Uma álgebra é um espaço vetorial no qual também podemos multiplicar vetores. Essa estrutura reúne exemplos já estudados: polinômios, matrizes e operadores lineares. A multiplicação nem sempre é comutativa, como ocorre com matrizes e com a composição de operadores.
Os quatérnios, descobertos por William Rowan Hamilton em 1843, constituem outro exemplo. Eles formam um sistema numérico real de dimensão quatro cuja multiplicação é associativa, mas não comutativa. O conceito de álgebra permite estudar as propriedades comuns a esses sistemas, relacionando a multiplicação à estrutura de espaço vetorial.
7.1 Definições e exemplos
Definição 7.1 (Álgebra associativa)
Uma álgebra associativa sobre um corpo \(\mathbb {K}\) é um espaço vetorial \(\mathfrak A\) sobre \(\mathbb {K}\), munido de uma multiplicação
Neste capítulo, a palavra álgebra significará sempre álgebra associativa. Não exigiremos comutatividade nem a existência de identidade multiplicativa, a menos que isso seja dito explicitamente. Uma álgebra é comutativa quando \(ab=ba\) para todos \(a,b\in \mathfrak A\).
Definição 7.2 (Álgebra unital)
Uma álgebra \(\mathfrak A\) é unital se existe um elemento \(1_{\mathfrak A}\in \mathfrak A\) tal que
\[ 1_{\mathfrak A}a=a1_{\mathfrak A}=a \]
para todo \(a\in \mathfrak A\).
Quando não houver risco de confusão, escreveremos apenas \(1\). A identidade é única: se \(e\) e \(e'\) são identidades de \(\mathfrak A\), então \(e=ee'=e'\).
Definição 7.3 (Elemento invertível)
Se \(\mathfrak A\) é unital, um elemento \(a\in \mathfrak A\) é invertível se existe \(b\in \mathfrak A\) tal que \(ab=ba=1\). Nesse caso, escrevemos \(b=a^{-1}\).
O inverso também é único. Com efeito, se \(ab=ba=1\) e \(ac=ca=1\), então
\[ b=b(ac)=(ba)c=c. \]
Exemplo 7.4 (Álgebra de polinômios)
O espaço \(\mathbb {K}[x]\), com as operações usuais, é uma álgebra comutativa unital. Se
A família \(\{ 1,x,x^2,\ldots \} \) é uma base de \(\mathbb {K}[x]\); portanto, essa álgebra tem dimensão infinita. Seus elementos invertíveis são precisamente os polinômios constantes não nulos.
Exemplo 7.5 (Álgebra de matrizes)
O espaço \(\mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K})\), com a multiplicação de matrizes, é uma álgebra unital. Sua identidade é a matriz \(I_n\). Para \(n\gt 1\), ela não é comutativa. As unidades matriciais \(E_{ij}\), com \(1\leq i,j\leq n\), formam uma base e satisfazem
\[ E_{ij}E_{k\ell }=\delta _{jk}E_{i\ell }. \]
Exemplo 7.6 (Álgebra de operadores)
Para qualquer espaço vetorial \(V\), o espaço \(\operatorname {Hom}(V,V)\) é uma álgebra com o produto dado pela composição:
\[ (ST)(v)=S(T(v)). \]
A identidade é o operador identidade \(I_V\). Se \(\dim V\gt 1\), em geral \(ST\neq TS\). Os elementos invertíveis dessa álgebra são exatamente os isomorfismos de \(V\) em \(V\).
Quando \(V\) tem dimensão finita e uma base é escolhida, o isomorfismo \(\operatorname {Hom}(V,V)\cong \mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K})\) transforma composição de operadores em multiplicação de matrizes. Assim, a álgebra de matrizes é uma representação concreta da álgebra de operadores.
Exemplo 7.7
Todo corpo \(L\) que contém \(\mathbb {K}\) é uma álgebra comutativa unital sobre \(\mathbb {K}\). Em particular, \(\mathbb {C}\) é uma álgebra real de dimensão dois, com base \(\{ 1,i\} \).
7.2 Subálgebras, ideais e centro
Definição 7.8 (Subálgebra)
Uma subálgebra de \(\mathfrak A\) é um subespaço vetorial \(\mathfrak B\subseteq \mathfrak A\) fechado para a multiplicação. Se \(\mathfrak A\) é unital, dizemos que \(\mathfrak B\) é uma subálgebra unital quando \(1_{\mathfrak A}\in \mathfrak B\).
Uma subálgebra pode possuir identidade própria sem ser uma subálgebra unital. Por exemplo,
\[ \mathfrak B= \left\{ \begin{bmatrix} a
& b
& 0
\\ c
& d
& 0
\\ 0
& 0
& 0
\end{bmatrix}:a,b,c,d\in \mathbb {K}\right\} \subseteq \mathcal{M}_{3, 3}(\mathbb {K}) \]
tem identidade \(\operatorname {diag}(1,1,0)\), diferente de \(I_3\).
Se \(S\subseteq \mathfrak A\), a subálgebra gerada por \(S\), denotada por \(\operatorname {Alg}(S)\), é a interseção de todas as subálgebras que contêm \(S\). Equivalentemente,
onde, para \(m=0\), a soma é por convenção o elemento nulo. De fato, o conjunto à direita é um ideal que contém \(S\) — para \(s\in S\), tome \(m=1\), \(a_1=b_1=1\) e \(s_1=s\) — e está contido em todo ideal que contém \(S\). Em particular, \(\langle \emptyset \rangle =\{ 0\} \).
Definição 7.10 (Centro)
O centro de \(\mathfrak A\) é a subálgebra
\[ Z(\mathfrak A)=\{ a\in \mathfrak A:ab=ba\text{ para todo }b\in \mathfrak A\} . \]
Se \(\mathfrak A\) é unital, então \(\mathbb {K}1\subseteq Z(\mathfrak A)\). A álgebra é denominada central quando \(Z(\mathfrak A)=\mathbb {K}1\).
Definição 7.11 (Álgebra simples)
Uma álgebra \(\mathfrak A\) é simples se \(\mathfrak A^2\neq \{ 0\} \) e seus únicos ideais são \(\{ 0\} \) e \(\mathfrak A\). Uma álgebra unital que é simples e central é chamada álgebra simples central.
Aqui, \(\mathfrak A^2\) denota o subespaço gerado pelos produtos \(ab\), com \(a,b\in \mathfrak A\). A condição \(\mathfrak A^2\neq \{ 0\} \) exclui a álgebra não nula cuja multiplicação é identicamente zero.
Exemplo 7.12
A álgebra \(\mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K})\) é simples. Para provar isso, seja \(J\neq \{ 0\} \) um ideal e escolha \(A=[a_{rs}]\in J\) com \(a_{ij}\neq 0\). Para quaisquer \(k,\ell \),
\[ E_{ki}AE_{j\ell }=a_{ij}E_{k\ell }\in J. \]
Logo, todas as unidades matriciais pertencem a \(J\) e, portanto, \(J=\mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K})\).
Se \(\mathfrak A_1,\ldots ,\mathfrak A_r\) são álgebras sobre \(\mathbb {K}\), o produto cartesiano \(\mathfrak A_1\times \cdots \times \mathfrak A_r\) é uma álgebra com operações componente a componente. Cada fator se identifica com um ideal do produto. Quando os fatores são unitais, a identidade é \((1_{\mathfrak A_1},\ldots ,1_{\mathfrak A_r})\).
7.3 Homomorfismos e álgebras quocientes
Definição 7.13 (Homomorfismo de álgebras)
Se \(\mathfrak A\) e \(\mathfrak B\) são álgebras sobre \(\mathbb {K}\), um mapa \(\varphi :\mathfrak A\to \mathfrak B\) é um homomorfismo de álgebras se é linear e
\[ \varphi (ab)=\varphi (a)\varphi (b) \]
para todos \(a,b\in \mathfrak A\). Se as duas álgebras são unitais, o homomorfismo é unital quando \(\varphi (1_{\mathfrak A})=1_{\mathfrak B}\).
Um homomorfismo bijetivo é um isomorfismo. Quando \(\mathfrak A=\mathfrak B\), um isomorfismo é chamado automorfismo.
Proposição 7.14
Se \(\varphi :\mathfrak A\to \mathfrak B\) é um homomorfismo de álgebras, então \(\ker \varphi \) é um ideal de \(\mathfrak A\) e \(\operatorname {im}\varphi \) é uma subálgebra de \(\mathfrak B\).
Demonstração▼
Como \(\varphi \) é linear, seu núcleo é um subespaço de \(\mathfrak A\) e sua imagem é um subespaço de \(\mathfrak B\). Se \(x\in \ker \varphi \) e \(a\in \mathfrak A\), então
Logo, \(ax,xa\in \ker \varphi \). Se \(y=\varphi (a)\) e \(z=\varphi (b)\) pertencem à imagem, então \(yz=\varphi (ab)\) também pertence à imagem. Isso prova as duas afirmações.
Exemplo 7.15 (Cálculo funcional polinomial)
Se \(\mathfrak A\) é unital e \(a\in \mathfrak A\), a avaliação
é um homomorfismo unital. A linearidade é imediata. Para monômios, \(\operatorname {ev}_a(x^r x^s)=a^{r+s}=a^ra^s\); pela distributividade, a igualdade se estende a quaisquer polinômios. Sua imagem é precisamente \(\operatorname {Alg}(1,a)\).
Se \(J\) é um ideal de \(\mathfrak A\), definimos em \(\mathfrak A\) a relação
\[ x\sim y\quad \Longleftrightarrow \quad x-y\in J. \]
Ela é uma relação de equivalência, e a classe de \(x\) é \([x]=x+J\). O conjunto das classes será denotado por \(\mathfrak A/J\).
estão bem definidas e tornam \(\mathfrak A/J\) uma álgebra sobre \(\mathbb {K}\). Se \(\mathfrak A\) é unital e \(J\neq \mathfrak A\), então \(\mathfrak A/J\) é unital, com identidade \([1]\).
Demonstração▼
As duas primeiras operações são as operações usuais do espaço vetorial quociente. Para verificar a multiplicação, suponha que \([x]=[x']\) e \([y]=[y']\). Então \(x-x',y-y'\in J\) e
\[ xy-x'y'=x(y-y')+(x-x')y'\in J, \]
pois \(J\) é um ideal bilateral. Logo, \([xy]=[x'y']\). A bilinearidade e a associatividade são herdadas de \(\mathfrak A\). No caso unital, \([1][x]=[x][1]=[x]\).
Teorema 7.17 (Primeiro Teorema do Isomorfismo)
Se \(\varphi :\mathfrak A\to \mathfrak B\) é um homomorfismo de álgebras, então
Em dimensão finita, o núcleo é um ideal não nulo de \(\mathbb {K}[x]\); seu gerador mônico é o polinômio minimal de \(a\).
7.4 Constantes de estrutura
Se \(\mathfrak A\) tem dimensão finita e \(\mathcal B=\{ z_1,\ldots ,z_n\} \) é uma base, existem escalares únicos \(\gamma _{ij}^{k}\in \mathbb {K}\) tais que
\[ z_i z_j=\sum _{k=1}^{n}\gamma _{ij}^{k}z_k. \]
Os \(n^3\) escalares \(\gamma _{ij}^{k}\) são chamados constantes de estrutura de \(\mathfrak A\) na base \(\mathcal B\). Eles determinam toda a multiplicação, pois, se \(a=\sum _i\alpha _i z_i\) e \(b=\sum _j\beta _jz_j\), então
Reciprocamente, uma escolha de constantes de estrutura define, por bilinearidade, uma multiplicação no espaço vetorial. A condição de associatividade pode ser verificada apenas nos elementos da base.
Proposição 7.18
A multiplicação determinada por \(\gamma _{ij}^{k}\) é associativa se, e somente se,
Como \(\mathcal B\) é uma base, essas expressões são iguais precisamente quando os coeficientes indicados coincidem. Pela trilinearidade, a associatividade nos elementos da base equivale à associatividade em toda a álgebra. De modo análogo, \(z_i z_j=z_j z_i\) equivale às igualdades entre as constantes, e a bilinearidade estende a comutatividade a todos os elementos.
Exemplo 7.19 (Quatérnios)
Se \(\mathbb {K}\) é um subcorpo de \(\mathbb {R}\), o espaço vetorial
A associatividade vem da associatividade em \(G\), e o elemento neutro de \(G\) é a identidade da álgebra. Além disso, \(\mathbb {K}G\) é comutativa se, e somente se, \(G\) é abeliano.
Exemplo 7.20
Considere \(C_4=\{ 1,\omega ,\omega ^2,\omega ^3\} \), com \(\omega ^4=1\), e sejam, em \(\mathbb {Q}C_4\),
Para \(y=\alpha +\beta \omega +\gamma \omega ^2\), temos
\[ ey=ye=(\alpha +\beta +\gamma )e. \]
Logo, \(J\) é um ideal unidimensional. Como \(e^2=3e\), se \(\operatorname {char}\mathbb {K}\neq 3\), o elemento \(e/3\) é a identidade de \(J\). Em particular, sobre \(\mathbb {Q}\), temos \(J\cong \mathbb {Q}\) como álgebras.
Se \(\operatorname {char}\mathbb {K}=3\), então \(e^2=0\) e o produto de quaisquer dois elementos de \(J\) é zero. O mesmo subespaço, portanto, possui comportamentos algébricos radicalmente diferentes conforme o corpo base.
As álgebras de grupo relacionam a teoria de representações à álgebra linear: uma representação de \(G\) em um espaço vetorial \(V\) estende-se, por linearidade, a um homomorfismo de álgebras \(\mathbb {K}G\to \operatorname {Hom}(V,V)\). Desse modo, uma ação de grupo pode ser estudada por meio de operadores lineares.