Capítulo 10

Forma Normal de Jordan

Uma matriz diagonal descreve um operador por sua ação em retas invariantes. Quando não existe uma base de autovetores, a forma de Jordan fornece, sob a hipótese de fatoração linear, uma representação por blocos. Cada bloco reúne um autovalor e uma parte nilpotente.

Essa forma existe quando o polinômio característico se decompõe em fatores lineares sobre \(\mathbb {K}\), como sempre ocorre sobre \(\mathbb {C}\). Sobre \(\mathbb {R}\), pares de autovalores complexos conjugados dão origem a blocos reais; em corpos nos quais a fatoração linear falha, a forma canônica racional, estudada no próximo capítulo, ocupa seu lugar.

Começamos pelo formato da matriz que queremos obter.

Seja \( T :V\to V\) um operador linear em um espaço vetorial de dimensão finita tal que o polinômio característico do operador se decompõe em fatores lineares sobre \(\mathbb {K}\) (o que sempre ocorre se \(\mathbb {K}\) é algebricamente fechado). Mostraremos que existe uma base \(\underline{\textsc{B}}\) de \(V\), na qual \( [T]_{\underline{\textsc{B}}} \) é uma matriz na forma normal de Jordan:

\begin{align*} \left[\begin{array}{cccc} J_{t_1}(\lambda _1) & 0 & \dots & 0 \\ 0 & J_{t_2}(\lambda _2) & \dots & 0 \\ \vdots & \vdots & \ddots & \vdots \\ 0 & 0 & \dots & J_{t_r}(\lambda _r) \end{array}\right] \qquad \text{ com }\qquad J_{t}(\lambda ) = \left[\begin{array}{cccc} \lambda & 1 & & \\ & \lambda & \ddots & \\ & & \ddots & 1 \\ & & & \lambda \end{array}\right]. \end{align*}

As matrizes \(J_t(\lambda )\), com \(t\in \mathbb {N}^*\) e \(\lambda \in \mathbb {K}\), são denominadas blocos de Jordan.

Notação 10.1
Ao longo deste livro adotamos a convenção triangular superior: os \(1\)’s de \(J_t(\lambda )\) ficam imediatamente acima da diagonal. Assim, uma cadeia ordenada \((\bm {u}_1,\ldots ,\bm {u}_t)\) satisfaz
\[ (T-\lambda \operatorname {I})\bm {u}_1=\vec0, \qquad (T-\lambda \operatorname {I})\bm {u}_j=\bm {u}_{j-1}\quad (2\leq j\leq t). \]

A base na qual o operador assume essa forma é denominada base de Jordan. Para construí-la, examinaremos primeiro os operadores nilpotentes, que constituem a parte não diagonal de cada bloco.

10.1 Operadores Nilpotentes

Definição 10.2 (Nilpotente e unipotente)
Um operador linear \(T:V\to V\) é dito
  1. nilpotente se \(T^k=0\) para algum \(k\in \mathbb {N}\);

  2. unipotente se \(T=\operatorname {I}+N\), com \(N\) nilpotente.

Assim, \(T\) é unipotente se, e somente se, \(T-\operatorname {I}\) é nilpotente. Matrizes nilpotentes e unipotentes são definidas de maneira análoga.

Exemplo 10.3
Seja \( A = \left[\begin{array}{ll} 0 & 1 \\ 0 & 0 \end{array}\right] \) em \( \mathcal{M}_{2, 2}(\mathbb {K}) \). Esta é uma matriz nilpotente e, em qualquer corpo, a única raiz de seu polinômio característico \( c_{A}(x)=\det (x\operatorname {I}-A)=x^{2} \) é \(0\). Existe um autovetor não trivial \( \bm {e}_{1} = (1,0) \), correspondente ao autovalor \(0\). Os múltiplos escalares de \( \bm {e}_{1} \) são os únicos autovetores de \(A\), e portanto, não existe uma base de autovetores e assim a matriz \( A \) não pode ser diagonalizada, independentemente do corpo \(\mathbb {K}\).

Um operador nilpotente só pode ser diagonalizável quando é nulo. Precisamos, portanto, de uma descrição que registre a maneira como seus vetores se organizam em cadeias.

Proposição 10.4
Seja \(V\) um espaço vetorial de dimensão finita sobre \(\mathbb {K}\) e seja \(T:V\to V\) nilpotente. Se \(n=\dim V\), então
\[ c_T(x)=\det (x\operatorname {I}-T)=x^n. \]
Assim, \(0\) é o único autovalor de \(T\) e seu autoespaço é \(\ker T\).

Demonstração

Escolha \(m\geq 1\) tal que \(T^m=0\). Em matrizes com entradas em \(\mathbb {K}[x]\),

\[ (x\operatorname {I}-T) \bigl(x^{m-1}\operatorname {I}+x^{m-2}T+\cdots +T^{m-1}\bigr) =x^m\operatorname {I}. \]

Tomando determinantes e usando a multiplicatividade sobre o anel comutativo \(\mathbb {K}[x]\), obtemos

\[ c_T(x)\, \det \bigl(x^{m-1}\operatorname {I}+x^{m-2}T+\cdots +T^{m-1}\bigr) =x^{mn}. \]

Logo todo fator irredutível de \(c_T\) divide \(x\). Como \(c_T\) é mônico de grau \(n\), segue que \(c_T(x)=x^n\). A afirmação sobre o autoespaço é a identidade \(E_0=\ker (T-0\operatorname {I})=\ker T\).

Como consequência direta do Teorema de Schur, obtemos também:

Proposição 10.5
Dado um operador nilpotente \(T\) em um espaço vetorial de dimensão finita, existe uma base na qual a matriz de \(T\) é triangular estritamente superior.

Demonstração

Pela proposição anterior, \(c_T(x)=x^n\) se decompõe em fatores lineares. O Teorema de Schur fornece uma base na qual a matriz de \(T\) é triangular superior. As entradas de sua diagonal são as raízes do polinômio característico e, portanto, são todas nulas. A matriz é, assim, estritamente triangular superior.

Decomposição de Fitting

Para um operador \(T:V\to V\) em dimensão finita, ponha \(K_i=\ker (T^i)\) e \(R_i=\operatorname {im}(T^i)\). Esses espaços formam as cadeias

\begin{align} \{ 0\} \subseteq K_{1} \subseteq K_{2} \subseteq \cdots \subseteq K_{i} \subseteq K_{i+1} \subseteq \cdots \tag{10.1} \\ V \supseteq R_{1} \supseteq R_{2} \supseteq \cdots \supseteq R_{i} \supseteq R_{i+1} \supseteq \cdots , \tag{10.2} \end{align}

Como suas dimensões são monótonas e limitadas, ambas se estabilizam. Além disso, o teorema do núcleo e da imagem fornece \(\dim V=\dim K_i+\dim R_i\) em cada etapa; portanto, os núcleos e as imagens se estabilizam no mesmo índice, que denotaremos por \(r\).

As cadeias estabilizadas determinam

  • a imagem estável, \(R_{\infty }=\displaystyle \bigcap _{i=1}^{\infty }R_i=R_r=R_{r+1}=\cdots \);

  • o núcleo estável, \(K_{\infty }=\displaystyle \bigcup _{i=1}^{\infty }K_i=K_r=K_{r+1}=\cdots \).

Teorema 10.6 (Decomposição de Fitting)

Sejam \(V\) um espaço de dimensão finita e \(T:V\to V\). Então \(V\) admite uma única decomposição \(V=R\oplus K\) tal que

  1. os espaços \( R, K \) são \( T \)-invariantes;

  2. \( T \mathord {\upharpoonright }_{K} \) é um operador linear nilpotente em \( K \);

  3. \( T \mathord {\upharpoonright }_{R} \) é um operador linear bijetivo em \( R \).

Em termos das restrições do operador, essa decomposição pode ser escrita como

\[ T = (T \mathord {\upharpoonright }_R) \oplus (T \mathord {\upharpoonright }_K) \]

com \(T\mathord {\upharpoonright }_K\) nilpotente e \(T\mathord {\upharpoonright }_R\) bijetivo.

Demonstração

Escolhemos \(R=R_{\infty }\) e \(K=K_{\infty }\).

Afirmamos que \(T\) é nilpotente em \(K_{\infty }\) e invertível em \(R_{\infty }\). De fato, \(T(R_{\infty })=R_{\infty }\); como esse espaço tem dimensão finita, a sobrejetividade da restrição implica sua invertibilidade. Além disso, \(K_{\infty }=\ker (T^r)\) para algum \(r\geq 1\), de modo que a restrição de \(T\) a \(K_{\infty }\) é nilpotente.

Afirmamos que \(V = K_{\infty } \oplus R_{\infty }\). Primeiro, \(K_{\infty }\cap R_{\infty }=\{ \vec0\} \). De fato, se \(\bm {x}\in K_{\infty }\cap R_{\infty }\), escreva \(\bm {x}=T^r\bm {y}\) e use \(T^r\bm {x}=0\). Então \(T^{2r}\bm {y}=0\); como os núcleos já se estabilizaram, \(\ker T^{2r}=\ker T^r\), de modo que \(\bm {x}=T^r\bm {y}=0\). Portanto, basta mostrar que todo \(\bm {v}\in V\) pode ser decomposto como \(k+r \) com \(k \in K_{\infty } \) e \(r \in R_{\infty }\). Sem perda de generalidade, podemos assumir que \(K_{\infty } = \ker (T^r)\) e \(R_{\infty } = T^r V\). Como \(\operatorname {im}(T^{2r}) = \operatorname {im}(T^r)\), temos \(T^r (\bm {v}) = T^{2r} (\bm {w}) \) para algum \(\bm {w}\in V\). Logo \(T^r (\bm {v}- T^{r} (\bm {w})) = T^r (\bm {v}) - T^{2r} (\bm {w}) = 0\). Então definimos

\[ \bm {v}' := \bm {v}- T^r (\bm {w}) \in K_{\infty } \quad \text{e} \quad \bm {v}'' := T^r (\bm {w}) \in R_{\infty } \]

e temos a decomposição desejada de \(\bm {v}\).

Finalmente, mostramos que a decomposição \(V = K_{\infty } \oplus R_{\infty }\) é única. Suponha \(V = A \oplus B\) com \(T\) nilpotente em \(A\) e invertível em \(B\). Então \(A \subseteq \ker (T^k)\) para algum inteiro positivo \(k\) e \(B \subseteq \operatorname {im}(T^k)\) para todo inteiro positivo \(k\). Assim,

\[ A \subseteq K_{\infty } \text{ e } B \subseteq R_{\infty }. \]

Por considerações de dimensão, devemos ter \(A = K_{\infty } \) e \(B = R_{\infty }.\)

Definição 10.7 (Índice de Nilpotência)
Seja \( T: V \to V \) nilpotente, o índice de nilpotência, denotado por \( \operatorname {ind}T \), é o menor expoente \( r\) tal que \( T^{r} = 0.\)

Se \(V\) é um espaço vetorial de dimensão finita então existe o menor expoente tal que \( T^{r} = 0\) pois a cadeia

\[ \{ 0\} \subseteq K_{1} \subseteq K_{2} \subseteq \cdots \subseteq K_{i} \subseteq K_{i+1} \subseteq \cdots \]

se estabiliza em \(K_r=V\), sendo \( K_{i} = \ker (T^{i}) \).

Exemplos 10.8
Sejam
\[ A = \left[\begin{array}{ll} 0 & 1 \\ 0 & 0 \end{array}\right] \qquad B = \left[\begin{array}{lll} 0 & 1 & 0 \\ 0 & 0 & 1 \\ 0 & 0 & 0 \end{array}\right] \qquad C = \left[\begin{array}{lll} 0 & 0 & 1 \\ 0 & 0 & 0 \\ 0 & 0 & 0 \end{array}\right] \]
então é direto ver que \(\operatorname {ind}A =2\), \(\operatorname {ind}B=3\) e \(\operatorname {ind}C =2\).

Lema 10.9
Se, para algum vetor \( \bm {v}\in V\) e algum inteiro \(m\), tivermos:
\[ T^{m-1} \bm {v}\neq 0 \text{ mas } T^m \bm {v}= 0 \]
então o conjunto \(\{ \bm {v}, T \bm {v}, \ldots , T^{m-1} \bm {v}\} \) é linearmente independente.

Demonstração

A demonstração deste lema será deixada como exercício ao leitor.

Definição 10.10 (Operador cíclico)
Se \(n=\dim V\), um operador \(T\in \operatorname {Hom}(V,V)\) é cíclico quando existe \(\bm {v}\in V\) tal que \(\{ \bm {v},T\bm {v},\ldots ,T^{n-1}\bm {v}\} \) é uma base de \(V\). Nesse caso, \(\bm {v}\) é um vetor cíclico e a família indicada é uma base cíclica.

Proposição 10.11
Se \(V\) é um espaço vetorial finito dimensional e \(T\) é um operador nilpotente com índice de nilpotência igual à dimensão de \(V\), então \(T\) é cíclico.

Demonstração

Seja \(n=\dim V\). Como o índice de nilpotência é \(n\), existe \(\bm {v}\) tal que \(T^{n-1}\bm {v}\neq \vec0\). Logo, pelo Lema 10.9, o conjunto \(\{ \bm {v},T\bm {v},\ldots ,T^{n-1}\bm {v}\} \) é linearmente independente e, por dimensão, é uma base de \(V\).

Exemplo 10.12

O operador associado à matriz abaixo é nilpotente de índice \(4\):

\[ \left[ \begin{array}{cccc} -2 & 6 & -5 & 6 \\ -2 & 4 & -1 & 2 \\ 0 & 2 & -4 & 4 \\ 1 & 0 & -3 & 2 \\ \end{array} \right] \]

O vetor \(\bm {e}_1=[1, 0, 0, 0]\notin \ker T^3\). Logo o conjunto

\[ \underline{\textsc{B}}=(\bm {e}_1,T\bm {e}_1,T^2\bm {e}_1, T^3\bm {e}_1)=( [1, 0, 0, 0], [-2, -2, 0, 1], [-2, -2, 0, 0], [-8, -4, -4, -2] ) \]

é uma base de \(V\) e nessa base

\[ [T]_{\underline{\textsc{B}}}=\left[ \begin{array}{cccc} 0 & 0 & 0 & 0 \\ 1 & 0 & 0 & 0 \\ 0 & 1 & 0 & 0 \\ 0 & 0 & 1 & 0 \\ \end{array} \right] \]

Por outro lado se escolhermos a base na ordem reversa

\[ \underline{\textsc{B}}_2=(T^3\bm {e}_1,T^2\bm {e}_1,T\bm {e}_1,\bm {e}_1 )=([-8, -4, -4, -2],[-2, -2, 0, 0], [-2, -2, 0, 1], [1, 0, 0, 0] ) \]

temos que

\[ [T]_{\underline{\textsc{B}}_2}=\left[ \begin{array}{cccc} 0 & 1 & 0 & 0 \\ 0 & 0 & 1 & 0 \\ 0 & 0 & 0 & 1 \\ 0 & 0 & 0 & 0 \\ \end{array} \right]. \]

Esta é a ordem das cadeias compatível com a convenção triangular superior adotada neste capítulo.

Na próxima seção trataremos o caso geral em que o índice de nilpotência de \(T\) é menor que a dimensão de \(V\).

Operadores nilpotentes e vetores cíclicos

O resultado seguinte caracteriza bases de Jordan em termos das cadeias de um operador nilpotente.

Proposição 10.13

Seja \(V\) um espaço de dimensão finita e \( T \in \operatorname {Hom}(V,V)\) nilpotente então são equivalentes:

  1. \(\left(\vec{u}_{1}^{1},\dots ,\vec{u}_{k_{1}}^{1},\vec{u}_{1}^{2},\dots ,\vec{u}_{k_{2}}^{2},\dots ,\vec{u}_{1}^{m},\dots \vec{u}_{k_{m}}^{m}\right)\) é uma base de Jordan para \( T \);

  2. \(\left(\vec{u}_{1}^{1},\dots ,\vec{u}_{k_{1}}^{1},\vec{u}_{1}^{2},\dots ,\vec{u}_{k_{2}}^{2},\dots ,\vec{u}_{1}^{m},\dots \vec{u}_{k_{m}}^{m}\right)\) é uma base tal que \(T\vec{u}_{1}^{l}=\vec0\) e \(T\vec{u}_{j}^{l}=\vec{u}_{j-1}^{l}\) para \(2\leq j\leq k_l\).

  3. Se \(\bm {w}_j=\bm {u}_{k_j}^{\, j}\), então

    \[ \{ T^{k_1-1}\bm {w}_1,\ldots ,T\bm {w}_1,\bm {w}_1,\ldots ,T^{k_m-1}\bm {w}_m,\ldots ,T\bm {w}_m,\bm {w}_m\} \]

    é base de \(V\).

Demonstração

A demonstração será deixada como exercício.

Uma representação diagramática da base de Jordan é Ilustração: Operadores Nilpotentes

Teorema 10.14 (Decomposição Cíclica para Operadores Nilpotentes)

Todo operador \(T\) nilpotente agindo num espaço vetorial finito dimensional possui uma base de Jordan \(\underline{\textsc{J}}\). Nessa base a matriz de \( T \) é uma combinação de blocos da forma

\[ [T]_{\underline{\textsc{J}}}=\mathrm{diag}(J_{a_1}(0), \ldots , J_{a_k}(0) ) \]

com \(a_1 \geq \cdots \geq a_k \geq 1\) e \(a_1+\cdots +a_k = n\).

Se denotarmos por \(n_i\) o número de blocos de Jordan \(J_i (0)\) de ordem \(i\) que aparecem em \([T]_{\underline{\textsc{J}}}\), então

\[ n_i = 2 \dim \ker T ^i - \dim \ker T^{i-1} -\dim \ker T^{i+1}. \]

Além disso, tal representação de \(T\) como uma matriz diagonal de blocos com blocos Jordan é única a menos de permutação dos blocos.

Demonstração

Faremos a demonstração por indução sobre \(\dim V\). Como \( T \) é nilpotente, \(\dim \operatorname {im}T \lt \dim V \). Se \(\operatorname {im}T =0\), \( T =0\) e o resultado é trivial, por isso, podemos assumir que \(\operatorname {im}T \neq 0\).

Por indução, existem \(\vec{u}_{1},\ldots ,\vec{u}_{k}\in \operatorname {im}T \), de modo que

\[ \{ \vec{u}_{1}, T \vec{u}_{1},\ldots , T^{a_{1}-1}\vec{u}_{1},\ldots ,\vec{u}_{k}, T \vec{u}_{k},\ldots , T^{a_{k}-1}\vec{u}_{k}\} \]

é uma base de Jordan para \(T\).

Para \(1\leq i\leq k\) escolha \(\vec{v}_{i}\in V\) tal que \(\vec{u}_{i}= T \vec{v}_{i}\).

Como o último vetor de cada cadeia pertence ao núcleo,

\[ \left\langle T^{a_{1}-1}\vec{u}_{1},\ldots , T{}^{a_{k}-1}\vec{u}_{k}\right\rangle \subseteq \ker T . \]

Estendemos esse conjunto linearmente independente a uma base de \(\ker T\), adicionando os vetores \(\vec{w}_{1},\ldots ,\vec{w}_{l}\).

Afirmamos que os vetores

\[ \{ \vec{v}_{1}, T \vec{v}_{1},\ldots , T^{a_{1}}\vec{v}_{1},\ldots ,\vec{v}_{k}, T \vec{v}_{k},\ldots , T^{a_{k}}\vec{v}_{k},\vec{w}_{1},\ldots ,\vec{w}_{l}\} \]

formam uma base para \(V.\)

Para verificar a independência linear, suponha que uma combinação desses vetores seja nula:

\[ \sum _{i=1}^{k}\sum _{j=0}^{a_{i}}c_{ij} T^{j}\vec{v}_{i}+\sum _{m=1}^{l}b_m\vec{w}_{m}=0. \]

Aplicando \(T\), obtemos

\[ \sum _{i=1}^{k}\sum _{j=0}^{a_{i}-1}c_{ij} T^{j}\vec{u}_{i}=0. \]

Como esses vetores pertencem à base de Jordan de \(\operatorname {im}T\), segue que \(c_{ij}=0\) para \(0\leq j\leq a_i-1\). Logo a combinação inicial se reduz a uma combinação dos vetores \( T^{a_{1}}\vec{v}_{1},\dots , T^{a_{k}}\vec{v}_{k},\vec{w}_{1},\ldots ,\vec{w}_{l}\). Mas esses vetores formam uma base de \(\ker T\), logo os coeficientes restantes também são nulos. Logo a família é linearmente independente.

Para mostrar que esses vetores geram \(V\), usamos um argumento dimensional. Sabemos que \(\dim \ker T =k+l\) e \(\dim \operatorname {im}T =a_{1}+\ldots +a_{k}\). Por isso \( \dim V =(a_{1}+1)+\ldots +(a_{k}+1)+l\), que é o número de vetores acima.

Portanto, construímos cadeias que formam uma base de \(V\). Ordenando cada cadeia do vetor anulado para o seu gerador, obtemos a convenção triangular superior adotada no início do capítulo. Esquematicamente,

\[ \begin{array}{rcll} \bm {v}_i& \longmapsto & T\bm {v}_i\longmapsto \cdots \longmapsto T^{a_i}\bm {v}_i\longmapsto \vec0, & 1\leq i\leq k,\\[2mm] \bm {w}_m& \longmapsto & \vec0,& 1\leq m\leq l. \end{array} \]

Os vetores em ocre formam a base de Jordan de \(\operatorname {im}T\) usada na hipótese de indução. Pode haver várias cadeias de mesmo comprimento, e o comprimento da maior é o índice de nilpotência de \(T\).

Para calcular a fórmula para \(n_i\), observe a maneira como escrevemos a base \(\underline{\textsc{J}}\) como um diagrama bidimensional. Cada bloco de Jordan em \([T]_{\underline{\textsc{J}}}\) corresponde a uma coluna de vetores nessa matriz. Ilustração: Operadores Nilpotentes Os vetores nas últimas \(k\) linhas correspondem a uma base de \(\ker T^k\). Assim o número de vetores na \(k\)-ésima linha é \(\dim \ker T^k-\dim \ker T^{k-1}\). E na \(k+1\)-ésima linha é \( \dim \ker T^{k+1}- \dim \ker T^k\). A diferença desses dois números é exatamente o número de colunas de altura exatamente \(k\).

\begin{align} n_i & =\dim \ker T^i-\dim \ker T^{i-1}- (\dim \ker T^{i+1}-\dim \ker T^i) \tag{10.3} \\ & =2\dim \ker T^i-\dim \ker T^{i-1}- \dim \ker T^{i+1} \tag{10.4} \end{align}

Observe que os números \(n_i\) não dependem da base específica. Portanto, a representação do bloco Jordan de \(T\) é única a menos de uma permutação dos blocos.

Exemplo 10.15

O operador linear associado à matriz abaixo é nilpotente de índice \(2\):

\[ \left[ \begin{array}{cccc} -4 & 6 & 4 & -4 \\ 0 & 2 & -2 & 0 \\ 0 & 2 & -2 & 0 \\ 4 & -1 & -9 & 4 \\ \end{array} \right] \]

Escalonando a matriz temos a seguinte forma escalonada:

\[ \left[ \begin{array}{cccc} 1 & 0 & -\frac{5}{2} & 1 \\ 0 & 1 & -1 & 0 \\ 0 & 0 & 0 & 0 \\ 0 & 0 & 0 & 0 \\ \end{array} \right] \]

As colunas pivôs são a primeira e a segunda; portanto, as colunas correspondentes da matriz original, isto é, \(T\bm {e}_1\) e \(T\bm {e}_2\), formam uma base de \(\operatorname {im}T\). Escolhemos \(\bm {e}_1\) e \(\bm {e}_2\) como preimagens desses vetores. Logo o conjunto

\[ \underline{\textsc{C}}=(\bm {e}_1,T\bm {e}_1,\bm {e}_2, T\bm {e}_2)=( [1, 0, 0, 0], [-4, 0, 0, 4], [0, 1, 0, 0], [6, 2, 2, -1] ) \]

é uma base de Jordan para \(V\). O diagrama representando esse operador é: Ilustração: Operadores Nilpotentes E na base \(\underline{\textsc{C}}\) temos que:

\[ [T]_{\underline{\textsc{C}}}=\left[ \begin{array}{cccc} 0 & 0 & 0 & 0 \\ 1 & 0 & 0 & 0 \\ 0 & 0 & 0 & 0 \\ 0 & 0 & 1 & 0 \\ \end{array} \right] \]

As matrizes de mudança de base são

\[ \displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{C}}\to \underline{\textsc{B}}}=\left[ \begin{array}{cccc} 1 & -4 & 0 & 6 \\ 0 & 0 & 1 & 2 \\ 0 & 0 & 0 & 2 \\ 0 & 4 & 0 & -1 \\ \end{array} \right] \quad \quad \displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{B}}\to \underline{\textsc{C}}}=\left[ \begin{array}{cccc} 1 & 0 & -\frac{5}{2} & 1 \\ 0 & 0 & \frac{1}{8} & \frac{1}{4} \\ 0 & 1 & -1 & 0 \\ 0 & 0 & \frac{1}{2} & 0 \\ \end{array} \right] \]

E assim

\begin{align*} [T]_{\underline{\textsc{C}}} & = \displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{B}}\to \underline{\textsc{C}}} [T]_{\underline{\textsc{B}}} \displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{C}}\to \underline{\textsc{B}}} \phantom{\bigcup } \\ \left[ \begin{array}{cccc} 0 & 0 & 0 & 0 \\ 1 & 0 & 0 & 0 \\ 0 & 0 & 0 & 0 \\ 0 & 0 & 1 & 0 \\ \end{array} \right] & = \left[ \begin{array}{cccc} 1 & 0 & -\frac{5}{2} & 1 \\ 0 & 0 & \frac{1}{8} & \frac{1}{4} \\ 0 & 1 & -1 & 0 \\ 0 & 0 & \frac{1}{2} & 0 \\ \end{array} \right] \left[ \begin{array}{cccc} -4 & 6 & 4 & -4 \\ 0 & 2 & -2 & 0 \\ 0 & 2 & -2 & 0 \\ 4 & -1 & -9 & 4 \\ \end{array} \right] \left[ \begin{array}{cccc} 1 & -4 & 0 & 6 \\ 0 & 0 & 1 & 2 \\ 0 & 0 & 0 & 2 \\ 0 & 4 & 0 & -1 \\ \end{array} \right]. \end{align*}

10.2 Forma Normal de Jordan

Antes da demonstração, registramos duas descrições equivalentes de uma base de Jordan para \(T\in \operatorname {Hom}(V,V)\):

  1. \(\left(\vec{u}_{1}^{1},\dots ,\vec{u}_{k_{1}}^{1},\vec{u}_{1}^{2},\dots ,\vec{u}_{k_{2}}^{2},\dots ,\vec{u}_{1}^{m},\dots \vec{u}_{k_{m}}^{m}\right)\) é uma base de Jordan para \( T \);

  2. para cada cadeia, existe \(\lambda _l\in \mathbb {K}\) tal que \(T\bm {u}_1^{\, l}=\lambda _l\bm {u}_1^{\, l}\) e \(T\bm {u}_j^{\, l}=\lambda _l\bm {u}_j^{\, l}+\bm {u}_{j-1}^{\, l}\) para \(2\leq j\leq k_l\).

Teorema 10.16 (Forma Normal de Jordan)

Seja \( T :V\to V\) um operador linear em um espaço vetorial de dimensão finita tal que o polinômio característico do operador se decompõe em fatores lineares sobre \(\mathbb {K}\). Então:

  1. Existe uma base de Jordan para \( T \), isto é existe uma base de \(V\) na qual a matriz de \( T \) está na forma normal de Jordan, i.e., existe uma matriz mudança de base \(M\) tal que a matriz do operador na base original \(A\) pode ser reduzida a forma de Jordan

    \[ M^{-1}AM=J \]
  2. Se denotarmos por \(n_{i}^{\lambda }\) o número de blocos de Jordan \(J_i (\lambda )\) de ordem \(i\) que aparecem na matriz de Jordan para \(T\), então

    \[ n_{i}^{\lambda } = 2 \dim \ker (T - \lambda \operatorname {I}) ^i - \dim \ker (T - \lambda \operatorname {I})^{i-1} - \dim \ker (T - \lambda \operatorname {I})^{i+1}. \]
  3. A matriz \(J\) é única, a menos de permutação dos blocos de Jordan.

Demonstração

Pelo Teorema da Decomposição em Autoespaços Generalizados,

\[ V=\bigoplus _{i=1}^m E^{\infty }_{\lambda _i}(T), \]

onde \(\lambda _1,\ldots ,\lambda _m\) são os autovalores distintos de \(T\). Em cada parcela, o operador

\[ N_i=(T-\lambda _i\operatorname {I})\mathord {\upharpoonright }_{E^{\infty }_{\lambda _i}(T)} \]

é nilpotente. Pelo Teorema da Decomposição Cíclica para Operadores Nilpotentes, existe uma base \(\underline{\textsc{B}}_i\) dessa parcela na qual

\[ [N_i]_{\underline{\textsc{B}}_i}=\operatorname {diag}\bigl(J_{t^{(i)}_1}(0),\ldots ,J_{t^{(i)}_{r_i}}(0)\bigr). \]

Como \(T\mathord {\upharpoonright }_{E^{\infty }_{\lambda _i}(T)}=\lambda _i\operatorname {I}+N_i\), na mesma base temos

\[ [T\mathord {\upharpoonright }_{E^{\infty }_{\lambda _i}(T)}]_{\underline{\textsc{B}}_i} =\operatorname {diag}\bigl(J_{t^{(i)}_1}(\lambda _i),\ldots ,J_{t^{(i)}_{r_i}}(\lambda _i)\bigr). \]

Concatenando \(\underline{\textsc{B}}_1,\ldots ,\underline{\textsc{B}}_m\), obtemos uma base de \(V\) e a forma de Jordan de \(T\). Isso prova a existência.

Unicidade da forma de Jordan

Seja \(\underline{\textsc{B}}\) uma base de Jordan do operador \(T\). Nessa base, as entradas diagonais de \([T]_{\underline{\textsc{B}}}\) são os autovalores de \(T\). Fixe um autovalor \(\lambda \) e denote por \(W_\lambda \) o subespaço gerado por todas as cadeias dos blocos associados a \(\lambda \). Em cada uma dessas cadeias,

\[ T\bm {u}_1=\lambda \bm {u}_1, \qquad T\bm {u}_j=\lambda \bm {u}_j+\bm {u}_{j-1}\quad (j\geq 2). \]

Logo alguma potência de \(T-\lambda \operatorname {I}\) anula \(W_\lambda \), e portanto \(W_\lambda \subseteq E_\lambda ^\infty \).

Como \(V=\bigoplus _i W_{\lambda _i}\) e também \(V=\bigoplus _i E^{\infty }_{\lambda _i}(T)\), com \(W_{\lambda _i}\subseteq E^{\infty }_{\lambda _i}(T)\), segue que \(W_{\lambda _i}=E^{\infty }_{\lambda _i}(T)\) para todo \(i\). Em cada uma dessas parcelas, subtrair \(\lambda _i\operatorname {I}\) reduz o problema ao caso nilpotente. A fórmula do item 2, já provada nesse caso, determina o número de blocos de cada tamanho. Portanto, a forma de Jordan é única a menos da ordem dos blocos.

Corolário 10.17
Todo operador linear em um espaço vetorial de dimensão finita sobre um corpo \(\overline{\mathbb {K}}\) algebricamente fechado possui uma forma de Jordan.

10.3 Cálculo da Forma de Jordan

O cálculo separa-se em duas etapas:

  1. determinar, para cada autovalor, o diagrama que fixa os tamanhos dos blocos;

  2. construir uma base de Jordan compatível com esses blocos.

Cálculo dos Diagramas de Jordan

Dada uma transformação \(T\) cuja matriz numa certa base é \(A\). Considere o diagrama de Jordan correspondente a um autovalor \(\lambda \) de \( T \). Como já observamos, a linha inferior desse diagrama consiste numa base para \(\ker ( T -\lambda \operatorname {I})\) e assim o número de vetores na linha inferior é \(\dim \ker ( T -\lambda \operatorname {I})\). De modo análogo temos que as duas linhas inferiores formam uma base para \(\ker ( T -\lambda \operatorname {I})^{2}\) e assim sucessivamente. Ilustração: Cálculo da Forma de Jordan

Logo para determinarmos esse diagrama é suficiente calcularmos:

\[ $\dim \ker ( T -\lambda \operatorname {I}),\dim \ker ( T -\lambda \operatorname {I})^{2}-\dim \ker ( T -\lambda \operatorname {I}),\dim \ker (T -\lambda \operatorname {I})^{3}-\dim \ker (T -\lambda \operatorname {I})^{2},\dots .$ \]

Cada um desses números nos fornece quantos vetores aparecem em cada linha do diagrama.

Cálculo da Matriz Mudança de Base

Para calcularmos a matriz mudança de base \(M\) é suficiente resolvermos a equação linear:

\[ AM=MJ. \]

O sistema linear resultante pode ser indeterminado, mas somente as soluções invertíveis \(M\) servem como matrizes de mudança de base.

Exemplo 10.18

Determine a forma de Jordan de

\[ A=\left[\begin{array}{ccc} 1 & -\frac{1}{2} & 0 \\ 2 & 3 & 0 \\ 3 & \frac{3}{2} & 2 \end{array}\right] \]

O polinômio característico de \(A\) é \((x-2)^{3}\) e, assim, seu único autovalor é \(2\). Logo

\[ A-2 \operatorname {I}=\left[\begin{array}{ccc} -1 & -\frac{1}{2} & 0 \\ 2 & 1 & 0 \\ 3 & \frac{3}{2} & 0 \end{array}\right]. \]

Assim, \(\dim \ker (A-2\operatorname {I})=2\). Como \((A-2\operatorname {I})^2=0\), temos \(\dim \ker (A-2\operatorname {I})^2=3\). Logo o diagrama associado a essa matriz é: Ilustração: Cálculo da Forma de Jordan E assim sua forma de Jordan, na convenção triangular superior, é

\[ \left[\begin{array}{ccc} 2 & 1 & 0 \\ 0 & 2 & 0 \\ 0 & 0 & 2 \end{array}\right] \]

Para construir uma base de Jordan, tome \(\bm {v}_1=\bm {e}_1\) e \(\bm {v}_2=(A-2\operatorname {I})\bm {v}_1=(-1,2,3)^{\mathrm{t}}\). Como \((A-2\operatorname {I})\bm {v}_2=0\) e \(\bm {e}_3\in \ker (A-2\operatorname {I})\), ordenamos a cadeia como \((\bm {v}_2,\bm {v}_1)\) e obtemos a matriz

\[ M=\begin{bmatrix} -1 & 1 & 0 \\ 2 & 0 & 0 \\ 3 & 0 & 1 \end{bmatrix} \]

é invertível e satisfaz

\[ M^{-1}AM=\begin{bmatrix} 2 & 1 & 0 \\ 0 & 2 & 0 \\ 0 & 0 & 2 \end{bmatrix}. \]

Exemplo 10.19

Ache a forma de Jordan para

\[ C=\left[ \begin{array}{cccc} 2 & 1 & 0 & 0 \\ -1 & 4 & 0 & 0 \\ -2 & 1 & 3 & 0 \\ 0 & 1 & -1 & 3 \\ \end{array} \right] \]

Nesse caso o polinômio característico é: \((x-3 )^4\) e assim o único autovalor é \(3\).

Temos que \(\dim \ker (C-3\operatorname {I})=1\), \(\dim \ker (C-3\operatorname {I})^{2}=2\), \(\dim \ker (C-3\operatorname {I})^{3}=3\) e \(\dim \ker (C-3\operatorname {I})^{4}=4\).

Logo o diagrama associado a essa matriz é: Ilustração: Cálculo da Forma de Jordan E assim sua forma de Jordan é

\[ \left[ \begin{array}{cccc} 3 & 1 & 0 & 0 \\ 0 & 3 & 1 & 0 \\ 0 & 0 & 3 & 1 \\ 0 & 0 & 0 & 3 \\ \end{array} \right] \]

Exemplo 10.20

Ache a forma de Jordan para

\[ B=\left[\begin{array}{ccccc} 7 & 4 & 4 & -4 & 0 \\ -2 & 1 & -2 & 2 & 0 \\ -5 & 0 & -4 & 6 & 1 \\ -2 & 0 & -3 & 6 & 1 \\ 1 & -1 & 2 & -2 & 2 \end{array}\right] \]

Nesse caso o polinômio característico é: \((x-3)^{2}(x-2)^{3}\) e assim seus autovalores são: \(3,2\).

Temos que \(\dim \ker (B-3\operatorname {I})=2\) e \(\dim \ker (B-3\operatorname {I})^{2}=2\) e que

\(\dim \ker (B-2\operatorname {I})=1\), \(\dim \ker (B-2\operatorname {I})^{2}=2\) e \(\dim \ker (B-2\operatorname {I})^{3}=3\).

Logo o diagrama de Jordan é Ilustração: Cálculo da Forma de Jordan E assim a forma de Jordan é:

\[ \left[\begin{array}{ccccc} 2 & 1 & 0 & 0 & 0 \\ 0 & 2 & 1 & 0 & 0 \\ 0 & 0 & 2 & 0 & 0 \\ 0 & 0 & 0 & 3 & 0 \\ 0 & 0 & 0 & 0 & 3 \end{array}\right]. \]

Exemplo 10.21
\[ C=\left[\begin{array}{ccccc} 4 & -2 & 0 & 0 & 2 \\ 1 & 1 & 0 & 0 & 1 \\ 0 & 1 & 2 & 1 & 1 \\ 0 & 0 & 0 & 2 & 0 \\ -1 & 1 & 0 & 0 & 1 \end{array}\right] \]

Nesse caso \((x-2)^{5}\), logo \(2\) é autovalor. Também temos que: \(\dim \ker (C-2\operatorname {I})=3\) e \(\dim \ker (C-2\operatorname {I})^{2}=5\) e logo o diagrama para \(C\) é Ilustração: Cálculo da Forma de Jordan e consequentemente a forma de Jordan de \(C\) é:

\[ \left[\begin{array}{ccccc} 2 & 1 & 0 & 0 & 0 \\ 0 & 2 & 0 & 0 & 0 \\ 0 & 0 & 2 & 1 & 0 \\ 0 & 0 & 0 & 2 & 0 \\ 0 & 0 & 0 & 0 & 2 \end{array}\right] \]

Exemplo 10.22

Suponha \(A \in \mathcal{M}_{6, 6}(\mathbb {R})\) com polinômio minimal

\[ (x-1)^2(x+1)^2 \]

Encontre todas as formas normais de Jordan possíveis e não semelhantes para \(A\).

Nenhum dos blocos de Jordan pode ter tamanho maior que \(2\), pois isso produziria no polinômio minimal um fator \((x\pm 1)^3\). Como o polinômio minimal contém os fatores \((x\pm 1)^2\), deve haver pelo menos um bloco de tamanho \(2\) associado a cada um desses autovalores.

Assim, necessariamente aparecem os blocos \(J_2(1)\) e \(J_2(-1)\). Restam duas dimensões, que podem ser distribuídas entre blocos de tamanho \(1\) ou usadas para repetir um dos blocos de tamanho \(2\). Portanto, a menos da ordem dos blocos, há exatamente cinco possibilidades:

\begin{align*} & J_2(1)\oplus J_2(1)\oplus J_2(-1),\\ & J_2(1)\oplus [1]\oplus [1]\oplus J_2(-1),\\ & J_2(1)\oplus J_2(-1)\oplus J_2(-1),\\ & J_2(1)\oplus J_2(-1)\oplus [-1]\oplus [-1],\\ & J_2(1)\oplus J_2(-1)\oplus [1]\oplus [-1]. \end{align*}

Exercício 10.1

Seja \(A\in M_{6}(\mathbb {R})\) tal que \(A^{4}-8A^{2}+16I_{6}=0\). Quais são as possíveis formas de Jordan não semelhantes para \(A\)?

Exercício 10.2

Seja \(T:\mathbb {R}_n[x]\to \mathbb {R}_n[x]\) dado por \(T(p(x))=p(x+1)\).

  1. Determine a forma de Jordan de \(T\).

  2. Para \(n=4\), encontre uma base \(\underline{\textsc{B}}\) de \(\mathbb {R}_{4}[x]\) tal que \([T]_{\underline{\textsc{B}}}^{\underline{\textsc{B}}}=J\).

Exercício 10.3

Sejam as matrizes

\[ A=\left[\begin{array}{cccc} 2 & 0 & 0 & 0\\ 1 & 2 & 0 & 0\\ -1 & 1 & 2 & 0\\ 3 & 0 & 1 & 2 \end{array}\right],\qquad B=\left[\begin{array}{cccc} 2 & 0 & 1 & 0\\ 0 & 2 & 0 & -1\\ 0 & 0 & 2 & 0\\ 0 & 0 & 0 & 2 \end{array}\right]. \]
\[ C=\left[\begin{array}{cccc} 2 & 0 & 1 & 0\\ 0 & 2 & 0 & 0\\ 0 & 0 & 2 & 0\\ 0 & 0 & 0 & 2 \end{array}\right],\qquad D=\left[\begin{array}{cccc} 2 & 0 & 0 & 0\\ 1 & 2 & 0 & 0\\ 3 & 0 & 2 & 0\\ 4 & -5 & 3 & 2 \end{array}\right], \]

veja que \(c_{A}=c_{B}=c_{C}=c_{D}=(x-2)^{4}\). Determine a forma de Jordan de cada uma.

Exercício 10.4

Dados um polinômio \(f(x)=(x-\lambda _{1})^{d_{1}}(x-\lambda _{2})^{d_{2}}\dots (x-\lambda _{k})^{d_{k}}\) e um espaço vetorial \(V\) com \(\dim V=n=d_{1}+d_{2}+\dots +d_{k}\). Quantas formas de Jordan, a menos de permutação dos blocos, podem ocorrer para operadores \(T:V\to V\) com \(c_T=f\)?

Exercício 10.5

Ache todas as formas de Jordan possíveis para uma transformação linear com polinômio característico \(c_{T}=(x-2)^{3}(x-1)^{2}(x-5)\). Ache o polinômio minimal correspondente a cada uma dessas formas de Jordan.

Exercício 10.6

Considere a transformação linear \(T:\mathbb {R}^{4}\rightarrow \mathbb {R}^{4}\) dada por

\[ T(x,y,z,w)=(3z+w,2x+2y-4z+2w,z+w,3w-z) \]
  1. Encontre a base e a forma de Jordan de \(T\).

  2. Descreva todos os subespaços \(T\)-invariantes.

Exercício 10.7

Seja \(T\) um operador linear no \(\mathbb {K}\)-e.v. \(V\) de dimensão finita. Suponha que \(m_{T}=(x-\lambda _{1})^{m_{1}}\dots (x-\lambda _{k})^{m_{k}}\), mostre que existe um operador diagonalizável \(D\in \operatorname {Hom}(V,V)\) e um operador nilpotente \(N\in \operatorname {Hom}(V,V)\) tal que

  1. \(T=D+N\),

  2. \(DN=ND\).

    Prove ainda que os operadores \(D\) e \(N\) são univocamente determinados por 1. e 2. e cada um deles é um polinômio em \(T\).

Exercício 10.8

A seguinte afirmação é falsa ou verdadeira: se \(A\in M_{n}(\mathbb {C})\) é uma matriz com entradas complexas de ordem \(n\) é tal que \(A^{4}=I_{n}\) então

\[ \left[\begin{array}{cc} i & 0\\ 1 & i \end{array}\right] \]

pode ser um bloco de Jordan de \(A\).

Exercício 10.9

Seja \(T:\mathbb {R}^{6}\rightarrow \mathbb {R}^{6}\) um operador linear com polinômios característico e minimal dados, respectivamente, por \(c_{T}=(x-2)^{4}(x-1)^{2}\) e \(m_{T}=(x-2)^{2}(x-1)^{2}\). Além disso suponha que \(\dim \ker (T-2\operatorname {I})=2\). Nestas condições encontre a forma de Jordan de \(T\). Com os polinômios característico e minimal acima é possível supormos que \(\dim \ker (T-2\operatorname {I})=1\)?

Exercício 10.10

\( \)

  1. Seja \(A\in M_{n}(\mathbb {C})\) uma matriz complexa invertível. Defina suas partes real e imaginária \(R,S\in M_{n}(\mathbb {R})\) como sendo

    \[ R=\Re (A)\text{ e }S=\Im (A) \]

    de forma que \(A=R+iS\). Mostre que existe \(\lambda _{0}\in \mathbb {R}\) tal que \(R+\lambda _{0}S\) é invertível.

  2. Deduza que se duas matrizes reais \(A,B\in M_{n}(\mathbb {R})\) são semelhantes em \(M_{n}(\mathbb {C})\) então elas são semelhantes em \(M_{n}(\mathbb {R})\).

Exercício 10.11

Seja \(A\in M_{n}(\mathbb {R})\) uma matriz real satisfazendo a seguinte condição \(A^{3}=I_{n}\). Mostre que \(\operatorname {tr}(A)\in \mathbb {Z}\).

Exercício 10.12

Sejam \(N_{1}\) e \(N_{2}\) matrizes de ordem \(6\) nilpotentes. Suponha que elas têm o mesmo polinômio minimal e o mesmo posto. Prove que elas são semelhantes. Mostre que o mesmo resultado não é verdadeiro para matrizes de ordem \(7\).

Exercício 10.13

Dê a forma de Jordan de um operador linear \(T:\mathbb {R}^{7}\rightarrow \mathbb {R}^{7}\) com polinômio característico \(c_{T}(x)=(x-1)^{2}(x-2)^{4}(x-3)\) e tal que \(\dim \ker (T-2\operatorname {I})=2\), \(\dim \ker (T-\operatorname {I})=1\) e \(\ker (T-2\operatorname {I})^{3}\neq \ker (T-2\operatorname {I})^{2}.\)

Exercício 10.14

Seja \(N\in M_{n}(\mathbb {R})\) uma matriz nilpotente tal que \(\dim \ker (N)=k,\, 0\lt k\lt n.\)

  1. Mostre que \(\dim \ker (N^{l})\leq kl\), para todo \(l\geq 1.\)

  2. Prove que \(n\leq kr\), onde \(r\) é o grau do polinômio minimal de \(N.\)

10.4 Forma de Jordan Real

Seja \(V\) um espaço vetorial sobre os reais e seja \(A\) a matriz do operador \(T:V\to V\). Sobre os reais, o polinômio característico \(c_A(x)\) de \(A\) pode ser fatorado como produto de termos lineares e termos de grau dois que não possuem raízes em \(\mathbb {R}\):

\[ c_{A}(x)=(x-c_1)^{m_1}\cdots (x-c_k)^{m_k}\bigl((x-a_1)^2+b_1^2\bigr)^{n_1}\cdots \bigl((x-a_l)^2+b_l^2\bigr)^{n_l} \]

que, por outro lado, pode ser fatorado como

\[ c_{A}(x)=(x-c_1)^{m_1}\cdots (x-c_k)^{m_k}(x-\alpha _1)^{n_1}(x-\overline{\alpha }_1)^{n_1}\cdots (x-\alpha _l)^{n_l}(x-\overline{\alpha }_l)^{n_l} \]

sobre \(\mathbb {C}\) com \(\alpha _j = a_j+b_j i\) e \( \overline{\alpha _j} = a_j - b _j i\).

Partiremos da forma de Jordan da complexificação de \(T\) e reuniremos os blocos associados a cada par de raízes conjugadas. A descomplexificação transforma esses pares em blocos reais correspondentes aos fatores quadráticos irredutíveis de \(c_T(x)\).

Começamos estendendo a noção de conjugação para matrizes.

Definição 10.23
Sejam \(A\in \mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {C})\) e \(\bm {v}\in \mathbb {C}^n\) um vetor qualquer. Definimos \(\overline{A}\in \mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {C})\) como a matriz obtida ao se tomar o conjugado em cada uma das entradas de \(A\) e \(\overline{\bm {v}}\in \mathbb {C}^n\) como o vetor obtido ao se tomar o conjugado em cada uma das coordenadas de \(\bm {v}.\)
É imediato provar que \(\overline{A+\lambda B}=\overline{A}+\overline{\lambda }\overline{B}, \overline{AB}=\overline{A}\overline{B}\) e \(\overline{A\bm {v}}=\overline{A}\overline{\bm {v}}\) para quaisquer matrizes \(A, B\in \mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {C})\), \(\lambda \in \mathbb {C}\) e \(\bm {v}\in \mathbb {C}^n\).

As próximas proposições relacionam os autovalores, os autoespaços invariantes, etc. para um operador linear \(T\) e sua complexificação \(T^{\mathbb {C}}\).

Proposição 10.24

Sejam \(V\) um espaço vetorial real de dimensão finita, \(T:V\rightarrow V\) um operador linear e \(T^{\mathbb {C}}\) sua complexificação. Então:

  1. os polinômios característicos de \(T\) e \(T^{\mathbb {C}}\) são iguais;

  2. se \(\lambda \) é um autovalor de \(T^{\mathbb {C}},\) então \( \overline{\lambda }\) é também um autovalor de \(T^{\mathbb {C}}\);

  3. as multiplicidades algébricas dos autovalores \(\lambda \) e \(\overline{\lambda }\) são iguais;

  4. se \( W'\) é um subespaço fechado por conjugação, então \( W'\) possui uma base formada por vetores reais. Um vetor \(\bm {v}\) é dito real se \(\overline{\bm {v}}=\bm {v}\).

Demonstração

a As matrizes de \(T\) e de sua complexificação \(T^{\mathbb {C}}\), na mesma base real considerada sobre \(\mathbb {C}\), têm as mesmas entradas.

b Sejam \(\lambda \) um autovalor de \(T^{\mathbb {C}}\) e \(c_T(z)\) o polinômio característico de \(T^{\mathbb {C}}\). Como \(c_T(z)\) também é o polinômio característico de \(T\), os coeficientes de \(c_T(z)\) são reais.

Tomando o conjugado na equação \(c_T(\lambda )=0\), obtemos \(c_T(\overline{\lambda })=0\), o que mostra que \(\overline{\lambda }\) também é uma raiz do polinômio característico de \(T^{\mathbb {C}}\).

c Se \(\lambda \) é raiz de multiplicidade \(d\) do polinômio característico, então

\[ c_T'(\lambda )=\ldots =c_T^{(d-1)}(\lambda )=0 \text{ e } c_T^{(d)}(\lambda )\neq 0 \]

tomando o conjugado em cada uma dessas equações

\[ c_T'(\overline{\lambda })=\ldots =c_T^{(d-1)}(\overline{\lambda })=0 \text{ e }c_T^{(d)}(\overline{\lambda })\neq 0, \]

mostrando que \(\overline{\lambda }\) também tem multiplicidade \(d.\)

d Seja \(\{ \bm {w}_{1},\ \ldots ,\ \bm {w}_{k}\} \) uma base de \(W'\), com \(\bm {w}_j=\bm {u}_j+i\bm {v}_j\) e \(\bm {u}_j,\bm {v}_j\in V\). Como \(W'\) é fechado por conjugação,

\[ \bm {u}_j=\frac{\bm {w}_j+\overline{\bm {w}_j}}2 \quad \text{e}\quad \bm {v}_j=\frac{\bm {w}_j-\overline{\bm {w}_j}}{2i} \]

pertencem a \(W'\), identificando \(V\) com o subespaço dos vetores reais de \(V^{\mathbb {C}}\).

Assim, o conjunto \(S=\{ \bm {u}_{1},\ \bm {v}_{1},\ \ldots ,\ \bm {u}_{k},\ \bm {v}_{k}\} \) é um conjunto de vetores reais que gera \( W'\). Uma base formada de vetores reais é obtida tomando um subconjunto de \(S\) com \(k\) elementos linearmente independentes em \(V^{\mathbb {C}}\).

Lema 10.25
Sejam \(T:V\rightarrow V\) um operador linear e \(T^{\mathbb {C}}\) sua complexificação. Se o subespaço \( W'\subset V^{\mathbb {C}}\) possui uma base formada por vetores reais, então ele é a complexificação de um subespaço \(W\subset V.\)

Demonstração

Todo vetor de \( \bm {w}\in W'\) pode ser escrito como \(\bm {w}=\bm {u}+i\bm {v}\), sendo \(\bm {u}\) e \(\bm {v}\) vetores reais. Escrevendo \(\bm {u}\) e \(\bm {v}\) em termos dos vetores da base real, segue imediatamente que \( W'\) é a complexificação do espaço real \(W\) gerado pelos vetores dessa base.

Proposição 10.26
Seja \(V\) um espaço vetorial real de dimensão finita, seja \(T\in \operatorname {Hom}(V,V)\) e considere sua complexificação \(T^{\mathbb {C}}:V^{\mathbb {C}}\to V^{\mathbb {C}}\). Se \(\alpha _1,\ldots ,\alpha _k\) são os autovalores reais e \(\lambda _1,\overline{\lambda _1},\ldots ,\lambda _m,\overline{\lambda _m}\) são os pares de autovalores não reais, então
\[ V^{\mathbb {C}}=\bigoplus _{j=1}^k W_j\oplus \bigoplus _{j=1}^m\bigl(Z_j\oplus \overline{Z_j}\bigr), \]
onde \(W_j=\ker (T^{\mathbb {C}}-\alpha _j\operatorname {I})^{q_j}\) e \(Z_j=\ker (T^{\mathbb {C}}-\lambda _j\operatorname {I})^{r_j}\). A conjugação leva \(Z_j\) isomorficamente em \(\overline{Z_j}\). Se \(\{ \bm {z}_1,\ldots ,\bm {z}_s\} \) é uma base de \(Z_j\) e \(\bm {z}_h=\bm {u}_h+i\bm {v}_h\), então
\[ \{ \bm {u}_1,\bm {v}_1,\ldots ,\bm {u}_s,\bm {v}_s\} \]
é uma base real do subespaço real cuja complexificação é \(Z_j\oplus \overline{Z_j}\).

Demonstração

O Teorema da Decomposição em Autoespaços Generalizados, aplicado a \(T^{\mathbb {C}}\), fornece a decomposição indicada. Além disso,

\[ \overline{(T^{\mathbb {C}}-\lambda \operatorname {I})^j\bm {z}}=(T^{\mathbb {C}}-\overline\lambda \operatorname {I})^j\overline{\bm {z}}, \]

de modo que a conjugação identifica \(Z_j\) com \(\overline{Z_j}\). Por fim, \(\bm {z}_h\) e \(\overline{\bm {z}_h}\) geram o mesmo espaço complexo que suas partes real e imaginária, \(\bm {u}_h\) e \(\bm {v}_h\). Isso prova a última afirmação.

Teorema 10.27 (Forma de Jordan Real)

Se \(V\) é um espaço vetorial real e \(T:V\rightarrow V\) é um operador linear, existe uma base \(\underline{\textsc{B}}\) de \(V\) em relação à qual a matriz de \(T\) tem, ao longo da diagonal, blocos de Jordan (correspondentes aos autovalores reais) e blocos de Jordan aumentados (correspondentes aos autovalores complexos). A soma das ordens dos blocos de Jordan correspondentes a um mesmo autovalor \(\lambda \) é igual à multiplicidade algébrica de \(\lambda \), se \(\lambda \in \mathbb {R}\) e é igual ao dobro da multiplicidade algébrica de \(\lambda \) se \(\lambda \in \mathbb {C}\setminus \mathbb {R}\).

Os blocos de Jordan aumentados são da forma

\[ J_{a,b}= \left[ \begin{array}{ccccc} C_{a,b} & \operatorname {I}_2 & 0 & \cdots & 0 \\ 0 & C_{a,b} & \operatorname {I}_2 & \ddots & \vdots \\ \vdots & \ddots & \ddots & \ddots & 0 \\ 0 & \cdots & 0 & C_{a,b} & \operatorname {I}_2 \\ 0 & \cdots & \cdots & 0 & C_{a,b} \end{array}\right] \]

onde \(C_{a,b}=\left[\begin{array}{ll} a & b \\ -b & a \end{array}\right],\) sendo \(a+ib\) um autovalor complexo de \(T^{\mathbb {C}}\) e \(\operatorname {I}_{2}\) a matriz identidade \(2\times 2.\)

Demonstração

Sejam \(\alpha _{1}, \ldots ,\alpha _{k}\) os autovalores reais de \(T\) e \(\lambda _{1},\overline{\lambda _{1}}, \ldots ,\lambda _{m},\overline{\lambda _{m}}\) os pares de autovalores não reais de \(T^{\mathbb {C}}\). Então \(V^{\mathbb {C}}\) admite a decomposição

\[ V^{\mathbb {C}}=W_{1}\oplus \cdots \oplus W_{k}\oplus Z_{1}\oplus \overline{Z_{1}}\oplus \cdots \oplus Z_{m}\oplus \overline{Z_{m}}, \]

onde os núcleos são tomados para \(T^{\mathbb {C}}\).

Para cada \(\alpha _j\in \mathbb {R}\), o operador \(T-\alpha _j\operatorname {I}\) restrito ao subespaço real correspondente é nilpotente, e sua base de Jordan pode ser construída como antes.

Suponhamos agora que \(T^{\mathbb {C}}\) possua um autovalor \(\lambda \in \mathbb {C}\backslash \mathbb {R}\).

Fixe um par \(\lambda ,\overline\lambda \) e escreva \(Z_{\lambda }=\ker (T^{\mathbb {C}}-\lambda \operatorname {I})^r\) e \(Z_{\overline\lambda }=\ker (T^{\mathbb {C}}-\overline\lambda \operatorname {I})^r\). Então \(\{ \bm {u}_{1},\ \bm {v}_{1},\ \bm {u}_{2},\ \bm {v}_{2},\ \ldots ,\ \bm {u}_{k},\ \bm {v}_{k}\} \) é uma base real do subespaço cuja complexificação é \(Z_{\lambda }\oplus Z_{\overline{\lambda }}\).

Finalmente, considere uma cadeia de Jordan \(\bm {w}_j=\bm {u}_j+i\bm {v}_j\), \(1\leq j\leq r\), com \(\bm {w}_0=\vec0\) e \(T^{\mathbb {C}}\bm {w}_j=\lambda \bm {w}_j+\bm {w}_{j-1}\), onde \(\lambda =a+ib\in \mathbb {C}\setminus \mathbb {R}\). Então

\[ T\bm {u}_{j}+iT\bm {v}_{j}=(a \bm {u}_{j}- b \bm {v}_{j}+\bm {u}_{j-1})+i( b \bm {u}_{j}+a \bm {v}_{j}+\bm {v}_{j-1})\, \]

e logo

\begin{align*} T\bm {u}_{j}=a \bm {u}_{j}- b \bm {v}_{j}+\bm {u}_{j-1}, \\ T\bm {v}_{j}=b \bm {u}_{j}+a \bm {v}_{j}+\bm {v}_{j-1}. \end{align*}

de onde segue que, na base real \(\{ \bm {u}_{1},\ \bm {v}_{1},\ \bm {u}_{2},\ \bm {v}_{2},\ \ldots ,\ \bm {u}_{r},\ \bm {v}_{r}\} \), o operador \(T\) é representado por um bloco aumentado da forma descrita no enunciado. Repetindo o argumento para todas as cadeias e concatenando as bases, obtemos a forma de Jordan real.

Exemplo 10.28
Seja
\[ A=\left[ \begin{array}{cccc} 0 & -6 & 10 & -5 \\ -1 & -4 & 10 & -5 \\ -1 & -3 & 8 & -4 \\ -2 & -2 & 9 & -4 \\ \end{array} \right] \in \mathcal{M}_{4, 4}(\mathbb {R}) \]
O polinômio característico de \(A\) é \(c_{A}(x)=(1+x^2)^2=(x-i)^2(x+i)^2\) e coincide com o polinômio minimal de \(A\). Os autovalores sobre os complexos são \(i,-i\). Consequentemente temos dois blocos de Jordan, um associado a cada autovalor. Logo a forma normal de Jordan obtida complexificando \(A\) é
\[ \left[ \begin{array}{cc|cc} -i & 1 & 0 & 0 \\ 0 & -i & 0 & 0 \\ \hline 0 & 0 & i & 1 \\ 0 & 0 & 0 & i \\ \end{array} \right] \]
e pelo Teorema 10.27 temos que a forma normal de Jordan sobre \(\mathbb {R}\) é:
\[ \left[ \begin{array}{cc|cc} 0 & 1 & 1 & 0 \\ -1 & 0 & 0 & 1 \\ \hline 0 & 0 & 0 & 1 \\ 0 & 0 & -1 & 0 \\ \end{array} \right] \]

Exercício 10.15

Encontre uma base e a forma de Jordan real para o operador \(T:\mathbb {R}^{4}\to \mathbb {R}^{4}\) tal que

\[ [T]_{\underline{\textsc{B}}}^{\underline{\textsc{B}}}=\left[\begin{array}{cccc} 2 & 0 & 0 & -2\\ 5 & 2 & -2 & 2\\ 3 & 1 & 0 & -3\\ 1 & 0 & 0 & 0 \end{array}\right]. \]

Exercício 10.16

Seja \(A\in M_{n}(\mathbb {R})\) , tal que \(A^{2}+I_{n}=0\). Prove que \(n=2k\) e que \(A\) é semelhante à matriz

\[ B=\left[\begin{array}{ll} 0 & -I_{k}\\ I_{k} & 0 \end{array}\right], \]

onde \(I_{k}\in M_{k}(\mathbb {R})\) é a matriz identidade.