Forma Canônica Racional
Embora o polinômio característico de um operador \(T:V\to V\) se decomponha como produto de potências de polinômios irredutíveis em \(\mathbb {K}[x]\), esses fatores não precisam ser lineares. Em particular, o polinômio característico pode não se decompor sobre \(\mathbb {K}\), e os autovalores de \(T\) podem não pertencer ao corpo de escalares. A forma canônica racional contorna essa dificuldade: ela existe sobre o corpo original e substitui os blocos de Jordan por matrizes companheiras.
Seja \( T :V\to V\) um operador linear em um espaço vetorial de dimensão finita. Mostraremos que existe uma base \(\underline{\textsc{B}}\) de \(V\), na qual \( [T]_{\underline{\textsc{B}}} \) é uma matriz na forma canônica racional:
onde \(C_{p_i}\) é a matriz companheira do polinômio mônico \(p_i(x)=x^{d_i}+a_{i,d_i-1}x^{d_i-1}+\cdots +a_{i1}x+a_{i0}\in \mathbb {K}[x]\). Os graus \(d_i\) podem variar de um bloco para outro.
11.1 Decomposição Cíclica
Fixe um operador \(T:V\to V\). A interseção de subespaços \(T\)-invariantes continua sendo \(T\)-invariante. Portanto, para cada subconjunto \(A\subseteq V\) existe um menor subespaço \(T\)-invariante que contém \(A\): a interseção de todos os que contêm esse conjunto. Denotaremos esse espaço por \(Z_A^T\). Quando \(A=\{ \bm {v}\} \), escreveremos \(Z_{\bm {v}}^T\), ou simplesmente \(Z_{\bm {v}}\) se o operador estiver fixado.
Seja a transformação linear \(T\): \( \mathbb {K}^{3} \rightarrow \mathbb {K}^{3} \) definida por
Considere \(\bm {v}=(1,0,0)\). Temos
Esses três vetores são linearmente independentes; portanto, \(Z_{\bm {v}}=\mathbb {K}^3\). Além disso, \(T^3\bm {v}=-2\bm {v}+2T\bm {v}\).
O subespaço \( Z_{\bm {v}} \) pode ser caracterizado do seguinte modo.
Ponha
Se \(p,q\in \mathbb {K}[x]\) e \(a,b\in \mathbb {K}\), então
de modo que \(W\) é um subespaço de \(V\). Além disso, \(\bm {v}=1(T)\bm {v}\) pertence a \(W\) e
logo \(W\) é \(T\)-invariante.
Resta verificar a minimalidade. Se \(U\) é um subespaço \(T\)-invariante que contém \(\bm {v}\), então \(T^j\bm {v}\in U\) para todo \(j\geq 0\). Como \(U\) é um subespaço, ele contém toda combinação linear desses vetores e, portanto, \(p(T)\bm {v}\in U\) para todo \(p\in \mathbb {K}[x]\). Assim, \(W\subseteq U\). Concluímos que \(W\) é o menor subespaço \(T\)-invariante que contém \(\bm {v}\), isto é, \(W=Z_{\bm {v}}\).
Para construir uma base de \(Z_{\bm {v}}\), considere a sequência
de elementos de \(Z_{\bm {v}}\). Como \(V\) tem dimensão finita, existe um menor inteiro positivo \(k\) para o qual \(T^k(\bm {v})\) é combinação linear dos termos anteriores, digamos
Pela minimalidade de \(k\), os vetores \(\bm {v},T\bm {v},\ldots ,T^{k-1}\bm {v}\) são linearmente independentes.
Escrevendo \(a_j=-\lambda _j\) para \(0\leq j\lt k\), obtemos o polinômio
Ele é o polinômio mônico de menor grau tal que \(m_{\bm {v}}(T)(\bm {v})=\vec0\).
O \(T\)-aniquilador de \(\bm {v}\) também será denotado por \(\operatorname {Aniq}(\bm {v};T)\).
Com a notação acima, temos o seguinte resultado.
Se uma combinação linear de \(\bm {v},T\bm {v},\ldots ,T^{k-1}\bm {v}\) fosse nula, obteríamos um polinômio não nulo de grau menor que \(k\) que anula \(\bm {v}\). Isso contradiria a minimalidade de \(m_{\bm {v}}\). Portanto, \(\underline{\textsc{B}}_{\bm {v}}\) é linearmente independente.
A relação \(m_{\bm {v}}(T)\bm {v}=0\) fornece
Consequentemente, \(T\) leva cada vetor de \(\underline{\textsc{B}}_{\bm {v}}\) ao subespaço \(\langle \underline{\textsc{B}}_{\bm {v}}\rangle \); esse subespaço é, portanto, \(T\)-invariante. Como contém \(\bm {v}\), ele contém \(Z_{\bm {v}}\). A inclusão inversa decorre de \(T^j\bm {v}\in Z_{\bm {v}}\) para \(0\leq j\lt k\). Logo \(Z_{\bm {v}}=\langle \underline{\textsc{B}}_{\bm {v}}\rangle \), e \(\underline{\textsc{B}}_{\bm {v}}\) é uma base desse espaço.
Nessa base,
As primeiras \(k-1\) colunas da matriz são, assim, as colunas de deslocamento, e a última é \((-a_0,-a_1,\ldots ,-a_{k-1})^t\). Essa é precisamente a matriz companheira \(C_{m_{\bm {v}}}\).
Finalmente, para todo \(q\in \mathbb {K}[x]\),
A implicação da esquerda para a direita é obtida aplicando o operador a \(\bm {v}\). Reciprocamente, se \(q(T)\bm {v}=0\), então, para todo \(p(T)\bm {v}\in Z_{\bm {v}}\),
Portanto, \(T\mathord {\upharpoonright }_{Z_{\bm {v}}}\) e \(\bm {v}\) têm o mesmo ideal de polinômios anuladores. Seus geradores mônicos coincidem, e o polinômio minimal da restrição é \(m_{\bm {v}}\).
Seja \(T\) o operador que na base canônica \(\underline{\textsc{B}}\) é representado pela matriz
Vamos calcular o aniquilador de \(\bm {v}_1=[1, 1, 0]\). Observamos que \(\bm {v}_2=T\bm {v}_1=[1,0,0]\), \(\bm {v}_3=T^2\bm {v}_1=T\bm {v}_2=[-2,-2,-1]\) e \(\bm {v}_4=T^3\bm {v}_1=[-8,-5,-3]\). Os vetores \(\bm {v}_1,\bm {v}_2,\bm {v}_3\) são linearmente independentes e formam uma base de \(Z_{\bm {v}_1}=V\).
Temos para \(\bm {v}_4\) a seguinte relação linear \(-\bm {v}_1+3T\bm {v}_1-3T^2\bm {v}_1+T^3\bm {v}_1=\vec0\). Logo \(m_{\bm {v}}=-1+3 x - 3 x^2+x^3\). Nessa base temos Seja
a matriz cujas colunas são \(\bm {v}_1,\bm {v}_2,\bm {v}_3\). Então \(P^{-1}[T]_{\underline{\textsc{B}}}P=C_{m_{\bm {v}_1}}\) e, portanto,
Pelo Teorema 11.6, o vetor \(\bm {v}\) é cíclico para \(Z_{\bm {v}}\), com base \(\underline{\textsc{B}}_{\bm {v}}\). A matriz \(C_{m_{\bm {v}}}\) que representa a restrição de \(T\) nessa base é a matriz companheira do \(T\)-aniquilador \(m_{\bm {v}}\).
Reunindo essas ideias, decomporemos \(V\) em subespaços cíclicos. A concatenação de suas bases produzirá uma representação diagonal por blocos, cujos blocos são matrizes companheiras.
Faremos indução sobre \(n=\dim V\). Se \(n=1\), qualquer vetor não nulo gera \(V\), e o resultado é imediato. Suponha \(n\gt 1\) e que o teorema valha em dimensões menores.
Escolha \(\bm {v}_1\in V\) de modo que
seja o maior valor de \(\dim Z_{\bm {v}}\) quando \(\bm {v}\) percorre \(V\). Se \(m=n\), então \(V=Z_{\bm {v}_1}\) e nada mais há a provar. Suponha \(m\lt n\). Construiremos um complemento \(T\)-invariante de \(Z_{\bm {v}_1}\).
A base cíclica
é linearmente independente. Podemos, portanto, prolongá-la a uma base de \(V\) e escolher \(f\in V^*\) que satisfaça
Defina \(\tau :V\to \mathbb {K}^m\) por
Mostremos primeiro que \(\tau \mathord {\upharpoonright }_{Z_{\bm {v}_1}}\) é um isomorfismo. Na base cíclica acima, a entrada da linha \(i+1\) e da coluna \(j+1\) de sua matriz é \(f(T^{i+j}\bm {v}_1)\). Essa entrada é zero se \(i+j\lt m-1\) e é igual a \(1\) se \(i+j=m-1\). Assim, a matriz tem zeros de um lado da antidiagonal e entradas iguais a \(1\) na antidiagonal. Ao inverter a ordem das linhas, obtemos uma matriz triangular com diagonal formada por uns. Logo a matriz é invertível, como queríamos.
Agora provemos que \(\ker \tau \) é \(T\)-invariante. Tome \(\bm {w}\in \ker \tau \). Então
Pela escolha de \(m\), temos \(\dim Z_{\bm {w}}\leq m\). Se \(r=\deg m_{\bm {w}}\), então \(r\leq m\) e a relação \(m_{\bm {w}}(T)\bm {w}=0\) escreve \(T^r\bm {w}\) como combinação linear de \(\bm {w},T\bm {w},\ldots ,T^{r-1}\bm {w}\). Aplicando \(T^{m-r}\) a essa relação, concluímos que
Portanto, \(f(T^m\bm {w})=0\). Todas as coordenadas de \(\tau (T\bm {w})\) são nulas, e assim \(T\bm {w}\in \ker \tau \).
Como \(\tau \mathord {\upharpoonright }_{Z_{\bm {v}_1}}\) é injetiva, \(Z_{\bm {v}_1}\cap \ker \tau =\{ \vec0\} \). Ela também é sobrejetiva, de modo que \(\operatorname {im}\tau =\mathbb {K}^m\) e \(\dim \ker \tau =n-m\). Consequentemente,
e obtemos a soma direta
Se \(\ker \tau \neq \{ \vec0\} \), sua dimensão é menor que \(n\) e a hipótese de indução, aplicada a \(T\mathord {\upharpoonright }_{\ker \tau }\), decompõe esse complemento em subespaços cíclicos. Juntando essa decomposição a \(Z_{\bm {v}_1}\), obtemos a decomposição de \(V\). A reunião das bases cíclicas fornece a matriz diagonal por blocos. Por fim, o polinômio característico de uma matriz diagonal por blocos é o produto dos polinômios característicos dos blocos, e o polinômio característico de \(C_{q_i}\) é \(q_i\).
Sejam \(T\in \operatorname {Hom}(V,V)\) e \(\bm {u},\bm {v}\in V\). Suponha que os subespaços cíclicos \(Z_{\bm {u}}\) e \(Z_{\bm {v}}\) tenham interseção nula. Mostre que Suponha, além disso, que \(m_{\bm {u}}\) e \(m_{\bm {v}}\) sejam coprimos. Prove que Sugestão: use uma identidade de Bézout para recuperar \(\bm {u}\) e \(\bm {v}\) a partir de \(\bm {u}+\bm {v}\).
11.2 Forma Canônica Racional
O Teorema da Decomposição Cíclica fornece uma soma direta de subespaços cíclicos, mas essa decomposição não é única: uma parcela pode admitir nova decomposição em parcelas cíclicas menores. Para obter um representante canônico, ordenaremos os polinômios associados de modo que cada um seja divisível pelo seguinte. Esses polinômios serão os fatores invariantes; sua lista determinará a classe de similaridade.
\( V = \displaystyle \bigoplus _{j = 1}^{k} Z_{\bm {v}_{j}} \);
o \(T\)-aniquilador de \(\bm {v}_j\) é \(p^{n_j}\);
\(\dim V=(n_1+\cdots +n_k)\deg p\);
\(t=n_1\geq n_2\geq \cdots \geq n_k\geq 1\);
os inteiros \(n_1,\ldots ,n_k\) e, portanto, os polinômios \(p^{n_1},\ldots ,p^{n_k}\) são determinados unicamente por \(T\).
Pelo Teorema 11.11, existem vetores não nulos \(\bm {v}_1,\ldots ,\bm {v}_k\) tais que
Escreva \(q_i=m_{\bm {v}_i}\). Como \(m_T(T)\bm {v}_i=0\), a definição do aniquilador de \(\bm {v}_i\) mostra que \(q_i\mid m_T\). A hipótese \(m_T=p^t\), com \(p\) irredutível, implica
para algum inteiro \(1\leq n_i\leq t\).
Um polinômio anula \(T\) se, e somente se, anula a restrição de \(T\) a cada parcela da soma direta. Portanto,
Como todos os \(q_i\) são potências de \(p\), segue que \(t=\max _i n_i\). Reordenando as parcelas, podemos supor
Além disso, pelo Teorema 11.6,
e a soma das dimensões fornece a terceira afirmação.
Resta provar que a sequência de expoentes independe da decomposição escolhida. Ponha \(d=\deg p\). Para \(j\geq 0\), a comutatividade entre \(p(T)^j\) e \(T\) fornece
Se \(j\geq n_i\), esse espaço é nulo. Se \(j\lt n_i\), então, para \(q\in \mathbb {K}[x]\),
Logo o aniquilador de \(p(T)^j\bm {v}_i\) é \(p^{n_i-j}\) e
Como cada \(Z_{\bm {v}_i}\) é \(T\)-invariante, a aplicação \(p(T)^j\) preserva a decomposição direta. Assim,
e
Para todo \(j\geq 1\), obtemos
O lado esquerdo depende apenas de \(T\). Ele determina, para cada \(j\), o número de expoentes maiores ou iguais a \(j\). Em particular, determina \(k\) pelo caso \(j=1\) e, em seguida, toda a sequência ordenada \(n_1,\ldots ,n_k\). Isso prova a unicidade.
Destacamos que o primeiro divisor elementar na sequência é o polinômio minimal de \( T. \)
Escreva \(m_T=p_1^{e_1}\cdots p_k^{e_k}\), com os \(p_i\) irredutíveis e distintos. Pelo Teorema da Decomposição Primária,
e o polinômio minimal de \(T_i=T\mathord {\upharpoonright }_{V_i}\) é \(p_i^{e_i}\). A Proposição 11.12, aplicada a \(T_i\), fornece uma decomposição
A soma dessas decomposições, para \(1\leq i\leq k\), é direta porque as parcelas \(V_i\) já formam uma soma direta. Reunindo as bases cíclicas de todos os \(Z_{\bm {v}_{ij}}\), obtemos uma base de \(V\) na qual a matriz de \(T\) tem os blocos \(C_{p_i^{n_{ij}}}\).
A fatoração de \(m_T\) determina unicamente os componentes primários \(V_i\), e a Proposição 11.12 determina unicamente, em cada componente, os expoentes \(n_{ij}\). Logo a coleção de blocos é determinada por \(T\), restando apenas a liberdade de permutá-los.
Pela discussão anterior, esse formato diagonal por bloco, no qual cada bloco \( A_{j} \) é ele próprio uma diagonal por bloco de matrizes companheiras, é único (a menos de permutações de \( A_{j}) \). É denominada matriz canônica racional por divisores elementares de \( T. \)
Na sequência de divisores elementares pode haver repetições, pois alguns dos \(n_i\) podem ser iguais. Por isso, uma mesma matriz companheira pode aparecer mais de uma vez na forma racional.
Seja
Nesse caso \(c_T(x)=(x-3)(x-1)^2\) e \(m_T(x)=(x-3)(x-1)\). Como a matriz companheira de um polinômio linear \(x-a\) é a matriz \([a]\), concluímos que a forma canônica racional de \(A\) é \(D=\mathrm{diag}(1,1,3)\).
Seja
Então \(c_T(x)=m_T(x)=(x^2-2)(x^2+1)\) e, portanto, a forma racional é
Suponha agora que \(T\): \( \mathbb {Q}^{6} \rightarrow \mathbb {Q}^{6} \) possua um polinômio minimal
Consequentemente o polinômio característico de \(T\) é um dos
Suponha primeiro que \( c_{T} = c_{1} \). Nesse caso, temos \( \mathbb {Q}^{6} = V_{1} \oplus V_{2} \) com \( \dim V_{1} = 4 \) e \( \dim V_{2 } = 2 \). A aplicação linear induzida \( T_{1} \) em \( V_{1} \) possui o polinômio minimal \( m_{1} =x^{2}+1 \) e a aplicação induzida \( T_{2} \) em \( V_{2} \) possui polinômio minimal \( m_{2} = (x-2)^{2} \).
A situação para \( V_{1} \) é que \(C_{x^{2} +1} \oplus C_{x^{2} +1}.\)
Quanto a \(V_2\), o Teorema 11.14 fornece \(2=n_1+\cdots +n_k\) e \(n_1=2\). Como todos os \(n_i\) são positivos, não pode haver outro termo: \(k=1\). Portanto, o único divisor elementar de \(T_2\) é \((x-2)^2\). Combinando essas observações, vemos que, neste caso, a matriz canônica racional de \(T\) é
Suponha agora que \( c_{T} = c_{2} \). Nesse caso, temos \( \mathbb {Q}^{6} = V_{1} \oplus V_{2} \) com \( \dim V_{1} = 2 \) e \( \dim V_{2 } = 4 \). Além disso, a aplicação induzida \( T_{2} \) em \( V_{2} \) possui o polinômio minimal \( m_{2} = (x-2)^{2} \). Pelo Teorema 11.14, aplicado a \( T_{2} \), temos \( 4 = n_{1}+\cdots +n_{k} \) com \( n_{1} = 2 \). Existem, portanto, duas possibilidades, a saber:
\( k = 2 \) com \( n_{1} = n_{2} = 2 \);
\( k = 3 \) com \( n_{1} = 2, n_{2} = n_{3} = 1.\)
A matriz canônica racional de \(T\) neste caso é, portanto, uma das formas
Observe no exemplo acima que o conhecimento dos polinômios característico e minimal geralmente não é suficiente para determinar completamente a forma racional.
Também podemos organizar as parcelas cíclicas de modo que \(f_{i+1}(x)\mid f_i(x)\). Essa condição produz a forma canônica racional por fatores invariantes.
Escreva
e ponha \(Q_i=q/q_i\). Como \(Q_i\) e \(q_i\) são coprimos, existem \(a_i,b_i\in \mathbb {K}[x]\) tais que
O polinômio \(e_i=a_iQ_i\) é congruente a \(1\) módulo \(q_i\) e, para \(h\neq i\), é divisível por \(q_h\). Como \(q_h(T)\bm {w}_h=0\), temos
Assim, cada gerador \(\bm {w}_i\) pertence a \(Z_{\bm {u}}\) e, como esse subespaço é \(T\)-invariante, \(Z_{\bm {w}_i}\subseteq Z_{\bm {u}}\). Portanto, \(W\subseteq Z_{\bm {u}}\). A inclusão inversa decorre de \(\bm {u}\in W\) e da \(T\)-invariância de \(W\). Logo \(Z_{\bm {u}}=W\).
Além disso, \(q_i(T)\bm {w}_i=0\) para todo \(i\), e cada \(q_i\) divide \(q\); portanto, \(q(T)\bm {u}=0\). Reciprocamente, se \(f(T)\bm {u}=0\), então
A soma direta implica \(f(T)\bm {w}_i=0\) para cada \(i\), de modo que \(q_i\mid f\) para todo \(i\). Como os \(q_i\) são dois a dois coprimos, \(q=q_1\cdots q_s\) divide \(f\). Logo o ideal dos polinômios que anulam \(\bm {u}\) é precisamente \((q)\), e \(q\) é o aniquilador mônico de \(\bm {u}\).
Seja \(T\in \operatorname {Hom}(V,V)\), com \(V\) de dimensão finita. Existem um inteiro \(r\gt 0\), vetores \(\bm {u}_1,\ldots ,\bm {u}_r\) e polinômios mônicos \(f_1(x),\ldots ,f_r(x)\) tais que
\(V=Z_{\bm {u}_1}\oplus \cdots \oplus Z_{\bm {u}_r}\), com \(m_{\bm {u}_i}(x)=f_i(x)\);
\(f_{1}(x)=m_{T}(x)\) e \(f_{i+1}(x)|f_{i}(x)\) para todo \(i=1, \ldots , r-1.\)
Além disso, \(r\) e os polinômios \(f_1,\ldots ,f_r\) são unicamente determinados por \(T\).
Para cada fator irredutível \(p_i\) do polinômio minimal, escreva os divisores elementares do componente \(p_i\)-primário na ordem
Seja \(r=\max _i r_i\) e, quando \(r_i\lt r\), complete a lista à direita com expoentes nulos. Para \(1\leq j\leq r\), defina
Para cada \(i\), o maior expoente \(n_{i1}\) é o expoente de \(p_i\) em \(m_T\). Logo
Como \(n_{i,j+1}\leq n_{ij}\) para todo \(i\), temos \(f_{j+1}\mid f_j\).
Fixe uma coluna \(j\) e some os vetores cíclicos não nulos que aparecem nessa coluna, um em cada componente primário. Seus aniquiladores são potências de polinômios irredutíveis distintos e, portanto, são dois a dois coprimos. Pelo Lema 11.18, essa soma é um vetor cíclico \(\bm {u}_j\) com aniquilador \(f_j\). Como apenas reagrupamos as parcelas da decomposição por divisores elementares, obtemos
Por fim, os divisores elementares são determinados unicamente por \(T\). Para cada irredutível \(p_i\), o expoente de \(p_i\) em \(f_j\) é exatamente \(n_{ij}\). Assim, a fatoração dos \(f_j\) recupera todas as listas de divisores elementares, inclusive seus comprimentos. Reciprocamente, essas listas determinam \(r\) e cada \(f_j\). Isso prova a unicidade.
11.3 Forma Normal de Jordan Generalizada
A forma de Jordan generalizada refina os blocos da forma racional. Em cada parcela cíclica, substitui a matriz companheira de uma potência \(p^n\) por uma matriz em blocos construída a partir da companheira de \(p\). Quando todos os fatores irredutíveis são lineares, recuperamos a forma de Jordan usual.
Seja \(\bm {v}\) um vetor cíclico para \(T:V\to V\), cujo polinômio minimal é \(p^n\), onde \(p(x)=x^k+a_{k-1}x^{k-1}+\cdots +a_0\) é mônico e irredutível. Então existe uma base de \(V\) na qual a matriz de \(T\) é a matriz \(kn\times kn\)
onde \(C_p\) é a matriz companheira de \(p\) e \(N\in \mathcal{M}_{k, k}(\mathbb {K})\) tem todas as entradas nulas, exceto \(N_{1k}=1\).
Para \(0\leq j\lt n\) e \(0\leq \ell \lt k\), considere os polinômios
Eles são mônicos e seus graus \(jk+\ell \) percorrem, sem repetição, os inteiros de \(0\) a \(kn-1\). Portanto, formam uma base do espaço dos polinômios de grau menor que \(kn\).
Considere agora a lista ordenada
em que os blocos são concatenados na ordem decrescente de \(j\). Se houvesse uma relação linear não trivial entre esses vetores, a mesma relação entre os polinômios \(x^\ell p^j\) produziria um polinômio não nulo \(q\) de grau menor que \(kn\) tal que \(q(T)\bm {v}=0\). Isso é impossível, pois o aniquilador de \(\bm {v}\) é \(p^n\), de grau \(kn\). Logo os \(kn\) vetores de \(\underline{\textsc{B}}\) são linearmente independentes. Como \(\dim V=\deg m_{\bm {v}}=kn\), eles formam uma base de \(V\).
Para \(0\leq \ell \lt k-1\), o operador \(T\) leva \(T^\ell p(T)^j\bm {v}\) ao vetor seguinte do mesmo bloco. Como
a imagem do último vetor do bloco é
Os primeiros \(k\) termos dessa expressão fornecem o bloco companheiro \(C_p\) na diagonal. Se \(j=n-1\), o termo \(p(T)^{j+1}\bm {v}\) é nulo porque \(p(T)^n\bm {v}=0\). Se \(j\lt n-1\), ele é o primeiro vetor do bloco imediatamente anterior, pois os expoentes foram ordenados de modo decrescente. Na matriz, sua contribuição é uma entrada \(1\) na primeira linha e na última coluna do bloco situado logo acima da diagonal, isto é, o bloco \(N\) com \(N_{1k}=1\). Todas as demais entradas fora dos blocos descritos são nulas. Obtemos, assim, exatamente a matriz do enunciado.
Passando agora para o caso geral, considere uma aplicação linear \(T:V\to V\). Com a notação usual, a aplicação induzida \(T_i\) em \(V_i\) possui polinômio minimal \(p_i^{e_i}\). Aplicando o Teorema 11.21 aos subespaços cíclicos da decomposição de \(T_i\), podemos substituir cada bloco companheiro \(C_{p_i^{n_j}}\) pela matriz de Jordan generalizada associada a \(C_{p_i}\). A matriz obtida dessa maneira é denominada forma de Jordan generalizada de \(T\).
Seja \(T:\mathbb {R}^{6}\to \mathbb {R}^{6}\) linear e tal que
Pelo Teorema da Decomposição Primária, o polinômio minimal da aplicação induzida \(T_1\) é \((x^{2}-x+1)^{2}\), enquanto o de \(T_2\) é \((x+1)^{2}\). Usando o Teorema 11.14, vemos que o único divisor elementar de \(T_1\) é \((x^{2}-x+1)^{2}\) e o único divisor elementar de \(T_2\) é \((x+1)^{2}\). Consequentemente, a matriz canônica racional de \(T\) é
A matriz de Jordan generalizada é obtida substituindo cada companheira de \(p_i^2\) pelo bloco generalizado associado a \(C_{p_i}\). Assim, obtemos
Quando \(k=1\), temos \(p(x)=x-\alpha \). Nesse caso \(C_p=[\alpha ]\) e o bloco generalizado se reduz ao bloco de Jordan usual associado ao autovalor \(\alpha \). Portanto, quando todos os fatores irredutíveis são lineares, a forma de Jordan generalizada coincide com a forma de Jordan.
11.4 Calculando a Forma Canônica Racional
Passamos agora do resultado estrutural ao cálculo dos divisores elementares e dos fatores invariantes.
Fixe um fator irredutível \(p(x)\) de grau \(d\) no polinômio minimal de \(T\). O diagrama de pontos associado a \(p\) será determinado pela Equação 11.1 da Proposição 11.12 e registrará os divisores elementares correspondentes.
Calcule recursivamente, até obter zero,
A \(k\)-ésima linha do diagrama recebe \(r_k\) pontos. Se a \(i\)-ésima coluna tem \(s_i\) pontos, o divisor elementar correspondente é \(p(x)^{s_i}\).
Para \(p(x)=x^2+1\), suponha que os valores calculados sejam \(r_1=3\), \(r_2=3\), \(r_3=1\), \(r_4=1\) e \(r_5=0\).
O diagrama de pontos seria:
As alturas das colunas são \(4\), \(2\) e \(2\); logo os divisores elementares são \((x^2+1)^4\), \((x^2+1)^2\) e \((x^2+1)^2\).
Repetindo o procedimento para cada fator irredutível do polinômio minimal e colocando as companheiras dos divisores elementares na diagonal, obtemos uma primeira forma racional em blocos.
Para recuperar os fatores invariantes, disponha em cada linha os divisores elementares associados a um mesmo fator irredutível, alinhados do maior grau para o menor. Os produtos nas colunas são os fatores invariantes; o maior deles é o polinômio minimal. Por exemplo, se as linhas correspondentes a \(x^2+1\) e \(x-2\) forem
então os fatores invariantes são
A forma canônica racional tem, na diagonal, as matrizes companheiras desses fatores invariantes.
Vamos encontrar a forma racional de
Logo o polinômio característico de \(A\) é \(c_A(x)=(x-1)^3\) e o polinômio minimal é \(m_A(x)=(x-1)^2\); o único fator irredutível do polinômio minimal é \((x-1)\). Vamos calcular seu diagrama de pontos.
Portanto, o diagrama de pontos é
Portanto, os divisores elementares são \((x-1)^2\) e \((x-1)\). Nesse caso, como existe apenas um fator irredutível do polinômio minimal, os fatores invariantes são os mesmos que os divisores elementares. Assim, a forma canônica racional, obtida por qualquer uma das duas descrições, é:
Os exercícios a seguir relacionam essa propriedade ao polinômio minimal e, quando o corpo é algebricamente fechado, à diagonalização.
Mostre que toda matriz \(A\in M_{n}(\mathbb {C})\) é semelhante à sua transposta.
Seja \(V\) um \(\mathbb {K}\)-e.v. de dimensão finita, \(\bm {v}\in V\) e \(T:V\to V\) um operador linear. Seja
Mostre que:
\(Z_{\bm {v}}\) é \(T\)-invariante;
\(Z_{\bm {v}}\) é o menor subespaço \(T\)-invariante de \(V\) que contém \(\bm {v}\);
\(Z_{\bm {v}}=\{ g(T)(\bm {v})\, \mid \, g\in \mathbb {K}[x]\} \);
\(\dim Z_{\bm {v}}=1\) se, e somente se, \(\bm {v}\) é um autovetor de \(T\).
Seja \(\mathbb {K}\) um corpo e seja \(B\in M_{n}(\mathbb {K})\). Mostre que \(B\) é semelhante sobre \(\mathbb {K}\) a uma e somente uma matriz que está na forma racional.
Sejam \(V\) um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\) de dimensão finita e \(T\in \operatorname {Hom}(V,V)\). Prove que se existe um vetor cíclico para \(T^{2}\) então existe um vetor cíclico para \(T\). Vale a recíproca?
Seja \(V\) um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\) e \(T:V\rightarrow V\) um operador linear com polinômio minimal \(m_{T}(x)=p_{1}(x)^{m_{1}}\cdots p_{k}(x)^{m_{k}}\) onde os \(p_{i}(x)\) são distintos e irredutíveis em \(\mathbb {K}[x]\). Seja \(V=W_{1}\oplus \cdots \oplus W_{k}\) a decomposição de \(V\) dada pelo teorema da decomposição primária. Mostre que para todo subespaço \(T\)-invariante \(W\) de \(V\) temos que
Seja \(V\) um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\) e \(T:V\rightarrow V\) um operador linear. Sejam \(p\in \mathbb {K}[x]\) um polinômio irredutível e \(m\) um inteiro positivo. Suponha que existe \(\bm {v}\in V\) tal que \(m_{\bm {v}}=p^{m}\). Seja \(\bm {w}\in Z_{\bm {v}}\).
Mostre que \(\bm {w}=q(T)p(T)^{l}(\bm {v})\), onde \(q\in \mathbb {K}[x]\) é coprimo com \(p\) e \(0\leq l\leq m.\)
Mostre que \(Z_{\bm {w}}=Z_{p(T)^l(\bm {v})}\). Logo, os únicos subespaços \(T\)-cíclicos de \(Z_{\bm {v}}\) são
\[ 0=Z_{p(T)^m(\bm {v})}\subset Z_{p(T)^{m-1}(\bm {v})}\subset \cdots \subset Z_{p(T)(\bm {v})}\subset Z_{\bm {v}}. \]Mostre que todo subespaço \(T\)-invariante de \(Z_{\bm {v}}\) é \(T\)-cíclico, isto é, tem a forma \(Z_{p(T)^l(\bm {v})}\) para algum \(0\leq l\leq m\).
Sejam \(V\) um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\) de dimensão finita e \(T\in \operatorname {Hom}(V,V) .\)
Prove que se existe um vetor cíclico para \(T\), então todo subespaço próprio \(T\)-invariante de \(V\) também tem um vetor cíclico.
Vale a recíproca do item 1.?
Sejam \(V\) um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\) de dimensão \(n\) e \(T\in \operatorname {Hom}(V,V)\) um operador diagonalizável.
Mostre que existe um vetor cíclico para \(T\) se, e somente se, \(T\) tem \(n\) autovalores distintos.
Mostre que se \(T\) tem \(n\) autovalores distintos e se \(\underline{\textsc{B}}=\{ \bm {v}_1,\dots ,\bm {v}_n\} \) é uma base de autovetores de \(T\), então \(\bm {v}=\bm {v}_1+\bm {v}_2+\cdots +\bm {v}_n\) é um vetor cíclico de \(T.\)
Sejam \(V\) um espaço vetorial de dimensão \(n\) sobre \(\mathbb {K}\) e \(T\in \operatorname {Hom}(V,V)\) .
Prove que \(\operatorname {im}T\) tem um complementar \(T\)-invariante se, e somente se, \(\operatorname {im}T\cap \ker T=0.\)
Se \(\operatorname {im}T\cap \ker T=0\), prove que \(\ker T\) é o único complementar de \(\operatorname {im}T\) que é \(T\)-invariante.
Seja \(A\in M_{3}(\mathbb {R})\) a matriz
Encontre uma matriz invertível \(P\) tal que \(P^{-1}AP\) esteja na forma racional.
Seja \(A\in M_{3}(\mathbb {R})\) a matriz
Encontre vetores \(\bm {v}_{1},\dots ,\bm {v}_{r}\) que satisfaçam as condições do Teorema da Decomposição Cíclica.
Sejam \(V\) um espaço vetorial de dimensão finita sobre \(\mathbb {K}\) e \(T\in \operatorname {Hom}(V,V)\) . Prove que \(T\) tem um vetor cíclico se, e somente se, a seguinte afirmação é verdadeira: “Todo operador linear que comuta com \(T\) é um polinômio em \(T\).”
Sejam \(V\) um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\) de dimensão finita e \(T\in \operatorname {Hom}(V,V) .\) Prove que todo vetor \(\vec0\neq \bm {v}\in V\) é um vetor cíclico para \(T\) se, e somente se, o polinômio característico de \(T\) é irredutível em \(\mathbb {K}[x].\)
Sejam \(V\) um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\) de dimensão finita e \(T\in \operatorname {Hom}(V,V) .\) Suponha que \(c_{T}=m_{T}=q^{m}\) é uma potência de um polinômio irredutível. Prove que nenhum subespaço não trivial \(T\)-invariante de \(V\) tem um complementar que também é \(T\)-invariante.
Seja \(T\in \operatorname {Hom}(\mathbb {R}^{4},\mathbb {R}^{4})\) um operador linear tal que \(x^{2}+3\) é um divisor do polinômio minimal de \(T\) e \(1\) é o único autovalor de \(T\). Quais são as possíveis formas racionais de \(T\)?
Seja \(T\in \operatorname {Hom}(\mathbb {K}^{6},\mathbb {K}^{6})\) com polinômio minimal \(m_{T}(x)=(x^{2}-2)(x^{2}+1)\). Ache as possíveis formas racionais de \(T\) para \(\mathbb {K}=\mathbb {R}\) e \(\mathbb {K}=\mathbb {C}.\)
Recorde que um operador é semissimples quando todo subespaço invariante admite um complemento também invariante. Seja \(V\) um espaço vetorial de dimensão finita sobre um corpo \(\mathbb {K}\) e \(T\) um operador linear em \(V\).
Mostre que se o polinômio minimal de \(T\) for irredutível em \(\mathbb {K}\) então \(T\) é semissimples.
Se \(\mathbb {K}\) for algebricamente fechado, prove que \(T\) é diagonalizável se, e somente se, é semissimples.
Mostre que o operador \(T:\mathbb {R}^{3}\to \mathbb {R}^{3}\) tal que
\[ [T]_{\underline{\textsc{B}}}^{\underline{\textsc{B}}}=\left[\begin{array}{ccc} 2 & 0 & 0\\ 1 & 2 & 0\\ 0 & 0 & 3 \end{array}\right] \]não é semissimples.