Capítulo 13

Aplicações

As formas canônicas permitem calcular potências e funções de operadores. Em tempo discreto, as potências de uma matriz descrevem recorrências e sistemas lineares; em tempo contínuo, a exponencial do operador fornece as soluções de equações diferenciais lineares com coeficientes constantes. O estudo dos limites e o teorema de Perron–Frobenius permitem relacionar essas expressões ao comportamento assintótico das soluções.

13.1 Equações de Recorrência

Quando o tempo é discreto, o estado seguinte é calculado a partir de estados anteriores. Essa regra produz uma relação de recorrência; sua versão linear será estudada por meio de potências de matrizes.

Definição 13.1 (Relação de recorrência)

Uma relação de recorrência expressa cada termo de uma sequência em função de termos anteriores. Ela é de primeira ordem quando tem a forma

\[ u_n=\varphi (n,u_{n-1}),\qquad n\gt 0, \]

com \(\varphi :\mathbb {N}\times \mathbb {K}\to \mathbb {K}\). Fixado \(u_0\), a relação determina sucessivamente todos os demais termos.

Mais geralmente, uma recorrência de ordem \(k\) tem a forma

\[ u_n=\varphi (n,u_{n-1},u_{n-2},\ldots ,u_{n-k}),\qquad n\geq k, \]

onde \(\varphi :\mathbb {N}\times \mathbb {K}^k\to \mathbb {K}\). Nesse caso, são necessários \(k\) valores iniciais.

Exemplo 13.2 (Fibonacci)

A sequência de Fibonacci é definida recursivamente pela fórmula

\[ F_{n}=F_{n-1}+F_{n-2}, \]

e valores iniciais

\[ F_{1}=1,\; F_{2}=1. \]

Os primeiros valores são: \(1,1,2,3,5,8,13,21,34,55,89,144,233,377,610,987,\ldots \)

Exemplo 13.3 (Mapa Logístico)
\[ \displaystyle x_{n+1}=rx_{n}(1-x_{n}) \]
com uma constante \(r\) dada; fixado o termo inicial \(x_0\), cada termo subsequente é determinado pela relação.

Figura 13.1 x_n= 3.8 x_(n-1)(1-x_(n-1))

Figura 13.1 \(x_n= 3.8 x_{n-1}(1-x_{n-1})\)

Numa equação a diferenças finitas, a incógnita é uma sequência \((u_0,u_1,\ldots ,u_k,\ldots )\) cujos termos devem satisfazer uma relação de recorrência dada.

Uma equação a diferenças finitas é dita linear de ordem \(k\) se puder ser escrita em termos dos parâmetros \(a_1, \ldots , a_k\) e \(b\) como

\[ u_{n} = a_{1} u_{n-1}+\cdots +a_{k} u_{n-k}+b \]

A equação é dita homogênea se \(b = 0\) e não homogênea se \(b \neq 0\).

Dado o valor inicial \(u_0\), uma recorrência de primeira ordem determina sucessivamente \(u_1,u_2,\ldots \). De modo análogo, fixados \(u_0\) e \(u_1\), uma recorrência de segunda ordem determina todos os termos seguintes.

Teorema 13.4 (Existência e Unicidade)
Uma relação de recorrência de ordem \(k\)
\[ u_n = \varphi (n, u_{n-1}, u_{n-2}, \ldots , u_{n-k}) \quad \text{ para } \quad n \ge k, \]
juntamente com \(k\) valores iniciais \(u_0, u_1,\ldots u_{k-1}\) possui uma única solução.

Demonstração ▼

Os valores iniciais determinam os termos de índices \(0,\ldots ,k-1\). Depois disso, \(u_k\) é determinado por esses valores, \(u_{k+1}\) é determinado pelos \(k\) termos anteriores, e assim sucessivamente. Esse procedimento constrói uma solução. Ele também prova a unicidade por indução: duas soluções com os mesmos valores iniciais coincidem nos primeiros \(k\) índices e, se coincidem até o índice \(n-1\), a recorrência obriga que coincidam também no índice \(n\).

Teorema 13.5
O conjunto das soluções de uma equação linear homogênea de ordem \(k\)
\[ u_{n} = a_{1} u_{n-1}+\cdots +a_{k} u_{n-k} \]
é um espaço vetorial de dimensão \(k\).

Demonstração ▼

As operações são feitas termo a termo, por isso a soma de duas soluções e o produto de uma solução por um escalar ainda satisfazem a recorrência homogênea. Considere

\[ \Phi :\mathcal S\longrightarrow \mathbb {K}^k,\qquad \Phi ((u_n))=(u_0,\ldots ,u_{k-1}), \]

onde \(\mathcal S\) é o espaço das soluções. Pelo teorema anterior, cada escolha de valores iniciais determina uma única solução. Logo \(\Phi \) é um isomorfismo linear e \(\dim \mathcal S=k\).

Exemplo 13.6 (Progressão Aritmética)
A solução da equação de primeira ordem \(u_{k+1}=u_k+b\), com valor inicial \(u_0\), é a sequência \((u_0,u_0+b,u_0+2b,\ldots )\), cujo termo geral é \(u_k=u_0+kb\). Trata-se, portanto, de uma progressão aritmética de razão \(b\).

Exemplo 13.7 (Progressão Geométrica)
A equação \(u_{k+1}=au_{k}\) com valor inicial \(u_{0}\) tem como solução a sequência
\[ (u_{0},\ au_{0},\ a^{2}u_{0},\ \ldots ,\ a^{k}u_{0},\ \ldots ) \]
cujo termo geral é \(u_{k}=a^{k}u_{0}\), ou seja, uma progressão geométrica de razão \(a\).

Exemplo 13.8

Seja \(u_{k+1}=au_k+b\) uma equação linear não homogênea de primeira ordem, com coeficientes constantes. A partir do valor inicial \(u_0\), obtemos sucessivamente:

\begin{align*} u_{1} & =au_{0}+b, \\ u_{2} & =au_{1}+b=a^{2}u_{0}+(1+a)b, \\ u_{3} & =a u_{2}+b=a^{3}u_{0}+(1+a+a^{2})b, \\ & \vdots \\ u_{k} & =au_{k-1}+b=a^{k}u_{0}+(1+a+\cdots +a^{k-1})b \end{align*}

Portanto a solução geral da equação \(u_{k+1}=au_{k}+b\) é

\[ u_k=\begin{cases} a^ku_0+\dfrac {1-a^k}{1-a}\, b,& a\neq 1,\\[4pt] u_0+kb,& a=1. \end{cases} \]

No caso geral, \( a \) e \( c \) serão funções de \( n \) e temos o seguinte resultado.

Teorema 13.9

Sejam \( a (n) \) e \( c (n), n \in \mathbb {N}\), sejam sequências reais. Então a equação da diferença linear de primeira ordem

\[ u (n+1) = a (n) u (n)+c (n) \text{ com condição inicial} u (0) = u_{0} \]

tem solução

\[ u (n) = (\displaystyle \prod _{k = 0}^{n-1} a (k)) u_{0}+\sum _{k = 0}^{n-1} (\prod _{j = k+1}^{n-1} a (j)) c (k) \]

E a solução é única.

Demonstração ▼

Substituindo \(n=0\) na fórmula e adotando a convenção de que o produto vazio vale \(1\), obtemos \(u(0)=u_0\). Para o passo seguinte, isolamos o termo \(k=n\) da soma e fatoramos \(a(n)\) nos demais termos; isso fornece diretamente

\[ u(n+1)=a(n)u(n)+c(n). \]

Logo a fórmula define uma solução. A unicidade segue por indução: duas soluções com o mesmo valor inicial coincidem em \(n=0\) e, se coincidem em \(n\), a recorrência mostra que coincidem em \(n+1\).

A equação \(u_{k+1}=au_k+b\) também pode ser vista como uma equação linear no espaço das sequências. Defina \(L(\bm {u})_k=u_{k+1}-au_k\). Então a recorrência equivale a \(L(\bm {u})=\vec b\), onde \(\vec b=(b,b,\ldots )\).

Teorema 13.10
A solução geral da equação \(A\vec{x}=\vec{b}\) é a soma de uma solução particular com um elemento qualquer do núcleo de \(A\), isto é, com uma solução da equação homogênea \(A\vec{x}=\vec{0}\).

Demonstração ▼

Se \(\bm {x}_p\) é uma solução particular, então \(A\bm {x}=\vec b\) equivale a \(A(\bm {x}-\bm {x}_p)=\vec0\). Portanto, \(\bm {x}=\bm {x}_p+\bm {z}\) com \(\bm {z}\in \ker A\), e todo vetor dessa forma é solução.

Se \(a\neq 1\), a sequência constante \(\widehat c=(c,c,\ldots )\) é uma solução particular quando \((1-a)c=b\), isto é, \(c=b/(1-a)\). O núcleo de \(L\) é formado pelas progressões geométricas \((p,ap,a^2p,\ldots )\). Somando a solução particular e impondo o valor inicial, recuperamos

\[ u_k=a^ku_0+\frac{1-a^k}{1-a}\, b. \]

13.1.1 Sistemas Lineares

Num espaço vetorial \(V\), uma recorrência linear de primeira ordem é determinada por um operador \(T:V\to V\) e pela regra

\[ \bm {v}_{k+1}=T\bm {v}_{k} \]

Esse é um sistema linear homogêneo de equações a diferenças com coeficientes constantes.

Dado \(\bm {v}_0\in V\), a única solução é \(\bm {v}_k=T^k\bm {v}_0\).

O problema prático reduz-se, portanto, ao cálculo das potências sucessivas de \(T\). Se \(T\) for diagonalizável, escrevemos o vetor inicial como

\[ \bm {v}_{0}=c_{1}\bm {u}_{1}+\cdots +c_{n}\bm {u}_{n}, \]

onde \(T\bm {u}_i=\lambda _i\bm {u}_i\). Segue-se que

\[ T^{k}\bm {v}_{0}=c_{1}\lambda _{1}^{k}\bm {u}_{1}+\cdots +c_{n}\lambda _{n}^{k}\bm {u}_{n}. \]

Teorema 13.11

Um sistema linear não homogêneo de \(k\) equações de diferenças de primeira ordem, com coeficientes constantes e termo independente constante, pode ser escrito como

\begin{align*} u_{1} (n+1) & = a_{11} u_{1} (n)+a_{12} u_{2} (n)+\cdots +a_{1k} u_{k} (n)+c_{1} \\ u_{2} (n+1) & = a_{21} u_{1} (n)+a_{22} u_{2} (n)+\cdots +a_{2k} u_{k} (n)+c_{2} \\ & \vdots \\ u_{k} (n+1) & = a_{k1} u_{1} (n)+a_{k2} u_{2} (n)+\cdots +a_{kk} u_{k} (n)+c_{ k}. \end{align*}

Usando a notação matricial

\[ \bm {u}(n) = \left[\begin{array}{c} u_{1} (n) \\ u_{2} (n) \\ \vdots \\ u_{k} (n) \end{array} \right],\qquad A = \left[\begin{array}{llll} a_{11} & a_{12} & \cdots & a_{1 k} \\ a_{21} & a_{22} & & a_{2k} \\ \vdots & \vdots & & \\ a_{k 1} & a_{k2} & \cdots & a_{kk} \end{array} \right],\qquad \vec{c} = \left[\begin{array}{c} c_{1} \\ c_{2} \\ \vdots \\ c_{k} \end{array} \right] \]

Então a solução do sistema escrito como

\[ \bm {u}(n+1) = A \bm {u}(n)+\vec{c} \]

é

\[ \displaystyle \bm {u}(n) = A^{n} \bm {u}(0)+\sum _{j = 0}^{n-1} A^{n-1-j} \vec{c}, \qquad n\in \mathbb {N}. \]

Demonstração ▼

A forma matricial decorre diretamente da definição do produto de matrizes. Para a fórmula da solução, o caso \(n=0\) é imediato. Se ela vale para \(n\), então

\begin{align*} \bm {u}(n+1) & =A\bm {u}(n)+\vec c\\ & =A^{n+1}\bm {u}(0)+\sum _{j=0}^{n-1}A^{n-j}\vec c+\vec c\\ & =A^{n+1}\bm {u}(0)+\sum _{j=0}^{n}A^{n-j}\vec c, \end{align*}

que é a fórmula desejada no índice \(n+1\). A mesma indução mostra que a solução é única para cada valor inicial.

Quando \(A\) não é diagonalizável, a forma de Jordan ainda torna o cálculo de \(A^n\) explícito: em cada bloco \(J=\lambda \operatorname {I}+N\), usamos o binômio e a nilpotência de \(N\),

\[ J^n=\sum _{j=0}^{s-1}\binom {n}{j}\lambda ^{n-j}N^j, \]

onde \(s\) é o tamanho do bloco.

Exercício 13.1
  1. Para \(a_1=1\), \(a_2=4\) e \(a_{n+2}=4a_{n+1}-3a_n\), encontre \(A\in M_2(\mathbb {R})\) com \(A^n(1,0)^T=(a_{n+1},a_n)^T\) para \(n\geq 1\). Determine \(a_n\) e \(\lim _{n\to \infty }a_n^{1/n}\).

  2. Para \(b_0=a\), \(b_1=b\) e \(b_{n+1}=4b_n-4b_{n-1}\), encontre uma fórmula para \(b_n\). Ache uma forma de Jordan \(J\) de \(B=\begin{bmatrix} 4 & -4 \\ 1 & 0 \end{bmatrix}\) e uma matriz \(P\) tal que \(P^{-1}BP=J\). Calcule \(B^{100}\) e \(J^{100}\).

Gabarito no Apêndice C, p. *.

13.2 Limites de Operadores

Para definir limites de operadores em dimensão finita, basta escolher bases e acompanhar a convergência das entradas de suas matrizes. Começamos, portanto, com matrizes sobre \(\mathbb {R}\) ou \(\mathbb {C}\).

Definição 13.12
Seja \(\mathbb {K}=\mathbb {R}\) ou \(\mathbb {C}\). Uma sequência \((A_r)\) em \(\mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K})\) converge para \(A\) quando cada entrada de \(A_r\) converge para a entrada correspondente de \(A\):
\[ | a_{ij}^{(r)} - a_{ij} | \rightarrow 0 \text{ quando } r \rightarrow \infty \]
para \(1\leq i,j\leq n\), onde \(A_r=[a_{ij}^{(r)}]\).

Essa definição equivale à convergência na norma

\[ \left\| A \right\| _{\max } = \max \{ |a_{ij}|\, \mid \, 1\leq i,j\leq n\} \]

cuja distância associada é \(d(A,B)=\left\| A-B\right\| _{\max }\). De fato,

\[ A_{n} \rightarrow A \text{ quando } n \rightarrow \infty \Leftrightarrow \left\| A_{n}-A\right\| _{\max } \rightarrow 0 \text{ quando } n \rightarrow \infty \]

A norma do máximo possui as seguintes propriedades.

Proposição 13.13

Se \( A, B \in \mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K}) \) então:

  1. \( \Vert \cdot \Vert _{\max }\) é uma norma.

  2. Propriedade multiplicativa: \( \Vert AB \Vert _{\max } \leq n \cdot \Vert A \Vert _{\max } \cdot \Vert B \Vert _{\max }.\)

  3. Se \( A_{r} \rightarrow A \) e \( B_{r} \rightarrow B \) na norma do máximo e \( \lambda _{r} \rightarrow \lambda \) em \( \mathbb {C}\), então:

    1. \( \lambda _{r} A_{r} \rightarrow \lambda A\);

    2. \( A_{r}+B_{r} \rightarrow A+B\);

    3. \( A_{r} B \rightarrow AB \) e \( AB_{r} \rightarrow AB\);

    4. \( A_{r} B_{r} \rightarrow AB \). Assim, a multiplicação de matrizes é uma operação contínua;

    5. se \( Q \) for uma matriz invertível, \( QA_{r} Q^{- 1} \rightarrow QAQ^{- 1} \). Portanto, toda transformação de similaridade \( A \mapsto QAQ^{-1} \) é uma operação contínua no espaço das matrizes.

Demonstração ▼

As propriedades de norma seguem das propriedades do módulo em \(\mathbb {R}\) ou \(\mathbb {C}\). Para cada \(i,j\),

\[ |(AB)_{ij}|\leq \sum _{h=1}^n|a_{ih}||b_{hj}| \leq n\left\| A\right\| _{\max }\left\| B\right\| _{\max }, \]

o que prova a desigualdade multiplicativa. As afirmações sobre soma e produto por escalar seguem das desigualdades triangular e multiplicativa. Para o produto, note que uma sequência convergente \((A_r)\) é limitada e escreva

\[ A_rB_r-AB=A_r(B_r-B)+(A_r-A)B. \]

Os dois termos tendem a zero. O caso da similaridade é obtido tomando os fatores fixos \(Q\) e \(Q^{-1}\).

Exercício 13.2

Considere \(x_{k+1}=\frac12(Bx_k+c)\), onde \(B=\begin{bmatrix} 2 & 1 \\ 1 & 2 \end{bmatrix}\) e \(c=(1,1)^T\). Determine o único limite possível, as condições sobre \(x_0\) para a convergência e a fórmula da sequência usando as direções \((1,1)\) e \((1,-1)\).

Gabarito no Apêndice C, p. *.

Exercício 13.3

Seja \(A\) real simétrica, com autovalores distintos \(\lambda _1,\ldots ,\lambda _r\) e projeções espectrais \(P_j\). Determine para quais \(x\in \mathbb {R}^n\) existe \(L(x)=\lim _{k\to \infty }(x^TA^{2k}x)^{1/k}\), calcule esse limite e descreva todos os valores possíveis.

Gabarito no Apêndice C, p. *.

Exercício 13.4

Seja \(A\in M_n(\mathbb {C})\) invertível. Prove que a família \(\{ A^k:k\in \mathbb {Z}\} \) é limitada se, e somente se, \(A\) é diagonalizável e todos os seus autovalores têm módulo um. Mostre por um exemplo que a limitação apenas para \(k\geq 0\) não força a diagonalização.

Gabarito no Apêndice C, p. *.

13.3 Funções de Operadores

13.3.1 Exponencial de Matrizes

Definiremos a exponencial de uma matriz por meio da série de Taylor para a exponencial real:

Definição 13.14
Seja \(A\) uma matriz \(n\times n\). Definimos \(e^{A}=\sum \limits _{k=0}^{\infty }\dfrac {A^{k}}{k!}\).

Teorema 13.15 (Critério de Convergência de Cauchy)
Uma sequência \( \{ A_n \} \) em \( \mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K})\) converge para algum limite \( A_{0} = \lim _{n \rightarrow \infty } A_{ n} \) na norma \( \Vert \cdot \Vert _{\max } \) se, e somente se, a sequência tiver a propriedade Cauchy: dado \( \epsilon \gt 0 \), podemos encontrar um \( M\gt 0 \) tal que
\[ \Vert A_{m}-A_{n} \Vert _{\max } \lt \epsilon \text{ para todos os } m, n \geq M \]

Demonstração ▼

Se \((A_r)\) converge, a desigualdade triangular mostra que ela é de Cauchy. Reciprocamente, se \((A_r)\) é de Cauchy nessa norma, então cada sequência de entradas \((a_{ij}^{(r)})\) é de Cauchy em \(\mathbb {R}\) ou \(\mathbb {C}\) e, portanto, converge para um escalar \(a_{ij}\). Como há apenas um número finito de entradas, para cada \(\epsilon \gt 0\) existe um mesmo índice a partir do qual todas elas estão a menos de \(\epsilon \) de seus limites. Assim, \(A_r\to A=(a_{ij})\) na norma do máximo.

Teorema 13.16
A série \(e^{A}\) converge para toda matriz \(A\in \mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K}) \).

Demonstração ▼

Se \(A\in \mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K})\), a desigualdade multiplicativa implica \(\left\| A^k\right\| _{\max }\leq n^{k-1}\left\| A\right\| _{\max }^k\) para \(k\geq 1\). Logo a série matricial é absolutamente dominada, entrada a entrada, por uma constante vezes a série escalar \(\sum _{k\geq 0}(n\left\| A\right\| _{\max })^k/k!\), que converge. Portanto, suas somas parciais formam uma sequência de Cauchy e \(e^A\) está bem definida.

Exemplo 13.17 (Exponencial da matriz nula)
Seja \(\vec0\) a matriz nula então
\[ e^{\vec0}=\sum \limits _{n=0}^{\infty }\dfrac {0^{n}}{n!}=I \]

Exemplo 13.18 (Exponencial da Matriz Identidade)

Como \(I^k=I\) para \(k\geq 1\), temos \(e^I=eI\).

Exemplo 13.19 (Exponencial de uma Matriz Diagonal)
De modo análogo ao exemplo anterior se
\[ D=\left[\begin{array}{rrrr} a_{1} & 0 & \ldots & 0 \\ 0 & a_{2} & \ldots & 0 \\ \ldots & & \ddots \\ 0 & 0 & \ldots & a_{n} \end{array}\right] \text{ então } e^{D}=\left[\begin{array}{rrrr} e^{a_{1}} & 0 & \ldots & 0 \\ 0 & e^{a_{2}} & \ldots & 0 \\ \ldots & & \ddots \\ 0 & 0 & \ldots & e^{a_{n}} \end{array}\right]\ . \]
Ou seja, para uma matriz diagonal, calcular a sua exponencial é equivalente a exponenciar cada elemento da diagonal.
Exemplo 13.20 (Matrizes Nilpotentes)

Observe que se uma matriz é nilpotente, os elementos do somatório a partir de um certo ponto são nulos, isso implica que a série de \(e^{B}\) é finita. Vejamos um exemplo:

Seja \(B=\left[\begin{array}{rrr} 0 & 0 & 0 \\ 1 & 0 & 0 \\ 0 & 1 & 0 \end{array}\right]\), então \( B^{2}=\left[\begin{array}{rrr} 0 & 0 & 0 \\ 0 & 0 & 0 \\ 1 & 0 & 0 \end{array}\right] \) e \(B^{3}=0\) , logo:

\[ e^{B}=I+B+\frac{B^{2}}{2}=\left[\begin{array}{rrr} 1 & 0 & 0 \\ 1 & 1 & 0 \\ \frac12 & 1 & 1 \end{array}\right] \]

Teorema 13.21
  1. Se \( Q = P A P^{- 1} \), então \( e^{Q } = P e^{A} P^{- 1}.\)

  2. Se \( AB= B A \), \( e^{A+B} = e^{A} e^{B}.\)

  3. \( e^{- A} = (e^{A})^{- 1}.\)

  4. se \( A =\left[\begin{array}{cc} a & b \\ - b & a \end{array}\right] \) então \( e^{A} = e^{a}\left[\begin{array}{cc} \cos b & \sin b \\ - \sin b & \cos b \end{array}\right] \)

  5. \(\dfrac { d (e^{t A})}{ d t} = A e^{t A}.\)

Demonstração ▼

No item 1, basta observar que \(Q^k=PA^kP^{-1}\) e passar ao limite das somas parciais. Se \(AB=BA\), o binômio usual vale para \((A+B)^k\); reorganizando o produto das duas séries absolutamente convergentes, obtemos o item 2. Aplicando-o a \(A\) e \(-A\), segue \(e^Ae^{-A}=e^0=\operatorname {I}\), o que prova 3.

Para 4, escreva \(A=a\operatorname {I}+bR\), onde \(R=\left[\begin{smallmatrix} 0 & 1 \\ -1 & 0 \end{smallmatrix}\right]\) e \(R^2=-\operatorname {I}\). Separando os termos pares e ímpares na série de \(e^{bR}\), obtemos \(e^{bR}=\cos (b)\operatorname {I}+\sin (b)R\); o item 2 conclui o cálculo. Finalmente, a série de \(e^{tA}\) pode ser derivada termo a termo em qualquer intervalo limitado, e

\[ \frac{d}{dt}e^{tA} =\sum _{k=1}^{\infty }\frac{k t^{k-1}A^k}{k!} =A\sum _{j=0}^{\infty }\frac{t^jA^j}{j!} =Ae^{tA}, \]

o que prova 5.

Cálculo da Exponencial usando a Forma de Jordan

Se \(A=MJM^{-1}\), então \(e^A=Me^JM^{-1}\). Em cada bloco de Jordan, escrevemos \(J=\lambda \operatorname {I}+N\), com \(N\) nilpotente. O termo escalar \(\lambda \operatorname {I}\) comuta com \(N\), logo

\[ e^J=e^{\lambda }e^N=e^{\lambda }\sum _{k=0}^{s-1}\frac{N^k}{k!}, \]

onde \(s\) é o tamanho do bloco. Aplicamos essa fórmula bloco a bloco.

Exercício 13.5

Para \(M=\begin{bmatrix} 3 & 5 \\ 1 & -1 \end{bmatrix}\), calcule \(\exp (M)\) por decomposição espectral. Existe uma matriz real \(A\) com \(\exp (A)=M\)? Justifique.

Gabarito no Apêndice C, p. *.

Exercício 13.6

Prove que \(e^{F+G}=e^Fe^G\) se \(FG=GF\). Depois calcule os dois lados para \(F=\begin{bmatrix} 0 & 1 \\ 0 & 0 \end{bmatrix}\) e \(G=\begin{bmatrix} 0 & 0 \\ 1 & 0 \end{bmatrix}\), mostrando que a igualdade pode falhar sem comutatividade.

Gabarito no Apêndice C, p. *.

13.4 Equações Diferenciais Ordinárias

A passagem do tempo discreto ao contínuo substitui potências de \(A\) pela exponencial \(e^{tA}\). Seja \(I\subseteq \mathbb {R}\) um intervalo aberto que contém a origem e sejam \(x_1(t),\ldots ,x_n(t)\in C^1(I)\). Consideremos o sistema linear

\begin{equation} \begin{cases} \dfrac {d x_{1}}{d t} = a_{11} x_{1} +\cdots +a_{1n} x_{n} \\ \vdots \\ \dfrac {d x_{n}}{d t} = a_{n 1} x_{1} +\cdots +a_{n n} x_{n} \end{cases} \label{eq:sisdiff} \tag{13.1} \end{equation}

Os coeficientes \(a_{ij}\) são reais, e procuramos a solução sujeita à condição inicial \(x_1(0)=c_1,\ldots ,x_n(0)=c_n\).

Para escrevê-lo em notação vetorial, definimos \(A=(a_{ij})\in \mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {R})\), \(\bm {x}=(x_1,\ldots ,x_n)^{\mathrm{t}}\) e \(\vec c=(c_1,\ldots ,c_n)^{\mathrm{t}}\). Com essa notação, o Sistema 13.1 torna-se

\begin{equation} \bm {x}'= A \bm {x}\text{ com } \bm {x}(0)= \vec{c} \label{eq:sisdiff2} \tag{13.2} \end{equation}

Para resolver o sistema, substituímos \(A\) por uma matriz semelhante mais simples. Suponha \(J=P^{-1}AP\), com \(P\) invertível, e defina \(\bm {y}=P^{-1}\bm {x}\). Então \(\bm {y}'=P^{-1}\bm {x}'\) e \(\bm {y}(0)=P^{-1}\vec c\); além disso, \(J\bm {y}=P^{-1}AP(P^{-1}\bm {x})=P^{-1}A\bm {x}=P^{-1}\bm {x}'=\bm {y}'\). O problema reduz-se a

\begin{equation} \bm {y}' = J \bm {y}\text{ com } \bm {y}(0)= P^{-1} \vec{c} \label{eq:sisdiff3} \tag{13.3} \end{equation}

Se \(\bm {y}\) é uma solução para 13.3, então \(\bm {x}=P\bm {y}\) é uma solução para 13.2, pois \(\bm {x}'=P\bm {y}'=PJ\bm {y}=A\bm {x}\). Além disso, \(\bm {x}(0)=P\bm {y}(0)=\vec c\).

Tomaremos \(J\) na forma de Jordan real de \(A\). Como \(J\) é diagonal por blocos, o sistema se decompõe em subsistemas correspondentes a esses blocos, que podem ser resolvidos separadamente.

Em primeiro lugar, vimos no Teorema 11.27 que \(J\) é uma matriz diagonal por blocos:

\begin{equation} J =\left[\begin{array}{ccc} B_{1}& & 0 \\ & \vdots & \\ 0 & & B_{K} \end{array}\right] \label{eq:jordan2} \tag{13.4} \end{equation}

Cada bloco em 13.4 possui uma das duas formas possíveis:

\begin{equation} B_{j} =\left[\begin{array}{lll} c & 1 & 0 \\ & \ddots & 1 \\ 0 & & c \end{array}\right] \text{ ou } B_{j} =\left[ \begin{array}{cccc} D& I_2& & 0\\ & D& \ddots & \\ & & \ddots & I_2\\ 0& & & D \end{array} \right] \label{eq:jordan3} \tag{13.5} \end{equation}

Na equação 13.5, \( D \) é uma matriz \( 2 \times 2 \) da forma

\[ \left[\begin{array}{cc} a & b \\ -b & a \end{array}\right] \]

Suponha que o tamanho de cada \( B_{j} \) seja \( n_{j} \times n_{j } \). Então \(\bm {y}'=J\bm {y}\) se decompõe em \(K\) sistemas independentes,

\[ \bm {y}_{j}' = B_{j} \bm {y}_{j},\quad j = 1,\ldots , K. \]

Com \( \bm {y}_{ 1} = (y_{1},\ \ldots ,\ y_{n_1}) , \bm {y}_{2} = ( y_{n_1 {+ 1}},\ \ldots ,\ y_{n_{1}+n_2}) \), etc.

Assim, para encontrar uma solução para a equação 13.2, basta saber resolver as equações dos dois tipos a seguir:

\begin{equation*} \left[\begin{array}{c} x_{1} ’\\ \vdots \\ x_{n} ’ \end{array}\right] = \left[\begin{array}{lll} c & 1 & 0 \\ & \ddots & 1 \\ 0 & & c \end{array}\right] \left[\begin{array}{c} x_{1} \\ \vdots \\ x_{n} \end{array}\right] \tag {Tipo 1} \label{eq:5.28} \end{equation*}

com \( x_{i} (0) = c_{i}, i = 1,\ldots , n \) e

\begin{equation*} \left[\begin{array}{c} x_{1} ’\\ \vdots \\ \vdots \\ x_{2 n} \end{array}\right] = \left[ \begin{array}{cccc} D& I_2& & 0\\ & D& \ddots & \\ & & \ddots & I_2\\ 0& & & D \end{array} \right] \left[\begin{array}{c} x_{1} \\ \vdots \\ \vdots \\ x_{2 n} \end{array}\right] \tag {Tipo 2} \label{eq:5.29} \end{equation*}

com \( x_{i} (0) = c_{i}, i = 1 ,\ldots , 2 n, \) e \( D =\left[\begin{array}{cc} a & b \\ - b& a \end{array}\right]\)

O item 5 do Teorema 13.21 fornece a solução da equação 13.2, a saber \(\bm {x}=e^{tA}\vec c\).

Teorema 13.22 (Existência e Unicidade para EDO’s Lineares)
O sistema \(\bm {x}'= A \bm {x}\text{ com } \bm {x}(0)= \vec{c} \) possui uma única solução:
\[ \bm {x}= e^{t A} \vec{c} \]

Demonstração ▼

Verificaremos que \(\bm {x}= e^{t A} \vec{c}\) é solução. Como \( \bm {x}'= \dfrac {d (e^{t A} \vec{c}) }{ d t} = A e^{t A} \vec{c}= A \bm {x}\) e \( \bm {x}(0 ) = e^{0 A} \vec{c}= \vec{c}\).

Para a unicidade, se \(\bm {y}\) é qualquer solução, então

\[ \frac{d}{dt}\bigl(e^{-tA}\bm {y}(t)\bigr)=-Ae^{-tA}\bm {y}(t)+e^{-tA}A\bm {y}(t)=0. \]

Logo \(e^{-tA}\bm {y}(t)=\bm {y}(0)=\vec c\) e, portanto, \(\bm {y}(t)=e^{tA}\vec c\).

Queremos ver a forma que essa solução assume nos dois casos especiais Tipo 1 e Tipo 2.

Vamos considerar a equação Tipo 1 primeiro. Para isso considere:

\[ B =\left[\begin{array}{lll} c & 1& 0 \\ & \ddots & 1 \\ 0 & & c \end{array}\right] \quad \text{ e } \quad N =\left[\begin{array}{lll} 0 & 1& 0 \\ & \ddots & 1 \\ 0 & & 0 \end{array}\right] \]

Então, \(B,N\in \mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {R})\) e \(N\) é nilpotente de índice \(n\). Como \(c\operatorname {I}_n\) comuta com \(N\), o Teorema 13.21, item 2, implica

\[ e^{t B} = e^{t c\operatorname {I}_{n}} e^{t N} = e^{c t} e^{t N} . \]

Portanto, a solução para Tipo 1 é \(\bm {x}=e^{tB}\vec c=e^{ct}e^{tN}\vec c\). Usando a definição de \(e^{tN}\), temos

\begin{equation} \displaystyle e^{t N} =\sum _{k = 0}^{n -1}\dfrac {(t N)^{k}}{k!}= \left[ \begin{array}{ccccccc} 1 & t & \dfrac {t^2}{2!} & \cdots & \dfrac {t^{n-2}}{(n-2)!} & \dfrac {t^{n-1}}{(n-1)!}\\ 0 & 1 & t & \cdots & \dfrac {t^{n-3}}{(n-3)!} & \dfrac {t^{n-2}}{(n-2)!}\\ 0 & 0 & 1 & \ddots & \vdots & \vdots \\ \vdots & \vdots & \ddots & \ddots & t & \dfrac {t^2}{2!}\\ 0 & 0 & \cdots & 0 & 1 & t\\ 0 & 0 & \cdots & 0 & 0 & 1 \end{array} \right]\label{eq:5.32} \tag{13.6} \end{equation}

Substituindo 13.6 em \(\bm {x}=e^{ct}e^{tN}\vec c\), obtemos

\begin{equation} \displaystyle x_j(t)=e^{ct}\sum _{k=0}^{n-j}\dfrac {t^k}{k!}c_{j+k} \quad \text{para }j=1,\ldots ,n. \label{eq:5.33} \tag{13.7} \end{equation}

Agora vamos considerar a equação Tipo 2. Se a matriz nessa equação é apenas \(D\), então o Teorema 13.21, item 4, implica que a solução é

\begin{equation} x = e^{t D} \vec{c}= e^{t a}\left[\begin{array}{cc} \cos b t & \sin b t \\ - \sin b t & \cos b t \end{array}\right]\left[\begin{array}{c} c_{1} \\ c_{2} \end{array}\right] \label{eq:5.34} \tag{13.8} \end{equation}

Portanto, podemos assumir \( n\gt 1 \) e prosseguir com o caso geral.

Defina \(\mu = a - b i \). Para \(j = 1,\ldots , n \), seja \( z_{j} = x_{2 j -1}+i x_{2 j} \) e \( w_{j} = c_{2 j -1}+i c_{2 j}.\) Então a equação Tipo 2 se torna o seguinte sistema:

\begin{equation} \left[\begin{array}{ccccc} \mu & 1 & & 0 & 0\\ 0 & \mu & \ddots & & 0\\ \vdots & \ddots & \ddots & 1 & \vdots \\ 0 & & 0 & \mu & 1\\ 0 & & & 0 & \mu \end{array}\right] \left[\begin{array}{c} z_{1} \\ \vdots \\ z_{n} \end{array}\right] =\left[\begin{array}{c} z_{1} ’\\ \vdots \\ z_{n}’ \end{array}\right] \label{eq:5.35} \tag{13.9} \end{equation}

com \(z_i(0)=w_i\) para \(i=1,\ldots ,n\). As equações em 13.9 são resolvidas da mesma maneira que a equação Tipo 1. Portanto,

\begin{equation} \displaystyle z_j(t)=e^{\mu t}\sum _{k=0}^{n-j}\dfrac {t^k}{k!}w_{j+k}, \qquad j=1,\ldots ,n. \label{eq:5.36} \tag{13.10} \end{equation}

Como \(e^{\mu t}=e^{(a-bi)t}=e^{at}(\cos bt-i\sin bt)\), a Equação 13.10, com \(w_j=c_{2j-1}+ic_{2j}\), fornece a solução real:

\begin{equation} \displaystyle x_{2j-1}(t)=e^{at}\sum _{k=0}^{n-j}\dfrac {t^k}{k!} \bigl[c_{2(j+k)-1}\cos (bt)+c_{2(j+k)}\sin (bt)\bigr] \label{eq:5.37} \tag{13.11} \end{equation}

\[ x_{2j}(t)=e^{at}\sum _{k=0}^{n-j}\dfrac {t^k}{k!} \bigl[c_{2(j+k)}\cos (bt)-c_{2(j+k)-1}\sin (bt)\bigr], \qquad j=1,\ldots ,n. \]

Observe que, nos casos Tipo 1 e Tipo 2, as coordenadas da solução são combinações lineares de produtos de polinômios, exponenciais, senos e cossenos. Assim, temos o seguinte teorema:

Teorema 13.23
Sejam \(A\in \mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {R})\) e \(\bm {x}(t)\) uma solução de \(\bm {x}'=A\bm {x}\). Então cada coordenada de \(\bm {x}\) é uma combinação linear de funções da forma \(t^ke^{at}\cos (bt)\) e \(t^ke^{at}\sin (bt)\), onde \(a+bi\) percorre os autovalores complexos de \(A\) e \(k\) é um inteiro não negativo menor que o tamanho do bloco correspondente.

Exemplo 13.24 (Um sistema de rotação)
Considere
\[ \bm {x}'=A\bm {x},\qquad A=\left[\begin{array}{rr}0& -1\\ 1& 0\end{array}\right],\qquad \bm {x}(0)=\left[\begin{array}{c}c_1\\ c_2\end{array}\right]. \]
Como \(A^2=-\operatorname {I}\), a separação dos termos pares e ímpares da série exponencial dá
\[ e^{tA}=\cos (t)\operatorname {I}+\sin (t)A =\left[\begin{array}{rr}\cos t& -\sin t\\ \sin t& \cos t\end{array}\right]. \]
Portanto,
\[ \bm {x}(t)= \left[\begin{array}{c} c_1\cos t-c_2\sin t\\ c_1\sin t+c_2\cos t \end{array}\right]. \]
Além de verificar concretamente a fórmula \(\bm {x}(t)=e^{tA}\bm {x}(0)\), o exemplo mostra que o fluxo preserva a norma euclidiana: as trajetórias são círculos centrados na origem.

Exercício 13.7

Resolva o problema

\[ x'(t)=\begin{bmatrix} -1 & 1 \\ 0 & -1 \end{bmatrix}x(t),\qquad x(0)=\begin{bmatrix} a \\ b \end{bmatrix}. \]

Determine o limite quando \(t\to +\infty \). Para \(a=0\) e \(b=1\), encontre o instante em que a primeira coordenada atinge seu máximo. Explique por que um sistema cujos autovalores têm parte real negativa pode apresentar crescimento temporário em uma coordenada.

Gabarito no Apêndice C, p. *.

Exercício 13.8

Para \(\alpha ,\omega \in \mathbb R\), resolva

\[ x'(t)=\begin{bmatrix} -\alpha & -\omega \\ \omega & -\alpha \end{bmatrix}x(t),\qquad x(0)=x_0. \]

Determine \(\| x(t)\| \) e descreva as trajetórias para \(\alpha \gt 0\), \(\alpha =0\) e \(\alpha \lt 0\), distinguindo também o caso \(\omega =0\). Como os autovalores explicam esses comportamentos?

Gabarito no Apêndice C, p. *.

Exercício 13.9

Sejam \(\alpha _1,\ldots ,\alpha _n\) reais distintos. Prove que as funções \(e^{\alpha _jt}\) são linearmente independentes em qualquer intervalo aberto. Relacione o resultado às soluções da equação \(\prod _{j=1}^n(D-\alpha _j)f=0\), onde \(D\) denota derivação.

Gabarito no Apêndice C, p. *.

Exercício 13.10

Para \(n\geq 3\), defina \(A:\mathbb {R}^n\to \mathbb {R}^n\) por \((Au)_j=u_{j-1}-2u_j+u_{j+1}\), com índices tomados módulo \(n\). Essa matriz aparece na discretização de \(u''=f\) com condições periódicas. Determine \(\ker A\), prove que \(A\) é singular e dê a condição necessária e suficiente para que \(Au=f\) seja solúvel. Descreva a liberdade nas soluções.

Gabarito no Apêndice C, p. *.

Exercício 13.11

Se \(f:\mathbb R\to \mathbb R^n\) é contínua e \(A\) é constante, prove que a única solução de \(x'=Ax+f(t)\), com \(x(0)=x_0\), é

\[ x(t)=e^{tA}x_0+\int _0^t e^{(t-s)A}f(s)\, ds. \]

Aplique a fórmula a \(A=\operatorname {diag}(1,-1)\), \(f(t)=(e^t,1)^T\) e \(x_0=0\). Explique a origem do fator \(t\) na primeira coordenada.

Gabarito no Apêndice C, p. *.


13.5 Teorema de Perron–Frobenius

Usaremos a seguinte forma finito-dimensional do Teorema do Ponto Fixo de Brouwer. Sua demonstração é topológica e foge ao escopo deste texto.

Teorema 13.25 (Ponto Fixo de Brouwer)
Toda aplicação contínua de um simplex compacto em si mesmo possui um ponto fixo.

Definição 13.26
Uma matriz \(A=(a_{ij})\in \mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {R})\) é positiva se \(a_{ij}\gt 0\) para todos \(i,j\), e é não negativa se \(a_{ij}\geq 0\). A mesma terminologia será usada para vetores, coordenada a coordenada.

O resultado seguinte caracteriza o autovalor dominante de uma matriz positiva.

Teorema 13.27 (Perron–Frobenius para matrizes positivas)
Se \(A\in \mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {R})\) é positiva, então existe \(r\gt 0\) tal que:
  1. \(r\) é autovalor de \(A\) e possui um autovetor positivo \(\bm {u}\);

  2. o autoespaço de \(r\) é unidimensional e \(r\) é uma raiz simples de \(c_A\);

  3. todo outro autovalor \(\lambda \in \mathbb {C}\) satisfaz \(|\lambda |\lt r\);

  4. todo autovetor não negativo está associado a \(r\).

Demonstração ▼

Considere o simplex \(\Delta =\{ \bm {x}\geq 0\, \mid \, \sum _i x_i=1\} \). A aplicação contínua

\[ F(\bm {x})=\frac{A\bm {x}}{\sum _i(A\bm {x})_i} \]

leva \(\Delta \) em si. Pelo Teorema 13.25, existe \(\bm {u}\in \Delta \) com \(F(\bm {u})=\bm {u}\). Assim, \(A\bm {u}=r\bm {u}\) para algum \(r\gt 0\); como \(A\) é positiva, \(\bm {u}\gt 0\).

Se \(A\bm {z}=\lambda \bm {z}\), escolha \(c=\max _i|z_i|/u_i\) e um índice \(i_0\) em que o máximo é atingido. Então

\[ |\lambda |c u_{i_0}=|(A\bm {z})_{i_0}|\leq \sum _j a_{i_0j}|z_j|\leq cr u_{i_0}, \]

logo \(|\lambda |\leq r\). Se houver igualdade, todas as desigualdades triangulares acima são igualdades. Como \(a_{ij}\gt 0\), todas as coordenadas de \(\bm {z}\) têm a mesma fase e \(\bm {z}\) é múltiplo complexo de \(\bm {u}\); em particular, \(\lambda =r\). Isso prova a dominância estrita e a unicidade do autoespaço.

Aplicando o argumento a \(A^{\mathrm{t}}\), obtemos um autovetor positivo à esquerda \(\bm {w}\), com \(\bm {w}^{\mathrm{t}}A=r\bm {w}^{\mathrm{t}}\). Se existisse um vetor generalizado \(\bm {y}\) com \((A-r\operatorname {I})\bm {y}=\bm {u}\), então \(0=\bm {w}^{\mathrm{t}}(A-r\operatorname {I})\bm {y}=\bm {w}^{\mathrm{t}}\bm {u}\gt 0\), contradição. Logo \(r\) é simples. Finalmente, se \(A\bm {z}=\lambda \bm {z}\) com \(\bm {z}\geq 0\) e \(\bm {z}\neq 0\), então

\[ \lambda \bm {w}^{\mathrm{t}}\bm {z}=\bm {w}^{\mathrm{t}}A\bm {z}=r\bm {w}^{\mathrm{t}}\bm {z}. \]

Como \(\bm {w}^{\mathrm{t}}\bm {z}\gt 0\), segue que \(\lambda =r\).

Exercício 13.12

Seja \(A\) uma matriz real com entradas estritamente positivas, e seja \(r\) sua raiz de Perron.

  1. Para qualquer vetor \(x\gt 0\), prove que

    \[ \min _i\frac{(Ax)_i}{x_i}\leq r\leq \max _i\frac{(Ax)_i}{x_i}. \]

    Quando pode ocorrer igualdade em uma das extremidades? Deduza limites usando as somas das linhas de \(A\).

  2. Se \(B\geq A\) entrada a entrada e \(B\neq A\), prove que sua raiz de Perron satisfaz \(r(B)\gt r(A)\).

Gabarito no Apêndice C, p. *.

Exercício 13.13

Para uma matriz positiva \(A\), sejam \(Au=ru\) e \(w^TA=rw^T\), com \(u,w\gt 0\). Prove que

\[ \lim _{k\to \infty }r^{-k}A^k=\frac{uw^T}{w^Tu}. \]

Calcule \(r,u,w\) e esse limite para \(A=\begin{bmatrix} 3 & 4 \\ 1 & 3 \end{bmatrix}\). Para \(x_0\geq 0\), \(x_0\neq 0\), determine o limite das proporções \(A^kx_0/(\mathbf1^TA^kx_0)\) e interprete a diferença entre a taxa de crescimento e a distribuição limite.

Gabarito no Apêndice C, p. *.

Exercício 13.14

Analise as matrizes não negativas

\[ B=\begin{bmatrix} 0 & 2 \\ 1/2 & 0 \end{bmatrix},\qquad C=\begin{bmatrix} 2 & 0 \\ 0 & 1 \end{bmatrix}. \]

Determine seus raios espectrais e autovetores não negativos associados. Mostre que \(r(B)^{-k}B^k\) não converge e que \(C\) não possui autovetor estritamente positivo para seu raio espectral. Explique quais conclusões do teorema para matrizes positivas falham nesses exemplos. O que acontece com a dominância espectral de \(B+\varepsilon I\), para \(\varepsilon \gt 0\)?

Gabarito no Apêndice C, p. *.


13.6 Matrizes Estocásticas

Definição 13.28
Uma matriz \(A=(a_{ij})\in \mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {R})\) é estocástica por linhas se \(a_{ij}\geq 0\) e \(\sum _j a_{ij}=1\) para todo \(i\). Ela é regular ou primitiva se \(A^m\) é positiva para algum \(m\geq 1\).

Proposição 13.29
Se \(A\) é estocástica por linhas, então \(1\) é autovalor de \(A\) e todo autovalor \(\lambda \) satisfaz \(|\lambda |\leq 1\).

Demonstração ▼

Para \(\boldsymbol {1}=(1,\ldots ,1)^{\mathrm{t}}\), temos \(A\boldsymbol {1}=\boldsymbol {1}\). Se \(A\bm {z}=\lambda \bm {z}\) e \(|z_{i_0}|=\max _i|z_i|\), então

\[ |\lambda ||z_{i_0}|=\left|\sum _j a_{i_0j}z_j\right|\leq \sum _j a_{i_0j}|z_j|\leq |z_{i_0}|. \]

Como \(\bm {z}\neq 0\), segue que \(|\lambda |\leq 1\).

Teorema 13.30 (Convergência de matrizes estocásticas regulares)
Se \(A\) é estocástica por linhas e regular, então \(1\) é um autovalor simples, todos os demais autovalores têm módulo menor que \(1\) e existe um único vetor positivo \(\boldsymbol {\pi }\) tal que
\[ A^{\mathrm{t}}\boldsymbol {\pi }=\boldsymbol {\pi },\qquad \sum _i\pi _i=1. \]
Além disso,
\[ \lim _{k\to \infty }A^k=\boldsymbol {1}\boldsymbol {\pi }^{\mathrm{t}}, \]
uma matriz estocástica positiva cujas linhas são todas iguais a \(\boldsymbol {\pi }^{\mathrm{t}}\).

Demonstração ▼

Escolha \(m\) com \(A^m\gt 0\). A matriz \(A^m\) também é estocástica, logo seu autovalor de Perron é \(1\). Pelo Teorema 13.27, ele é simples e domina estritamente os demais autovalores de \(A^m\). Se \(A\bm {v}=\lambda \bm {v}\), então \(A^m\bm {v}=\lambda ^m\bm {v}\). Assim, ou \(|\lambda |\lt 1\), ou \(|\lambda |=1\) e necessariamente \(\lambda ^m=1\). Neste último caso, \(\bm {v}\) pertence ao autoespaço de \(A^m\) associado a \(1\), que é unidimensional e gerado por \(\boldsymbol {1}\). Como \(A\boldsymbol {1}=\boldsymbol {1}\), segue que \(\lambda =1\). Portanto, \(1\) é o único autovalor de \(A\) no círculo unitário. A simplicidade de \(1\) para \(A^m\) também exclui blocos de Jordan não triviais para \(1\) em \(A\).

Aplicando Perron–Frobenius a \((A^{\mathrm{t}})^m\), obtemos o vetor positivo \(\boldsymbol {\pi }\), único após a normalização indicada. Na forma de Jordan complexa de \(A\), o bloco associado a \(1\) é \([1]\) e todos os demais blocos tendem a zero quando elevados à \(k\)-ésima potência. Assim, \(A^k\) converge para a projeção espectral sobre \(\langle \boldsymbol {1}\rangle \) ao longo de \(\ker (\boldsymbol {\pi }^{\mathrm{t}})\), que é precisamente \(\boldsymbol {1}\boldsymbol {\pi }^{\mathrm{t}}\).

Nestes exercícios, usamos matrizes estocásticas por colunas, para que os vetores de probabilidades sejam colunas e evoluam por \(x_{k+1}=Px_k\). Essa convenção se obtém transpondo as matrizes estocásticas por linhas definidas nesta seção.


Exercício 13.15

Escreva uma matriz estocástica por colunas de ordem dois como \(P=\begin{bmatrix} 1-a & b \\ a & 1-b \end{bmatrix}\), com \(a,b\in [0,1]\). Determine todos os seus estados estacionários de probabilidades, incluindo o caso \(a=b=0\).

Gabarito no Apêndice C, p. *.

Exercício 13.16

Defina \(\operatorname {conv}(B)\) como o conjunto das combinações convexas finitas de pontos de \(B\).

  1. Prove que \(B\) é convexo se, e somente se, \(B=\operatorname {conv}(B)\); que \(A\subseteq B\) implica \(\operatorname {conv}(A)\subseteq \operatorname {conv}(B)\); e que \(\operatorname {conv}(A)\cup \operatorname {conv}(B)\subseteq \operatorname {conv}(A\cup B)\). A última inclusão é sempre igualdade? Se \(B\) é convexo e contém \(A\), precisa ser \(B=\operatorname {conv}(A)\)?

  2. Mostre que \(\operatorname {conv}\{ e_1,\ldots ,e_n\} =\Delta ^{n-1}=\{ x\geq 0:\sum _ix_i=1\} \).

  3. Para uma matriz estocástica por colunas \(P\), prove que \(\mathbf1^TP=\mathbf1^T\) e \(P\Delta ^{n-1}\subseteq \Delta ^{n-1}\). Prove que produtos e potências não negativas de matrizes estocásticas são estocásticos.

Gabarito no Apêndice C, p. *.

Exercício 13.17

Seja \(P\) estocástica por colunas.

  1. Prove que \(\| Px\| _1\leq \| x\| _1\) para \(x\in \mathbb {C}^n\) e deduza \(|\lambda |\leq 1\) para todo autovalor.

  2. Para \(x\in \mathbb {R}^n\), determine quando ocorre igualdade na desigualdade acima em termos dos sinais das parcelas \(p_{ij}x_j\) em cada linha. Dê um exemplo com sinais diferentes e igualdade.

  3. Prove que existe \(v\neq 0\) real com \(Pv=v\). Mostre que \(P|v|=|v|\), onde o módulo é tomado componente a componente, e obtenha um vetor estacionário de probabilidades.

Gabarito no Apêndice C, p. *.

Exercício 13.18

Considere \(P=\frac1{10}\begin{bmatrix} 7 & 1 & 3 \\ 2 & 8 & 3 \\ 1 & 1 & 4 \end{bmatrix}\) e \(x_0=(1,8,1)^T/10\). Determine o estado estacionário de probabilidades, prove a convergência de \(x_k=P^kx_0\) e obtenha uma fórmula explícita para \(x_k\).

Gabarito no Apêndice C, p. *.

Exercício 13.19

Construa matrizes estocásticas por colunas que apresentem, respectivamente: multiplicidade algébrica do autovalor um maior que um; um autovalor negativo; singularidade; ausência de diagonalização; e regularidade com singularidade. Aqui regularidade significa que alguma potência tem todas as entradas estritamente positivas.

Gabarito no Apêndice C, p. *.