Capítulo 3

Transformações Lineares

As transformações lineares são as aplicações compatíveis com a estrutura dos espaços vetoriais: preservam somas e produtos por escalares. Em dimensão finita, escolhidas bases no domínio e no contradomínio, cada transformação linear é representada por uma matriz.

Essa representação permite calcular a ação e a composição das transformações. Para estudar suas propriedades sem depender das coordenadas, consideraremos também o núcleo, a imagem e as decomposições em subespaços invariantes.

3.1 Definição e Exemplos

Definição 3.1 (Transformação Linear)
Sejam \(V\) e \(W\) espaços vetoriais sobre um corpo \(\mathbb {K}\). Uma função \(T:V\to W\) é denominada transformação linear ou homomorfismo se
\[ T(\lambda _1\bm {x}+\lambda _2\bm {y}) =\lambda _1T(\bm {x})+\lambda _2T(\bm {y}) \]
para todos os \(\lambda _1,\lambda _2\in \mathbb {K}\) e \(\bm {x},\bm {y}\in V\).
Ilustração: Definição e Exemplos

Uma transformação linear de \(V\) em \(V\) é dita operador linear em \(V\). Uma transformação linear de \(V\) em \(\mathbb {K}\) é denominada funcional linear em \(V\).

Os exemplos mais elementares são os seguintes.

Exemplos 3.2
  • A aplicação \(0:V\to W\) que envia todo vetor de \(V\) a \(\vec0\in W\) é linear e recebe o nome de transformação nula.

  • A transformação linear identidade \(\operatorname {I}_V:V\to V\) é definida por \(\operatorname {I}_V(\bm {v})=\bm {v}\) para todo \(\bm {v}\in V\). Quando não houver risco de confusão, escreveremos simplesmente \(\operatorname {I}\).

Em geral, uma aplicação que preserva uma estrutura algébrica é chamada de homomorfismo; daí a expressão homomorfismo linear. Adotaremos ainda as designações seguintes.

Definição 3.3
  • endomorfismo, para um operador linear;

  • monomorfismo, para uma transformação linear injetiva;

  • epimorfismo, para uma transformação linear sobrejetiva;

  • isomorfismo, para uma transformação linear bijetiva;

  • automorfismo, para um operador linear bijetivo.

Exemplo 3.4
Se \(V\) tem dimensão finita e base ordenada \(\underline{\textsc{x}}=(\bm {x}_1,\ldots ,\bm {x}_n)\), então a aplicação de coordenadas \([\, \cdot \, ]_{\underline{\textsc{x}}}:V\to \mathbb {K}^n\) é linear e bijetiva; portanto, é um isomorfismo.

Exemplo 3.5
A transposição \(A\mapsto A^{\mathrm{t}}\) é uma aplicação linear de \(\mathcal{M}_{m, n}(\mathbb {K})\) em \(\mathcal{M}_{n, m}(\mathbb {K})\).

Exemplo 3.6
Se \(V=\mathcal{M}_{m, n}(\mathbb {K})\) e \(A\in \mathcal{M}_{m, m}(\mathbb {K})\), a multiplicação à esquerda por \(A\) define a transformação linear \(\mathrm{L}_A:V\to V\) dada por \(\mathrm{L}_A(B)=AB\).

Os Exemplos 3.43.6 mostram que as aplicações do diagrama comutativo 2.17 são lineares.

Exemplo 3.7

Seja \(V=C^{\infty }(\mathbb {R})\) o espaço vetorial das funções \(f:\mathbb {R}\to \mathbb {R}\) infinitamente diferenciáveis.

  1. Para \(a\in \mathbb {R}\), a avaliação em \(a\) é o funcional \(\mathrm{E}_a:V\to \mathbb {R}\) definido por \(\mathrm{E}_a(f)=f(a)\). Também é linear o operador \(\overline{\mathrm{E}}_a:V\to V\) que associa a \(f\) a função constante de valor \(f(a)\).

  2. A diferenciação \(\mathrm{D}:V\to V\), definida por \(\mathrm{D}(f)=f'\), é uma transformação linear.

  3. Para um número real \(a\), seja \(\mathrm{I}_{a}:V\to V\) a integração com ponto inicial \(t=a\), isto é,

    \[ \mathrm{I}_{a}(f)(x)=\displaystyle \int _{a}^{x}f(t)\, dt. \]

    Então \(\mathrm{I}_{a}\) é uma transformação linear.

  4. Também temos o funcional linear \(I_a^b=\mathrm{E}_{b}\circ \mathrm{I}_{a}\). Dessa forma,

    \[ I_a^b(f)=(\mathrm{E}_{b}\circ \mathrm{I}_{a})(f)=\displaystyle \displaystyle \int _{a}^{b} f(t)\, dt. \]

Teorema 3.8 (Fundamental do Cálculo)
  1. \(\mathrm{D}\circ \mathrm{I}_a=\operatorname {I}\);

  2. \(\mathrm{I}_a\circ \mathrm{D}=\operatorname {I}-\overline{\mathrm{E}}_a\).

Exemplo 3.9
Em \(V=\mathbb {K}[x]\), definimos a derivada formal por
\[ D\left(\sum _{i=0}^{n}a_ix^i\right)=\sum _{i=1}^{n}ia_ix^{i-1}. \]
Essa aplicação, denominada derivação formal, é linear.

Exemplo 3.10
Seja \(V=\mathcal{R}(B)\), como no Exemplo 2.14. A aplicação \(T:V\to \mathbb {R}\) definida por \(T(f)=\displaystyle \int _B f\, dA\) é linear.

Exemplo 3.11
No espaço vetorial das funções integráveis \(f:\mathbb {R}\to \mathbb {R}\) para as quais \(x f(x)\) também é integrável, a aplicação
\[ M_1(f)=\displaystyle \int _{\mathbb {R}}x f(x)\, dx \]
é um funcional linear. Quando \(f\) é uma densidade de probabilidade de uma variável aleatória \(X\), seu valor é \(M_1(f)=\mathbb {E}[X]\). Observe que o conjunto das densidades, isoladamente, não é um espaço vetorial.

Exemplo 3.12

Seja \(V=\mathbb {K}^{\infty }\) o espaço vetorial definido no Exemplo 2.12. Definimos os deslocamentos à esquerda e à direita, respectivamente, por

\[ \mathrm{L} ([a_{1}, \ a_{2}, \ a_{3}, \ \ldots ]) = [a_{2}, \ a_{3}, \ a_{4}, \ \ldots ], \]
\[ \mathrm{R} ([a_{1}, \ a_{2}, \ a_{3}, \ \ldots ]) = [0, \ a_{1}, \ a_{2}, \ \ldots ]. \]

As aplicações \(\mathrm{L},\mathrm{R}:V\to V\) são lineares.

Podemos restringir \(\mathrm{L}\) e \(\mathrm{R}\) ao subespaço \(W=(\mathbb {K}^{\infty })_0\) definido no Exemplo 2.38. Assim, \(\mathrm{L}:W\to W\) e \(\mathrm{R}:W\to W\) também são transformações lineares.

Nesse mesmo exemplo, vimos que \(\underline{\textsc{B}}=(\vec{e}_i\, \mid \, i\in \mathbb {N})\) é uma base de \(W\), onde

\[ \vec{e}_i=\underbrace{(0,\ldots ,0,1,0,\ldots )}_{ 1\text{ na }i\text{-ésima posição}}. \]

Os deslocamentos agem nos vetores da base da seguinte maneira:

\begin{align} \mathrm{R}(\vec{e}_{i}) & =\vec{e}_{i+1} \tag{3.1} \\ \mathrm{L}(\vec{e}_{i}) & = \begin{cases} \vec{e}_{i-1} & \text{se } i\gt 1 \\ \vec0 & \text{se } i=1 \end{cases} \tag{3.2}\end{align}

Ilustração: Definição e Exemplos

Proposição 3.13
Sejam \(T,S:V\to W\) e \(L:W\to Z\) transformações lineares e sejam \(\lambda _1,\lambda _2\in \mathbb {K}\). Então:
  1. \(T(\vec0)=\vec0\).

  2. A composta \(L\circ T: V \to Z \) é uma transformação linear.

  3. \(\lambda _1T+\lambda _2S\) é uma transformação linear de \(V\) em \(W\).

  4. Se \(T\) for invertível, então \(T^{-1}:W\to V \) é uma transformação linear.

Demonstração

a Para qualquer \(\bm {v}\in V\), temos \(T(\vec0)=T(0\bm {v})=0T(\bm {v})=\vec0\).

b Se \(a,b\in \mathbb {K}\) e \(\bm {x},\bm {y}\in V\), então

\[ (L\circ T)(a\bm {x}+b\bm {y}) =L\bigl(aT(\bm {x})+bT(\bm {y})\bigr) =a(L\circ T)(\bm {x})+b(L\circ T)(\bm {y}). \]

c Se \( a, b \in \mathbb {K}\) e \( \bm {x}, \bm {y}\in V\), então

\begin{align} (\lambda _1 T+\lambda _2 S) (a \bm {x}+ b \bm {y}) & = \lambda _1 T(a \bm {x}+ b \bm {y})+\lambda _2 S (a \bm {x}+ b \bm {y}) \tag{3.3} \\ & = \lambda _1 a T(\bm {x})+\lambda _1 b T(\bm {y})+\lambda _2 a S (\bm {x})+\lambda _2 b S (\bm {y}) \tag{3.4} \\ & = a (\lambda _1 T(\bm {x})+\lambda _2 S (\bm {x}) )+b (\lambda _1 T(\bm {y})+\lambda _2 S (\bm {y})) \tag{3.5} \\ & = a (\lambda _1 T+ \lambda _2 S) (\bm {x})+b (\lambda _1 T+ \lambda _2 S)(\bm {y}) . \tag{3.6} \end{align}

Portanto, \( \lambda _1 T+ \lambda _2 S \) é linear.

d Como \(T\) é bijetiva, quaisquer \(\bm {y}_1,\bm {y}_2\in W\) podem ser escritos como \(\bm {y}_1=T(\bm {x}_1)\) e \(\bm {y}_2=T(\bm {x}_2)\). Assim,

\begin{align} T^{-1}(\lambda _1\bm {y}_1+\lambda _2\bm {y}_2) & =T^{-1}(\lambda _1T(\bm {x}_1)+\lambda _2T(\bm {x}_2)) \tag{3.7} \\ & = T^{- 1} (T(\lambda _1\bm {x}_{1}+\lambda _2\bm {x}_{2})) \tag{3.8} \\ & = \lambda _1\bm {x}_{1}+\lambda _2\bm {x}_{2} \tag{3.9} \\ & = \lambda _1 T^{- 1} (\bm {y}_{1})+\lambda _2 T^{- 1} (\bm {y}_{2}). \tag{3.10} \end{align}

Isso mostra que \(T^{-1}\) é linear.

O conjunto de todas as transformações lineares de \(V\) em \(W\) também possui uma estrutura natural de espaço vetorial.

Definição 3.14 (Espaço das Transformações Lineares)

Sejam \(V\) e \(W\) espaços vetoriais sobre \(\mathbb {K}\). O espaço vetorial de todas as transformações lineares de \(V\) em \(W\) será denotado por \(\operatorname {Hom}_{\mathbb {K}}(V,W)\) ou \(\mathcal{L}_{\mathbb {K}}(V,W)\). O espaço dos operadores lineares em \(V\) será denotado por \(\operatorname {Hom}_{\mathbb {K}}(V,V)\).

Quando o corpo base estiver claro no contexto, escreveremos simplesmente \(\operatorname {Hom}(V,W)\). Esse espaço é o subespaço de \(W^V\), definido no Exemplo 2.8, formado pelas funções lineares de \(V\) em \(W\).

Teorema 3.15
\( \operatorname {Hom}(V, W) \) é um subespaço vetorial de \( W^{V} \).

Demonstração

A transformação nula pertence a \(\operatorname {Hom}(V,W)\). Se \(S,T\in \operatorname {Hom}(V,W)\) e \(a,b\in \mathbb {K}\), o item c da proposição anterior mostra que \(aS+bT\) também é linear. O teste de subespaço conclui a demonstração.

Como toda \(T\in \operatorname {Hom}(V,W)\) satisfaz \(T(\vec0)=\vec0\), o espaço \(\operatorname {Hom}(V,W)\) é um subespaço próprio de \(W^V\) sempre que \(W\neq \{ \vec0\} \).

A cada transformação linear estão associados dois subespaços fundamentais.

Definição 3.16 (Núcleo e Imagem)
Seja \( T \in \operatorname {Hom}(V, \ W) \).
  1. O subespaço

    \[ \ker T = \{ \bm {v}\in V \, \mid \, T(\bm {v}) = \vec0 \} \]

    é denominado núcleo de \(T\);

  2. O subespaço

    \[ \operatorname {im}T = \{ T(\bm {v}) \, \mid \, \bm {v}\in V \} \]

    é denominado imagem de \( T \).

  3. A dimensão de \(\ker T\) é a nulidade de \(T\) e é denotada por \(\operatorname {nul}T\);

  4. A dimensão de \(\operatorname {im}T\) é o posto de \(T\) e é denotada por \(\operatorname {posto}T\).

Segue diretamente da linearidade que \(\ker T\) é um subespaço de \(V\) e que \(\operatorname {im}T\) é um subespaço de \(W\).

Figura 3.1 Uma aplicação linear T:V→ W envia todos os vetores da classe bm v+ker T ao mesmo ponto T(bm v). Classes distintas têm imagens distintas, e o conjunto dessas imagens é imT. Em particular, a classe vec0+ker T é enviada à origem de W.

Figura 3.1 Uma aplicação linear \(T:V\to W\) envia todos os vetores da classe \(\bm {v}+\ker T\) ao mesmo ponto \(T(\bm {v})\). Classes distintas têm imagens distintas, e o conjunto dessas imagens é \(\operatorname {im}T\). Em particular, a classe \(\vec0+\ker T\) é enviada à origem de \(W\).

Teorema 3.17
Seja \( T \in \operatorname {Hom}(V, W) \). Então
  1. \(T\) é injetiva se, e somente se, \(\ker T=\{ \vec0\} \);

  2. \(T\) é sobrejetiva se, e somente se, \(\operatorname {im}T=W\).

Demonstração

Para a primeira afirmação, observe que

\[ T(\bm {u})=T(\bm {v}) \Longleftrightarrow T(\bm {u}-\bm {v})=\vec0 \Longleftrightarrow \bm {u}-\bm {v}\in \ker T. \]

Se \(\ker T=\{ \vec0\} \), essa equivalência mostra que \(T\) é injetiva. Reciprocamente, se \(T\) é injetiva e \(\bm {u}\in \ker T\), então \(T(\bm {u})=T(\vec0)\) e, portanto, \(\bm {u}=\vec0\).

A segunda afirmação é direta da definição de sobrejetividade.

O teorema seguinte descreve como definir uma transformação linear a partir das imagens dos vetores de uma base.

Teorema 3.18 (da Extensão por Linearidade)
Sejam \(V\) e \(W\) espaços vetoriais sobre \(\mathbb {K}\) e suponha que \(\underline{\textsc{x}}=(\bm {x}_i\, \mid \, i\in I)\) seja uma base de \(V\). Para qualquer família \((\bm {y}_i\, \mid \, i\in I)\) de vetores de \(W\), existe uma única \(T\in \operatorname {Hom}(V,W)\) tal que \(T(\bm {x}_i)=\bm {y}_i\) para todo \(i\in I\).

Demonstração

Todo vetor \(\bm {x}\in V\) possui uma expressão única \(\bm {x}=\sum _{i\in F}x_i\bm {x}_i\), em que \(F\subseteq I\) é finito. Defina

\[ T(\bm {x})=\sum _{i\in F}x_i\bm {y}_i. \]

A unicidade das coordenadas mostra que a definição é bem posta. A distributividade das somas finitas mostra que \(T\) é linear e, tomando \(\bm {x}=\bm {x}_i\), obtemos \(T(\bm {x}_i)=\bm {y}_i\). Se \(S\) é outra transformação linear com os mesmos valores na base, então

\[ S(\bm {x})=\sum _{i\in F}x_iS(\bm {x}_i)=\sum _{i\in F}x_i\bm {y}_i=T(\bm {x}), \]

logo \(S=T\).

Figura 3.2 Uma aplicação linear T:V→ W fica completamente determinada pelos valores que assume em uma base do domínio.

Figura 3.2 Uma aplicação linear \(T:V\to W\) fica completamente determinada pelos valores que assume em uma base do domínio.

O teorema anterior admite a seguinte generalização para conjuntos linearmente independentes.

Teorema 3.19 (da Extensão para Conjuntos Linearmente Independentes)
Sejam \(V\) e \(W\) espaços vetoriais sobre \(\mathbb {K}\) e suponha que \((\bm {x}_i\, \mid \, i\in I)\) seja uma família linearmente independente em \(V\). Para qualquer família \((\bm {y}_i\, \mid \, i\in I)\) de vetores de \(W\), existe \(T\in \operatorname {Hom}(V,W)\) tal que \(T(\bm {x}_i)=\bm {y}_i\) para todo \(i\in I\).

Demonstração

Pelo Teorema da Extensão de Bases, o conjunto \(\{ \bm {x}_i\, \mid \, i\in I\} \) pode ser completado a uma base \(\underline{\textsc{B}}\) de \(V\). Associe a \(\bm {x}_i\) o vetor \(\bm {y}_i\) e associe o vetor nulo a cada elemento acrescentado à base. O Teorema 3.18 fornece uma transformação linear com os valores prescritos.

Essa transformação não é necessariamente única.

Teorema 3.20
Sejam \(V\) e \(W\) espaços vetoriais sobre \(\mathbb {K}\), com \(\dim V=n\lt \infty \). Cada base ordenada \(\underline{\textsc{x}}\) de \(V\) determina um isomorfismo \(\tau (\underline{\textsc{x}}):\operatorname {Hom}(V,W)\to W^n\).

Demonstração

Seja \(\underline{\textsc{x}}=(\bm {x}_1,\ldots ,\bm {x}_n)\) uma base ordenada de \(V\). Defina \(\tau (\underline{\textsc{x}}):\operatorname {Hom}(V,W)\to W^n\) por

\[ \tau (\underline{\textsc{x}})(T)=(T(\bm {x}_1),\ldots ,T(\bm {x}_n)). \]

A linearidade é verificada componente a componente. Defina \(\phi :W^{n}\to \operatorname {Hom}(V,W)\) por

\[ \phi (\bm {y}_1,\ldots ,\bm {y}_n)=T, \]

onde \(T\) é a única transformação linear que satisfaz \(T(\bm {x}_i)=\bm {y}_i\). Pelo Teorema 3.18, as composições \(\tau (\underline{\textsc{x}})\circ \phi \) e \(\phi \circ \tau (\underline{\textsc{x}})\) são as identidades nos respectivos espaços. Portanto, \(\tau (\underline{\textsc{x}})\) é um isomorfismo.

3.1.1 Transformações de \(\mathbb {K}^n\) em \(\mathbb {K}^m\)

Para qualquer matriz \( A \in \mathcal{M}_{m, n}(\mathbb {K})\), a aplicação de multiplicação

\[ T_{A} (\bm {v}) = A\bm {v} \]

é uma transformação linear de \(\mathbb {K}^n\) em \(\mathbb {K}^m\).

Reciprocamente, toda transformação linear \(T\in \operatorname {Hom}(\mathbb {K}^n,\mathbb {K}^m)\) é dada pela multiplicação por uma matriz. Para verificar isso, fixemos as bases canônicas \(\underline{\textsc{e}}=(\bm {e}_1,\ldots ,\bm {e}_n)\) de \(\mathbb {K}^n\) e \(\underline{\textsc{f}}=(\vec{f}_1,\ldots ,\vec{f}_m)\) de \(\mathbb {K}^m\) e definamos

\[ [T]_{\underline{\textsc{e}},\underline{\textsc{f}}}\coloneqq \left([T\bm {e}_{1}]_{\underline{\textsc{f}}}\ {\mathrel {\big| } \ }\cdots \ {\mathrel {\big| } \ }[T\bm {e}_{n}]_{\underline{\textsc{f}}}\right). \]

Assim, para cada vetor da base canônica do domínio,

\[ [T]_{\underline{\textsc{e}},\underline{\textsc{f}}}[\bm {e}_i]_{\underline{\textsc{e}}}=[T\bm {e}_i]_{\underline{\textsc{f}}}. \]

Consequentemente, \(T=T_A\), onde

\[ A=[T]_{\underline{\textsc{e}},\underline{\textsc{f}}} =\left[T\bm {e}_1\ {\mathrel {\big| } \ }\cdots \ {\mathrel {\big| } \ }T\bm {e}_n\right]. \]

Teorema 3.21
  1. Se \(A\) é uma matriz \(m\times n\) sobre \(\mathbb {K}\), então \(T_A\in \operatorname {Hom}(\mathbb {K}^n,\mathbb {K}^m)\).

  2. Se \(T\in \operatorname {Hom}(\mathbb {K}^n,\mathbb {K}^m)\), então \(T=T_A\), em que

    \[ A=\left[T(\bm {e}_1)\ {\mathrel {\big| } \ }\cdots \ {\mathrel {\big| } \ }T(\bm {e}_n)\right]. \]

    A matriz \(A\) é denominada matriz de \(T\) na base canônica.

Exemplos 3.22
Consideremos algumas transformações de \(\mathbb {R}^2\) em \(\mathbb {R}^2\) e suas interpretações geométricas.
  1. A homotetia \(H_\lambda (\bm {v})=\lambda \bm {v}\) multiplica todo vetor por \(\lambda \). Em qualquer base, sua matriz é

    \[ \begin{bmatrix} \lambda & 0 \\ 0 & \lambda \end{bmatrix}. \]
  2. A dilatação anisotrópica \(H_{\lambda ,\mu }\) multiplica as direções canônicas por fatores possivelmente diferentes: \(H_{\lambda ,\mu }(\bm {e}_1)=\lambda \bm {e}_1\) e \(H_{\lambda ,\mu }(\bm {e}_2)=\mu \bm {e}_2\). Sua matriz na base canônica é

    \[ \begin{bmatrix} \lambda & 0 \\ 0 & \mu \end{bmatrix}. \]
  3. A rotação de ângulo \(\theta \), denotada por \(R_\theta \), tem matriz

    \[ [R_\theta ]=\begin{bmatrix} \cos \theta & -\sin \theta \\ \sin \theta & \cos \theta \end{bmatrix} \]

    na base canônica.

  4. A reflexão em relação ao eixo \(x\) fixa \(\bm {e}_1\) e envia \(\bm {e}_2\) em \(-\bm {e}_2\). Sua matriz na base canônica é

    \[ \begin{bmatrix} 1 & 0 \\ 0 & -1 \end{bmatrix}. \]
  5. Um cisalhamento do plano fixa uma direção \(\bm {e}_1\) e desloca a outra por um múltiplo da primeira. Em uma base \((\bm {e}_1,\bm {e}_2)\), ele é determinado por \(T(\bm {e}_1)=\bm {e}_1\) e \(T(\bm {e}_2)=\bm {e}_2+m\bm {e}_1\). Nessa base, sua matriz é

    \[ \begin{bmatrix} 1 & m \\ 0 & 1 \end{bmatrix}. \]

Figura 3.3 Transformações dos Exemplos 3.22 . Figura 3.3 Transformações dos Exemplos 3.22 . Figura 3.3 Transformações dos Exemplos 3.22 .

Figura 3.3 Transformações dos Exemplos 3.22 . Figura 3.3 Transformações dos Exemplos 3.22 . Figura 3.3 Transformações dos Exemplos 3.22 .

Figura 3.3 Transformações dos Exemplos 3.22.

O Teorema 3.21 estende-se a \((\mathbb {K}^\infty )_0\), mas as matrizes envolvidas são infinitas. Cada coluna de uma matriz que representa um operador em \((\mathbb {K}^\infty )_0\) deve ter suporte finito, pois ela contém as coordenadas da imagem de um vetor da base. Não se impõe a mesma condição às linhas: como \(\bm {v}\) tem suporte finito, cada coordenada de \(A\bm {v}\) é uma soma finita. Além disso, \(A\bm {v}\) tem suporte finito, pois é combinação linear de um número finito de colunas de suporte finito. O produto de duas matrizes desse tipo também está bem definido e representa a composição dos operadores correspondentes.

Exemplo 3.23
O deslocamento para a esquerda admite a representação matricial
\[ \mathrm{L}= \begin{bmatrix} 0 & 1 & 0 & 0 & 0 & \cdots \\ 0 & 0 & 1 & 0 & 0 & \cdots \\ 0 & 0 & 0 & 1 & 0 & \\ 0 & 0 & 0 & 0 & \ddots & \\ \vdots & \vdots & & & & \ddots \end{bmatrix} \]

Exercício 3.1

Seja \(T:U\to V\) uma transformação linear. Mostre que:

  1. \(T(\vec0_U)=\vec0_V\), onde \(\vec0_U\) e \(\vec0_V\) são os vetores nulos de \(U\) e \(V\), respectivamente;

  2. \(T(-\bm {u})=-T(\bm {u})\) para todo \(\bm {u}\in U\);

  3. \[ T\left(\sum _{i=1}^{m}\alpha _i\bm {u}_i\right) =\sum _{i=1}^{m}\alpha _iT(\bm {u}_i), \]

    para quaisquer \(\alpha _i\in \mathbb {K}\) e \(\bm {u}_i\in U\).

Exercício 3.2

Considere o operador de derivação formal \(D:\mathbb {R}_n[x]\to \mathbb {R}_n[x]\), definido por \(D(p)=p'\).

  1. Prove que \(D\) é linear.

  2. Prove que \(D^{n+1}=0\). Um operador \(T\) tal que \(T^k=0\) para algum \(k\geq 1\) é denominado nilpotente.

  3. Calcule \(\ker D^k\) para \(k=1,\ldots ,n+1\).

Exercício 3.3

Considere o deslocamento à esquerda \(\mathrm{L}:(\mathbb {K}^{\infty })_0\to (\mathbb {K}^{\infty })_0\), definido por

\[ \mathrm{L}(a_1,a_2,a_3,\ldots )=(a_2,a_3,a_4,\ldots ). \]
  1. Mostre que \(\mathrm{L}\) é linear.

  2. Calcule \(\ker \mathrm{L}^k\) para \(k\in \mathbb {N}\).

  3. Mostre que, para todo \(\bm {v}\in (\mathbb {K}^{\infty })_0\), existe \(k\in \mathbb {N}\) tal que \(\mathrm{L}^k(\bm {v})=\vec0\), embora \(\mathrm{L}\) não seja nilpotente.

Exercício 3.4

Seja \(V=L_1\oplus L_2\). Mostre que os operadores seguintes são lineares.

  1. A projeção \(\sigma :V\to V\) sobre \(L_1\) ao longo de \(L_2\), definida por

    \[ \sigma (\bm {v}_1+\bm {v}_2)=\bm {v}_1, \qquad \bm {v}_1\in L_1,\quad \bm {v}_2\in L_2. \]
  2. A reflexão \(\tau :V\to V\) em relação a \(L_1\) na direção de \(L_2\), definida por

    \[ \tau (\bm {v}_1+\bm {v}_2)=\bm {v}_1-\bm {v}_2. \]

Exercício 3.5

Sejam \(V\) e \(W\) espaços vetoriais sobre \(\mathbb {K}\), seja \((\bm {x}_i\, \mid \, i\in \Delta )\) uma família linearmente independente em \(V\) e seja \((\bm {y}_i\, \mid \, i\in \Delta )\) uma família de vetores de \(W\).

  1. Mostre que existe \(T\in \operatorname {Hom}(V,W)\) tal que \(T(\bm {x}_i)=\bm {y}_i\) para todo \(i\in \Delta \).

  2. Dê exemplos que mostrem que \(T\) não é necessariamente única.

Exercício 3.6

Demonstre as afirmações seguintes.

  1. Se \(T,G:U\to V\) são lineares, então \(T+G:U\to V\) é linear.

  2. Se \(T:U\to V\) é linear e \(\alpha \in \mathbb {K}\), então \(\alpha T:U\to V\) é linear.

  3. Se \(T:U\to V\) e \(G:V\to W\) são lineares, então \(G\circ T:U\to W\) é linear.

Exercício 3.7

No conjunto \(V=(0,\infty )\), defina

\[ x\oplus y\coloneqq xy \quad \text{e}\quad \alpha \odot x\coloneqq x^\alpha , \qquad x,y\in V,\quad \alpha \in \mathbb {R}. \]

Verifique que \((V,\oplus ,\odot )\) é um espaço vetorial sobre \(\mathbb {R}\) e que \(T:V\to \mathbb {R}\), dada por \(T(x)=\ln x\), é linear em relação a essas operações.

Exercício 3.8

Seja \(T:U\to V\) uma transformação linear e sejam \(U'\subseteq U\) e \(V'\subseteq V\) subespaços. Mostre que \(T(U')\) é um subespaço de \(V\) e que \(T^{-1}(V')\) é um subespaço de \(U\). Conclua que \(\operatorname {im}T\) é um subespaço de \(V\) e que \(\ker T\) é um subespaço de \(U\).

Exercício 3.9

Sejam \(V\) e \(W\) espaços vetoriais sobre \(\mathbb {K}\) e seja \(T:V\to W\) uma função. Mostre que \(T\) é linear se, e somente se, seu gráfico

\[ G_T=\{ (\bm {x},T(\bm {x}))\, \mid \, \bm {x}\in V\} \]

é um subespaço de \(V\times W\).

Exercício 3.10

Seja \(\mathbb {R}_n[x]\) o espaço dos polinômios reais de grau menor ou igual a \(n\). Para um número real fixo \(h\neq 0\), defina o operador diferença

\[ A_h(p)(x)\coloneqq \frac{p(x+h)-p(x)}{h}. \]

Determine o núcleo e a imagem de \(A_h\).

Exercício 3.11

Seja \(T:U\to U\) um operador linear idempotente, isto é, \(T^2=T\). Defina

\[ W=\{ \bm {x}\in U\, \mid \, T(\bm {x})=\bm {x}\} \quad \text{e}\quad V=\ker T. \]

Prove que:

  1. \(U=W\oplus V\);

  2. \(T(U)=W\);

  3. \(T(V)=\{ \vec0\} \).

Exercício 3.12

Mostre que existe uma função \(f:\mathbb {R}\to \mathbb {R}\) tal que \(f(x+y)=f(x)+f(y)\), \(f(x)=0\) para todo \(x\in \mathbb {Q}\) e \(f(\sqrt{2})=1\).

Exercício 3.13

Determine todos os funcionais lineares em \(\mathbb {Z}_2^3\). Qual é a dimensão do espaço dual \((\mathbb {Z}_2^3)^*\)?

Exercício 3.14

Seja \(T\in \operatorname {Hom}(V,V)\) e defina

\[ L=\{ \bm {v}\in V\, \mid \, f(T(\bm {v}))=0 \text{ para todo }f\in V^*\} . \]

Prove que \(L=\ker T\).

Exercício 3.15

Seja \(T:\mathbb {R}^3\to \mathbb {R}^3\) definida por

\[ T(x_1,x_2,x_3) =(x_1-x_2+2x_3,\, 2x_1+x_2,\, -x_1-2x_2+2x_3). \]
  1. Verifique que \(T\) é linear.

  2. Determine a imagem de \(T\).

  3. Determine o posto de \(T\).

Exercício 3.16

Seja \(\mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K})\) o espaço das matrizes \(n\times n\) sobre \(\mathbb {K}\) e fixe \(B\in \mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K})\). Prove que

\[ T:\mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K})\to \mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K}), \qquad T(A)=AB-BA, \]

é linear. Descreva \(\ker T\) e expresse \(\operatorname {posto}T\) em termos da dimensão do espaço das matrizes que comutam com \(B\).

Exercício 3.17

Sejam \(U,V,W\) espaços vetoriais de dimensão finita e sejam \(T:U\to V\) e \(S:V\to W\) transformações lineares. Prove que

\[ \dim \ker (S\circ T)\leq \dim \ker S+\dim \ker T. \]

3.2 Isomorfismos

Definição 3.24 (Isomorfismo)
Uma transformação linear bijetiva \(T:V\to W\) é denominada isomorfismo de \(V\) em \(W\). Quando existe tal aplicação, dizemos que \(V\) e \(W\) são isomorfos e escrevemos \(V\cong W\).

Dois espaços vetoriais isomorfos são indistinguíveis do ponto de vista de sua estrutura linear: um isomorfismo permite transportar de um para o outro somas, multiplicações por escalares e todas as relações construídas com essas operações.

Exemplo 3.25
  1. A identidade \(\operatorname {I}_V:V\to V\) é um isomorfismo; logo \(V\cong V\).

  2. Se \(T:V\to W\) é um isomorfismo, então \(T^{-1}:W\to V\) também é; logo \(V\cong W\) implica \(W\cong V\).

  3. Se \(T:V\to W\) e \(S:W\to Z\) são isomorfismos, então \(S\circ T:V\to Z\) é um isomorfismo; logo \(V\cong W\) e \(W\cong Z\) implicam \(V\cong Z\).

Portanto, o isomorfismo define uma relação de equivalência entre espaços vetoriais sobre um mesmo corpo.

Exemplo 3.26
Pela convenção adotada neste texto, \(\mathbb {K}^n=\mathcal{M}_{n, 1}(\mathbb {K})\) é o espaço dos vetores coluna. A transposição fornece um isomorfismo entre colunas e linhas:
\[ \mathbb {K}^n=\mathcal{M}_{n, 1}(\mathbb {K})\longrightarrow \mathcal{M}_{1, n}(\mathbb {K}), \qquad A\longmapsto A^{\mathrm{t}}. \]

Notação 3.27
Os elementos de \(\mathbb {K}^n\) serão sempre representados como vetores coluna:
\[ \bm {x}=\begin{bmatrix} x_1 \\ x_2 \\ \vdots \\ x_n \end{bmatrix}\in \mathbb {K}^n. \]
Um vetor linha pertence a \(\mathcal{M}_{1, n}(\mathbb {K})\) e não será identificado literalmente com um elemento de \(\mathbb {K}^n\).

Exemplo 3.28
O Exemplo 3.4 mostra que todo espaço vetorial \(V\) de dimensão \(n\) sobre \(\mathbb {K}\) é isomorfo a \(\mathbb {K}^n\):
\[ V\cong \mathbb {K}^n. \]
Consequentemente, todos os espaços vetoriais de dimensão \(n\) sobre \(\mathbb {K}\) são isomorfos entre si. Em outras palavras, a menos de isomorfismo, existe um único espaço vetorial de cada dimensão finita sobre \(\mathbb {K}\).

Recordemos a descrição do espaço \(V^n\) introduzido no Exemplo 2.8.

Exemplo 3.29

Seja \(V\) um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\) e seja \(n\in \mathbb {N}\). Considere a soma direta

\[ \underbrace{V\boxplus \cdots \boxplus V}_{n\text{ vezes}}. \]

Para \(A=\{ 1,\ldots ,n\} \), o espaço \(V^A\) é denotado simplesmente por \(V^n\).

Existe um isomorfismo natural \(T:V\boxplus \cdots \boxplus V\to V^n\) que envia \((\bm {x}_1,\ldots ,\bm {x}_n)\) à função \(f\) definida por \(f(i)=\bm {x}_i\). A soma e a multiplicação por escalares são calculadas componente a componente, e a inversa envia \(f\) para \((f(1),\ldots ,f(n))\). Portanto,

\[ V^n \cong \underbrace{V\boxplus \cdots \boxplus V}_{n \text{ vezes}} \]

Observe que esse isomorfismo não exige a escolha de bases.

Notação 3.30 (Isomorfismo natural)

O termo natural possui um significado preciso na Teoria das Categorias. Aqui, ele indicará que a construção não depende da escolha de bases. Chamaremos de acidental um isomorfismo que dependa de tal escolha.

Usaremos canônico para uma escolha ou representação consagrada, como a base canônica de \(\mathbb {R}^n\). O uso desse termo varia na literatura e, por vezes, coincide com o de “natural”.

A partir deste ponto, usaremos a identificação natural entre a soma direta de \(n\) cópias de \(V\) e \(V^n\). Se \(A\) for apenas um conjunto de cardinalidade \(n\), uma identificação \(V^A\cong V^n\) exigirá a escolha de uma enumeração de \(A\).

Exemplo 3.31
O espaço \((\mathbb {K}^{\infty })_0\) das sequências sobre \(\mathbb {K}\) com suporte finito é isomorfo a \(\mathbb {K}[x]\):
\[ \mathbb {K}[x]\cong (\mathbb {K}^{\infty })_0 \]
Um isomorfismo é dado por
\[ T(a_0+a_1x+\cdots +a_nx^n)=(a_0,a_1,\ldots ,a_n,0,\ldots ). \]

Espaços vetoriais isomorfos compartilham todas as propriedades expressas em termos de sua estrutura linear. Se \(T\in \operatorname {Hom}(V,W)\) e \(S\subseteq V\), escreveremos

\[ T(S)=\{ T(\bm {s})\, \mid \, \bm {s}\in S\} . \]

Teorema 3.32
Sejam \(T\in \operatorname {Hom}(V,W)\) um isomorfismo e \(S\subseteq V\). Então:
  1. \(S\) gera \(V\) se, e somente se, \(T(S)\) gera \(W\);

  2. \(S\) é linearmente independente em \(V\) se, e somente se, \(T(S)\) é linearmente independente em \(W\).

Demonstração

Como \(T\) e \(T^{-1}\) preservam combinações lineares, temos \(T(\langle S\rangle )=\langle T(S)\rangle \). Isso prova a primeira equivalência. Para a segunda, uma relação linear entre elementos de \(S\) é enviada por \(T\) a uma relação com os mesmos coeficientes entre suas imagens; aplicando \(T^{-1}\), obtemos a recíproca.

Em particular, os isomorfismos podem ser caracterizados por seu efeito sobre as bases.

Teorema 3.33
Sejam \(V\) e \(W\) espaços vetoriais sobre \(\mathbb {K}\). Então:
  1. uma transformação linear \(T\in \operatorname {Hom}(V,W)\) é um isomorfismo se, e somente se, envia alguma base de \(V\) a uma base de \(W\). Nesse caso, envia toda base de \(V\) a uma base de \(W\);

  2. \(V\cong W\) se, e somente se, \(\dim V=\dim W\).

Demonstração

Se \(T\) é um isomorfismo e \(\underline{\textsc{B}}\) é uma base de \(V\), o teorema anterior mostra que \(T(\underline{\textsc{B}})\) é uma base de \(W\). Reciprocamente, se \(T\) envia alguma base de \(V\) a uma base de \(W\), então o mesmo teorema mostra que \(T\) é injetiva e sobrejetiva. Isso prova a.

Para b, um isomorfismo envia uma base de \(V\) a uma base de \(W\) e, portanto, preserva sua cardinalidade. Na direção inversa, escolha bases de \(V\) e \(W\) com a mesma cardinalidade, fixe uma bijeção entre elas e use o Teorema 3.18 para estendê-la a um isomorfismo.

O resultado pode ser enunciado como um teorema de classificação.

Teorema 3.34 (de Classificação dos Espaços Vetoriais)

  1. Para cada \(n\in \mathbb {N}\), todo espaço vetorial de dimensão \(n\) sobre \(\mathbb {K}\) é isomorfo a \(\mathbb {K}^n\);

  2. se \(\kappa \) é um cardinal e \(B\) é um conjunto de cardinalidade \(\kappa \), todo espaço vetorial de dimensão \(\kappa \) sobre \(\mathbb {K}\) é isomorfo ao espaço \((\mathbb {K}^B)_0\) das funções de \(B\) em \(\mathbb {K}\) com suporte finito.

Demonstração

O primeiro item foi demonstrado no Exemplo 3.28.

Para o segundo, suponha que \(B\) tenha cardinalidade \(\kappa \). Para cada \(b\in B\), defina \(\delta _b\in (\mathbb {K}^B)_0\) por

\[ \delta _{b} (x) = \begin{cases} 1,& \text{se }x=b,\\ 0,& \text{se }x\neq b. \end{cases} \]

formam uma base de \((\mathbb {K}^B)_0\): toda função de suporte finito se escreve como uma combinação linear finita das \(\delta _b\), e uma relação linear entre elas se anula ponto a ponto somente quando todos os coeficientes são nulos. Portanto, \(\dim ((\mathbb {K}^B)_0)=|B|=\kappa \).

Se \(V\) possui dimensão \(\kappa \), uma bijeção entre uma base de \(V\) e a base \((\delta _b)_{b\in B}\) estende-se, pelo Teorema 3.18, a um isomorfismo \(V\to (\mathbb {K}^B)_0\).

Exercício 3.18

Mostre que

\[ V^n\cong \underbrace{V\boxplus \cdots \boxplus V}_{n\text{ vezes}}. \]

Exercício 3.19

Sejam \(A\) e \(B\) subespaços de um espaço vetorial \(V\) tais que \(V=A+B\), e considere a soma direta externa \(E=A\boxplus B\). Defina

\[ \tau :E\to V,\qquad \tau (\vec{a},\vec{b})=\vec{a}+\vec{b}. \]
  1. Prove que \(\tau \) é linear.

  2. Determine \(\ker \tau \).

  3. Determine quando \(\tau \) é um isomorfismo.

Exercício 3.20

Mostre que

\[ \mathbb {K}[x]\cong (\mathbb {K}^{\infty })_0. \]

Exercício 3.21

Seja \(V\) um espaço vetorial de dimensão finita e seja \(T:V\to V\) linear. Suponha que exista \(G:V\to V\) tal que \(T\circ G=\operatorname {I}_V\). Prove que \(T\) é um isomorfismo e que \(G=T^{-1}\). Dê um exemplo que mostre que a afirmação pode falhar quando \(V\) tem dimensão infinita.

Exercício 3.22

Encontre um espaço vetorial \(V\) com duas decomposições

\[ V=A\oplus B=C\oplus D \]

tais que \(A\cong C\), mas \(B\not\cong D\). Conclua que subespaços isomorfos podem admitir complementos não isomorfos.

Exercício 3.23

Sejam \(V,A,B,C\) espaços vetoriais e sejam \(F:A\to C\) e \(G:B\to C\) transformações lineares. Defina o produto fibrado

\[ A\times _C B\coloneqq \{ (\vec{a},\vec{b})\in A\times B \, \mid \, F(\vec{a})=G(\vec{b})\} . \]

Mostre que:

  1. \(\operatorname {Hom}(V,A\oplus B)\) é isomorfo a \(\operatorname {Hom}(V,A)\oplus \operatorname {Hom}(V,B)\);

  2. \(\operatorname {Hom}(V,A\times _C B)\) é isomorfo ao produto fibrado

    \[ \begin{aligned} \operatorname {Hom}(V,A)\times _{\operatorname {Hom}(V,C)}\operatorname {Hom}(V,B) \coloneqq \{ (S,T)\in {}& \operatorname {Hom}(V,A)\times \operatorname {Hom}(V,B)\, \mid \, \\ & F\circ S=G\circ T\} . \end{aligned} \]

3.3 Teorema do Núcleo-Imagem

Teorema 3.35 (Teorema do Núcleo-Imagem)
Sejam \(V\) e \(W\) espaços vetoriais sobre \(\mathbb {K}\), com \(V\) de dimensão finita, e seja \(T:V\to W\) uma transformação linear. Então
\[ \dim V=\dim (\ker T)+\dim (\operatorname {im}T). \]

Demonstração

Seja \(\underline{\textsc{B}}_1=(\bm {u}_1,\ldots ,\bm {u}_r)\) uma base de \(\ker T\). Pelo Teorema da Extensão, complete-a a uma base

\[ \underline{\textsc{B}}_2=(\bm {u}_1,\ldots ,\bm {u}_r,\bm {v}_1,\ldots ,\bm {v}_s) \]

de \(V\). Mostraremos que \((T(\bm {v}_1),\ldots ,T(\bm {v}_s))\) é uma base de \(\operatorname {im}T\).

Se \(\bm {w}=T(\bm {z})\in \operatorname {im}T\), escreva \(\bm {z}=\sum _{i=1}^r a_i\bm {u}_i+\sum _{j=1}^s b_j\bm {v}_j\). Como \(T(\bm {u}_i)=\vec0\), temos

\[ \bm {w}=T(\bm {z})=\sum _{j=1}^s b_jT(\bm {v}_j), \]

logo esses vetores geram \(\operatorname {im}T\). Se \(\sum _{j=1}^s b_jT(\bm {v}_j)=\vec0\), então \(\sum _{j=1}^s b_j\bm {v}_j\in \ker T\) e, para certos \(a_i\in \mathbb {K}\),

\[ \sum _{j=1}^s b_j\bm {v}_j=\sum _{i=1}^r a_i\bm {u}_i. \]

A independência linear de \(\underline{\textsc{B}}_2\) implica que todos os \(b_j\) são nulos. Portanto, \((T(\bm {v}_1),\ldots ,T(\bm {v}_s))\) é uma base de \(\operatorname {im}T\). Como \(\dim V=r+s\), concluímos que

\[ \dim V=\dim (\ker T)+\dim (\operatorname {im}T). \]

Segunda demonstração.

Apresentaremos uma formulação mais abstrata do Teorema do Núcleo-Imagem. Seja \(T\in \operatorname {Hom}(V,W)\). Escolha um complemento \(K\) de \(\ker T\) em \(V\), de modo que

\[ V=\ker T\oplus K. \]

A restrição \(T\mathord {\upharpoonright }_K:K\to W\) é injetiva, pois

\[ \ker (T\mathord {\upharpoonright }_K)=\ker T\cap K=\{ \vec0\} . \]

Além disso, sua imagem é \(\operatorname {im}T\). De fato, uma inclusão é imediata. Para a outra, escreva \(\bm {v}=\bm {u}+\bm {w}\), com \(\bm {u}\in \ker T\) e \(\bm {w}\in K\); então

\[ T(\bm {v})=T(\bm {u})+T(\bm {w})=T(\bm {w})\in \operatorname {im}(T\mathord {\upharpoonright }_K). \]

Logo \(T\mathord {\upharpoonright }_K\) define um isomorfismo

\[ K\cong \operatorname {im}T. \]

Provamos o seguinte teorema.

Teorema 3.36 (Teorema do Núcleo-Imagem)
Seja \(T\in \operatorname {Hom}(V,W)\).
  1. Todo complemento de \(\ker T\) em \(V\) é isomorfo a \(\operatorname {im}T\);

  2. \(\dim (\ker T)+\dim (\operatorname {im}T)=\dim V\).

Se \(A\in \mathcal{M}_{m, n}(\mathbb {K})\), a imagem de \(T_A\) é o espaço das colunas de \(A\). Portanto,

\[ \dim (\ker T_A)+\operatorname {posto}(A)=n. \]

Isso fornece o seguinte resultado útil.

Teorema 3.37
Seja \(A\in \mathcal{M}_{m, n}(\mathbb {K})\). Então:
  1. \(T_A:\mathbb {K}^n\to \mathbb {K}^m\) é injetiva se, e somente se, \(\operatorname {posto}(A)=n\);

  2. \(T_A:\mathbb {K}^n\to \mathbb {K}^m\) é sobrejetiva se, e somente se, \(\operatorname {posto}(A)=m\).

Teorema 3.38

Sejam \(V\) e \(W\) espaços vetoriais sobre \(\mathbb {K}\) e seja \(T\in \operatorname {Hom}(V,W)\). Então:

  1. Se \(T\) é sobrejetiva, então \(\dim V\geq \dim W\);

  2. Se \(\dim V=\dim W\lt \infty \), então \(T\) é um isomorfismo se, e somente se, é injetiva ou sobrejetiva.

Demonstração

a Se \(T\) é sobrejetiva, então \(W=\operatorname {im}T\); pelo Teorema do Núcleo-Imagem, \(\dim W=\dim (\operatorname {im}T)\leq \dim V\).

b Se \(T\) é um isomorfismo, então é injetiva e sobrejetiva. Se \(T\) é injetiva, \(\ker T=\{ \vec0\} \) e o Teorema do Núcleo-Imagem dá \(\dim \operatorname {im}T=\dim V=\dim W\); logo \(\operatorname {im}T=W\). Se \(T\) é sobrejetiva, \(\operatorname {im}T=W\) e o mesmo teorema dá \(\dim \ker T=0\); logo \(T\) é injetiva.

Observe que o resultado de b não é verdadeiro, em geral, para espaços de dimensão infinita.

Proposição 3.39
Sejam \(U,V,W\) espaços vetoriais de dimensão finita e sejam \(T:U\to V\) e \(S:V\to W\) transformações lineares. Então
\[ \dim \ker (S\circ T)\leq \dim \ker S+\dim \ker T. \]

Demonstração

Como \(\ker (S\circ T)=T^{-1}(\ker S)\), considere a restrição

\[ T':\ker (S\circ T)\longrightarrow \ker S, \qquad T'(\bm {u})=T(\bm {u}). \]

Seu núcleo é \(\ker T\). Pelo Teorema do Núcleo-Imagem,

\[ \dim \ker (S\circ T)=\dim \ker T+\dim \operatorname {im}T' \leq \dim \ker T+\dim \ker S. \]

Leitura opcional: complexos e sequências exatas.

Terminamos esta seção com uma formulação que será útil em contextos mais avançados.

Definição 3.40 (Complexo de Cadeias)
Um complexo de cadeias de espaços vetoriais sobre \(\mathbb {K}\) é uma família \(C=((V_i,d_i)\, \mid \, i\in \mathbb {Z})\), em que \(d_i:V_i\to V_{i-1}\) é linear e \(d_i\circ d_{i+1}=0\) para todo \(i\in \mathbb {Z}\).

A condição \(d_i\circ d_{i+1}=0\) nos diz que \(\operatorname {im}d_{i+1}\subseteq \ker d_i\).

Representamos um complexo de cadeias pelo diagrama Ilustração: Teorema do Núcleo-Imagem

Se apenas um número finito de espaços for não nulo, o diagrama assume a forma Ilustração: Teorema do Núcleo-Imagem

Os espaços e as aplicações que não aparecem na Equação 3.12 são nulos.

Definição 3.41 (Exato)
Um complexo de cadeias Ilustração: Teorema do Núcleo-Imagem é dito exato se \(\operatorname {im}d_{i+1}=\ker d_i\) para todo \(i\in \mathbb {Z}\).

Proposição 3.42
Seja \(T:X\to Y\) uma transformação linear. Então:
  1. A sequência \( X \xrightarrow {T} Y \to 0 \) é exata se, e somente se, \( T \) é sobrejetiva.

  2. A sequência \( 0 \to X \xrightarrow {T} Y \) é exata se, e somente se, \( T \) é injetiva.

  3. A sequência \( 0 \to X \xrightarrow {T} Y \to 0 \) é exata se, e somente se, \( T \) é bijetiva.

Exemplo 3.43
Sejam \(V\) e \(W\) espaços vetoriais sobre \(\mathbb {K}\) e seja \(T\in \operatorname {Hom}(V,W)\). Então Ilustração: Teorema do Núcleo-Imagem é um complexo de cadeias exato, em que \(i\) denota a inclusão de \(\ker T\) em \(V\).

O exemplo motiva a definição seguinte.

Definição 3.44 (Sequência Exata Curta)
Uma sequência exata curta é um complexo de cadeias exato da forma Ilustração: Teorema do Núcleo-Imagem

No Exemplo 3.43, temos uma sequência exata curta com \(V_2=\ker T\), \(d_2=i\), \(V_1=V\) e \(d_1=T\). Pela definição de exatidão, o complexo \(C\) da Equação 3.15 é uma sequência exata curta se, e somente se, \(d_2\) é injetiva, \(d_1\) é sobrejetiva e \(\operatorname {im}d_2=\ker d_1\).

Se os espaços têm dimensão finita, o Teorema 3.36 b implica

\[ \dim V_2-\dim V_1+\dim V_0=0. \]

Essa é outra forma do Teorema do Núcleo-Imagem.

Teorema 3.45 (Teorema do Núcleo-Imagem)
Seja Ilustração: Teorema do Núcleo-Imagem uma sequência exata curta de espaços vetoriais de dimensão finita. Então
\[ \dim V_2-\dim V_1+\dim V_0=0. \]

Podemos agora provar a generalização seguinte.

Teorema 3.46
Suponha que Ilustração: Teorema do Núcleo-Imagem seja um complexo de cadeias exato de espaços de dimensão finita. Então
\[ \sum _{i=0}^{n}(-1)^i\dim V_i=0. \]

Demonstração

O complexo de cadeias \(C\) se decompõe nas seguintes sequências exatas curtas: Ilustração: Teorema do Núcleo-Imagem

Aplicando o Teorema 3.36 b a cada \(C_i\) e somando as igualdades com sinais alternados, os termos \(\dim \ker d_i\) se cancelam aos pares. Resta \(\displaystyle \sum _{i=0}^{n}(-1)^i\dim V_i=0\).

Exercício 3.24

Seja \(T:\mathbb {R}_n[x]\to \mathbb {R}_n[x]\) o operador definido por

\[ T(p)=3p-6p'+p''. \]
  1. Mostre que \(\ker T=\{ \vec0\} \).

  2. Conclua que, para todo \(q\in \mathbb {R}_n[x]\), existe \(p\in \mathbb {R}_n[x]\) tal que \(3p-6p'+p''=q\).

Exercício 3.25

Seja \(T:V\to V\) um operador em um espaço vetorial de dimensão finita. Mostre que

\[ V=\ker T\oplus \operatorname {im}T \]

se, e somente se, \(\ker T=\ker T^2\).

Exercício 3.26

Sejam \(V\) e \(W\) espaços vetoriais de dimensão finita e seja \(T:V\to W\) linear. Prove que:

  1. se \(T\) é sobrejetiva, então \(\dim V\geq \dim W\);

  2. se \(T\) é injetiva, então \(\dim V\leq \dim W\).

Exercício 3.27

Sejam \(V\) e \(W\) espaços vetoriais de dimensão finita.

  1. Se \(T:V\to W\) é sobrejetiva, prove que existe uma transformação linear \(S:W\to V\) tal que \(T\circ S=\operatorname {I}_W\).

  2. Se \(T:V\to W\) é injetiva, prove que existe uma transformação linear \(S:W\to V\) tal que \(S\circ T=\operatorname {I}_V\).

Exercício 3.28

Seja \(A:V\to W\) uma transformação linear. Mostre que existe um espaço vetorial \(U\), uma transformação sobrejetiva \(S:V\to U\) e uma transformação injetiva \(T:U\to W\) tais que \(A=T\circ S\). Verifique também que é possível escolher um espaço \(U'\), uma transformação injetiva \(T':V\to U'\) e uma transformação sobrejetiva \(S':U'\to W\) tais que \(A=S'\circ T'\).

Exercício 3.29

Seja \(T\) um operador em um espaço vetorial \(V\) de dimensão \(n\). Prove que

\[ \ker T^n=\ker T^{n+1} \quad \text{e}\quad \operatorname {im}T^n=\operatorname {im}T^{n+1}. \]

Exercício 3.30

Sob as hipóteses do exercício anterior, prove que

\[ V=\operatorname {im}T^n\oplus \ker T^n. \]

Exercício 3.31

Uma sequência de espaços vetoriais de dimensão finita

\[ V_0\overset {T_0}{\longrightarrow }V_1 \overset {T_1}{\longrightarrow }\cdots \overset {T_{n-1}}{\longrightarrow }V_n \]

é exata se \(\ker T_i=\operatorname {im}T_{i-1}\) para \(i=1,\ldots ,n-1\).

  1. Mostre que a sequência \(0\to V_1\overset {T_1}{\longrightarrow }V_2\) é exata se, e somente se, \(T_1\) é injetiva.

  2. Mostre que a sequência \(V_0\overset {T_0}{\longrightarrow }V_1\to 0\) é exata se, e somente se, \(T_0\) é sobrejetiva.

  3. Considere a sequência exata

    \[ 0\to V_1\overset {T_1}{\longrightarrow }V_2 \overset {T_2}{\longrightarrow }V_3 \overset {T_3}{\longrightarrow }V_4\to 0. \]

    Se \(\dim _{\mathbb {K}}V_i=d_i\), mostre que \(d_1+d_3=d_2+d_4\).

    Exercício avançado: complexos de cocadeias.

Exercício 3.32

Um complexo de cocadeias é um par \((C,d)\), em que \(C=(C_i)_{i\in \mathbb {Z}}\) é uma família de espaços vetoriais e \(d=(d_i)_{i\in \mathbb {Z}}\) é uma família de transformações lineares \(d_i:C_i\to C_{i+1}\) tais que \(d_{i+1}\circ d_i=0\). Representamos o complexo pelo diagrama

\[ C:\; \cdots \overset {d_{i-2}}{\longrightarrow }C_{i-1} \overset {d_{i-1}}{\longrightarrow }C_i \overset {d_i}{\longrightarrow }C_{i+1} \overset {d_{i+1}}{\longrightarrow }\cdots . \]
  1. O \(i\)-ésimo espaço de cohomologia de \((C,d)\) é

    \[ H^i(C,d)\coloneqq \ker d_i/\operatorname {im}d_{i-1}. \]

    Mostre que esse quociente está bem definido, isto é, que \(\operatorname {im}d_{i-1}\subseteq \ker d_i\) para todo \(i\in \mathbb {Z}\).

  2. Suponha que cada \(C_i\) tenha dimensão finita e que o complexo seja limitado: existem \(m,n\in \mathbb {Z}\) tais que \(C_i=\{ \vec0\} \) quando \(i\notin \{ m,\ldots ,n\} \). Defina sua característica de Euler por

    \[ \chi (C,d)\coloneqq \sum _{k=m}^{n}(-1)^k\dim C_k. \]

    Mostre que

    \[ \chi (C,d)=\sum _{k=m}^{n}(-1)^k\dim H^k(C,d). \]
Exercício

3.4 Representação Matricial dos Homomorfismos

Teorema 3.47
Suponha que \(V\) e \(W\) sejam espaços vetoriais tais que \(\dim V=n\) e \(\dim W=m\). Se \(\underline{\textsc{x}}=(\bm {x}_1,\ldots ,\bm {x}_n)\) é uma base de \(V\) e \(\underline{\textsc{y}}=(\bm {y}_1,\ldots ,\bm {y}_m)\) é uma base de \(W\), então o par \((\underline{\textsc{x}},\underline{\textsc{y}})\) determina o isomorfismo \(\left[\, \cdot \, \right]_{\underline{\textsc{x}},\underline{\textsc{y}}}:\operatorname {Hom}(V,W)\to \mathcal{M}_{m, n}(\mathbb {K})\) definido por

\begin{equation} \label{eq3.24} T\longmapsto \left[T \right]_{\underline{\textsc{x}},\underline{\textsc{y}}}, \tag{3.19} \end{equation}

onde \(\left[T \right]_{\underline{\textsc{x}},\underline{\textsc{y}}}=\left([T(\bm {x}_1)]_{\underline{\textsc{y}}}\ {\mathrel {\big| } \ }\cdots \ {\mathrel {\big| } \ }[T(\bm {x}_n)]_{\underline{\textsc{y}}}\right)\). Em particular, sua \(i\)-ésima coluna é \([T(\bm {x}_i)]_{\underline{\textsc{y}}}\). Além disso, o diagrama comuta: Ilustração: Representação Matricial dos Homomorfismos

Demonstração

Linearidade. Se \(T_1,T_2\in \operatorname {Hom}(V,W)\) e \(\lambda _1,\lambda _2\in \mathbb {K}\), então

\begin{align} \left[\lambda _1 T_{1}+\lambda _2 T_{2} \right]_{\underline{\textsc{x}},\underline{\textsc{y}}} & = \left([(\lambda _1 T_{1}+\lambda _2 T_{2}) (\bm {x}_{1})]_{\underline{\textsc{y}}} \ {\mathrel {\big| } \ }\cdots \ {\mathrel {\big| } \ }[(\lambda _1 T_{1}+\lambda _2 T_{2}) (\bm {x}_{n})]_{ \underline{\textsc{y}}}\right) \tag{3.20} \\ & = \left(\lambda _1 [T_{1} (\bm {x}_{1})]_{\underline{\textsc{y}}}+\lambda _2 [T_{2} (\bm {x}_{1})]_{\underline{\textsc{y}}} \ {\mathrel {\big| } \ }\cdots \ {\mathrel {\big| } \ }\lambda _1 [T_{1} (\bm {x}_{n})]_{ \underline{\textsc{y}}}+\lambda _2 [T_{2} (\bm {x}_{n})]_{\underline{\textsc{y}}}\right) \tag{3.21} \\ & = \lambda _1 \left([T_{1} (\bm {x}_{1})]_{\underline{\textsc{y}}} \ {\mathrel {\big| } \ }\cdots \ {\mathrel {\big| } \ }[T_{1} (\bm {x}_{n})]_{\underline{\textsc{y}}}\right)+\lambda _2 \left([T_{2} (\bm {x}_{1})]_{\underline{\textsc{y}}} \ {\mathrel {\big| } \ }\cdots \ {\mathrel {\big| } \ }[T_{2} (\bm {x}_{n})]_{\underline{\textsc{y}}}\right) \tag{3.22} \\ & = \lambda _1 \left[T_1 \right]_{\underline{\textsc{x}},\underline{\textsc{y}}}+ \lambda _2 \left[T_2 \right]_{\underline{\textsc{x}},\underline{\textsc{y}}}. \tag{3.23} \end{align}

Portanto, \(\left[\, \cdot \, \right]_{\underline{\textsc{x}},\underline{\textsc{y}}}\) é linear.

Bijetividade.

Suponha que \(T\in \ker \left[\, \cdot \, \right]_{\underline{\textsc{x}},\underline{\textsc{y}}}\). Então \([T(\bm {x}_i)]_{\underline{\textsc{y}}}=0\) para \(i=1,\ldots ,n\). Como o vetor de coordenadas de um vetor é nulo se, e somente se, o próprio vetor é nulo, temos \(T(\bm {x}_i)=\vec0\) para todo \(i\). Como uma transformação linear é determinada pelos valores que assume em uma base, \(T=0\). Logo \(\left[\, \cdot \, \right]_{\underline{\textsc{x}},\underline{\textsc{y}}}\) é injetiva.

Para provar a sobrejetividade, seja \(A=(a_{ji})\in \mathcal{M}_{m, n}(\mathbb {K})\) e, para \(i=1,\ldots ,n\), defina

\[ \bm {z}_i=\sum _{j=1}^{m}a_{ji}\bm {y}_j. \]

Então \([\bm {z}_i]_{\underline{\textsc{y}}}\) é a \(i\)-ésima coluna de \(A\). Pelo Teorema 3.18, existe uma única \(T\in \operatorname {Hom}(V,W)\) tal que \(T(\bm {x}_i)=\bm {z}_i\) para todo \(i\). Consequentemente, \(\left[T \right]_{\underline{\textsc{x}},\underline{\textsc{y}}}=A\), o que prova a sobrejetividade.

Comutatividade do diagrama.

No diagrama, a seta superior atua sobre vetores; a inferior multiplica colunas de coordenadas. Partindo de \(\bm {v}\in V\), podemos aplicar \(T\) e depois tomar coordenadas na base \(\underline{\textsc{y}}\), obtendo \([T(\bm {v})]_{\underline{\textsc{y}}}\). Podemos também tomar primeiro \([\bm {v}]_{\underline{\textsc{x}}}\) e multiplicar por \(\left[T \right]_{\underline{\textsc{x}},\underline{\textsc{y}}}\). Precisamos mostrar que esses dois percursos produzem a mesma coluna. Isso não identifica literalmente um vetor de \(W\) com suas coordenadas: compara duas maneiras de calcular essas coordenadas.

Para cada vetor \(\bm {x}_i\) da base \(\underline{\textsc{x}}\), temos

\begin{align*} ([\ \cdot \ ]_{\underline{\textsc{y}}} T) (\bm {x}_{i}) & = [T(\bm {x}_{i})]_{\underline{\textsc{y}}} \\ & =\textrm{Col}_{i} (\left[T \right]_{\underline{\textsc{x}},\underline{\textsc{y}}}) \\ & = \left[T \right]_{\underline{\textsc{x}},\underline{\textsc{y}}} (0, \ldots , 1, \ldots , 0)^{\mathrm{t}} \\ & = \left[T \right]_{\underline{\textsc{x}},\underline{\textsc{y}}} [ \bm {x}_{i}]_{\underline{\textsc{x}}}. \end{align*}

Os dois caminhos do diagrama são transformações lineares de \(V\) em \(\mathbb {K}^m\) e coincidem em todos os vetores da base \(\underline{\textsc{x}}\); portanto, coincidem em todo \(V\).

Definição 3.48 (Matriz da Transformação Linear)
A matriz \(\left[T \right]_{\underline{\textsc{x}},\underline{\textsc{y}}}\) é denominada matriz da transformação linear \(T\) em relação às bases \(\underline{\textsc{x}}\) e \(\underline{\textsc{y}}\).

Como as aplicações de coordenadas e \(\left[\, \cdot \, \right]_{\underline{\textsc{x}},\underline{\textsc{y}}}\) são isomorfismos, é comum identificar \(V\), \(W\) e \(\operatorname {Hom}(V,W)\), depois de escolhidas as bases, com \(\mathbb {K}^n\), \(\mathbb {K}^m\) e \(\mathcal{M}_{m, n}(\mathbb {K})\), respectivamente. Ainda assim, convém distinguir a transformação linear de sua matriz.

Exemplo 3.49
Seja \(V=\mathbb {K}_3[x]\) o espaço dos polinômios de grau menor ou igual a \(3\). O operador de diferenciação formal \(D\) do Exemplo 3.9 leva \(V\) em si mesmo. Considere a base ordenada \(\underline{\textsc{B}}=(p_1,p_2,p_3,p_4)=(1,x,x^2,x^3)\). Então
\begin{flalign*} \qquad \qquad & Dp_{1}= 0, & Dp_{1}=0p_{1}+0p_{2}+0p_{3}+0p_{4}& \qquad \qquad \\ & Dp_{2}= 1, & Dp_{2}=1p_{1}+0p_{2}+0p_{3}+0p_{4}& \qquad \\ & Dp_{3}=2x, & Dp_{3}=0p_{1}+2p_{2}+0p_{3}+0p_{4}& \qquad \\ & Dp_{4}=3x^{2}, & Dp_{4}=0p_{1}+0p_{2}+3p_{3}+0p_{4}& \qquad \end{flalign*}
Logo a matriz de \(D\) na base \(\underline{\textsc{B}}\) é
\[ [D]_{\underline{\textsc{B}}}=\left[\begin{array}{cccc} 0 & 1 & 0 & 0 \\ 0 & 0 & 2 & 0 \\ 0 & 0 & 0 & 3 \\ 0 & 0 & 0 & 0 \end{array}\right]. \]

Corolário 3.50
Sejam \(\underline{\textsc{v}}\) e \(\underline{\textsc{w}}\) bases de \(V\) e \(W\), respectivamente, sejam \(T,S\in \operatorname {Hom}(V,W)\) e seja \(c\in \mathbb {K}\). Então
  1. \([cT]_{\underline{\textsc{v}},\underline{\textsc{w}}}=c[T]_{\underline{\textsc{v}},\underline{\textsc{w}}}\);

  2. \( [T+S]_{\underline{\textsc{v}}, \ \underline{\textsc{w}}} = [T]_{\underline{\textsc{v}}, \ \underline{\textsc{w}}}+[S]_{\underline{\textsc{ v}}, \ \underline{\textsc{w}}} \).

Seja \(A\) uma matriz \(m\times n\) com colunas \(\vec{a}_1,\ldots ,\vec{a}_n\) e seja \(\bm {x}=\left[\begin{array}{c} x_{1} \\ x_{2} \\ \vdots \\ x_{n} \end{array} \right]\in \mathbb {K}^n\). Então

\[ A\bm {x}= x_{1} \vec{a}_{1}+x_{2} \vec{a}_{2}+\cdots +x_{n} \vec{a}_{n}. \]

Essa identidade fornece imediatamente o resultado seguinte.

Teorema 3.51
Sejam \(V\) e \(W\) espaços vetoriais de dimensão finita, com bases \(\underline{\textsc{v}}\) e \(\underline{\textsc{w}}\), respectivamente, e seja \(T:V\to W\) linear. Então, para todo \(\bm {v}\in V\),
\[ [T(\bm {v})]_{\underline{\textsc{w}}}=[T]_{\underline{\textsc{v}},\underline{\textsc{w}}}[\bm {v}]_{\underline{\textsc{v}}}. \]

Se \(A\) tem colunas \(\vec{a}_1,\ldots ,\vec{a}_n\) e \(B\) é uma matriz \(p\times m\), então a \(j\)-ésima coluna de \(BA\) é \(B\vec{a}_j\). Portanto,

\[ BA=\left(B\vec{a}_1\ {\mathrel {\big| } \ }B\vec{a}_2 \ {\mathrel {\big| } \ }\cdots \ {\mathrel {\big| } \ }B\vec{a}_n\right). \]

Essa observação traduz a composição de aplicações em multiplicação de matrizes.

Teorema 3.52
Sejam \(V,W,X\) espaços vetoriais de dimensão finita, com bases \(\underline{\textsc{v}},\underline{\textsc{w}},\underline{\textsc{x}}\), respectivamente, e sejam \(T:V\to W\) e \(S:W\to X\) transformações lineares. Então
\[ [S\circ T]_{\underline{\textsc{v}},\underline{\textsc{x}}} =[S]_{\underline{\textsc{w}},\underline{\textsc{x}}}[T]_{\underline{\textsc{v}},\underline{\textsc{w}}}. \]

Demonstração

Ponha \(A=[T]_{\underline{\textsc{v}},\underline{\textsc{w}}}\) e \(B=[S]_{\underline{\textsc{w}},\underline{\textsc{x}}}\). Se \(\vec{a}_j\) é a \(j\)-ésima coluna de \(A\), então, pelo Teorema 3.51,

\[ [(S\circ T)(\bm {v}_j)]_{\underline{\textsc{x}}} =[S(T(\bm {v}_j))]_{\underline{\textsc{x}}} =B[T(\bm {v}_j)]_{\underline{\textsc{w}}} =B\vec{a}_j. \]

Esse vetor é tanto a \(j\)-ésima coluna de \([S\circ T]_{\underline{\textsc{v}},\underline{\textsc{x}}}\) quanto a \(j\)-ésima coluna de \(BA\). Logo as duas matrizes são iguais.

Essa compatibilidade é uma das motivações para a definição do produto de matrizes.

3.4.1 Mudança de Bases

Na mudança de coordenadas, um vetor permanece fixo enquanto sua coluna de coordenadas se altera. Agora consideramos uma transformação linear \(T:V\to W\) e perguntamos como sua matriz se altera quando mudamos as bases. A transformação continua sendo a mesma, mas sua representação depende de duas escolhas: a base usada para escrever os vetores de entrada e a base usada para escrever suas imagens. Para um operador, a notação \([T]_{\underline{\textsc{B}}}\) indica que a mesma base \(\underline{\textsc{B}}\) é usada no domínio e no contradomínio.

Exemplo 3.53 (Uma transformação em duas bases)
Considere \(T:\mathbb {R}^2\to \mathbb {R}^2\) dada por
\[ T\begin{pmatrix} s \\ t \end{pmatrix} =\begin{pmatrix} s \\ 2t \end{pmatrix}. \]
Na base canônica \(\underline{\textsc{E}}\), sua matriz é
\[ [T]_{\underline{\textsc{E}}}=\begin{bmatrix} 1 & 0 \\ 0 & 2 \end{bmatrix}. \]
Retomemos a base \(\underline{\textsc{B}}=(\vec{u}_1,\vec{u}_2)\) do Exemplo 2.75, com \(\vec{u}_1=(1,1)^{\mathrm{t}}\) e \(\vec{u}_2=(1,2)^{\mathrm{t}}\). Como
\[ T(\vec{u}_1)=\vec{u}_2, \qquad T(\vec{u}_2)=-2\vec{u}_1+3\vec{u}_2, \]
as coordenadas dessas imagens fornecem as colunas de
\[ [T]_{\underline{\textsc{B}}}=\begin{bmatrix} 0 & -2 \\ 1 & 3 \end{bmatrix}. \]
As duas matrizes são diferentes, mas representam a mesma aplicação. A primeira atua sobre coordenadas na base \(\underline{\textsc{E}}\); a segunda atua sobre coordenadas na base \(\underline{\textsc{B}}\).

Para relacionar essas matrizes sem recalcular todas as imagens, precisamos acompanhar o sentido de cada mudança de coordenadas. Sejam \(\underline{\textsc{x}}\) e \(\underline{\textsc{y}}\) as bases inicialmente escolhidas em \(V\) e \(W\), e sejam \(\underline{\textsc{x'}}\) e \(\underline{\textsc{y'}}\) as novas bases. Escrevamos

\[ A=\left[T \right]_{\underline{\textsc{x}},\underline{\textsc{y}}}, \qquad A'=\left[T \right]_{\underline{\textsc{x'}},\underline{\textsc{y'}}}. \]

Conhecemos \(A\) e queremos obter \(A'\). Para usar \(A\) em um vetor cuja coluna foi dada na base \(\underline{\textsc{x'}}\), primeiro devemos converter essa coluna para a base \(\underline{\textsc{x}}\). Depois de aplicar \(A\), devemos converter a coluna obtida na base \(\underline{\textsc{y}}\) para a base \(\underline{\textsc{y'}}\). Definimos, portanto,

\[ P=\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{x'}}\to \underline{\textsc{x}}}, \qquad Q=\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{y}}\to \underline{\textsc{y'}}}. \]

O percurso completo é

\[ [\bm {v}]_{\underline{\textsc{x'}}} \xrightarrow {\ P\ }[\bm {v}]_{\underline{\textsc{x}}} \xrightarrow {\ A\ }[T(\bm {v})]_{\underline{\textsc{y}}} \xrightarrow {\ Q\ }[T(\bm {v})]_{\underline{\textsc{y'}}}. \]

Assim, a matriz procurada é \(A'=QAP\): o produto é aplicado da direita para a esquerda, na ordem indicada pelo percurso. As matrizes \(P\) e \(Q\) são quadradas e invertíveis, mas \(A\) pode ser retangular.

Teorema 3.54 (Mudança de Base)
Sejam \(V\) e \(W\) espaços vetoriais de dimensões \(n\) e \(m\) sobre \(\mathbb {K}\), respectivamente. Sejam \(\underline{\textsc{x}}\) e \(\underline{\textsc{x'}}\) bases de \(V\), e sejam \(\underline{\textsc{y}}\) e \(\underline{\textsc{y'}}\) bases de \(W\). Para todo \(T\in \operatorname {Hom}(V,W)\),

\begin{equation} \label{eq:mudbase} \begin{aligned} \left[T \right]_{\underline{\textsc{x'}},\underline{\textsc{y'}}} & =\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{y}}\to \underline{\textsc{y'}}}\left[T \right]_{\underline{\textsc{x}},\underline{\textsc{y}}}\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{x'}}\to \underline{\textsc{x}}}\\ & =\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{y}}\to \underline{\textsc{y'}}}\left[T \right]_{\underline{\textsc{x}},\underline{\textsc{y}}}\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{x}}\to \underline{\textsc{x'}}}^{-1}. \end{aligned} \tag{3.25} \end{equation}

Demonstração

Com a notação acima, para todo \(\bm {v}\in V\) temos

\begin{align*} A’[\bm {v}]_{\underline{\textsc{x'}}} & =[T(\bm {v})]_{\underline{\textsc{y'}}}\\ & =Q[T(\bm {v})]_{\underline{\textsc{y}}}\\ & =QA[\bm {v}]_{\underline{\textsc{x}}}\\ & =QAP[\bm {v}]_{\underline{\textsc{x'}}}. \end{align*}

As igualdades usam a fórmula de representação matricial do Teorema 3.51 e a mudança de coordenadas do Teorema 2.77. Como \([\bm {v}]_{\underline{\textsc{x'}}}\) percorre todo \(\mathbb {K}^n\), as matrizes \(A'\) e \(QAP\) coincidem. Por fim, \(\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{x'}}\to \underline{\textsc{x}}}=\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{x}}\to \underline{\textsc{x'}}}^{-1}\) pela Equação 2.18, o que fornece a segunda expressão.

O diagrama seguinte resume o cálculo. Na linha superior usamos as bases \(\underline{\textsc{x}}\) e \(\underline{\textsc{y}}\); na inferior, as bases \(\underline{\textsc{x'}}\) e \(\underline{\textsc{y'}}\). As duas cópias de \(\mathbb {K}^n\) recebem coordenadas do mesmo espaço \(V\), mas em bases diferentes; o mesmo vale para as duas cópias de \(\mathbb {K}^m\) e \(W\). A seta \(P\) sobe porque converte as novas coordenadas de entrada nas antigas; a seta \(Q\) desce porque converte as antigas coordenadas de saída nas novas. Ilustração: Mudança de Bases Partimos da posição inferior esquerda, com a coluna \([\bm {v}]_{\underline{\textsc{x'}}}\). A seta inferior aplica \(A'\) diretamente. O outro caminho sobe por \(P\), segue por \(A\) e desce por \(Q\). Ambos terminam em \([T(\bm {v})]_{\underline{\textsc{y'}}}\): a igualdade \(A'=QAP\) expressa precisamente essa concordância.

Para relacionar esse cálculo com a transformação \(T:V\to W\), reunimos agora o triângulo de mudança de coordenadas 2.17 e o quadrado de representação matricial 3.20 no diagrama completo abaixo. No centro estão os espaços \(V\) e \(W\) e a transformação \(T\), que não dependem das bases. As setas diagonais associam a cada vetor suas coordenadas; as setas curvas convertem uma coluna de coordenadas na outra, sem alterar o vetor que ela representa. Ilustração: Mudança de Bases

Podemos ler o diagrama por partes. Na região 1, obter diretamente \([\bm {v}]_{\underline{\textsc{x'}}}\) equivale a obter primeiro \([\bm {v}]_{\underline{\textsc{x}}}\) e aplicar \(\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{x}}\to \underline{\textsc{x'}}}=P^{-1}\). A região 2 expressa a mesma mudança de descrição em \(W\), agora por \(\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{y}}\to \underline{\textsc{y'}}}=Q\). Esses dois triângulos comutam pelo Teorema 2.77.

As regiões 3 e 4 representam a mesma transformação \(T\) nas bases antigas e nas novas, respectivamente. Em cada uma delas, aplicar \(T\) e depois tomar coordenadas dá o mesmo resultado que tomar coordenadas primeiro e multiplicar pela matriz correspondente, \(A\) ou \(A'\). Sua comutatividade é a do Teorema 3.47.

Consideremos agora apenas os dois percursos exteriores, partindo da coluna \([\bm {v}]_{\underline{\textsc{x}}}\) no canto superior esquerdo:

\[ \begin{aligned} [\bm {v}]_{\underline{\textsc{x}}} & \xrightarrow {\ A\ }[T(\bm {v})]_{\underline{\textsc{y}}} \xrightarrow {\ Q\ }[T(\bm {v})]_{\underline{\textsc{y'}}},\\ {} [\bm {v}]_{\underline{\textsc{x}}} & \xrightarrow {\ P^{-1}\ }[\bm {v}]_{\underline{\textsc{x'}}} \xrightarrow {\ A’\ }[T(\bm {v})]_{\underline{\textsc{y'}}}. \end{aligned} \]

Os dois chegam às coordenadas de \(T(\bm {v})\) na base \(\underline{\textsc{y'}}\). Como isso vale para todo \(\bm {v}\in V\), obtemos \(QA=A'P^{-1}\); multiplicando à direita por \(P\), recuperamos \(A'=QAP\). A inversa na lateral esquerda aparece porque seguimos das coordenadas antigas para as novas, no sentido contrário ao percorrido pela seta \(P\) no diagrama 3.26.

Quando \(T:V\to V\) é um operador e usamos a mesma base no domínio e no contradomínio, escrevemos \([T]_{\underline{\textsc{x}}}\) em lugar de \(\left[T \right]_{\underline{\textsc{x}},\underline{\textsc{x}}}\). Ao substituir \(\underline{\textsc{x}}\) por \(\underline{\textsc{x'}}\) nos dois lados, a mudança de entrada é \(P=\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{x'}}\to \underline{\textsc{x}}}\) e a mudança de saída é \(\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{x}}\to \underline{\textsc{x'}}}=P^{-1}\). Nesse caso, a fórmula geral se reduz a

\begin{equation} \label{eq:mudanca-base-operador} [T]_{\underline{\textsc{x'}}}=P^{-1}[T]_{\underline{\textsc{x}}}P. \tag{3.28} \end{equation}

A presença da inversa tem, portanto, uma razão precisa: as coordenadas de entrada são convertidas das novas para as antigas, e as de saída fazem o percurso contrário. Essa forma da fórmula corresponde ao uso de uma única base para representar tanto a entrada quanto a saída. Quando as bases são escolhidas independentemente, mesmo que \(V=W\), devemos usar a fórmula geral.

No Exemplo 3.53, temos \(P=\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{B}}\to \underline{\textsc{E}}}\) e

\[ [T]_{\underline{\textsc{B}}} =\begin{bmatrix} 2 & -1 \\ -1 & 1 \end{bmatrix} \begin{bmatrix} 1 & 0 \\ 0 & 2 \end{bmatrix} \begin{bmatrix} 1 & 1 \\ 1 & 2 \end{bmatrix} =\begin{bmatrix} 0 & -2 \\ 1 & 3 \end{bmatrix}. \]

Podemos conferir a relação em um vetor. Para \(\vec{z}=(3,5)^{\mathrm{t}}\), temos \([\vec{z}]_{\underline{\textsc{B}}}=(1,2)^{\mathrm{t}}\) e

\[ [T(\vec{z})]_{\underline{\textsc{B}}} =\begin{bmatrix} 0 & -2 \\ 1 & 3 \end{bmatrix} \begin{bmatrix} 1 \\ 2 \end{bmatrix} =\begin{bmatrix} -4 \\ 7 \end{bmatrix}. \]

De fato, \(-4\vec{u}_1+7\vec{u}_2=(3,10)^{\mathrm{t}}=T(\vec{z})\). A coluna final não é a coluna de coordenadas canônicas de \(T(\vec{z})\): ela ainda deve ser interpretada na base \(\underline{\textsc{B}}\).

Uma mudança de base nem sempre altera as entradas da matriz. O exemplo seguinte mostra uma situação em que a nova base conserva as mesmas relações entre os vetores e suas imagens.

Exemplo 3.55 (Diferenciação em duas bases de polinômios)
Seja \(V=\mathbb {K}_3[x]\) e seja \(D\) o operador de diferenciação formal do Exemplo 3.49. Considere as bases
\[ \underline{\textsc{B}}=(p_1,p_2,p_3,p_4)=(1,x,x^2,x^3) \]
e
\[ \underline{\textsc{C}}=(q_1,q_2,q_3,q_4) =(1,x-1,(x-1)^2,(x-1)^3). \]
Já calculamos as mudanças entre essas bases no Exemplo 2.78. Pondo \(P=\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{C}}\to \underline{\textsc{B}}}\), temos \(P^{-1}=\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{B}}\to \underline{\textsc{C}}}\). Pela fórmula de mudança de base,
\[ [D]_{\underline{\textsc{C}}}=P^{-1}[D]_{\underline{\textsc{B}}}P. \]
Neste caso, o produto fornece
\[ [D]_{\underline{\textsc{C}}}=[D]_{\underline{\textsc{B}}} =\begin{bmatrix} 0 & 1 & 0 & 0 \\ 0 & 0 & 2 & 0 \\ 0 & 0 & 0 & 3 \\ 0 & 0 & 0 & 0 \end{bmatrix}. \]
A igualdade também se explica diretamente pelas imagens dos vetores da nova base:
\[ Dq_1=0,\qquad Dq_2=q_1,\qquad Dq_3=2q_2,\qquad Dq_4=3q_3. \]
São as mesmas relações que a derivação satisfaz na base \(\underline{\textsc{B}}\). Por isso as colunas das duas matrizes coincidem, embora as coordenadas de um polinômio nas duas bases possam ser diferentes.

Exercício 3.33

Seja \(T:\mathcal{M}_{2, 2}(\mathbb {R})\to \mathcal{M}_{2, 2}(\mathbb {R})\) definida por

\[ T\begin{bmatrix} x & y \\ z & w \end{bmatrix} =\begin{bmatrix} 0 & x \\ z-w & 0 \end{bmatrix}. \]
  1. Determine a matriz de \(T\) em relação à base canônica.

  2. Determine a matriz de \(T\) em relação à base

    \[ \underline{\textsc{B}}=\left( \begin{bmatrix} 1 & 0 \\ 0 & 1 \end{bmatrix}, \begin{bmatrix} 0 & 1 \\ 1 & 0 \end{bmatrix}, \begin{bmatrix} 1 & 0 \\ 1 & 1 \end{bmatrix}, \begin{bmatrix} 0 & 1 \\ 0 & 1 \end{bmatrix} \right). \]
  3. Exiba a matriz de mudança de base \(M\) tal que

    \[ [T]_{\underline{\textsc{B}}}=M^{-1}[T]_{\operatorname {Can}}M. \]

Exercício 3.34

Seja \(\mathbb {K}=\mathbb {R}\) ou \(\mathbb {C}\).

  1. Prove que não existem matrizes quadradas \(A\) e \(B\) sobre \(\mathbb {K}\) tais que \(AB-BA=I\).

  2. Conclua que não existem operadores \(T\) e \(G\) em um espaço vetorial de dimensão finita tais que \(T\circ G-G\circ T=\operatorname {I}\).

  3. Mostre que a conclusão pode falhar em dimensão infinita. Sugestão: considere os operadores de multiplicação por \(x\) e de derivação em \(\mathbb {K}[x]\).

Exercício 3.35

Considere as bases

\[ \underline{\textsc{B}}=(1,x+x^2,1+x^2) \quad \text{e}\quad \underline{\textsc{C}}=(1,x,x^2) \]

de \(\mathbb {R}_2[x]\). Seja \(T:\mathbb {R}_2[x]\to \mathbb {R}_2[x]\) definida, em coordenadas, pela regra

\[ [p]_{\underline{\textsc{B}}}=(a,b,c) \quad \Longrightarrow \quad [T(p)]_{\underline{\textsc{C}}}=(2c-2b,a+c,a+b+c). \]
  1. Verifique que \(T\) é linear.

  2. Existe um polinômio não nulo \(p\) tal que \(T(p)=p\)? Justifique.

Exercício 3.36

Seja \(W\) um subespaço de \(V\), com \(m=\dim W\lt \dim V=n\), e defina

\[ Z=\{ T\in \operatorname {Hom}(V,V)\, \mid \, T(\bm {w})=\vec0 \text{ para todo }\bm {w}\in W\} . \]

Mostre que \(Z\) é um subespaço de \(\operatorname {Hom}(V,V)\) e calcule sua dimensão.

Exercício 3.37

Sejam \(V\) e \(W\) espaços vetoriais de dimensão finita sobre \(\mathbb {K}\), com bases \(\underline{\textsc{v}}\) e \(\underline{\textsc{w}}\), respectivamente. Seja \(T:V\to W\) uma transformação linear e ponha \(A=\left[T \right]_{\underline{\textsc{v}},\underline{\textsc{w}}}\). Prove que

\[ \bm {v}\in \ker T \quad \Longleftrightarrow \quad [\bm {v}]_{\underline{\textsc{v}}}\in \{ \bm {x}\in \mathbb {K}^n\, \mid \, A\bm {x}=\vec0\} . \]

O subespaço à direita é denominado espaço nulo da matriz \(A\).

3.5 Somas Diretas e Projeções

Decompor um espaço em soma direta permite estudar um operador parcela por parcela. As projeções fazem o caminho inverso: extraem de cada vetor sua componente em uma das parcelas.

3.5.1 Soma Direta de Transformações Lineares

Definição 3.56 (Soma Direta de Transformações Lineares)
Suponha que \(U=V\oplus W\) e sejam \(T_1:V\to V\) e \(T_2:W\to W\) transformações lineares. A soma direta de \(T_1\) e \(T_2\) é a transformação linear \(T_1\oplus T_2:U\to U\) definida por
\[ (T_1\oplus T_2)(\bm {v}+\bm {w})=T_1(\bm {v})+T_2(\bm {w}), \]
para \(\bm {v}\in V\) e \(\bm {w}\in W\).

Os subespaços \(V\) e \(W\) são invariantes por \(T_1\oplus T_2\), pois

\[ (T_1\oplus T_2)(V)\subseteq V \quad \text{e}\quad (T_1\oplus T_2)(W)\subseteq W. \]

Teorema 3.57
Para \(1\leq i\leq j\), seja \(V_i\) um espaço vetorial de dimensão \(k_i\), com base \(\underline{\textsc{B}}_i=(\bm {v}_{i1},\ldots ,\bm {v}_{i,k_i})\), e seja \(T_i:V_i\to V_i\) um operador linear. Considere
\[ T=T_1\oplus \cdots \oplus T_j \quad \text{em}\quad V=V_1\oplus \cdots \oplus V_j. \]
Na base ordenada \(\underline{\textsc{B}}=\underline{\textsc{B}}_1\mathbin {{+}\mspace {-8mu}{+}}\underline{\textsc{B}}_2\mathbin {{+}\mspace {-8mu}{+}}\cdots \mathbin {{+}\mspace {-8mu}{+}}\underline{\textsc{B}}_j\), obtida por concatenação, a matriz de \(T\) é
\[ [T]_{\underline{\textsc{B}}}=\begin{bmatrix} [T_{1}]_{\underline{\textsc{B}}_1} & 0 & \cdots & 0 \\ 0 & [T_{2}]_{\underline{\textsc{B}}_2} & \ddots & \vdots \\ \vdots & \ddots & \ddots & 0 \\ 0 & \cdots & 0 & [T_{j}]_{\underline{\textsc{B}}_j} \end{bmatrix}, \]
em que \([T_i]_{\underline{\textsc{B}}_i}\) é um bloco de tamanho \(k_i\times k_i\).

Demonstração

A lista \(\underline{\textsc{B}}\) é uma base de \(V\). Se \([T_i]_{\underline{\textsc{B}}_i}=(c^{(i)}_{rs})\), então, como \(T(V_i)\subseteq V_i\),

\[ T(\bm {v}_{i,m}) =\sum _{r=1}^{k_i}c^{(i)}_{rm}\bm {v}_{i,r}. \]

Assim, a coluna correspondente a \(\bm {v}_{i,m}\) possui entradas apenas no bloco de coordenadas de \(V_i\). Isso vale para todos os vetores de \(\underline{\textsc{B}}_i\) e para todo \(i\), de modo que a matriz de \(T\) é diagonal em blocos, com o \(i\)-ésimo bloco igual a \([T_i]_{\underline{\textsc{B}}_i}\).

Reciprocamente, suponha que \(U=V\oplus W\) e que o operador \(T:U\to U\) deixe \(V\) e \(W\) invariantes. As restrições \(T_1=T\mathord {\upharpoonright }_V\) e \(T_2=T\mathord {\upharpoonright }_W\) são operadores em \(V\) e \(W\), respectivamente, e \(T=T_1\oplus T_2\). Assim, o estudo de \(T\) reduz-se ao estudo de suas restrições aos dois subespaços.

Definição 3.58 (Subespaço Invariante)
Dado \(T\in \operatorname {Hom}(V,V)\), dizemos que um subespaço \(W\subseteq V\) é invariante por \(T\), ou \(T\)-invariante, se \(T(W)\subseteq W\).

Se \(T\in \operatorname {Hom}(V,V)\) e \(W\subseteq V\) é \(T\)-invariante, a restrição de \(T\) a \(W\) define um operador \(T\mathord {\upharpoonright }_W\in \operatorname {Hom}(W,W)\).

Teorema 3.59
Seja \(T:V\to V\) um operador e suponha que \(V\) se decomponha em subespaços \(T\)-invariantes
\[ V=V_{1}\oplus V_{2}\oplus \cdots \oplus V_{j}, \]
com \(\dim V_{i}=n_{i}\), para \(1\leq i\leq j\). Escolha uma base \(\underline{\textsc{B}}_i\) de cada \(V_i\) e ponha \(\underline{\textsc{B}}=\underline{\textsc{B}}_1\mathbin {{+}\mspace {-8mu}{+}}\cdots \mathbin {{+}\mspace {-8mu}{+}}\underline{\textsc{B}}_j\). Se \(T_i=T\mathord {\upharpoonright }_{V_i}\), então a representação de \(T\) na base \(\underline{\textsc{B}}\) é
\[ [T]_{\underline{\textsc{B}}}=\begin{bmatrix} [T_1]_{\underline{\textsc{B}}_1} & 0 & \cdots & 0 \\ 0 & [T_2]_{\underline{\textsc{B}}_2} & \ddots & \vdots \\ \vdots & \ddots & \ddots & 0 \\ 0 & \cdots & 0 & [T_j]_{\underline{\textsc{B}}_j} \end{bmatrix}, \]
em que \([T_i]_{\underline{\textsc{B}}_i}\) é um bloco de tamanho \(n_i\times n_i\).

Demonstração

Como cada \(V_i\) é \(T\)-invariante, a imagem de um vetor de \(\underline{\textsc{B}}_i\) é combinação linear apenas dos vetores dessa mesma base. Portanto, as colunas correspondentes a \(\underline{\textsc{B}}_i\) têm entradas nulas fora do \(i\)-ésimo bloco, que é precisamente a matriz de \(T_i\) em \(\underline{\textsc{B}}_i\).

Portanto, uma decomposição de \(V\) em soma direta de subespaços invariantes produz uma matriz diagonal em blocos para \(T\). Reciprocamente, toda matriz diagonal em blocos determina, na base correspondente, uma decomposição de \(V\) em subespaços invariantes.

3.5.2 Projeções

Definição 3.60 (Projeção)
Seja \(V=V_1\oplus \cdots \oplus V_n\). Para cada \(i\), a projeção de \(V\) sobre \(V_i\) é o operador \(P_i:V\to V\) definido por
\[ P_i\left(\sum _{j=1}^n\bm {v}_j\right)=\bm {v}_i, \qquad \bm {v}_j\in V_j. \]
Dizemos também que \(P_i\) é a projeção sobre \(V_i\) ao longo do subespaço complementar \(\bigoplus _{j\neq i}V_j\).

As propriedades fundamentais desses operadores seguem diretamente da unicidade da decomposição em soma direta.

Proposição 3.61
As projeções \(P_i\) associadas à decomposição \(V=V_1\oplus \cdots \oplus V_n\) têm as seguintes propriedades:
  1. cada \(P_i:V\to V\) é um operador linear;

  2. \(P_i^2=P_i\) para todo \(i\);

  3. \(P_iP_j=0\) se \(i\neq j\);

  4. \(\operatorname {im}P_i=V_i\) e \(\ker P_i=\displaystyle \bigoplus _{j\neq i}V_j\);

  5. \(P_1+\cdots +P_n=\operatorname {I}_V\).

Identificando \(V\) com \(V_1\times \cdots \times V_n\), a \(i\)-ésima projeção assume a forma

\[ P_i(\bm {v}_1,\ldots ,\bm {v}_n) =(\vec0,\ldots ,\vec0,\bm {v}_i,\vec0,\ldots ,\vec0). \]

Essas projeções são definidas por uma decomposição em soma direta e não devem ser confundidas com projeções ortogonais, que exigem a escolha adicional de um produto interno.

Proposição 3.62

Seja \(V=V_1\oplus \cdots \oplus V_n\). Então a projeção \(P_i:V\to V\) pode ser escrita como a soma direta

\[ P_i=0_{V_1}\oplus \cdots \oplus 0_{V_{i-1}} \oplus \operatorname {I}_{V_i}\oplus 0_{V_{i+1}}\oplus \cdots \oplus 0_{V_n}. \]

Se \(\underline{\textsc{B}}_i\) é uma base de \(V_i\), \(r_i=\dim V_i\) e \(\underline{\textsc{B}}\) é a base ordenada obtida pela concatenação \(\underline{\textsc{B}}_1\mathbin {{+}\mspace {-8mu}{+}}\underline{\textsc{B}}_2\mathbin {{+}\mspace {-8mu}{+}}\cdots \mathbin {{+}\mspace {-8mu}{+}}\underline{\textsc{B}}_n\), então

\[ [P_i]_{\underline{\textsc{B}},\underline{\textsc{B}}}=\begin{bmatrix} 0_{r_1} & & & & \\ & \ddots & & & \\ & & I_{r_i} & & \\ & & & \ddots & \\ & & & & 0_{r_n} \end{bmatrix}. \]

A propriedade de ser idempotente, \(P^2=P\), caracteriza as projeções associadas a decomposições em soma direta. Já vimos que, se \(P\) e \(Q=\operatorname {I}-P\) são as projeções associadas a \(V=V_1\oplus V_2\), então

  1. \(P^2=P\) e \(Q^2=Q\);

  2. \(PQ=QP=0\);

  3. \(P+Q=\operatorname {I}\).

A recíproca também é verdadeira.

Proposição 3.63
Se \(P:V\to V\) é um operador linear idempotente, isto é, \(P^{2}=P\), então \(V=\operatorname {im}P\oplus \ker P\) e \(P\) é a projeção de \(V\) em \(\operatorname {im}P\) ao longo de \(\ker P\). O operador \(Q=\operatorname {I}-P\) também é idempotente, com
\[ \operatorname {im}Q=\operatorname {im}(\operatorname {I}-P)=\ker P \quad \text{e}\quad \ker Q=\ker (\operatorname {I}-P)=\operatorname {im}P, \]
e projeta \(V\) sobre \(\ker P\) ao longo de \(\operatorname {im}P\).

Demonstração

Temos \(Q^2=(\operatorname {I}-P)^2=\operatorname {I}-2P+P^2=\operatorname {I}-P=Q\). Além disso,

\begin{align*} \bm {v}\in \ker Q & \Longleftrightarrow (\operatorname {I}-P)(\bm {v})=\vec0\\ & \Longleftrightarrow P(\bm {v})=\bm {v}\Longleftrightarrow \bm {v}\in \operatorname {im}P, \end{align*}

onde, na última equivalência, usamos \(P^2=P\). De modo análogo, \(\operatorname {im}Q=\ker P\).

Para todo \(\bm {v}\in V\),

\[ \bm {v}=P(\bm {v})+(\operatorname {I}-P)(\bm {v}), \]

com \(P(\bm {v})\in \operatorname {im}P\) e \((\operatorname {I}-P)(\bm {v})\in \ker P\). Logo \(V=\operatorname {im}P+\ker P\). Se \(\bm {v}\in \operatorname {im}P\cap \ker P\), então \(\bm {v}=P(\bm {w})\) para algum \(\bm {w}\) e \(\bm {v}=P(\bm {w})=P^2(\bm {w})=P(\bm {v})=\vec0\). Portanto, a soma é direta. Finalmente, para \(\bm {u}\in \operatorname {im}P\) e \(\bm {w}\in \ker P\), temos \(P(\bm {u}+\bm {w})=\bm {u}\); assim, \(P\) é precisamente a projeção afirmada.

3.6 Mudança de Corpo

Leitura opcional.

Esta seção trata da restrição de escalares, da descomplexificação e da complexificação. Ela pode ser omitida em uma primeira leitura sem interromper a sequência principal do curso.

O corpo de escalares faz parte da estrutura de um espaço vetorial. Se \(V\) é complexo, podemos conservar a adição e restringir a multiplicação por escalares de \(\mathbb {C}\) a \(\mathbb {R}\); obtemos assim um espaço vetorial real.

Definição 3.64 (Descomplexificação)
Dado um espaço vetorial \(V\) sobre \(\mathbb {C}\), obtemos um espaço vetorial sobre \(\mathbb {R}\) restringindo a multiplicação por escalares aos números reais. Esse espaço é a descomplexificação de \(V\) e será denotado por \(V_{\mathbb {R}}\).

Exemplo 3.65
O espaço \(\mathbb {C}\) é unidimensional sobre si mesmo. Sua descomplexificação \(\mathbb {C}_{\mathbb {R}}\) é um espaço vetorial real bidimensional, com base \(\{ 1,i\} \).

A mesma construção aplica-se às transformações lineares.

Definição 3.66 (Descomplexificação de uma Transformação)
Sejam \(V\) e \(W\) espaços vetoriais sobre \(\mathbb {C}\) e seja \(T:V\to W\) uma transformação linear. Considerada apenas em relação aos escalares reais, \(T\) define uma transformação linear \(T^{\mathbb {R}}:V_{\mathbb {R}}\to W_{\mathbb {R}}\), denominada descomplexificação de \(T\).

Teorema 3.67

  1. Se \(\underline{\textsc{e}}=(\vec{e}_{1},\ldots ,\vec{e}_{n})\) é uma base de um espaço \(V\) sobre \(\mathbb {C}\), então

    \[ \underline{\textsc{e}}_{\mathbb {R}}\coloneqq (\vec{e}_{1},\ldots ,\vec{e}_{n},i\vec{e}_{1},\ldots ,i\vec{e}_{n}) \]

    é uma base de \(V_{\mathbb {R}}\) sobre \(\mathbb {R}\). Em particular, \(\dim _{\mathbb {R}}V_{\mathbb {R}}=2\dim _{\mathbb {C}}V\).

  2. Se \(A=B+iC\) é a matriz da transformação linear \(T:V\to W\) nas bases \(\underline{\textsc{e}}=(\vec{e}_{1},\ldots ,\vec{e}_{n})\) e \(\underline{\textsc{f}}=(\vec{f}_{1},\ldots ,\vec{f}_{m})\), onde \(B\) e \(C\) são matrizes reais, então a matriz de \(T^{\mathbb {R}}:V_{\mathbb {R}}\to W_{\mathbb {R}}\) nas bases \(\underline{\textsc{e}}_{\mathbb {R}}\) e \(\underline{\textsc{f}}_{\mathbb {R}}\) é

    \[ [T^{\mathbb {R}}]_{\underline{\textsc{e}}_{\mathbb {R}},\underline{\textsc{f}}_{\mathbb {R}}}= \left[\begin{array}{cc} B & -C \\ C & B \end{array}\right]. \]

Demonstração

a Para qualquer \(\bm {x}\in V\), existem \(a_k=b_k+ic_k\in \mathbb {C}\), com \(b_k,c_k\in \mathbb {R}\), tais que

\[ \bm {x}=\sum _{k=1}^{n}a_k\vec{e}_k =\sum _{k=1}^{n}b_k\vec{e}_k +\sum _{k=1}^{n}c_k(i\vec{e}_k). \]

Logo \(\underline{\textsc{e}}_{\mathbb {R}}\) gera \(V_{\mathbb {R}}\). Por outro lado, se

\[ \sum _{k=1}^{n}b_k\vec{e}_k +\sum _{k=1}^{n}c_k(i\vec{e}_k)=\vec0, \]

então \(\sum _{k=1}^{n}(b_k+ic_k)\vec{e}_k=\vec0\). A independência linear de \(\underline{\textsc{e}}\) sobre \(\mathbb {C}\) implica \(b_k+ic_k=0\) e, portanto, \(b_k=c_k=0\) para todo \(k\). Assim, \(\underline{\textsc{e}}_{\mathbb {R}}\) é uma base real.

b Escreva \(B=(b_{kj})\) e \(C=(c_{kj})\). Para \(j=1,\ldots ,n\), temos

\[ T(\vec{e}_j)=\sum _{k=1}^{m}(b_{kj}+ic_{kj})\vec{f}_k =\sum _{k=1}^{m}b_{kj}\vec{f}_k +\sum _{k=1}^{m}c_{kj}(i\vec{f}_k). \]

Como \(T\) é linear sobre \(\mathbb {C}\),

\[ T(i\vec{e}_j)=iT(\vec{e}_j) =-\sum _{k=1}^{m}c_{kj}\vec{f}_k +\sum _{k=1}^{m}b_{kj}(i\vec{f}_k). \]

Portanto, a matriz de \(T^{\mathbb {R}}\) é

\[ \left[\begin{array}{cc} B & -C \\ C & B \end{array} \right], \]

o que completa a prova.

Corolário 3.68
Seja \(T:V\to V\) um operador linear sobre um espaço vetorial complexo de dimensão finita. Então
\[ \det T^{\mathbb {R}}=\left\lvert \det T\right\rvert ^{2}. \]

Demonstração

Se \(A=B+iC\) representa \(T\) em uma base complexa, o teorema anterior mostra que \(T^{\mathbb {R}}\) é representado por

\[ M=\begin{bmatrix} B & -C \\ C & B \end{bmatrix}. \]

Sobre \(\mathbb {C}\), a matriz \(M\) é semelhante à matriz em blocos \(\operatorname {diag}(B+iC,B-iC)\). Logo

\[ \det T^{\mathbb {R}} =\det (B+iC)\det (B-iC) =\det (A)\overline{\det (A)} =\left\lvert \det T\right\rvert ^{2}. \]

A construção anterior é um caso particular da restrição de escalares. Seja \(\mathbb {K}\) um corpo, seja \(\mathbb {F}\) um subcorpo de \(\mathbb {K}\) e seja \(V\) um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\). Ao restringir a multiplicação por escalares a elementos de \(\mathbb {F}\), obtemos um espaço vetorial \(V_{\mathbb {F}}\) sobre \(\mathbb {F}\). Analogamente, uma transformação \(\mathbb {K}\)-linear \(T:V\to W\) induz uma transformação \(\mathbb {F}\)-linear \(T^{\mathbb {F}}:V_{\mathbb {F}}\to W_{\mathbb {F}}\). Essas operações constituem a restrição do corpo de escalares de \(\mathbb {K}\) para \(\mathbb {F}\).

O próprio corpo \(\mathbb {K}\) pode ser considerado um espaço vetorial sobre \(\mathbb {F}\). Se \(\mathbb {K}\) tem dimensão finita sobre \(\mathbb {F}\) e \(V\) tem dimensão finita sobre \(\mathbb {K}\), então

\[ \dim _{\mathbb {F}}V_{\mathbb {F}} =\dim _{\mathbb {F}}\mathbb {K}\cdot \dim _{\mathbb {K}}V. \]

De fato, se \((\vec{e}_1,\ldots ,\vec{e}_n)\) é uma base de \(V\) sobre \(\mathbb {K}\) e \((k_1,\ldots ,k_m)\) é uma base de \(\mathbb {K}\) sobre \(\mathbb {F}\), então

\[ (k_1\vec{e}_1,\ldots ,k_1\vec{e}_n,\ldots , k_m\vec{e}_1,\ldots ,k_m\vec{e}_n) \]

é uma base de \(V_{\mathbb {F}}\) sobre \(\mathbb {F}\).

Complexificação.

Dado um espaço vetorial real \(V\), considere a soma direta externa \(V\oplus V\). Nela, definimos a estrutura complexa \(\operatorname {J}\) por

\[ \operatorname {J}(\bm {x},\bm {y})=(-\bm {y},\bm {x}). \]

Observe que \(\operatorname {J}^2=-\operatorname {I}\).

Definição 3.69
No espaço vetorial real \(V\oplus V\), definimos a multiplicação por números complexos por
\[ (a+bi)(\bm {x},\bm {y})\coloneqq a(\bm {x},\bm {y})+b\operatorname {J}(\bm {x},\bm {y}). \]

Teorema 3.70
O espaço \(V\oplus V\), munido da adição usual e da multiplicação por números complexos da Definição 3.69, é um espaço vetorial complexo, denotado por \(V^{\mathbb {C}}\). Sua descomplexificação é \(V^{\mathbb {C}}_{\mathbb {R}}=V\oplus V\).

Demonstração

Como \(\operatorname {J}\) é linear sobre \(\mathbb {R}\), as duas leis distributivas decorrem das definições. Para verificar a associatividade da multiplicação por escalares, sejam \(a,b,c,d\in \mathbb {R}\) e \(\bm {z}\in V\oplus V\). Usando \(\operatorname {J}^2=-\operatorname {I}\), obtemos

\begin{align} (a+bi)\bigl((c+di)\bm {z}\bigr) & =a\bigl(c\bm {z}+d\operatorname {J}(\bm {z})\bigr) +b\operatorname {J}\bigl(c\bm {z}+d\operatorname {J}(\bm {z})\bigr) \tag{3.29}\\ & =(ac-bd)\bm {z}+(ad+bc)\operatorname {J}(\bm {z}) \tag{3.30}\\ & =\bigl((a+bi)(c+di)\bigr)\bm {z}. \tag{3.31} \end{align}

O escalar \(1\) atua como a identidade, e os demais axiomas aditivos são os de \(V\oplus V\). Portanto, a estrutura definida é a de um espaço vetorial complexo.

Definição 3.71 (Complexificação)
O espaço \(V^{\mathbb {C}}\) é denominado complexificação do espaço real \(V\).

A igualdade \(V^{\mathbb {C}}=V\oplus V\) descreve uma decomposição de espaços vetoriais reais, não de espaços vetoriais complexos.

Identifiquemos \(V\) com o subespaço real \(V\oplus \{ \vec0\} \) de \(V^{\mathbb {C}}\). Como \(i(\bm {v},\vec0)=\operatorname {J}(\bm {v},\vec0)=(\vec0,\bm {v})\), todo vetor de \(V^{\mathbb {C}}\) pode ser escrito na forma

\[ (\bm {x},\bm {y})=(\bm {x},\vec0)+(\vec0,\bm {y}) =(\bm {x},\vec0)+i(\bm {y},\vec0)=\bm {x}+i\bm {y}. \]

Consequentemente, qualquer base de \(V\) sobre \(\mathbb {R}\) também é uma base de \(V^{\mathbb {C}}\) sobre \(\mathbb {C}\). Em particular, \(\dim _{\mathbb {R}}V=\dim _{\mathbb {C}}V^{\mathbb {C}}\).

Definição 3.72
Seja \(T:V\to W\) uma transformação linear entre espaços vetoriais reais. A complexificação de \(T\) é a aplicação \(T^{\mathbb {C}}:V^{\mathbb {C}}\to W^{\mathbb {C}}\) definida por
\[ T^{\mathbb {C}}(\bm {x},\bm {y})=(T(\bm {x}),T(\bm {y})). \]

A aplicação \(T^{\mathbb {C}}\) é linear sobre \(\mathbb {R}\) e comuta com \(\operatorname {J}\), pois

\[ T^{\mathbb {C}}\operatorname {J}(\bm {x},\bm {y}) =T^{\mathbb {C}}(-\bm {y},\bm {x}) =(-T(\bm {y}),T(\bm {x})) =\operatorname {J} T^{\mathbb {C}}(\bm {x},\bm {y}). \]

Portanto, \(T^{\mathbb {C}}\) é linear sobre \(\mathbb {C}\).

Proposição 3.73
Sejam \(\underline{\textsc{v}}\) e \(\underline{\textsc{w}}\) bases dos espaços vetoriais reais \(V\) e \(W\), respectivamente. Pela identificação \(\bm {v}\mapsto (\bm {v},\vec0)\), podemos considerá-las também bases de \(V^{\mathbb {C}}\) e \(W^{\mathbb {C}}\). Nessas bases, a matriz de \(T^{\mathbb {C}}\) é a mesma matriz real que representa \(T\):
\[ [T]_{\underline{\textsc{v}},\underline{\textsc{w}}} =[T^{\mathbb {C}}]_{\underline{\textsc{v}},\underline{\textsc{w}}}. \]

Demonstração

Para cada vetor \(\bm {v}_j\) da base \(\underline{\textsc{v}}\), a expansão de \(T^{\mathbb {C}}(\bm {v}_j)=T(\bm {v}_j)\) na base \(\underline{\textsc{w}}\) tem os mesmos coeficientes reais. Logo as matrizes têm as mesmas colunas.

Definição 3.74

Uma conjugação em um espaço vetorial complexo \(V\) é uma função \(c:V\to V\) tal que

  1. \(c(\bm {u}+\bm {v})=c(\bm {u})+c(\bm {v})\) para todos os \(\bm {u},\bm {v}\in V\);

  2. \(c(z\bm {v})=\overline{z}\, c(\bm {v})\) para todos os \(z\in \mathbb {C}\) e \(\bm {v}\in V\);

  3. \(c(c(\bm {v}))=\bm {v}\) para todo \(\bm {v}\in V\).

Uma conjugação é linear sobre \(\mathbb {R}\), mas, em geral, não é linear sobre \(\mathbb {C}\), pois

\[ c(i\bm {v})=-i c(\bm {v}). \]

Exemplo 3.75
Em \(\mathbb {C}^n\), a aplicação \(c(z_1,\ldots ,z_n)=(\overline{z_1},\ldots ,\overline{z_n})\), que conjuga cada coordenada, é uma conjugação.

Exemplo 3.76
Em \(V^{\mathbb {C}}=V\oplus V\), a aplicação \((\bm {u},\bm {v})\mapsto (\bm {u},-\bm {v})\) é uma conjugação.

Exercício 3.38

Mostre que as complexificações de \(\mathbb {R}^n\) e de \(\mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {R})\) são naturalmente isomorfas a \(\mathbb {C}^n\) e a \(\mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {C})\), respectivamente.

Exercício 3.39

Mostre que \(\mathbb {R}[x]^{\mathbb {C}}\) é naturalmente isomorfo a \(\mathbb {C}[x]\).

Exercício 3.40

Mostre que, se \(W=\{ \vec0\} \), então \(W^{\mathbb {C}}=\{ \vec0\} \). Se \(W\neq \{ \vec0\} \) e \((\bm {e}_j)\) é uma base de \(W\) sobre \(\mathbb {R}\), mostre que \(((\bm {e}_j,\vec0))\) é uma base de \(W^{\mathbb {C}}\) sobre \(\mathbb {C}\). Em particular,

\[ \dim _{\mathbb {C}}W^{\mathbb {C}}=\dim _{\mathbb {R}}W \]

para todo espaço vetorial real \(W\) de dimensão finita.

Exercício 3.41

Seja \(\phi :W\to W'\) uma transformação linear entre espaços vetoriais reais. Mostre que sua complexificação \(\phi ^{\mathbb {C}}:W^{\mathbb {C}}\to (W')^{\mathbb {C}}\) satisfaz

\[ \ker (\phi ^{\mathbb {C}})=(\ker \phi )^{\mathbb {C}} \quad \text{e}\quad \operatorname {im}(\phi ^{\mathbb {C}})=(\operatorname {im}\phi )^{\mathbb {C}}. \]

Exercício 3.42

Se \(V\) é um espaço vetorial complexo, uma \(\mathbb {R}\)-forma de \(V\) é um subespaço vetorial real \(W\subseteq V\) cuja complexificação é isomorfa a \(V\). Mostre que dois exemplos de \(\mathbb {R}\)-formas de \(\mathcal{M}_{2, 2}(\mathbb {C})\) são

\[ \mathcal{M}_{2, 2}(\mathbb {R}) \quad \text{e}\quad \left\{ \begin{bmatrix} a & b+ci \\ b-ci & d \end{bmatrix} \, \mid \, a,b,c,d\in \mathbb {R}\right\} . \]