Classificação das Quádricas
No Capítulo 10 estudamos as principais superfícies quádricas em posição canônica. Vimos como reconhecê-las por suas equações, por parametrizações e, sobretudo, por seus cortes. Nos Capítulos 11 e 12 aprendemos a mudar o sistema de coordenadas.
Esses resultados permitem formular o problema de classificação:
Uma equação geral tem a forma
onde pelo menos um dos coeficientes dos termos quadráticos é não nulo. A forma da equação depende do sistema de coordenadas. Escolhendo eixos adequados e transladando a origem, podemos reduzi-la a uma das formas já estudadas.
A estratégia será sempre a mesma:
13.1 Eixos principais no espaço
No plano, o Teorema 11.4 mostrou que uma rotação elimina o termo misto \(xy\). Em três dimensões podem aparecer três termos mistos: \(xy\), \(xz\) e \(yz\). O fato correspondente é o seguinte.
Assim, depois de uma rotação apropriada dos eixos, a Equação (13.1) assume a forma
Não demonstraremos o Teorema 13.1. Ele é a versão tridimensional do fenômeno que provamos diretamente no plano. Em um curso de Álgebra Linear, sua demonstração é obtida a partir do teorema espectral para matrizes simétricas. Para a classificação geométrica, usaremos apenas sua consequência: existem eixos cartesianos nos quais não há termos mistos.
13.2 Depois da rotação: completar quadrados
Uma vez eliminados os termos mistos, resta a Equação (13.2). Se \(a\neq 0\), então
Fazemos o mesmo para cada variável que aparece ao quadrado. Isso corresponde geometricamente a transladar a origem.
Por exemplo, se \(a,b,c\) são todos não nulos, uma translação produz uma equação da forma
A classificação passa então a depender apenas dos sinais de \(a,b,c\) e de \(k\).
Se um dos coeficientes quadráticos é zero, a variável correspondente pode aparecer apenas em primeiro grau ou pode estar ausente. Essa distinção produzirá os paraboloides e cilindros.
Escolhidos os eixos principais, o completamento de quadrados permite organizar os casos e interpretar geometricamente as equações resultantes.
13.3 Três termos quadráticos
Suponha inicialmente que, após escolher os eixos principais e transladar a origem, obtivemos
13.3.1 Os três sinais iguais
Multiplicando a equação por \(-1\), se necessário, podemos supor
Há três possibilidades.
Se \(k\gt 0\), dividimos por \(k\) e obtemos
um elipsoide.
Se \(k=0\), a soma de três termos não negativos só pode ser zero quando
A quádrica degenera num único ponto.
Se \(k\lt 0\), não existem soluções reais: obtemos o conjunto vazio.
13.3.2 Sinais mistos
Suponha agora que nem todos os coeficientes tenham o mesmo sinal. Trocando todos os sinais, se necessário, basta considerar dois positivos e um negativo:
Se \(k\gt 0\), a normalização produz
um hiperboloide de uma folha.
Se \(k\lt 0\), depois de multiplicar por \(-1\) obtemos
um hiperboloide de duas folhas.
Se \(k=0\), obtemos
um cone elíptico.
A distinção entre uma e duas folhas pode ser verificada pelos cortes \(Z=h\): no primeiro caso há elipses para todo \(h\); no segundo existe uma faixa de valores de \(h\) sem pontos, que separa as duas folhas.
13.4 Dois termos quadráticos
Suponha agora que, após a rotação, apenas duas variáveis aparecem ao quadrado. Completando quadrados nessas duas variáveis, chegamos a
Há duas situações geometricamente distintas.
13.4.1 A terceira variável aparece em primeiro grau
Se \(\ell \neq 0\), isolamos \(Z\):
Uma translação na direção de \(Z\) elimina a constante \(\gamma \).
Se \(\alpha \) e \(\beta \) têm o mesmo sinal, obtemos um paraboloide elíptico:
possivelmente após inverter a orientação do eixo \(Z\).
Se os sinais são opostos, obtemos um paraboloide hiperbólico:
Os cortes \(Z=h\) distinguem imediatamente os dois casos: elipses no primeiro e hipérboles no segundo; pelos planos verticais aparecem parábolas.
13.4.2 A terceira variável está ausente
Se \(\ell =0\), a equação não envolve \(Z\):
O conjunto descrito no plano \(XY\) é transportado paralelamente ao eixo \(Z\). Obtemos, portanto, um cilindro quádrico ou um caso degenerado.
Quando \(a\) e \(b\) têm o mesmo sinal:
\(k\) com o sinal adequado: cilindro elíptico;
\(k=0\): uma reta, o eixo do cilindro degenerado;
sinal incompatível: conjunto vazio.
Quando \(a\) e \(b\) têm sinais opostos:
\(k\neq 0\): cilindro hiperbólico;
\(k=0\): dois planos concorrentes.
13.5 Um único termo quadrático
Resta o caso em que, nos eixos principais, apenas uma variável aparece ao quadrado. Depois de completar o quadrado correspondente, a equação tem a forma
Se pelo menos um entre \(\ell \) e \(m\) é não nulo, podemos girar os eixos no plano \(YZ\) de modo que a combinação linear \(\ell Y+mZ\) use apenas uma nova coordenada. A equação se reduz a
Depois de uma translação,
A terceira coordenada fica livre: temos um cilindro parabólico.
Se \(\ell =m=0\), obtemos simplesmente
Nesse caso:
se \(k/a\gt 0\), temos dois planos paralelos;
se \(k=0\), temos um plano contado duas vezes na equação quadrática;
se \(k/a\lt 0\), o conjunto é vazio.
13.6 A tabela de classificação
Toda a classificação pode ser resumida pela forma obtida depois de escolher eixos principais e completar quadrados.
| Forma reduzida | Geometria |
|---|---|
| $+X^2+Y^2+Z^2=1$ | elipsoide |
| $+X^2+Y^2-Z^2=1$ | hiperboloide de uma folha |
| $-X^2-Y^2+Z^2=1$ | hiperboloide de duas folhas |
| $+X^2+Y^2-Z^2=0$ | cone elíptico |
| $Z=+X^2+Y^2$ | paraboloide elíptico |
| $Z=+X^2-Y^2$ | paraboloide hiperbólico |
| $+X^2+Y^2=1$ com $Z$ livre | cilindro elíptico |
| $+X^2-Y^2=1$ com $Z$ livre | cilindro hiperbólico |
| $Y=X^2$ com $Z$ livre | cilindro parabólico |
| formas-limite | ponto, reta, plano, dois planos ou conjunto vazio |
Os coeficientes positivos que foram omitidos na primeira coluna apenas alteram escalas nos eixos. O que determina o tipo geométrico são o número de termos quadráticos, seus sinais e a presença ou ausência de termos lineares nas direções sem termo quadrático.
13.7 Exemplos completos
13.8 O que significa classificar
A classificação não afirma que todas as equações de segundo grau são visualmente simples nas coordenadas originais. Ela afirma algo mais geométrico: depois de mudar a origem e orientar adequadamente os eixos, não aparecem novas famílias além das formas fundamentais já estudadas.
Em outras palavras, uma equação complicada como (13.1) pode esconder uma superfície familiar simplesmente porque estamos olhando para ela a partir de um sistema de coordenadas pouco conveniente.
O teorema sintetiza o percurso de todo o livro. Começamos escolhendo vetores e coordenadas para descrever a geometria. Terminamos entendendo que uma boa escolha de coordenadas pode revelar a geometria que uma equação aparentemente complicada estava escondendo.
Completando quadrados, Logo É um elipsoide de centro \((1,-1,2)\), com semieixos nas direções dos eixos \(x,y,z\), respectivamente. Completando quadrados, ou É um hiperboloide de uma folha, de centro \((-1,1,1)\) e eixo paralelo a \(z\). No plano \(z=1\) o corte é a elipse Nos planos \(x=-1\) e \(y=1\) os cortes são hipérboles, confirmando a classificação. Como a equação se torna Portanto é um hiperboloide de uma folha, com eixo paralelo ao eixo \(z\). Tome Então isto é, Logo é um paraboloide elíptico de vértice na origem. Seu eixo é a direção positiva da coordenada \(v\), isto é, a direção do vetor \(x^2+y^2+z^2=0\); \(x^2+y^2+z^2=-1\); \(x^2-y^2=0\); \(x^2=4\); \(x^2=0\). Respectivamente: apenas a origem; conjunto vazio; os dois planos concorrentes \(x=y\) e \(x=-y\); os dois planos paralelos \(x=2\) e \(x=-2\); o plano \(x=0\), contado duas vezes pela equação quadrática. A equação não impõe nenhuma condição sobre \(Z\). Assim, se \((X,Y,Z_0)\) é solução, então \((X,Y,Z)\) é solução para todo \(Z\in \mathbb {R}\). Cada ponto da cônica no plano \(XY\) gera uma reta paralela ao eixo \(Z\). A união dessas retas é o cilindro correspondente, ou um caso degenerado quando a cônica plana degenera. No primeiro caso, o corte \(z=k\) satisfaz e portanto é uma elipse para todo \(k\in \mathbb {R}\). A superfície tem uma única folha. No segundo caso, O corte é vazio para \(|k|\lt c\), reduz-se a um ponto para \(|k|=c\) e é uma elipse para \(|k|\gt c\). Há, portanto, duas folhas separadas por uma faixa sem pontos. O teorema garante a existência de uma rotação cartesiana que elimina simultaneamente os termos mistos. Depois dessa rotação, completar quadrados e transladar a origem levam a uma das formas reduzidas classificadas no capítulo. Como mudanças cartesianas não alteram o tipo geométrico da superfície, nenhuma nova família pode surgir apenas da presença dos termos mistos nas coordenadas originais. Ver solução
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