Capítulo 1

Estruturas Algébricas e Polinômios

Estruturas algébricas são conjuntos munidos de operações que satisfazem certos axiomas. Anéis e corpos são exemplos dessas estruturas, e suas propriedades determinam quais regras de cálculo podemos empregar. Na Álgebra Linear, os elementos de um corpo servem de escalares, enquanto os polinômios de \(\mathbb {K}[x]\) permitem estudar operadores lineares.

A teoria de grupos e os grupos de permutações serão tratados no capítulo de determinantes, em conexão com a paridade das permutações e a fórmula de Leibniz.

1.1 Operações e estruturas algébricas

Para definir uma estrutura algébrica, especificamos as operações em um conjunto e as leis que elas devem satisfazer. Esse procedimento se aplica à adição de números, à composição de aplicações, à multiplicação de matrizes e às operações de um espaço vetorial.

Definição 1.1 (Operação binária)
Seja \(A\) um conjunto não vazio. Uma operação binária interna em \(A\) é uma função
\[ \mu :A\times A\longrightarrow A. \]
Se \(B\) é outro conjunto, uma função \(B\times A\to A\) será chamada de operação externa em \(A\). A multiplicação de vetores por escalares, \(\mathbb {K}\times V\to V\), é o exemplo fundamental neste livro.

Em geral, escrevemos \(a\cdot b\), \(a+b\) ou simplesmente \(ab\) em lugar de \(\mu (a,b)\). O par \((A,\mu )\) indica que o conjunto \(A\) está sendo considerado juntamente com a operação \(\mu \).

Exemplos 1.2
  1. A adição, a multiplicação e a subtração são operações binárias em \(\mathbb {Z}\). A divisão não é: além de \(1/2\notin \mathbb {Z}\), a expressão \(1/0\) nem sequer está definida.

  2. A união e a interseção são operações binárias no conjunto das partes \(\mathscr P(X)\).

  3. Se \(X^X\) denota o conjunto das aplicações de \(X\) em \(X\), a composição é uma operação binária em \(X^X\).

  4. A multiplicação usual não é uma operação binária no conjunto das matrizes retangulares \(m\times n\) quando \(m\neq n\), mas é uma operação em \(M_n(\mathbb {K})\).

Quando \(A\) é finito, uma operação binária pode ser apresentada por uma tabela de Cayley. Adotaremos a convenção de colocar \(\mu (a,b)\) na linha de \(a\) e na coluna de \(b\).

Exemplo 1.3
No conjunto \(A=\{ P,I\} \), cujos símbolos representam as paridades par e ímpar, a adição de paridades é descrita pela tabela
\[ \begin{array}{c|cc} +& P& I\\ \hline P& P& I\\ I& I& P \end{array}. \]
Ela resume, por exemplo, que a soma de dois inteiros ímpares é par.

1.1.1 Leis algébricas

Definição 1.4 (Associatividade e comutatividade)
Uma operação em \(A\) é associativa quando
\[ (ab)c=a(bc) \]
para quaisquer \(a,b,c\in A\), e é comutativa quando \(ab=ba\) para quaisquer \(a,b\in A\).

A associatividade permite escrever \(a_1a_2\cdots a_n\) sem especificar a posição dos parênteses. Ela não permite, contudo, alterar a ordem dos fatores: essa possibilidade depende da comutatividade.

Exemplos 1.5
  1. A adição e a multiplicação de números são associativas e comutativas.

  2. A composição de aplicações e a multiplicação de matrizes são associativas, mas em geral não são comutativas.

  3. A subtração não é associativa, pois normalmente \((a-b)-c\neq a-(b-c)\).

Definição 1.6 (Identidade e inverso)
Seja \(A\) um conjunto com uma operação binária. Um elemento \(e\in A\) é uma identidade quando \(ea=ae=a\) para todo \(a\in A\). Se a operação possui identidade, um elemento \(b\in A\) é um inverso de \(a\) quando \(ab=ba=e\).

Proposição 1.7 (Unicidade da identidade e dos inversos)
Uma operação possui no máximo uma identidade. Se, além disso, a operação é associativa, cada elemento possui no máximo um inverso.

Demonstração

Se \(e\) e \(e'\) são identidades, então \(e=ee'=e'\). Agora suponha que \(b\) e \(c\) sejam inversos de \(a\). Pela associatividade,

\[ b=b e=b(ac)=(ba)c=e c=c. \]

Logo, tanto a identidade quanto o inverso, quando existem, são únicos.

1.1.2 Estruturas e aplicações que as preservam

Definição 1.8 (Estrutura algébrica)
Uma estrutura algébrica consiste em um conjunto, uma coleção de operações e uma lista de axiomas que essas operações devem satisfazer.

Escolhas diferentes de operações e axiomas dão origem a estruturas distintas. Estudaremos aqui aquelas que intervêm na descrição dos escalares e dos polinômios.

Definição 1.9 (Homomorfismo e isomorfismo)
Um homomorfismo entre duas estruturas do mesmo tipo é uma aplicação que preserva suas operações. Quando a estrutura inclui constantes distinguidas, a definição deve especificar se elas também são preservadas. Por exemplo, se \(f:A\to B\) preserva uma operação binária, então
\[ f(x\cdot y)=f(x)\cdot f(y). \]
Um homomorfismo bijetivo é chamado de isomorfismo. Estruturas isomorfas possuem as mesmas propriedades algébricas, embora seus elementos possam ter naturezas diferentes.

Definição 1.10 (Operação induzida)
Seja \((A,\cdot )\) um conjunto com uma operação binária e seja \(\phi :A\to B\) uma bijeção. A operação induzida em \(B\) é definida por
\[ \phi (a_1)*\phi (a_2)=\phi (a_1\cdot a_2). \]
Equivalentemente,
\[ b_1*b_2=\phi \bigl(\phi ^{-1}(b_1)\cdot \phi ^{-1}(b_2)\bigr). \]
Com essa operação, \(\phi \) torna-se automaticamente um isomorfismo.

A definição anterior é frequentemente chamada de transporte de estrutura. Ela é expressa pelo diagrama comutativo Ilustração: Estruturas e aplicações que as preservam Comutatividade significa que os dois caminhos de \(A\times A\) até \(B\) produzem o mesmo resultado.

Exercício 1.1

Seja \(\circ \) uma operação associativa em \(A\) e fixe \(x\in A\). Defina \(a\circ _x b=a\circ (x\circ b)\). Mostre que \(\circ _x\) é associativa.

Exercício 1.2

Construa uma operação em um conjunto de três elementos que possua identidade, mas não seja associativa. Apresente-a por meio de uma tabela de Cayley.

Exercício 1.3

Seja \((A,\cdot )\) um conjunto com uma operação associativa e com identidade. Mostre que \(ab=e\) não implica necessariamente \(ba=e\). Dê um exemplo usando composição de aplicações de um conjunto infinito em si mesmo.

Exercício 1.4

Seja \(\phi :A\to B\) uma bijeção e transporte para \(B\) uma operação associativa em \(A\). Mostre que a operação induzida em \(B\) também é associativa. Verifique o mesmo para comutatividade, identidade e inversos.

1.2 Anéis

Os anéis reúnem duas operações, adição e multiplicação, sem exigir que todo elemento não nulo possua inverso multiplicativo. Essa é a estrutura natural dos números inteiros, das matrizes quadradas e, sobretudo, dos polinômios.

Definição 1.11 (Anel)
Um anel com identidade é um conjunto \(R\), munido de uma adição e de uma multiplicação, com \(0\neq 1\), que satisfaz as seguintes propriedades:
  1. a adição é associativa e comutativa;

  2. existe \(0\in R\) tal que \(a+0=0+a=a\) para todo \(a\in R\);

  3. para cada \(a\in R\), existe \(-a\in R\) tal que \(a+(-a)=0\);

  4. a multiplicação é associativa;

  5. \(1a=a1=a\) para todo \(a\in R\);

  6. a multiplicação é distributiva em relação à adição:

    \[ a(b+c)=ab+ac, \qquad (a+b)c=ac+bc. \]
O anel é comutativo quando \(ab=ba\) para quaisquer \(a,b\in R\).

Neste livro, a palavra anel sempre significará anel com identidade. Não exigiremos, contudo, que um homomorfismo entre anéis preserve a identidade, a menos que isso seja mencionado explicitamente.

Exemplos 1.12
  1. Os inteiros, com as operações usuais, formam o anel comutativo \(\mathbb {Z}\).

  2. Se \(\mathbb {K}\) é um corpo, então \(M_n(\mathbb {K})\) é um anel com a adição e a multiplicação de matrizes. Para \(n\geq 2\), esse anel não é comutativo.

  3. O conjunto \(2\mathbb {Z}\) é fechado por adição e multiplicação, mas não é um subanel de \(\mathbb {Z}\) segundo nossa convenção, pois não contém a identidade \(1\).

Definição 1.13 (Divisor de zero e domínio de integridade)
Um elemento não nulo \(a\in R\) é um divisor de zero se existe \(b\neq 0\) tal que \(ab=0\) ou \(ba=0\). Um domínio de integridade é um anel comutativo sem divisores de zero.

Assim, \(\mathbb {Z}\) é um domínio de integridade. O anel \(M_n(\mathbb {K})\), para \(n\geq 2\), possui divisores de zero: por exemplo, em \(M_2(\mathbb {K})\),

\[ \begin{bmatrix} 1 & 0 \\ 0 & 0 \end{bmatrix} \begin{bmatrix} 0 & 0 \\ 0 & 1 \end{bmatrix}=0. \]

Definição 1.14 (Subanel e ideal)
Seja \(R\) um anel.
  1. Um subconjunto \(S\subseteq R\) é um subanel quando contém \(1\) e é fechado por subtração e multiplicação.

  2. Um subconjunto não vazio \(I\subseteq R\) é um ideal bilateral quando é fechado por subtração e

    \[ r a\in I, \qquad a r\in I \]

    para quaisquer \(a\in I\) e \(r\in R\).

Em anéis comutativos, as duas condições de absorção coincidem e diremos simplesmente ideal.

Exemplos 1.15
  1. Para cada inteiro \(m\), o conjunto \(m\mathbb {Z}\) é um ideal de \(\mathbb {Z}\).

  2. Os conjuntos \(\{ 0\} \) e \(R\) são ideais de qualquer anel \(R\).

  3. Se \(\mathbb {K}\) é um corpo, seus únicos ideais são \(\{ 0\} \) e \(\mathbb {K}\). De fato, se um ideal \(I\) contém \(a\neq 0\), então contém \(a^{-1}a=1\) e, consequentemente, contém todo elemento de \(\mathbb {K}\).

Definição 1.16 (Ideal gerado)
Se \(A\subseteq R\), o ideal bilateral gerado por \(A\), denotado por \(\langle A\rangle \), é a interseção de todos os ideais de \(R\) que contêm \(A\). Equivalentemente,
\[ \langle A\rangle =\left\{ \sum _{i=1}^{m}r_i a_i s_i: m\geq 0,\ r_i,s_i\in R,\ a_i\in A\right\} . \]
Se \(R\) é comutativo, essa expressão se reduz às somas finitas \(\sum _i r_i a_i\).

Quando \(A=\{ a\} \), escrevemos simplesmente \(\langle a\rangle \) e dizemos que esse ideal é principal.

Definição 1.17 (Domínio de ideais principais)
Um domínio de ideais principais, ou PID, é um domínio de integridade no qual todo ideal é principal.

Mais adiante provaremos que \(\mathbb {K}[x]\) é um domínio de ideais principais. Essa propriedade permitirá interpretar o máximo divisor comum de dois polinômios como o gerador de um ideal.

1.3 Corpos

Os corpos são os sistemas de escalares da Álgebra Linear. Neles podemos realizar as quatro operações aritméticas, com a única restrição habitual de que não se pode dividir por zero.

Definição 1.18 (Corpo)
Um corpo \(\mathbb {K}\) é um anel comutativo no qual todo elemento não nulo possui inverso multiplicativo.

Exemplos 1.19
  1. Os conjuntos \(\mathbb {Q}\), \(\mathbb {R}\) e \(\mathbb {C}\), com as operações usuais, são corpos e \(\mathbb {Q}\subseteq \mathbb {R}\subseteq \mathbb {C}\).

  2. Os inteiros não formam um corpo: por exemplo, \(2\) não possui inverso multiplicativo em \(\mathbb {Z}\).

  3. Para \(n\geq 2\), o anel \(M_n(\mathbb {K})\) não é um corpo. Sua multiplicação não é comutativa e existem matrizes não nulas que não são invertíveis.

Exemplo 1.20
Considere
\[ \mathbb {Q}(\sqrt2)=\{ a+b\sqrt2:a,b\in \mathbb {Q}\} . \]
Esse conjunto é fechado por soma, diferença e produto. Se \(a+b\sqrt2\neq 0\), então \(a^2-2b^2\neq 0\) e
\[ (a+b\sqrt2)^{-1}=\frac{a-b\sqrt2}{a^2-2b^2} \in \mathbb {Q}(\sqrt2). \]
De fato, a igualdade \(a^2=2b^2\), com \(b\neq 0\), implicaria que \(a/b=\sqrt2\) fosse racional. Portanto, \(\mathbb {Q}(\sqrt2)\) é um corpo.

Exemplo 1.21
Se \(p\) é primo, o conjunto das classes de congruência módulo \(p\),
\[ \mathbb {Z}/p\mathbb {Z}=\{ \overline0,\overline1,\ldots ,\overline{p-1}\} , \]
é um corpo com as operações módulo \(p\). Ele será denotado também por \(\mathbb F_p\) ou \(\mathbb {Z}_p\). A primalidade de \(p\) é essencial: se \(n=ab\) com \(1\lt a,b\lt n\), então \(\overline a\, \overline b=\overline0\) em \(\mathbb {Z}/n\mathbb {Z}\), embora os dois fatores sejam não nulos. Para \(p\) primo, por outro lado, multiplicar as classes não nulas por uma classe fixa não nula apenas as permuta; em particular, alguma delas é enviada a \(\overline1\), fornecendo o inverso multiplicativo.

Proposição 1.22 (Propriedades elementares)
Se \(a,b\in \mathbb {K}\), então:
  1. \(a0=0a=0\);

  2. \(a(-b)=(-a)b=-(ab)\);

  3. \((-a)(-b)=ab\);

  4. se \(ab=0\), então \(a=0\) ou \(b=0\);

  5. se \(a\neq 0\) e \(ab=ac\), então \(b=c\).

Demonstração

Pela distributividade,

\[ a0=a(0+0)=a0+a0. \]

Somando o oposto de \(a0\) aos dois lados, obtemos \(a0=0\); analogamente, \(0a=0\). Além disso,

\[ ab+a(-b)=a(b-b)=a0=0, \]

de modo que \(a(-b)=-(ab)\). A igualdade \((-a)b=-(ab)\) é semelhante, e aplicá-la duas vezes fornece \((-a)(-b)=ab\).

Se \(ab=0\) e \(a\neq 0\), multiplicar por \(a^{-1}\) dá \(b=0\). Finalmente, de \(ab=ac\) segue \(a(b-c)=0\); se \(a\neq 0\), a propriedade anterior implica \(b-c=0\), isto é, \(b=c\).

Definição 1.23 (Subcorpo)
Um subconjunto \(\mathbb {F}\subseteq \mathbb {K}\) é um subcorpo quando é um corpo com as operações herdadas de \(\mathbb {K}\). Nesse caso, dizemos também que \(\mathbb {K}\) é uma extensão de \(\mathbb {F}\).

Por exemplo, \(\mathbb {Q}\) é subcorpo de \(\mathbb {R}\), que é subcorpo de \(\mathbb {C}\). As identidades aditiva e multiplicativa de um subcorpo coincidem com as do corpo que o contém.

Definição 1.24 (Característica)
A característica de um corpo \(\mathbb {K}\) é o menor inteiro positivo \(n\) para o qual
\[ \underbrace{1+\cdots +1}_{n\text{ parcelas}}=0, \]
se tal inteiro existir. Caso contrário, dizemos que \(\mathbb {K}\) tem característica zero.

Proposição 1.25
A característica de um corpo é zero ou um número primo.

Demonstração

Suponha que a característica seja \(n\gt 0\). Se \(n=rs\), com \(1\lt r,s\lt n\), então

\[ (r\cdot 1)(s\cdot 1)=n\cdot 1=0. \]

Pela minimalidade de \(n\), os dois fatores são não nulos, contradizendo a ausência de divisores de zero. Logo, \(n\) é primo.

Os corpos \(\mathbb {Q}\), \(\mathbb {R}\) e \(\mathbb {C}\) têm característica zero, enquanto \(\mathbb F_p\) tem característica \(p\).

Em característica \(p\), um inteiro \(m\) representa o escalar \(m\cdot 1\). Assim, uma divisão por \(m\) só é permitida quando \(p\) não divide \(m\).

Exercício 1.5

Considere o conjunto \(\mathbb {K}=\{ 0,1\} \) com as operações dadas pelas tabelas

\[ \begin{array}{c|cc} +& 0& 1\\ \hline 0& 0& 1\\ 1& 1& 0 \end{array} \qquad \begin{array}{c|cc} \cdot & 0& 1\\ \hline 0& 0& 0\\ 1& 0& 1 \end{array}. \]

Verifique que \(\mathbb {K}\) é um corpo e identifique sua característica.

Exercício 1.6

Seja \(\mathbb {K}\) um corpo. Demonstre diretamente que:

  1. \(-a=(-1)a\);

  2. \((-a)(-b)=ab\);

  3. se \(a\neq 0\) e \(ab=ac\), então \(b=c\);

  4. \((ab)^{-1}=a^{-1}b^{-1}\) quando \(a,b\neq 0\).

Exercício 1.7

Prove que \(\mathbb {Q}(\sqrt2)\) é um corpo. Em seguida, determine o inverso de \(3+2\sqrt2\).

Exercício 1.8

Seja \(d\) um inteiro positivo que não é quadrado perfeito. Mostre que \(\mathbb {Q}(\sqrt d)=\{ a+b\sqrt d:a,b\in \mathbb {Q}\} \) é um corpo.

Exercício 1.9

Mostre que todo subcorpo de \(\mathbb {C}\) contém uma cópia de \(\mathbb {Q}\).

Exercício 1.10

Mostre que um corpo de característica zero é infinito.

Exercício 1.11

Seja \(\mathbb {K}\) um corpo de característica \(p\gt 0\). Mostre que a aplicação \(\mathbb F_p\to \mathbb {K}\), definida por \(\overline m\mapsto m\cdot 1\), é um homomorfismo injetivo. Assim, todo corpo de característica \(p\) contém uma cópia de \(\mathbb F_p\).

Exercício 1.12

Determine quais dos anéis \(\mathbb {Z}/4\mathbb {Z}\), \(\mathbb {Z}/5\mathbb {Z}\) e \(\mathbb {Z}/6\mathbb {Z}\) são corpos. Nos demais casos, exiba divisores de zero não nulos.

1.4 O anel de polinômios

Seja \(\mathbb {K}\) um corpo. Um polinômio com coeficientes em \(\mathbb {K}\) é uma soma formal

\[ p(x)=\sum _{j=0}^{m}a_jx^j, \qquad a_j\in \mathbb {K}, \]

na qual apenas um número finito de coeficientes é não nulo. Dois polinômios são iguais quando possuem os mesmos coeficientes. O conjunto de todos eles é denotado por \(\mathbb {K}[x]\).

Definição 1.26 (Grau)
Se \(p\neq 0\), o grau de \(p\) é o maior índice \(m\) para o qual \(a_m\neq 0\) e será denotado por \(\deg p\). O termo \(a_mx^m\) é o termo principal e \(a_m\) é o coeficiente principal. O polinômio é mônico quando \(a_m=1\). Adotaremos a convenção \(\deg 0=-\infty \).

A soma e o produto são definidos coeficiente a coeficiente por

\[ \left(\sum _{i\geq 0}a_ix^i\right)+ \left(\sum _{i\geq 0}b_ix^i\right) =\sum _{i\geq 0}(a_i+b_i)x^i \]

e

\[ \left(\sum _{i\geq 0}a_ix^i\right) \left(\sum _{j\geq 0}b_jx^j\right) =\sum _{\ell \geq 0}\left(\sum _{i+j=\ell }a_ib_j\right)x^\ell . \]

As somas são finitas porque os polinômios têm apenas um número finito de coeficientes não nulos.

Exemplo 1.27
Em \(\mathbb {Q}[x]\),
\[ (2x^2-x+1)(x+3)=2x^3+5x^2-2x+3. \]
O coeficiente de \(x^2\), por exemplo, é \(2\cdot 3+(-1)\cdot 1=5\).

Proposição 1.28
O conjunto \(\mathbb {K}[x]\), com essas operações, é um domínio de integridade. Se \(f,g\neq 0\), então
\[ \deg (fg)=\deg f+\deg g. \]
Consequentemente, as unidades de \(\mathbb {K}[x]\) são exatamente os polinômios constantes não nulos.

Demonstração

As propriedades de anel seguem diretamente das propriedades das operações em \(\mathbb {K}\) e das definições dos coeficientes da soma e do produto. Se os termos principais de \(f\) e \(g\) são \(a_mx^m\) e \(b_nx^n\), o termo principal de \(fg\) é \(a_mb_nx^{m+n}\). Como \(\mathbb {K}\) não possui divisores de zero, \(a_mb_n\neq 0\). Portanto, \(fg\neq 0\) e \(\deg (fg)=m+n\).

Se \(fg=1\), a igualdade dos graus fornece \(\deg f+\deg g=0\); logo, ambos são constantes não nulas. Reciprocamente, toda constante não nula é invertível porque pertence ao corpo \(\mathbb {K}\).

Para \(m\geq 0\), denotaremos por \(\mathbb {K}_{(m)}[x]\) o conjunto dos polinômios de grau no máximo \(m\), incluindo o polinômio zero. No próximo capítulo veremos que esse conjunto é um espaço vetorial de dimensão \(m+1\).

1.5 Divisão euclidiana e máximo divisor comum

Nos inteiros, a divisão com resto sustenta o algoritmo de Euclides. A mesma estrutura existe em \(\mathbb {K}[x]\), com o grau ocupando o papel desempenhado pelo valor absoluto.

Teorema 1.29 (Divisão Euclidiana)
Sejam \(f,g\in \mathbb {K}[x]\), com \(g\neq 0\). Existem únicos polinômios \(q,r\in \mathbb {K}[x]\) tais que
\[ f=gq+r, \qquad r=0\quad \text{ou}\quad \deg r\lt \deg g. \]

Demonstração

Provaremos a existência por indução forte sobre \(\deg f\). Se \(f=0\) ou \(\deg f\lt \deg g\), podemos tomar, respectivamente, \((q,r)=(0,0)\) ou \((q,r)=(0,f)\).

Suponha agora que \(f\) e \(g\) tenham termos principais \(a_nx^n\) e \(b_mx^m\), com \(n\geq m\). O polinômio

\[ h=f-a_nb_m^{-1}x^{n-m}g \]

é nulo ou possui grau menor que \(n\). Pela hipótese de indução, \(h=gq_1+r\), com \(r=0\) ou \(\deg r\lt m\). Assim,

\[ f=g\bigl(q_1+a_nb_m^{-1}x^{n-m}\bigr)+r, \]

o que prova a existência.

Para a unicidade, suponha que \(f=gq_1+r_1=gq_2+r_2\), com \(r_i=0\) ou \(\deg r_i\lt \deg g\), para \(i=1,2\). Então

\[ g(q_1-q_2)=r_2-r_1. \]

Se \(q_1\neq q_2\), o lado esquerdo tem grau pelo menos \(\deg g\), enquanto o lado direito é nulo ou tem grau menor que \(\deg g\), uma contradição. Logo, \(q_1=q_2\) e, em seguida, \(r_1=r_2\).

Exemplo 1.30 (Divisão de polinômios)
Em \(\mathbb {Q}[x]\),
\[ x^3-2x+4=(x-1)(x^2+x-1)+3. \]
O quociente é \(x^2+x-1\) e o resto é \(3\), cujo grau é menor que o grau de \(x-1\).

Corolário 1.31
O anel \(\mathbb {K}[x]\) é um domínio de ideais principais.

Demonstração

Seja \(I\neq \{ 0\} \) um ideal de \(\mathbb {K}[x]\) e escolha em \(I\) um polinômio não nulo \(d\) de grau mínimo. Para cada \(f\in I\), escreva \(f=dq+r\) pela divisão euclidiana. Como \(r=f-dq\in I\) e \(r=0\) ou \(\deg r\lt \deg d\), a minimalidade de \(d\) força \(r=0\). Portanto, \(d\) divide todo elemento de \(I\) e \(I=\langle d\rangle \). O ideal nulo é gerado por \(0\).

Definição 1.32 (Máximo divisor comum)
Se \(f,g\in \mathbb {K}[x]\) não são ambos nulos, o máximo divisor comum de \(f\) e \(g\) é o único polinômio mônico \(d\) tal que
  1. \(d\) divide \(f\) e \(g\);

  2. todo divisor comum de \(f\) e \(g\) divide \(d\).

Ele será denotado por \(\operatorname {mdc}(f,g)\).

Teorema 1.33 (Identidade de Bézout)
Se \(d=\operatorname {mdc}(f,g)\), existem \(r,s\in \mathbb {K}[x]\) tais que
\[ d=rf+sg. \]

Demonstração

Como \(\mathbb {K}[x]\) é um PID, o ideal \(\langle f,g\rangle \) possui um gerador \(d_0\). Multiplicando-o por uma constante não nula, podemos supor que \(d_0\) é mônico. Como \(f,g\in \langle d_0\rangle \), o polinômio \(d_0\) divide ambos. Se \(c\) é outro divisor comum, então divide toda combinação \(rf+sg\) e, portanto, divide \(d_0\). Logo, \(d_0=\operatorname {mdc}(f,g)\).

Essa caracterização também prova a unicidade: dois polinômios mônicos com as propriedades do máximo divisor comum dividem um ao outro e, portanto, são iguais.

Finalmente, \(d_0\in \langle f,g\rangle \), de modo que existem \(r,s\) com \(d_0=rf+sg\).

Proposição 1.34
Se \(f=gq+r\), então
\[ \operatorname {mdc}(f,g)=\operatorname {mdc}(g,r). \]

Demonstração

Um polinômio divide simultaneamente \(f\) e \(g\) se, e somente se, divide simultaneamente \(g\) e \(r=f-gq\). Os dois pares têm, portanto, os mesmos divisores comuns e o mesmo máximo divisor comum mônico.

Aplicando repetidamente a divisão euclidiana, obtemos uma sequência de restos cujos graus decrescem estritamente. O processo termina, e o último resto não nulo, depois de dividido por seu coeficiente principal, é o máximo divisor comum. Esse procedimento é o algoritmo de Euclides.

Exemplo 1.35 (Algoritmo de Euclides)
Para \(f=x^3-1\) e \(g=x^2-1\),
\[ f=xg+(x-1), \qquad g=(x+1)(x-1). \]
Logo, \(\operatorname {mdc}(f,g)=x-1\). A primeira igualdade fornece também a identidade de Bézout
\[ x-1=f-xg. \]

1.6 Raízes e multiplicidades

Definição 1.36 (Raiz)
Se \(p\in \mathbb {K}[x]\), um elemento \(\alpha \in \mathbb {K}\) é uma raiz de \(p\) quando \(p(\alpha )=0\).

Proposição 1.37 (Teorema do Fator)
Um elemento \(\alpha \in \mathbb {K}\) é raiz de \(p\in \mathbb {K}[x]\) se, e somente se, \(x-\alpha \) divide \(p\).

Demonstração

Pela divisão euclidiana, existem \(q\in \mathbb {K}[x]\) e uma constante \(r\) tais que

\[ p=(x-\alpha )q+r. \]

Substituindo \(x=\alpha \), obtemos \(r=p(\alpha )\). Portanto, o resto é nulo se, e somente se, \(\alpha \) é raiz de \(p\).

Teorema 1.38
Um polinômio não nulo de grau \(n\) possui no máximo \(n\) raízes distintas em \(\mathbb {K}\).

Demonstração

Procedemos por indução sobre \(n\). Um polinômio constante não nulo não possui raízes. Se \(n\geq 1\) e \(p\) não possui raízes, nada há a provar. Caso contrário, seja \(\alpha \) uma raiz. Pelo Teorema do Fator, \(p=(x-\alpha )q\), com \(\deg q=n-1\). Se \(\beta \neq \alpha \) é outra raiz de \(p\), então

\[ 0=p(\beta )=(\beta -\alpha )q(\beta ). \]

Como \(\beta -\alpha \neq 0\) e um corpo não possui divisores de zero, \(q(\beta )=0\). Assim, toda raiz de \(p\) diferente de \(\alpha \) é raiz de \(q\), que possui no máximo \(n-1\) raízes pela hipótese de indução. Assim, \(p\) possui no máximo \(n\) raízes.

Definição 1.39 (Multiplicidade)
Se \(p\neq 0\) e \(\alpha \) é raiz de \(p\), a multiplicidade de \(\alpha \) é o único inteiro \(m\geq 1\) para o qual
\[ p(x)=(x-\alpha )^m s(x), \qquad s(\alpha )\neq 0. \]
Quando \(m=1\), a raiz é simples; quando \(m\geq 2\), é múltipla.

A multiplicidade está bem definida: o Teorema do Fator garante ao menos um fator \(x-\alpha \), e o grau de \(p\) impede que as potências divisoras \((x-\alpha )^k\) tenham expoentes arbitrariamente grandes.

A derivada formal de \(p(x)=\sum _{j=0}^{n}a_jx^j\) é

\[ p'(x)=\sum _{j=1}^{n}j a_jx^{j-1}. \]

Essa definição é puramente algébrica e continua válida em qualquer característica.

Proposição 1.40 (Multiplicidade e derivadas)
Se \(\mathbb {K}\) tem característica zero, \(p\neq 0\) e \(m\geq 1\), então \(\alpha \) é raiz de multiplicidade \(m\) se, e somente se,
\[ p^{(j)}(\alpha )=0\quad (0\leq j\lt m), \qquad p^{(m)}(\alpha )\neq 0. \]

Demonstração

Escreva \(p=(x-\alpha )^r s\), com \(s(\alpha )\neq 0\), onde \(r\) é a multiplicidade de \(\alpha \). Pela regra de Leibniz, todas as derivadas de ordem menor que \(r\) ainda contêm um fator \(x-\alpha \) e se anulam em \(\alpha \). Na derivada de ordem \(r\), o único termo que não contém esse fator fornece

\[ p^{(r)}(\alpha )=r!\, s(\alpha )\neq 0. \]

A última desigualdade usa a hipótese de característica zero. Portanto, \(r\) é exatamente a ordem da primeira derivada que não se anula em \(\alpha \), o que prova as duas implicações.

1.7 Irredutibilidade e fatoração

Definição 1.41 (Polinômio irredutível)
Um polinômio não constante \(p\in \mathbb {K}[x]\) é irredutível sobre \(\mathbb {K}\) quando, em toda fatoração \(p=fg\), um dos fatores é constante. Caso contrário, \(p\) é redutível.

Lema 1.42 (Lema de Euclides)
Se \(p\in \mathbb {K}[x]\) é irredutível e \(p\) divide \(ab\), então \(p\) divide \(a\) ou \(p\) divide \(b\).

Demonstração

Suponha que \(p\) não divida \(a\). Como \(p\) é irredutível, seus únicos divisores mônicos são \(1\) e \(p\); logo, \(\operatorname {mdc}(p,a)=1\). Pela identidade de Bézout, existem \(r,s\in \mathbb {K}[x]\) tais que \(rp+sa=1\). Multiplicando por \(b\),

\[ b=rpb+sab. \]

As duas parcelas do lado direito são divisíveis por \(p\), pois \(p\) divide \(ab\). Portanto, \(p\) divide \(b\).

Teorema 1.43 (Fatoração única)
Todo polinômio não constante \(f\in \mathbb {K}[x]\) admite uma fatoração
\[ f=c\, p_1p_2\cdots p_r, \]
na qual \(c\in \mathbb {K}\setminus \{ 0\} \) e os \(p_i\) são irredutíveis mônicos. Essa fatoração é única a menos da ordem dos fatores.

Demonstração

A existência é demonstrada por indução sobre \(\deg f\). Se \(f\) é irredutível, basta dividir \(f\) por seu coeficiente principal. Se é redutível, escrevemos \(f=gh\), com \(0\lt \deg g,\deg h\lt \deg f\), e aplicamos a hipótese de indução aos dois fatores.

Para a unicidade, suponha

\[ c\, p_1\cdots p_r=d\, q_1\cdots q_s, \]

com todos os fatores irredutíveis e mônicos. O Lema de Euclides implica que \(p_1\) divide algum \(q_j\). Como ambos são irredutíveis e mônicos, \(p_1=q_j\). Cancelando esse fator e repetindo o argumento, obtemos \(r=s\) e, após uma reordenação, \(p_i=q_i\) para todo \(i\). A comparação dos coeficientes principais fornece \(c=d\).

Proposição 1.44
Um polinômio de grau \(2\) ou \(3\) é irredutível sobre \(\mathbb {K}\) se, e somente se, não possui raízes em \(\mathbb {K}\).

Demonstração

Se \(f\) possui uma raiz \(\alpha \), o Teorema do Fator produz a fatoração não trivial \(f=(x-\alpha )q\). Reciprocamente, se \(f\) é redutível e tem grau \(2\) ou \(3\), numa fatoração não trivial ao menos um dos fatores tem grau \(1\). Todo polinômio linear possui uma raiz em \(\mathbb {K}\), que também é raiz de \(f\).

O resultado não se estende ao grau \(4\): o polinômio \(x^4+3x^2+2=(x^2+1)(x^2+2)\) não possui raízes reais, mas é redutível em \(\mathbb {R}[x]\).

1.8 Polinômios sobre os reais e os complexos

Definição 1.45 (Corpo algebricamente fechado)
Um corpo \(\mathbb {K}\) é algebricamente fechado quando todo polinômio não constante de \(\mathbb {K}[x]\) possui uma raiz em \(\mathbb {K}\).

Teorema 1.46
Se \(\mathbb {K}\) é algebricamente fechado, todo polinômio \(f\in \mathbb {K}[x]\) de grau \(n\geq 1\) se fatora como
\[ f(x)=c\prod _{j=1}^{n}(x-\alpha _j), \]
onde \(c\neq 0\) e as raízes são contadas com multiplicidade.

Demonstração

Por indução sobre \(n\). Como \(\mathbb {K}\) é algebricamente fechado, \(f\) possui uma raiz \(\alpha _1\). Pelo Teorema do Fator, \(f=(x-\alpha _1)g\), com \(\deg g=n-1\). Aplicamos a hipótese de indução a \(g\). O caso inicial \(n=1\) é imediato.

Teorema 1.47 (Teorema Fundamental da Álgebra)
Todo polinômio não constante de \(\mathbb {C}[x]\) possui uma raiz em \(\mathbb {C}\). Equivalentemente, \(\mathbb {C}\) é algebricamente fechado.

A demonstração do Teorema Fundamental da Álgebra utiliza ferramentas que não fazem parte deste livro. O resultado será usado aqui como teorema clássico; a fatoração em fatores lineares segue da proposição anterior.

Lema 1.48
Se \(f\in \mathbb {R}[x]\) e \(\alpha \in \mathbb {C}\) é raiz de \(f\), então \(\overline\alpha \) também é raiz de \(f\).

Demonstração

Como os coeficientes de \(f\) são reais,

\[ f(\overline\alpha )=\overline{f(\alpha )}=0. \]

Teorema 1.49 (Fatoração real)
Todo polinômio não constante de \(\mathbb {R}[x]\) é produto de polinômios lineares e quadráticos irredutíveis sobre \(\mathbb {R}\).

Demonstração

Pelo Teorema Fundamental da Álgebra, \(f\) se fatora em fatores lineares sobre \(\mathbb {C}\). Como \(f\) tem coeficientes reais, \(\overline{f(z)}=f(\overline z)\); portanto, as raízes não reais aparecem em pares conjugados com a mesma multiplicidade. Se \(\alpha =a+bi\), com \(b\neq 0\), então

\[ (x-\alpha )(x-\overline\alpha ) =x^2-2ax+(a^2+b^2), \]

um polinômio real de discriminante \(-4b^2\lt 0\) e, portanto, irredutível em \(\mathbb {R}[x]\). Agrupando cada par conjugado e mantendo os fatores associados às raízes reais, obtemos a fatoração desejada.

Teorema 1.50
Os polinômios irredutíveis em \(\mathbb {R}[x]\) são exatamente os polinômios lineares e os quadráticos com discriminante negativo.

Demonstração

Todo polinômio linear é irredutível. Um quadrático é irredutível se, e somente se, não possui raiz real, o que equivale a ter discriminante negativo. Por outro lado, o teorema anterior mostra que todo polinômio real de grau maior que \(2\) se decompõe em fatores de graus \(1\) e \(2\) e, portanto, é redutível.

Em particular, todo polinômio real de grau ímpar maior que \(1\) possui uma raiz real e é redutível. A ressalva sobre o grau é necessária: polinômios lineares são irredutíveis.

Anéis e operações com polinômios

Exercício 1.13

Seja \(R\) um anel. Prove que, para quaisquer \(a,b\in R\),

  1. \(0a=a0=0\);

  2. \(a(-b)=(-a)b=-(ab)\);

  3. \((-a)(-b)=ab\);

  4. \((-1)a=-a\) e \((-1)(-1)=1\).

Exercício 1.14

Seja \(R\) um anel comutativo. Mostre que

\[ \langle a\rangle =\{ ra:r\in R\} \]

é um ideal de \(R\) para todo \(a\in R\).

Exercício 1.15

Verifique diretamente, a partir das definições das operações, que \(\mathbb {K}[x]\) é um anel comutativo com identidade.

Exercício 1.16

Sejam \(p,q\in \mathbb {K}[x]\) não nulos.

  1. Se \(p\neq -q\), mostre que \(\deg (p+q)\leq \max \{ \deg p,\deg q\} \) e determine quando ocorre igualdade.

  2. Prove que \(\deg (pq)=\deg p+\deg q\).

Exercício 1.17

Seja \(S\subseteq \mathbb {K}[x]\) não vazio. Mostre que

\[ M(S)=\left\{ \sum _{p\in F}a_pp: F\subseteq S\text{ é finito e }a_p\in \mathbb {K}[x] \right\} \]

é o ideal gerado por \(S\).

Divisão e máximo divisor comum

Exercício

Exercício 1.18

Efetue a divisão euclidiana de \(f\) por \(g\) nos casos seguintes.

  1. \(f=x^4-1\) e \(g=x-1\);

  2. \(f=2x^4+x^3-3x+1\) e \(g=x^2+1\);

  3. \(f=x^5+1\) e \(g=x^2+x+1\).

Exercício 1.19

Use o algoritmo de Euclides para determinar o máximo divisor comum dos pares abaixo. Em cada caso, faça a retro-substituição e obtenha uma identidade de Bézout.

  1. \(2x^{5}-x^{3}-3x^{2}-6x+4\) e \(x^{4}+x^{3}-x^{2}-2x-2\);

  2. \(3x^{4}+8x^{2}-3\) e \(x^{3}+2x^{2}+3x+6\);

  3. \(x^{4}-2x^{3}-2x^{2}-2x-3\) e \(x^{3}+6x^{2}+7x+1\).

Exercício 1.20

Sejam \(p_1,\ldots ,p_n\in \mathbb {K}[x]\) coprimos dois a dois. Se cada \(p_i\) divide \(q\), prove que \(p_1\cdots p_n\) divide \(q\).

Exercício 1.21

Mostre que \(x-\alpha \) e \(x-\beta \) são coprimos se, e somente se, \(\alpha \neq \beta \).

Raízes e multiplicidades

Exercício

Exercício 1.22

Sejam \(p,q\in \mathbb {K}[x]\) e sejam \(a_1,\ldots ,a_m\) elementos distintos de \(\mathbb {K}\). Suponha que \(p(a_i)=q(a_i)\) para todo \(i\) e que

\[ m\gt \max \{ \deg p,\deg q\} . \]

Prove que \(p=q\).

Exercício 1.23

Determine quais dos subconjuntos de \(\mathbb {Q}[x]\) abaixo são ideais. Quando houver um ideal, determine seu gerador mônico.

  1. Os polinômios de grau ímpar;

  2. os polinômios de grau pelo menos \(5\);

  3. os polinômios \(p\) tais que \(p(0)=0\);

  4. os polinômios \(p\) tais que \(p(2)=p(4)=0\);

  5. os polinômios da forma

    \[ \sum _{i=0}^{n}\frac{c_i}{i+1}x^{i+1}, \qquad c_0,\ldots ,c_n\in \mathbb {Q}. \]

Exercício 1.24

Em um corpo de característica zero, considere \(p(x)=(x-1)^3(x+2)^2\). Determine as multiplicidades de suas raízes e verifique o resultado calculando derivadas formais sucessivas nos pontos \(1\) e \(-2\).

Exercício 1.25

Seja \(\mathbb {K}\) um corpo de característica zero e seja \(D:\mathbb {K}[x]\to \mathbb {K}[x]\) a derivada formal. Se \(\deg p\leq n\), prove a fórmula de Taylor

\[ p(x)=\sum _{k=0}^{n}\frac{D^kp(a)}{k!}(x-a)^k. \]

Dica: faça a mudança de variável \(y=x-a\) e compare os coeficientes de \(p(a+y)\).

Exercício 1.26

Seja \(p\in \mathbb {C}[x]\). Prove que \(p\) possui apenas raízes simples se, e somente se, \(\operatorname {mdc}(p,p')=1\).

Irredutibilidade e fatoração

Exercício

Exercício 1.27

Mostre que, se \(p\) é irredutível e não divide \(q\), então \(\operatorname {mdc}(p,q)=1\).

Exercício 1.28

Dizemos que um polinômio não constante \(p\) é primo quando \(p\mid ab\) implica \(p\mid a\) ou \(p\mid b\). Prove que, em \(\mathbb {K}[x]\), um polinômio é primo se, e somente se, é irredutível.

Exercício 1.29

Seja \(p\in \mathbb {K}[x]\) não constante.

  1. Mostre que todo polinômio de grau \(1\) é irredutível.

  2. Mostre que, nos graus \(2\) e \(3\), irredutibilidade equivale à ausência de raízes em \(\mathbb {K}\).

  3. Dê um polinômio de grau \(4\) sem raízes em \(\mathbb {K}\) que seja redutível.

Exercício 1.30

Use o Teorema Fundamental da Álgebra para provar que:

  1. todo polinômio complexo não constante se fatora em fatores lineares;

  2. se \(p\in \mathbb {R}[x]\) e \(\alpha \in \mathbb {C}\) é raiz de \(p\), então \(\overline\alpha \) também é raiz;

  3. \((x-\alpha )(x-\overline\alpha )\) é um quadrático real irredutível quando \(\alpha \notin \mathbb {R}\);

  4. todo polinômio real é produto de fatores lineares e quadráticos irredutíveis;

  5. todo polinômio real de grau ímpar possui ao menos uma raiz real.

Exercício 1.31

Admita o seguinte caso do critério de Eisenstein: se um primo \(q\) divide todos os coeficientes não líderes de um polinômio inteiro, não divide o coeficiente líder e \(q^2\) não divide o termo constante, então o polinômio é irredutível em \(\mathbb {Q}[x]\). Use-o para provar que \(x^n-q\) é irredutível para todo \(n\geq 1\). Conclua que existem polinômios irredutíveis de qualquer grau em \(\mathbb {Q}[x]\).

Exercício 1.32

Assumindo o Teorema Fundamental da Álgebra, prove que dois polinômios complexos são coprimos se, e somente se, não possuem raiz comum.

Para retomada posterior. Os problemas seguintes utilizam conceitos de matrizes e determinantes desenvolvidos em outros capítulos.

Exercício 1.33

Suponha que \(\operatorname {char}\mathbb {K}\neq 2\).

  1. Mostre que, para cada \(n\geq 2\), existe \(p\in \mathbb {K}[x]\), com \(\deg p\leq n-1\), tal que \(x^n\) divide \(1+x-p^2\).

  2. Deduza que, se \(N\in M_n(\mathbb {K})\) é nilpotente, então \(I+N\) possui uma raiz quadrada.

  3. Dê um exemplo explícito para \(n=3\).

Exercício 1.34

Sejam \(A,B\in M_n(\mathbb {Z})\) matrizes não singulares cujos determinantes são coprimos. Prove que existem \(U,V\in M_n(\mathbb {Z})\) tais que

\[ AU+BV=I_n. \]

Dica: use a identidade de Bézout para \(\det A\) e \(\det B\) e as matrizes adjugadas de \(A\) e \(B\).