Capítulo 3

Decomposições e Coordenadas

Passamos agora da estrutura interna de um espaço vetorial às formas de organizá-lo e representá-lo. Começaremos pelas somas e decomposições em subespaços; em seguida, uma escolha de base permitirá introduzir coordenadas e mudanças de base. O capítulo termina com bandeiras, que organizam subespaços por inclusão e os relacionam a bases adaptadas.

3.1 Soma de Subespaços

O conjunto \(\mathcal{S}\left(V\right)\) de todos os subespaços de \(V\) é parcialmente ordenado pela inclusão. Nessa ordem, \(\{ \vec0\} \) é o menor elemento e \(V\) é o maior. Essa estrutura de ordem motiva as construções seguintes.

Se \(S,T\in \mathcal{S}\left(V\right)\), então \(S\cap T\) é o maior subespaço contido simultaneamente em \(S\) e \(T\). Mais geralmente, a interseção de uma família \(\{ S_i\, \mid \, i\in I\} \) é seu maior limite inferior:

\[ \inf \{ S_{i} \, \mid \, i \in I \} = \bigcap _{i \in I} S_{i} \]

Para determinar o menor subespaço de \( V \) contendo os subespaços \( S \) e \( T \), fazemos a seguinte definição.

Definição 3.1 (Soma)
Se \(S\) e \(T\) são subespaços de \(V\), sua soma é o conjunto
\[ S+T \mathrel {\mathop:\! =}\{ \bm {x}+\bm {y}\, \mid \, \bm {x}\in S, \ \bm {y}\in T \} \]
Para uma família \(\{ S_i\, \mid \, i\in I\} \), definimos sua soma como o conjunto de todas as somas finitas com uma parcela em cada subespaço escolhido:

\[ \sum _{i\in I}S_i\mathrel {\mathop:\! =}\{ \bm {x}_{i_1}+\cdots +\bm {x}_{i_r}\, \mid \, r\geq 0,\ i_1,\ldots ,i_r\in I,\ \bm {x}_{i_j}\in S_{i_j}\} . \]

Proposição 3.2
Dada uma coleção \(\{ S_i\, \mid \, i\in I\} \) de subespaços de \(V\), as condições seguintes são equivalentes:
  1. \(W\) é o menor subespaço que contém \(S_i\) para todo \(i\in I\);

  2. \(W=\langle \bigcup \{ S_{i} \, \mid \, i \in I \} \rangle \)

  3. \(W=\sum _{i \in I} S_{i} \)

A equivalência decorre diretamente da caracterização de \(\langle S\rangle \) como o conjunto das combinações lineares finitas de elementos de \(S\).

3.1.1 Soma Direta

Uma soma direta descreve um espaço por componentes independentes: cada vetor se decompõe de maneira única em parcelas pertencentes aos subespaços dados.

Somas Diretas Internas

Definição 3.3 (Soma Direta)

Seja \(V\) um espaço vetorial e seja \(\mathcal S=\{ S_i\, \mid \, i\in I\} \) uma família de subespaços. Dizemos que \(V\) é a soma direta interna dessa família se todo vetor \(\bm {v}\in V\) possui uma única representação como soma finita

\[ \bm {v}=\bm {v}_{i_1}+\cdots +\bm {v}_{i_r}, \qquad \bm {v}_{i_j}\in S_{i_j}, \]

depois de desconsiderar parcelas nulas e a ordem das parcelas.

Se \( V \) é a soma direta de \( \mathcal{S} \), escrevemos

\[ V = \bigoplus _{i \in I} S_{i}. \]

Se \( \mathcal{S} = \{ S_{1}, \ \ldots , \ S_{n} \} \) é uma família finita, podemos denotar a soma direta como

\[ V = S_{1} \oplus \cdots \oplus S_{n} \]

Uma soma é direta se, e somente se, toda igualdade \(\bm {u}_{i_1}+\cdots +\bm {u}_{i_r}=\vec0\), com índices distintos e \(\bm {u}_{i_j}\in S_{i_j}\), implica \(\bm {u}_{i_j}=\vec0\) para todo \(j\). Em outras palavras, basta verificar a unicidade da representação do vetor nulo. Essa afirmação motiva a seguinte definição e a próxima proposição.

Definição 3.4 (Espaços Independentes)
Uma família finita \(\{ S_1,\ldots ,S_k\} \) de subespaços de \(V\) é independente se \(\bm {s}_1+\cdots +\bm {s}_k=\vec0\), com \(\bm {s}_i\in S_i\), implica \(\bm {s}_i=\vec0\) para todo \(i\).

Assim, para subespaços \(S_1,\ldots ,S_k\) de \(V\), a igualdade \(V=S_1\oplus \cdots \oplus S_k\) vale se, e somente se,

  1. \( V = S_{1}+\cdots +S_{k} \) e

  2. a família \(\{ S_1,\ldots ,S_k\} \) é independente.

A seguinte caracterização de somas diretas é bastante útil.

Teorema 3.5
Um espaço vetorial \( V \) é a soma direta de uma família \( \mathcal{S} = \{ S_{i} \, \mid \, i \in I \} \) de subespaços se, e somente se,
  1. \( V \) é a soma dos \( S_{i} \), \( V = \sum _{i \in I} S_{i} \)

  2. Para cada \( i \in I, \) \( S_{i} \cap (\sum _{j \neq i} S_{j}) = \{ \vec0 \} \)

Demonstração ▼

Suponha primeiro que \( V \) seja a soma direta de \( \mathcal{S} \). Então a é verdadeiro e se

\[ \bm {v}\in S_{i} \cap (\sum _{j \neq i} S_{j}) \]

então \( \bm {v}= \bm {s}_{i} \) para algum \( \bm {s}_{i} \in S_{i} \) e

\[ \bm {v}= \bm {s}_{j_{1}}+\cdots +\bm {s}_{j_{n}} \]

onde \( \bm {s}_{j_{k}} \in S_{j_{k}} \) e \( j_{k} \neq i \) para todos os \( k = 1, \ldots , n \). Portanto, pela unicidade das representações de soma direta, \( \bm {s}_{i} = 0 \) e, portanto, \( \bm {v}= 0 \). Logo demonstramos b.

Para a recíproca, suponha que a e b sejam válidos. Precisamos apenas verificar a condição de unicidade

\begin{align} \bm {v}& = \bm {s}_{j_{1}}+\cdots +\bm {s}_{j_{n}} \quad \text{ e } \tag{3.1} \\ \bm {v}& = \bm {t}_{k_{1}}+\cdots +\bm {t}_{k_{m}} \tag{3.2} \end{align}

onde \(\bm {s}_{j_i}\in S_{j_i}\) e \(\bm {t}_{k_i}\in S_{k_i}\). Acrescentando parcelas nulas, podemos supor que os conjuntos de índices das duas representações coincidem, digamos, com \(\{ i_1,\ldots ,i_p\} \); assim,

\begin{align} \bm {v}& = \bm {s}_{i_{1}}+\cdots +\bm {s}_{i_{p}} \quad \text{ e } \tag{3.3} \\ \bm {v}& = \bm {t}_{i_{1}}+\cdots +\bm {t}_{i_{p}} \tag{3.4} \end{align}

A diferença das duas igualdades fornece \((\bm {s}_{i_1}-\bm {t}_{i_1})+\cdots +(\bm {s}_{i_p}-\bm {t}_{i_p})=\vec0\). Para cada \(u\), temos

\[ \bm {s}_{i_u}-\bm {t}_{i_u} =-\sum _{v\neq u}(\bm {s}_{i_v}-\bm {t}_{i_v}) \in S_{i_u}\cap \sum _{j\neq i_u}S_j=\{ \vec0\} . \]

Logo \(\bm {s}_{i_u}=\bm {t}_{i_u}\) para todo \(u\), o que prova a unicidade.

Se tivermos apenas dois subespaços \( \{ W_{1}, \ W_{2} \} \), essa condição simplesmente indicará \( W_{1} \cap W_{2} = \{ \vec0\} \). Se tivermos mais de dois subespaços, essa condição é mais forte que a condição \( W_{i} \cap W_{j} = \{ \vec0\} \) para \( i \neq j \).

Exemplo 3.6

Suponha que \(\operatorname {char}(\mathbb {K})\) não divida \(n\). Seja \(\mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K})\) o espaço vetorial das matrizes \(n\times n\) com entradas em \(\mathbb {K}\), seja \(\mathfrak {sl}_n(\mathbb {K})\) o subespaço das matrizes de traço zero e seja \(D=\langle \operatorname {I}_n\rangle \).

Como \(\operatorname {tr}(\lambda \operatorname {I}_n)=n\lambda \), temos \(\mathfrak {sl}_n(\mathbb {K})\cap D=\{ \vec0\} \). Para qualquer \(A\in \mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K})\), defina \(\alpha =\operatorname {tr}(A)/n\) e \(B=A-\alpha \operatorname {I}_n\). Então \(\operatorname {tr}(B)=0\) e \(A=B+\alpha \operatorname {I}_n\). Portanto, \(\mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K})=\mathfrak {sl}_n(\mathbb {K})\oplus D\).

Exemplo 3.7

Suponha que \(\operatorname {char}(\mathbb {K})\ne 2\). Toda matriz \( A \in \mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K})\) pode ser decomposta como

\begin{equation} A = \displaystyle \frac{1}{2} (A+A^{\mathrm{t}})+\frac{1}{2} (A- A^{\mathrm{t}}) = B+C \tag{3.5} \end{equation}

onde \(A^{\mathrm{t}}\) é a transposta de \(A\). A matriz \(B\) é simétrica e \(C\) é antissimétrica; assim, \(A\) é a soma de uma matriz simétrica e uma matriz antissimétrica.

Como os conjuntos \(\operatorname {Sim}_{n,n}\) e \(\operatorname {ASim}_{n,n}\) de todas as matrizes simétricas e antissimétricas em \(\mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K})\) são subespaços de \(\mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K})\), temos que

\[ \mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K}) = \operatorname {Sim}_{n,n}+\operatorname {ASim}_{n,n} \]

Além disso, se \( S+T = S '+ T' \), onde \( S \) e \( S '\) são simétricas e \( T \) e \( T' \) são antissimétricas, então a matriz

\[ U = S-S '= T'-T \]

é simétrica e antissimétrica. Como \(\operatorname {char}(\mathbb {K})\ne 2\), devemos ter \(U=0\) e, portanto, \(S=S'\) e \(T=T'\). Assim, a soma é direta:

\[ \mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K})= \operatorname {Sim}_{n,n} \oplus \operatorname {ASim}_{n,n} \]

3.1.2 Decomposição em Somas Diretas

Proposição 3.8

Sejam \(W_1,\ldots ,W_k\) subespaços de \(V\), seja \(\underline{\textsc{B}}_i\) uma base de \(W_i\) e seja \(\underline{\textsc{B}}=(\underline{\textsc{B}}_1,\ldots ,\underline{\textsc{B}}_k)\) a família concatenada, na qual vetores repetidos em bases distintas são contados com repetição. Então

  1. \( \underline{\textsc{B}}\) gera \( V \) se, e somente se, \( V = W_{1}+\cdots +W_{k}.\)

  2. \( \underline{\textsc{B}}\) é linearmente independente, como família, se, e somente se, \( \{ W_{1}, \ \ldots \ , \ W_{k} \} \) for independente.

  3. \( \underline{\textsc{B}}\) é uma base para \( V \) se, e somente se, \( V = W_{1} \oplus \cdots \oplus W_{k}.\)

A demonstração da proposição é proposta como exercício.

Corolário 3.9
Seja \(V\) um espaço vetorial de dimensão finita. Se \(V=W_1\oplus \cdots \oplus W_k\), então \(\dim V=\dim W_1+\cdots +\dim W_k\).

A reunião de bases das parcelas é uma base de \(V\); contar seus elementos prova o corolário.

Definição 3.10 (Complemento)
Se \(W_1\) é um subespaço de \(V\), dizemos que \(W_2\) é um complemento de \(W_1\) quando \(V=W_1\oplus W_2\).

Teorema 3.11

Seja \(V\) um espaço vetorial e seja \(W\) um subespaço de \(V\). Então \(W\) possui um complemento \(W'\). Além disso, \(\dim V=\dim W+\dim W'\).

Demonstração ▼

Seja \(\underline{\textsc{B}}\) uma base de \(W\). Pelo Teorema 2.43, existe uma base \(\underline{\textsc{B}}'\) de \(V\) tal que \(\underline{\textsc{B}}\subseteq \underline{\textsc{B}}'\). Defina \(W'=\langle \underline{\textsc{B}}'\setminus \underline{\textsc{B}}\rangle \). A reunião das duas bases gera \(V\) e é linearmente independente; portanto, \(V=W\oplus W'\). Como \(\underline{\textsc{B}}'=\underline{\textsc{B}}\mathbin {\dot\cup }(\underline{\textsc{B}}'\setminus \underline{\textsc{B}})\), a igualdade de cardinais \(\dim V=\dim W+\dim W'\) também segue, inclusive em dimensão infinita.

Observação 3.12
O subespaço \(W'\) construído no Teorema 3.11 é chamado um complemento de \(W\) em \(V\). Em geral, o complemento não é único, embora todos os complementos sejam isomorfos. Nos casos extremos, se \(W=\{ \vec0\} \), o único complemento é \(V\); se \(W=V\), o único complemento é \(\{ \vec0\} \).

Teorema 3.13
Se \(V\) tem dimensão finita e \(W_1,W_2\) são subespaços de \(V\), então
\[ \dim (W_{1}+W_{2})+\dim (W_{1} \cap W_{2}) = \dim W_{1}+\dim W_{2}. \]

Demonstração ▼

Seja \( \underline{\textsc{B}}_{0} = \{ \bm {x}_{1}, \ldots , \bm {x}_{n} \} \) uma base de \( W_{1} \cap W_{2} \). No caso particular em que \( W_{1} \cap W_{2} = (0) \), faremos \( \underline{\textsc{B}}_{0}=\emptyset \). Pelo Teorema da Extensão 2.43, podemos completar \( \underline{\textsc{B}}_{0} \) para uma base \( \underline{\textsc{B}}_{1} = \{ \bm {x}_{1}, \ldots , \bm {x}_{n} , \bm {y}_{1}, \ldots , \bm {y}_{m} \} \) de \( W_{1} \). De modo análogo, podemos completar \( \underline{\textsc{B}}_{0} \) para uma base \( \underline{\textsc{B}}_{2} = \{ \bm {x}_{1}, \ldots , \bm {x}_{n }, \vec{z}_{1}, \dots , \vec{z}_{p} \} \) de \( W_{2} \). Assim, \( \dim W_{1} \cap W_{2} = n, \dim W_{1} = n+m, \) e \( \dim W_{2} = n+p \).

Afirmamos que \( \underline{\textsc{B}}= \{ \bm {x}_{1}, \ldots , \bm {x}_{n}, \bm {y}_{1}, \ldots , \bm {y}_{m}, \vec{z}_{1}, \dots , \vec{z}_{p} \} \) é uma base de \( W_{1}+W_{2} \). Claramente \( \langle \underline{\textsc{B}}\rangle = W_{1}+W_{2} \).

Resta provar que \(\underline{\textsc{B}}\) é linearmente independente. Suponha que

\[ \sum _{i=1}^n x_i\bm {x}_i+ \sum _{i=1}^m y_i\bm {y}_i+ \sum _{i=1}^p z_i\bm {z}_i=\vec0. \]

Então

\[ \sum _{i=1}^p z_i\bm {z}_i =-\sum _{i=1}^n x_i\bm {x}_i-\sum _{i=1}^m y_i\bm {y}_i. \]

Comparando ambos os lados da equação temos que \( \displaystyle \sum _{i=1}^{p} z_{i} \vec{z}_{i} \in W_{1} \cap W_{2} = \langle \{ \bm {x}_{1}, \ldots , \bm {x}_{n} \} \rangle \). Logo podemos escrever \(\displaystyle \sum _{i=1}^{p} z_{i} \vec{z}_{i}\) como:

\[ \displaystyle \sum _{i=1}^{p} z_{i} \vec{z}_{i} = \displaystyle \sum _{i=1}^{n} w_{i} \vec{x}_{i} \]

Como \(\underline{\textsc{B}}_2\) é uma base de \(W_2\), comparar essa expressão com \(\sum _{i=1}^n w_i\bm {x}_i\) fornece \(z_1=\cdots =z_p=0\). A relação original se reduz a \(\sum _{i=1}^n x_i\bm {x}_i+\sum _{i=1}^m y_i\bm {y}_i=\vec0\); como \(\underline{\textsc{B}}_1\) é uma base de \(W_1\), todos os coeficientes \(x_i\) e \(y_i\) também são nulos.

Logo \(\underline{\textsc{B}}\) é uma base de \(W_1+W_2\), de modo que \(\dim (W_1+W_2)=n+m+p\). Substituir as quatro dimensões obtidas conclui a prova.

O Teorema 3.13 continua válido em dimensão infinita quando as dimensões são entendidas como cardinais. Nesse caso, entretanto, a aritmética cardinal pode ocultar parte da informação geométrica: a soma de dois cardinais infinitos é igual ao maior deles.

O mesmo argumento fornece uma estimativa para a interseção de uma família finita de subespaços.

Corolário 3.14
Seja \(V\) um espaço vetorial de dimensão \(n\) e sejam \(W_1,\ldots ,W_k\) subespaços de \(V\). Para \(i=1,\ldots ,k\), defina \(c_i=n-\dim W_i\). Então
  • \(\displaystyle \dim (W_1\cap \cdots \cap W_k) =n-\sum _{i=1}^k c_i +\sum _{j=1}^{k-1}\left[n-\dim \bigl((W_1\cap \cdots \cap W_j)+W_{j+1}\bigr)\right];\)

  • \(\displaystyle \dim (W_1\cap \cdots \cap W_k) \geq n-\sum _{i=1}^k c_i;\)

  • \(\displaystyle \dim (W_1\cap \cdots \cap W_k) =n-\sum _{i=1}^k c_i\) se, e somente se, para todo \(i=1,\ldots ,k\),

    \[ W_{i}+(\bigcap _{j \neq i} W_{j}) = V \]

Demonstração ▼

Ponha \(U_j=W_1\cap \cdots \cap W_j\). O Teorema 3.13, aplicado a \(U_j\) e \(W_{j+1}\), fornece

\[ \dim U_{j+1}=\dim U_j+\dim W_{j+1} -\dim (U_j+W_{j+1}). \]

Iterando essa identidade, obtemos o primeiro item. Cada parcela entre colchetes é não negativa, o que prova o segundo.

A igualdade no segundo item equivale a \(\operatorname {codim}(W_1\cap \cdots \cap W_k)=\sum _i\operatorname {codim}W_i\). Ela ocorre exatamente quando cada \(W_i\) é transversal à interseção dos demais, isto é, quando \(W_i+\bigcap _{j\neq i}W_j=V\). Essa equivalência também resulta da fórmula de dimensões do Teorema 3.13, aplicada a cada um desses pares.

3.2 Soma Direta Externa

Se \( V \) e \( W \) forem espaços vetoriais sobre um corpo \( \mathbb {K}\), o produto cartesiano

\[ V \times W = \{ (\bm {v}, \ \bm {w}): \bm {v}\in V, \ \bm {w}\in W \} \]

pode ser munido de uma estrutura de espaço vetorial definindo as operações

\begin{align} (\bm {v}_{1}, \ \bm {w}_{1})+(\bm {v}_{2}, \ \bm {w}_{2}) & \mathrel {\mathop:\! =}(\bm {v}_{1}+\bm {v}_{2}, \ \bm {w}_{1}+\bm {w}_{2}) \tag{3.6} \\ \lambda (\bm {v}, \ \bm {w}) & \mathrel {\mathop:\! =}(\lambda \bm {v}, \ \lambda \bm {w}) \ . \tag{3.7} \end{align}

O produto cartesiano \(V\times W\), munido dessas operações, é denominado soma direta externa de \(V\) e \(W\).

A construção se estende a qualquer família finita.

Definição 3.15 (Soma Direta Externa)

Sejam \(V_1,\ldots ,V_n\) espaços vetoriais sobre \(\mathbb {K}\). Sua soma direta externa, denotada por \(V_1\boxplus \cdots \boxplus V_n\), é o produto cartesiano \(V_1\times \cdots \times V_n\) munido das operações coordenada a coordenada. Seus elementos são as ênuplas ordenadas

\[ V_{1} \boxplus \cdots \boxplus V_{n} = \{ (\bm {x}_{1}, \ \ldots , \ \bm {x}_{n}) \, \mid \, \bm {x}_{i} \in V_{i}, \ i = 1, \ \ldots , \ n \} \]

e as operações são

\begin{align} (\bm {y}_{1}, \ \ldots , \ \bm {y}_{n}) +(\bm {x}_{1}, \ \ldots , \ \bm {x}_{n}) & \mathrel {\mathop:\! =}(\bm {y}_{1} +\bm {x}_{1}, \ \ldots , \ \bm {y}_{ n}+\bm {x}_{n}) \tag{3.8} \\ \lambda (\bm {x}_{1}, \ \dots , \ \bm {x}_{n}) & \mathrel {\mathop:\! =}(\lambda \bm {x}_{1}, \ \dots , \ \lambda \bm {x}_{n}) \tag{3.9} \end{align}

Exemplo 3.16
O espaço vetorial \(\mathbb {K}^n\) é naturalmente isomorfo à soma direta externa de \(n\) cópias de \(\mathbb {K}\):
\[ \mathbb {K}^{n} = \mathbb {K}\boxplus \cdots \boxplus \mathbb {K} \]

Essa construção pode ser generalizada a uma família arbitrária de espaços vetoriais. Representaremos seus elementos por famílias \((v_i)_{i\in I}\), com \(v_i\in V_i\), sem atribuir uma estrutura vetorial à união dos \(V_i\).

Definição 3.17 (Produto Direto)
Seja \(\mathcal{F}=\{ V_i\, \mid \, i\in I\} \) uma família de espaços vetoriais sobre \(\mathbb {K}\). O produto direto da família é
\[ \prod _{i\in I}V_i\mathrel {\mathop:\! =}\{ (v_i)_{i\in I}\, \mid \, v_i\in V_i\text{ para todo }i\in I\} , \]
com adição e multiplicação por escalares definidas coordenada a coordenada.

Será mais útil restringir o conjunto de funções àquelas com suporte finito.

Definição 3.18 (Suporte)
Seja \(\mathcal{F}=\{ V_i\, \mid \, i\in I\} \) uma família de espaços vetoriais sobre \(\mathbb {K}\). O suporte de \(v=(v_i)_{i\in I}\in \prod _{i\in I}V_i\) é o conjunto
\[ \mathrm{suporte}(v)\mathrel {\mathop:\! =}\{ i\in I\, \mid \, v_i\ne 0\} . \]

Assim, uma família tem suporte finito quando apenas um número finito de suas coordenadas é não nulo.

Definição 3.19 (Soma Direta Externa)
A soma direta externa da família \(\mathcal F\) é o subespaço do produto direto dado por
\[ \bplus _{i\in I}V_i\mathrel {\mathop:\! =}\{ (v_i)_{i\in I}\in \prod _{i\in I}V_i\, \mid \, \mathrm{suporte}(v)\text{ é finito}\} . \]
Um caso especial importante ocorre quando \(V_i=V\) para todo \(i\in I\). Se \(V^I\) denota o conjunto das funções de \(I\) em \(V\) e \((V^I)_0\) o subconjunto das funções de suporte finito, então

\[ \displaystyle \prod _{i \in I} V = V^{I} \qquad \text{ e } \qquad \displaystyle \bplus _{i \in I} V = (V^{I})_{0} \]

Observe que o produto direto e a soma direta externa são os mesmos para uma família de espaços vetoriais finita.

Exemplos 3.20
O espaço vetorial \(\mathbb {K}^{\infty }\) é produto direto de \(\mathbb {K}\) e \((\mathbb {K}^{\infty })_0\) é soma direta externa:
\[ \mathbb {K}^{\infty }=\prod _{i \in \mathbb {N}} \mathbb {K}\quad \text{ e } \quad (\mathbb {K}^{\infty })_0= \bplus _{i \in \mathbb {N}} \mathbb {K} \]

Exercício 3.1

Mostre que, se \(U\subseteq S\), então

\[ S\cap (T+U)=(S\cap T)+U \]

Essa propriedade é denominada lei modular do reticulado \(\mathcal{S}(V)\).

Exercício 3.2

Para quais espaços vetoriais a lei distributiva de subespaços

\[ S\cap (T+U)=(S\cap T)+(S\cap U) \]

é verdadeira? Determine, portanto, quando o reticulado de subespaços é distributivo.

Exercício 3.3
Sejam \(S\subseteq V\) e \(\bm {x},\bm {y}\in V\). Suponha que \(\bm {y}\in \langle S\cup \{ \bm {x}\} \rangle \) mas \(\bm {y}\notin \langle S\rangle \). Mostre que
\[ \bm {x}\in \langle S\cup \{ \bm {y}\} \rangle . \]

Exercício 3.4

Sejam \(L_1,\ldots ,L_r\) subespaços de dimensão finita de \(V\).

  1. Verifique a comutatividade e a associatividade da soma de subespaços e identifique seu elemento neutro.

  2. Prove \(\dim (L_1+L_2)=\dim L_1+\dim L_2-\dim (L_1\cap L_2)\).

  3. Prove \(\dim (L_1+\cdots +L_r)\leq \sum _i\dim L_i\) e caracterize o caso de igualdade.

Gabarito no Apêndice C, p. *.

Exercício 3.5

Seja \(V\) um espaço vetorial e sejam \(W_1,\ldots ,W_k\) subespaços de \(V\). Para cada \(i\), seja \(\underline{\textsc{B}}_i\) uma base de \(W_i\) e ponha \(\underline{\textsc{B}}=\bigcup _{i=1}^k\underline{\textsc{B}}_i\). Mostre que:

  1. \( \underline{\textsc{B}}\) gera \( V \) se, e somente se, \( V = W_{1}+\cdots +W_{k}.\)

  2. \( \underline{\textsc{B}}\) é linearmente independente se, e somente se, \( \{ W_{1}, \ \ldots \ , \ W_{k} \} \) for independente.

  3. \( \underline{\textsc{B}}\) é uma base para \( V \) se, e somente se, \( V = W_{1} \oplus \cdots \oplus W_{k}.\)

Exercício 3.6

Seja \(V\) um espaço vetorial de dimensão \(n\) e sejam \(W_1,\ldots ,W_k\) subespaços, com \(n_i=\dim W_i\).

  1. Se \( n_{1}+\cdots +n_{k}\gt n \), então \( \{ W_{1}, \ \ldots \ , \ W_{k} \} \) não é independente.

  2. Se \( n_{1}+\cdots +n_{k} \lt n \), então \( V \neq W_{1}+\cdots +W_{k}.\)

  3. Se \(n_1+\cdots +n_k=n\), prove que são equivalentes:

    1. \( V = W_{1} \oplus \cdots \oplus W_{k}.\)

    2. \( V = W_{1}+\cdots +W_{k} \)

    3. \( \{ W_{1}, \ \ldots \ , \ W_{k} \} \) é independente.

Exercício 3.7

Seja \(V\) um espaço vetorial de dimensão finita e sejam \(W_1,\ldots ,W_k\) subespaços tais que \(V=W_1\oplus \cdots \oplus W_k\). Prove que \(\dim V=\dim W_1+\cdots +\dim W_k\).

Exercício 3.8

Encontre um subespaço complementar a \(L_3=\{ p(x)\in \mathbb {K}_n[x]:p(1)=0\} \) em \(\mathbb {K}_n[x]\).

Exercício 3.9

Seja \(V\) um espaço vetorial de dimensão finita \(n\) e sejam \(W_1,\ldots ,W_k\) subespaços de \(V\). Para \(1\leq i\leq k\), defina \(c_i=n-\dim W_i\). Mostre que:

  1. \[ \dim (W_1\cap \cdots \cap W_k) =n-\sum _{i=1}^k c_i +\sum _{j=1}^{k-1}\left[n-\dim \bigl((W_1\cap \cdots \cap W_j)+W_{j+1}\bigr)\right]. \]
  2. \( \displaystyle \dim (W_{1} \cap \cdots \cap W_{k}) \geq n - \sum _{i = 1}^{k} c _{i}.\)

  3. A igualdade \(\displaystyle \dim (W_1\cap \cdots \cap W_k) =n-\sum _{i=1}^k c_i\) vale se, e somente se, para todo \(i=1,\ldots ,k\),

    \[ W_{i}+(\bigcap _{j \neq i} W_{j}) = V \]

Exercício 3.10

Em \(\mathcal P_n(\mathbb {K})\), defina \(E=\{ p:p(-x)=p(x)\} \) e \(O=\{ p:p(-x)=-p(x)\} \). Prove que são subespaços e que, se \(\operatorname {char}\mathbb {K}\neq 2\), \(\mathcal P_n=E\oplus O\). Explicite as projeções, as bases e as dimensões. Descreva o que ocorre em característica \(2\). Por fim, obtenha a decomposição análoga do espaço \(\mathcal F(\mathbb {R},\mathbb {R})\) em funções pares e ímpares.

Gabarito no Apêndice C, p. *.

3.3 Coordenadas

Suponha que \(V\) seja um espaço vetorial de dimensão finita \(n\) sobre \(\mathbb {K}\).

Definição 3.21 (Base Ordenada)
Uma base ordenada para \( V \) é uma \( n \)-tupla ordenada \( (\bm {x}_{1}, \ \ldots , \ \bm {x}_{n}) \) de vetores para os quais o conjunto \( \{ \bm {x}_{1}, \ \ldots , \ \bm {x}_{n} \} \) é uma base para \(V\).

Se \( \underline{\textsc{x}} = (\bm {x}_{1}, \ \ldots , \ \bm {x}_{n}) \) for uma base ordenada para \( V \), então para todo \( \bm {y}\in V \) haverá uma única \( n \)-tupla \( (y_{1}, \ \ldots , \ y_{n}) \) de escalares para os quais

\[ \bm {y}= y_{1} \bm {x}_{1}+\cdots +y_{n} \bm {x}_{n} \]

Assim, se \(\underline{\textsc{x}}=(\bm {x}_1,\ldots ,\bm {x}_n)\) é uma base ordenada de \(V\), temos uma aplicação natural \([\, \cdot \, ]_{\underline{\textsc{x}}}:V\to \mathbb {K}^n\), denominada aplicação de coordenadas.

Definição 3.22 (Coordenadas de um vetor)
Se \( \underline{\textsc{x}} = (\bm {x}_{1}, \ldots , \bm {x}_{n} ) \) é uma base de \(V\), então definimos as coordenadas do vetor \(\bm {y}=\displaystyle \sum _{i = 1}^{n} y_{i} \bm {x}_{i} \) na base \({\underline{\textsc{x}}}\) como
\[ [\bm {y}]_{\underline{\textsc{x}}} \mathrel {\mathop:\! =}(y_{1}, \ldots , y_{n})^{\mathrm{t}} \in \mathbb {K}^n \]

Como \( \underline{\textsc{x}} \) é uma base de \(V\), a representação de um determinado vetor \( \bm {y}\) como uma combinação linear de \( \bm {x}_{1}, \ldots , \bm {x}_{n} \) é única e assim temos que a função está bem definida.

A aplicação \([\, \cdot \, ]_{\underline{\textsc{x}}}:V\to \mathbb {K}^n\) é bijetiva e preserva somas e multiplicações por escalares. Em particular,

\[ [\lambda _1\bm {y}+\lambda _2\bm {z}]_{\underline{\textsc{x}}} =\lambda _1[\bm {y}]_{\underline{\textsc{x}}}+\lambda _2[\bm {z}]_{\underline{\textsc{x}}}. \]

Como veremos em breve, trata-se de uma transformação linear.

Definição 3.23 (Componentes)
As entradas do vetor coluna \([\bm {y}]_{\underline{\textsc{x}}}\) são denominadas componentes de \(\bm {y}\) na base \(\underline{\textsc{x}}\).

Exemplo 3.24

Suponha que \(\operatorname {char}(\mathbb {K})\ne 2\). Seja \(V=\mathcal{M}_{2, 2}(\mathbb {K})\) e considere os vetores

\[ \vec{a}_1=\left[ \begin{array}{cc} 0 & 1 \\ 1 & 0 \\ \end{array} \right], \quad \vec{a}_2 =\left[ \begin{array}{cc} 0 & 1 \\ -1 & 0 \\ \end{array} \right] , \quad \vec{a}_3= \left[ \begin{array}{cc} 1 & 0 \\ 0 & 1 \\ \end{array} \right] , \quad \vec{a}_4= \left[ \begin{array}{cc} 1 & 0 \\ 0 & -1 \\ \end{array} \right] \]

As quatro matrizes são linearmente independentes e, como \(\dim \mathcal{M}_{2, 2}(\mathbb {K})=4\), formam uma base ordenada \(\underline{\textsc{a}}=(\vec a_1,\vec a_2,\vec a_3,\vec a_4)\). Em particular, toda matriz \(A=(a_{ij})\) pode ser escrita como

\[ \left[ \begin{array}{cc} a_{11} & a_{12} \\ a_{21} & a_{22} \\ \end{array}\right]= \frac{a_{12}+a_{21}}{2} \vec{a}_1+ \frac{a_{12} - a_{21}}{2}\vec{a}_2+\frac{a_{11}+a_{22}}{2}\vec{a}_3 +\frac{a_{11} - a_{22}}{2}\vec{a}_4 \]

Logo,

\[ \left[ \left[ \begin{array}{cc} a_{11} & a_{12} \\ a_{21} & a_{22} \\ \end{array}\right]\right]_{\underline{\textsc{a}}}= \left[ \begin{array}{c} \frac{a_{12}+a_{21}}{2} \\ \frac{a_{12}-a_{21}}{2} \\ \frac{a_{11}+a_{22}}{2} \\ \frac{a_{11}-a_{22}}{2} \\ \end{array} \right] \]

3.3.1 Mudança de Base

Duas bases de um mesmo espaço atribuem, em geral, coordenadas diferentes a um mesmo vetor. A mudança de base consiste em passar de uma dessas colunas de coordenadas à outra. O vetor permanece o mesmo; o que muda são os coeficientes usados para escrevê-lo como combinação linear dos vetores da base.

Exemplo 3.25 (Duas bases de \(\mathbb {R}^2\))
Considere a base canônica \(\underline{\textsc{E}}\) de \(\mathbb {R}^2\) e a base \(\underline{\textsc{B}}=(\vec{u}_1,\vec{u}_2)\), onde
\[ \vec{u}_1=\begin{bmatrix} 1 \\ 1 \end{bmatrix}, \qquad \vec{u}_2=\begin{bmatrix} 1 \\ 2 \end{bmatrix}. \]
Os dois vetores são linearmente independentes, pois o sistema \(a+b=0\), \(a+2b=0\) tem apenas a solução \(a=b=0\). Se \(\vec{z}=a\vec{u}_1+b\vec{u}_2\), então
\[ [\vec{z}]_{\underline{\textsc{B}}}=\begin{bmatrix} a \\ b \end{bmatrix}, \qquad [\vec{z}]_{\underline{\textsc{E}}} =\begin{bmatrix} a+b \\ a+2b \end{bmatrix} =\begin{bmatrix} 1 & 1 \\ 1 & 2 \end{bmatrix} \begin{bmatrix} a \\ b \end{bmatrix}. \]
As colunas dessa matriz são precisamente as coordenadas de \(\vec{u}_1\) e \(\vec{u}_2\) na base canônica. Por exemplo,
\[ \vec{z}=\begin{bmatrix} 3 \\ 5 \end{bmatrix} =\vec{u}_1+2\vec{u}_2 \]
tem coordenadas \((3,5)^{\mathrm{t}}\) na base \(\underline{\textsc{E}}\) e \((1,2)^{\mathrm{t}}\) na base \(\underline{\textsc{B}}\). São duas representações do mesmo vetor.

Para fazer essa passagem em um espaço qualquer, basta conhecer as coordenadas dos vetores de uma base em relação à outra. Sejam \(\underline{\textsc{x}}=(\bm {x}_1,\ldots ,\bm {x}_n)\) e \(\underline{\textsc{y}}=(\bm {y}_1,\ldots ,\bm {y}_n)\) bases ordenadas de \(V\).

Definição 3.26 (Matriz de Mudança de Base)
A matriz de mudança de base de \(\underline{\textsc{y}}\) para \(\underline{\textsc{x}}\), denotada por \(\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{y}}\to \underline{\textsc{x}}}\), é a matriz \(n\times n\) cujas colunas são as coordenadas dos vetores de \(\underline{\textsc{y}}\) na base \(\underline{\textsc{x}}\):

\begin{equation} \label{eq:2.17} \displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{y}}\to \underline{\textsc{x}}}\mathrel {\mathop:\! =}\left([\bm {y}_1]_{\underline{\textsc{x}}}\ {\mathrel {\big| } \ }\cdots \ {\mathrel {\big| } \ }[\bm {y}_n]_{\underline{\textsc{x}}}\right). \tag{3.10} \end{equation}

O sentido indicado na notação é o da passagem entre coordenadas: \(\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{y}}\to \underline{\textsc{x}}}\) recebe coordenadas na base \(\underline{\textsc{y}}\) e fornece coordenadas na base \(\underline{\textsc{x}}\). Por isso suas colunas são formadas pelos vetores da base de partida, escritos na base de chegada. No exemplo anterior, a matriz obtida é \(\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{B}}\to \underline{\textsc{E}}}\), e não \(\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{E}}\to \underline{\textsc{B}}}\).

Teorema 3.27 (Mudança de Base)
Para todo \(\vec{z}\in V\),
\[ \displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{y}}\to \underline{\textsc{x}}}[\vec{z}]_{\underline{\textsc{y}}} =[\vec{z}]_{\underline{\textsc{x}}}. \]

Demonstração ▼

Sejam \(c_1,\ldots ,c_n\) as coordenadas de \(\vec{z}\) na base \(\underline{\textsc{y}}\). Então \(\vec{z}=\sum _{i=1}^{n}c_i\bm {y}_i\). Como a aplicação de coordenadas preserva combinações lineares,

\begin{align*} [\vec{z}]_{\underline{\textsc{x}}} & =\sum _{i=1}^{n}c_i[\bm {y}_i]_{\underline{\textsc{x}}}\\ & =\left([\bm {y}_1]_{\underline{\textsc{x}}}\ {\mathrel {\big| } \ }\cdots \ {\mathrel {\big| } \ }[\bm {y}_n]_{\underline{\textsc{x}}}\right) \begin{bmatrix} c_1 \\ \vdots \\ c_n \end{bmatrix}\\ & =\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{y}}\to \underline{\textsc{x}}}[\vec{z}]_{\underline{\textsc{y}}}. \end{align*}

A segunda igualdade é a interpretação do produto de uma matriz por uma coluna como combinação linear das colunas da matriz.

Podemos resumir essa relação no diagrama Ilustração: Mudança de Base Um diagrama representa espaços e aplicações por objetos e setas. Ele é comutativo quando quaisquer dois caminhos com a mesma origem e o mesmo destino definem a mesma aplicação. Aqui, obter diretamente as coordenadas de \(\vec{z}\) na base \(\underline{\textsc{x}}\) dá o mesmo resultado que obter primeiro suas coordenadas na base \(\underline{\textsc{y}}\) e depois multiplicar por \(\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{y}}\to \underline{\textsc{x}}}\).

A passagem no sentido contrário é feita por \(\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{x}}\to \underline{\textsc{y}}}\). Efetuar as duas mudanças sucessivamente devolve a coluna inicial. Como toda coluna de \(\mathbb {K}^n\) é a coluna de coordenadas de algum vetor de \(V\), segue que

\[ \displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{x}}\to \underline{\textsc{y}}}\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{y}}\to \underline{\textsc{x}}}=I_n, \qquad \displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{y}}\to \underline{\textsc{x}}}\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{x}}\to \underline{\textsc{y}}}=I_n. \]

Portanto, toda matriz de mudança de base é invertível e

\begin{equation} \label{eq:mudanca-base-inversa} \displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{x}}\to \underline{\textsc{y}}}=\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{y}}\to \underline{\textsc{x}}}^{-1}. \tag{3.12} \end{equation}

No Exemplo 3.25, por exemplo,

\[ \displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{B}}\to \underline{\textsc{E}}}=\begin{bmatrix} 1 & 1 \\ 1 & 2 \end{bmatrix}, \qquad \displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{E}}\to \underline{\textsc{B}}}=\begin{bmatrix} 2 & -1 \\ -1 & 1 \end{bmatrix}. \]

A segunda matriz permite recuperar as coordenadas na base \(\underline{\textsc{B}}\) a partir das coordenadas usuais: ela leva \((3,5)^{\mathrm{t}}\) a \((1,2)^{\mathrm{t}}\).

Se \(\underline{\textsc{w}}\) é uma terceira base, o mesmo argumento fornece

\begin{equation} \label{eq:mudanca-base-composicao} \displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{y}}\to \underline{\textsc{w}}}\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{x}}\to \underline{\textsc{y}}}=\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{x}}\to \underline{\textsc{w}}}. \tag{3.13} \end{equation}

O fator da direita faz a primeira mudança, de \(\underline{\textsc{x}}\) para \(\underline{\textsc{y}}\); o da esquerda faz a segunda, de \(\underline{\textsc{y}}\) para \(\underline{\textsc{w}}\). O produto realiza a passagem direta de \(\underline{\textsc{x}}\) para \(\underline{\textsc{w}}\).

Exemplo 3.28 (Coordenadas de um polinômio)
Seja \(V=\mathbb {K}_3[x]\) o espaço dos polinômios de grau menor ou igual a \(3\). Considere as bases ordenadas
\[ \underline{\textsc{B}}=(p_1,p_2,p_3,p_4)=(1,x,x^2,x^3) \]
e
\[ \underline{\textsc{C}}=(q_1,q_2,q_3,q_4) =(1,x-1,(x-1)^2,(x-1)^3). \]
Para passar de coordenadas na base \(\underline{\textsc{C}}\) para coordenadas na base \(\underline{\textsc{B}}\), escrevemos cada \(q_i\) como combinação dos \(p_j\):
\begin{align*} q_1& =p_1,\\ q_2& =-p_1+p_2,\\ q_3& =p_1-2p_2+p_3,\\ q_4& =-p_1+3p_2-3p_3+p_4. \end{align*}
Os coeficientes de cada linha formam uma coluna da matriz:
\[ \displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{C}}\to \underline{\textsc{B}}}=\begin{bmatrix} 1 & -1 & 1 & -1 \\ 0 & 1 & -2 & 3 \\ 0 & 0 & 1 & -3 \\ 0 & 0 & 0 & 1 \end{bmatrix}. \]
Para a passagem inversa, podemos inverter essa matriz ou escrever \(x=(x-1)+1\) e desenvolver as potências de \(x\). Assim,
\[ \displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{B}}\to \underline{\textsc{C}}}=\begin{bmatrix} 1 & 1 & 1 & 1 \\ 0 & 1 & 2 & 3 \\ 0 & 0 & 1 & 3 \\ 0 & 0 & 0 & 1 \end{bmatrix}. \]
Por exemplo, para \(r(x)=x^2+2x+3\), temos
\[ [r]_{\underline{\textsc{B}}}=\begin{bmatrix} 3 \\ 2 \\ 1 \\ 0 \end{bmatrix}, \qquad [r]_{\underline{\textsc{C}}}=\displaystyle \operatorname {M}\limits _{\underline{\textsc{B}}\to \underline{\textsc{C}}}[r]_{\underline{\textsc{B}}} =\begin{bmatrix} 6 \\ 4 \\ 1 \\ 0 \end{bmatrix}. \]
A segunda coluna de coordenadas expressa a identidade
\[ x^2+2x+3=6+4(x-1)+(x-1)^2. \]
Novamente, o polinômio não mudou; apenas sua expressão na base escolhida.

3.3.2 Espaços Linha e Coluna

Seja \(A\in \mathcal{M}_{m, n}(\mathbb {K})\). Suas linhas geram um subespaço de \(\mathcal{M}_{1, n}(\mathbb {K})\), denominado espaço de linhas de \(A\) e denotado por \(\operatorname {EspLin}(A)\). Suas colunas geram um subespaço de \(\mathbb {K}^m\), denominado espaço de colunas de \(A\) e denotado por \(\operatorname {EspCol}(A)\).

As dimensões desses espaços são denominadas posto por linha e posto por coluna, respectivamente. Denotamos o posto por linha por \( \operatorname {posto}_l (A) \) e o posto por coluna por \( \operatorname {posto}_c(A) \).

Demonstraremos que o posto por linha é igual ao posto por coluna, embora, quando \(m\neq n\), os dois espaços pertençam a ambientes diferentes.

Nossa demonstração desse fato depende da seguinte proposição sobre matrizes.

Proposição 3.29
Seja \(A\in \mathcal{M}_{m, n}(\mathbb {K})\). Operações elementares por linhas ou por colunas não alteram nem o posto por linha nem o posto por coluna de \(A\).

Demonstração ▼

Uma operação elementar por linhas equivale a substituir \(A\) por \(EA\), onde \(E\) é invertível. As linhas de \(EA\) são combinações invertíveis das linhas de \(A\), portanto \(\operatorname {EspLin}(EA)=\operatorname {EspLin}(A)\). Além disso, as colunas de \(EA\) são as imagens, pelo automorfismo \(\bm {x}\mapsto E\bm {x}\) de \(\mathbb {K}^m\), das colunas de \(A\); logo seus espaços têm a mesma dimensão.

De modo análogo, uma operação elementar por colunas substitui \(A\) por \(AF\), com \(F\) invertível. Ela faz combinações invertíveis das colunas e aplica o automorfismo \(\bm {x}\mapsto \bm {x}F\) de \(\mathcal{M}_{1, n}(\mathbb {K})\) às linhas. Assim, preserva os dois postos.

Teorema 3.30
Se \(A\in \mathcal{M}_{m, n}(\mathbb {K})\), então \(\operatorname {posto}_l(A)=\operatorname {posto}_c(A)\). Esse número é o posto de \(A\) e será denotado por \(\operatorname {posto}(A)\).

Demonstração ▼

Reduza \(A\) por operações elementares por linhas a uma forma escalonada \(R\). Essas operações preservam o posto por linha e, por serem dadas pela multiplicação à esquerda por matrizes invertíveis, também preservam todas as relações lineares entre as colunas.

Se \(r\) é o número de linhas não nulas de \(R\), então essas linhas são linearmente independentes; logo \(\operatorname {posto}_l(A)=\operatorname {posto}_l(R)=r\). As colunas pivotais de \(R\) são linearmente independentes, e toda coluna não pivotal é combinação linear das colunas pivotais. Portanto, \(\operatorname {posto}_c(R)=r\). Como as relações entre colunas foram preservadas durante o escalonamento, \(\operatorname {posto}_c(A)=\operatorname {posto}_c(R)=r\). Assim,

\[ \operatorname {posto}_l(A)=\operatorname {posto}_c(A). \]

No Capítulo 6, veremos uma segunda demonstração por meio da transposta algébrica, identificando o posto de uma transformação com o de sua transposta.

Uma discussão clássica de diferentes provas da igualdade entre posto por linhas e posto por colunas pode ser encontrada em Mackiw (1995).

Exercício 3.11

Seja \(\mathbb {K}_n[x]\) o espaço dos polinômios de grau no máximo \(n\) com coeficientes em \(\mathbb {K}\). Mostre que:

  1. \((1,x,\ldots ,x^n)\) é uma base de \(\mathbb {K}_n[x]\). As coordenadas de um polinômio nessa base são seus coeficientes.

  2. \((1,x-a,(x-a)^2,\ldots ,(x-a)^n)\) é uma base de \(\mathbb {K}_n[x]\). Se \(\operatorname {char}(\mathbb {K})=0\) ou \(\operatorname {char}(\mathbb {K})=p\gt n\), mostre que

    \[ [f]_{(1,x-a,\ldots ,(x-a)^n)} =\left(f(a),f'(a),\frac{f''(a)}{2!},\ldots , \frac{f^{(n)}(a)}{n!}\right)^{\mathrm{t}}. \]

Exercício 3.12
  1. Verifique que \(\underline{\textsc{B}}=(1+x,1+x^2,1+2x-2x^2)\) é uma base de \(\mathbb {K}_2[x]\).

  2. Calcule os vetores de coordenadas \([1]_{\underline{\textsc{B}}}\), \([x]_{\underline{\textsc{B}}}\) e \([x^2]_{\underline{\textsc{B}}}\).

Exercício 3.13

Sejam \( \vec{f}_{1} (x) = - \displaystyle \frac{1}{6} (x-1) (x-2) (x-3), \ \vec{f}_{2} (x) = \displaystyle \frac{1}{2} x (x-2) (x-3), \ \vec{f}_{3} (x) = - \displaystyle \frac{1}{2} x (x-1) (x-3), \vec{f}_{4} (x) = \displaystyle \frac{1}{6} x (x-1) (x-2) \).

  1. Prove que \(\underline{\textsc{B}}=(\vec f_1,\vec f_2,\vec f_3,\vec f_4)\) é uma base de \(\mathbb {R}_3[x]\).

  2. Se \(g(x)\in \mathbb {R}_3[x]\), prove que \([g]_{\underline{\textsc{B}}}=\left[\begin{array}{c} g (0) \\ g (1) \\ g (2) \\ g (3) \end{array}\right] \)

Exercício 3.14

Seja \(\underline{\textsc{B}}=(\vec f_1,\vec f_2,\vec f_3,\vec f_4)\) a base de \(\mathbb {R}_3[x]\) do exercício anterior. Calcule, em relação a \(\underline{\textsc{B}}\), os vetores de coordenadas dos elementos da base canônica \((1,x,x^2,x^3)\).

Exercício 3.15

Seja \(\underline{\textsc{B}}\) uma base de um espaço vetorial \(V\) de dimensão finita \(n\) sobre \(\mathbb {K}\), e sejam \(\bm {u}_1,\ldots ,\bm {u}_k\in V\). Prove que \(\langle \bm {u}_1,\ldots ,\bm {u}_k\rangle =V\) se, e somente se, \(\langle [\bm {u}_1]_{\underline{\textsc{B}}},\ldots ,[\bm {u}_k]_{\underline{\textsc{B}}}\rangle =\mathbb {K}^n\).

Exercício 3.16

Seja \(\underline{\textsc{B}}\) uma base de um espaço vetorial \(V\) de dimensão \(n\) sobre \(\mathbb {K}\), e sejam \(\bm {u}_1,\ldots ,\bm {u}_n\in V\). Prove que \((\bm {u}_1,\ldots ,\bm {u}_n)\) é uma base de \(V\) se, e somente se, \(([\bm {u}_1]_{\underline{\textsc{B}}},\ldots ,[\bm {u}_n]_{\underline{\textsc{B}}})\) é uma base de \(\mathbb {K}^n\).

3.4 Bandeiras

Definição 3.31 (Bandeira)
Uma bandeira em \(V\) é uma sequência ascendente de subespaços \(V_0\subset V_1\subset \cdots \subset V_n\).

O número \(n\) é o comprimento da bandeira.

Definição 3.32 (Bandeira Maximal Finita)
Uma bandeira finita
\[ \{ 0\} =V_0\subsetneq V_1\subsetneq \cdots \subsetneq V_n=V \]
é dita maximal se nenhum subespaço puder ser inserido estritamente entre \(V_i\) e \(V_{i+1}\). Isto é, se \(V_i\subseteq W\subseteq V_{i+1}\), então \(W=V_i\) ou \(W=V_{i+1}\).

Exemplo 3.33

No espaço \(\mathbb {K}_n[x]\) dos polinômios de grau no máximo \(n\), temos a bandeira maximal

\[ \{ \vec0\} \subsetneq \mathbb {K}_0[x]\subsetneq \mathbb {K}_1[x]\subsetneq \cdots \subsetneq \mathbb {K}_n[x]. \]

Uma bandeira de comprimento \(n\) pode ser construída a partir de uma base ordenada \(\underline{\textsc{e}}=(\bm {e}_1,\ldots ,\bm {e}_n)\): basta definir \(V_0=\{ \vec0\} \) e \(V_i=\langle \bm {e}_1,\ldots ,\bm {e}_i\rangle \) para \(i=1,\ldots ,n\). Essa é a bandeira canônica associada à base \(\underline{\textsc{e}}\).

Essa bandeira é maximal. Reciprocamente, em dimensão finita, toda bandeira maximal é obtida desse modo.

Teorema 3.34
Se \(V\) tem dimensão finita, então sua dimensão é igual ao comprimento de qualquer bandeira maximal finita.

Demonstração ▼

Seja \(\{ 0\} =V_0\subsetneq V_1\subsetneq \cdots \subsetneq V_n=V\) uma bandeira maximal. Para cada \(i=1,\ldots ,n\), selecione \(\vec e_i\in V_i\setminus V_{i-1}\). Mostraremos que \(\{ \vec e_1,\ldots ,\vec e_i\} \) é uma base de \(V_i\).

Como \(\langle \bm {e}_1,\ldots ,\bm {e}_{i-1}\rangle \subseteq V_{i-1}\) e \(\bm {e}_i\notin V_{i-1}\), uma indução mostra que \(\{ \bm {e}_1,\ldots ,\bm {e}_i\} \) é linearmente independente para todo \(i\).

Mostraremos também, por indução, que esses vetores geram \(V_i\). Suponha que \(V_{i-1}=\langle \bm {e}_1,\ldots ,\bm {e}_{i-1}\rangle \) e ponha \(V'=\langle \bm {e}_1,\ldots ,\bm {e}_i\rangle \). Então \(V_{i-1}\subsetneq V'\subseteq V_i\). Pela maximalidade da bandeira, não há subespaço estritamente intermediário, logo \(V'=V_i\).

Para \(i=n\), obtemos uma base \(\{ \bm {e}_1,\ldots ,\bm {e}_n\} \) de \(V\). Portanto, \(n=\dim V\).

Toda bandeira em um espaço de dimensão finita pode ser estendida a uma bandeira maximal; em particular, seu comprimento não excede \(\dim V\). De fato, cada inclusão estrita permite escolher um novo vetor linearmente independente dos anteriores, e esse processo não pode produzir mais que \(\dim V\) vetores.

Dizemos que um espaço vetorial satisfaz a condição da cadeia ascendente (acc) se toda sequência ascendente de subespaços

\[ W_1\subseteq W_2\subseteq W_3\subseteq \cdots \]

se estabiliza, isto é, se existe \(n\) tal que \(W_n=W_{n+1}=W_{n+2}=\cdots \). De modo análogo, \(V\) satisfaz a condição da cadeia descendente (dcc) se toda sequência

\[ W_1\supseteq W_2\supseteq W_3\supseteq \cdots \]

se estabiliza.

Teorema 3.35

Seja \(V\) um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\). Então, são equivalentes:

  1. \(V\) é de dimensão finita;

  2. \(V\) tem uma bandeira maximal finita;

  3. \(V\) satisfaz a condição da cadeia ascendente (acc);

  4. \(V\) satisfaz a condição da cadeia descendente (dcc).

A demonstração das equivalências é proposta nos exercícios a seguir.

Exercício 3.17

Seja \(V\) um espaço vetorial sobre \(\mathbb {K}\). Mostre que são equivalentes:

  1. \(V\) é de dimensão finita;

  2. \(V\) tem uma bandeira maximal finita;

  3. o reticulado de subespaços de \(V\) satisfaz a condição da cadeia ascendente;

  4. o reticulado de subespaços de \(V\) satisfaz a condição da cadeia descendente.

Exercício 3.18

Seja \(0=V_{0}\subsetneq V_{1}\subsetneq \ldots \subsetneq V_{n}=W_{1}\) uma bandeira maximal para \(W_{1}\) e \(0=L_{0}\subsetneq L_{1}\subsetneq \ldots \subsetneq L_{m}=W_{2}\) uma bandeira maximal para \(W_{2}\). Mostre que

\[ 0=V_{0}\subsetneq V_{1}\subsetneq \ldots \subsetneq V_{n}\subsetneq V_{n}\oplus L_{1}\subsetneq V_{n}\oplus L_{2}\subsetneq \ldots \subsetneq V_{n}\oplus L_{m}=W_{1}\oplus W_{2}=V \]

é uma bandeira maximal para \(V=W_{1}\oplus W_{2}\). Conclua, mais uma vez, que a soma direta de espaços vetoriais de dimensão finita tem dimensão igual à soma das dimensões.

Exercício 3.19

Suponha que \(0=V_0\subsetneq V_1\subsetneq V_2\subsetneq \cdots \) seja uma bandeira com \(\bigcup _{j\geq 0}V_j=V\), sem subespaço estritamente intermediário entre \(V_j\) e \(V_{j+1}\). Construa uma base de \(V\) a partir de vetores \(e_j\in V_j\setminus V_{j-1}\), sem usar o lema de Zorn.

Gabarito no Apêndice C, p. *.