Capítulo 2

Espaços Vetoriais

When did mathematicians first generally accept the definition of a vector space as a set of elements subject to suitably axiomatized operations of addition and multiplication by scalars, and not just as a set of n-tuples of scalars closed under these two operations? This abstract description did not come into early use, but has the evident advantages of conceptual simplicity and geometric invariance.
Mac Lane

Ilustração: Espaços Vetoriais

Figura 2.1 Giuseppe Peano

A álgebra linear tem raízes históricas em diversos ramos da matemática. Na álgebra, elas incluem equações lineares, formas bilineares, matrizes, quatérnios e outros sistemas hipercomplexos; na geometria, incluem segmentos orientados — os vetores geométricos — e as geometrias afim e projetiva; na análise, aparecem em equações diferenciais lineares e em espaços de dimensão infinita. A física de Maxwell, Gibbs e Heaviside também contribuiu decisivamente para seu desenvolvimento.

A noção geral de espaço vetorial, comum a esses desenvolvimentos, foi isolada e adotada relativamente tarde.

O tratamento moderno e abstrato foi formulado por Giuseppe Peano, em 1888, no contexto da geometria. A formulação teve pouca influência imediata e tampouco se difundiu quando Weyl a retomou em 1918. Por volta de 1920, ideias semelhantes reapareceram nos trabalhos de Banach, Hahn, Wiener e Noether; a partir daí, a noção de espaço vetorial se desenvolveu rapidamente Moore (1995).


2.1 Definições e Exemplos

No restante do texto, salvo indicação em contrário, assumiremos que \(\mathbb {K}\) é um corpo arbitrário.

Definição 2.1 (Espaço Vetorial)
Um espaço vetorial \(V\) sobre \(\mathbb {K}\) é um conjunto não vazio munido de duas aplicações: a adição \((\bm {x},\bm {y})\mapsto \bm {x}+\bm {y}\), de \(V\times V\) em \(V\), e a multiplicação por escalares \((\lambda ,\bm {x})\mapsto \lambda \bm {x}\), de \(\mathbb {K}\times V\) em \(V\). Essas operações devem satisfazer os seguintes axiomas:
  1. \( \bm {x}+ \bm {y}= \bm {y}+\bm {x}\) para todos os \( \bm {x}, \bm {y}\in V.\)

  2. \( \bm {x}+ (\bm {y}+\vec{z}) = (\bm {x}+ \bm {y})+\vec{z} \) para todos os \( \bm {x}, \bm {y}, \vec{z} \in V.\)

  3. Existe um elemento \(\vec0\in V\) tal que \(\vec0+\bm {x}=\bm {x}\) para todo \(\bm {x}\in V\).

  4. Para cada \( \bm {x}\in V\), existe um \( \bm {y}\in V\) tal que \( \bm {x}+ \bm {y}= \vec0.\)

  5. \( (\lambda _1 \lambda _2) \bm {x}= \lambda _1 (\lambda _2 \bm {x}) \) para todos os \( \lambda _1, \lambda _2 \in \mathbb {K}\) e \( \bm {x}\in V.\)

  6. \( \lambda _1 (\bm {x}+ \bm {y}) = \lambda _1 \bm {x}+ \lambda _1 \bm {y}\) para todos os \( \lambda _1 \in \mathbb {K}\) e \( \bm {x}, \bm {y}\in V.\)

  7. \( (\lambda _1+\lambda _2) \bm {x}= \lambda _1 \bm {x}+\lambda _2 \bm {x}\) para todos os \( \lambda _1, \lambda _2 \in \mathbb {K}\) e \( \bm {x}\in V.\)

  8. \( 1 \bm {x}= \bm {x}\) para todos os \( \bm {x}\in V.\)

Assim como ocorre com os corpos, um espaço vetorial inclui não apenas o conjunto \(V\), mas também as duas operações especificadas acima. Em outras palavras, trata-se da tripla formada por \(V\), pela adição e pela multiplicação por escalares, sujeita aos axiomas V1–V8.

Figura 2.2 Representação geométrica da multiplicação de um vetor por um escalar e da soma de vetores. Essa intuição será útil mesmo quando os vetores forem polinômios, matrizes ou funções.

Figura 2.2 Representação geométrica da multiplicação de um vetor por um escalar e da soma de vetores. Essa intuição será útil mesmo quando os vetores forem polinômios, matrizes ou funções.

Em geral, um mesmo conjunto pode receber diferentes estruturas de espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\). Quando não houver risco de confusão, deixaremos as operações implícitas e usaremos simplesmente \(V\) para denotar o espaço.

Se \(V\) for um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\), os elementos de \(V\) serão chamados vetores, e os elementos de \(\mathbb {K}\), escalares.

Apresentamos algumas consequências simples dessa definição.

Proposição 2.2
  1. O elemento \( \vec0 \in V\) é único. Ou seja, existe um único \(\vec0\) tal que \(\vec0+\bm {x}=\bm {x}\) para todo \(\bm {x}\in V\).

  2. O elemento oposto é único. Ou seja, para todo \( \bm {x}\in V\), existe um único \( \bm {y}\in V\) tal que \( \bm {x}+ \bm {y}= \vec0.\) Esse vetor será denotado por \(-\bm {x}\).

  3. \(0\bm {x}=\lambda \vec0=\vec0\) para todos os \(\lambda \in \mathbb {K}\) e \(\bm {x}\in V\).

  4. \( (- 1) \bm {x}= -\bm {x}\).

  5. Se \(\lambda \bm {x}=\vec0\), então \(\lambda =0\) ou \(\bm {x}=\vec0\).

  6. Se \(\bm {x}+\bm {y}= \bm {z}+\bm {y}\) então \(\bm {x}= \bm {z}\).

Demonstração

a Se \(\vec0\) e \(\vec0'\) satisfazem a propriedade do vetor nulo, então \(\vec0=\vec0+\vec0'=\vec0'\). Logo o vetor nulo é único.

b Se \(\bm {y}\) e \(\bm {z}\) são opostos de \(\bm {x}\), então

\[ \bm {y}=\bm {y}+\vec0=\bm {y}+(\bm {x}+\bm {z}) =(\bm {y}+\bm {x})+\bm {z}=\vec0+\bm {z}=\bm {z}. \]

Portanto, o oposto de cada vetor é único.

c Como \(0\bm {x}+0\bm {x}=(0+0)\bm {x}=0\bm {x}\), o cancelamento aditivo fornece \(0\bm {x}=\vec0\). Analogamente, \(\lambda \vec0+\lambda \vec0=\lambda (\vec0+\vec0)=\lambda \vec0\), de modo que \(\lambda \vec0=\vec0\).

d Temos \(\bm {x}+(-1)\bm {x}=1\bm {x}+(-1)\bm {x}=(1-1)\bm {x}=0\bm {x}=\vec0\). Pela unicidade do oposto, \((-1)\bm {x}=-\bm {x}\).

e Se \(\lambda \bm {x}=\vec0\) e \(\lambda \neq 0\), multiplicar a igualdade por \(\lambda ^{-1}\) dá \(\bm {x}=(\lambda ^{-1}\lambda )\bm {x}=\lambda ^{-1}\vec0=\vec0\).

f Somando \(-\bm {y}\) aos dois lados de \(\bm {x}+\bm {y}=\bm {z}+\bm {y}\), obtemos \(\bm {x}=\bm {z}\).

Observação 2.3
A expressão \( \lambda _{1} \bm {x}_{1}+\ldots +\lambda _{n} \bm {x}_{n} = \sum \lambda _{i} \bm {x}_{i} \) é definida unicamente para qualquer \( \lambda _{1}, \ldots \), \( \lambda _{n} \in \mathbb {K}\) e \( \bm {x}_{1}, \ldots \), \( \bm {x}_{n} \in V \): devido à associatividade da adição, não é necessário inserir parênteses indicando ordem para o cálculo de somas múltiplas. Analogamente, a expressão \( \lambda _{1} \lambda _{2} \ldots \lambda _{n} \bm {x}\) está bem definida.

Uma expressão da forma \(\sum _{i=1}^{n}a_i\bm {x}_i\) é uma combinação linear dos vetores \(\bm {x}_1,\ldots ,\bm {x}_n\). Os escalares \(a_i\) são os coeficientes da combinação.

Exemplo 2.4 (Espaço de dimensão zero)
O conjunto \(V=\{ \vec0\} \) torna-se um espaço vetorial quando definimos \(\lambda \vec0=\vec0\) para todo \(\lambda \in \mathbb {K}\) e \(\vec0+\vec0=\vec0\).

Espaços de dimensão zero sobre corpos distintos são estruturas distintas; por isso o corpo de escalares faz parte da especificação do espaço vetorial.

Exemplo 2.5 (Corpo)

O conjunto \(V=\mathbb {K}\), com a adição e a multiplicação do próprio corpo, é um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\). vect]\(\mathbb {K}\), corpo

De maneira mais geral, dados um corpo \(\mathbb {K}\) e um subcorpo \(\mathbb {F}\) deste, o corpo \(\mathbb {K}\) pode ser visto como um espaço vetorial sobre \(\mathbb {F}\). Por exemplo, o corpo de números complexos \(\mathbb {C}\) é um espaço vetorial sobre o corpo dos números reais \(\mathbb {R}\), e este é um espaço vetorial sobre o corpo dos números racionais \(\mathbb {Q}\).

Exemplo 2.6 (Espaço de Coordenadas, \(\mathbb {K}^n\))

vect]\(\mathbb {K}^n\), espaço de coordenadas Para cada \(n\in \mathbb {N}\), denotamos por \(\mathbb {K}^n=\mathcal{M}_{n, 1}(\mathbb {K})\) o espaço dos vetores coluna com \(n\) entradas em \(\mathbb {K}\). Assim,

\[ \mathbb {K}^n=\left\{ \begin{bmatrix} x_1 \\ \vdots \\ x_n \end{bmatrix} \, \mid \, x_i\in \mathbb {K}\right\} . \]

A adição e a multiplicação por escalares são definidas componente a componente:

\begin{align*} \begin{bmatrix} x_1 \\ \vdots \\ x_n \end{bmatrix} +\begin{bmatrix} y_1 \\ \vdots \\ y_n \end{bmatrix}& \coloneqq \begin{bmatrix} x_1+y_1 \\ \vdots \\ x_n+y_n \end{bmatrix},\\ \lambda \begin{bmatrix} x_1 \\ \vdots \\ x_n \end{bmatrix}& \coloneqq \begin{bmatrix} \lambda x_1 \\ \vdots \\ \lambda x_n \end{bmatrix}. \end{align*}

Em particular, quando \( n = 1 \), temos que \(\mathbb {K}\) é um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\).

Se \(A\) e \( B \) são dois conjuntos, vamos denotar o conjunto de funções de \(A\) para \( B \) por \( B^{A}\). Assim, \( B^{A} = \{ f: A \to B \, \mid \, f \text{ é uma função } \} \).

No Exemplo 2.6, \(\mathbb {K}^n\) pode ser identificado com o conjunto das funções de \(\{ 1,\ldots ,n\} \) em \(\mathbb {K}\): ao vetor coluna de entradas \(x_1,\ldots ,x_n\) associamos a função \(i\mapsto x_i\). Essa observação sugere a seguinte generalização.

Exemplo 2.7 (Espaços de Funções)

vect]\(\mathbb {K}^S\), espaço de funções Sejam \( S \) um conjunto arbitrário e \( \mathbb {K}(S)= \mathbb {K}^S \) o conjunto de funções em \( S \) com valores no corpo \( \mathbb {K}\). Se \( f : S \to \mathbb {K}\) é uma função, então \( f (s) \) indica o valor de \(f\) no elemento \( s \in S. \)

A adição e multiplicação de funções por um escalar são definidas pontualmente:

  • \( (f+g) (s) \coloneqq f (s)+g (s) \) para todos os \( s \in S, \)

  • \( (af) (s) \coloneqq a f (s) \) para todos os \( a \in \mathbb {K}\) e \(s\in S\).

Como já observamos, se \(S=\{ 1,\ldots ,n\} \), então \(\mathbb {K}(S)\) pode ser identificado com \(\mathbb {K}^n\): a função \(f\) corresponde ao vetor coluna cujas entradas são \(f(1),\ldots ,f(n)\). As operações são compatíveis com essa identificação.

A todo elemento \( s \in S \) podemos associar uma função delta \( \delta _{s} \) centrada em \( \{ s \} \) definida como

\[ \delta _{s} (s ) = 1 \quad \text{ e } \quad \delta _{s} (t) = 0 \text{ se } t \neq s . \]

Quando \(S=\{ 1,\ldots ,n\} \), usaremos também a notação do delta de Kronecker, \(\delta _i(k)=\delta _{ik}\).

Se o conjunto \( S \) for finito, uma função \( f \in \mathbb {K}(S) \) poderá ser representada unicamente por uma combinação linear de funções delta:

\[ f = \sum _{ s\in S} f (s) \delta _{s} . \]

A igualdade pode ser verificada ponto a ponto. Reciprocamente, se \(f=\sum _{s\in S}a_s\delta _s\), avaliar ambos os lados em \(s\) fornece \(f(s)=a_s\).

Se \(S\) for infinito, essa representação vale apenas para as funções de suporte finito, pois combinações lineares contêm somente um número finito de parcelas. Algumas somas infinitas podem ser definidas quando o espaço possui uma topologia ou uma norma; voltaremos a esse tema na Seção 6.7.

Exemplo 2.8 (Funções Vetoriais)
vect]\(V^A\), espaço de funções vetoriais Seja \(V\) um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\) e \(A\) um conjunto arbitrário. Então, o conjunto \(V^A\) de todas as funções de \(A\) em \(V\) é um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\) quando definimos as operações pontualmente. Se \(f,g\in V^A\) e \(\lambda \in \mathbb {K}\), então
\[ (f+g)(a)=f(a)+g(a),\qquad (\lambda f)(a)=\lambda f(a),\quad a\in A. \]

Se \(A\) for finito, com \(n\) elementos, identificaremos \(V^A\) com \(V^n\) depois de escolher uma ordem em \(A\). Em particular, para \(V=\mathbb {K}\), recuperamos o espaço de coordenadas \(\mathbb {K}^n\) do Exemplo 2.6.

Exemplo 2.9 (Matrizes)

vect]\(\mathcal{M}_{m, n}(\mathbb {K})\), espaço das matrizes \( m \times n \) Denotaremos por \(\mathcal{M}_{m, n}(\mathbb {K})\) o conjunto das matrizes \(m\times n\) com entradas em \(\mathbb {K}\). A adição usual, \((a_{ij})+(b_{ij})=(a_{ij}+b_{ij})\), e a multiplicação por escalares, \(\lambda (a_{ij})=(\lambda a_{ij})\), fazem de \(\mathcal{M}_{m, n}(\mathbb {K})\) um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\).

Exemplo 2.10 (Vetores linha e coluna)
Pela convenção adotada neste livro,
\[ \mathbb {K}^n=\mathcal{M}_{n, 1}(\mathbb {K}) \]
é o espaço dos vetores coluna. Os vetores linha pertencem a \(\mathcal{M}_{1, n}(\mathbb {K})\). A transposta de um vetor coluna é um vetor linha, e vice-versa; os dois espaços são naturalmente isomorfos, mas não serão identificados.

Exemplo 2.11 (Polinômios)
vect]\(\mathbb {K}[x]\), polinômios em uma variável Seja \(\mathbb {K}[x]\) o conjunto dos polinômios em uma variável \(x\) com coeficientes em \(\mathbb {K}\). Um elemento típico é uma soma finita \(a_nx^n+\cdots +a_0\), com \(n\in \mathbb {N}\cup \{ 0\} \) e \(a_0,\ldots ,a_n\in \mathbb {K}\). A adição de polinômios e a multiplicação por escalares fazem de \(\mathbb {K}[x]\) um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\).

A análise fornece outros exemplos de espaços vetoriais.

Exemplo 2.12 (Sequências)

vect]\(\operatorname {Seq}(\mathbb {K})\), sequências

Uma sequência com valores em \(\mathbb {K}\) é uma função \(a:\mathbb {N}\to \mathbb {K}\); escrevemos usualmente \(a_n\coloneqq a(n)\). O conjunto \(\operatorname {Seq}(\mathbb {K})\) de todas as sequências infinitas com valores num corpo \( \mathbb {K}\) é um espaço vetorial com as operações definidas termo a termo:

\begin{align} (s_{n})+(t_{n}) & \coloneqq (s_{n}+t_{n})\quad \text{ e } \tag{2.1} \\ a (s_{n}) & \coloneqq (a s_{n}) \tag{2.2} \end{align}

Também denotaremos o espaço \(\operatorname {Seq}(\mathbb {K})\) como \(\mathbb {K}^{\infty }\) e veremos uma sequência como uma lista ordenada. Assim, veremos \((a_n)\) como a lista ordenada \((a_1,a_2,\ldots )\) e escreveremos

\[ \mathbb {K}^\infty =\operatorname {Seq}(\mathbb {K}) =\{ (a_1,a_2,\ldots )\, \mid \, a_i\in \mathbb {K}\text{ para todo }i\in \mathbb {N}\} , \]

com as operações definidas coordenada a coordenada.

Exemplo 2.13 (Funções Contínuas e Diferenciáveis)
vect]\(C (I)\), funções contínuas em \(I\) Seja \(I=[a,b]\) um intervalo fechado. Denotaremos por \(C(I)\) o espaço das funções reais contínuas em \(I\). Para \(k\geq 1\), denotaremos por \(C^k(I)\) o conjunto das funções \(f:I\to \mathbb {R}\) cujas derivadas \(f',\ldots ,f^{(k)}\) existem no interior \((a,b)\) e admitem extensões contínuas a \(I\). Equivalentemente, são as funções \(k\) vezes continuamente diferenciáveis até a fronteira, interpretando as derivadas nos extremos pelos limites laterais. Assim,
\[ C(I)\supseteq C^1(I)\supseteq C^2(I)\supseteq \cdots . \]
Esses conjuntos são espaços vetoriais sobre \(\mathbb {R}\) com as operações pontuais \((f+g)(x)=f(x)+g(x)\) e \((\lambda f)(x)=\lambda f(x)\).

Exemplo 2.14 (Funções integráveis)

vect]\( \mathcal{R}(B ) \), funções integráveis

Seja \(B=[a_1,b_1]\times \cdots \times [a_n,b_n]\subseteq \mathbb {R}^n\) um retângulo fechado. O conjunto \(\mathcal R(B)\) das funções reais Riemann-integráveis em \(B\) é um espaço vetorial sobre \(\mathbb {R}\), com as operações pontuais definidas como no Exemplo 2.13.

Observação 2.15
Geralmente, é muito conveniente, mas não totalmente consistente, denotar o elemento zero e a adição em \( \mathbb {K}\) e \( V \) pelos mesmos símbolos.

Apresentaremos a seguir dois exemplos nos quais uma notação diferente é preferível.

Exemplo 2.16
Seja \(L=\{ x\in \mathbb {R}\, \mid \, x\gt 0\} \). Consideramos a multiplicação usual como a “adição” de vetores e definimos a multiplicação de \(x\in L\) pelo escalar \(a\in \mathbb {R}\) como \(x^a\). As leis das potências verificam os axiomas da Definição 2.1, que nessa notação assumem uma forma pouco habitual:
  • o vetor zero em \( L \) é o elemento \(1\), ou seja, \(\vec0=1\).

  • a identidade \( 1\bm {x}= \bm {x}\) adquire a forma \( x^{1} = x\)

  • a identidade \( a (b\bm {x}) = (ab) \bm {x}\) adquire a forma \( (x^{b})^{a} = x^{ba}\)

  • a identidade \( (a+b) \bm {x}= a\bm {x}+b\bm {x}\) torna-se \(x^{a+b}=x^ax^b\).

Exemplo 2.17
vect]\( \overline{V} \) Seja \( V \) um espaço vetorial sobre o corpo dos números complexos \(\mathbb {C}\). Defina um novo espaço vetorial \( \overline{V} \) com o mesmo grupo aditivo \( V \), mas com uma multiplicação por escalar diferente:
\[ (a, \bm {x}) \mapsto \overline{a} \bm {x}, \]
onde \( \overline{a}\) denota o conjugado complexo de \( a \). Das fórmulas \( \overline{a+ b} = \overline{a}+\overline{b} \) e \( \overline{ab} = \overline{a} \overline{b} \) segue sem maiores dificuldades que \( \overline{V} \) é um espaço vetorial.

Exercício 2.1

Seja \(V\) um espaço vetorial sobre um corpo \(\mathbb {K}\). Mostre que:

  1. O vetor nulo \(\vec0\) é único.

  2. O vetor oposto \(-\bm {v}\) a cada vetor \(\bm {v}\in V\) é único.

  3. Prove que \(-1\cdot \bm {v}=-\bm {v}\) e conclua que \(-(-\bm {v})=\bm {v}\) para todo \(\bm {v}\in V\).

  4. Prove que \(\alpha \bm {v}=\vec0\) se, e somente se, \(\alpha =0\) ou \(\bm {v}=\vec0\).

  5. Prove que \(\alpha \bm {v}=\bm {v}\) se, e somente se, \(\alpha =1\) ou \(\bm {v}=\vec0\).

  6. Mostre que se \(\bm {x}+\bm {y}= \bm {z}+\bm {y}\) então \(\bm {x}= \bm {z}\).

  7. Mostre que o axioma de comutatividade da soma pode ser deduzido dos demais axiomas da definição de espaço vetorial.

Exercício 2.2

Determine se os seguintes conjuntos são espaços vetoriais sobre o corpo \(\mathbb {K}\) especificado em cada caso.

  1. \(\mathbb {R}^{3}\) sobre \(\mathbb {K}=\mathbb {R}\) com as operações

    \begin{align*} (x_{1},x_{2},x_{3})+(y_{1},y_{2},y_{3}) & =(x_{1}+y_{1},x_{2}+y_{2},x_{3}+y_{3})\\ \alpha \cdot (x_{1},x_{2},x_{3}) & =(\alpha \cdot x_{1},x_{2},x_{3}) \end{align*}
  2. O conjunto \(V=\{ (a,b)\in \mathbb {R}^{2}:a,b\gt 0\} \) sobre \(\mathbb {K}=\mathbb {R}\) com as operações

    \begin{align*} (a,b)+(c,d) & =(ac,bd)\\ \alpha \cdot (a,b) & =(a^{\alpha },b^{\alpha }),\; \alpha \in \mathbb {R}\end{align*}
  3. O conjunto \( \mathbb {Q}(\sqrt{2})\) dos elementos \(a+b\sqrt{2}\) com \(a,b\in \mathbb {Q}\) sobre \(\mathbb {K}=\mathbb {Q}\) com as operações:

    \begin{align*} (a+b\sqrt{2})+(c+d\sqrt{2}) & =(a+c)+(b+d)\sqrt{2}\\ \alpha \cdot (a+b\sqrt{2}) & =\alpha \cdot a+\alpha \cdot b\sqrt{2},\; \alpha \in \mathbb {Q}\end{align*}

Exercício 2.3

Mostre que \(\mathbb {N}\) pode receber uma estrutura de espaço vetorial sobre \(\mathbb {Q}\). (Dica: transporte as operações de \(\mathbb {Q}\) por uma bijeção \(\mathbb {N}\to \mathbb {Q}\).)

Exercício 2.4

Seja \(V\) um espaço vetorial. Use os axiomas de espaço vetorial para provar que se \(\bm {v}\in V\) e \(n \in \mathbb {N}\) então

\[ n\bm {v}=\underbrace{\bm {v}+\ldots +\bm {v}}_{n \text{ parcelas}}. \]

Exercício 2.5

Sejam \(\bm {u},\bm {v}\) vetores não nulos de \(V\). Prove que \(\bm {v}\) é múltiplo de \(\bm {u}\) se, e somente se, \(\bm {u}\) é múltiplo de \(\bm {v}\).

Exercício 2.6

Prove detalhadamente que o conjunto de funções \(\mathbb {K}(S)=\mathbb {K}^S\) é um espaço vetorial quando a adição e a multiplicação por escalares são definidas pontualmente:

  • \( (f+g) (s) \coloneqq f (s)+g (s) \) para todos os \( s \in S, \)

  • \( (af) (s) \coloneqq a f (s) \) para todos os \(a\in \mathbb {K}\) e \(s\in S\).

Exercício 2.7

Se \(S\) é um conjunto finito com \(n\) elementos, quantos elementos possui o espaço vetorial \(\mathbb {Z}_2^S\)?

Exercício 2.8

Suponha que \(\operatorname {char}(\mathbb {K})\neq 2\). Defina a média de dois vetores por \(\bm {u}\star \bm {v}=\frac12\bm {u}+\frac12\bm {v}\). Prove que \((\bm {u}\star \bm {v})\star \bm {w}=\bm {u}\star (\bm {v}\star \bm {w})\) se, e somente se, \(\bm {u}=\bm {w}\).

Exercício 2.9

Dados os espaços vetoriais \(V_1, V_2,\) considere o conjunto \(V=V_1 \times V_2\) (produto cartesiano de \(V_1\) por \(V_2\)), cujos elementos são os pares ordenados \(v=(v_1,v_2)\), com \(v_1 \in V_1\) e \(v_2 \in V_2\). Defina operações que tornem \(V\) um espaço vetorial. Verifique a validade de cada um dos axiomas.

Exercício 2.10

Em \(\mathbb {R}^2\) mantenhamos a definição de produto \(\alpha v\) de um número por um vetor mas modifiquemos, de três maneiras diferentes, a definição de soma \(u+v\) de vetores \(u=(x,y)\) e \(v=(x^{\prime }, y^{\prime })\). Em cada tentativa, dizer quais axiomas de espaço vetorial continuam válidos e quais são violados:

  1. \(u+v = (x+y^{\prime }, x^{\prime }+y)\),

  2. \(u+v = (xx^{\prime }, yy^{\prime })\),

  3. \(u+v = (3x+3x^{\prime }, 5x+5x^{\prime })\).

Exercício 2.11

Seja \(\mathbb {K}\) um corpo finito com \(q\) elementos. Quantos elementos possui o espaço vetorial \(\mathbb {K}^n\)?

2.2 Subespaços

Em muitas estruturas algébricas podemos reconhecer subconjuntos que herdam as operações da estrutura original. Os espaços vetoriais não são exceção. Fixemos um espaço vetorial \(V\) sobre \(\mathbb {K}\).

Definição 2.18 (Subespaço Vetorial)
Um subconjunto não vazio \( W \) de \(V\) é um subespaço vetorial de \(V\) se \( W \) for um espaço vetorial com as mesmas operações de adição de vetores e multiplicação escalar que \(V.\)

A proposição seguinte fornece um critério para reconhecer subespaços.

Proposição 2.19
Um subconjunto não vazio \(W\) de \(V\) é um subespaço vetorial se, e somente se, for fechado em relação à adição de vetores e à multiplicação por escalares de \(V\).

Demonstração

Se \(W\) é um subespaço, o fechamento decorre dos axiomas de espaço vetorial. Reciprocamente, suponha que \(W\) seja não vazio e fechado por soma e multiplicação por escalares. Escolha \(\bm {w}\in W\). Como \(\vec0=0\bm {w}\in W\) e \(-\bm {w}=(-1)\bm {w}\in W\), o vetor nulo e os opostos pertencem a \(W\). Todos os demais axiomas são herdados de \(V\); portanto, \(W\) é um espaço vetorial com as operações de \(V\).

Exemplo 2.20
O conjunto dos polinômios de grau menor ou igual a \(n\), juntamente com o polinômio nulo, é um subespaço de \(\mathbb {K}[x]\). Esse espaço será denotado por \(\mathbb {K}_n[x]\).

Exemplos 2.21
Os conjuntos \(C([a,b])\), \(C^k([a,b])\) e \(\mathcal R([a,b])\) são subespaços de \(\mathbb {R}^{[a,b]}\).

Exemplo 2.22

Vamos apresentar alguns exemplos de subespaços do espaço de sequências.

O conjunto \(c_0\) das sequências complexas que convergem para \(0\) é um espaço vetorial, assim como o conjunto \(\ell ^\infty \) das sequências complexas limitadas. Além disso, se \(p\geq 1\) é um número real, o conjunto \(\ell ^p\) das sequências complexas \((s_n)\) para as quais

\[ \sum _{n = 1}^{\infty } | s_{n} |^{p} \lt \infty \]

é um espaço vetorial com operações definidas componente a componente. O fechamento em relação à adição decorre da desigualdade de Minkowski:

\[ \left(\sum _{n = 1}^{\infty } | s_{n}+t_{n} |^{p}\right)^{1 / p} \leq \left(\sum _{n = 1}^{\infty } | s_{n} |^{p}\right)^{1 / p}+\left(\sum _{n = 1}^{\infty } | t_{n} |^{p}\right)^{1 / p} \]

Exemplo 2.23

O conjunto

\[ \left(\mathbb {K}^{\infty }\right)_0 = \{ (a_i)_{i\geq 1}\in \mathbb {K}^\infty \mid a_i\neq 0\text{ para apenas finitos índices }i\} \]

é um subespaço de \(\mathbb {K}^{\infty }\).

Exemplo 2.24 (Sistema Linear)

vect]solução de um sistema de equações lineares homogêneo Seja \(A\in \mathcal{M}_{m, n}(\mathbb {K})\). O conjunto das soluções \(X\in \mathbb {K}^n\) do sistema homogêneo \(AX=\vec0\) é um subespaço de \(\mathbb {K}^n\). De fato, se \(AX=AY=\vec0\) e \(\lambda \in \mathbb {K}\), então \(A(\lambda X+Y)=\lambda AX+AY=\vec0\).

Essa distributividade pode ser verificada diretamente nas entradas. Se \(B,C\in \mathcal{M}_{n, p}(\mathbb {K})\), então

\[ A (\lambda B+C) = \lambda (A B)+A C \]

para todo \(\lambda \in \mathbb {K}\); com efeito,

\begin{align*} [A (\lambda B+C)]_{ij} & = \sum _{k} A_{ik} (\lambda B+C)_{kj} \\ & = \sum _{k} (\lambda A_{i k} B_{kj}+A{}_{ik} C_{kj}) \\ & = \lambda \sum _{k} A_{ik} B_{kj}+\sum _{k} A{}_{ik} C_{kj} \\ & = \lambda (AB)_{ij}+(AC)_{ij} \\ & = [\lambda (AB)+AC]_{ij} . \end{align*}

Exemplo 2.25

vect]soluções de EDO’s

Considere o seguinte sistema de equações diferenciais lineares:

\begin{align} x_{1}’ & = a_{11} x_{1}+\cdots +a_{1 n} x_{n} \tag{2.3} \\ & \qquad \vdots \tag{2.4} \\ x_{n} ’ & = a_{n 1} x_{1}+\cdots +a_{n n} x_{n} \tag{2.5} \end{align}

com \(x_1,\ldots ,x_n\in C^1(I)\), onde \(I\) é um intervalo aberto em \(\mathbb {R}\), \(x_i'\) denota a derivada de \(x_i\) e \(a_{ij}\in \mathbb {R}\). A matriz \(A=(a_{ij})\in \mathcal M_{n,n}(\mathbb {R})\) é a matriz do sistema. Defina \(\bm {x}=(x_1,\ldots ,x_n)^{\mathrm{t}}\). Com essa notação, o sistema assume a forma

\[ \bm {x}'= A \bm {x}\text{ com } \bm {x}\in C^{1} (I)^{n} . \]

O conjunto de soluções é \(V=\{ \bm {x}\in C^1(I)^n\, \mid \, \bm {x}'=A\bm {x}\} \). A linearidade da derivação e da multiplicação por \(A\) mostra que \(V\) é um subespaço de \(C^1(I)^n\).

Uma coleção \(\mathcal S=\{ W_i\, \mid \, i\in I\} \) de subespaços de \(V\) permite construir novos subespaços de duas maneiras naturais.

A interseção \(\bigcap _{i\in I}W_i\) é um subespaço de \(V\), pois todas as condições do teste de subespaço são preservadas por interseções.

Se, para cada \(i,j\in I\), existir \(k\in I\) tal que \(W_i\cup W_j\subseteq W_k\), então \(\bigcup _{i\in I}W_i\) também é um subespaço: dois de seus vetores pertencem simultaneamente a algum \(W_k\), onde sua soma e seus múltiplos escalares permanecem.

Em geral, porém, a união de dois subespaços não é um subespaço. De fato, \(W_1\cup W_2\) é um subespaço se, e somente se, \(W_1\subseteq W_2\) ou \(W_2\subseteq W_1\). A verificação é proposta como exercício.

Teorema 2.26
Seja \(V\) um espaço vetorial sobre um corpo infinito \(\mathbb {K}\). Então \(V\) não pode ser a união de um número finito de subespaços próprios.

Demonstração

Suponha, por contradição, que \(V=W_1\cup \cdots \cup W_n\), com todos os \(W_i\) próprios, e escolha tal cobertura com \(n\) mínimo. Ela é irredundante; em particular, existe

\[ \bm {x}\in W_1\setminus \bigcup _{i=2}^nW_i. \]

Como \(W_1\neq V\), escolha também \(\bm {y}\in V\setminus W_1\). A reta afim \(L=\{ \bm {x}+\lambda \bm {y}\, \mid \, \lambda \in \mathbb {K}\} \) é infinita: se duas de suas expressões fossem iguais, teríamos \((\lambda -\mu )\bm {y}=\vec0\) e, portanto, \(\lambda =\mu \).

Como \(L\) está coberta pelos \(n\) subespaços, algum \(L\cap W_j\) é infinito. Escolha dois de seus pontos distintos, \(\bm {x}+\lambda \bm {y}\) e \(\bm {x}+\mu \bm {y}\). A diferença mostra que \((\lambda -\mu )\bm {y}\in W_j\) e, como \(\lambda \neq \mu \), temos \(\bm {y}\in W_j\). Subtraindo \(\lambda \bm {y}\) do primeiro ponto, obtemos \(\bm {x}\in W_j\). Se \(j=1\), isso contradiz \(\bm {y}\notin W_1\); se \(j\neq 1\), contradiz a escolha de \(\bm {x}\). Logo tal cobertura não existe.

Exemplo 2.27
Se \( \mathbb {K}\) é finito, então o teorema anterior é falso em geral. Por exemplo, seja \(V = (\mathbb {F}_{2})^{2}.\) Então \(V = W_{1} \cup W_{2} \cup W_{3} \), em que \( W_{1} = \{ (0,0), (1,0)\} , W_{2} = \{ (0,0), (0,1)\} \) e \( W_{3 } = \{ (0,0), (1,1)\} \).

Definição 2.28 (Subespaço Gerado)
Dado \(S\subseteq V\), o subespaço gerado por \(S\) é o menor subespaço de \(V\) que contém \(S\). Explicitamente,
\[ \langle S\rangle \coloneqq \bigcap \{ W\, \mid \, W\text{ é subespaço de }V \text{ e }S\subseteq W\} . \]

Denotaremos por \(\mathscr {P}(V)\) o conjunto dos subconjuntos de \(V\) e por \(\mathcal{S}\left(V\right)\) o conjunto de seus subespaços. A aplicação \(\langle \, \cdot \, \rangle :\mathscr {P}(V)\to \mathcal{S}\left(V\right)\) envia \(S\) em \(\langle S\rangle \). Ela é sobrejetiva, pois sua restrição a \(\mathcal{S}\left(V\right)\) é a identidade.

Definição 2.29 (Combinação Linear)
Seja \(B=\{ \bm {v}_i\, \mid \, i\in I\} \subseteq V\). Um vetor \(\bm {v}\in V\) é uma combinação linear dos vetores de \(B\) se existe uma família de escalares \((c_i)_{i\in I}\), com apenas um número finito de termos não nulos, tal que
\[ \vec{v} = \sum _{i\in I} c_{i} \vec{v}_{i}. \]

Observação 2.30

Se escolhermos todos \( c_{i} = 0 \), obteremos

\[ \vec0 = \sum c_{i} \bm {v}_{i}. \]

Esta é a combinação linear trivial dos vetores em \( B \). Qualquer outra combinação linear é não trivial.

Se \(B=\emptyset \), a única combinação linear é a soma vazia, cujo valor é, por convenção, o vetor nulo de \(V\).

Teorema 2.31
A função \( \langle \ \cdot \ \rangle : \mathscr {P}(V) \to \mathcal{S}\left(V\right) \) possui as seguintes propriedades
  1. Para \( S \in \mathscr {P}(V), \langle S\rangle \) é o subespaço de \(V\) de todas as combinações lineares finitas de vetores de \(S\). Assim,

    \[ \langle S\rangle = \left\{ \sum _{i = 1}^{n} x_{i} \bm {x}_{ i} \, \mid \, x_{i} \in \mathbb {K}, \bm {x}_{i} \in S, n \geq 0 \right\} \]
  2. Se \( S_{1} \subseteq S_{2} \), \( \langle S_{1}\rangle \subseteq \langle S_{2}\rangle \).

  3. Se \( \bm {x}\in \langle S\rangle \), existe um subconjunto finito \( S '\subseteq S \) de modo que \( \bm {x}\in \langle S '\rangle \).

  4. \( S \subseteq \langle S\rangle \) para todos os \( S \in \mathscr {P}(V) \).

  5. Para cada \( S \in \mathscr {P}(V), \langle \langle S\rangle \rangle = \langle S\rangle \).

  6. Se \( \bm {y}\in \langle S \cup \{ \bm {x}\} \rangle \) e \( \bm {y}\not\in \langle S\rangle \), então \( \bm {x}\in \langle S \cup \{ \bm {y}\} \rangle \). Aqui \( \bm {x}, \bm {y}\in V\) e \( S \in \mathscr {P}(V).\)

Demonstração

a Seja \(L\) o conjunto das combinações lineares finitas de vetores de \(S\). Como \(\langle S\rangle \) é um subespaço que contém \(S\), temos \(L\subseteq \langle S\rangle \). Por outro lado, \(L\) é um subespaço que contém \(S\); pela minimalidade de \(\langle S\rangle \), segue que \(\langle S\rangle \subseteq L\).

b Se \(S_1\subseteq S_2\), então \(\langle S_2\rangle \) é um subespaço que contém \(S_1\). Pela minimalidade de \(\langle S_1\rangle \), \(\langle S_1\rangle \subseteq \langle S_2\rangle \).

c Pelo item a, cada vetor de \(\langle S\rangle \) é uma combinação linear de um número finito de vetores de \(S\); basta reunir esses vetores em \(S'\).

d Cada \(\bm {x}\in S\) é a combinação linear \(1\bm {x}\), logo \(S\subseteq \langle S\rangle \).

e O conjunto \(\langle S\rangle \) já é subespaço; portanto, tomar seu gerado não o altera.

f Se \(\bm {y}\in \langle S\cup \{ \bm {x}\} \rangle \setminus \langle S\rangle \), podemos escrever

\[ \bm {y}=a\bm {x}+a_1\bm {x}_1+\cdots +a_n\bm {x}_n, \qquad \bm {x}_1,\ldots ,\bm {x}_n\in S. \]

O coeficiente \(a\) não pode ser nulo, pois isso colocaria \(\bm {y}\) em \(\langle S\rangle \). Assim,

\[ \bm {x}=a^{-1}\bm {y}-a^{-1}a_1\bm {x}_1-\cdots -a^{-1}a_n\bm {x}_n \in \langle S\cup \{ \bm {y}\} \rangle . \]

Exercício 2.12

Seja \(W\) um subconjunto não vazio de \(V\). Prove que, se \(W\) for fechado em relação à adição e à multiplicação por escalares, então \(W\) é um subespaço de \(V\).

Exercício 2.13

Para os conjuntos seguintes, determine se os conjuntos dados são espaços vetoriais reais, se a adição e a multiplicação forem as usuais. Para aqueles que não forem diga quais axiomas de espaços vetoriais não são satisfeitos.

  1. O conjunto dos polinômios de grau menor ou igual a \(n\)

  2. O conjunto de todas as funções reais tais que \(f(0)=f(1)\)

  3. O conjunto das funções tais que \(f(0)=1+f(1)\)

  4. O conjunto das funções reais crescentes.

  5. O conjunto das funções reais pares.

  6. O conjunto das funções reais ímpares.

  7. O conjunto das funções contínuas em \([0,1]\) tais que \(\displaystyle \int _0^1f(x)dx=0\)

  8. O conjunto das funções contínuas em \([0,1]\) tais que \(\displaystyle \int _0^1f(x)dx\geq 0\)

  9. O conjunto dos vetores \((x,y,z)\) em \(\mathbb {R}^3\) tais que \(x=0\) ou \(y=0\)

  10. O conjunto das matrizes \(2\times 2\) cujo traço é zero

  11. O conjunto das matrizes \(2\times 2\) cujo determinante é zero

  12. O conjunto das matrizes \(2\times 2\) simétricas, isto é, tais que \(A=A^{\mathrm{t}}\).

  13. O conjunto dos vetores \((x,y,z)\) que satisfaz a equação linear \(a_1x+a_2y+a_3z=0\)

Exercício 2.14

Considere o subconjunto \(S\) de \(C^n(\mathbb {R})\) formado pelas funções que são soluções da equação diferencial linear homogênea de ordem \(n\) com coeficientes constantes

\[ y^{(n)}(t)+a_{n-1}y^{(n-1)}(t)+\cdots +a_{1}y'(t)+a_{0}y(t)=0 \]

onde \(a_{0},a_{1},\dots ,a_{n-1}\in \mathbb {R}\). Mostre que \(S\) é um subespaço vetorial de \(C^n(\mathbb {R})\).

Exercício 2.15

Seja \(\mathcal{F}(X,\mathbb {K})\) o espaço das funções, onde \(\mathbb {K}\) é um corpo. No caso particular em que \(X=\mathbb {N}\) o espaço é denominado espaço de sequências e vamos denotá-lo por \(\mathbb {K}^{\mathbb {N}}\). Um elemento \(f\in \mathbb {K}^{\mathbb {N}}\) é uma função \(f:\mathbb {N}\to \mathbb {K}\) dada por \(n\mapsto x_{n}\in \mathbb {K}\) e será denotado por \(f=(x_{n})_{n\in \mathbb {N}}.\) Quais dos seguintes conjuntos são subespaços de \(\mathbb {K}^{\mathbb {N}}\) ?

  1. O conjunto das sequências com apenas um número finito de coordenadas diferentes de zero.

  2. Nenhuma coordenada igual a \(1\).

    Nos próximos itens \(\mathbb {K}=\mathbb {R}\)

  3. O conjunto das sequências de Cauchy, isto é, das sequências tais que, dado \(\epsilon \gt 0\) existe \(N\gt 0\) tal que \(|x_{n}-x_{m}|\lt \epsilon \) para \(n,m\gt N\).

  4. As sequências tais que \(\sum _{n=1}^{\infty }|x_{n}|\lt \infty \).

  5. As sequências limitadas, isto é, as sequências \((x_n)_{n\in \mathbb {N}}\) para as quais existe \(M\gt 0\) tal que \(\left|x_{n}\right|\leq M\) para todo \(n\in \mathbb {N}\).

Exercício 2.16

Seja \(S\) um subespaço de \(V\) e seja \(v\in V\). O conjunto \(v+S=\{ v+s\, \mid \, s\in S\} \) é um subespaço afim de \(V\).

  1. Quando um subespaço afim de \(V\) é subespaço de \(V\)?

  2. Mostre que dois subespaços afins \(x+S\) e \(y+S\) ou são iguais ou são disjuntos.

Exercício 2.17

Prove que

  1. Se \( S_{1} \subseteq S_{2} \), \( \langle S_{1}\rangle \subseteq \langle S_{2}\rangle \).

  2. Se \( \bm {x}\in \langle S\rangle \), existe um subconjunto finito \( S '\subseteq S \) de modo que \( \bm {x}\in \langle S '\rangle \).

  3. \( S \subseteq \langle S\rangle \) para todos os \( S \in \mathscr {P}(V) \).

  4. Para cada \( S \in \mathscr {P}(V), \langle \langle S\rangle \rangle = \langle S\rangle \).

Exercício 2.18

Seja \(X\subseteq V\) um subconjunto de um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\) \(V\). Mostre que \(\left\langle X\right\rangle =\{ \sum _{v\in F}\alpha _{v}\cdot v:F\subseteq X\text{ é um subconjunto finito e }\alpha _{v}\in \mathbb {K},\, \forall v\in F\} \).

Exercício 2.19

Dê um contraexemplo que mostre que a união de subespaços não é necessariamente um subespaço.

Exercício 2.20

Mostre que, se \(W_1\) e \(W_2\) são subespaços de \(V\), então \(W_1\cup W_2\) é um subespaço se, e somente se, \(W_1\subseteq W_2\) ou \(W_2\subseteq W_1\).

2.3 Bases e Dimensão

Definição 2.32 (Dependência e Independência Linear)
Suponha que \(V\) seja um espaço vetorial arbitrário sobre um corpo \(\mathbb {K}\) e seja \( S \) um subconjunto de \(V.\)
  • \(S\) é dito linearmente dependente sobre \(\mathbb {K}\) se existirem vetores distintos \(\bm {x}_1,\ldots ,\bm {x}_n\in S\) e escalares \(a_1,\ldots ,a_n\in \mathbb {K}\), não todos nulos, tais que \(a_1\bm {x}_1+\cdots +a_n\bm {x}_n=\vec0\).

  • \(S\) é dito linearmente independente (sobre \(\mathbb {K}\)) se \( S \) não for linearmente dependente.

Portanto, se \(S\) for linearmente independente, toda relação \(\sum _{i=1}^n a_i\bm {x}_i=\vec0\), com \(\bm {x}_1,\ldots ,\bm {x}_n\) distintos em \(S\), terá todos os coeficientes nulos.

Pela definição, o conjunto vazio é linearmente independente por vacuidade. Omitiremos a expressão “sobre \(\mathbb {K}\)” quando o corpo estiver claro no contexto. Se houver mais de um corpo envolvido, porém, a dependência pode mudar, como mostra o exemplo seguinte.

Exemplo 2.33
Considere \(V=\mathbb {R}\) como espaço vetorial tanto sobre \(\mathbb {Q}\) quanto sobre \(\mathbb {R}\). O conjunto \(S=\{ 1,\sqrt2\} \) é linearmente independente sobre \(\mathbb {Q}\), pois \(a+b\sqrt2=0\), com \(a,b\in \mathbb {Q}\), implica \(a=b=0\). Sobre \(\mathbb {R}\), porém, ele é linearmente dependente, pois \(\sqrt2\cdot 1-1\cdot \sqrt2=0\).

Definição 2.34 (Base)
Um subconjunto \( S \) de \(V\) é dito base de \(V\) se \( S \) for linearmente independente sobre \(\mathbb {K}\) e \( \langle S\rangle = V.\)

Se \(S\) é uma base de \(V\), todo vetor não nulo \(\bm {x}\in V\) possui uma expressão única \(\bm {x}=x_1\bm {x}_1+\cdots +x_n\bm {x}_n\), na qual \(\bm {x}_1,\ldots ,\bm {x}_n\) são elementos distintos de \(S\) e os coeficientes \(x_1,\ldots ,x_n\) são não nulos.

Notação 2.35
As bases serão denotadas por \(\underline{\textsc{B}}, \underline{\textsc{x}},\ldots \).

Vejamos alguns exemplos de bases.

Exemplo 2.36
O conjunto vazio \( \emptyset \) é uma base para o subespaço nulo \((0)\) de qualquer espaço vetorial \(V.\) Se considerarmos um corpo \(\mathbb {K}\) como um espaço vetorial sobre si mesmo, qualquer elemento diferente de zero \( \bm {x}\) de \(\mathbb {K}\) é uma base de \(\mathbb {K}\).

Exemplo 2.37
Seja \(V=\mathbb {K}^n\). Para \(i=1,\ldots ,n\), denote por \(\bm {e}_i\) o vetor coluna cuja \(i\)-ésima entrada é \(1\) e cujas demais entradas são nulas. Como
\[ \begin{bmatrix} x_1 \\ \vdots \\ x_n \end{bmatrix} =x_1\bm {e}_1+\cdots +x_n\bm {e}_n, \]
o conjunto \(\underline{\textsc{B}}=\{ \bm {e}_1,\ldots ,\bm {e}_n\} \) é uma base de \(\mathbb {K}^n\), denominada base canônica.

Exemplo 2.38

Seja \(V=(\mathbb {K}^\infty )_0\). Para cada \(i\in \mathbb {N}\), denote por \(\bm {e}_i\) a sequência cuja \(i\)-ésima entrada é \(1\) e cujas demais entradas são nulas. Todo \(\bm {x}\in (\mathbb {K}^\infty )_0\) tem a forma

\[ \bm {x}=(x_1,\ldots ,x_n,0,0,\ldots ) =x_1\bm {e}_1+\cdots +x_n\bm {e}_n \]

para algum \(n\). Logo \(\underline{\textsc{B}}=\{ \bm {e}_1,\bm {e}_2,\ldots \} \) é a base canônica de \((\mathbb {K}^\infty )_0\).

Exemplo 2.39
Seja \(V=\mathcal{M}_{m, n}(\mathbb {K})\). Para \(1\leq i\leq m\) e \(1\leq j\leq n\), denote por \(E_{ij}\) a matriz cuja entrada \((i,j)\) é \(1\) e cujas demais entradas são nulas. Como \((a_{ij})=\sum _{i=1}^m\sum _{j=1}^n a_{ij}E_{ij}\), o conjunto \(\underline{\textsc{B}}=\{ E_{ij}\, \mid \, 1\leq i\leq m,\ 1\leq j\leq n\} \) é uma base de \(V\). Seus elementos são as unidades matriciais.

Exemplo 2.40
Seja \(V = \mathbb {K}[x] \). Seja \( \underline{\textsc{B}}\) o conjunto dos monômios mônicos em \(x\), assim, \( \underline{\textsc{B}}= \{ 1, x, x^{2}, \ldots \} \) e é uma base de \(\mathbb {K}[x]\).

Exemplo 2.41

O conjunto dos números reais é um espaço vetorial sobre o corpo dos números racionais.

Como seria uma base desse espaço? Não há uma descrição elementar. Como \(\mathbb {Q}\) é enumerável, o subespaço de \(\mathbb {R}\) gerado por qualquer subconjunto enumerável também é enumerável. Como \(\mathbb {R}\) não é enumerável, nenhuma base de \(\mathbb {R}\) sobre \(\mathbb {Q}\) pode ser enumerável. O teorema seguinte garante a existência de tal base, mas não a constrói explicitamente.

Leitura opcional: bases em dimensão infinita.

Os resultados a seguir usam o Lema de Zorn e aritmética de cardinais. Em uma primeira leitura voltada a espaços de dimensão finita, esta passagem pode ser omitida.

Todo espaço vetorial possui uma base, como afirma o teorema seguinte:

Teorema 2.42 (Base)
Todo espaço vetorial possui uma base.

De fato, temos um resultado ligeiramente mais forte: qualquer subconjunto linearmente independente \( S \) de \(V\) pode ser expandido para uma base. É esse fato que provaremos.

Teorema 2.43 (Extensão)
Seja \(V\) um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\) e suponha que \( S \) seja um subconjunto linearmente independente de \(V.\) Então, existe uma base \( \underline{\textsc{B}}\) de \(V\) tal que \( \underline{\textsc{B}}\supseteq S.\)

Demonstração

Denotaremos por \(\mathcal{I}\) o conjunto de todos os subconjuntos linearmente independentes de \(V\) que contêm \(S\):

\[ \mathcal{I} = \left\{ A \in \mathscr {P}(V) \, \mid \, A \supseteq S \text{ e }A\text{ é linearmente independente sobre } \mathbb {K}\right\} . \]

Como \(S\in \mathcal I\), temos \(\mathcal I\neq \emptyset \). Ordenamos \(\mathcal I\) por inclusão. Assim, para \(A_1,A_2\in \mathcal I\),

\[ A_{1} \leq A_{2} \text{ se, e somente se, } A_{1} \subseteq A_{2}. \]

Dessa forma \( (\mathcal{I}, \ \subseteq ) \) é um conjunto parcialmente ordenado.

Seja \(\mathcal T=\{ A_i\, \mid \, i\in I\} \) uma cadeia em \(\mathcal I\) e defina \(A=\bigcup _{i\in I}A_i\). Temos \(S\subseteq A\) e \(A_i\subseteq A\) para todo \(i\). Se \(A\) fosse linearmente dependente, uma relação não trivial envolveria apenas um subconjunto finito de \(A\). Como \(\mathcal T\) é totalmente ordenada, esse subconjunto finito estaria contido em algum \(A_{i_0}\), contradizendo a independência linear de \(A_{i_0}\). Portanto, \(A\in \mathcal I\) e \(A\) é um limitante superior de \(\mathcal T\).

O Lema de Zorn fornece um elemento maximal \(\underline{\textsc{B}}\in \mathcal I\). Esse conjunto é linearmente independente e contém \(S\). Se \(\langle \underline{\textsc{B}}\rangle \neq V\), existiria \(\bm {x}\in V\setminus \langle \underline{\textsc{B}}\rangle \); então \(\underline{\textsc{B}}\cup \{ \bm {x}\} \) ainda seria linearmente independente, contrariando a maximalidade de \(\underline{\textsc{B}}\). Logo \(\langle \underline{\textsc{B}}\rangle =V\), e \(\underline{\textsc{B}}\) é a base desejada.

do Teorema 2.42

Se \(V=\{ \vec0\} \), então \(\emptyset \) é uma base de \(V\). Suponha agora \(V\neq \{ \vec0\} \) e escolha \(\bm {v}\neq \vec0\). O conjunto \(\{ \bm {v}\} \) é linearmente independente e, pelo Teorema 2.43, pode ser completado a uma base de \(V\).

A demonstração tem uma limitação importante: o Lema de Zorn garante a existência de uma base, mas em geral não fornece um procedimento para construí-la. Em muitos espaços de dimensão infinita, essa base de Hamel não admite uma descrição explícita simples.

Exemplo 2.44
Uma base para o espaço vetorial \( C^{k} (I) \) é não enumerável e não possui descrições simples. No entanto, como \( \mathbb {R}[x] \subseteq C^{k} (I) \), o Teorema 2.43 garante que existe uma base de \( C^{k} (I) \) que contém os monômios \(1, x, x^{2}, \ldots .\)

O Teorema 2.43 afirma que qualquer subconjunto linearmente independente de \(V\) pode ser estendido a uma base. O resultado complementar diz que todo conjunto gerador contém uma base.

Teorema 2.45 (Redução)
Seja \(V\) um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\) e suponha que \(V = \langle S\rangle \). Então \( S \) contém uma base de \(V.\)

Demonstração

Se \( S = \emptyset \) ou \( \{ \vec0\} \), então \(V = (0)\). Nesse caso, \( \emptyset \) é uma base de \(V\) contida em \(S\). Portanto, podemos supor que \( S \) contém um vetor diferente de zero \( \bm {x}\).

Seja \( \mathcal{I} = \{ A \subseteq S \, \mid \, A \) linearmente independente sobre \( \mathbb {K}\} \). Claramente, \( \{ \bm {x}\} \in \mathcal{I} \). Ordenaremos parcialmente \( \mathcal{I} \) por inclusão.

Se \( \mathcal{T}= \{ A_{i} \, \mid \, i \in I \} \) é um subconjunto totalmente ordenado de \( \mathcal{I}, \) então \( \displaystyle \bigcup _{i \in I} A_{i} \) é um limite superior para \(\mathcal{T}\) em \( \mathcal{I}\).

Portanto, \( (\mathcal{I}, \subseteq ) \) é indutivo. Aplicando o Lema de Zorn temos que \( \mathcal{I} \) possui um elemento maximal \(\underline{\textsc{B}}\).

Afirmamos que \(\underline{\textsc{B}}\) é uma base de \(V\). Já sabemos que \(\underline{\textsc{B}}\subseteq S\) e que \(\underline{\textsc{B}}\) é linearmente independente. Se \(\langle \underline{\textsc{B}}\rangle \neq V=\langle S\rangle \), então \(S\not\subseteq \langle \underline{\textsc{B}}\rangle \); logo existe \(\bm {y}\in S\setminus \langle \underline{\textsc{B}}\rangle \). Nesse caso, \(\underline{\textsc{B}}\cup \{ \bm {y}\} \in \mathcal I\) seria estritamente maior que \(\underline{\textsc{B}}\), em contradição com sua maximalidade. Portanto, \(\langle \underline{\textsc{B}}\rangle =V\).

Um espaço vetorial costuma possuir muitas bases. Por exemplo, se \(\lambda \in \mathbb {K}\) e \(\lambda \neq -1\), então

\[ \{ \bm {e}_1,\ldots ,\bm {e}_{n-1},\bm {e}_n+\lambda \bm {e}_1\} \]

é uma base de \(\mathbb {K}^n\). O que todas as bases de um mesmo espaço têm em comum é sua cardinalidade, como mostraremos a seguir.

Lema 2.46 (Troca de Steinitz)
Sejam \(\bm {v}_1,\ldots ,\bm {v}_m\) vetores linearmente independentes em \(V\) e sejam \(\bm {w}_1,\ldots ,\bm {w}_n\) vetores que geram \(V\). Então \(m\leq n\) e, possivelmente após reordenar os vetores \(\bm {w}_i\), o conjunto \(\{ \bm {v}_1, \ldots , \bm {v}_m, \bm {w}_{ m+1}, \ldots , \bm {w}_n\} \) gera \(V\).

Demonstração

Desejamos mostrar que \(m \le n\) e que, após rearranjar os \(\bm {w}_j\) se necessário, o conjunto \(\{ \bm {v}_1, \dotsc , \bm {v}_m, \bm {w}_{m+1}, \dotsc , \bm {w}_n\} \) gera \(V\). Vamos proceder por indução em \(m\).

Para o caso base, suponha que \(m\) seja zero. Nesse caso, a afirmação é verdadeira porque não há vetores \(\bm {v}_i\), e o conjunto \(\{ \bm {w}_1, \dotsc , \bm {w}_n\} \) gera \(V\) por hipótese.

Para o passo indutivo, assuma que a proposição é verdadeira para \(m-1\). Pela hipótese de indução, podemos reorganizar os \(\bm {w}_i\) de modo que \(\{ \bm {v}_1,\ldots , \bm {v}_{m-1},\bm {w}_{m},\ldots ,\bm {w}_n\} \) gere \(V\). Como \(\bm {v}_{m}\in V\), existem coeficientes \(a_1,\ldots ,a_n\) tais que

\[ \bm {v}_{m}=\sum _{j=1}^{m-1} a_j \bm {v}_j+\sum _{j=m}^n a_j \bm {w}_j. \]

Pelo menos um dos \(a_{m},\ldots ,a_n\) deve ser diferente de zero, pois, caso contrário, essa igualdade contradiria a independência linear de \(\{ \bm {v}_1,\ldots ,\bm {v}_{m}\} \); portanto, \(m \le n\). Reordenando os vetores \(\bm {w}_m,\ldots ,\bm {w}_n\) se necessário, podemos assumir que \(a_{m}\) é não nulo. Portanto,

\[ \bm {w}_{m}= \frac{1}{a_{m}}\left(\bm {v}_{m} - \sum _{j=1}^{m-1} a_j \bm {v}_j - \sum _{j=m+1}^n a_j \bm {w}_j\right). \]

Em outras palavras, \(\bm {w}_{m}\) está no espaço gerado por \(\{ \bm {v}_1,\ldots , \bm {v}_{m},\bm {w}_{m+1},\ldots ,\bm {w}_n\} \). Como esse espaço contém o conjunto que, pela hipótese de indução, gera \(V\), ele coincide com \(V\).

O lema contém duas informações. Primeiro, um conjunto finito linearmente independente não pode ter mais elementos que um conjunto gerador finito. Segundo, parte do conjunto gerador pode substituir, uma a uma, as direções introduzidas pelo conjunto independente, sem perder a propriedade de gerar \(V\).

O resultado seguinte justifica a definição da dimensão de um espaço vetorial.

Teorema 2.47 (da Invariância da Dimensão)
Seja \(V\) um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\) e suponha que \( \underline{\textsc{B}}_{1} \) e \( \underline{\textsc{B}}_{2} \) sejam duas bases de \(V.\) Então \( \left\lvert \underline{\textsc{B}}_{1} \right\rvert = \left\lvert \underline{\textsc{B}}_{2} \right\rvert .\)

Demonstração

Dividimos essa prova em dois casos.

Caso 1: suponha que \(V\) tenha uma base \( \underline{\textsc{B}}_{1} \) finita.

Suponha que \(\underline{\textsc{B}}_1=\{ \bm {x}_1,\ldots ,\bm {x}_n\} \). Se \(\underline{\textsc{B}}_2\) for finita, o Lema de Steinitz, aplicado nos dois sentidos, fornece \(\left\lvert \underline{\textsc{B}}_1\right\rvert =\left\lvert \underline{\textsc{B}}_2\right\rvert \). Se \(\underline{\textsc{B}}_2\) fosse infinita, conteria um subconjunto linearmente independente com \(n+1\) elementos, o que também contradiria o Lema de Steinitz, pois \(\underline{\textsc{B}}_1\) gera \(V\).

Caso 2: suponha que nenhuma base de \(V\) seja finita.

Nesse caso, \(\underline{\textsc{B}}_1\) e \(\underline{\textsc{B}}_2\) são conjuntos infinitos. Para cada \(\bm {y}\in \underline{\textsc{B}}_2\), seja \(I_{\bm {y}}\subseteq \underline{\textsc{B}}_1\) o suporte finito da expressão de \(\bm {y}\) na base \(\underline{\textsc{B}}_1\). Como \(\underline{\textsc{B}}_2\) gera \(V\), a união desses suportes gera \(V\); sendo um subconjunto de \(\underline{\textsc{B}}_1\), ela deve ser igual a \(\underline{\textsc{B}}_1\). Portanto,

\[ \left\lvert \underline{\textsc{B}}_1\right\rvert \leq \left\lvert \underline{\textsc{B}}_2\right\rvert \cdot \aleph _0=\left\lvert \underline{\textsc{B}}_2\right\rvert . \]

Invertendo os papéis de \(\underline{\textsc{B}}_1\) e \(\underline{\textsc{B}}_2\), obtemos a desigualdade contrária. Pelo teorema de Cantor–Schröder–Bernstein, \(\left\lvert \underline{\textsc{B}}_1\right\rvert =\left\lvert \underline{\textsc{B}}_2\right\rvert \).

Definição 2.48 (Dimensão)
A cardinalidade comum das bases de \(V\) é denominada dimensão de \(V\) e denotada por \(\dim V\). Para explicitar o corpo de escalares, escreveremos \(\dim _{\mathbb {K}}V\). Assim, \(\dim V=\left\lvert \underline{\textsc{B}}\right\rvert \) para qualquer base \(\underline{\textsc{B}}\) de \(V\).

Retomemos alguns exemplos. No Exemplo 2.33, \(\dim _{\mathbb {R}}\mathbb {R}=1\) e \(\dim _{\mathbb {Q}}\mathbb {R}=\left\lvert \mathbb {R}\right\rvert \). No Exemplo 2.36, \(\dim _{\mathbb {K}}\{ \vec0\} =0\). Pelos Exemplos 2.37, 2.39 e 2.40, temos, respectivamente, \(\dim \mathbb {K}^n=n\), \(\dim \mathcal{M}_{m, n}(\mathbb {K})=mn\) e \(\dim \mathbb {K}[x]=\left\lvert \mathbb {N}\right\rvert \).

Se a dimensão de um espaço vetorial \(V\) for infinita, como nos Exemplos 2.33 e 2.40, em geral não faremos nenhuma tentativa de distinguir qual a cardinalidade de \( \dim V.\) Em vez disso, escreveremos simplesmente \( \dim V = \infty \). Se \(V\) tiver uma base finita \( \{ \bm {x}_{1}, \ldots , \bm {x}_{n} \} , \) diremos que \(V\) é um espaço vetorial de dimensão finita e escreveremos \( \dim V \lt \infty \), ou, mais precisamente, \( \dim V = n \lt \infty \). Por exemplo, \( \dim _{\mathbb {R}} C^{k} (I) = \infty \), enquanto \( \dim _{\mathbb {R}} \mathbb {R}^{n} = n \lt \infty \). Quando dimensões infinitas participarem de identidades de cardinalidade, porém, \(\dim V\) voltará a denotar o cardinal definido acima; a escrita \(\infty \) será apenas uma abreviação qualitativa para dimensão infinita.

Teorema 2.49
Seja \(V\) um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\).
  1. Se \( W \) for um subespaço de \(V\), então \( \dim W \leq \dim V.\)

  2. Se \(V\) for de dimensão finita e \( W \) é um subespaço de \(V\) tal que \( \dim W = \dim V\), \( W = V.\)

Demonstração

Se \(\underline{\textsc{B}}_W\) é uma base de \(W\), o Teorema 2.43 permite estendê-la a uma base \(\underline{\textsc{B}}_V\) de \(V\). Logo \(\dim W=\left\lvert \underline{\textsc{B}}_W\right\rvert \leq \left\lvert \underline{\textsc{B}}_V\right\rvert =\dim V\), provando a. Se \(V\) tem dimensão finita e essas dimensões são iguais, a extensão não pode acrescentar vetores; portanto, \(\underline{\textsc{B}}_W=\underline{\textsc{B}}_V\) e \(W=V\), o que prova b.

Se \(V\) não é de dimensão finita, então b é falso em geral. Um exemplo simples ilustra esse ponto.

Exemplo 2.50
Seja \(V=\mathbb {K}[x]\) e seja \(W\) o subespaço dos polinômios pares. Então \(\{ 1,x^2,x^4,\ldots \} \) é uma base de \(W\), enquanto \(\{ 1,x,x^2,\ldots \} \) é uma base de \(V\). Ambas são enumeráveis, de modo que \(\dim V=\dim W\), embora \(W\neq V\).

Exercício 2.21

Suponha que \(S\) seja finito. Exiba uma base para o espaço de funções \(\mathbb {K}(S)=\mathbb {K}^S\).

Exercício 2.22

Dado um subespaço \(L\subseteq V\), prove que, se \(\dim L=\dim V\lt \infty \), então \(L=V\).

Exercício 2.23
  1. Prove que os únicos subespaços de \(\mathbb {R}\) são o próprio \(\mathbb {R}\) e o subespaço nulo.

  2. Prove que todos os subespaços de \(\mathbb {R}^2\) são o próprio \(\mathbb {R}^2\), o subespaço nulo ou o subespaço constituído pelos múltiplos de um vetor não nulo fixo de \(\mathbb {R}^2\).

  3. Quais são todos os subespaços de \(\mathbb {R}^3\)?

Exercício 2.24

Seja \(L\) um espaço \(n\)-dimensional sobre um corpo finito com \(q\) elementos.

  1. Calcule o número de subespaços \(k\)-dimensionais de \(L\), para \(1\leq k\leq n\).

  2. Calcule o número de pares de subespaços \(L_1\) e \(L_2\) com \(\dim L_1\), \(\dim L_2\) e \(\dim (L_1\cap L_2)\) fixos. Verifique que, quando \(q\to \infty \), a razão entre o número de pares em posição geral e o número total de pares com \(\dim L_1\) e \(\dim L_2\) fixadas tende a \(1\).

Exercício 2.25

Seja \(X\) um subconjunto de um espaço vetorial \(V\) sobre \(\mathbb {K}\). Mostre que

\[ \langle X\rangle =\left\{ \sum _{v\in F}\alpha _vv: F\subseteq X\text{ é finito e }\alpha _v\in \mathbb {K}\text{ para todo }v\in F\right\} . \]

Exercício 2.26

Seja \(\underline{\textsc{B}}\) um subconjunto de um espaço vetorial \(V\). Mostre que \(\underline{\textsc{B}}\) é linearmente dependente se, e somente se, existir \(v\in \underline{\textsc{B}}\) que pode ser escrito como combinação linear dos elementos de \(\underline{\textsc{B}}\setminus \{ v\} \).

Exercício 2.27

Se \(\underline{\textsc{e}}=\{ \bm {e}_i\} _{i\in I}\) é uma base de \(V\) e \(\underline{\textsc{f}}=\{ \vec{f}_j\} _{j\in J}\) é uma base de \(W\), mostre que \(\{ (\bm {e}_i,0)\} _{i\in I}\cup \{ (0,\vec{f}_j)\} _{j\in J}\) é uma base de \(V\boxplus W\).

Exercício 2.28

Seja \(V\) um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\) de dimensão não necessariamente finita e seja \(\underline{\textsc{B}}\) um conjunto linearmente independente em \(V\). Mostre que se existir um elemento \(v\in V\) que não seja combinação linear de elementos de \(\underline{\textsc{B}}\), então o conjunto \(\underline{\textsc{B}}\cup \{ v\} \) é linearmente independente.

Exercício 2.29

Seja \(V\) um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\). Mostre que:

  1. Dados vetores não nulos \(v_1,v_2\), prove que eles são linearmente independentes se, e somente se, \(\langle v_1\rangle \cap \langle v_2\rangle =\{ 0\} \).

  2. Dados vetores \(v_{1},v_{2}, v_3\) não nulos. Prove que \(\left\langle v_{1}\right\rangle \cap \left\langle v_{2}\right\rangle \cap \left\langle v_{3}\right\rangle =\{ 0\} \) não implica que os vetores \(v_{1},v_{2},v_{3}\) sejam linearmente independentes.

  3. Dado \(S=\left\{ s_{1},\ldots ,s_{n}\right\} \subset V\). Prove que \(S\) é linearmente independente se, e somente se, \(\langle S\setminus \{ s_i\} \rangle \neq \langle S\rangle \) para todo \(s_{i}\in S\).

  4. Prove que, se \(A,B\subseteq V\), então \(\langle A\rangle +\langle B\rangle =\langle A\cup B\rangle \).

Exercício 2.30

Mostre que se os coeficientes \(a_1 , \ldots , a_n \) não são todos iguais a zero, o hiperplano

\[ H =\{ (x_1 , \ldots , x_n ) \in \mathbb {R}^n \, \mid \, a_1 x_1+\dots +a_n x_n=0\} \]

é um subespaço vetorial de dimensão \(n-1\) em \(\mathbb {R}^n\).

Exercício 2.31

Prove que em qualquer conjunto de vetores \(S\) existe um subconjunto \(S'\) linearmente independente tal que \(\left\langle S\right\rangle =\left\langle S'\right\rangle \).

Exercício 2.32

Se \(\mathbb {K}=\mathbb {Z}_{2}\), o subconjunto \(\{ (\overline{1},\overline{1},\overline{0}),(\overline{1},\overline{0},\overline{1}),(\overline{0},\overline{1},\overline{1})\} \) de \(\mathbb {K}^{3}\) é linearmente dependente? E se \(\mathbb {K}=\mathbb {Z}_{13}\)?

Exercício 2.33

Seja \(V=\mathcal{F}(\mathbb {R},\mathbb {C})\) o \(\mathbb {C}\)-espaço vetorial de todas as funções de \(\mathbb {R}\) em \(\mathbb {C}\). Prove que \(\{ f_{1},f_{2},f_{3}\} \) é linearmente independente, onde \(f_{1}(x)=1\), \(f_{2}(x)=e^{ix}=\cos (x)+i\sin (x)\) e \(f_{3}(x)=e^{-ix}\) para todo \(x\in \mathbb {R}\).

Exercício 2.34

Considere o espaço das funções \(\mathcal{F}(\mathbb {R},\mathbb {R})\). Mostre que os seguintes subconjuntos são linearmente independentes:

  1. \((f_{n})_{n\in \mathbb {N}}\) onde \(f_{n}:x\mapsto e^{nx}\)

  2. \((f_{a})_{a\in \mathbb {R}}\) onde \(f_{a}:x\mapsto \left|x-a\right|\)

Exercício 2.35

Seja \(V\) um espaço vetorial sobre \(\mathbb {R}\) e considere no conjunto \(V_{\mathbb {C}}=\{ (u,v):u,v\in V\} \) as seguintes operações de adição e multiplicação por um número complexo:

\begin{align*} (u_{1},v_{1})+(u_{2},v_{2}) & =(u_{1}+u_{2},v_{1}+v_{2})\\ (\alpha +i\beta )\cdot (u,v) & =(\alpha u-\beta v,\beta u+\alpha v) \end{align*}
  1. Mostre que \(V_{\mathbb {C}}\) é um espaço vetorial sobre \(\mathbb {C}\).

  2. Seja \(\{ v_{1},v_{2},\dots ,v_{n}\} \subseteq V\) um subconjunto linearmente independente. Mostre que \(\{ (v_{1},0),(v_{2},0),\dots ,(v_{n},0)\} \) e \(\{ (0,v_{1}),(0,v_{2}),\dots ,(0,v_{n})\} \) são subconjuntos linearmente independentes de \(V_{\mathbb {C}}\).

Exercício 2.36

Para um \(\mathbb {C}\)-espaço vetorial \(V\), denotaremos por \(V_{\mathbb {R}}\) o conjunto \(V\) visto como \(\mathbb {R}\)-espaço vetorial. Mostre que se \(\{ v_{1},v_{2},\dots ,v_{n}\} \) for um subconjunto linearmente independente de \(V\), então \(\{ v_{1},v_{2},\dots ,v_{n}\} \) e \(\{ v_{1},v_{2},\dots ,v_{n}\} \cup \{ iv_{1},iv_{2},\dots ,iv_{n}\} \) são subconjuntos linearmente independentes de \(V_{\mathbb {R}}\).

Exercício 2.37

Seja \(V\) um espaço vetorial e seja \(\underline{\textsc{B}}\subseteq V\). Mostre que são equivalentes:

  1. \(\underline{\textsc{B}}\) é uma base de \(V\);

  2. \(\underline{\textsc{B}}\) é um conjunto linearmente independente maximal, isto é, a adição de qualquer vetor de \(V\setminus \underline{\textsc{B}}\) produz um conjunto linearmente dependente;

  3. \(\underline{\textsc{B}}\) é um conjunto gerador minimal, isto é, a remoção de qualquer vetor de \(\underline{\textsc{B}}\) produz um conjunto que não gera \(V\).

Exercício 2.38

Seja \(V=\langle X\rangle \). Mostre que existe uma base \(\underline{\textsc{B}}\) de \(V\) tal que \(\underline{\textsc{B}}\subseteq X\). Dica: Defina um conjunto parcialmente ordenado e use o lema de Zorn.

Exercício 2.39

Ache uma base de \(\mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {C})\) como espaço vetorial sobre \(\mathbb {R}\). Qual é a \(\dim _{\mathbb {R}}(\mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {C}))\)?

Exercício 2.40

Seja \(S\) o \(\mathbb {R}\)-espaço vetorial do Exercício 2.14. Mostre que \(\dim _{\mathbb {R}}S=n\).

Dica. Use o Teorema de Existência e Unicidade de soluções. Considere a equação

\begin{equation} y^{(n)}(t)+a_{n-1}y^{(n-1)}(t)+\cdots +a_{1}y'(t)+a_{0}y(t)=0\label{eq:EDO-TEU} \tag{2.6} \end{equation}

onde \(a_{0},a_{1},\dots ,a_{n-1}\in \mathbb {R}\). Dados \(A_{0},A_{1},\dots ,A_{n-1}\in \mathbb {R}\), existe uma única solução \(y:\mathbb {R}\to \mathbb {R}\) da equação (2.6) verificando \(y(0)=A_{0}\), \(y'(0)=A_{1},\dots ,y^{(n-1)}(0)=A_{n-1}\) (condições iniciais da equação (2.6)).

Construa \(n\) soluções que formarão uma base do espaço das soluções de (2.6), da seguinte forma: considerando as condições iniciais \(A_{0}=1\) e \(A_{1}=\cdots =A_{n-1}=0\) o Teorema de Existência e Unicidade garante que existe uma única solução \(y_{1}:\mathbb {R}\to \mathbb {R}\) de (2.6) que verifica as condições \(y_{1}(0)=1\) e \(y'_{1}(0)=\cdots =y_{1}^{(n-1)}(0)=0\). Repita o procedimento considerando as condições iniciais \(A_{i}=1\) e \(A_{j}=0\) para todo \(j\neq i\) com \(i\) variando de \(1\) a \(n-1\).

Exercício 2.41

Determine se os espaços abaixo têm dimensão finita. Em caso afirmativo, determine a dimensão e uma base para o espaço:

  1. O conjunto de todas as sequências reais.

  2. O conjunto das sequências reais que satisfazem \(a_{k}=a_{k-1}+a_{k-2}\) para \(k\geqslant 3\).

  3. \(\mathbb {C}^{n}\) visto como um espaço vetorial sobre \(\mathbb {C}\) e visto como um espaço vetorial sobre \(\mathbb {R}\).

  4. O conjunto das sequências com apenas um número finito de termos não nulos.

  5. O espaço das funções em \(\mathcal{F}(X,\mathbb {R})\), \(|X|\lt \infty \) que se anulam em todos os pontos de um subconjunto \(X_{0}\subset X\).

  6. O espaço das funções \(C([0,1],\mathbb {R})\).

Exercício 2.42

Seja \(\mathbb {F}\) um corpo. Um subcorpo \(\mathbb {K}\) é um subconjunto de \(\mathbb {F}\) que é corpo quando restringimos as operações de \(\mathbb {F}\) a \(\mathbb {K}\).

  1. Mostre que \(\mathbb {F}\) é espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\).

  2. Suponha que \(V\) seja um espaço vetorial \(m\)-dimensional sobre \(\mathbb {F}\) e que \(\mathbb {F}\) seja um espaço vetorial \(n\)-dimensional sobre \(\mathbb {K}\). Qual a dimensão de \(V\) sobre \(\mathbb {K}\)?

Exercício 2.43

Seja \(W\) um subespaço de \(V\) com \(\dim (V)\lt \infty \). Prove que:

  1. \(\dim (W)\leq \dim (V)\)

  2. \(\dim (W)=\dim (V)\) se, e somente se, \(W=V\).

Exercício 2.44

Mostre que \(\mathbb {R}\) é um espaço vetorial de dimensão infinita sobre \( \mathbb {Q}\).

2.4 Soma de Subespaços

O conjunto \(\mathcal{S}\left(V\right)\) de todos os subespaços de \(V\) é parcialmente ordenado pela inclusão. Nessa ordem, \(\{ \vec0\} \) é o menor elemento e \(V\) é o maior. Essa estrutura de ordem motiva as construções seguintes.

Se \(S,T\in \mathcal{S}\left(V\right)\), então \(S\cap T\) é o maior subespaço contido simultaneamente em \(S\) e \(T\). Mais geralmente, a interseção de uma família \(\{ S_i\, \mid \, i\in I\} \) é seu maior limite inferior:

\[ \inf \{ S_{i} \, \mid \, i \in I \} = \bigcap _{i \in I} S_{i} \]

Para determinar o menor subespaço de \( V \) contendo os subespaços \( S \) e \( T \), fazemos a seguinte definição.

Definição 2.51 (Soma)
Se \(S\) e \(T\) são subespaços de \(V\), sua soma é o conjunto
\[ S+T \coloneqq \{ \bm {x}+\bm {y}\, \mid \, \bm {x}\in S, \ \bm {y}\in T \} \]
Para uma família \(\{ S_i\, \mid \, i\in I\} \), definimos sua soma como o conjunto de todas as somas finitas com uma parcela em cada subespaço escolhido:

\[ \sum _{i\in I}S_i\coloneqq \{ \bm {x}_{i_1}+\cdots +\bm {x}_{i_r}\, \mid \, r\geq 0,\ i_1,\ldots ,i_r\in I,\ \bm {x}_{i_j}\in S_{i_j}\} . \]

Proposição 2.52
Dada uma coleção \(\{ S_i\, \mid \, i\in I\} \) de subespaços de \(V\), as condições seguintes são equivalentes:
  1. \(W\) é o menor subespaço que contém \(S_i\) para todo \(i\in I\);

  2. \(W=\langle \bigcup \{ S_{i} \, \mid \, i \in I \} \rangle \)

  3. \(W=\sum _{i \in I} S_{i} \)

A equivalência decorre diretamente da caracterização de \(\langle S\rangle \) como o conjunto das combinações lineares finitas de elementos de \(S\).

2.4.1 Soma Direta

Uma soma direta descreve um espaço por componentes independentes: cada vetor se decompõe de maneira única em parcelas pertencentes aos subespaços dados.

Somas Diretas Internas

Definição 2.53 (Soma Direta)

Seja \(V\) um espaço vetorial e seja \(\mathcal S=\{ S_i\, \mid \, i\in I\} \) uma família de subespaços. Dizemos que \(V\) é a soma direta interna dessa família se todo vetor \(\bm {v}\in V\) possui uma única representação como soma finita

\[ \bm {v}=\bm {v}_{i_1}+\cdots +\bm {v}_{i_r}, \qquad \bm {v}_{i_j}\in S_{i_j}, \]

depois de desconsiderar parcelas nulas e a ordem das parcelas.

Se \( V \) é a soma direta de \( \mathcal{S} \), escrevemos

\[ V = \bigoplus _{i \in I} S_{i}. \]

Se \( \mathcal{S} = \{ S_{1}, \ \ldots , \ S_{n} \} \) é uma família finita, podemos denotar a soma direta como

\[ V = S_{1} \oplus \cdots \oplus S_{n} \]

Uma soma é direta se, e somente se, toda igualdade \(\bm {u}_{i_1}+\cdots +\bm {u}_{i_r}=\vec0\), com índices distintos e \(\bm {u}_{i_j}\in S_{i_j}\), implica \(\bm {u}_{i_j}=\vec0\) para todo \(j\). Em outras palavras, basta verificar a unicidade da representação do vetor nulo. Essa afirmação motiva a seguinte definição e a próxima proposição.

Definição 2.54 (Espaços Independentes)
Uma família finita \(\{ S_1,\ldots ,S_k\} \) de subespaços de \(V\) é independente se \(\bm {s}_1+\cdots +\bm {s}_k=\vec0\), com \(\bm {s}_i\in S_i\), implica \(\bm {s}_i=\vec0\) para todo \(i\).

Assim, para subespaços \(S_1,\ldots ,S_k\) de \(V\), a igualdade \(V=S_1\oplus \cdots \oplus S_k\) vale se, e somente se,

  1. \( V = S_{1}+\cdots +S_{k} \) e

  2. a família \(\{ S_1,\ldots ,S_k\} \) é independente.

A seguinte caracterização de somas diretas é bastante útil.

Teorema 2.55
Um espaço vetorial \( V \) é a soma direta de uma família \( \mathcal{S} = \{ S_{i} \, \mid \, i \in I \} \) de subespaços se, e somente se,
  1. \( V \) é a soma dos \( S_{i} \), \( V = \sum _{i \in I} S_{i} \)

  2. Para cada \( i \in I, \) \( S_{i} \cap (\sum _{j \neq i} S_{j}) = \{ \vec0 \} \)

Demonstração

Suponha primeiro que \( V \) seja a soma direta de \( \mathcal{S} \). Então a é verdadeiro e se

\[ \bm {v}\in S_{i} \cap (\sum _{j \neq i} S_{j}) \]

então \( \bm {v}= \bm {s}_{i} \) para algum \( \bm {s}_{i} \in S_{i} \) e

\[ \bm {v}= \bm {s}_{j_{1}}+\cdots +\bm {s}_{j_{n}} \]

onde \( \bm {s}_{j_{k}} \in S_{j_{k}} \) e \( j_{k} \neq i \) para todos os \( k = 1, \ldots , n \). Portanto, pela unicidade das representações de soma direta, \( \bm {s}_{i} = 0 \) e, portanto, \( \bm {v}= 0 \). Logo demonstramos b.

Para a recíproca, suponha que a e b sejam válidos. Precisamos apenas verificar a condição de unicidade

\begin{align} \bm {v}& = \bm {s}_{j_{1}}+\cdots +\bm {s}_{j_{n}} \quad \text{ e } \tag{2.7} \\ \bm {v}& = \bm {t}_{k_{1}}+\cdots +\bm {t}_{k_{m}} \tag{2.8} \end{align}

onde \(\bm {s}_{j_i}\in S_{j_i}\) e \(\bm {t}_{k_i}\in S_{k_i}\). Acrescentando parcelas nulas, podemos supor que os conjuntos de índices das duas representações coincidem, digamos, com \(\{ i_1,\ldots ,i_p\} \); assim,

\begin{align} \bm {v}& = \bm {s}_{i_{1}}+\cdots +\bm {s}_{i_{p}} \quad \text{ e } \tag{2.9} \\ \bm {v}& = \bm {t}_{i_{1}}+\cdots +\bm {t}_{i_{p}} \tag{2.10} \end{align}

A diferença das duas igualdades fornece \((\bm {s}_{i_1}-\bm {t}_{i_1})+\cdots +(\bm {s}_{i_p}-\bm {t}_{i_p})=\vec0\). Para cada \(u\), temos

\[ \bm {s}_{i_u}-\bm {t}_{i_u} =-\sum _{v\neq u}(\bm {s}_{i_v}-\bm {t}_{i_v}) \in S_{i_u}\cap \sum _{j\neq i_u}S_j=\{ \vec0\} . \]

Logo \(\bm {s}_{i_u}=\bm {t}_{i_u}\) para todo \(u\), o que prova a unicidade.

Se tivermos apenas dois subespaços \( \{ W_{1}, \ W_{2} \} \), essa condição simplesmente indicará \( W_{1} \cap W_{2} = \{ \vec0\} \). Se tivermos mais de dois subespaços, essa condição é mais forte que a condição \( W_{i} \cap W_{j} = \{ \vec0\} \) para \( i \neq j \).

Exemplo 2.56

Suponha que \(\operatorname {char}(\mathbb {K})\) não divida \(n\). Seja \(\mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K})\) o espaço vetorial das matrizes \(n\times n\) com entradas em \(\mathbb {K}\), seja \(\mathfrak {sl}_n(\mathbb {K})\) o subespaço das matrizes de traço zero e seja \(D=\langle \operatorname {I}_n\rangle \).

Como \(\operatorname {tr}(\lambda \operatorname {I}_n)=n\lambda \), temos \(\mathfrak {sl}_n(\mathbb {K})\cap D=\{ \vec0\} \). Para qualquer \(A\in \mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K})\), defina \(\alpha =\operatorname {tr}(A)/n\) e \(B=A-\alpha \operatorname {I}_n\). Então \(\operatorname {tr}(B)=0\) e \(A=B+\alpha \operatorname {I}_n\). Portanto, \(\mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K})=\mathfrak {sl}_n(\mathbb {K})\oplus D\).

Exemplo 2.57

Suponha que \(\operatorname {char}(\mathbb {K})\ne 2\). Toda matriz \( A \in \mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K})\) pode ser decomposta como

\begin{equation} A = \displaystyle \frac{1}{2} (A+A^{\mathrm{t}})+\frac{1}{2} (A- A^{\mathrm{t}}) = B+C \tag{2.11} \end{equation}

onde \(A^{\mathrm{t}}\) é a transposta de \(A\). A matriz \(B\) é simétrica e \(C\) é antissimétrica; assim, \(A\) é a soma de uma matriz simétrica e uma matriz antissimétrica.

Como os conjuntos \(\operatorname {Sim}_{n,n}\) e \(\operatorname {ASim}_{n,n}\) de todas as matrizes simétricas e assimétricas em \(\mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K})\) são subespaços de \(\mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K})\), temos que

\[ \mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K}) = \operatorname {Sim}_{n,n}+\operatorname {ASim}_{n,n} \]

Além disso, se \( S+T = S '+ T' \), onde \( S \) e \( S '\) são simétricas e \( T \) e \( T' \) são antissimétricas, então a matriz

\[ U = S-S '= T'-T \]

é simétrica e antissimétrica. Como \(\operatorname {char}(\mathbb {K})\ne 2\), devemos ter \(U=0\) e, portanto, \(S=S'\) e \(T=T'\). Assim, a soma é direta:

\[ \mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K})= \operatorname {Sim}_{n,n} \oplus \operatorname {ASim}_{n,n} \]

2.4.2 Decomposição em Somas Diretas

Proposição 2.58

Sejam \(W_1,\ldots ,W_k\) subespaços de \(V\), seja \(\underline{\textsc{B}}_i\) uma base de \(W_i\) e ponha \(\underline{\textsc{B}}=\bigcup _{i=1}^k\underline{\textsc{B}}_i\). Então

  1. \( \underline{\textsc{B}}\) gera \( V \) se, e somente se, \( V = W_{1}+\cdots +W_{k}.\)

  2. \( \underline{\textsc{B}}\) é linearmente independente se, e somente se, \( \{ W_{1}, \ \ldots \ , \ W_{k} \} \) for independente.

  3. \( \underline{\textsc{B}}\) é uma base para \( V \) se, e somente se, \( V = W_{1} \oplus \cdots \oplus W_{k}.\)

A demonstração da proposição é proposta como exercício.

Corolário 2.59
Seja \(V\) um espaço vetorial de dimensão finita. Se \(V=W_1\oplus \cdots \oplus W_k\), então \(\dim V=\dim W_1+\cdots +\dim W_k\).

A reunião de bases das parcelas é uma base de \(V\); contar seus elementos prova o corolário.

Definição 2.60 (Complemento)
Se \(W_1\) é um subespaço de \(V\), dizemos que \(W_2\) é um complemento de \(W_1\) quando \(V=W_1\oplus W_2\).

Teorema 2.61

Seja \(V\) um espaço vetorial e seja \(W\) um subespaço de \(V\). Então \(W\) possui um complemento \(W'\). Além disso, \(\dim V=\dim W+\dim W'\).

Demonstração

Seja \(\underline{\textsc{B}}\) uma base de \(W\). Pelo Teorema 2.43, existe uma base \(\underline{\textsc{B}}'\) de \(V\) tal que \(\underline{\textsc{B}}\subseteq \underline{\textsc{B}}'\). Defina \(W'=\langle \underline{\textsc{B}}'\setminus \underline{\textsc{B}}\rangle \). A reunião das duas bases gera \(V\) e é linearmente independente; portanto, \(V=W\oplus W'\). Como \(\underline{\textsc{B}}'=\underline{\textsc{B}}\mathbin {\dot\cup }(\underline{\textsc{B}}'\setminus \underline{\textsc{B}})\), a igualdade de cardinais \(\dim V=\dim W+\dim W'\) também segue, inclusive em dimensão infinita.

Observação 2.62
O subespaço \(W'\) construído no Teorema 2.61 é chamado um complemento de \(W\) em \(V\). Em geral, o complemento não é único, embora todos os complementos sejam isomorfos. Nos casos extremos, se \(W=\{ \vec0\} \), o único complemento é \(V\); se \(W=V\), o único complemento é \(\{ \vec0\} \).

Teorema 2.63
Se \(V\) tem dimensão finita e \(W_1,W_2\) são subespaços de \(V\), então
\[ \dim (W_{1}+W_{2})+\dim (W_{1} \cap W_{2}) = \dim W_{1}+\dim W_{2}. \]

Demonstração

Seja \( \underline{\textsc{B}}_{0} = \{ \bm {x}_{1}, \ldots , \bm {x}_{n} \} \) uma base de \( W_{1} \cap W_{2} \). No caso particular em que \( W_{1} \cap W_{2} = (0) \), faremos \( \underline{\textsc{B}}_{0}=\emptyset \). Pelo Teorema da Extensão 2.43, podemos completar \( \underline{\textsc{B}}_{0} \) para uma base \( \underline{\textsc{B}}_{1} = \{ \bm {x}_{1}, \ldots , \bm {x}_{n} , \bm {y}_{1}, \ldots , \bm {y}_{m} \} \) de \( W_{1} \). De modo análogo, podemos completar \( \underline{\textsc{B}}_{0} \) para uma base \( \underline{\textsc{B}}_{2} = \{ \bm {x}_{1}, \ldots , \bm {x}_{n }, \vec{z}_{1}, \dots , \vec{z}_{p} \} \) de \( W_{2} \). Assim, \( \dim W_{1} \cap W_{2} = n, \dim W_{1} = n+m, \) e \( \dim W_{2} = n+p \).

Afirmamos que \( \underline{\textsc{B}}= \{ \bm {x}_{1}, \ldots , \bm {x}_{n}, \bm {y}_{1}, \ldots , \bm {y}_{m}, \vec{z}_{1}, \dots , \vec{z}_{p} \} \) é uma base de \( W_{1}+W_{2} \). Claramente \( \langle \underline{\textsc{B}}\rangle = W_{1}+W_{2} \).

Resta provar que \(\underline{\textsc{B}}\) é linearmente independente. Suponha que

\[ \sum _{i=1}^n x_i\bm {x}_i+ \sum _{i=1}^m y_i\bm {y}_i+ \sum _{i=1}^p z_i\bm {z}_i=\vec0. \]

Então

\[ \sum _{i=1}^p z_i\bm {z}_i =-\sum _{i=1}^n x_i\bm {x}_i-\sum _{i=1}^m y_i\bm {y}_i. \]

Comparando ambos os lados da equação temos que \( \displaystyle \sum _{i=1}^{p} z_{i} \vec{z}_{i} \in W_{1} \cap W_{2} = \langle \{ \bm {x}_{1}, \ldots , \bm {x}_{n} \} \rangle \). Logo podemos escrever \(\displaystyle \sum _{i=1}^{p} z_{i} \vec{z}_{i}\) como:

\[ \displaystyle \sum _{i=1}^{p} z_{i} \vec{z}_{i} = \displaystyle \sum _{i=1}^{n} w_{i} \vec{x}_{i} \]

Como \(\underline{\textsc{B}}_2\) é uma base de \(W_2\), comparar essa expressão com \(\sum _{i=1}^n w_i\bm {x}_i\) fornece \(z_1=\cdots =z_p=0\). A relação original se reduz a \(\sum _{i=1}^n x_i\bm {x}_i+\sum _{i=1}^m y_i\bm {y}_i=\vec0\); como \(\underline{\textsc{B}}_1\) é uma base de \(W_1\), todos os coeficientes \(x_i\) e \(y_i\) também são nulos.

Logo \(\underline{\textsc{B}}\) é uma base de \(W_1+W_2\), de modo que \(\dim (W_1+W_2)=n+m+p\). Substituir as quatro dimensões obtidas conclui a prova.

O Teorema 2.63 continua válido em dimensão infinita quando as dimensões são entendidas como cardinais. Nesse caso, entretanto, a aritmética cardinal pode ocultar parte da informação geométrica: a soma de dois cardinais infinitos é igual ao maior deles.

O mesmo argumento fornece uma estimativa para a interseção de uma família finita de subespaços.

Corolário 2.64
Seja \(V\) um espaço vetorial de dimensão \(n\) e sejam \(W_1,\ldots ,W_k\) subespaços de \(V\). Para \(i=1,\ldots ,k\), defina \(c_i=n-\dim W_i\). Então
  • \(\displaystyle \dim (W_1\cap \cdots \cap W_k) =n-\sum _{i=1}^k c_i +\sum _{j=1}^{k-1}\left[n-\dim \bigl((W_1\cap \cdots \cap W_j)+W_{j+1}\bigr)\right];\)

  • \(\displaystyle \dim (W_1\cap \cdots \cap W_k) \geq n-\sum _{i=1}^k c_i;\)

  • \(\displaystyle \dim (W_1\cap \cdots \cap W_k) =n-\sum _{i=1}^k c_i\) se, e somente se, para todo \(i=1,\ldots ,k\),

    \[ W_{i}+(\bigcap _{j \neq i} W_{j}) = V \]

Demonstração

Ponha \(U_j=W_1\cap \cdots \cap W_j\). O Teorema 2.63, aplicado a \(U_j\) e \(W_{j+1}\), fornece

\[ \dim U_{j+1}=\dim U_j+\dim W_{j+1} -\dim (U_j+W_{j+1}). \]

Iterando essa identidade, obtemos o primeiro item. Cada parcela entre colchetes é não negativa, o que prova o segundo.

A igualdade no segundo item equivale a \(\operatorname {codim}(W_1\cap \cdots \cap W_k)=\sum _i\operatorname {codim}W_i\). Ela ocorre exatamente quando cada \(W_i\) é transversal à interseção dos demais, isto é, quando \(W_i+\bigcap _{j\neq i}W_j=V\). Essa equivalência também resulta da fórmula de dimensões do Teorema 2.63, aplicada a cada um desses pares.

2.5 Soma Direta Externa

Se \( V \) e \( W \) forem espaços vetoriais sobre um corpo \( \mathbb {K}\), o produto cartesiano

\[ V \times W = \{ (\bm {v}, \ \bm {w}): \bm {v}\in V, \ \bm {w}\in W \} \]

pode ser munido de uma estrutura de espaço vetorial definindo as operações

\begin{align} (\bm {v}_{1}, \ \bm {w}_{1})+(\bm {v}_{2}, \ \bm {w}_{2}) & \coloneqq (\bm {v}_{1}+\bm {v}_{2}, \ \bm {w}_{1}+\bm {w}_{2}) \tag{2.12} \\ \lambda (\bm {v}, \ \bm {w}) & \coloneqq (\lambda \bm {v}, \ \lambda \bm {w}) \ . \tag{2.13} \end{align}

O produto cartesiano \(V\times W\), munido dessas operações, é denominado soma direta externa de \(V\) e \(W\).

A construção se estende a qualquer família finita.

Definição 2.65 (Soma Direta Externa)

Sejam \(V_1,\ldots ,V_n\) espaços vetoriais sobre \(\mathbb {K}\). Sua soma direta externa, denotada por \(V_1\boxplus \cdots \boxplus V_n\), é o produto cartesiano \(V_1\times \cdots \times V_n\) munido das operações coordenada a coordenada. Seus elementos são as ênuplas ordenadas

\[ V_{1} \boxplus \cdots \boxplus V_{n} = \{ (\bm {x}_{1}, \ \ldots , \ \bm {x}_{n}) \, \mid \, \bm {x}_{i} \in V_{i}, \ i = 1, \ \ldots , \ n \} \]

e as operações são

\begin{align} (\bm {y}_{1}, \ \ldots , \ \bm {y}_{n}) +(\bm {x}_{1}, \ \ldots , \ \bm {x}_{n}) & \coloneqq (\bm {y}_{1} +\bm {x}_{1}, \ \ldots , \ \bm {y}_{ n}+\bm {x}_{n}) \tag{2.14} \\ \lambda (\bm {x}_{1}, \ \dots , \ \bm {x}_{n}) & \coloneqq (\lambda \bm {x}_{1}, \ \dots , \ \lambda \bm {x}_{n}) \tag{2.15} \end{align}

Exemplo 2.66
O espaço vetorial \(\mathbb {K}^n\) é naturalmente isomorfo à soma direta externa de \(n\) cópias de \(\mathbb {K}\):
\[ \mathbb {K}^{n} = \mathbb {K}\boxplus \cdots \boxplus \mathbb {K} \]

Essa construção pode ser generalizada a uma família arbitrária de espaços vetoriais. Representaremos seus elementos por famílias \((v_i)_{i\in I}\), com \(v_i\in V_i\), sem atribuir uma estrutura vetorial à união dos \(V_i\).

Definição 2.67 (Produto Direto)
Seja \(\mathcal{F}=\{ V_i\, \mid \, i\in I\} \) uma família de espaços vetoriais sobre \(\mathbb {K}\). O produto direto da família é
\[ \prod _{i\in I}V_i\coloneqq \{ (v_i)_{i\in I}\, \mid \, v_i\in V_i\text{ para todo }i\in I\} , \]
com adição e multiplicação por escalares definidas coordenada a coordenada.

Será mais útil restringir o conjunto de funções àquelas com suporte finito.

Definição 2.68 (Suporte)
Seja \(\mathcal{F}=\{ V_i\, \mid \, i\in I\} \) uma família de espaços vetoriais sobre \(\mathbb {K}\). O suporte de \(v=(v_i)_{i\in I}\in \prod _{i\in I}V_i\) é o conjunto
\[ \mathrm{suporte}(v)\coloneqq \{ i\in I\, \mid \, v_i\ne 0\} . \]

Assim, uma família tem suporte finito quando apenas um número finito de suas coordenadas é não nulo.

Definição 2.69 (Soma Direta Externa)
A soma direta externa da família \(\mathcal F\) é o subespaço do produto direto dado por
\[ \bplus _{i\in I}V_i\coloneqq \{ (v_i)_{i\in I}\in \prod _{i\in I}V_i\, \mid \, \mathrm{suporte}(v)\text{ é finito}\} . \]
Um caso especial importante ocorre quando \(V_i=V\) para todo \(i\in I\). Se \(V^I\) denota o conjunto das funções de \(I\) em \(V\) e \((V^I)_0\) o subconjunto das funções de suporte finito, então

\[ \displaystyle \prod _{i \in I} V = V^{I} \qquad \text{ e } \qquad \displaystyle \bplus _{i \in I} V = (V^{I})_{0} \]

Observe que o produto direto e a soma direta externa são os mesmos para uma família de espaços vetoriais finita.

Exemplos 2.70
O espaço vetorial \(\mathbb {K}^{\infty }\) é produto direto de \(\mathbb {K}\) e \((\mathbb {K}^{\infty })_0\) é soma direta externa:
\[ \mathbb {K}^{\infty }=\prod _{i \in \mathbb {N}} \mathbb {K}\quad \text{ e } \quad (\mathbb {K}^{\infty })_0= \bplus _{i \in \mathbb {N}} \mathbb {K} \]

Exercício 2.45

Mostre que, se \(U\subseteq S\), então

\[ S\cap (T+U)=(S\cap T)+U \]

Essa propriedade é denominada lei modular do reticulado \(\mathcal{S}(V)\).

Exercício 2.46

Para quais espaços vetoriais a lei distributiva de subespaços

\[ S\cap (T+U)=(S\cap T)+(S\cap U) \]

é verdadeira? Determine, portanto, quando o reticulado de subespaços é distributivo.

Exercício 2.47

Seja \(S\) um subespaço de \(V\) e seja \(v\in V\). O conjunto \(v+S=\{ v+s:s\in S\} \) é chamado subespaço afim de \(V\).

  1. Quando um subespaço afim de \(V\) é subespaço de \(V\)?

  2. Mostre que dois subespaços afins \(x+S\) e \(y+S\) ou são iguais ou são disjuntos.

Exercício 2.48

Seja \(X\) um subconjunto de um espaço vetorial \(V\) sobre \(\mathbb {K}\). Mostre que

\[ \langle X\rangle =\left\{ \sum _{v\in F}\alpha _vv: F\subseteq X\text{ é finito e }\alpha _v\in \mathbb {K}\text{ para todo }v\in F\right\} . \]

Exercício 2.49

Prove que

  1. Se \( S_{1} \subseteq S_{2} \), \( \langle S_{1}\rangle \subseteq \langle S_{2}\rangle \).

  2. Se \( \bm {x}\in \langle S\rangle \), existe um subconjunto finito \( S '\subseteq S \) de modo que \( \bm {x}\in \langle S '\rangle \).

  3. \( S \subseteq \langle S\rangle \) para todos os \( S \in \mathscr {P}(V) \).

  4. Para cada \( S \in \mathscr {P}(V), \langle \langle S\rangle \rangle = \langle S\rangle \).

  5. Se \( \bm {y}\in \langle S \cup \{ \bm {x}\} \rangle \) e \( \bm {y}\not\in \langle S\rangle \), então \( \bm {x}\in \langle S \cup \{ \bm {y}\} \rangle \). Aqui \( \bm {x}, \bm {y}\in V\) e \( S \in \mathscr {P}(V).\)

Exercício 2.50

Dê um contraexemplo que mostre que a união de subespaços não é necessariamente um subespaço.

Exercício 2.51

Mostre que, se \(W_1\) e \(W_2\) são subespaços de \(V\), então \(W_1\cup W_2\) é um subespaço vetorial se, e somente se, \(W_1\subseteq W_2\) ou \(W_2\subseteq W_1\).

Exercício 2.52

Seja \(V\) um espaço vetorial e sejam \(W_1,\ldots ,W_k\) subespaços de \(V\). Para cada \(i\), seja \(\underline{\textsc{B}}_i\) uma base de \(W_i\) e ponha \(\underline{\textsc{B}}=\bigcup _{i=1}^k\underline{\textsc{B}}_i\). Mostre que:

  1. \( \underline{\textsc{B}}\) gera \( V \) se, e somente se, \( V = W_{1}+\cdots +W_{k}.\)

  2. \( \underline{\textsc{B}}\) é linearmente independente se, e somente se, \( \{ W_{1}, \ \ldots \ , \ W_{k} \} \) for independente.

  3. \( \underline{\textsc{B}}\) é uma base para \( V \) se, e somente se, \( V = W_{1} \oplus \cdots \oplus W_{k}.\)

Exercício 2.53

Seja \(V\) um espaço vetorial de dimensão \(n\) e sejam \(W_1,\ldots ,W_k\) subespaços, com \(n_i=\dim W_i\).

  1. Se \( n_{1}+\cdots +n_{k}\gt n \), então \( \{ W_{1}, \ \ldots \ , \ W_{k} \} \) não é independente.

  2. Se \( n_{1}+\cdots +n_{k} \lt n \), então \( V \neq W_{1}+\cdots +W_{k}.\)

  3. Se \(n_1+\cdots +n_k=n\), prove que são equivalentes:

    1. \( V = W_{1} \oplus \cdots \oplus W_{k}.\)

    2. \( V = W_{1}+\cdots +W_{k} \)

    3. \( \{ W_{1}, \ \ldots \ , \ W_{k} \} \) é independente.

Exercício 2.54

Seja \(V\) um espaço vetorial de dimensão finita e sejam \(W_1,\ldots ,W_k\) subespaços tais que \(V=W_1\oplus \cdots \oplus W_k\). Prove que \(\dim V=\dim W_1+\cdots +\dim W_k\).

Exercício 2.55

Encontre um subespaço complementar a \(L_3=\{ p(x)\in \mathbb {K}_n[x]:p(1)=0\} \) em \(\mathbb {K}_n[x]\).

Exercício 2.56

Seja \(V\) um espaço vetorial de dimensão finita \(n\) e sejam \(W_1,\ldots ,W_k\) subespaços de \(V\). Para \(1\leq i\leq k\), defina \(c_i=n-\dim W_i\). Mostre que:

  1. \[ \dim (W_1\cap \cdots \cap W_k) =n-\sum _{i=1}^k c_i +\sum _{j=1}^{k-1}\left[n-\dim \bigl((W_1\cap \cdots \cap W_j)+W_{j+1}\bigr)\right]. \]
  2. \( \displaystyle \dim (W_{1} \cap \cdots \cap W_{k}) \geq n - \sum _{i = 1}^{k} c _{i}.\)

  3. A igualdade \(\displaystyle \dim (W_1\cap \cdots \cap W_k) =n-\sum _{i=1}^k c_i\) vale se, e somente se, para todo \(i=1,\ldots ,k\),

    \[ W_{i}+(\bigcap _{j \neq i} W_{j}) = V \]

2.6 Coordenadas

Suponha que \(V\) seja um espaço vetorial de dimensão finita \(n\) sobre \(\mathbb {K}\).

Definição 2.71 (Base Ordenada)
Uma base ordenada para \( V \) é uma \( n \)-tupla ordenada \( (\bm {x}_{1}, \ \ldots , \ \bm {x}_{n}) \) de vetores para os quais o conjunto \( \{ \bm {x}_{1}, \ \ldots , \ \bm {x}_{n} \} \) é uma base para \(V\).

Se \( \underline{\textsc{x}} = (\bm {x}_{1}, \ \ldots , \ \bm {x}_{n}) \) for uma base ordenada para \( V \), então para todo \( \bm {y}\in V \) haverá uma única \( n \)-tupla \( (y_{1}, \ \ldots , \ y_{n}) \) de escalares para os quais

\[ \bm {y}= y_{1} \bm {x}_{1}+\cdots +y_{n} \bm {x}_{n} \]

Assim, se \(\underline{\textsc{x}}=(\bm {x}_1,\ldots ,\bm {x}_n)\) é uma base ordenada de \(V\), temos uma aplicação natural \([\, \cdot \, ]_{\underline{\textsc{x}}}:V\to \mathbb {K}^n\), denominada aplicação de coordenadas.

Definição 2.72 (Coordenadas de um vetor)
Se \( \underline{\textsc{x}} = (\bm {x}_{1}, \ldots , \bm {x}_{n} ) \) é uma base de \(V\), então definimos as coordenadas do vetor \(\bm {y}=\displaystyle \sum _{i = 1}^{n} y_{i} \bm {x}_{i} \) na base \({\underline{\textsc{x}}}\) como
\[ [\bm {y}]_{\underline{\textsc{x}}} \coloneqq (y_{1}, \ldots , y_{n})^{\mathrm{t}} \in \mathbb {K}^n \]

Como \( \underline{\textsc{x}} \) é uma base de \(V\), a representação de um determinado vetor \( \bm {y}\) como uma combinação linear de \( \bm {x}_{1}, \ldots , \bm {x}_{n} \) é única e assim temos que a função está bem definida.

A aplicação \([\, \cdot \, ]_{\underline{\textsc{x}}}:V\to \mathbb {K}^n\) é bijetiva e preserva somas e multiplicações por escalares. Em particular,

\[ [\lambda _1\bm {y}+\lambda _2\bm {z}]_{\underline{\textsc{x}}} =\lambda _1[\bm {y}]_{\underline{\textsc{x}}}+\lambda _2[\bm {z}]_{\underline{\textsc{x}}}. \]

Como veremos em breve, trata-se de uma transformação linear.

Definição 2.73 (Componentes)
As entradas do vetor coluna \([\bm {y}]_{\underline{\textsc{x}}}\) são denominadas componentes de \(\bm {y}\) na base \(\underline{\textsc{x}}\).

Exemplo 2.74

Suponha que \(\operatorname {char}(\mathbb {K})\ne 2\). Seja \(V=\mathcal{M}_{2, 2}(\mathbb {K})\) e considere os vetores

\[ \vec{a}_1=\left[ \begin{array}{cc} 0 & 1 \\ 1 & 0 \\ \end{array} \right], \quad \vec{a}_2 =\left[ \begin{array}{cc} 0 & 1 \\ -1 & 0 \\ \end{array} \right] , \quad \vec{a}_3= \left[ \begin{array}{cc} 1 & 0 \\ 0 & 1 \\ \end{array} \right] , \quad \vec{a}_4= \left[ \begin{array}{cc} 1 & 0 \\ 0 & -1 \\ \end{array} \right] \]

As quatro matrizes são linearmente independentes e, como \(\dim \mathcal{M}_{2, 2}(\mathbb {K})=4\), formam uma base ordenada \(\underline{\textsc{a}}=(\vec a_1,\vec a_2,\vec a_3,\vec a_4)\). Em particular, toda matriz \(A=(a_{ij})\) pode ser escrita como

\[ \left[ \begin{array}{cc} a_{11} & a_{12} \\ a_{21} & a_{22} \\ \end{array}\right]= \frac{a_{12}+a_{21}}{2} \vec{a}_1+ \frac{a_{12} - a_{21}}{2}\vec{a}_2+\frac{a_{11}+a_{22}}{2}\vec{a}_3 +\frac{a_{11} - a_{22}}{2}\vec{a}_4 \]

Logo,

\[ \left[ \left[ \begin{array}{cc} a_{11} & a_{12} \\ a_{21} & a_{22} \\ \end{array}\right]\right]_{\underline{\textsc{a}}}= \left[ \begin{array}{c} \frac{a_{12}+a_{21}}{2} \\ \frac{a_{12}-a_{21}}{2} \\ \frac{a_{11}+a_{22}}{2} \\ \frac{a_{11}-a_{22}}{2} \\ \end{array} \right] \]

2.6.1 Mudança de Base

Duas bases de um mesmo espaço atribuem, em geral, coordenadas diferentes a um mesmo vetor. A mudança de base consiste em passar de uma dessas colunas de coordenadas à outra. O vetor permanece o mesmo; o que muda são os coeficientes usados para escrevê-lo como combinação linear dos vetores da base.

Exemplo 2.75 (Duas bases de \(\mathbb {R}^2\))
Considere a base canônica \(\underline{\textsc{E}}\) de \(\mathbb {R}^2\) e a base \(\underline{\textsc{B}}=(\vec{u}_1,\vec{u}_2)\), onde
\[ \vec{u}_1=\begin{bmatrix} 1 \\ 1 \end{bmatrix}, \qquad \vec{u}_2=\begin{bmatrix} 1 \\ 2 \end{bmatrix}. \]
Os dois vetores são linearmente independentes, pois o sistema \(a+b=0\), \(a+2b=0\) tem apenas a solução \(a=b=0\). Se \(\vec{z}=a\vec{u}_1+b\vec{u}_2\), então
\[ [\vec{z}]_{\underline{\textsc{B}}}=\begin{bmatrix} a \\ b \end{bmatrix}, \qquad [\vec{z}]_{\underline{\textsc{E}}} =\begin{bmatrix} a+b \\ a+2b \end{bmatrix} =\begin{bmatrix} 1 & 1 \\ 1 & 2 \end{bmatrix} \begin{bmatrix} a \\ b \end{bmatrix}. \]
As colunas dessa matriz são precisamente as coordenadas de \(\vec{u}_1\) e \(\vec{u}_2\) na base canônica. Por exemplo,
\[ \vec{z}=\begin{bmatrix} 3 \\ 5 \end{bmatrix} =\vec{u}_1+2\vec{u}_2 \]
tem coordenadas \((3,5)^{\mathrm{t}}\) na base \(\underline{\textsc{E}}\) e \((1,2)^{\mathrm{t}}\) na base \(\underline{\textsc{B}}\). São duas representações do mesmo vetor.

Para fazer essa passagem em um espaço qualquer, basta conhecer as coordenadas dos vetores de uma base em relação à outra. Sejam \(\underline{\textsc{x}}=(\bm {x}_1,\ldots ,\bm {x}_n)\) e \(\underline{\textsc{y}}=(\bm {y}_1,\ldots ,\bm {y}_n)\) bases ordenadas de \(V\).

Definição 2.76 (Matriz de Mudança de Base)
A matriz de mudança de base de \(\underline{\textsc{y}}\) para \(\underline{\textsc{x}}\), denotada por \(\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{y}}\to \underline{\textsc{x}}}\), é a matriz \(n\times n\) cujas colunas são as coordenadas dos vetores de \(\underline{\textsc{y}}\) na base \(\underline{\textsc{x}}\):

\begin{equation} \label{eq:2.17} \displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{y}}\to \underline{\textsc{x}}}\coloneqq \left([\bm {y}_1]_{\underline{\textsc{x}}}\ {\mathrel {\big| } \ }\cdots \ {\mathrel {\big| } \ }[\bm {y}_n]_{\underline{\textsc{x}}}\right). \tag{2.16} \end{equation}

O sentido indicado na notação é o da passagem entre coordenadas: \(\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{y}}\to \underline{\textsc{x}}}\) recebe coordenadas na base \(\underline{\textsc{y}}\) e fornece coordenadas na base \(\underline{\textsc{x}}\). Por isso suas colunas são formadas pelos vetores da base de partida, escritos na base de chegada. No exemplo anterior, a matriz obtida é \(\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{B}}\to \underline{\textsc{E}}}\), e não \(\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{E}}\to \underline{\textsc{B}}}\).

Teorema 2.77 (Mudança de Base)
Para todo \(\vec{z}\in V\),
\[ \displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{y}}\to \underline{\textsc{x}}}[\vec{z}]_{\underline{\textsc{y}}} =[\vec{z}]_{\underline{\textsc{x}}}. \]

Demonstração

Sejam \(c_1,\ldots ,c_n\) as coordenadas de \(\vec{z}\) na base \(\underline{\textsc{y}}\). Então \(\vec{z}=\sum _{i=1}^{n}c_i\bm {y}_i\). Como a aplicação de coordenadas preserva combinações lineares,

\begin{align*} [\vec{z}]_{\underline{\textsc{x}}} & =\sum _{i=1}^{n}c_i[\bm {y}_i]_{\underline{\textsc{x}}}\\ & =\left([\bm {y}_1]_{\underline{\textsc{x}}}\ {\mathrel {\big| } \ }\cdots \ {\mathrel {\big| } \ }[\bm {y}_n]_{\underline{\textsc{x}}}\right) \begin{bmatrix} c_1 \\ \vdots \\ c_n \end{bmatrix}\\ & =\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{y}}\to \underline{\textsc{x}}}[\vec{z}]_{\underline{\textsc{y}}}. \end{align*}

A segunda igualdade é a interpretação do produto de uma matriz por uma coluna como combinação linear das colunas da matriz.

Podemos resumir essa relação no diagrama Ilustração: Mudança de Base Um diagrama representa espaços e aplicações por objetos e setas. Ele é comutativo quando quaisquer dois caminhos com a mesma origem e o mesmo destino definem a mesma aplicação. Aqui, obter diretamente as coordenadas de \(\vec{z}\) na base \(\underline{\textsc{x}}\) dá o mesmo resultado que obter primeiro suas coordenadas na base \(\underline{\textsc{y}}\) e depois multiplicar por \(\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{y}}\to \underline{\textsc{x}}}\).

A passagem no sentido contrário é feita por \(\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{x}}\to \underline{\textsc{y}}}\). Efetuar as duas mudanças sucessivamente devolve a coluna inicial. Como toda coluna de \(\mathbb {K}^n\) é a coluna de coordenadas de algum vetor de \(V\), segue que

\[ \displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{x}}\to \underline{\textsc{y}}}\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{y}}\to \underline{\textsc{x}}}=I_n, \qquad \displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{y}}\to \underline{\textsc{x}}}\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{x}}\to \underline{\textsc{y}}}=I_n. \]

Portanto, toda matriz de mudança de base é invertível e

\begin{equation} \label{eq:mudanca-base-inversa} \displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{x}}\to \underline{\textsc{y}}}=\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{y}}\to \underline{\textsc{x}}}^{-1}. \tag{2.18} \end{equation}

No Exemplo 2.75, por exemplo,

\[ \displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{B}}\to \underline{\textsc{E}}}=\begin{bmatrix} 1 & 1 \\ 1 & 2 \end{bmatrix}, \qquad \displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{E}}\to \underline{\textsc{B}}}=\begin{bmatrix} 2 & -1 \\ -1 & 1 \end{bmatrix}. \]

A segunda matriz permite recuperar as coordenadas na base \(\underline{\textsc{B}}\) a partir das coordenadas usuais: ela leva \((3,5)^{\mathrm{t}}\) a \((1,2)^{\mathrm{t}}\).

Se \(\underline{\textsc{w}}\) é uma terceira base, o mesmo argumento fornece

\begin{equation} \label{eq:mudanca-base-composicao} \displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{y}}\to \underline{\textsc{w}}}\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{x}}\to \underline{\textsc{y}}}=\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{x}}\to \underline{\textsc{w}}}. \tag{2.19} \end{equation}

O fator da direita faz a primeira mudança, de \(\underline{\textsc{x}}\) para \(\underline{\textsc{y}}\); o da esquerda faz a segunda, de \(\underline{\textsc{y}}\) para \(\underline{\textsc{w}}\). O produto realiza a passagem direta de \(\underline{\textsc{x}}\) para \(\underline{\textsc{w}}\).

Exemplo 2.78 (Coordenadas de um polinômio)
Seja \(V=\mathbb {K}_3[x]\) o espaço dos polinômios de grau menor ou igual a \(3\). Considere as bases ordenadas
\[ \underline{\textsc{B}}=(p_1,p_2,p_3,p_4)=(1,x,x^2,x^3) \]
e
\[ \underline{\textsc{C}}=(q_1,q_2,q_3,q_4) =(1,x-1,(x-1)^2,(x-1)^3). \]
Para passar de coordenadas na base \(\underline{\textsc{C}}\) para coordenadas na base \(\underline{\textsc{B}}\), escrevemos cada \(q_i\) como combinação dos \(p_j\):
\begin{align*} q_1& =p_1,\\ q_2& =-p_1+p_2,\\ q_3& =p_1-2p_2+p_3,\\ q_4& =-p_1+3p_2-3p_3+p_4. \end{align*}
Os coeficientes de cada linha formam uma coluna da matriz:
\[ \displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{C}}\to \underline{\textsc{B}}}=\begin{bmatrix} 1 & -1 & 1 & -1 \\ 0 & 1 & -2 & 3 \\ 0 & 0 & 1 & -3 \\ 0 & 0 & 0 & 1 \end{bmatrix}. \]
Para a passagem inversa, podemos inverter essa matriz ou escrever \(x=(x-1)+1\) e desenvolver as potências de \(x\). Assim,
\[ \displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{B}}\to \underline{\textsc{C}}}=\begin{bmatrix} 1 & 1 & 1 & 1 \\ 0 & 1 & 2 & 3 \\ 0 & 0 & 1 & 3 \\ 0 & 0 & 0 & 1 \end{bmatrix}. \]
Por exemplo, para \(r(x)=x^2+2x+3\), temos
\[ [r]_{\underline{\textsc{B}}}=\begin{bmatrix} 3 \\ 2 \\ 1 \\ 0 \end{bmatrix}, \qquad [r]_{\underline{\textsc{C}}}=\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{B}}\to \underline{\textsc{C}}}[r]_{\underline{\textsc{B}}} =\begin{bmatrix} 6 \\ 4 \\ 1 \\ 0 \end{bmatrix}. \]
A segunda coluna de coordenadas expressa a identidade
\[ x^2+2x+3=6+4(x-1)+(x-1)^2. \]
Novamente, o polinômio não mudou; apenas sua expressão na base escolhida.

2.6.2 Espaços Linha e Coluna

Seja \(A\in \mathcal{M}_{m, n}(\mathbb {K})\). Suas linhas geram um subespaço de \(\mathcal{M}_{1, n}(\mathbb {K})\), denominado espaço de linhas de \(A\) e denotado por \(\operatorname {EspLin}(A)\). Suas colunas geram um subespaço de \(\mathbb {K}^m\), denominado espaço de colunas de \(A\) e denotado por \(\operatorname {EspCol}(A)\).

As dimensões desses espaços são denominadas posto por linha e posto por coluna, respectivamente. Denotamos o posto por linha por \( \operatorname {posto}_l (A) \) e o posto por coluna por \( \operatorname {posto}_c(A) \).

Demonstraremos que o posto por linha é igual ao posto por coluna, embora, quando \(m\neq n\), os dois espaços pertençam a ambientes diferentes.

Nossa demonstração desse fato depende da seguinte proposição sobre matrizes.

Proposição 2.79
Seja \(A\in \mathcal{M}_{m, n}(\mathbb {K})\). Operações elementares por linhas ou por colunas não alteram nem o posto por linha nem o posto por coluna de \(A\).

Demonstração

Uma operação elementar por linhas equivale a substituir \(A\) por \(EA\), onde \(E\) é invertível. As linhas de \(EA\) são combinações invertíveis das linhas de \(A\), portanto \(\operatorname {EspLin}(EA)=\operatorname {EspLin}(A)\). Além disso, as colunas de \(EA\) são as imagens, pelo automorfismo \(\bm {x}\mapsto E\bm {x}\) de \(\mathbb {K}^m\), das colunas de \(A\); logo seus espaços têm a mesma dimensão.

De modo análogo, uma operação elementar por colunas substitui \(A\) por \(AF\), com \(F\) invertível. Ela faz combinações invertíveis das colunas e aplica o automorfismo \(\bm {x}\mapsto \bm {x}F\) de \(\mathcal{M}_{1, n}(\mathbb {K})\) às linhas. Assim, preserva os dois postos.

Teorema 2.80
Se \(A\in \mathcal{M}_{m, n}(\mathbb {K})\), então \(\operatorname {posto}_l(A)=\operatorname {posto}_c(A)\). Esse número é o posto de \(A\) e será denotado por \(\operatorname {posto}(A)\).

Demonstração

Por operações elementares por linhas e colunas, podemos reduzir \(A\) a uma matriz em blocos da forma \(M=\left[\begin{smallmatrix} I_r & 0 \\ 0 & 0 \end{smallmatrix}\right]\). Pela proposição anterior, nenhum dos dois postos se altera durante o processo. As primeiras \(r\) linhas e as primeiras \(r\) colunas de \(M\) são linearmente independentes, e todas as demais são nulas. Portanto,

\[ \operatorname {posto}_l (A) = \operatorname {posto}_l (M) = \operatorname {posto}_c(M) = \operatorname {posto}_c (A) \]

como desejado.

Exercício 2.57

Seja \(\mathbb {K}_n[x]\) o espaço dos polinômios de grau no máximo \(n\) com coeficientes em \(\mathbb {K}\). Mostre que:

  1. \((1,x,\ldots ,x^n)\) é uma base de \(\mathbb {K}_n[x]\). As coordenadas de um polinômio nessa base são seus coeficientes.

  2. \((1,x-a,(x-a)^2,\ldots ,(x-a)^n)\) é uma base de \(\mathbb {K}_n[x]\). Se \(\operatorname {char}(\mathbb {K})=0\) ou \(\operatorname {char}(\mathbb {K})=p\gt n\), mostre que

    \[ [f]_{(1,x-a,\ldots ,(x-a)^n)} =\left(f(a),f'(a),\frac{f''(a)}{2!},\ldots , \frac{f^{(n)}(a)}{n!}\right)^{\mathrm{t}}. \]

Exercício 2.58
  1. Verifique que \(\underline{\textsc{B}}=(1+x,1+x^2,1+2x-2x^2)\) é uma base de \(\mathbb {K}_2[x]\).

  2. Calcule os vetores de coordenadas \([1]_{\underline{\textsc{B}}}\), \([x]_{\underline{\textsc{B}}}\) e \([x^2]_{\underline{\textsc{B}}}\).

Exercício 2.59

Sejam \( \vec{f}_{1} (x) = - \displaystyle \frac{1}{6} (x-1) (x-2) (x-3), \ \vec{f}_{2} (x) = \displaystyle \frac{1}{2} x (x-2) (x-3), \ \vec{f}_{3} (x) = - \displaystyle \frac{1}{2} x (x-1) (x-3), \vec{f}_{4} (x) = \displaystyle \frac{1}{6} x (x-1) (x-2) \).

  1. Prove que \(\underline{\textsc{B}}=(\vec f_1,\vec f_2,\vec f_3,\vec f_4)\) é uma base de \(\mathbb {R}_3[x]\).

  2. Se \(g(x)\in \mathbb {R}_3[x]\), prove que \([g]_{\underline{\textsc{B}}}=\left[\begin{array}{c} g (0) \\ g (1) \\ g (2) \\ g (3) \end{array}\right] \)

Exercício 2.60

Seja \(\underline{\textsc{B}}=(\vec f_1,\vec f_2,\vec f_3,\vec f_4)\) a base de \(\mathbb {R}_3[x]\) do exercício anterior. Calcule, em relação a \(\underline{\textsc{B}}\), os vetores de coordenadas dos elementos da base canônica \((1,x,x^2,x^3)\).

Exercício 2.61

Seja \(\underline{\textsc{B}}\) uma base de um espaço vetorial \(V\) de dimensão finita \(n\) sobre \(\mathbb {K}\), e sejam \(\bm {u}_1,\ldots ,\bm {u}_k\in V\). Prove que \(\langle \bm {u}_1,\ldots ,\bm {u}_k\rangle =V\) se, e somente se, \(\langle [\bm {u}_1]_{\underline{\textsc{B}}},\ldots ,[\bm {u}_k]_{\underline{\textsc{B}}}\rangle =\mathbb {K}^n\).

Exercício 2.62

Seja \(\underline{\textsc{B}}\) uma base de um espaço vetorial \(V\) de dimensão \(n\) sobre \(\mathbb {K}\), e sejam \(\bm {u}_1,\ldots ,\bm {u}_n\in V\). Prove que \((\bm {u}_1,\ldots ,\bm {u}_n)\) é uma base de \(V\) se, e somente se, \(([\bm {u}_1]_{\underline{\textsc{B}}},\ldots ,[\bm {u}_n]_{\underline{\textsc{B}}})\) é uma base de \(\mathbb {K}^n\).

2.7 Bandeiras

Definição 2.81 (Bandeira)
Uma bandeira em \(V\) é uma sequência ascendente de subespaços \(V_0\subset V_1\subset \cdots \subset V_n\).

O número \(n\) é o comprimento da bandeira.

Definição 2.82 (Bandeira Maximal Finita)
Uma bandeira finita
\[ \{ 0\} =V_0\subsetneq V_1\subsetneq \cdots \subsetneq V_n=V \]
é dita maximal se nenhum subespaço puder ser inserido estritamente entre \(V_i\) e \(V_{i+1}\). Isto é, se \(V_i\subseteq W\subseteq V_{i+1}\), então \(W=V_i\) ou \(W=V_{i+1}\).

Exemplo 2.83

No espaço \(\mathbb {K}_n[x]\) dos polinômios de grau no máximo \(n\), temos a bandeira maximal

\[ \{ \vec0\} \subsetneq \mathbb {K}_0[x]\subsetneq \mathbb {K}_1[x]\subsetneq \cdots \subsetneq \mathbb {K}_n[x]. \]

Uma bandeira de comprimento \(n\) pode ser construída a partir de uma base ordenada \(\underline{\textsc{e}}=(\bm {e}_1,\ldots ,\bm {e}_n)\): basta definir \(V_0=\{ \vec0\} \) e \(V_i=\langle \bm {e}_1,\ldots ,\bm {e}_i\rangle \) para \(i=1,\ldots ,n\). Essa é a bandeira canônica associada à base \(\underline{\textsc{e}}\).

Essa bandeira é maximal. Reciprocamente, em dimensão finita, toda bandeira maximal é obtida desse modo.

Teorema 2.84
Se \(V\) tem dimensão finita, então sua dimensão é igual ao comprimento de qualquer bandeira maximal finita.

Demonstração

Seja \(\{ 0\} =V_0\subsetneq V_1\subsetneq \cdots \subsetneq V_n=V\) uma bandeira maximal. Para cada \(i=1,\ldots ,n\), selecione \(\vec e_i\in V_i\setminus V_{i-1}\). Mostraremos que \(\{ \vec e_1,\ldots ,\vec e_i\} \) é uma base de \(V_i\).

Como \(\langle \bm {e}_1,\ldots ,\bm {e}_{i-1}\rangle \subseteq V_{i-1}\) e \(\bm {e}_i\notin V_{i-1}\), uma indução mostra que \(\{ \bm {e}_1,\ldots ,\bm {e}_i\} \) é linearmente independente para todo \(i\).

Mostraremos também, por indução, que esses vetores geram \(V_i\). Suponha que \(V_{i-1}=\langle \bm {e}_1,\ldots ,\bm {e}_{i-1}\rangle \) e ponha \(V'=\langle \bm {e}_1,\ldots ,\bm {e}_i\rangle \). Então \(V_{i-1}\subsetneq V'\subseteq V_i\). Pela maximalidade da bandeira, não há subespaço estritamente intermediário, logo \(V'=V_i\).

Para \(i=n\), obtemos uma base \(\{ \bm {e}_1,\ldots ,\bm {e}_n\} \) de \(V\). Portanto, \(n=\dim V\).

Toda bandeira em um espaço de dimensão finita pode ser estendida a uma bandeira maximal; em particular, seu comprimento não excede \(\dim V\). De fato, cada inclusão estrita permite escolher um novo vetor linearmente independente dos anteriores, e esse processo não pode produzir mais que \(\dim V\) vetores.

Dizemos que um espaço vetorial satisfaz a condição da cadeia ascendente (acc) se toda sequência ascendente de subespaços

\[ W_1\subseteq W_2\subseteq W_3\subseteq \cdots \]

se estabiliza, isto é, se existe \(n\) tal que \(W_n=W_{n+1}=W_{n+2}=\cdots \). De modo análogo, \(V\) satisfaz a condição da cadeia descendente (dcc) se toda sequência

\[ W_1\supseteq W_2\supseteq W_3\supseteq \cdots \]

se estabiliza.

Teorema 2.85

Seja \(V\) um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\). Então, são equivalentes:

  1. \(V\) é de dimensão finita;

  2. \(V\) tem uma bandeira maximal finita;

  3. \(V\) satisfaz a condição da cadeia ascendente (acc);

  4. \(V\) satisfaz a condição da cadeia descendente (dcc).

A demonstração das equivalências é proposta nos exercícios a seguir.

Exercício 2.63

Seja \(V\) um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\). Mostre que são equivalentes:

  1. \(V\) é de dimensão finita;

  2. \(V\) tem uma bandeira maximal finita;

  3. o reticulado de subespaços de \(V\) satisfaz a condição da cadeia ascendente;

  4. o reticulado de subespaços de \(V\) satisfaz a condição da cadeia descendente.

Exercício 2.64

Seja \(0=V_{0}\subsetneq V_{1}\subsetneq \ldots \subsetneq V_{n}=W_{1}\) uma bandeira maximal para \(W_{1}\) e \(0=L_{0}\subsetneq L_{1}\subsetneq \ldots \subsetneq L_{m}=W_{2}\) uma bandeira maximal para \(W_{2}\). Mostre que

\[ 0=V_{0}\subsetneq V_{1}\subsetneq \ldots \subsetneq V_{n}\subsetneq V_{n}\oplus L_{1}\subsetneq V_{n}\oplus L_{2}\subsetneq \ldots \subsetneq V_{n}\oplus L_{m}=W_{1}\oplus W_{2}=V \]

é uma bandeira maximal para \(V=W_{1}\oplus W_{2}\). Conclua, mais uma vez, que a soma direta de espaços vetoriais de dimensão finita tem dimensão igual à soma das dimensões.