No plano há infinitas direções, mas duas direções não paralelas bastam para descrever qualquer vetor; no espaço, três direções adequadamente escolhidas desempenham o mesmo papel. Para tornar essa ideia precisa, estudaremos combinações lineares, dependência e independência linear e, em seguida, bases.
Como vimos no capítulo anterior, a adição de vetores e a multiplicação por escalares permitem construir novos vetores a partir de vetores dados. Esses vetores são chamados de combinações lineares dos vetores iniciais.
Figura2.1O vetor \(\boldsymbol {w}\) pode ser escrito como soma de múltiplos dos vetores \(\boldsymbol {u}\) e \(\boldsymbol {v}\).
Definição 2.1
Um vetor \(\boldsymbol {w}\) é uma combinação linear dos vetores \(\boldsymbol {v}_1,\dots ,\boldsymbol {v}_n\) se existem escalares \(\lambda _1,\dots ,\lambda _n\) tais que
Na Figura 2.3, o vetor \(\boldsymbol {f}_1\) é combinação linear de \(\boldsymbol {f}_2,\boldsymbol {f}_3,\boldsymbol {f}_4,\boldsymbol {f}_5\). Como esses cinco vetores formam um polígono fechado,
Escolhamos dois vetores \(\boldsymbol {i},\boldsymbol {j}\) ortogonais e unitários e escrevamos os demais vetores nessa base (Figura 2.4). Tomemos \(\boldsymbol {i} = \dfrac {\overrightarrow {AB}}{\lVert \overrightarrow {AB}\rVert }\) e \(\boldsymbol {j}\) como a rotação de \(\boldsymbol {i}\) de um ângulo de \(90^\circ \) no sentido anti-horário.
Como \(\lVert \overrightarrow {AB}\rVert =3\), temos \(\overrightarrow {AB}=3\boldsymbol {i}\).
Um vetor \(\boldsymbol {v}\) é dito linearmente dependente (LD) se \(\boldsymbol {v} = {\boldsymbol {\displaystyle 0}}\).
Os vetores \(\boldsymbol {v}_{1},\dots ,\boldsymbol {v}_{n}\) (\(n\geq 2\)) são ditos linearmente dependentes(LD) se existe um \(i\in \{ 1,2,\dots ,n\} \) tal que o vetor \(\boldsymbol {v_i}\) seja combinação linear dos demais vetores, ou seja:
onde \(\lambda _1,\lambda _2,\dots ,\lambda _n \in \mathbb R\).
Definição 2.6
Dizemos que os vetores \(\boldsymbol {v}_{1},\dots ,\boldsymbol {v}_{n}\) são linearmente independentes(LI) se eles não são linearmente dependentes.
Para dois vetores, a independência linear admite uma caracterização geométrica imediata. Mais adiante, na Seção 2.1.1, estenderemos essa ideia a conjuntos maiores.
Proposição 2.7
Quaisquer dois vetores não nulos e não paralelos \(\boldsymbol {e}_{1}\) e \(\boldsymbol {e}_{2}\) são linearmente independentes.
Demonstração▼
Suponha, por absurdo, que \(\boldsymbol {e}_1\) e \(\boldsymbol {e}_2\) sejam linearmente dependentes. Pela definição, um deles é múltiplo escalar do outro:
Pela Proposição 1.10, isso implica que \(\boldsymbol {e}_1\) e \(\boldsymbol {e}_2\) são paralelos, contradizendo a hipótese. Portanto são linearmente independentes.
A partir da definição anterior podemos provar a seguinte caracterização:
Proposição 2.8
Os vetores \(\boldsymbol {v}_{1},\dots ,\boldsymbol {v}_{n}\) são linearmente dependentes se e somente se existem \(\lambda _1,\lambda _2,\dots ,\lambda _n \in \mathbb {R}\) não todos nulos tais que
Para \(n=1\), a afirmação diz simplesmente que \(\boldsymbol {v}\) é linearmente dependente se e somente se \(\boldsymbol {v}={\boldsymbol {\displaystyle 0}}\), o que é exatamente a definição.
Considere agora \(n\geq 2\). Se \(\boldsymbol {v}_1,\dots ,\boldsymbol {v}_n\) são linearmente dependentes, podemos supor, sem perda de generalidade, que
Em outras palavras, a única relação linear entre os vetores é a relação trivial. Equivalentemente, \({\boldsymbol {\displaystyle 0}}\) possui uma única representação como combinação linear de \(\boldsymbol {v}_1,\dots ,\boldsymbol {v}_n\).
Esse teorema permite demonstrar a unicidade da representação de um vetor como combinação linear de vetores linearmente independentes:
Proposição 2.10
Seja \(\boldsymbol {u}\) um vetor que possa ser escrito como combinação linear do conjunto linearmente independente de vetores \(\left\{ \boldsymbol {v}_{i}\right\} _{i=1,\dots n}\)
Se a única solução for \(\lambda _1=\cdots =\lambda _n=0\), os vetores são linearmente independentes; caso exista uma solução não trivial, são linearmente dependentes.
Exemplo 2.12
Suponha que os vetores \(\boldsymbol {u},\boldsymbol {v},\boldsymbol {w}\) são linearmente independentes. Mostre que os vetores \(\boldsymbol {u+v}, \boldsymbol {u-v}\) e \(\boldsymbol {u+v+w}\) também são linearmente independentes.
Solução
Considere uma relação linear nula entre os três vetores:
O sistema tem apenas a solução \(a=b=c=0\). Portanto \(\boldsymbol {u+v},\boldsymbol {u-v},\boldsymbol {u+v+w}\) são linearmente independentes.
2.1.1 Caracterização Geométrica de Dependência e Independência Linear
Até aqui tratamos dependência e independência linear sobretudo de forma algébrica. Em \(\mathbb {V}^2\) e \(\mathbb {V}^3\), essas noções também podem ser descritas em termos de paralelismo e coplanaridade:
Teorema 2.13
(Caracterização Geométrica da Dependência e Independência Linear) Para vetores em \(\mathbb {V}^2\) e \(\mathbb {V}^3\) temos:
Um vetor \(\boldsymbol {v}\) é linearmente dependente se e somente se \(\boldsymbol {v} = {\boldsymbol {\displaystyle 0}}\).
Dois vetores \(\boldsymbol {u,v}\) são linearmente dependentes se e somente se \(\boldsymbol {u}\) e \(\boldsymbol {v}\) são paralelos.
Três vetores \(\boldsymbol {u},\boldsymbol {v},\boldsymbol {w}\) são linearmente dependentes se e somente se são coplanares.
Quatro ou mais vetores são sempre linearmente dependentes.
Demonstraremos o teorema na próxima seção, depois de introduzir o conceito de base. Antes disso, veremos como a caracterização geométrica pode ser usada em alguns problemas.
Exemplo 2.14
Mostre que as diagonais de um paralelogramo se intersectam nos seus pontos médios.
Solução
Considere um paralelogramo \(ABCD\) de diagonais \(AC\) e \(BD\). Seja \(M\) o ponto de interseção de \(AC\) e \(BD\) (ponto que, a priori, não é necessariamente ponto médio das diagonais).
donde temos \(\lambda = \theta = \dfrac {1}{2}\) como queríamos.
Observação 2.15
Note que nas equações (2.4) e (2.5) usamos letras distintas para os escalares que multiplicam \(\overrightarrow {AC}\) e \(\overrightarrow {BD}\), pois, a princípio, não sabíamos se a proporção que \(AM\) guardava em relação a \(AC\) é a mesma que \(BM\) guardava em relação a \(BD\).
Exemplo 2.16
Sejam \(M_{1},M_{2},M_{3}\) os pontos médios dos lados \(BC,CA\) e \(AB\), respectivamente, do triângulo \(\triangle ABC\). Seja \(G\) o ponto de interseção das medianas \(AM_{1}\) e \(BM_{2}\). Mostre que \(G\) divide \(AM_{1}\) e \(BM_{2}\) na razão \(2\) para \(1\).
Denotemos \(\boldsymbol {a}=\overrightarrow {AB}\) e \(\boldsymbol {b}=\overrightarrow {AC}\). Como \(\boldsymbol {a}\) e \(\boldsymbol {b}\) não são paralelos, são linearmente independentes. Escreveremos os demais vetores em função dessa dupla.
Ou seja, \(G\) divide tanto o segmento \(AM_1\) quanto o segmento \(BM_2\) na razão \(2\) para \(1\).
Exemplo 2.17
Usando a mesma nomenclatura do exemplo anterior, prove que as três medianas do triângulo \(\triangle ABC\) têm um único ponto comum, \(G\), que divide as três medianas \(AM_{1}\), \(BM_{2}\) e \(CM_{3}\) na razão \(2\) para \(1\).
\(G\) é conhecido como baricentro do triângulo.
Solução
Pelo exemplo anterior, resta mostrar que \(C,G,M_3\) são colineares e que
Sejam \(r\) e \(s\) duas retas distintas que se interceptam em \(O\). Considere pontos \(A,C\in r\) e \(B,D\in s\), com \(A\) entre \(O\) e \(C\) e \(B\) entre \(O\) e \(D\), como na figura. Mostre que os segmentos \(\overline{AB}\) e \(\overline{CD}\) são paralelos se e somente se
Logo \(\overrightarrow {AB}\) e \(\overrightarrow {CD}\) são paralelos, e portanto também os segmentos \(\overline{AB}\) e \(\overline{CD}\).
2.2 Bases
Dizemos que os vetores \(\boldsymbol {v}_1,\dots ,\boldsymbol {v}_n\) geram o plano ou o espaço quando todo vetor \(\boldsymbol {w}\) desse ambiente pode ser escrito como combinação linear deles, isto é,
para escalares adequados \(\lambda _1,\dots ,\lambda _n\).
Proposição 2.20
Dois vetores não paralelos de \(\mathbb {V}^2\) geram \(\mathbb {V}^2\).
Equivalentemente, dados um vetor \(\boldsymbol {f}\in \mathbb {V}^2\) e dois vetores não nulos e não paralelos \(\boldsymbol {e}_{1}\) e \(\boldsymbol {e}_{2}\) de \(\mathbb {V}^2\) existem \(m,n\in \mathbb R\) tais que
Escolha um ponto \(O\) do plano e o representante \(\boldsymbol {f}=\overrightarrow {OP}\). Pela extremidade \(P\), trace a reta paralela a \(\boldsymbol {e}_1\); por \(O\), trace a reta paralela a \(\boldsymbol {e}_2\). Como \(\boldsymbol {e}_1\) e \(\boldsymbol {e}_2\) não são paralelos, essas retas se encontram em um único ponto \(K\).
Pela construção, \(\overrightarrow {KP}\) é paralelo a \(\boldsymbol {e}_1\) e \(\overrightarrow {OK}\) é paralelo a \(\boldsymbol {e}_2\). Portanto existem \(\lambda _1,\lambda _2\in \mathbb R\) tais que
Dados \(\boldsymbol {f}\), um vetor qualquer de \(\mathbb {V}^3\), e \(\boldsymbol {e}_{1},\boldsymbol {e}_{2},\boldsymbol {e}_{3}\) três vetores não coplanares, temos que existem \(l,m,n\in \mathbb {R}\) tais que:
A ideia é decompor \(\boldsymbol {f}\) em uma componente paralela ao plano gerado por \(\boldsymbol {e}_1,\boldsymbol {e}_2\) e uma componente paralela a \(\boldsymbol {e}_3\). Escolhemos representantes de \(\boldsymbol {f},\boldsymbol {e}_1,\boldsymbol {e}_2,\boldsymbol {e}_3\) com origem comum \(O\) e escrevemos \(\boldsymbol {f}=\overrightarrow {OP}\) (veja a Figura 2.8). Como \(\boldsymbol {e}_3\) não é paralelo ao plano gerado por \(\boldsymbol {e}_1,\boldsymbol {e}_2\), a reta que passa por \(P\) e é paralela a \(\boldsymbol {e}_3\) encontra esse plano em um único ponto \(K\).
Como \(\overrightarrow {OK}\) pertence ao plano gerado por \(\boldsymbol {e}_1,\boldsymbol {e}_2\), existem \(l,m\in \mathbb R\) tais que
Como \(\overrightarrow {KP}\) é paralelo a \(\boldsymbol {e}_3\), existe \(n\in \mathbb R\) tal que \(\overrightarrow {KP}=n\boldsymbol {e}_3\). Como \(\overrightarrow {OP}=\overrightarrow {OK}+\overrightarrow {KP}\), segue que
\[ \boldsymbol {f}=l \boldsymbol {e}_1 + m \boldsymbol {e}_2 + n \boldsymbol {e}_3. \]
Proposição 2.22
Quaisquer três vetores \(\boldsymbol {e}_{1},\boldsymbol {e}_{2},\boldsymbol {e}_{3}\) não coplanares são linearmente independentes.
Demonstração▼
Suponha, por absurdo, que \(\boldsymbol {e}_1,\boldsymbol {e}_2,\boldsymbol {e}_3\) sejam linearmente dependentes. Então um deles é combinação linear dos outros dois. Sem perda de generalidade,
Logo \(\boldsymbol {e}_1\) pertence ao plano gerado por \(\boldsymbol {e}_2\) e \(\boldsymbol {e}_3\), de modo que os três vetores são coplanares, contradizendo a hipótese.
Definição 2.23
Uma base do plano ou do espaço é um conjunto ordenado de vetores que é, ao mesmo tempo, linearmente independente e gerador.
Teorema 2.24 (<b class=)
Teorema da Base para o Plano"> Qualquer vetor \(\boldsymbol {f} \in \mathbb {V}^2\) pode ser escrito de maneira única como combinação linear de dois vetores não nulos e não paralelos \(\boldsymbol {e}_{1}\) e \(\boldsymbol {e}_{2}\) de \(\mathbb {V}^2\), isto é:
Assim, dois vetores não nulos e não paralelos de \(\mathbb {V}^2\) formam uma base de \(\mathbb {V}^2\).
Demonstração▼
Consequência imediata das Proposições 2.20, 2.10 e 2.7.
Corolário 2.25
Toda base para o plano tem exatamente dois vetores. Em particular, o plano tem dimensão \(2\).
Demonstração▼
Uma única direção não gera o plano, portanto uma base de \(\mathbb {V}^2\) não pode ter apenas um vetor. Se uma base tivesse três ou mais vetores, quaisquer dois deles seriam não paralelos, pois o conjunto é linearmente independente. Pelo teorema anterior, esses dois vetores já gerariam \(\mathbb {V}^2\); qualquer vetor adicional seria combinação linear deles, contrariando a independência linear da base. Logo toda base tem exatamente dois vetores.
Teorema 2.26 (<b class=)
Teorema da Base para o Espaço"> No espaço tridimensional, sejam três vetores não coplanares \(\boldsymbol {e}_{1},\boldsymbol {e}_{2},\boldsymbol {e}_{3}\). Então qualquer vetor \(\boldsymbol {f}\) no espaço pode ser escrito como combinação linear única de \(\boldsymbol {e}_{1},\boldsymbol {e}_{2},\boldsymbol {e}_{3}\), isto é:
Assim, três vetores não coplanares formam uma base de \(\mathbb {V}^3\).
Demonstração▼
A demonstração do Teorema segue diretamente das Proposições 2.21, 2.10 e 2.22.
Corolário 2.27
Toda base para o espaço tem exatamente três vetores. Em particular, \(\mathbb {V}^3\) tem dimensão \(3\).
Demonstração▼
Uma base de \(\mathbb {V}^3\) precisa conter ao menos três vetores: um único vetor gera apenas uma direção, e dois vetores geram no máximo um plano. Como a base gera todo o espaço, entre seus vetores existem três não coplanares; pelo teorema anterior, esses três já geram \(\mathbb {V}^3\). Se houvesse um quarto vetor na base, ele seria combinação linear dos três primeiros, contradizendo a independência linear. Portanto toda base tem exatamente três vetores.
A dimensão de um espaço vetorial é o número de vetores de uma base. Os resultados anteriores mostram, em particular, que \(\mathbb {V}^2\) tem dimensão \(2\) e \(\mathbb {V}^3\) tem dimensão \(3\).
Podemos agora demonstrar a caracterização geométrica anunciada na seção anterior.
Teorema 2.28
(Caracterização Geométrica da Dependência e Independência Linear) Para vetores em \(\mathbb {V}^2\) e \(\mathbb {V}^3\) temos:
Um vetor \(\boldsymbol {v}\) é linearmente dependente se e somente se \(\boldsymbol {v} = {\boldsymbol {\displaystyle 0}}\).
Dois vetores \(\boldsymbol {u,v}\) são linearmente dependentes se e somente se \(\boldsymbol {u}\) e \(\boldsymbol {v}\) são paralelos.
Três vetores \(\boldsymbol {u},\boldsymbol {v},\boldsymbol {w}\) são linearmente dependentes se e somente se são coplanares.
Quatro ou mais vetores são sempre linearmente dependentes.
Se \(\boldsymbol {u}\) é paralelo a \(\boldsymbol {v}\), pela Proposição 1.10, ou \(\boldsymbol {u} = \lambda \boldsymbol {v}\) ou \(\boldsymbol {v} = \theta \boldsymbol {u}\) (\(\lambda , \theta \in \mathbb R\)). Logo, como um dos vetores é necessariamente combinação linear do outro, segue que \(\boldsymbol {u},\boldsymbol {v}\) são linearmente dependentes.
Suponha que \(\boldsymbol {u},\boldsymbol {v},\boldsymbol {w}\) sejam coplanares. Há dois casos: \(\boldsymbol {u}\) e \(\boldsymbol {v}\) são paralelos ou não são.
Se \(\boldsymbol {u,v}\) são paralelos, pela argumentação acima, um dos vetores é combinação linear do outro. Suponha, sem perda de generalidade, que \(\boldsymbol {u} = \lambda \boldsymbol {v}\). Temos então que:
Considere \(n\) vetores \(\boldsymbol {v}_1,\boldsymbol {v}_2,\dots ,\boldsymbol {v}_n\), com \(n\geq 4\). Novamente há dois casos, conforme \(\boldsymbol {v}_1,\boldsymbol {v}_2,\boldsymbol {v}_3\) sejam coplanares ou não.
Se \(\boldsymbol {v_1,v_2,v_3}\) são coplanares, um dos vetores é combinação linear dos demais. Suponha \(\boldsymbol {v}_1 = \lambda \boldsymbol {v}_2 + \theta \boldsymbol {v}_3\). Segue que:
Se \(\overrightarrow {AB}+\overrightarrow {BC}={\boldsymbol {\displaystyle 0}}\), prove que \(\overrightarrow {OA},\overrightarrow {OB},\overrightarrow {OC}\) são linearmente dependentes para qualquer ponto \(O\). Ver solução
Pela regra do triângulo, \(\overrightarrow {AB}+\overrightarrow {BC}=\overrightarrow {AC}\), logo \(A=C\). Portanto
Mostre que \(\boldsymbol {u}+\boldsymbol {t}\), \(\boldsymbol {u}+\boldsymbol {v}\) e \(\boldsymbol {w}+\boldsymbol {t}\) são linearmente independentes se, e somente se,
fornece uma relação não trivial. O critério segue.
Exercício 2.6
Prove:
se \(\boldsymbol {u},\boldsymbol {v}\) são linearmente dependentes, então \(\boldsymbol {u},\boldsymbol {v},\boldsymbol {w}\) são linearmente dependentes para qualquer \(\boldsymbol {w}\);
se \(\boldsymbol {u},\boldsymbol {v},\boldsymbol {w}\) são linearmente independentes, então \(\boldsymbol {u},\boldsymbol {v}\) são linearmente independentes.
Ver solução
Uma relação não trivial \(a\boldsymbol {u}+b\boldsymbol {v}={\boldsymbol {\displaystyle 0}}\) continua sendo uma relação não trivial entre os três vetores, com coeficiente zero para \(\boldsymbol {w}\).
É a contrapositiva do item anterior.
Exercício 2.7
Se \(\boldsymbol {a},\boldsymbol {b}\) são linearmente independentes e
Prove que três vetores de \(\mathbb {V}^3\) são coplanares se, e somente se, um deles é combinação linear dos outros dois. Ver solução
Se um deles é combinação linear dos outros dois, representantes com a mesma origem ficam no plano gerado por esses dois. Reciprocamente, se os três são coplanares e dois não são paralelos, esses dois geram o plano e o terceiro é combinação linear deles. Se dois são paralelos ou algum é nulo, a conclusão é imediata.
Exercício 2.10
Se \(\{ \boldsymbol {u},\boldsymbol {v}\} \) é uma base do plano, prove que
Logo os novos vetores geram o plano. Se \(a(\boldsymbol {u}+\boldsymbol {v})+b(\boldsymbol {u}-\boldsymbol {v})={\boldsymbol {\displaystyle 0}}\), então \((a+b)\boldsymbol {u}+(a-b)\boldsymbol {v}={\boldsymbol {\displaystyle 0}}\), e a independência da base original dá \(a=b=0\).
Exercício 2.11
Se \(\{ \boldsymbol {u},\boldsymbol {v},\boldsymbol {w}\} \) é uma base do espaço, prove que
Se fossem coplanares, haveria um plano por \(A\) contendo \(B,C,D\), o que tornaria o tetraedro degenerado. Logo os três vetores são não coplanares e, pelo Teorema da Base para o Espaço, formam uma base.
Exercício 2.13
Chama-se diagonal espacial de um paralelepípedo um segmento que une dois vértices opostos. Prove que as quatro diagonais espaciais se encontram num mesmo ponto e se dividem mutuamente ao meio. Ver solução
Escolha um vértice \(A\) e denote por \(\boldsymbol {u},\boldsymbol {v},\boldsymbol {w}\) os vetores das três arestas que partem de \(A\). O vértice oposto é
Cada outra diagonal liga dois vértices complementares e tem o mesmo ponto médio \(M\).
Exercício 2.14
No triângulo \(OAB\), os pontos \(C,D\) dividem \(AB\) em três partes congruentes, na ordem \(A,C,D,B\). Pela reta por \(B\) paralela a \(OA\), sejam \(X\) e \(Y\) as interseções com as retas \(OC\) e \(OD\), respectivamente.
Expresse \(\overrightarrow {OX}\) e \(\overrightarrow {OY}\) em função de \(\overrightarrow {OA}\) e \(\overrightarrow {OB}\).
Determine as razões \(OC:CX\), \(OD:DY\) e \(BX:XY\).
Ver solução
Ponha \(\boldsymbol {a}=\overrightarrow {OA}\) e \(\boldsymbol {b}=\overrightarrow {OB}\). Temos
Escreva \(P=A+s(B-A)=C+t(D-C)\). Comparando os coeficientes independentes de \(\overrightarrow {QA}\) e \(\overrightarrow {QB}\), obtemos
\[ s=\frac72,\qquad t=-\frac73. \]
Logo \(P\) está fora dos dois segmentos e
\[ \boxed {AP:PB=7:5, \qquad CP:PD=7:10.} \]
Exercício 2.16
No triângulo \(ABC\), seja \(E\) o ponto médio de \(BC\) e \(D\) o ponto médio da mediana \(AE\). A reta \(BD\) encontra \(AC\) em \(F\). Determine a razão \(AF:FC\). Ver solução
Escolha \(A\) como origem e ponha \(\boldsymbol {b}=\overrightarrow {AB}\), \(\boldsymbol {c}=\overrightarrow {AC}\). Então
A independência de \(\boldsymbol {a},\boldsymbol {b}\) dá \(\lambda _3=(1-t)\lambda _1\) e \(\lambda _3=t\lambda _2\). Somando as duas igualdades após dividir por \(\lambda _1\lambda _2\), obtemos a identidade pedida.
Exercício 2.18
No triângulo \(ABC\), seja \(I\) um ponto interior. Por \(I\) traçam-se segmentos paralelos a cada um dos três lados, com extremidades nos outros dois lados. Denote seus comprimentos por \(p,q,r\), correspondentes aos lados \(AB,BC,CA\). Prove que
com \(\beta ,\gamma \gt 0\) e \(\beta +\gamma \lt 1\). Ponha \(\alpha =1-\beta -\gamma \). Pelas semelhanças produzidas pelas paralelas, as três razões entre cada segmento interno e o lado paralelo são, em alguma ordem,
\[ 1-\alpha ,\qquad 1-\beta ,\qquad 1-\gamma . \]
A soma é \(3-(\alpha +\beta +\gamma )=2\).
Exercício 2.19
Seja \(G\) o baricentro do triângulo \(ABC\). Prove que
Substituindo \(\overrightarrow {AB}=\overrightarrow {OB}-\overrightarrow {OA}\) e \(\overrightarrow {AC}=\overrightarrow {OC}-\overrightarrow {OA}\), obtemos a fórmula para \(\overrightarrow {OG}\). A primeira identidade segue subtraindo \(\overrightarrow {OG}\) de cada vetor posição.
Exercício 2.20
No tetraedro \(ABCD\), seja \(M\) o baricentro da face \(ABC\). Expresse \(\overrightarrow {DM}\) em função de \(\overrightarrow {DA},\overrightarrow {DB},\overrightarrow {DC}\). Ver solução
Aplicando a fórmula do baricentro com origem em \(D\),
Prove que o segmento que une os pontos médios dos lados não paralelos de um trapézio é paralelo às bases e tem comprimento igual à semissoma dos comprimentos das bases. Ver solução
Se \(ABCD\) é um trapézio com \(AB\parallel DC\) e \(M,N\) são os pontos médios de \(AD,BC\), então
Prove que existe um único ponto comum às três bissetrizes internas de um triângulo e que esse ponto é interior ao triângulo. Ver solução
As bissetrizes internas de dois vértices não são paralelas, portanto se encontram num único ponto \(I\), interior aos dois ângulos. Um ponto de uma bissetriz é equidistante dos lados do ângulo. Assim, por estar nas bissetrizes de \(A\) e \(B\), o ponto \(I\) é equidistante de \(AB,AC\) e também de \(BA,BC\); logo é equidistante de \(AC\) e \(BC\) e pertence a uma bissetriz do ângulo \(C\). Como \(I\) está no interior do triângulo, trata-se da bissetriz interna. A unicidade segue da unicidade da interseção das duas primeiras bissetrizes.
Exercício 2.24
Seja \(ABCD\) um quadrilátero, \(O\) um ponto qualquer, \(M\) e \(N\) os pontos médios das diagonais \(AC\) e \(BD\), e \(P\) o ponto médio de \(MN\). Prove que
Em um triângulo \(ABC\), escolha em \(AB,BC,CA\) pontos \(P,Q,R\) que dividam os três lados na mesma razão orientada, isto é, para algum \(t\in \mathbb {R}\),
Como \(\lVert \overrightarrow {OB}\rVert =\lVert \overrightarrow {OC}\rVert \), a soma \(\overrightarrow {OB}+\overrightarrow {OC}\) tem a direção da bissetriz do ângulo \(BOC\); no triângulo isósceles \(BOC\), essa bissetriz é perpendicular a \(BC\). Logo \(AX\) é uma altura. Do mesmo modo, \(BX\) e \(CX\) são alturas, portanto \(X=H\), provando (a). Para (b),