^q f (t) dt+\displaystyle \int _q^b f (t) dt \\ & \ge \displaystyle \int _p^q f (t) dt \ge \displaystyle \int _p^q A dt = A (q - p)\gt 0. \end{align*}

Então \( \displaystyle \int _a^b f (t) dt\gt 0 \) e obtemos o resultado desejado. Aplicando esse resultado à função não negativa \(f^2\), concluímos que \(\langle f,f\rangle =0\) implica \(f=0\), como exigido pela positividade definida.

Exemplo 6.10
O espaço vetorial \( C^1 [a, \ b] \) de todas as funções com a primeira derivada contínua de valor complexo no intervalo fechado \( [a, \ b] \) é um espaço complexo de produto interno com
\[ \langle f, \ g \rangle = \displaystyle \int _{a}^{b} f (x) \overline{g (x)} +f' (x) \overline{g' (x)} dx \]

Exemplo 6.11

No espaço vetorial real \(\mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {R})\) o produto interno usual é definido da seguinte forma:

\[ \langle A , B \rangle = \operatorname {tr}(B^t A) \]

Exemplo 6.12 (\( \ell ^{2} \))

Um dos exemplos de espaços de produto interno mais fundamentais é o espaço vetorial \( \ell ^{2} \) de todas as sequências reais (ou complexas) \( (s_{n}) \) com a propriedade que

\[ \sum | s_{n} |^{2} \lt \infty \]

munido do produto interno

\begin{equation} \langle (s_{n }), \ (t_{n }) \rangle = \sum _{n = 0}^{\infty } s_{n } \overline{t_{n}} \label{eq:quad} \tag{6.1} \end{equation}

Tais sequências são denominadas quadrado somáveis. Para que o produto interno esteja bem definido a soma à direita na Equação 6.1 deve convergir. Para provar isso, observamos que, se \( (s_{n }), (t_{n }) \in \ell ^{2} \), então

\[ 0 \leq (| s_{n} | - | t_{n} |)^{2} = | s_{n} |^{2} -2 | s_{n} || t_{n} |+| t_{n} |^{2} \]

e consequentemente

\[ 2 | s_{n} t_{n} | \leq | s_{n} |^{2}+| t_{n} |^{2} \]

o que implica que a série \(\sum _n|s_nt_n|\) converge. Portanto, a série da Equação 6.1 converge absolutamente. Deixamos ao leitor verificar os demais axiomas do produto interno.

Exemplo 6.13 (Matriz de Gram)

Seja \(V\) um espaço vetorial de dimensão finita e base \(\underline{\textsc{B}}=\{ \bm {v}_{1},\ \ldots ,\ \bm {v}_{n}\} , \). Sejam \(\bm {v}=\sum _{i=1}^na_i\bm {v}_i\) e \(\bm {u}=\sum _{j=1}^n b_j\bm {v}_j\) vetores em \(V\). Então

\[ \langle \bm {v},\bm {u}\rangle =\sum _{i,j=1}^n a_i\overline{b_j}\langle \bm {v}_i,\bm {v}_j\rangle = \begin{bmatrix} a_1 & \cdots & a_n \end{bmatrix}G\begin{bmatrix} \overline{b_1} \\ \vdots \\ \overline{b_n} \end{bmatrix}. \]

onde \(G=[g_{ij}]\) é a matriz definida por \(g_{ij}=\langle \bm {v}_i,\bm {v}_j\rangle \) para \(1\leq i,j\leq n\). A matriz \(G\) é conhecida como matriz de Gram na base \(\underline{\textsc{B}}\).

Definição 6.14 (Ângulo)

Se \(V\) é um espaço com produto interno real e \(\bm {u},\bm {v}\in V\) são não nulos, o ângulo entre eles é o número \(\theta (\bm {u},\bm {v})\in [0,\pi ]\) definido por

\[ \cos \theta (\bm {u}, \bm {v}) = \frac{\langle \bm {u},\bm {v}\rangle }{ \lVert \bm {u}\rVert \lVert \bm {v}\rVert }. \]

Figura 6.1 Ângulo entre vetores

Figura 6.1 Ângulo entre vetores

Definição 6.15 (Vetores Ortogonais)
Sejam \(\bm {u}, \bm {v}\) vetores no espaço com produto interno \(V\). Esses vetores são ditos ortogonais ou perpendiculares se \(\langle \bm {u}, \bm {v}\rangle =0\). Nesse caso escrevemos \(\bm {u}\perp \bm {v}.\)

Figura 6.2 Vetores ortogonais

Figura 6.2 Vetores ortogonais

O seguinte resultado simples é bastante útil.

Proposição 6.16
Se \(V \) é um espaço com produto interno \( \langle \bm {u}, \bm {x}\rangle = \langle \bm {v}, \bm {x}\rangle \) para todo \( \bm {x}\in V, \) então \( \bm {u}= \bm {v}.\)

Demonstração

Tomando \(\bm {x}=\bm {u}-\bm {v}\), obtemos

\[ 0=\langle \bm {u},\bm {x}\rangle -\langle \bm {v},\bm {x}\rangle =\langle \bm {u}-\bm {v},\bm {u}-\bm {v}\rangle =\lVert \bm {u}-\bm {v}\rVert ^{2}. \]

Como o produto interno é positivo definido, \(\bm {u}-\bm {v}=\vec0\) e, portanto, \(\bm {u}=\bm {v}\).

6.2 Normas

Todo produto interno determina uma noção de comprimento. Para \(\bm {v}\in V\), definimos a norma induzida por

\[ \Vert \bm {v}\Vert =\sqrt{\langle \bm {v},\bm {v}\rangle }. \]

Um vetor de norma \(1\) é denominado unitário.

Teorema 6.17
  1. \( \Vert \bm {v}\Vert \geq 0 \) e \( \Vert \bm {v}\Vert = 0 \) se, e somente se, \(\bm {v}= \vec0. \)

  2. Para todos \( \lambda \in \mathbb {K}\) e \(\bm {v}\in V, \)

    \[ \Vert \lambda \bm {v}\Vert = | \lambda | \Vert \bm {v}\Vert \]
  3. (Pitágoras) Se \(\bm {v}\perp \bm {u}\), temos

    \[ \Vert \bm {v}+\bm {u}\Vert ^{2}=\Vert \bm {v}\Vert ^{2}+\Vert \bm {u}\Vert ^{2} \]
  4. (Desigualdade de Cauchy-Schwarz-Bunyakovsky) Para todos \( \bm {u},\bm {v}\in V, \)

    \[ | \langle \bm {u}, \ \bm {v}\rangle | \leq \Vert \bm {u}\Vert \Vert \bm {v}\Vert \]

    com igualdade se, e somente se, \( \bm {u}\) e \(\bm {v}\) forem múltiplos escalares um do outro.

  5. (Desigualdade triangular) Para todos \( \bm {u},\bm {v}\in V, \)

    \[ \Vert \bm {u}+\bm {v}\Vert \leq \Vert \bm {u}\Vert +\Vert \bm {v}\Vert \]

    com igualdade se, e somente se, um dos vetores for zero ou \(\bm {u}=\lambda \bm {v}\) para algum escalar real \(\lambda \geq 0\).

  6. Para todos \( \bm {u}, \bm {v}, \bm {w}\in V, \)

    \[ \Vert \bm {u}-\bm {v}\Vert \leq \Vert \bm {u}-\bm {w}\Vert +\Vert \bm {w}-\bm {v}\Vert \]
  7. Para todos \( \bm {u},\bm {v}\in V, \)

    \[ | \Vert \bm {u}\Vert - \Vert \bm {v}\Vert | \leq \Vert \bm {u}-\bm {v}\Vert \]
  8. (Regra do Paralelogramo) Para todos \( \bm {u},\bm {v}\in V, \)

    \[ \Vert \bm {u}+\bm {v}\Vert ^{2}+\Vert \bm {u}-\bm {v}\Vert ^{2} = 2 \Vert \bm {u}\Vert ^{2} +2 \Vert \bm {v}\Vert ^{2} \]

Demonstração

As afirmações a e b seguem diretamente da definição:

\[ \lVert \bm {v}\rVert =\sqrt{\langle \bm {v},\bm {v}\rangle }\geq 0, \qquad \lVert \lambda \bm {v}\rVert ^{2} =\langle \lambda \bm {v},\lambda \bm {v}\rangle =|\lambda |^{2}\lVert \bm {v}\rVert ^{2}. \]

Além disso, \(\lVert \bm {v}\rVert =0\) se, e somente se, \(\langle \bm {v},\bm {v}\rangle =0\), o que equivale a \(\bm {v}=\vec0\).

Para demonstrar Pitágoras observamos que

\[ \Vert \bm {v}+\bm {u}\Vert ^{2}=\langle \bm {v}+\bm {u},\ \bm {v}+\bm {u}\rangle =\langle \bm {v},\ \bm {v}\rangle +\langle \bm {v},\ \bm {u}\rangle +\langle \bm {u},\ \bm {v}\rangle +\langle \bm {u},\ \bm {u}\rangle =\Vert \bm {v}\Vert ^{2}+\Vert \bm {u}\Vert ^{2}, \]

pois \(\bm {v}\) e \(\bm {u}\) são ortogonais.

Para demonstrar Cauchy–Schwarz, o caso em que um dos vetores é zero é imediato. Se \(\bm {v}\neq 0\), tome \(\lambda =\langle \bm {u},\bm {v}\rangle /\langle \bm {v},\bm {v}\rangle \). Então

\[ 0\leq \Vert \bm {u}-\lambda \bm {v}\Vert ^2 =\Vert \bm {u}\Vert ^2-\frac{|\langle \bm {u},\bm {v}\rangle |^2}{\Vert \bm {v}\Vert ^2}. \]

o que equivale à desigualdade de Cauchy–Schwarz–Bunyakovsky. Além disso, a igualdade vale se, e somente se, \( \Vert \bm {u}-\lambda \bm {v}\Vert ^{2} = 0 \), isto é, se, e somente se, \( \bm {u}-\lambda \bm {v}= \vec0 \), o que equivale a \( \bm {u}\) e \(\bm {v}\) serem múltiplos escalares um do outro.

Para provar a desigualdade triangular, utilizaremos a desigualdade de Cauchy-Schwarz-Bunyakovsky

\begin{align*} \Vert \bm {u}+\bm {v}\Vert ^{2} & = \langle \bm {u}+\bm {v}, \ \bm {u}+\bm {v}\rangle \\ & = \Vert \bm {u}\Vert ^2+2\operatorname {Re}\langle \bm {u},\bm {v}\rangle +\Vert \bm {v}\Vert ^2 \\ & \leq \Vert \bm {u}\Vert ^{2} +2 \Vert \bm {u}\Vert \Vert \bm {v}\Vert +\Vert \bm {v}\Vert ^{2} \\ & = (\Vert \bm {u}\Vert +\Vert \bm {v}\Vert )^{2} \end{align*}

Na desigualdade acima usamos primeiro \(\operatorname {Re}z\leq |z|\) e depois Cauchy–Schwarz–Bunyakovsky. Assim, temos a desigualdade triangular. Se nenhum dos vetores é nulo, a igualdade ocorre exatamente quando

\[ \operatorname {Re}\langle \bm {u},\bm {v}\rangle =|\langle \bm {u},\bm {v}\rangle |=\lVert \bm {u}\rVert \lVert \bm {v}\rVert . \]

Pelo caso de igualdade de Cauchy–Schwarz, isso significa que \(\bm {u}=\lambda \bm {v}\); a primeira igualdade força \(\lambda \) a ser real e não negativo. A recíproca é imediata, e o caso em que um vetor é nulo também é imediato.

A afirmação f é a desigualdade triangular aplicada a

\[ \bm {u}-\bm {v}=(\bm {u}-\bm {w})+(\bm {w}-\bm {v}). \]

Para g, a desigualdade triangular fornece \(\lVert \bm {u}\rVert \leq \lVert \bm {u}-\bm {v}\rVert +\lVert \bm {v}\rVert \) e, trocando \(\bm {u}\) e \(\bm {v}\), também \(\lVert \bm {v}\rVert \leq \lVert \bm {u}-\bm {v}\rVert +\lVert \bm {u}\rVert \). As duas desigualdades juntas dão o resultado.

Finalmente, expandindo os dois termos do lado esquerdo, obtemos

\begin{align*} \lVert \bm {u}+\bm {v}\rVert ^{2}+\lVert \bm {u}-\bm {v}\rVert ^{2} & =\langle \bm {u}+\bm {v},\bm {u}+\bm {v}\rangle +\langle \bm {u}-\bm {v},\bm {u}-\bm {v}\rangle \\ & =2\lVert \bm {u}\rVert ^{2}+2\lVert \bm {v}\rVert ^{2}, \end{align*}

que prova h.

Podemos generalizar o conceito de norma de modo a torná-lo independente do produto interno.

Definição 6.18 (Norma)
Seja \(V\) um espaço vetorial sobre o corpo \(\mathbb {K}\). Uma norma em \(V\) é uma aplicação \(\Vert \ \Vert : V\rightarrow [0,\ \infty )\) satisfazendo às seguintes propriedades:
  1. \(\Vert \bm {v}\Vert \gt 0\) se \(\bm {v}\neq 0\);

  2. \(\Vert \lambda \bm {v}\Vert =|\lambda |\Vert \bm {v}\Vert \), para \(\lambda \in \mathbb {K}\);

  3. \(\Vert \bm {v}+\bm {u}\Vert \leq \Vert \bm {v}\Vert +\Vert \bm {u}\Vert .\)

Se \(V\) possui uma norma, dizemos que \(V\) é um espaço normado.

Exemplo 6.19
Seja \(V\) um espaço com produto interno. Então \(\Vert \bm {v}\Vert := \langle \bm {v}, \bm {v}\rangle ^{1/2}\) define uma norma em \(V\).
Exemplos 6.20
  1. No espaço vetorial real \(\mathbb {R}^{n}\) temos as seguintes normas

    a) Norma do Máximo: \(\Vert x\Vert _{\infty } = \displaystyle \max \{ |x_{i}|\ ;\ 1\leq i\leq n\} \)

    b) Norma do Táxi: \(\Vert x\Vert _{1} = \displaystyle \sum _{i=1}^{n}|x_{i}|\)

  2. No espaço vetorial real \(\mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K})(\mathbb {R}).\) temos as seguintes normas

    a) \( \Vert A\Vert _{\infty }=\max \{ \sum _{j=1}^{n}|a_{ij}|\ ;\ 1\leq i\leq n\} \)

    b) \(\Vert A\Vert _{1}=\max \{ \sum _{i=1}^{n}|a_{ij}|\ ;\ 1\leq j\leq n\} \)

Observamos que nem todas as normas provêm de um produto interno.

O produto interno em \( V \) pode ser recuperado da norma associada. Assim, conhecer o comprimento de todos os vetores em \( V \) equivale a conhecer todos os produtos internos dos vetores em \( V. \)

Teorema 6.21 (Identidades de Polarização)
  1. Se \( V \) é um espaço real com produto interno, então

    \[ \langle \bm {u}, \ \bm {v}\rangle = \frac{1}{4} (\Vert \bm {u}+\bm {v}\Vert ^{2} - \Vert \bm {u}-\bm {v}\Vert ^{2}) \]
  2. Se \( V \) é um espaço complexo com produto interno, então

    \[ \langle \bm {u}, \ \bm {v}\rangle = \frac{1}{4} (\Vert \bm {u}+\bm {v}\Vert ^{2} - \Vert \bm {u}-\bm {v}\Vert ^{2})+\frac{1}{4} i (\Vert \bm {u}+i\bm {v}\Vert ^{2} - \Vert \bm {u}-i\bm {v}\Vert ^{2}) \]

Demonstração

Expandindo os quadrados pela sesquilinearidade, obtemos

\[ \| \bm {u}+\bm {v}\| ^{2}-\| \bm {u}-\bm {v}\| ^{2}=4\operatorname {Re}\langle \bm {u},\bm {v}\rangle \]

e, no caso complexo,

\[ i\bigl(\| \bm {u}+i\bm {v}\| ^{2}-\| \bm {u}-i\bm {v}\| ^{2}\bigr)=4i\operatorname {Im}\langle \bm {u},\bm {v}\rangle . \]

Somando as duas identidades, obtemos a fórmula complexa; no caso real, a primeira identidade já fornece o resultado.

Teorema 6.22 (Jordan–von Neumann)
Seja \(V\) um espaço vetorial real ou complexo. Uma norma em \(V\) é induzida por um produto interno se, e somente se, satisfaz a regra do paralelogramo
\[ \| \bm {x}+\bm {y}\| ^2+\| \bm {x}-\bm {y}\| ^2=2\| \bm {x}\| ^2+2\| \bm {y}\| ^2. \]
Nesse caso, o produto interno é único e é dado pela identidade de polarização correspondente.

Esboço da demonstração

Se a norma é induzida por um produto interno, a regra do paralelogramo segue expandindo os dois lados. Reciprocamente, no caso real, defina

\[ B(\bm {x},\bm {y})=\frac14\bigl(\| \bm {x}+\bm {y}\| ^2-\| \bm {x}-\bm {y}\| ^2\bigr). \]

A regra do paralelogramo implica as identidades \(B(\bm {x}+\bm {z},\bm {y})=B(\bm {x},\bm {y})+B(\bm {z},\bm {y})\) e \(B(-\bm {x},\bm {y})=-B(\bm {x},\bm {y})\). Daí segue a homogeneidade para escalares inteiros e racionais. Pela desigualdade triangular invertida, \(|\lVert \bm {x}\rVert -\lVert \bm {y}\rVert |\leq \lVert \bm {x}-\bm {y}\rVert \); portanto, a norma e a função \(B\) são contínuas. Aproximando um escalar real por racionais, estendemos a homogeneidade a todos os escalares reais. A simetria é imediata e \(B(\bm {x},\bm {x})=\| \bm {x}\| ^2\), logo \(B\) é um produto interno que induz a norma dada.

No caso complexo, usa-se a identidade de polarização complexa para definir o produto interno; o mesmo argumento fornece a aditividade, e os termos com \(i\) fornecem a homogeneidade complexa. A unicidade, em ambos os casos, decorre diretamente das identidades de polarização.

A norma pode ser usada para definir a distância entre dois vetores em um espaço com produto interno.

Definição 6.23 (Distância)
Se \( V \) é um espaço com produto interno. Definimos a distância \( d (\bm {u}, \ \bm {v}) \) entre os vetores \( \bm {u}\) e \(\bm {v}\) em \( V \) como
\[ d (\bm {u}, \ \bm {v}) = \Vert \bm {u}-\bm {v}\Vert \]

Proposição 6.24
Se \( V \) é um espaço munido da distância \(d (\bm {u}, \ \bm {v}) = \Vert \bm {u}-\bm {v}\Vert \) então:
  1. \( d (\bm {u}, \ \bm {v}) \geq 0 \) e \( d (\bm {u}, \ \bm {v}) = 0 \) se, e somente se, \( \bm {u}=\bm {v}\).

  2. \(d (\bm {u}, \ \bm {v}) = d (\bm {v}, \ \bm {u})\). Nesse caso dizemos que \(d\) é simétrica.

  3. \(d (\bm {u}, \ \bm {v}) \leq d (\bm {u}, \ \bm {w})+d (\bm {w}, \ \bm {v}) \). Nesse caso dizemos que \(d\) satisfaz a desigualdade triangular.

Demonstração

A afirmação a segue da positividade da norma, pois \(d(\bm {u},\bm {v})=0\) se, e somente se, \(\bm {u}-\bm {v}=\vec0\). Para b,

\[ d(\bm {u},\bm {v})=\lVert \bm {u}-\bm {v}\rVert =\lVert -(\bm {v}-\bm {u})\rVert =d(\bm {v},\bm {u}). \]

Finalmente,

\[ d(\bm {u},\bm {v})=\lVert (\bm {u}-\bm {w})+(\bm {w}-\bm {v})\rVert \leq d(\bm {u},\bm {w})+d(\bm {w},\bm {v}), \]

pela desigualdade triangular da norma.

Qualquer conjunto não vazio \( V \), juntamente com uma função \( d: V \times V \rightarrow \mathbb {R}\) que satisfaça as propriedades da Proposição 6.24, é denominado espaço métrico e a função \( d \) é dita métrica em \( V \). Assim, qualquer espaço com produto interno é um espaço métrico com a métrica induzida pelo produto interno.

A presença de um produto interno e, portanto, de uma métrica, permite a definição de diversos conceitos analíticos em \( V \) como convergência de sequências e séries infinitas, funções contínuas e conjuntos abertos, fechados e compactos.

6.3 Bases Ortonormais

Definição 6.25 (Conjuntos Ortogonais e Ortonormais)
Seja \(V\) um espaço com produto interno. Um conjunto \(O=\{ \bm {u}_i\, \mid \, i\in \Delta \} \subset V\) é ortogonal se \(\bm {u}_i\perp \bm {u}_j\) sempre que \(i\neq j\). Se, além disso, todos os seus vetores são unitários, então \(O\) é ortonormal. Ou seja, \(O\) é ortonormal se
\[ \langle \bm {u}_{i}, \bm {u}_{j} \rangle = \delta _{i, j} \]
para todos \(i,j\in \Delta \).

Definição 6.26 (Subespaço Ortogonal)
Seja \(V\) um espaço com produto interno e \(A\subset V\). Então definimos o subespaço ortogonal a \(A\) como
\[ A^{\perp }=\{ \bm {v}\in V \text{ tais que } \bm {v}\perp \vec{a}, \, \forall \vec{a}\in A \} \]

Lema 6.27

O conjunto \(S^{\perp }\) é um subespaço de \(V\), mesmo que \(S\) não o seja. Se \(S\) é um subespaço de \(V\) então \(S\cap S^{\perp }=\{ \vec0\} \).

Demonstração

O vetor nulo pertence a \(S^{\perp }\). Se \(\bm {u},\bm {v}\in S^{\perp }\) e \(\lambda ,\mu \in \mathbb {K}\), então, para todo \(\bm {s}\in S\),

\[ \langle \lambda \bm {u}+\mu \bm {v},\bm {s}\rangle =\lambda \langle \bm {u},\bm {s}\rangle +\mu \langle \bm {v},\bm {s}\rangle =0. \]

Logo \(\lambda \bm {u}+\mu \bm {v}\in S^{\perp }\), e \(S^{\perp }\) é um subespaço. Se \(S\) também é um subespaço e \(\bm {v}\in S\cap S^{\perp }\), então \(\langle \bm {v},\bm {v}\rangle =0\); portanto, \(\bm {v}=\vec0\).

Exemplo 6.28
Seja \(C[-1,1]\) o espaço das funções contínuas reais no intervalo \([-1,1]\), munido do produto interno
\[ \langle f,g\rangle =\displaystyle \int _{-1}^{1}f(x)g(x)\, dx. \]
Então o conjunto \(\{ \sin (n\pi x)\} _{n=1}^{\infty }\) é ortonormal. De fato, a identidade produto–soma fornece, para \(m,n\geq 1\),
\[ \sin (n\pi x)\sin (m\pi x) =\frac12\bigl(\cos ((n-m)\pi x)-\cos ((n+m)\pi x)\bigr). \]
Se \(m\neq n\), as duas integrais dos cossenos em \([-1,1]\) são nulas. Se \(m=n\), obtemos
\[ \displaystyle \int _{-1}^{1}\sin ^2(n\pi x)\, dx=1. \]
Portanto,
\[ \displaystyle \int _{-1}^{1}\sin (n\pi x)\sin (m\pi x)\, dx=\delta _{nm}. \]

A ortogonalidade é mais forte que a independência linear.

Lema 6.29
Todo conjunto ortogonal formado por vetores não nulos é linearmente independente.

Demonstração

Sejam \(\bm {x}_{1}, \ldots , \bm {x}_{m}\in X\) tais que

\[ \alpha _{1}\bm {x}_{1}+\ldots +\alpha _{m}\bm {x}_{m}=\vec0. \]

Então

\[ 0=\langle \vec0,\ \bm {x}_{i}\rangle =\langle \alpha _{1}\bm {x}_{1}+\ldots +\alpha _{m}\bm {x}_{m},\ \bm {x}_{i}\rangle =\alpha _{1}\langle \bm {x}_{1},\ \bm {x}_{i}\rangle +\ldots +\alpha _{m}\langle \bm {x}_{m},\ \bm {x}_{i}\rangle =\alpha _{i}\langle \bm {x}_{i},\ \bm {x}_{i}\rangle . \]

Como \(\langle \bm {x}_{i}, \bm {x}_{i}\rangle =\Vert \bm {x}_{i}\Vert ^{2}\neq 0\), temos que \(\alpha _{i}=0.\)

Seja \( O \) a coleção de todos os conjuntos ortonormais em um espaço com produto interno \( V. \) Observe que qualquer conjunto unitário \( \{ \bm {v}\} \) com \( || \bm {v}|| = 1 \) é um conjunto ortonormal em \( V \). Como uma subfamília do conjunto das partes \( \mathscr {P}(V) \) a família \( O \) é parcialmente ordenada pela ordem dada pela inclusão de conjuntos.

Definição 6.30 (Sistema Ortonormal Maximal)
Um conjunto ortonormal maximal \(A\) em um espaço com produto interno \(V\) é chamado de sistema ortonormal maximal.

Em dimensão infinita, um sistema ortonormal maximal não precisa ser uma base do espaço vetorial. Para evitar ambiguidade, denominaremos uma base no sentido puramente algébrico de base de Hamel.

Teorema 6.31
Seja \( V \) um espaço com produto interno e \( A \) seja um conjunto ortonormal em \( V \). As seguintes asserções são equivalentes
  1. \( A \) é um conjunto ortonormal maximal em \( V. \)

  2. Não há vetor unitário \( \bm {v}\) para o qual \( A \bigcup \{ \bm {v}\} \) seja um conjunto ortonormal.

  3. Se \( \bm {v}\perp A \), \( \bm {v}= \vec0\) (isto é,\( \ A^{\perp } = \{ \vec0\} ) \).

Demonstração

Seja \( A \) um conjunto ortonormal em um espaço com produto interno \( V. \)

a \(\Rightarrow \)b Se existe um vetor unitário \( \bm {v}\) em \( V \) para o qual \( A \bigcup \{ \bm {v}\} \) é um conjunto ortonormal, \( A \bigcup \{ \bm {v}\} \) é um conjunto ortonormal que inclui propriamente \( A \) (pois \( \bm {v}\perp A \)). Portanto, \( A \) não é um conjunto ortonormal maximal em \( V. \)

b \(\Rightarrow \)c Se houver um vetor diferente de zero \( \bm {v}\) em \( V \), de modo que \( \bm {v}\perp A \), existe um vetor unitário \( \bm {v}'= \frac{\bm {v}}{\Vert \bm {v}\Vert } \) em \( V \) de modo que \( A \bigcup \{ \bm {v}'\} \) é um conjunto ortonormal.

c \(\Rightarrow \)a Se a não for verdadeiro, então existe um conjunto ortonormal \( A '\) em \( V \) que contém propriamente \( A \) de modo que \( A' \backslash A \neq \emptyset . \) Seja \( \bm {v}\) em \( A '\backslash A \), que é um vetor diferente de zero \( (\) na verdade, \( \bm {v}\) é um vetor unitário) ortogonal a \( A \) (porque \( \bm {v}\in A ', A \subset A' \) e \( A '\) é um conjunto ortonormal). Assim c não é verdadeiro.

O Lema de Zorn pode ser usado para mostrar que qualquer espaço com produto interno possui um sistema ortonormal maximal.

Teorema 6.32
Se \( A \) é um conjunto ortonormal em um espaço com produto interno \( V \) então existe um sistema ortonormal maximal \( B \) em \( V \) tal que \( A \subseteq B. \)

Demonstração

Seja \( A \) um conjunto ortonormal em um espaço com produto interno \( V \). Definimos

\[ O_{A} = \{ S \in \mathscr {P}(V): S \text{ é um conjunto ortonormal em } V \text{ e } A \subseteq S \} \]

a família de todos os conjuntos ortonormais em \( V \) que incluem \( A \).

Como \(O_{A}\) é uma subfamília não vazia (pois \(A\in O_{A}\)) do conjunto das partes \(\mathscr {P}(V)\), ela é parcialmente ordenada pela inclusão. Considere uma cadeia arbitrária \(C=\{ C_i:i\in \Delta \} \) em \(O_A\) e a união \(U=\bigcup _{i\in \Delta }C_i\). Se \(\bm {v}\) e \(\bm {u}\) são vetores distintos de \(U\), existem \(C_i,C_j\in C\) tais que \(\bm {v}\in C_i\) e \(\bm {u}\in C_j\). Como \(C\) é uma cadeia, \(C_i\subseteq C_j\) ou \(C_j\subseteq C_i\). Sem perda de generalidade, suponha \(C_i\subseteq C_j\); então \(\bm {v},\bm {u}\in C_j\) e, portanto, são ortogonais. Além disso, todo vetor de \(U\) é unitário e \(A\subseteq U\). Logo \(U\) é ortonormal e pertence a \(O_A\).

Como \(U\) é um limite superior para \(C\), toda cadeia em \(O_A\) tem um limite superior em \(O_A\). Pelo Lema de Zorn, \(O_A\) possui um elemento maximal \(B\). Esse conjunto é ortonormal e contém \(A\). Se existisse um vetor unitário \(\bm {v}\) tal que \(B\cup \{ \bm {v}\} \) fosse ortonormal, esse conjunto pertenceria a \(O_A\) e conteria propriamente \(B\), em contradição com a maximalidade. Portanto, \(B\) é um sistema ortonormal maximal em \(V\) que contém \(A\).

O próximo resultado fornece um algoritmo que transforma uma sequência linearmente independente em uma sequência ortogonal.

Teorema 6.33 (Processo de Ortogonalização de Gram-Schmidt)

Seja \( \underline{\textsc{B}}= (\bm {v}_{1}, \ \bm {v}_{2}, \ \ldots ) \) uma sequência de vetores linearmente independentes em um espaço com produto interno \( V \), então a sequência \( O = (\bm {u}_{ 1}, \ \bm {u}_{2}, \ \ldots ) \) definida por

\[ \bm {u}_{k} = \bm {v}_{k} - \sum _{i = 1}^{k-1} \frac{\langle \bm {v}_{k}, \bm {u}_{i} \rangle }{\langle \bm {u}_{i}, \bm {u}_{ i} \rangle } \bm {u}_{i} \]

é uma sequência ortogonal em \( V \) com a propriedade que

\[ \langle \bm {u}_{1}, \ldots , \bm {u}_{k}\rangle = \langle \bm {v}_{1}, \ldots , \bm {v}_{k}\rangle \]

para todos os \( k\gt 0.\)

A partir da sequência ortogonal \( (\bm {u}_{i}) \), obtemos a sequência ortonormal \( (\bm {w}_{i}) \), onde \( \bm {w}_{i} = \bm {u}_{i} / \Vert \bm {u}_{i} \Vert \).

Demonstração

A demonstração é por indução. Para \(k=1\), temos \(\bm {u}_1=\bm {v}_1\neq \vec0\), e a igualdade dos espaços gerados é imediata.

Suponha agora que \(\bm {u}_1,\ldots ,\bm {u}_k\) sejam não nulos e ortogonais e que

\[ \langle \bm {u}_1,\ldots ,\bm {u}_k\rangle =\langle \bm {v}_1,\ldots ,\bm {v}_k\rangle . \]

Defina

\[ \bm {u}_{k+1}=\bm {v}_{k+1} -\sum _{j=1}^{k} \frac{\langle \bm {v}_{k+1},\bm {u}_j\rangle }{\langle \bm {u}_j,\bm {u}_j\rangle }\bm {u}_j. \]

Para \(1\leq i\leq k\), a ortogonalidade dos vetores já construídos dá

\begin{align*} \langle \bm {u}_{k+1},\bm {u}_i\rangle & =\langle \bm {v}_{k+1},\bm {u}_i\rangle -\sum _{j=1}^{k} \frac{\langle \bm {v}_{k+1},\bm {u}_j\rangle }{\langle \bm {u}_j,\bm {u}_j\rangle } \langle \bm {u}_j,\bm {u}_i\rangle \\ & =\langle \bm {v}_{k+1},\bm {u}_i\rangle -\langle \bm {v}_{k+1},\bm {u}_i\rangle =0. \end{align*}

Logo \(\bm {u}_{k+1}\) é ortogonal aos vetores anteriores. Ele não pode ser nulo: se fosse, a fórmula mostraria que \(\bm {v}_{k+1}\in \langle \bm {u}_1,\ldots ,\bm {u}_k\rangle =\langle \bm {v}_1,\ldots ,\bm {v}_k\rangle \), contrariando a independência linear da sequência \((\bm {v}_i)\).

A própria fórmula mostra que \(\bm {u}_{k+1}\in \langle \bm {v}_1,\ldots ,\bm {v}_{k+1}\rangle \), enquanto a identidade obtida ao isolarmos \(\bm {v}_{k+1}\) mostra a inclusão inversa entre os espaços gerados. Portanto,

\[ \langle \bm {u}_1,\ldots ,\bm {u}_{k+1}\rangle =\langle \bm {v}_1,\ldots ,\bm {v}_{k+1}\rangle . \]

Isso completa a indução. Como nenhum \(\bm {u}_i\) é nulo, sua normalização produz a sequência ortonormal anunciada.

Exemplo 6.34

Considere o espaço vetorial \(P_{3}(\mathbb {R})\) munido do produto interno

\[ \langle p,\ q\rangle =\displaystyle \int _{-1}^{1}p(x)q(x)dx. \]

Podemos a partir da base \(\underline{\textsc{B}}=\{ 1,\ x,\ x^{2},\ x^{3}\} \) obter uma base ortogonal utilizando o processo de ortogonalização de Gram–Schmidt:

\(P_{0}(x)=1 , \quad P_{1}(x)=x, \quad P_{2}(x)=x^{2} -\frac{1}{3} \quad \text{ e } \quad P_{3}(x)=x^{3} - \frac{3}{5}x.\)

Os polinômios \(P_{0}, P_{1},P_{2}, P_{3}\) são denominados polinômios ortogonais de Legendre.

Exemplo 6.35

Considere o espaço vetorial \(P_{3}(\mathbb {R})\) munido do produto interno

\[ \langle p,\ q\rangle =\displaystyle \int _{0}^{\infty }\exp (-x)p(x)q(x)dx. \]

Utilizando o processo de ortogonalização de Gram-Schmidt na base \(\underline{\textsc{B}}=\{ 1,\ x,\ x^{2},\ x^{3}\} \), obtemos os polinômios

\[ L_{0}(x)\ =\ 1 \]
\[ L_{1}(x)\ =\ x-1 \]
\[ L_{2}(x)\ =\ x^{2}-4x+2 \]
\[ L_{3}(x)\ =\ x^{3}-9x^{2}+18x-6 \]

que são denominados polinômios ortogonais de Laguerre.

Na construção dos polinômios de Laguerre utilizamos que \(\displaystyle \displaystyle \int _{0}^{\infty }\exp (-x)x^{n}dx=n!\) para \( n\in \mathbb {N}\)

Teorema 6.36
Seja \( V \) um espaço com produto interno.
  1. Se \( \dim V = n \) for finita, então \( V \) terá uma base ortonormal de tamanho \( n \) e todos os sistemas ortonormais maximais terão tamanho \( n. \)

  2. Se \( V \) possuir um sistema ortonormal maximal finito com tamanho \( n \), então \( \dim V = n. \)

Demonstração

Para a parte a, a aplicação do processo de Gram–Schmidt a uma base de Hamel fornece uma base ortonormal de tamanho \(n\). Um sistema ortonormal tem no máximo \(n\) elementos; se tiver menos, pode ser ampliado aplicando Gram–Schmidt após acrescentar um vetor fora de seu espaço gerado. Logo todo sistema ortonormal maximal tem tamanho \(n\).

Para a parte b, se \(\dim V\gt n\), podemos acrescentar a um sistema ortonormal maximal de tamanho \(n\) um vetor fora de seu espaço gerado e aplicar Gram–Schmidt, obtendo um sistema ortonormal maior, contradição.

6.4 Melhor Aproximação

Bases ortonormais têm uma grande vantagem sobre bases arbitrárias. Do ponto de vista computacional, se \( B = \{ \bm {v}_{1}, \ \ldots , \ \bm {v}_{n} \} \) é uma base para \( V \), então cada \(\bm {v}\in V \) pode ser escrito na forma

\[ \bm {v}= \lambda _{1} \bm {v}_{1}+\cdots +\lambda _{n} \bm {v}_{n} \]

Em geral, no entanto, determinar as coordenadas \( \lambda _{i} \) requer a resolução de um sistema de equações lineares de tamanho \( n \times n. \)

Por outro lado, se \( O = \{ \bm {u}_{1}, \ \ldots , \ \bm {u}_{n} \} \) é uma base ortonormal para \(V\) e

\[ \bm {v}= \lambda _{1} \bm {u}_{1}+\cdots +\lambda _{n} \bm {u}_{n} \]

então os coeficientes são facilmente calculados:

\[ \langle \bm {v}, \ \bm {u}_{i} \rangle = \langle \lambda _{1} \bm {u}_{1}+\cdots +\lambda _{n} \bm {u}_{n}, \ \bm {u}_{i} \rangle = \lambda _{i} \langle \bm {u}_{i}, \ \bm {u}_{i} \rangle = \lambda _{i} \]

Mesmo quando \( O = \{ \bm {u}_{1}, \ \ldots , \ \bm {u}_{n} \} \) não é uma base (mas apenas um conjunto ortonormal), ainda podemos considerar a expansão

\[ \hat{\bm {v}} = \langle \bm {v}, \ \bm {u}_{1} \rangle \bm {u}_{1}+\cdots +\langle \bm {v}, \ \bm {u}_{n} \rangle \bm {u}_{n} \]

Definição 6.37 (Coeficiente de Fourier)
Seja \(V\) um espaço com produto interno. Seja \(O=(\bm {u}_k)_{k\geq 1}\) uma sequência ortonormal de vetores de \(V\). Para \(\bm {v}\in V\), o \(k\)-ésimo coeficiente de Fourier de \(\bm {v}\) em relação a \(O\) é definido como
\[ f_k \coloneqq \langle \bm {v}, \ \bm {u}_{k} \rangle \]

Exemplo 6.38

Seja \( C [-1, \ 1] \) o espaço vetorial de todas as funções contínuas reais no intervalo fechado \( [-1, \ 1] \) munido do produto interno

\[ \langle f, \ g \rangle = \displaystyle \int _{-1}^{1} f (x) g (x) dx \]

Já vimos que conjunto \(\underline{\textsc{B}}=\{ \sin (n \pi x)\} _{n=1}^{\infty }\) é ortogonal.

Os coeficientes de Fourier da função \(f (x) = x\), para \(x \in [-1,1]\), com relação ao conjunto ortogonal \(\underline{\textsc{B}}\), são dados por:

\[ f_k=\begin{cases} \frac{2}{k\pi } & \text{ se } k \text{ ímpar} \\ -\frac{2}{k\pi } & \text{ se } k \text{ par} \\ \end{cases} \]

Teorema 6.39 (Expansão de Fourier)
Seja \(V\) um espaço com produto interno. Seja \( O = \{ \bm {u}_{1}, \ \ldots , \ \bm {u}_{k} \} \) um conjunto ortonormal de vetores de \(V\). Para qualquer \(\bm {v}\in V \), a expansão de Fourier de \( \bm {v}\) em relação a \( O \) é
\[ \hat{\bm {v}} \coloneqq \langle \bm {v}, \ \bm {u}_{1} \rangle \bm {u}_{1}+\cdots +\langle \bm {v}, \ \bm {u}_{k} \rangle \bm {u}_{k} \]
Nesse caso, a desigualdade de Bessel vale para todos os \(\bm {v}\in V \), isto é,
\[ \Vert \hat{\bm {v}} \Vert \leq \Vert \bm {v}\Vert \]
Além disso, são equivalentes:
  1. O conjunto \( O \) é uma base ortonormal para \( V. \)

  2. Todo vetor é igual à sua expansão de Fourier, ou seja, para todos os \( \bm {v}\in V \)

    \[ \hat{\bm {v}} = \bm {v} \]
  3. A identidade de Bessel vale para todos os \(\bm {v}\in V \), isto é,

    \[ \Vert \hat{\bm {v}} \Vert = \Vert \bm {v}\Vert \]
  4. A identidade de Parseval vale para todos os \( \bm {v}, \bm {w}\in V \), ou seja

    \[ \langle \bm {v}, \ \bm {w}\rangle = \langle \bm {v}, \ \bm {u}_{1} \rangle \overline{\langle \bm {w}, \bm {u}_{1} \rangle }+\cdots +\langle \bm {v}, \ \bm {u}_{k} \rangle \overline{\langle \bm {w}, \bm {u}_{k} \rangle } \]

Demonstração

Ponha \(\vec r=\bm {v}-\hat{\bm {v}}\). Para \(1\leq j\leq k\),

\[ \langle \vec r,\bm {u}_j\rangle =\langle \bm {v},\bm {u}_j\rangle -\sum _{i=1}^k\langle \bm {v},\bm {u}_i\rangle \langle \bm {u}_i,\bm {u}_j\rangle =0. \]

Logo \(\vec r\) é ortogonal a \(\langle O\rangle \) e, em particular, a \(\hat{\bm {v}}\). Por Pitágoras,

\[ \lVert \bm {v}\rVert ^{2}=\lVert \hat{\bm {v}}\rVert ^{2}+\lVert \vec r\rVert ^{2}, \qquad \lVert \hat{\bm {v}}\rVert ^{2} =\sum _{i=1}^k|\langle \bm {v},\bm {u}_i\rangle |^{2}. \]

Da primeira igualdade segue a desigualdade de Bessel.

Se \(O\) é uma base ortonormal, a fórmula das coordenadas em uma base ortonormal dá \(\bm {v}=\hat{\bm {v}}\) para todo \(\bm {v}\), provando a\(\Rightarrow \)b. Reciprocamente, se b vale, todo vetor pertence a \(\langle O\rangle \); portanto, \(O\) é uma base, e temos b\(\Rightarrow \)a.

A implicação b\(\Rightarrow \)c é imediata. Se c vale, a identidade de Pitágoras acima fornece \(\lVert \vec r\rVert =0\), logo \(\bm {v}=\hat{\bm {v}}\); assim, c\(\Rightarrow \)b.

Sob b, expandimos os dois vetores na base \(O\) e obtemos

\[ \langle \bm {v},\bm {w}\rangle =\sum _{i=1}^k \langle \bm {v},\bm {u}_i\rangle \overline{\langle \bm {w},\bm {u}_i\rangle }, \]

que é d. Finalmente, tomando \(\bm {w}=\bm {v}\) em d, obtemos \(\lVert \bm {v}\rVert ^{2}=\sum _i|\langle \bm {v},\bm {u}_i\rangle |^{2} =\lVert \hat{\bm {v}}\rVert ^{2}\), isto é, c.

Vimos que, se \( S \) é um subespaço de um espaço com produto interno \( V \), então \( S \cap S^{\perp } = \{ \vec0\} \). Isso levanta a questão de saber se o complemento ortogonal \( S^{\perp } \) é um complemento de espaço vetorial de \( S \), ou seja, se \( V = S \oplus S^{\perp }.\)

Se \( S \) é um subespaço de dimensão finita de \( V \), a resposta é sim, mas para subespaços de dimensão infinita em geral, \( V \neq S \oplus S^{\perp } .\)

Exemplo 6.40

Seja \( V = \ell ^{2} \) e seja \( S \) o subespaço de todas as sequências de suporte finito, isto é, o subespaço gerado pelos vetores

\[ \vec{e}_{i} = (0, \ \ldots , \ 0,1,0, \ \ldots ) \]

onde \( \vec{e}_{i} \) tem um 1 na \(i\)-ésima coordenada e zeros nos outros lugares. Se \( \bm {x}= (x_{n}) \in S^{\perp } \), então

\( x_{i} = \langle \bm {x}, \vec{e}_{i} \rangle = 0 \) para todos os \( i \) e, portanto, \( \bm {x}= \vec0 \). Portanto, \( S^{\perp } = \{ \vec0\} \). No entanto,

\[ S \oplus S^{\perp } = S \neq \ell ^{2}. \]

6.5 Projeção

Como mostra o próximo teorema, no caso de dimensão finita, os complementos ortogonais também são complementos de espaço vetorial.

Teorema 6.41 (Projeção)
Se \( S \) for um subespaço finito-dimensional de um espaço com produto interno \( V \) (que não precisa ser finito-dimensional), então
\[ V = S \oplus S^{\perp } \]

Demonstração

Seja \( O = \{ \bm {u}_{1}, \ \ldots , \ \bm {u}_{k} \} \) uma base ortonormal de \( S \). Para cada \(\bm {v}\in V, \) considere a expansão de Fourier

\[ \hat{\bm {v}} = \langle \bm {v}, \ \bm {u}_{1} \rangle \bm {u}_{1}+\cdots +\langle \bm {v}, \ \bm {u}_{k} \rangle \bm {u}_{k} \]

em relação a \( O \). Podemos escrever

\[ \bm {v}= \hat{\bm {v}}+(\bm {v}- \hat{\bm {v}}) \]

onde \( \hat{\bm {v}} \in S \). Além disso, \( \bm {v}- \hat{\bm {v}} \in S^{\perp } \), já que

\[ \langle \bm {v}- \hat{\bm {v}}, \ \bm {u}_{i} \rangle = \langle \bm {v}, \ \bm {u}_{i} \rangle - \langle \hat{\bm {v}}, \ \bm {u}_{i} \rangle = 0. \]

Como os \(\bm {u}_i\) geram \(S\), a linearidade mostra que \(\bm {v}-\hat{\bm {v}}\) é ortogonal a todo vetor de \(S\). Portanto, \( V = S+S^{\perp } \). Já observamos que \( S \cap S^{\perp } = \{ \vec0 \} \) e, portanto, \( V = S \oplus S^{\perp }. \)

De acordo com a prova do teorema da projeção, o componente de \( \bm {v}\) que está em \( S \) é a expansão de Fourier de \( \bm {v}\) em relação a qualquer base ortonormal \( O \) de \( S. \)

O teorema da projeção implica que, se \( \bm {v}= \hat{\bm {v}}+\vec{s}^{\perp } \) em que \( \hat{\bm {v}} \in S \) e \( \vec{s}^{\perp } \in S^{\perp } \) então \( \hat{\bm {v}} \) é o elemento de \( S \) mais próximo de \( \bm {v}\), ou seja, \( \hat{\bm {v}} \) é a melhor aproximação para \( \bm {v}\) em \( S \). Pois se \( \vec{t} \in S \), como \( \bm {v}- \hat{\bm {v}} \in S^{\perp } \), temos \( (\bm {v}- \hat{\bm {v}}) \perp (\hat{\bm {v}} -\vec{t}) \) e assim

\[ \Vert \bm {v}-\vec{t} \Vert ^{2} = \Vert \vec{v}- \hat{\bm {v}}+\hat{\bm {v}} -\vec{t} \Vert ^{2} = \Vert \bm {v}- \hat{\bm {v}} \Vert ^{2}+\Vert \hat{\bm {v}} -\vec{t} \Vert ^{2}. \]

Desse fato resulta que \( \Vert \vec{v}-\vec{t} \Vert \) é mínimo, e apenas é mínimo, quando \( \vec{t} = \hat{\bm {v}} \). Além disso, observamos que \( \hat{\bm {v}} \) é o único vetor em \( S \) para o qual \( \bm {v}- \hat{\bm {v}} \perp S \). Assim, podemos dizer que a melhor aproximação de \( \bm {v}\) a partir de \( S \) é o único vetor \( \vec{s} \in S \) para o qual \( (\bm {v}-\vec{s}) \perp S \) e que esse vetor é a expansão de Fourier \( \hat{\bm {v}} \) de \( \bm {v}. \)

Ilustração: Projeção

Definição 6.42 (Soma Direta Ortogonal)
Seja \( V \) um espaço com produto interno e sejam \( S_{1}, \ldots , S_{n} \) subespaços de V. Então \( V \) é dito soma direta ortogonal de \( S_{1}, \ldots , S_{n} \), escrita
\[ V = S_{1} \odot \cdots \odot S_{n} \]
se
  1. \( V = S_{1} \oplus \cdots \oplus S_{n} \)

  2. \( S_{i} \perp S_{j} \) por \( i \neq j \)

O teorema 6.41 afirma que \( V = S \odot S^{\perp } \), para qualquer subespaço de dimensão finita \( S \) de um espaço vetorial \( V \). O seguinte resultado simples é muito útil.

Teorema 6.43
Seja \( V \) um espaço com produto interno. Então são equivalentes
  1. \( V = S \odot T \)

  2. \( V = S \oplus T \) e \( T = S^{\perp } \)

  3. \( V = S \oplus T \) e \( T{\subseteq } S^{\perp } \)

Demonstração

Suponha que a seja válido. Então \( V = S \oplus T \) e \( S \perp T \), o que implica que \( T \subseteq S^{\perp } \). Mas se \( \vec{w} \in S^{\perp } \) então \( \vec{w} = \vec{s}+\vec{t} \) para \( \vec{s} \in S, \vec{t} \in T \) e assim

\[ 0 = \langle \vec{s}, \ \vec{w} \rangle = \langle \vec{s}, \ \vec{s} \rangle +\langle \vec{s}, \ \vec{t} \rangle = \langle \vec{s}, \ \vec{s} \rangle . \]

Portanto, \( \vec{s} = \vec0 \) e \( \vec{w} \in T \), o que implica que \( S^{\perp }{\subseteq } T \). Portanto, \( S^{\perp } = T \), o que fornece b. Obviamente, b implica c. Finalmente, se c vale, então \( T \subseteq S^{\perp } \), o que implica que \( S \perp T \) e, portanto, a vale.

Teorema 6.44
Seja \( V \) um espaço com produto interno.
  1. Se \( \dim V \lt \infty \) e \( S \) for um subespaço de \( V \),

    \[ \dim (S^{\perp }) = \dim V - \dim (S) \]
  2. Se \( S \) é um subespaço de dimensão finita de \( V \), então

    \[ S^{\perp \perp } = S \]
  3. Se \( X \) for um subconjunto de \( V \) e \( \dim (\langle X\rangle ) \lt \infty \), então

    \[ X^{\perp \perp } = \langle X\rangle \]

Demonstração

Como \( V = S \oplus S^{\perp } \), temos \( \dim V = \dim (S)+\dim (S^{\perp }) \), o que prova a parte a. Quanto à parte b, está claro que \( S \subseteq S^{\perp \perp } \). Por outro lado, se \(\bm {v}\in S^{\perp \perp } \) então pelo teorema da projeção

\[ \bm {v}= \vec{s}+\vec{s} ' \]

onde \( \vec{s} \in S \) e \( \vec{s} '\in S^{\perp } \). Mas \(\bm {v}\in S^{\perp \perp } \) implica que \( 0 = \langle \bm {v}, \vec{s} ' \rangle = \langle \vec{s}', \vec{s} ' \rangle \) e assim \( \vec{s}' = \vec0 \), mostrando que \(\bm {v}\in S \). Portanto, \( S^{\perp \perp }{\subseteq } S \) e \( S^{\perp \perp } = S \).

Para c, observe que \(X^{\perp }=\langle X\rangle ^{\perp }\): ser ortogonal a cada elemento de \(X\) equivale, por linearidade, a ser ortogonal a toda combinação linear desses elementos. Aplicando b ao subespaço finito-dimensional \(\langle X\rangle \), obtemos

\[ X^{\perp \perp } =(\langle X\rangle ^{\perp })^{\perp }=\langle X\rangle . \]

6.6 Adjuntas

Nesta seção, o símbolo \(T^*\) denota a adjunta determinada pelos produtos internos. No capítulo anterior, o mesmo símbolo foi usado para a transposta algébrica entre espaços duais; em bases ortonormais, as duas construções correspondem pela representação de Riesz.

Em nosso primeiro resultado, mostramos que em dimensão finita existe uma correspondência canônica entre os vetores do espaço dual \(V^{\ast }\) e os vetores de \(V\).

Teorema 6.45 (de Representação de Riesz, dimensão finita)
Todo funcional linear \(f:V\rightarrow \mathbb {K}\) num espaço com produto interno de dimensão finita pode ser escrito como um produto interno. Mais precisamente, existe um único \(\bm {y}\in V\) tal que
\[ f(\bm {x})=\langle \bm {x},\ \bm {y}\rangle \ \quad \text{ para todo } \bm {x}\in V. \]

Demonstração

Considere uma base ortonormal \(\underline{\textsc{x}}=\{ \bm {x}_{1}, \ldots , \bm {x}_{n}\} \) de \(V\). Como \(\bm {x}=\langle \bm {x}, \bm {x}_{1}\rangle \bm {x}_{1}+\ldots + \langle \bm {x}, \bm {x}_{n}\rangle \bm {x}_n\), temos

\begin{align*} f(\bm {x})\ & =\ \langle \bm {x},\ \bm {x}_{1}\rangle f(\bm {x}_{1})+\ldots +\langle \bm {x},\ \bm {x}_{n}\rangle f(\bm {x}_n) \\ & =\ \langle \bm {x},\ \overline{f(\bm {x}_{1})}\bm {x}_{1}\rangle +\ldots +\langle \bm {x},\overline{f(\bm {x}_{n})}\bm {x}_{n}\rangle \\ & =\langle \bm {x},\ \overline{f(\bm {x}_{1})}\bm {x}_{1}+\ldots +\overline{f(\bm {x}_{n})}\bm {x}_{n}\rangle . \end{align*}

Defina \(\bm {y}=\overline{ f(\bm {x}_{1})}\bm {x}_{1}+\ldots +\overline{ f(\bm {x}_{n})}\bm {x}_{n}.\) Se também \(f(\bm {x})=\langle \bm {x},\bm {z}\rangle \) para todo \(\bm {x}\in V\), então \(\langle \bm {x},\bm {y}-\bm {z}\rangle =0\) para todo \(\bm {x}\in V\); tomando \(\bm {x}=\bm {y}-\bm {z}\), obtemos \(\bm {y}=\bm {z}\).

Para \( f \in V^{\ast }\), seja \( f^{\ast } \) o vetor \( \bm {y}\) em \( V \) de modo que \( f (\bm {x}) = \langle \bm {x}, \bm {y}\rangle \). A função \( f \to f^{\ast }\) de \( V^{\ast } \) a \( V \) é aditiva. Se o corpo for os reais, o mapa \( f \to f^{\ast }\) é linear. No caso, em que o corpo é os complexos o mapa não será linear, mas linear conjugada pois \( (\lambda f)^{\ast }= \overline{\lambda } f^{\ast }.\)

Corolário 6.46
Se \(V\) é um espaço com produto interno real, a aplicação \(f\mapsto f^{\ast }\) é um isomorfismo entre \(V^*\) e \(V.\)

Teorema 6.47
Sejam \(V, W\) espaços com produto interno de dimensão finita. Dada uma aplicação linear \(T:V\rightarrow W\), existe uma única aplicação linear \(T^{\ast }\) : \(W\rightarrow V\), denominada adjunta de \(T\), satisfazendo
\[ \langle T\bm {v},\ \bm {w}\rangle =\langle \bm {v},\ T^{\ast }\bm {w}\rangle \ \text{ para todo } \bm {v}\in V,\ \bm {w}\in W. \]

Demonstração

Para \(\bm {w}\in W\) fixo, a aplicação \(\bm {v}\mapsto \langle T\bm {v}, \bm {w}\rangle \) pertence ao dual de \(V\). O Teorema de Representação de Riesz garante então que existe um único \(\bm {y}\in V\) tal que

\[ \langle T\bm {v},\ \bm {w}\rangle =\langle \bm {v},\ \bm {y}\rangle . \]

Definimos \(T^{\ast }\bm {w}=\bm {y}\). Temos assim uma aplicação \(T^{\ast }\) : \(W\rightarrow V.\)

Para demonstrar a linearidade de \(T^{\ast }\) sejam \(\bm {u}, \bm {w}\in W\) e \(\lambda \in \mathbb {K}. \) Então

\[ \langle \bm {v},\ T^{\ast }(\bm {u}+\lambda \bm {w})\rangle =\langle T\bm {v},\ \bm {u}+\lambda \bm {w}\rangle =\langle T\bm {v},\ \bm {u}\rangle +\overline{\lambda }\langle T\bm {v},\ \bm {w}\rangle =\langle \bm {v},\ T^{\ast }\bm {u}+\lambda T^{\ast }\bm {w}\rangle . \]

Se \(S^{\ast }\) : \(W\rightarrow V\) fosse outra aplicação linear tal que \(\langle T\bm {v}, \bm {w}\rangle = \langle \bm {v}, S^{\ast }\bm {w}\rangle , \) então \(\langle \bm {v}, T^{\ast }\bm {w}-S^{\ast }\bm {w}\rangle =0\) para todo \(\bm {v}\in V\). Escolhendo \(\bm {v}=T^{\ast }\bm {w}-S^{\ast }\bm {w}\), concluímos que \(T^{\ast }=S^{\ast }\)

Definição 6.48 (Adjunta)
Sejam \(V, W\) espaços com produto interno. A aplicação linear \(T^{\ast }\) : \(W\rightarrow V\) que satisfaz
\[ \langle T\bm {v},\ \bm {w}\rangle =\langle \bm {v},\ T^{\ast }\bm {w}\rangle \ \text{para todos }\bm {v}\in V,\ \bm {w}\in W \]
é denominada adjunta de \(T\).

O resultado a seguir enumera algumas propriedades do mapa \(T\mapsto T^{\ast }\) de \(\operatorname {Hom}(V,W)\) em \(\operatorname {Hom}(W,V)\).

Teorema 6.49
Sejam \(V,W\) e \(Z\) espaços de produto interno de dimensão finita. Então:
  1. Se \( S, T \in \operatorname {Hom}(V, \ W) \) então \( (S+T)^{\ast } = S^{\ast }+T^{\ast } \);

  2. Se \( T \in \operatorname {Hom}(V, \ W) \) e \( \lambda \in \mathbb {K}\), então \( (\lambda T)^{\ast } = \overline{\lambda } T^{\ast }.\);

  3. Se \( S \in \operatorname {Hom}(V, \ W) \) e \( T \in \operatorname {Hom}(W, \ Z) \), então \( (TS)^{\ast } = S^{\ast } T^{\ast } \);

  4. Se \( T \in \operatorname {Hom}(V, \ W) \) então \( (T^{\ast })^{\ast } = T \); e

  5. \( I_{V}^{\ast } = I_{V}\).

Demonstração

Munimos \(V\), \(W\) e \(Z\) dos produtos internos indicados no enunciado.

1 Seja \( \bm {v}\in V, \bm {w}\in W \). Então

\begin{align*} \langle \bm {v}, \ (S+T)^{\ast } (\bm {w}) \rangle _{V} & = \langle (S+T) (\bm {v}), \bm {w}\rangle _{W} \\ & = \langle S (\bm {v})+T (\bm {v}), \bm {w}\rangle _{W} \\ & = \langle S (\bm {v}), \bm {w}\rangle _{W}+\langle T (\bm {v}), \bm {w}\rangle _{W} \\ & = \langle \bm {v}, S^{\ast } (\bm {w}) \rangle _{V}+\langle \bm {v}, T^{\ast } (\bm {w}) \rangle _{V} \\ & = \langle \bm {v}, S^{\ast } (\bm {w})+T^{\ast } (\bm {w}) \rangle _{V} \\ & = \langle \bm {v}, \ (S^{\ast }+T^{\ast }) (\bm {w}) \rangle _{V}. \end{align*}

Consequentemente, \( (S+T)^{\ast } (\bm {w}) = S^{\ast } (\bm {w})+T^{\ast } (\bm {w}) \) para todos os \( \bm {w}\in W \) e, portanto, \( (S+T)^{\ast } = S^{\ast }+T^{\ast }.\)

2 Sejam \( \bm {v}\in V, \bm {w}\in W \) e \( \lambda \) um escalar. Então

\begin{align*} \langle \bm {v}, \ (\lambda T)^{\ast } (\bm {w}) \rangle _{V} & = \langle (\lambda T) (\bm {v}), \bm {w}\rangle _{W} \\ & = \langle \lambda T (\bm {v}), \bm {w}\rangle _{W} \\ & = \lambda \langle T (\bm {v}), \bm {w}\rangle _{W} \\ & = \lambda \langle \bm {v}, T^{\ast } (\bm {w}) \rangle _{V} \\ & = \langle \bm {v}, \overline{\lambda } T^{\ast } (\bm {w}) \rangle _{V}. \end{align*}

Podemos então concluir que \( (\lambda T)^{\ast } = \overline{\lambda } T^{\ast }.\)

3 Se \(S:V\to W\), \(T:W\to Z\), \(\bm {v}\in V\) e \(\bm {z}\in Z\), então

\[ \langle (T\circ S)\bm {v},\bm {z}\rangle _Z =\langle S\bm {v},T^*\bm {z}\rangle _W =\langle \bm {v},S^*T^*\bm {z}\rangle _V. \]

Pela unicidade da adjunta, \((T\circ S)^*=S^*\circ T^*\).

4 Para \(\bm {v}\in V\) e \(\bm {w}\in W\), temos

\begin{align*} \langle (T^{\ast })^{\ast }\bm {v},\bm {w}\rangle _{W} & =\overline{\langle \bm {w},(T^{\ast })^{\ast }\bm {v}\rangle _{W}}\\ & =\overline{\langle T^{\ast }\bm {w},\bm {v}\rangle _{V}}\\ & =\langle \bm {v},T^{\ast }\bm {w}\rangle _{V} =\langle T\bm {v},\bm {w}\rangle _{W}. \end{align*}

Como isso vale para todo \(\bm {w}\), segue que \((T^{\ast })^{\ast }\bm {v}=T\bm {v}\) para todo \(\bm {v}\).

5 Por fim, \(\langle I_V\bm {v},\bm {w}\rangle _V=\langle \bm {v},\bm {w}\rangle _V =\langle \bm {v},I_V\bm {w}\rangle _V\); pela unicidade da adjunta, \(I_V^{\ast }=I_V\).

Em seguida, apresentaremos algumas relações entre a imagem e o núcleo de \( T \in \operatorname {Hom}(V, \ W) \) e de \( T^{\ast } \in \operatorname {Hom}(W, \ V) \).

Teorema 6.50
Sejam \(V,W\) espaço com produto interno com dimensões finitas e \( T \in \operatorname {Hom}(V, \ W) \). Então
  1. \( \ker (T^{\ast }) = \operatorname {im}(T)^{\perp } \);

  2. \(\operatorname {im}(T^{\ast }) =\ker (T)^{\perp } \);

  3. \(\ker (T) = \operatorname {im}(T^{\ast })^{\perp } \); e

  4. \(\operatorname {im}(T) =\ker (T^{\ast })^{\perp }.\)

Demonstração

Sejam \( (V, \ \langle \cdot ,\cdot \rangle _{V}) \), \( (W, \ \langle \cdot ,\cdot \rangle _{W}) \).

1 Suponha \( \bm {w}\in \ker (T^{\ast }) \). Então \( \langle \bm {v}, T^{\ast } (\bm {w}) \rangle _{V} = \langle \bm {v}, \vec0 \rangle _{V} = 0 \) para todos os \( \bm {v}\in V. \) Pela definição de \( T^{\ast }, \langle \bm {v}, T^{\ast } (\bm {w}) \rangle _{V} = \langle T (\bm {v}), \bm {w}\rangle _{W} \). Isso implica que \( \bm {w}\perp T (\bm {v}) \) para todos os \( \bm {v}\in V \) e, portanto, \( \bm {w}\in \operatorname {im}(T)^{\perp } \). Portanto, \(\ker (T^{\ast }) \subseteq \operatorname {im}(T)^{\perp }.\)

Seja \( \bm {w}\in \operatorname {im}(T)^{\perp } \). Então, para todos os \( \bm {v}\in V, \langle T (\bm {v}), \bm {w}\rangle _{W} = 0 \). Mas então, pela definição de \( T^{\ast }, \langle \bm {v}, T^{\ast } (\bm {w}) \rangle _{V} = 0 \). Em particular, \( \langle T^{\ast } (\bm {w}), T^{\ast } (\bm {w}) \rangle _{V} = 0 \), e logo , \( T^{\ast } (\bm {w}) = \vec0 \) e \( \bm {w}\in \ker (T^{\ast }) \).

Como \( (T^{\ast })^{\ast } = T \), temos que 3 é consequência de 1.

De 1 também deduzimos que \(\ker (T^{\ast })^{\perp } = [\operatorname {im}(T)^{\perp }]^{\perp } = \operatorname {im}(T) \) e, consequentemente, 4 também é verdadeiro.

Finalmente, como \(\ker (T) = \operatorname {im}(T^{\ast })^{\perp } \), temos que \(\ker (T)^{\perp } = [\operatorname {im}(T^{\ast })^{\perp }]^{\perp } = \operatorname {im}(T^{\ast }) \), e assim 2 é válido.

O teorema seguinte relaciona as matrizes de \(T\) e \(T^{\ast }\) calculadas em bases ortonormais de \(V\) e \(W\).

Teorema 6.51
Sejam \(V\) e \(W\) espaços com produto interno com bases ortonormais \( \underline{\textsc{v}} = (\bm {v}_1, \ \dots , \ \bm {v}_{n}) \) e \( \underline{\textsc{w}} = ( \bm {w}_{1}, \ \ldots , \ \bm {w}_{m}) \) de \( V \) e \( W \), respectivamente. Seja \( A = [T]_{\underline{\textsc{v}} ,\underline{\textsc{w}}} \) e \( B = [T^{\ast }]_{\underline{\textsc{w}}, \underline{\textsc{v}}} \). Então \( B = \overline{A}^{\mathrm{t}} \)

Demonstração

Munimos \(V\) e \(W\) dos produtos internos indicados no enunciado. Então

\begin{align} T (\bm {v}_{j}) & = a_{1j} \bm {w}_{1}+ \cdots +a_{mj} \bm {w}_{m} . \label{eqadw:39} \tag{6.9} \\ T^{\ast } (\bm {w}_{i}) & = b_{1i} \bm {v}_{1}+ \cdots +b_{ni} \bm {v}_{n} . \label{eqadw:40} \tag{6.10} \end{align}

Precisamos provar que \( b_{ji} = \overline{a_{ij}} \) ou equivalente, que \( a_{ij} = \overline{b_{ji}} \). Fazemos isso calculando \(\langle T (\bm {v}_{j}), \bm {w}_{i} \rangle _{W} = \langle \bm {v}_{j}, T^{\ast } (\bm {w}_{i}) \rangle _{V } \) usando as Equações 6.9 e 6.10.

Por um lado

\begin{align*} \langle T (\bm {v}_{j}), \ \bm {w}_{i} \rangle _{W} & = \sum _{k = 1}^{m} a_{kj} \langle \bm {w}_{k}, \ \bm {w}_{i} \rangle _{W} = a_{ij}, \end{align*}

na última igualdade, utilizamos que \(\underline{\textsc{w}} \) é uma base ortonormal de \(W\). Por outro lado,

\[ \langle \bm {v}_{j}, \ T^{\ast } (\bm {w}_{i}) \rangle _{V} = \sum _{l = 1}^{n} \overline{b_{li}} \langle \bm {v}_{j}, \ \bm {v}_{l} \rangle _{V} = \overline{b_{ji}}. \]

Assim, \( a_{ij} = \overline{b_{ji}} \).

6.7 Espaços de Hilbert

Leitura opcional.

Esta seção pode ser omitida numa primeira leitura voltada a espaços de dimensão finita. Em dimensão infinita, a completeza requer uma hipótese adicional: uma sequência de Cauchy pode não ter limite no espaço considerado.

Seja \(V\) um espaço com produto interno. A norma induz a métrica \(d(\bm {u},\bm {v})=\lVert \bm {u}-\bm {v}\rVert \). Dizemos que uma sequência \((\bm {v}^n)\) converge para \(\bm {v}\in V\) quando

\[ \lim _{n\to \infty }\lVert \bm {v}^n-\bm {v}\rVert =0. \]

Definição 6.52 (Sequência de Cauchy)
Seja \((M,d)\) um espaço métrico. Uma sequência \((x^n)\) em \(M\) é uma sequência de Cauchy se, para todo \(\epsilon \gt 0\), existe \(n_0\in \mathbb {N}\) tal que
\[ n,m\geq n_0\Longrightarrow d(x^n,x^m)\lt \epsilon . \]

Definição 6.53 (Espaço Completo)
Um espaço métrico \((M,d)\) é completo se toda sequência de Cauchy em \(M\) converge para um limite que ainda pertence a \(M\).

Exemplo 6.54
O corpo \(\mathbb {R}\) é completo em sua métrica usual. O mesmo vale para \(\mathbb {C}\): se \((z_n)\) é de Cauchy, então \((\operatorname {Re}z_n)\) e \((\operatorname {Im}z_n)\) são sequências de Cauchy em \(\mathbb {R}\). Se seus limites são \(x\) e \(y\), respectivamente, então \(z_n\to x+\mathrm{i}y\in \mathbb {C}\).

Definição 6.55 (Espaço de Hilbert)
Um espaço de Hilbert é um espaço com produto interno que é completo para a métrica induzida por sua norma.

Todo espaço com produto interno de dimensão finita é completo; seus subespaços são fechados e suas transformações lineares são contínuas. Em dimensão infinita, nenhuma dessas conclusões é automática. O exemplo central é o espaço das sequências quadrado somáveis.

Teorema 6.56
Os espaços \(\mathbb {R}^n\), \(\mathbb {C}^n\) e \(\ell ^2\) são espaços de Hilbert.

Demonstração

A completeza de \(\mathbb {R}^n\) e \(\mathbb {C}^n\) segue da completeza do corpo coordenada a coordenada. Provaremos o caso de \(\ell ^2\).

Seja \((\bm {x}^k)\) uma sequência de Cauchy em \(\ell ^2\), com

\[ \bm {x}^k=(x_n^k)_{n\geq 1}. \]

Para cada índice fixo \(n\),

\[ |x_n^k-x_n^l|\leq \lVert \bm {x}^k-\bm {x}^l\rVert , \]

logo \((x_n^k)_k\) é de Cauchy em \(\mathbb {K}\). Denote seu limite por \(a_n\) e ponha \(\vec{a}=(a_n)_{n\geq 1}\); resta provar que \(\vec{a}\in \ell ^2\) e que \(\bm {x}^k\to \vec{a}\).

Dado \(\epsilon \gt 0\), escolha \(k_0\) tal que \(\lVert \bm {x}^k-\bm {x}^l\rVert \lt \epsilon \) sempre que \(k,l\geq k_0\). Para todo \(N\) e todo \(k,l\geq k_0\),

\[ \sum _{n=1}^N|x_n^k-x_n^l|^2 \leq \lVert \bm {x}^k-\bm {x}^l\rVert ^2 \lt \epsilon ^2. \]

Fazendo \(l\to \infty \) nessa soma finita, obtemos

\[ \sum _{n=1}^N|x_n^k-a_n|^2\leq \epsilon ^2. \]

Como isso vale para todo \(N\), segue que

\[ \sum _{n=1}^{\infty }|x_n^k-a_n|^2\leq \epsilon ^2 \qquad (k\geq k_0). \]

Em particular, \(\bm {x}^{k_0}-\vec{a}\in \ell ^2\) e, portanto, \(\vec{a}=\bm {x}^{k_0}-(\bm {x}^{k_0}-\vec{a})\in \ell ^2\). A mesma desigualdade mostra que \(\lVert \bm {x}^k-\vec{a}\rVert \leq \epsilon \) para \(k\geq k_0\). Assim, \(\bm {x}^k\to \vec{a}\), e \(\ell ^2\) é completo.

O teorema de projeção finito-dimensional admite agora sua forma completa. A hipótese de que o subespaço seja fechado substitui a hipótese de dimensão finita.

Teorema 6.57 (Projeção sobre subespaços fechados)
Sejam \(V\) um espaço de Hilbert e \(S\subseteq V\) um subespaço fechado. Então
\[ V=S\oplus S^\perp . \]
Equivalentemente, para cada \(\bm {x}\in V\) existe um único \(\bm {s}\in S\) que minimiza a distância \(\lVert \bm {x}-\bm {s}\rVert \), e \(\bm {x}-\bm {s}\in S^\perp \).

Demonstração

Fixe \(\bm {x}\in V\) e ponha

\[ d=\inf _{\bm {s}\in S}\lVert \bm {x}-\bm {s}\rVert . \]

Escolha \((\bm {s}_n)\) em \(S\) de modo que \(\lVert \bm {x}-\bm {s}_n\rVert ^2\lt d^2+1/n\). Pela regra do paralelogramo,

\begin{align*} \lVert \bm {s}_n-\bm {s}_m\rVert ^2 & =2\lVert \bm {x}-\bm {s}_n\rVert ^2+2\lVert \bm {x}-\bm {s}_m\rVert ^2\\ & \quad -4\lVert \bm {x}-\tfrac 12(\bm {s}_n+\bm {s}_m)\rVert ^2\\ & \leq \frac2n+\frac2m, \end{align*}

pois \((\bm {s}_n+\bm {s}_m)/2\in S\). Logo \((\bm {s}_n)\) é de Cauchy. A completeza de \(V\) e o fato de \(S\) ser fechado fornecem \(\bm {s}_n\to \bm {s}\in S\), e então \(\lVert \bm {x}-\bm {s}\rVert =d\).

Escreva \(\vec{r}=\bm {x}-\bm {s}\). Se existisse \(\bm {u}\in S\) com \(\langle \vec{r},\bm {u}\rangle \neq 0\), tomando \(\lambda =\langle \vec{r},\bm {u}\rangle /\lVert \bm {u}\rVert ^2\) teríamos

\[ \lVert \vec{r}-\lambda \bm {u}\rVert ^2 =\lVert \vec{r}\rVert ^2 -\frac{|\langle \vec{r},\bm {u}\rangle |^2}{\lVert \bm {u}\rVert ^2} \lt \lVert \vec{r}\rVert ^2, \]

contradizendo a minimalidade de \(\bm {s}\). Portanto, \(\vec{r}\in S^\perp \). A decomposição é única porque \(S\cap S^\perp =\{ \vec0\} \).

Podemos agora caracterizar os sistemas ortonormais maximais: em um espaço de Hilbert, são exatamente aqueles cujo espaço gerado é denso.

Proposição 6.58
Seja \(A\) um conjunto ortonormal em um espaço com produto interno \(V\).
  1. Se \(\overline{\langle A\rangle }=V\), então \(A\) é ortonormal maximal.

  2. Se \(V\) é um espaço de Hilbert e \(A\) é ortonormal maximal, então \(\overline{\langle A\rangle }=V\).

Demonstração

Temos \(A^\perp =(\langle A\rangle )^\perp =(\overline{\langle A\rangle })^\perp \); a segunda igualdade segue da continuidade do produto interno. Se \(\overline{\langle A\rangle }=V\), então \(A^\perp =\{ \vec0\} \), e nenhum vetor unitário pode ser acrescentado a \(A\) preservando a ortonormalidade. Logo \(A\) é maximal.

Reciprocamente, suponha que \(V\) seja de Hilbert e que \(A\) seja maximal. O Teorema 6.57, aplicado ao subespaço fechado \(\overline{\langle A\rangle }\), fornece

\[ V=\overline{\langle A\rangle }\oplus (\overline{\langle A\rangle })^\perp . \]

A maximalidade implica \(A^\perp =\{ \vec0\} \); portanto, o segundo somando é nulo e \(\overline{\langle A\rangle }=V\).

Definição 6.59 (Base de Hilbert)
Uma base de Hilbert de \(V\) é um conjunto ortonormal \(B\) tal que
\[ \overline{\langle B\rangle }=V. \]

Uma base de Hilbert não deve ser confundida com uma base vetorial, também chamada de base de Hamel. A primeira permite recuperar vetores por limites de somas; a segunda permite apenas combinações lineares finitas.

Exemplo 6.60

Em \(\ell ^2\), seja \(M=\{ \vec e_1,\vec e_2,\ldots \} \), onde \(\vec e_i\) tem valor \(1\) na \(i\)-ésima coordenada e zero nas demais. O conjunto \(M\) é ortonormal. Se \(\bm {v}=(x_n)\) é ortogonal a todos os \(\vec e_i\), então

\[ x_i=\langle \bm {v},\vec e_i\rangle =0 \]

para todo \(i\); logo \(\bm {v}=\vec0\). Assim, \(M\) é maximal e, pela proposição anterior, é uma base de Hilbert de \(\ell ^2\).

Entretanto, \(\langle M\rangle \) contém apenas as sequências de suporte finito e é um subespaço próprio de \(\ell ^2\). Portanto, \(M\) não é uma base de Hamel.

6.7.1 Espaços de Hilbert Separáveis e Séries de Fourier

Definição 6.61 (Separável)
Um espaço de Hilbert é separável se possui um subconjunto denso enumerável. Equivalentemente, ele admite uma base de Hilbert finita ou enumerável.

Proposição 6.62
Seja \(V\) um espaço de Hilbert separável. Se \(V\) tem dimensão infinita, então \(V\) é isometricamente isomorfo a \(\ell ^{2}\).

A demonstração será dada como consequência do teorema a seguir.

Para formular a expansão de Fourier como uma expansão em base, precisamos de uma noção que admita séries convergentes.

Definição 6.63 (Base de Schauder)
Uma sequência \((\bm {v}_n)\) em um espaço normado \(V\) é uma base de Schauder se, para cada \(\bm {v}\in V\), existe uma única sequência de escalares \((a_n)\) tal que
\[ \bm {v}=\sum _{n=1}^{\infty }a_n\bm {v}_n, \]
isto é,
\[ \lim _{N\to \infty } \lVert \bm {v}-\sum _{n=1}^N a_n\bm {v}_n\rVert =0. \]

Teorema 6.64 (Bases de Hilbert e séries de Fourier)
Seja \(V\) um espaço de Hilbert separável e seja \(O=\{ e_n\} _{n\geq 1}\) um sistema ortonormal. As seguintes afirmações são equivalentes:
  1. \(O\) é completo, isto é, \(\overline{\langle O\rangle }=V\).

  2. Se \(x\perp e_n\) para todo \(n\geq 1\), então \(x=0\).

  3. Todo \(x\in V\) possui a expansão de Fourier

    \[ x=\sum _{n=1}^{\infty }\langle x,e_n\rangle e_n; \]

    em particular, \((e_n)\) é uma base de Schauder de \(V\).

  4. Vale a identidade de Parseval

    \[ \lVert x\rVert ^{2}=\sum _{n=1}^{\infty }|\langle x,e_n\rangle |^{2} \]

    para todo \(x\in V\).

Demonstração

A equivalência entre 1 e 2 segue de \((\langle O\rangle )^\perp =\{ 0\} \) se, e somente se, \(\overline{\langle O\rangle }=V\).

Suponha 2 e fixe \(x\in V\). Escreva \(a_n=\langle x,e_n\rangle \) e \(y_N=\sum _{n=1}^{N}a_ne_n\). Pela desigualdade de Bessel, as somas \(\sum _{n=1}^{N}|a_n|^2\) são crescentes e limitadas por \(\lVert x\rVert ^{2}\); portanto, a série \(\sum _n|a_n|^2\) converge. Se \(M\gt N\), a ortonormalidade fornece

\[ \lVert y_M-y_N\rVert ^{2}=\sum _{n=N+1}^{M}|a_n|^{2}. \]

Assim, \((y_N)\) é de Cauchy e converge, pela completeza de \(V\), para algum \(y\in V\). Para cada \(j\), a desigualdade de Cauchy–Schwarz permite passar ao limite e obter \(\langle y,e_j\rangle =a_j=\langle x,e_j\rangle \). Logo \(x-y\) é ortogonal a todos os \(e_j\); por 2, \(x=y\). Os coeficientes são únicos: se \(x=\sum _n b_ne_n\), tomar o produto interno com \(e_j\) fornece \(b_j=\langle x,e_j\rangle \). Isso prova 3.

Se 3 vale, então

\[ \lVert x\rVert ^{2}=\lim _{N\to \infty }\lVert y_N\rVert ^{2} =\lim _{N\to \infty }\sum _{n=1}^{N}|\langle x,e_n\rangle |^{2}, \]

que é 4. Finalmente, se 4 vale e \(x\perp e_n\) para todo \(n\), então \(\lVert x\rVert ^{2}=0\); logo \(x=0\) e vale 2.

Demonstração da Proposição 6.62

Como \(V\) é separável e tem dimensão infinita, ele possui uma base de Hilbert enumerável \(\{ e_n\} _{n\geq 1}\). Defina

\[ U:V\longrightarrow \ell ^2, \qquad Ux=(\langle x,e_n\rangle )_{n\geq 1}. \]

A identidade de Parseval mostra que \(U\) está bem definida, é linear e preserva a norma. Para \((a_n)\in \ell ^2\), as somas parciais \(\sum _{n=1}^{N}a_ne_n\) formam uma sequência de Cauchy em \(V\) e, pela completeza, convergem para algum \(x\in V\). A continuidade do produto interno dá \(\langle x,e_n\rangle =a_n\) para todo \(n\), de modo que \(U\) é sobrejetiva. Portanto, \(U\) é um isomorfismo isométrico.

Definição 6.65 (\(L^2([a,b])\))
O espaço \(L^2([a,b])\) é formado pelas classes de equivalência de funções mensuráveis \(f:[a,b]\to \mathbb {K}\) tais que \(\int _a^b|f(x)|^2\, dx\lt \infty \), identificando funções iguais quase em toda parte. Seu produto interno é
\[ \langle f,g\rangle =\int _a^b f(x)\overline{g(x)}\, dx. \]
Equivalentemente, \(L^2([a,b])\) é o completamento de \(C([a,b])\) para essa norma.

\(L^2([a,b])\) é um espaço de Hilbert separável. Encerramos esta leitura opcional registrando, sem demonstração, alguns sistemas ortogonais completos clássicos.

Teorema 6.66 (Sistemas ortogonais clássicos)
Os seguintes sistemas são completos nos espaços indicados:
  1. Série de Fourier em \(L^2[-\pi ,\pi ]\):

    \[ \left\{ \frac{1}{\sqrt{2\pi }},\frac{\cos (nx)}{\sqrt\pi },\frac{\sin (nx)}{\sqrt\pi }\, \mid \, n=1,2,\ldots \right\} . \]
  2. Polinômios de Legendre em \(L^2[-1,1]\). Se

    \[ P_{k} (x) = \frac{1}{2^{k} k!} \frac{d^{k}}{dx^{k}} (x^{2} -1)^{k}, \qquad k=0,1,\ldots , \]

    então \(\left\{ \sqrt{(2k+1)/2}\, P_k\, \mid \, k\geq 0\right\} \) é ortonormal e completo.

  3. Funções de Bessel em \(L^2[0,1]\). Para \(\nu \gt -1\), sejam \(j_{\nu ,k}\) os zeros positivos de \(J_\nu \). Então

    \[ \left\{ \frac{\sqrt{2x}}{|J_{\nu +1}(j_{\nu ,k})|}J_\nu (j_{\nu ,k}x)\, \mid \, k=1,2,\ldots \right\} \]

    é um sistema ortonormal completo.

  4. Polinômios de Hermite em \(L^2(\mathbb {R},e^{-x^2}dx)\),

    \[ H_{k} (x) = (- 1)^{k} \displaystyle \exp \left(x^{2} \right) \frac{d^{k}}{dx^{k}} (\exp \left( -x^{2} \right)), k = 0,1, \ldots \]

    normalizados pelos fatores \((2^k k!\sqrt\pi )^{-1/2}\).

  5. Polinômios de Chebyshev do primeiro tipo em \(L^2((-1,1),(1-x^2)^{-1/2}dx)\):

    \[ T_k(x)=\cos (k\arccos x),\qquad k=0,1,\ldots . \]

    O sistema ortonormal correspondente é \(\{ T_0/\sqrt\pi \} \cup \{ \sqrt{2/\pi }\, T_k\, \mid \, k\geq 1\} \).

Exercício 6.1

Seja \(T:W\rightarrow V\) uma transformação linear injetiva entre \(\mathbb {K}\)-espaços vetoriais. Suponha que \(\left\langle ,\right\rangle \), é um produto interno em \(V\). Mostre que \(\langle w_{1},w_{2}\rangle =\langle T(w_{1}),T(w_{2})\rangle \) para todos \(w_{1},w_{2}\in W\) define um produto interno em \(W\). [Em particular, se \(V\) é um espaço vetorial com produto interno \(\left\langle ,\right\rangle \) , \(W\) um subespaço de \(V\) e \(T:W\to V\) é a inclusão natural, teremos como consequência que \(\left\langle ,\right\rangle \) restrito aos elementos de \(W\) é um produto interno em \(W\).]

Exercício 6.2

Dizemos que uma matriz \(A\in M_{n}(\mathbb {K})\) hermitiana (i.e. \(A^{\ast }=A\)) é positiva definida se para toda matriz coluna não nula \(\mathrm{X}\in M_{n\times 1}(\mathbb {K})\) tem-se que \(\mathrm{X}^{\ast }A\mathrm{X}\gt 0\).

  1. Mostre que se \(V\) é um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\) com produto interno \(\langle ,\rangle \) e se \(\underline{\textsc{B}}=\{ v_{1},v_{2},\dots ,v_{n}\} \) é uma base de \(V\) então \(A=(a_{ij})\in M_{n}(\mathbb {K})\) , onde \(a_{ij}=\langle v_{i},v_{j}\rangle \) para todo \(1\leq i,j\leq n\) é uma matriz positiva definida.

  2. Mostre que se \(A=(a_{ij})\in M_{n}(\mathbb {K})\) é uma matriz positiva definida, \(\underline{\textsc{B}}\) é uma base de um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\) \(V\) então

    \[ \left\langle u,v\right\rangle :=[u]_{\underline{\textsc{B}}}^{\mathrm{t}}A\, \overline{[v]_{\underline{\textsc{B}}}}\quad \text{para todo }u,v\in V \]

    define um produto interno em \(V.\)

Exercício 6.3

Seja \(V\) um espaço com produto interno \(\left\langle ,\right\rangle \) de dimensão finita \(n\). Mostre que um conjunto de vetores \(\{ v_{1},v_{2},\dots ,v_{n}\} \) é linearmente independente se, e só se, a matriz \(A=\left(\left\langle v_{i},v_{j}\right\rangle \right)\in M_{n}(\mathbb {K})\) é não singular.

Exercício 6.4

Seja \(V\) um \(\mathbb {K}\)-e.v. com produto interno.

  1. Se \(\mathbb {K}=\mathbb {R}\), mostre que \(\langle u,v\rangle =0\Leftrightarrow \Vert u+v\Vert ^{2}=\Vert u\Vert ^{2}+\Vert v\Vert ^{2}\)

  2. Mostre que isso não é verdade se \(\mathbb {K}=\mathbb {C}.\)

  3. Se \(\mathbb {K}=\mathbb {C}\), mostre que para \(u,v\in V\) \(\left\langle u,v\right\rangle =0\Leftrightarrow \Vert \alpha u+\beta v\Vert ^{2}=\Vert \alpha u\Vert ^{2}+\Vert \beta v\Vert ^{2}\), para todos \(\alpha ,\beta \in \mathbb {C}.\)

Exercício 6.5

Seja \(V\) um \(\mathbb {K}\)-e.v. com produto interno. Sejam \(u,v\in V\), prove:

  1. Lei do Paralelogramo: \(\Vert u+v\Vert ^{2}+\Vert u-v\Vert ^{2}=2\left(\Vert u\Vert ^{2}+\Vert v\Vert ^{2}\right)\).

  2. Desigualdade de Bessel: seja \(\{ v_{1},\ldots ,v_{n}\} \) um conjunto ortonormal de \(V\), então\({\displaystyle \sum _{k=1}^{n}\left|\left\langle v,v_{k}\right\rangle \right|{}^{2}\leq \Vert v\Vert ^{2}}\).

  3. Identidade de Parseval: seja \(\{ v_{1},\ldots ,v_{n}\} \) uma base ortonormal de \(V\). Mostre que \(\left\langle v,u\right\rangle =\sum _{k=1}^{n}\langle v,v_{k}\rangle \langle v_{k},u\rangle \).

Exercício 6.6

Seja \(V\) um \(\mathbb {C}\)-e.v. com produto interno

  1. Fixe vetores \(w,u\in V\). Mostre que o operador \(T:V\rightarrow V\) definido por \(T(v)=\left\langle v,w\right\rangle u\), admite adjunta e a descreva explicitamente.

  2. Suponha \(\dim V\lt \infty \) e que \(\left\langle T(v),v\right\rangle =0\), para todo \(v\in V\). Mostre que \(T=0\). Mostre que o resultado não é necessariamente verdadeiro se \(V\) é um \(\mathbb {R}\)-e.v.

Exercício 6.7

Seja \(V\) um \(\mathbb {R}\)-espaço vetorial de dimensão finita com um produto interno. Seja \(W\subseteq V\) um subespaço, mostre que cada classe de equivalência do quociente \(V/W\) possui exatamente um vetor ortogonal a \(W\).

Exercício 6.8

Determine o mínimo do conjunto : \(\left\{ \displaystyle \int _{0}^{1}(t^{2}-at-b)^{2}\mathrm{d}t:a,b\in \mathbb {R}\right\} \).

Exercício 6.9

Seja \(V=C([0,1],\mathbb {R})\) o espaço das funções contínuas no intervalo \([0,1]\) com o produto interno \(\langle f,g\rangle ={\displaystyle \displaystyle \int _{0}^{1}f(t)g(t)dt.}\)

  1. Exiba uma base ortonormal do subespaço de \(V\) gerado pelos polinômios \(1\), \(t\) e \(t^{2}.\)

  2. Encontre o polinômio de grau menor ou igual a \(2\) que melhor aproxima \(f(t)=\cos t\) no intervalo \([0,1].\)

Exercício 6.10

Seja \(V\) um \(\mathbb {K}\)-e.v. com produto interno. Suponha que \(U\) e \(W\) sejam subespaços de \(V\). Mostre que:

  1. \(W\subseteq (W^{\perp })^{\perp }\) e se \(V=W\oplus W^{\perp }\) então \(W=(W^{\perp })^{\perp }\).

  2. \((U+W)^{\perp }=U^{\perp }\cap W^{\perp }\).

  3. \(U^{\perp }+W^{\perp }\subseteq (U\cap W)^{\perp }\).

  4. Se \(V=U\oplus U^{\perp }=W\oplus W^{\perp }\), então \(U^{\perp }+W^{\perp }=(U\cap W)^{\perp }\).

Exercício 6.11

Considere \(\mathbb {R}[x]\) com o produto interno \(\left\langle p,q\right\rangle ={\displaystyle \displaystyle \int _{0}^{1}p(x)q(x)dx}\) e seja \(W\) o subespaço constituído por todos os polinômios com termo constante igual a zero. Mostre que \(W^{\perp }=\{ 0\} \) e então \(W^{\perp \perp }=\mathbb {R}[x]\neq W\). Também \(\mathbb {R}[x]\neq W\oplus W^{\perp }\).

Exercício 6.12

Seja \(W\) um subespaço de dimensão finita de \(V\). Existem, em geral, vários operadores projeções cuja imagem é \(W\). Prove que se \(E\in \operatorname {Hom}(V,V)\) é uma projeção cuja imagem é \(W\) e \(\Vert E(v)\Vert \leq \Vert v\Vert \), para todo \(v\in V\), então \(E\) é a projeção ortogonal em \(W\), i.e. \(E=E_{W}\).

Exercício 6.13

Seja \(W\) um subespaço vetorial de dimensão finita de um espaço \(V\) com produto interno. Seja \(E_{W}\) a projeção ortogonal de \(V\) em \(W\). Mostre que \(\operatorname {I}-E_{W}\) é a projeção ortogonal de \(V\) em \(W^{\perp }\), é um operador projeção e \(\ker (\operatorname {I}-E_{W})=W\). (Obs: \(W^{\perp }\) não necessariamente terá dimensão finita).

Exercício 6.14

Seja \(V\) um \(\mathbb {K}\)-e.v. com produto interno \(\left\langle ,\right\rangle \), \(\alpha \in \mathbb {K}\) e sejam \(T,S\in \operatorname {Hom}(V,V)\) que admitem adjuntos. Mostre que os seguintes operadores admitem adjuntos:

  1. \(T+S\) e \((T+S)^{\ast }=T^{\ast }+S^{\ast }\).

  2. \(\alpha T\) e \((\alpha T)^{\ast }=\overline{\alpha }T^{\ast }\).

  3. \(T\circ S\) e \((T\circ S)^{\ast }=S^{\ast }\circ T^{\ast }\).

  4. \(T^{\ast }\) e \((T^{\ast })^{\ast }=T\).

    Se \(T,S\in \operatorname {Hom}(V,V)\) são operadores normais então é verdade que \(\alpha T\), \(T+S\) e \(T\circ S\) são normais?

Exercício 6.15

Seja \(T\) um operador linear em \(V\) que possui um adjunto \(T^{\ast }.\) Mostre que:

  1. \(\ker T^{\ast }=(\operatorname {im}T)^{\perp }\) e que \(\operatorname {im}T^{\ast }\subset (\ker T)^{\perp }.\)

  2. Se \(\dim V\lt \infty \), então \(\operatorname {im}T^{\ast }=(\ker T)^{\perp }.\)

  3. Se \(\dim V\lt \infty \), \(T\) é injetiva se, e somente se, \(T^{\ast }\)é sobrejetiva e vice-versa.

  4. Seja \(V=C([0,1],\mathbb {R})\) , com o produto interno \(\left\langle f,g\right\rangle ={\displaystyle \displaystyle \int _{0}^{1}f(t)g(t)dt}\), e considere o operador

    \begin{align*} T:V & \to V\\ f & \mapsto T(f):[0,1]\mapsto \mathbb {R}\\ & \hspace{2.35cm}t\mapsto tf(t) \end{align*}

    Determine \(T^{\ast }\) e mostre que \(\operatorname {im}T^{\ast }\neq (\ker T)^{\perp }\).

Exercício 6.16

Seja \(T\in L(V)\). Prove que se \(T\) é invertível, então \(T^{\ast }\) é invertível e \((T^{\ast })^{-1}=(T^{-1})^{\ast }\).

Exercícios avançados: adjuntas e teoria espectral.

Os exercícios seguintes pressupõem as definições de operador normal, autoadjunto e unitário e, quando indicado, resultados espectrais posteriores.

Exercício

Exercício 6.17

Suponha que \(V\) é de dimensão finita. Sejam \(T:V\rightarrow V\) um operador linear e \(\lambda \in \mathbb {K}\). Mostre que \(\lambda \) é um autovalor de \(T\) se, e somente se, \(\overline{\lambda }\) é um autovalor de \(T^{\ast }.\)

Exercício 6.18

Seja \(V\) um espaço com produto interno complexo de dimensão finita. Seja \(T:V\rightarrow V\) um operador linear. Definimos

\[ T_{1}=\frac{1}{2}(T+T^{\ast }),\ T_{2}=\frac{1}{2i}(T-T^{\ast }). \]

Mostre que

  1. \(T_{1}\) e \(T_{2}\) são autoadjuntos.

  2. \(T=T_{1}+iT_{2}\).

  3. O que pode dizer sobre a unicidade dessa decomposição?

  4. Escreva \(T^{\ast }\) em função de \(T_{1}\) e \(T_{2}\).

  5. Encontre condições em \(T_{1}\) e \(T_{2}\) para que o operador \(T\) seja: i- autoadjunto; ii-unitário; iii- normal.

Exercício 6.19

Seja \(E\) um operador linear em \(V\) tal que \(E^{2}=E\) e tal que \(E\) possui um adjunto \(E^{\ast }\). Prove que \(E\) é autoadjunto se, e somente se é normal. Prove também que, neste caso, \(E\) é a projeção ortogonal em \(W=\operatorname {im}E\).

Exercício 6.20

Sejam \(V\) um espaço com produto interno sobre \(\mathbb {C}\), de dimensão finita, e \(T\in \operatorname {Hom}(V,V)\). Prove que \(T\) é autoadjunto se, e somente se \(\langle T(v),v\rangle \in \mathbb {R}\), para todo \(v\in V.\) Conclua que os autovalores de um operador autoadjunto são reais.

Exercício 6.21

Sejam \(S,T\in \operatorname {Hom}(V,V)\). Suponha que \(S\) e \(T\) admitem adjunto. Mostre que:

  1. Se \(S\) e \(T\) são autoadjuntos, então \(ST\) é autoadjunto se, e somente se, \(ST=TS\).

  2. \(T^{\ast }T\) é autoadjunto.

  3. Se \(T\) é autoadjunto, então \(S^{\ast }TS\) é autoadjunto.

Exercício 6.22

Suponha que \(\dim V\) é finita e seja \(T:V\to V\) um operador normal. Mostre que:

  1. Se \(T\) é nilpotente então \(T=0\).

  2. Se \(T\) é um operador projeção então \(T^{\ast }=T\).

  3. Se \(T^{3}=T^{2}\) então \(T\) é um operador projeção.

Exercício 6.23

Sejam \(V\) um \(\mathbb {C}\)-e.v. com produto interno de dimensão finita e \(T\in \operatorname {Hom}(V,V)\) um operador normal. Prove que:

  1. \(T\) é autoadjunto se, e somente se, todo autovalor de \(T\) é um número real.

  2. \(T\) é unitário se, e somente se, todo autovalor de \(T\) é um número complexo de módulo igual a \(1\).

  3. \(T\) é o operador nulo se, e somente se todos os autovalores de \(T\) são nulos.

Exercício 6.24

Sejam \(T\) e \(S\) dois operadores autoadjuntos em um espaço vetorial \(V\) de dimensão finita. Prove que se \(T\) e \(S\) comutam, então existe uma base ortonormal de \(V\) que diagonaliza estes dois operadores simultaneamente.

Exercício 6.25

Um operador linear \(T\in \operatorname {Hom}(V,V)\) é não negativo se \(T\) é autoadjunto e \(\left\langle T(v),v\right\rangle \geq 0\) para todo \(v\in V\). Mostre que se \(V\) é um \(\mathbb {C}\)-e.v. de dimensão finita:

  1. \(T\) é não negativo se, e somente se, \(T\) é normal e os autovalores de \(T\) são números reais não negativos.

  2. Se \(T\) é não negativo então existe um único operador linear não-negativo \(R\in \operatorname {Hom}(V,V)\) que é raiz quadrada de \(T\), isto é, que satisfaz \(R^{2}=T\).

Exercício 6.26

Seja \(\mathbb {R}_2[x]\) com o produto interno dado por \(\left\langle f,g\right\rangle =\displaystyle \int _{0}^{1}f(x)g(x)\operatorname {dx}\). Considere o operador \(T:\mathbb {R}_2[x]\to \mathbb {R}_2[x]\) dado por \(T(ax^{2}+bx+c)=bx\).

  1. Mostre que \(T\) não é autoadjunto.

  2. A matriz de \(T\) na base canônica é

    \[ \left[\begin{array}{ccc} 0 & 0 & 0\\ 0 & 1 & 0\\ 0 & 0 & 0 \end{array}\right] \]

    que é simétrica. Explique por que isso não contradiz o item 1..

Exercício 6.27

Sejam \(V\) um \(\mathbb {C}\)-e.v. com produto interno de dimensão finita e \(T\in \operatorname {Hom}(V,V)\) um operador normal. Mostre que:

  1. \(T=\lambda _{1}P_{1}+\ldots +\lambda _{k}P_{k}\) onde \(\operatorname {I}=P_{1}+\ldots +P_{k}\) , \(P_{i}P_{j}=0\) se \(i\neq j\) e \(P_{i}^{2}=P_{i}=P_{i}^{\ast }\).

  2. Existe \(g\in \mathbb {C}[x]\) tal que \(T^{\ast }=g(T)\).

  3. Todo subespaço de \(V\) \(T\)-invariante é também \(T^{\ast }\)-invariante.

Exercício 6.28

Seja \(V\) um \(\mathbb {C}\)-espaço vetorial com produto de interno complexo de dimensão finita. Considere \(T\in \operatorname {Hom}(V,V)\) um operador qualquer e \(\lambda _{1},\dots ,\lambda _{n}\) os autovalores de \(T\) (aparecendo tantas vezes quanto sua multiplicidade algébrica). Mostre que:

  1. \(\sum _{i=1}^{n}\left|\lambda _{i}\right|^{2}\leq \operatorname {tr}(T^{\ast }\circ T)\)

  2. A igualdade vale se, e somente se, \(T\) é normal.

Exercício 6.29

Seja

\[ A=\left[\begin{array}{ccc} 1 & 2 & 3\\ 2 & 3 & 4\\ 3 & 4 & 5 \end{array}\right]\in M_{3}(\mathbb {R}). \]

Ache uma matriz ortogonal \(P\in M_{3}(\mathbb {R})\) tal que \(P^{T}AP\) é diagonal.

Exercício 6.30

Considere um \(\mathbb {C}\)-espaço vetorial \(V\) com o produto interno e dimensão finita. Dizemos que um operador \(T:V\to V\) é anti-hermitiano ou anti-autoadjunto se para quaisquer vetores \(u,v\in V\) tem-se que \(\left\langle T(u),v\right\rangle =-\left\langle u,T(v)\right\rangle \). Assuma que \(T\) é anti-hermitiano e mostre que:

  1. Os autovalores de \(T\) são imaginários puros.

  2. Se \(v_{1},v_{2}\in V\) são autovetores associados a autovalores distintos \(\lambda _{1},\lambda _{2}\in \mathbb {C}\) então eles são ortogonais.

  3. Existe uma base ortonormal de \(V\) formada por autovetores de \(T\).

Exercício 6.31

Determine a forma polar da matriz

\[ A=\left[\begin{array}{ccc} 1+i & -1 & 1\\ 0 & i & i\\ 1 & 0 & 1+i \end{array}\right]\in M_{3}(\mathbb {C}). \]