Cônicas
8.1 Introdução
As curvas cônicas ou seções cônicas são as curvas obtidas pela interseção de um cone com planos que não contenham o vértice desse cone.
Existem essencialmente três tipos de cônicas que podem ser obtidas a partir de um cone cuja reta geratriz faz ângulo \(\alpha \) com o eixo desse cone:
parábola: obtida pela interseção do cone com um plano que forma ângulo \(\alpha \) com o eixo do cone;
elipse: obtida pela interseção do cone com um plano que forma um ângulo \(\theta \gt \alpha \) com o eixo do cone;
hipérbole: obtida pela interseção do cone com um plano que forma um ângulo \(\theta \lt \alpha \) com o eixo do cone.
Pode-se mostrar que o lugar geométrico de tais curvas num plano pode ser caracterizado por relações envolvendo a distância de seus pontos a seus focos e retas diretrizes como descrito a seguir (ver Seção 8.6). Assim, definimos:
8.2 Elipse
Conforme descrito na Definição 8.1, uma elipse \(\mathcal{E}\) é o lugar geométrico formado por pontos cuja soma das distâncias a dois pontos fixos, \(F_1\) e \(F_2\), é constante.
Nesta seção estudaremos a forma canônica da elipse, que corresponde à escolha de eixos coordenados alinhados com os eixos da elipse e de origem em seu centro. Introduziremos primeiro a terminologia necessária a essa descrição.
8.2.1 Terminologia
Os pontos \(F_1\) e \(F_2\) descritos na Definição 8.1 são denominados focos da elipse. O segmento \(\overline{F_1F_2}\) de comprimento \(2c\) é o segmento focal da elipse e \(2c\) é a distância focal da elipse.
A reta \(r\) contendo \(F_1\) e \(F_2\) é denominada reta focal da elipse.
A interseção de \(\mathcal{E}\) com \(r\) consiste de dois pontos \(A_1\) e \(A_2\) que são os vértices da elipse sobre a reta focal. O segmento \(\overline{A_1A_2}\) de comprimento \(2a\) é o chamado eixo focal da elipse (ou eixo maior da elipse).
O ponto médio \(O\in r\) do segmento \(\overline{F_1F_2}\) é o centro da elipse;
A reta \(s\) perpendicular a \(r\) por \(O\) é a reta não focal da elipse.
A interseção de \(\mathcal{E}\) com \(s\) consiste de dois pontos \(B_1\) e \(B_2\) que são os vértices da elipse sobre a reta não focal. O segmento \(\overline{B_1B_2}\) é o chamado eixo não focal da elipse (ou eixo menor da elipse).
Qualquer segmento cujos extremos estão sobre \(\mathcal{E}\) é denominado corda da elipse;
Chamamos de amplitude focal o comprimento de uma corda que contenha um dos focos da elipse e que seja perpendicular ao eixo focal desta. Notamos que existem duas dessas cordas, usualmente denominadas individualmente por latus rectum.
A menor região retangular que contém a elipse é chamada retângulo fundamental da elipse.
A menor coroa circular que contém a elipse é denominada coroa fundamental da elipse.
8.2.2 Equação da Elipse
Os dois exemplos a seguir mostram como a escolha das coordenadas influencia a equação da elipse.
Usando a mesma notação descrita na Subseção 8.2.1, consideremos num sistema de coordenadas cartesiano uma elipse de focos \(F_1 = (0,0)\) e \(F_2 = (2,1)\) e eixo focal medindo \(2a=4\).
Tomando \(P=(x,y)\) a equação (8.1) fica:
Para obter uma equação quadrática, eliminaremos as raízes quadradas por operações algébricas.
Isolando o termo \(\sqrt{(x-2)^2+(y-1)^2}\) e elevando ao quadrado, obtemos:
Simplificando e isolando \(8\sqrt{x^2+y^2}\):
Finalmente, elevando ao quadrado e simplificando a expressão obtida, chegamos a:
Essa equação quadrática é, então, a representação cartesiana procurada da elipse \(\mathcal{E}\).
Considere agora, num sistema de coordenadas cartesiano, \(F_1 = (-4,0)\) e \(F_2 = (4,0)\) de modo que o eixo focal \(r\) fica alinhado com o eixo \(Ox\) e o centro \(O\) da elipse fica sobre a origem do sistema de coordenadas. Estudemos uma elipse de eixo focal medindo \(2a = 10\). Seja \(P=(x,y)\) um ponto qualquer da elipse \(\mathcal{E}\).
Em coordenadas cartesianas, a equação (8.1) fica:
Vamos simplificar essa equação eliminando as raízes quadradas por manipulações algébricas.
Inicialmente, isolemos a raiz \(\sqrt{\left( x+4\right) ^{2}+y^{2}}\) e elevemos a igualdade obtida ao quadrado:
Simplificando a equação e isolando o termo \(20\sqrt{\left( x-4\right) ^{2}+y^{2}}\), obtemos:
ou ainda:
Elevando esta igualdade ao quadrado chegamos a:
Portanto temos:
Finalmente, dividindo-a por \(9\), segue:
que é a forma canônica da elipse \(\mathcal{E}\).
Esses exemplos e os cálculos neles envolvidos sugerem que toda elipse pode ser representada no plano cartesiano por um equação quadrática da forma:
onde \(A, B, C, D, E\) e \(F\) são constantes (que dependem da elipse a ser representada). A afirmação segue pelo mesmo procedimento de eliminação das raízes usado nos exemplos anteriores.
A Equação (8.5), obtida no segundo exemplo, tem menos termos que a Equação (8.4), obtida no primeiro. No Exemplo 8.5, os eixos coordenados estão alinhados com os eixos da elipse e a origem coincide com seu centro; essa escolha simplifica a expressão algébrica.
Encontremos, então, a equação da elipse \(\mathcal{E}\) num sistema de coordenadas adequado a \(\mathcal{E}\).
Assuma que os focos \(F_1\) e \(F_2\) possuem coordenadas \(\left(c,0\right)\) e \(\left(-c,0\right)\), respectivamente. Tomando \(P = \left( x,y\right)\). Da Equação (8.1) obtemos:
e logo \(\sqrt{\left( x+c\right) ^{2}+y^{2}}=2a-\sqrt{\left( x-c\right) ^{2}+y^{2}}.\) Elevando ao quadrado ambos os lados dessa expressão obtemos:
Simplificando temos que
Elevando novamente ao quadrando ambos os lados da equação obtemos
Substituindo \(b^{2}=\) \(\left( a^{2}-c^{2}\right) \) temos
Dividindo ambos os lados por \(a^{2}b^{2}\) chegamos finalmente à equação
Reciprocamente, suponha que \(P=(x,y)\) satisfaça essa equação. Então \(|x|\leq a\) e, usando \(b^2=a^2-c^2\),
Como \(c\lt a\) e \(|x|\leq a\), os dois termos entre parênteses são positivos. Portanto
Assim, a equação canônica descreve exatamente o lugar geométrico definido pelos dois focos.
Chegamos assim à seguinte proposição:
Uma elipse \(\mathcal{E}\) de focos \(F_1 = (c,0)\) e \(F_2 = (-c,0)\) e eixo maior medindo \(2a\) tem equação
onde \(b\) é tal que \(a^2 = b^2 + c^2\).
Tal equação é usualmente conhecida como a forma canônica da elipse (ou equação reduzida da elipse).
Os números \(a,b\) e \(c\) são conhecidos como parâmetros geométricos da elipse.
Se na dedução da equação da elipse tivéssemos adotado o sistema de coordenadas com os focos sobre o eixo \(y\) e a origem entre os focos, isto é o sistema com o eixo maior \(\overline{A_1A_2}\) de comprimento \(2a\) sobre o eixo \(y\) e o eixo menor \(\overline{B_1B_2}\) de comprimento \(2b\) sobre o eixo \(x\), teríamos, no final, a equação:
O retângulo fundamental da elipse é a região retangular \(R = \{ (x,y)\in \mathbb {E}^2 ; x\in [-a,a], y \in [-b,b]\} \) .
A coroa fundamental da elipse é a região \(C = \{ (x,y)\in \mathbb {E}^2; b^2 \leq x^2 + y^2 \leq a^2\} \).
8.2.3 Esboço da Elipse
Considere uma elipse \(\mathcal{E}\) de equação:
com \(a,b\gt 0\).
Observe inicialmente que, se um ponto \(P=(x,y)\) está na elipse \(\mathcal{E}\), também a ela pertencem os pontos \(P' = (-x,y)\), \(P' = (x,-y)\) e \(P' = (-x,-y)\). Desse modo, basta para esboçarmos \(\mathcal{E}\) basta estudarmos a elipse no primeiro quadrante do sistema de coordenadas e refletirmos tal esboço ao longo dos eixos \(Ox\) e \(Oy\) (que são eixos de simetria da elipse).
Além disso, isolando-se o parâmetro \(y\) da equação de \(\mathcal{E}\) obtemos:
donde observamos que para esboçarmos \(\mathcal{E}\) no primeiro quadrante basta estudarmos o gráfico da função:
Como \(f(0) = b\) e \(f(a) = 0\) temos que dois dos vértices da elipse têm coordenadas \((0,b)\) e \((a,0)\).
Além disso, temos que \(f\) é decrescente, já que, para \(x_0,x_1\in [0,a]\), temos:
O uso de cálculo diferencial nos permite concluir que o gráfico de \(f\) é côncavo, isto é fixos dois pontos \(P_0\) e \(P_1\) quaisquer sobre o gráfico de \(f\), temos que o gráfico de \(f\) fica acima do segmento \(\overline{P_0P_1}\).
8.2.4 Exemplos
Nesse exemplo temos novamente uma elipse de focos no eixo \(Oy\) (nesse caso porque nos é informado que o centro da elipse está na origem e o ponto \((0,5)\) sobre a reta focal). Assim, usando a notação da Observação 8.7, temos \(a = 5\). Desse modo a equação procurada é do tipo:
com \(0\lt b\lt 5\).
Usando agora que o ponto \(\left(\dfrac {6\sqrt{5}}{5},\sqrt{5}\right)\) pertence a \(\mathcal{E}\) temos que:
Resolvento tal equação (de incógnita \(b\)) obtemos \(b = 3\). Logo a equação da elipse é:
8.3 Hipérbole
De acordo com a Definição 8.2, uma hipérbole \(\mathcal{H}\) é o lugar geométrico formado pelos pontos do plano cujo módulo da diferença das distâncias a \(F_1\) e \(F_2\) é igual a \(2a\) (onde \(2a\lt \lVert \overrightarrow {F_1F_2}\rVert \)).
Desenvolveremos nesta seção a equação tida como a forma canônica da hipérbole, que descreve uma hipérbole cujos focos estão em um dos eixos coordenados simetricamente dispostos em relação à origem. Assim como fizemos para a elipse, fixemos primeiramente a terminologia básica envolvida no estudo de hipérboles.
8.3.1 Terminologia
Os pontos \(F_1\) e \(F_2\) descritos na Definição 8.2 são denominados focos da hipérbole. O segmento \(\overline{F_1F_2}\) de comprimento \(2c\) é o segmento focal da hipérbole e \(2c\) é a distância focal da hipérbole.
A reta \(r\) contendo \(F_1\) e \(F_2\) é denominada reta focal da hipérbole.
A interseção de \(\mathcal{H}\) com \(r\) consiste de dois pontos \(A_1\) e \(A_2\) que são os vértices da hipérbole sobre a reta focal. O segmento \(\overline{A_1A_2}\) de comprimento \(2a\) é o chamado eixo transverso da hipérbole.
O ponto médio \(O\in r\) do segmento \(\overline{F_1F_2}\) é o centro da hipérbole;
O segmento \(\overline{B_1B_2}\) de comprimento \(2b\) (onde \(c^2 = a^2 + b^2\)), cujos extremos \(B_1\) e \(B_2\) estão simetricamente localizados em relação ao centro \(O\) da hipérbole sobre a reta \(s\) perpendicular a \(r\) por \(O\), é denominado eixo conjugado da hipérbole;
Os números \(a,b\) e \(c\) são conhecidos como parâmetros geométricos da hipérbole.
As retas \(r_-\) e \(r_+\) pelo centro \(O\) de inclinação \(-b/a\) e \(b/a\) respectivamente são as assíntotas da hipérbole (ver Subseção 8.3.3);
Qualquer segmento cujos extremos estão sobre \(\mathcal{H}\) é denominado corda da hipérbole;
Chamamos de amplitude focal da hipérbole o comprimento de uma corda que contenha um dos focos da hipérbole e que seja perpendicular à reta focal desta.
O retângulo fundamental da hipérbole é a região retangular \(R = \{ (x,y)\in \mathbb {E}^2 ; x\in [-a,a], y \in [-b,b]\} \).
Uma hipérbole é dita equilátera quando os parâmetros geométricos \(a\) e \(b\) dessa hipérbole são iguais.
8.3.2 Equação da Hipérbole
A definição focal e a forma canônica são equivalentes, como mostra a proposição a seguir.
Uma hipérbole \(\mathcal{H}\) de focos \(F_1 = (c,0)\) e \(F_2 = (-c,0)\) e eixo transverso medindo \(2a\) tem equação
onde \(b\) é tal que \(c^2 = a^2 + b^2\).
Tal equação é usualmente conhecida como a forma canônica da hipérbole (ou equação reduzida da hipérbole).
Escreva
No ramo direito, \(d_+-d_-=2a\). Logo
Elevando ao quadrado e usando \(c^2=a^2+b^2\), obtemos
No ramo esquerdo o cálculo é o mesmo, com os papéis de \(d_+\) e \(d_-\) trocados.
Reciprocamente, suponha que
Então \(|x|\geq a\). Se \(x\geq a\), novamente por \(c^2=a^2+b^2\),
e portanto \(|d_+-d_-|=2a\). Para \(x\leq -a\), a mesma igualdade vale trocando os dois focos. Logo a equação canônica descreve exatamente o lugar geométrico da definição focal.
Se na dedução da equação da hipérbole tivéssemos partido de focos localizados sobre o eixo \(Oy\) (ou seja \(F_1 = (0,c)\) e \(F_2 = (0,-c)\)), teríamos chegado à equação:
8.3.3 Assíntotas
A proposição abaixo mostra que hipérboles admitem duas assíntotas.
De fato, para uma tal hipérbole \(\mathcal{H}\), temos que \(P=(x,y)\in \mathcal{H}\) se e somente se \(b^2x^2-a^2y^2 = a^2b^2\). Então temos:
Assim, temos que
Analogamente, temos também que
8.3.4 Esboço da Hipérbole
Seja uma Hipérbole \(\mathcal{H}\) de equação:
com \(a,b\gt 0\).
Como na elipse observamos que, se um ponto \(P=(x,y)\) está na hipérbole \(\mathcal{H}\), também a ela pertencem os pontos \(P' = (-x,y)\), \(P' = (x,-y)\) e \(P' = (-x,-y)\). Assim, a hipérbole \(\mathcal{H}\) é simétrica em relação aos eixos \(Ox\) e \(Oy\).
Além disso, isolando-se o parâmetro \(y\) da equação de \(\mathcal{H}\) obtemos:
Estudemos então o gráfico da função:
Note agora que \(f(a) = 0\) nos dá o vértice \(A_1 =(a,0)\) da hipérbole. Além disso, temos que \(f\) é crescente, já que, para \(x_0,x_1\in [a,+\infty )\), temos:
Cálculo diferencial nos permite concluir que o gráfico de \(f\) também é côncavo no caso da hipérbole.
Finalmente, sabemos que \(f(x)\) tem a reta \(r_+: y = \dfrac {b}{a} x\) como assíntota e é tal que \(f(x) \lt \dfrac {b}{a} x\) para todo \(x\in [a,+\infty )\). Desse modo sabemos que \(f(x)\) se aproxima assintoticamente de \(r_+\), por baixo dessa reta, quando \(x\) tende a \(+\infty \).
8.3.5 Exemplos
Observamos que \(\mathcal{H}\) é uma hipérbole com centro na origem e focos no eixo \(Oy\). Assim sua equação é do tipo:
com \(c^2 = a^2 + b^2\) e \(2c\) a distância focal.
Como \(\mathcal{H}\) tem vértices \((0,4)\) e \((0,-4)\) segue que \(a = 4\). Como um dos focos de \(\mathcal{H}\) é \((0,-5)\), segue que \(c=5\). Logo, a partir da igualdade \(c^2 = a^2 + b^2\), obtemos \(b = 3\). Assim a equação de \(\mathcal{H}\) é:
As assíntotas de \(\mathcal{H}\) são \(r_+: x = (b/a)y\) e \(r_-: x = -(b/a)y\), ou seja:
Focos no eixo \(Ox\):
Seja \(\dfrac {x^2}{a^2} - \dfrac {y^2}{b^2} = 1\) a equação da hipérbole procurada. Como a reta \(3x-2y=0\), que é a também a reta de equação \(y = \dfrac {3}{2}x\), é uma das assíntotas obtemos:
\[ \dfrac {b}{a} = \dfrac {3}{2}, \]ou seja \(b = \dfrac {3}{2}a\).
Usando que \(P\in \mathcal{H}\) obtemos:
\[ \dfrac {(4\sqrt{2})^2}{a^2} - \dfrac {6^2}{b^2} = 1. \]Usando que \(b = \dfrac {3}{2}a\) e simplificando algebricamente a igualdade chegamos então a:
\[ \dfrac {16}{a^2} = 1. \]Portanto \(a^2 = 16\), ou seja \(a = 4\). Usando novamente que \(b = \dfrac {3}{2}a\) obtemos então \(b = 6\). Logo chegamos à equação:
\[ \mathcal{H}: \dfrac {x^2}{16} - \dfrac {y^2}{36} = 1. \]Focos no eixo \(Oy\):
Seja agora \(\dfrac {y^2}{a^2} - \dfrac {x^2}{b^2} = 1\) a equação da hipérbole procurada. Como a reta \(3x-2y=0\), que é a também a reta de equação \(x = \dfrac {2}{3}y\), é uma das assíntotas obtemos:
\[ \dfrac {b}{a} = \dfrac {2}{3}, \]ou seja \(b = \dfrac {2}{3}a\).
Usando que \(P\in \mathcal{H}\) obtemos:
\[ \dfrac {6^2}{a^2} - \dfrac {(4\sqrt{2})^2}{b^2} = 1. \]Usando que \(b = \dfrac {2}{3}a\) e simplificando a equação chegamos a:
\[ -\dfrac {36}{a^2}= 1. \]Como \(a^2\gt 0\) observamos que não existe \(a\) tal que a igualdade acima seja satisfeita, ou seja, não existe hipérbole com focos no eixo \(Oy\) contendo \(P\) e com assíntota \(3x-2y=0\).
Conclusão: A única hipérbole cuja equação resolve o problema é:
Tentaremos aqui manipular a equação dada de forma a obter uma equação da forma:
que representa uma hipérbole de centro \(C = (x_0,y_0)\), focos \(F_1 = (x_0 + c, y_0)\) e \(F_2 = (x_0 - c, y_0)\), onde \(c^2 = a^2 + b^2\), e vértices \(V_1=(x_0+a,y_0)\) e \(V_2=(x_0-a,y_0)\).
Comecemos completando quadrados escrevendo:
Portanto temos:
E, finalmente:
Tal equação representa uma hipérbole de centro \(C = (1,-1)\) de parâmetros \(a=2\), \(b=3\) e \(c=\sqrt{13}\). Logo seus focos são \(F_1=(1+\sqrt{13},-1)\) e \(F_2=(1-\sqrt{13},-1)\), e seus vértices são \(V_1=(3,-1)\) e \(V_2=(-1,-1)\).
8.4 Parábola
Conforme descrito na Definição 8.3, uma parábola \(\mathcal{P}\) de foco \(F\) e reta diretriz \(d\) é o lugar geométrico formado pelos pontos do plano cujas distâncias a \(F\) e \(d\) são iguais.
Nesta seção estudaremos funções quadráticas de uma variável, cujos gráficos representam parábolas com retas diretrizes paralelas aos eixos coordenados. Em particular veremos a chamada forma canônica da parábola que é a equação que representa uma parábola com vértice na origem, foco sobre um dos eixos coordenados e reta diretriz paralela ao outro eixo coordenado.
8.4.1 Terminologia
O ponto \(F\) descrito na Definição 8.3 é denominado foco da parábola.
A reta \(d\), também descrita na Definição 8.3 é denominada diretriz da parábola.
A distância \(2p\) entre o foco \(F\) e a reta diretriz \(d\) da parábola é chamada parâmetro da parábola.
O ponto \(V\) de interseção da perpendicular à \(d\) por \(F\) com a parábola é o vértice da parábola;
A reta perpendicular a \(d\) por \(F\) é o eixo de simetria da parábola.
Qualquer segmento cujos extremos estão sobre \(\mathcal{P}\) é denominado corda da parábola;
Tomando \(A\) e \(B\) os extremos da corda que contém \(F\) e é paralela a diretriz \(d\), obtemos o triângulo \(\triangle VAB\) denominado triângulo fundamental da parábola.
8.4.2 Equação da Parábola
Para uma parábola com diretriz paralela ao eixo \(Ox\) e vértice na origem do sistema de coordenadas vale o seguinte resultado:
Uma parábola \(\mathcal{P}\) de foco \(F = (0,p)\) e reta diretriz \(d: y = -p\) (\(p\neq 0\)) tem equação
Tal equação é usualmente conhecida como a forma canônica da parábola (ou equação reduzida da parábola).
Seja \(P = (x,y)\) um ponto da parábola. A partir da equação \(\lVert \overrightarrow {FP}\rVert = d(P,d)\) obtemos:
Elevando ambos os lados ao quadrado obtemos:
Simplificando e isolando \(y\) chegamos então a:
No caso particular da parábola, porém, é importante destacar sua descrição como gráfico de funções quadráticas de uma variável real.
Sobre funções quadráticas vale o seguinte resultado:
foco:
\[ F = \left(-\dfrac {b}{2a},-\dfrac {\Delta -1}{4a}\right), \]diretriz:
\[ d: y = -\dfrac {\Delta + 1}{4a}, \]vértice:
\[ V = \left(-\dfrac {b}{2a},-\dfrac {\Delta }{4a}\right), \]
O gráfico de uma função \(f:\mathbb {R}\to \mathbb {R}\) é o lugar geométrico dado pela equação \(y = f(x)\). Logo, pela Proposição 8.26, \(y =ax^2 + bx + c\) é a equação de uma parábola com diretriz paralela ao eixo \(Ox\).
É análoga a demonstração da proposição acima o fato de que \(x =ay^2 + by + c\) é equação de uma parábola com:
foco:
\[ F = \left(-\dfrac {\Delta -1}{4a},-\dfrac {b}{2a}\right), \]diretriz:
\[ d: x = -\dfrac {\Delta + 1}{4a}, \]vértice:
\[ V = \left(-\dfrac {\Delta }{4a},-\dfrac {b}{2a}\right), \]
onde \(\Delta = b^2 - 4ac\).
A Proposição 8.26 segue imediatamente dos Lemas 8.29 e 8.30, abaixo demonstrados.
foco:
\[ F = \left(m,k+\dfrac {1}{4a}\right), \]diretriz:
\[ d: y = k -\dfrac {1}{4a}, \]vértice \(V = (m,k)\).
Seja \(P = (x,y)\) um ponto qualquer do gráfico de \(f\) (de modo que \(y = a(x-m)^2 + k\)). Tome \(F = \left(m,k+\dfrac {1}{4a}\right)\) e \(d: y = k -\dfrac {1}{4a}\). Mostremos que \(\lVert \overrightarrow {FP}\rVert = d(P,d)\) (ver Definição 8.3).
Por um lado temos:
Portanto segue:
Por outro lado:
Logo, vale \(\lVert \overrightarrow {FP}\rVert = d(P,d)\).
Como o vértice da parábola é o ponto médio do menor segmento que liga \(F\) à \(d\) é fácil ver que \(V = (m,k)\).
Vale a igualdade:
Essa forma de escrever a função quadrática é conhecida como forma canônica do trinômio de segundo grau.
De fato:
Completando quadrado de modo a obter \(\left(x + \dfrac {b}{2a}\right)^2\) temos:
8.4.3 Esboço da Parábola
O esboço da parábola de equação \(y = ax^2 + bx +c\) (ou gráfico de \(f(x) = ax^2 + bx +c\)) pode ser facilmente estudado a partir da forma canônica do trinômio (Lema 8.30):
Fixemos, para estudo, \(a\gt 0\). Observamos que \(f\) tem seu mínimo no ponto onde \(\left(x+ \dfrac {b}{2a}\right) = 0\), ou seja quando \(x = -\dfrac {b}{2a}\).
Além disso, para \(-\dfrac {b}{2a} \leq x_1 \lt x_2\) temos que:
donde segue que \(f(x_1) \lt f(x_2)\), ou seja \(f\) é crescente em \(\left[-\dfrac {b}{2a},+\infty \right)\). Analogamente vemos que \(f\) é decrescente em \(\left(-\infty ,-\dfrac {b}{2a}\right]\).
Um pouco de cálculo diferencial nos permite concluir que, para \(a\gt 0\), o gráfico de \(f\) é convexo, isto é fixos dois pontos \(P_0\) e \(P_1\) quaisquer sobre o gráfico de \(f\), temos que o gráfico de \(f\) fica abaixo do segmento \(\overline{P_0P_1}\).
Finalmente, se \(\Delta = b^2-4ac \gt 0\), podemos obter as raízes de \(f\) facilmente igualando a forma canônica do trinômio e isolando o parâmetro \(x\), obtendo assim a Fórmula de Bhaskara:
8.4.4 Exemplos
Sabemos que \(\mathcal{P}\) é uma parábola de parâmetro \(2p\) com equação da forma:
Como a primeira coordenada do ponto \((3,-6)\) é positiva temos:
Substituindo as coordenadas do ponto \((3,-6)\) na equação acima chegamos à \(p = 3\). Logo temos:
Tal parábola tem, assim, foco \(F=(3,0)\) e reta diretriz \(d: x = -3\).
Completando quadrado obtemos \(f(x) = (x^2 - 6x + 9) - 1 = (x-3)^2 - 1\) que é a forma canônica de \(f\).
Igualando a forma canônica a zero chegamos a:
Portanto temos \(x-3 = \pm 1\) ou ainda \(x = 3 \pm 1\). Logo \(x= 2\) e \(x = 4\) são as raízes de \(f\).
O vértice da parábola que é gráfico de \(f\), ocorre no ponto onde \(f\) é mínimo, ou seja em \(x= 3\). Logo as coordenadas do vértice são \((3,-1)\).
Claramente o eixo de simetria da parábola em questão é paralelo ao eixo \(Oy\). Suponhamos então que o foco da parábola tenha coordenadas \(F = (3,-1+c)\) e a diretriz tenha equação \(d: y = -1 - c\) (Note que o vértice da parábola dista o mesmo do foco e da diretriz da parábola).
Considere um ponto \(P\) qualquer da parábola diferente do vértice. Tome por exemplo \(P = (0, 8)\). Devemos ter \(\lVert \overrightarrow {FP}\rVert = d(P,d)\).
Por um lado, temos então \(\overrightarrow {FP} = (-3,9-c)\) e:
Por outro lado:
Deve valer então:
Portanto temos \(c = (1/4)\).
Logo \(F = (3,-3/4)\) e \(d: y = -5/4\).
8.5 Excentricidade
Sejam \(\eta \gt 0\), \(\eta \neq 1\) e \(c\gt 0\). Tome \(F=(c,0)\). Tome \(r\) a reta de equação \(x = c/\eta ^2\) (logo paralela ao eixo \(Oy\)).
Então, se \(P=(x,y)\) satisfaz a igualdade
temos que:
se \(0 \lt \eta \lt 1\), então \(P\) pertence à elipse de equação
\[ \dfrac {x^2}{a^2} +\dfrac {y^2}{b^2} = 1, \]onde \(a = c/\eta \) e \(b\) tal que \(a^2 = b^2 + c^2\).
se \(\eta \gt 1\), então \(P\) pertence à hipérbole de equação
\[ \dfrac {x^2}{a^2} - \dfrac {y^2}{b^2} = 1, \]onde \(a = c/\eta \) e \(b\) tal que \(c^2 = a^2 + b^2\).
Escrevendo a equação (8.11) em coordenadas cartesianas temos:
Elevando essa equação ao quadrado e manipulando algebricamente o resultado facilmente chegamos na igualdade:
Dividindo tal equação por \(c^2\left(\dfrac {1}{\eta ^2} - 1\right)\) obtemos:
Então, para \(0 \lt \eta \lt 1\), observamos que \(c^2\left(\dfrac {1}{\eta ^2} - 1\right) \gt 0\). Tomando então \(a^2 = c^2/\eta ^2\) e \(b^2 = c^2\left(\dfrac {1}{\eta ^2} - 1\right)\) (de modo que \(a^2 = b^2 + c^2\)) temos:
Caso \(\eta \gt 1\) temos que \(c^2\left(\dfrac {1}{\eta ^2} - 1\right) \lt 0\). Tomando \(a^2 = c^2/\eta ^2\) e \(b^2 = - c^2\left(\dfrac {1}{\eta ^2} - 1\right)\) (de modo que \(c^2 = a^2 + b^2\)) segue:
A equação foco–diretriz é
Elevando ao quadrado obtemos imediatamente
Reciprocamente, se \(y^2=4cx\) e \(c\gt 0\), então \(x=y^2/(4c)\geq 0\), de modo que \(x+c\gt 0\). Além disso,
Tomando a raiz quadrada,
Portanto a equação cartesiana e a definição foco–diretriz determinam o mesmo lugar geométrico.
A reta \(r\) e o ponto \(F\) descritos nas proposições 8.36 e 8.37 são denominados respectivamente reta diretriz e foco da cônica em questão.
O parâmetro \(\eta \), que aparece em ambas as proposições, é denominado excentricidade da cônica.
Se \(P = (x,y)\) é um ponto da elipse de equação:
\[ \dfrac {x^2}{a^2} +\dfrac {y^2}{b^2} = 1, \]então, tomando \(c\gt 0\) tal que \(a^2 = b^2 + c^2\), \(\eta = c/a\) (note \(0\lt \eta \lt 1\)), \(F = (c,0)\) e \(r: x = c/\eta ^2\) temos que \(P\) satisfaz a equação (8.11).
Se \(P = (x,y)\) é um ponto da hipérbole de equação:
\[ \dfrac {x^2}{a^2} -\dfrac {y^2}{b^2} = 1, \]então, tomando \(c\gt 0\) tal que \(c^2 = a^2 + b^2\), \(\eta = c/a\) (note \(\eta \gt 1\)), \(F = (c,0)\) e \(r: x = c/\eta ^2\) temos que \(P\) satisfaz a equação (8.11).
Se \(P = (x,y)\) é um ponto da parábola de equação:
\[ y^2 = 4cx, \]então, tomando \(\eta = 1\), \(F = (c,0)\) e \(r: x = -c\) temos que \(P\) satisfaz a equação (8.12) (que é a mesma que a equação (8.11)).
Excentricidade e a forma de uma cônica
A excentricidade \(\eta \) de uma cônica é usualmente usada para estudar o formato das cônicas.
No caso da elipse, quanto mais \(\eta \) for próximo à \(0\) maior a “semelhança” da elipse com um círculo. De fato, dividindo \(a^2 = b^2 + c^2\) por \(a^2\), teríamos que \((b/a)^2 = 1 -\eta ^2\). Logo para \(\eta \) pequeno \((b/a)\) estaria próximo de \(1\). Assim, \(a\) e \(b\) seriam aproximadamente iguais. Tomando \(b = a\) teríamos então a equação do círculo: \(x^2 + y^2 = a^2\).
Para \(\eta \lt 1\) próximo de \(1\) teríamos por outro lado que \((b/a)\) seria próximo de \(0\), ou seja, \(b\) seria muito menor que \(a\), o que nos levaria a uma elipse bem alongada ao longo do eixo \(Ox\).
Na hipérbole, por sua vez, se \(\eta \gt 1\) estiver perto de \(1\) teremos \((b/a)\) próximo de \(0\), pois dividindo \(c^2 = a^2 + b^2\) por \(a^2\) obtemos \(\eta ^2 = 1 + (b/a)^2\). Isso implica que as assíntotas da hipérbole tem inclinação próxima a \(0\), ou seja, a medida que \(\eta \) fica mais perto de \(1\) as hipérboles ficam mais próximas do eixo \(Ox\).
Por outro lado, a medida que \(\eta \) tende à \(+\infty \) temos que \((b/a)\) também tende a \(+\infty \), ou seja, a inclinação das assíntotas da hipérbole crescem de modo que as hipérboles se aproximam do eixo \(Oy\).
Em geometria, dizemos que duas figuras são semelhantes se pode-se obter uma a partir da outra pela composição de isometrias (translação, rotação, reflexão) e homotetias (fixos centro \(O\) e razão \(k\), uma homotetia leva \(P\) em \(P'\) pela relação \(\overrightarrow {OP’} = k\overrightarrow {OP}\)).
Sobre a semelhança das cônicas valem o seguinte resultado:
Consideraremos apenas as cônicas cujas equações estão na sua forma canônica (pois, como veremos no capítulo 11, todas as cônicas podem ser transformadas na forma canônica por rotações e translações).
Considere duas elipses \(\mathcal{E}\) e \(\mathcal{E}'\) de equações:
Se ambas têm a mesma excentricidade, então \(b/a=b'/a'\). Portanto
Considere a homotetia \(h(x,y)=(kx,ky)\). Se \(P=(x,y)\in \mathcal E\), então
de modo que \(h(P)\in \mathcal E'\).
A semelhança de hipérboles de mesma excentricidade segue de modo análogo.
No caso de duas parábolas \(\mathcal{P}: y = ax^2\) e \(\mathcal{P'}: y = a'x^2\), tome \(k = (a/a')\). Daí se \(P = (x,y)\) está em \(\mathcal{P}\) temos que vale \(y = ax^2\). Por outro lado tomando a homotetia \(h(x,y) = (kx,ky)\) temos:
8.6 Construções de Dandelin
Elipse
Dado um cone com ângulo de abertura \(2\alpha \) e um plano \(\pi \) que intersecta o cone e faz um ângulo superior à \(\alpha \) com o eixo do cone temos na interseção uma elipse. É possível encontrar duas esferas \(S_1\) e \(S_2\) que tangenciam o plano \(\pi \) e o cone internamente (ver Figura 8.9). Tais esferas são conhecidas como esferas de Dandelin da elipse.
Mostremos usando as esferas de Dandelin que a soma das distâncias de um ponto \(X\) da elipse aos focos \(F_1\) e \(F_2\) é constante, isto é:
onde \(k\) é um número real fixado (obviamente maior que a distância focal da elipse).
Suponha que \(S_1\) e \(S_2\) tangenciam o cone nos círculos \(C_1\) e \(C_2\) respectivamente. Seja \(X\) um ponto qualquer da elipse. A reta \(\overleftrightarrow {OX}\) que passa por \(X\) e pelo vértice \(O\) do cone intersecta \(C_1\) e \(C_2\) em pontos \(H_1\) e \(H_2\) respectivamente.
Observe que \(XH_1\) e \(XF_1\) são segmentos tangentes à mesma esfera \(S_1\) traçados a partir de \(X\); portanto têm o mesmo comprimento. Do mesmo modo, \(XH_2=XF_2\). Além disso, \(H_1\) e \(H_2\) pertencem à mesma geratriz do cone, e a distância entre os círculos de tangência \(C_1\) e \(C_2\) medida ao longo de qualquer geratriz é constante. Assim,
que independe de \(X\). Isso recupera a caracterização foco–foco da elipse.
Parábola
Mostraremos no que se segue que a curva (parábola) formada pela interseção de um cone de ângulo de abertura \(2\alpha \) e vértice \(O\) com plano \(\pi \) que faz um ângulo \(\alpha \) com o eixo do cone, obedece de fato a equação:
com \(\eta = 1\), onde \(F\) é o foco da parábola, \(r\) a sua diretriz e \(X\) um ponto qualquer da cônica.
Considere a esfera simultaneamente tangente interna ao cone e tangente ao plano \(\pi \). Seja \(\gamma \) o plano que contém os pontos de tangência da esfera com o cone. Afirmamos que o ponto de tangência da esfera com o plano \(\pi \) é o foco da parábola e que a reta \(r\) obtida pela interseção de \(\pi \) e \(\gamma \) é a reta diretriz da parábola.
Seja \(X\) um ponto qualquer da parábola. Seja \(C\) a interseção da reta \(\overleftrightarrow {OX}\) (uma geratriz no cone) com \(\gamma \). Considere \(B\) a projeção ortogonal de \(X\) em \(\gamma \) e \(D\) o ponto na diretriz \(r = \pi \cap \gamma \) tal que o triângulo \(\Delta XBD\) se encontre num plano ortogonal a \(\pi \). Afirmamos que qualquer que seja \(X\), ponto da parábola, os triângulos \(\Delta XBC\) e \(\Delta XBD\) são congruentes.
Os dois triângulos são retângulos em \(B\), pois \(XB\) é perpendicular a \(\gamma \). Além disso,
onde \(\alpha \) é o ângulo entre uma geratriz e o eixo do cone e \(\theta \) é o ângulo entre o plano secante \(\pi \) e esse eixo, medidos no plano perpendicular à diretriz \(r\). No caso parabólico, \(\pi \) é paralelo a uma geratriz, portanto \(\theta =\alpha \). Como os triângulos retângulos têm o cateto \(XB\) em comum e o mesmo ângulo agudo em \(X\), são congruentes.
Observe assim que \(\lVert \overrightarrow {XC}\rVert = \lVert \overrightarrow {XD}\rVert \). Mas \(\lVert \overrightarrow {XD}\rVert = d(X,r)\) e \(\lVert \overrightarrow {XC}\rVert = \lVert \overrightarrow {XF}\rVert \), onde \(F\) é o foco da parábola (pois \(\overline{XC}\) e \(\overline{XF}\) são tangentes a esfera em \(C\) e \(F\)). Logo:
com \(\eta = 1\).
Prove que a curva (elipse) formada pela interseção de um cone de ângulo de abertura \(2\alpha \) com um plano \(\pi \) que faz um ângulo \(\theta \gt \alpha \) com o eixo do cone satisfaz a equação com \(\eta \lt 1\), onde \(F\) é o foco da elipse e \(r\) a sua diretriz. Considere, como no caso da parábola, a esfera simultaneamente tangente internamente ao cone e tangente ao plano \(\pi \) (esfera de Dandelin). Determine o foco \(F\) e a diretriz \(r\) da elipse por uma construção análoga à usada para a parábola; Considere \(X\) e \(X'\) dois pontos da elipse. Defina os pontos \(B\), \(C\) e \(D\) como no caso da parábola e defina \(B'\), \(C'\) e \(D'\) analogamente a partir de \(X'\); Mostre que os seguintes triângulos são semelhantes: Mostre que onde \(\eta \) é uma constante real; Conclua que com \(\eta \lt 1\). Seguindo a mesma construção usada para a parábola: O foco \(F\) é o ponto de tangência da esfera de Dandelin com o plano \(\pi \), e a diretriz \(r\) é a interseção de \(\pi \) com o plano \(\gamma \) que contém o círculo de tangência da esfera com o cone. Para \(X\) na elipse, seja \(C\) a interseção da geratriz \(\overleftrightarrow {OX}\) com \(\gamma \), seja \(B\) a projeção ortogonal de \(X\) em \(\gamma \), e seja \(D\) o ponto de \(r\) tal que \(\triangle XBD\) esteja num plano ortogonal a \(\pi \). Definem-se \(B'\), \(C'\), \(D'\) do mesmo modo a partir de \(X'\). Em \(\triangle XBD\) e \(\triangle X'B'D'\) o ângulo reto está em \(B\) (resp. \(B'\)) e o ângulo em \(X\) (resp. \(X'\)) é o ângulo fixo \(\theta \) que \(\pi \) faz com o eixo do cone. Logo \(\triangle XBD\sim \triangle X'B'D'\) (caso AA). Do mesmo modo, em \(\triangle XBC\) e \(\triangle X'B'C'\) o ângulo reto está em \(B\) (resp. \(B'\)) e o ângulo em \(X\) (resp. \(X'\)) é o ângulo fixo \(\alpha \) entre uma geratriz e o eixo do cone; logo \(\triangle XBC\sim \triangle X'B'C'\). Nos dois triângulos retângulos construídos a partir de \(X\), Portanto A mesma razão vale para \(X'\), pois \(\alpha \) e \(\theta \) dependem apenas do cone e do plano secante, e não do ponto escolhido. Como \(\overline{XC}\) e \(\overline{XF}\) são segmentos tangentes à mesma esfera traçados a partir de \(X\), tem-se \(\lVert \overrightarrow {XC}\rVert =\lVert \overrightarrow {XF}\rVert \); e, exatamente como no caso da parábola, \(\lVert \overrightarrow {XD}\rVert =d(X,r)\). Substituindo na razão do item anterior, Como aqui \(\theta \gt \alpha \) (o plano \(\pi \) é mais inclinado em relação ao eixo do que a geratriz), tem-se \(\eta \lt 1\). A construção é a mesma do exercício anterior (elipse). Nos triângulos retângulos \(\triangle XBC\) e \(\triangle XBD\), os ângulos em \(X\) são, respectivamente, \(\alpha \) e \(\theta \). Assim, Como \(\lVert \overrightarrow {XC}\rVert =\lVert \overrightarrow {XF}\rVert \) (segmentos tangentes à mesma esfera a partir de \(X\)) e \(\lVert \overrightarrow {XD}\rVert =d(X,r)\), segue Neste caso \(\theta \lt \alpha \), logo \(\cos \theta \gt \cos \alpha \) e, portanto, \(\eta \gt 1\). Sejam \(S_1\) e \(S_2\) as esferas de Dandelin da hipérbole, tangentes ao cone nos círculos \(C_1\), \(C_2\) e ao plano \(\pi \) nos focos \(F_1\), \(F_2\) respectivamente. Para \(X\) num dos ramos, a geratriz que passa por \(X\) intersecta \(C_1\) e \(C_2\) em pontos \(H_1\), \(H_2\). Como antes, \(\lVert \overrightarrow {XH_1}\rVert =\lVert \overrightarrow {XF_1}\rVert \) e \(\lVert \overrightarrow {XH_2}\rVert =\lVert \overrightarrow {XF_2}\rVert \), pois cada par é formado por segmentos tangentes à mesma esfera traçados a partir de \(X\). Diferentemente do caso da elipse, no ramo considerado os pontos \(H_1\) e \(H_2\) ficam no mesmo lado de \(X\) ao longo da geratriz; por isso a distância entre eles é o módulo da diferença das distâncias a \(X\). Assim que é a distância entre \(C_1\) e \(C_2\) medida ao longo de qualquer geratriz — a mesma para todas as geratrizes, por simetria do cone. Chamando essa distância de \(k\), concluímos
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8.7 Cônicas em Coordenadas Polares
Considere a cônica de equação \(\lVert \overrightarrow {FX}\rVert = \eta d(X,l),\). Consideremos agora coordenadas polares com a origem \(O\) localizada em \(F\) e com o eixo polar perpendicular a diretriz \(l\) da cônica.
Suponha que a distância entre a diretriz \(l\) e o foco \(F\) é uma dada constante \(p\) e que a cônica está localizada, em relação a \(l\), no mesmo lado de \(F\), como na Figura 8.11. É fácil ver que no sistema de coordenadas acima descrito \(\lVert \overrightarrow {FX}\rVert =r\) e \(d(X,l)=(p-r\cos \theta )\), donde temos:
Isolando \(r\) segue que:
Suponha agora que que a cônica está localizada, em relação a \(l\), no lado oposto a \(F\), como na Figura 8.12. A equação \(\lVert \overrightarrow {FX}\rVert = \eta d(X,l),\) torna-se então:
Portanto segue:
Observe no entanto que, como \(r\) é positivo, para que a equação acima represente um lugar geométrico não vazio devemos ter \(\eta \gt 1\), ou seja, a cônica deve ser uma hipérbole.
Temos então:
8.8 Cônicas e a Trajetória dos Planetas
Aprofundamento. Esta seção usa derivadas e identidades vetoriais além do núcleo do curso de Geometria Analítica.
Nesta seção mostraremos, a partir das leis de Newton, que a trajetória de planetas sujeitos apenas à força gravitacional exercida por um sol é uma cônica. Tal trajetória será uma elipse, parábola ou hipérbole dependendo da velocidade inicial do planeta. A prova que fazemos aqui foi fortemente inspirada na demonstração das leis de Kepler apresentada no livro Calculus - Volume I de Tom Apostol ([1]).
Assim, suponha um sol e um planeta de massas \(M\) e \(m\), respectivamente.
A segunda lei de Newton relaciona a força resultante \(\boldsymbol {F}\) e a aceleração \(\boldsymbol {a}\) por:
Denotando por \(\boldsymbol {r}\) o vetor que liga o sol ao planeta, por \(\boldsymbol {u_r}\) o versor de \(\boldsymbol {r}\) e por \(r\) a norma de \(\boldsymbol {r}\), a lei universal da gravitação afirma que a força exercida pelo sol no planeta obedece:
onde \(G\) é a constante gravitacional.
A partir das equações (8.15) e (8.16) temos:
Mostremos inicialmente que a trajetória do planeta está contida num plano fixo. Esse plano contém os vetores posição \(\boldsymbol {r}\) e velocidade \(\boldsymbol {v}\) e é perpendicular ao vetor momento angular específico \(\boldsymbol {r}\times \boldsymbol {v}\). Observe, para isso, que o vetor \(\boldsymbol {r} \times \boldsymbol {v}\) é constante:
Denotemos \(\boldsymbol {r} \times \boldsymbol {v}\) por \(\boldsymbol {c}\).
Como \(\boldsymbol {r} \cdot \boldsymbol {c} = \boldsymbol {r} \cdot \boldsymbol {r} \times \boldsymbol {v} = 0\) segue que o vetor posição é sempre perpendicular a \(\boldsymbol {c}\), logo a trajetória é de fato plana. Observe que se \(\boldsymbol {c} = {\boldsymbol {\displaystyle 0}}\) temos que \(\boldsymbol {r}\) e \(\boldsymbol {v}\) são paralelos e a trajetória será uma reta (cônica degenerada). Suponhamos no que se segue que \(\boldsymbol {c} \neq {\boldsymbol {\displaystyle 0}}\).
Mostremos agora que a trajetória é de fato uma cônica.
Fixe um eixo polar passando pelo sol e seja \(\theta \) o ângulo entre \(\boldsymbol {r}\) e tal eixo. Seja \(\boldsymbol {u}_{\theta }\) o vetor unitário perpendicular a \(\boldsymbol {r}\) dado por \(\dfrac {d \boldsymbol {u_r}}{d\theta }\). Usando coordenadas polares temos que \(\boldsymbol {r} = r \boldsymbol {u_r}\). Disso segue:
Portanto obtemos:
Dessa expressão segue:
Observe agora que:
Por outro lado:
Das equações (8.18), (8.19) e (8.20) segue então que:
Portanto, por integração obtemos:
onde \(\boldsymbol {b}\) é um vetor constante.
Tomando \(\boldsymbol {e}\) tal que \(GM \boldsymbol {e} = \boldsymbol {b}\) segue que:
Tomando o produto escalar com \(\boldsymbol {r}\) em ambos os lados, obtemos
onde \(\eta =\lVert \boldsymbol {e}\rVert \) e \(\phi \) é o ângulo entre \(\boldsymbol {r}\) e \(\boldsymbol {e}\). Como \(\boldsymbol {c}=\boldsymbol {r}\times \boldsymbol {v}\), a invariância cíclica do produto misto fornece
onde \(c=\lVert \boldsymbol {c}\rVert \).
Assim temos, finalmente,
Se \(\eta =0\), segue que \(r=c^2/(GM)\) é constante, e a órbita é circular. Se \(\eta \gt 0\), definindo
obtemos
que é a equação polar de uma cônica com foco no sol e excentricidade \(\eta \).
8.9 Exercícios complementares
As listas históricas deste capítulo concentram-se nas construções de Dandelin. Os exercícios abaixo completam a prática com formas canônicas, elementos geométricos, translações, completar quadrados e excentricidade.
A forma canônica é Logo o eixo maior é vertical, \(a=3\), \(b=2\) e Centro: \((0,0)\). Vértices principais: \((0,\pm 3)\). Vértices secundários: \((\pm 2,0)\). Focos: \((0,\pm \sqrt5)\). Os eixos medem \(6\) e \(4\), e Temos \(c=4\) e \(2a=10\), portanto \(a=5\). Como \(a^2=b^2+c^2\), Logo Completando quadrados, isto é, É uma elipse de centro \((2,-1)\), com \(a=4\), \(b=3\), \(c=\sqrt7\). O eixo maior é horizontal; os focos são e os vértices principais são \((6,-1)\) e \((-2,-1)\). A forma canônica é Logo \(a=4\), \(b=3\) e \(c=5\). Os vértices são \((\pm 4,0)\), os focos \((\pm 5,0)\) e as assíntotas A excentricidade é Temos \(c=5\), \(a=3\) e Portanto Completando quadrados, logo É uma hipérbole de centro \((1,-2)\), com \(a=3\), \(b=2\) e \(c=\sqrt{13}\). Vértices: Focos: Assíntotas: Comparando com \(y^2=4px\), temos \(p=3\). Logo O eixo é \(y=0\). A corda focal perpendicular ao eixo passa por \(x=3\); seus extremos são \((3,\pm 6)\), portanto seu comprimento é \(12=4p\). O vértice é a origem e \(p=-2\). Assim ou Completando quadrados, Logo \(4p=8\), isto é, \(p=2\). Portanto \(\dfrac {x^2}{25}+\dfrac {y^2}{9}=1\); \(\dfrac {x^2}{9}-\dfrac {y^2}{16}=1\); \(y^2=12x\). \(a=5\), \(b=3\), \(c=4\), \(e=4/5\). Focos \((\pm 4,0)\) e diretrizes \(a=3\), \(b=4\), \(c=5\), \(e=5/3\). Focos \((\pm 5,0)\) e diretrizes Excentricidade \(e=1\), foco \((3,0)\) e diretriz \(x=-3\). Elevando ao quadrado, Simplificando, Trata-se da elipse de focos \((\pm 4,0)\) e excentricidade \(4/5\). Na primeira, \((a,b)=(5,3)\); na segunda, \((a',b')=(10,6)\). Assim A homotetia de centro na origem e razão \(2\) leva \((x,y)\) em \((2x,2y)\) e transforma a primeira elipse na segunda. Ambas têm a mesma excentricidade \(4/5\). Ver solução
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