Álgebras
Uma álgebra é um espaço vetorial no qual também podemos multiplicar vetores. Essa estrutura reúne exemplos já estudados: polinômios, matrizes e operadores lineares. A multiplicação nem sempre é comutativa, como ocorre com matrizes e com a composição de operadores.
Os quatérnios, descobertos por William Rowan Hamilton em 1843, constituem outro exemplo. Eles formam um sistema numérico real de dimensão quatro cuja multiplicação é associativa, mas não comutativa. O conceito de álgebra permite estudar as propriedades comuns a esses sistemas, relacionando a multiplicação à estrutura de espaço vetorial.
8.1 Definições e exemplos
Neste capítulo, a palavra álgebra significará sempre álgebra associativa. Não exigiremos comutatividade nem a existência de identidade multiplicativa, a menos que isso seja dito explicitamente. Uma álgebra é comutativa quando \(ab=ba\) para todos \(a,b\in \mathfrak A\).
Quando não houver risco de confusão, escreveremos apenas \(1\). A identidade é única: se \(e\) e \(e'\) são identidades de \(\mathfrak A\), então \(e=ee'=e'\).
O inverso também é único. Com efeito, se \(ab=ba=1\) e \(ac=ca=1\), então
Para qualquer espaço vetorial \(V\), o espaço \(\operatorname {Hom}(V,V)\) é uma álgebra com o produto dado pela composição:
A identidade é o operador identidade \(I_V\). Se \(\dim V\gt 1\), em geral \(ST\neq TS\). Os elementos invertíveis dessa álgebra são exatamente os isomorfismos de \(V\) em \(V\).
Quando \(V\) tem dimensão finita e uma base é escolhida, o isomorfismo \(\operatorname {Hom}(V,V)\cong \mathcal{M}_{n, n}(\mathbb {K})\) transforma composição de operadores em multiplicação de matrizes. Assim, a álgebra de matrizes é uma representação concreta da álgebra de operadores.
Em um espaço vetorial não nulo \(V\), defina \(uv=0\) para todos \(u,v\in V\). Verifique que essa operação define uma álgebra associativa e comutativa. Mostre que ela não possui identidade multiplicativa e que todo subespaço é fechado por esse produto. Explique por que a associatividade, por si só, não garante a existência de uma unidade.
Seja \(X\) um conjunto não vazio. No espaço \(\mathbb {K}^X\) de todas as funções de \(X\) em \(\mathbb {K}\), defina \((fg)(x)=f(x)g(x)\).
Verifique que essa operação torna \(\mathbb {K}^X\) uma álgebra comutativa unital. Determine os elementos invertíveis.
Se \(X=\{ 1,\ldots ,n\} \), escreva a tabela de produtos da base \(\delta _1,\ldots ,\delta _n\), em que \(\delta _i(j)=\delta _{ij}\), e identifique a álgebra com as matrizes diagonais de ordem \(n\).
Considere \(\mathfrak T=\{ \begin{bmatrix} a & b \\ 0 & c \end{bmatrix}:a,b,c\in \mathbb {K}\} \). Mostre que \(\mathfrak T\) é uma álgebra unital não comutativa. Determine seus elementos invertíveis e calcule o inverso de uma matriz invertível de \(\mathfrak T\). Dê dois elementos não nulos cujo produto seja zero.
8.2 Subálgebras, ideais e centro
Uma subálgebra pode possuir identidade própria sem ser uma subálgebra unital. Por exemplo,
tem identidade \(\operatorname {diag}(1,1,0)\), diferente de \(I_3\).
Se \(S\subseteq \mathfrak A\), a subálgebra gerada por \(S\), denotada por \(\operatorname {Alg}(S)\), é a interseção de todas as subálgebras que contêm \(S\). Equivalentemente,
Se \(\mathfrak A\) é unital, a subálgebra unital gerada por \(S\) é \(\operatorname {Alg}(S\cup \{ 1\} )\). Em particular,
Neste capítulo, ideal significará sempre ideal bilateral. Se \(\mathfrak A\) é unital, o ideal gerado por um subconjunto \(S\) é
onde, para \(m=0\), a soma é por convenção o elemento nulo. De fato, o conjunto à direita é um ideal que contém \(S\) — para \(s\in S\), tome \(m=1\), \(a_1=b_1=1\) e \(s_1=s\) — e está contido em todo ideal que contém \(S\). Em particular, \(\langle \emptyset \rangle =\{ 0\} \).
Se \(\mathfrak A\) é unital, então \(\mathbb {K}1\subseteq Z(\mathfrak A)\). A álgebra é denominada central quando \(Z(\mathfrak A)=\mathbb {K}1\).
Aqui, \(\mathfrak A^2\) denota o subespaço gerado pelos produtos \(ab\), com \(a,b\in \mathfrak A\). A condição \(\mathfrak A^2\neq \{ 0\} \) exclui a álgebra não nula cuja multiplicação é identicamente zero.
Se \(\mathfrak A_1,\ldots ,\mathfrak A_r\) são álgebras sobre \(\mathbb {K}\), o produto cartesiano \(\mathfrak A_1\times \cdots \times \mathfrak A_r\) é uma álgebra com operações componente a componente. Cada fator se identifica com um ideal do produto. Quando os fatores são unitais, a identidade é \((1_{\mathfrak A_1},\ldots ,1_{\mathfrak A_r})\).
Na álgebra \(M_n(\mathbb {C})\), determine uma base do subespaço de matrizes de traço zero. Prove que esse subespaço é exatamente o espaço gerado pelos comutadores \([A,B]=AB-BA\).
8.3 Homomorfismos e álgebras quocientes
Um homomorfismo bijetivo é um isomorfismo. Quando \(\mathfrak A=\mathfrak B\), um isomorfismo é chamado automorfismo.
Como \(\varphi \) é linear, seu núcleo é um subespaço de \(\mathfrak A\) e sua imagem é um subespaço de \(\mathfrak B\). Se \(x\in \ker \varphi \) e \(a\in \mathfrak A\), então
Logo, \(ax,xa\in \ker \varphi \). Se \(y=\varphi (a)\) e \(z=\varphi (b)\) pertencem à imagem, então \(yz=\varphi (ab)\) também pertence à imagem. Isso prova as duas afirmações.
Se \(J\) é um ideal de \(\mathfrak A\), definimos em \(\mathfrak A\) a relação
Ela é uma relação de equivalência, e a classe de \(x\) é \([x]=x+J\). O conjunto das classes será denotado por \(\mathfrak A/J\).
As duas primeiras operações são as operações usuais do espaço vetorial quociente. Para verificar a multiplicação, suponha que \([x]=[x']\) e \([y]=[y']\). Então \(x-x',y-y'\in J\) e
pois \(J\) é um ideal bilateral. Logo, \([xy]=[x'y']\). A bilinearidade e a associatividade são herdadas de \(\mathfrak A\). No caso unital, \([1][x]=[x][1]=[x]\).
Defina
Se \([a]=[a']\), então \(a-a'\in \ker \varphi \) e, portanto, \(\varphi (a)=\varphi (a')\); logo, o mapa está bem definido. Além disso,
de modo que \(\widetilde\varphi \) é um homomorfismo de álgebras. Ele é sobrejetivo pela definição de \(\operatorname {im}\varphi \). Por fim,
o que prova a injetividade.
Aplicando o teorema ao homomorfismo do Exemplo 8.15, obtemos
Em dimensão finita, o núcleo é um ideal não nulo de \(\mathbb {K}[x]\); seu gerador mônico é o polinômio minimal de \(a\).
Na álgebra \(\mathfrak T\) das matrizes triangulares superiores de ordem dois, seja \(J=\mathbb {K}E_{12}\). Prove que \(J\) é um ideal bilateral, que \(J^2=\{ 0\} \) e que como álgebras unitais. Escreva explicitamente o homomorfismo que realiza esse isomorfismo.
Compare as álgebras reais
Mostre que todas têm base \(\{ [1],[x]\} \) e escreva suas leis de multiplicação.
Identifique a primeira com \(\mathbb C\) e a terceira com \(\mathbb R\times \mathbb R\).
Na segunda, escreva \(\varepsilon =[x]\). Determine quando \(a+b\varepsilon \) é invertível e encontre seu inverso. Mostre que as três álgebras não são isomorfas duas a duas.
Sejam \(a_1,\ldots ,a_r\) elementos distintos de \(\mathbb {K}\) e \(p(x)=\prod _{j=1}^r(x-a_j)\). Prove que
é um isomorfismo de álgebras unitais. Use os polinômios de Lagrange para descrever \(\Phi ^{-1}\) e encontrar \(r\) idempotentes não nulos, dois a dois de produto zero, cuja soma é \(1\).
8.4 Constantes de estrutura
Se \(\mathfrak A\) tem dimensão finita e \(\mathcal B=\{ z_1,\ldots ,z_n\} \) é uma base, existem escalares únicos \(\gamma _{ij}^{k}\in \mathbb {K}\) tais que
Os \(n^3\) escalares \(\gamma _{ij}^{k}\) são chamados constantes de estrutura de \(\mathfrak A\) na base \(\mathcal B\). Eles determinam toda a multiplicação, pois, se \(a=\sum _i\alpha _i z_i\) e \(b=\sum _j\beta _jz_j\), então
Reciprocamente, uma escolha de constantes de estrutura define, por bilinearidade, uma multiplicação no espaço vetorial. A condição de associatividade pode ser verificada apenas nos elementos da base.
Pela definição da multiplicação,
Como \(\mathcal B\) é uma base, essas expressões são iguais precisamente quando os coeficientes indicados coincidem. Pela trilinearidade, a associatividade nos elementos da base equivale à associatividade em toda a álgebra. De modo análogo, \(z_i z_j=z_j z_i\) equivale às igualdades entre as constantes, e a bilinearidade estende a comutatividade a todos os elementos.
Se \(\mathbb {K}\) é um subcorpo de \(\mathbb {R}\), o espaço vetorial
torna-se uma álgebra quando a multiplicação é determinada por
e pela troca de sinal ao inverter a ordem de dois entre \(i,j,k\). Essa multiplicação é associativa e não comutativa.
Para \(q=a_0+a_1i+a_2j+a_3k\), defina \(\overline q=a_0-a_1i-a_2j-a_3k\). Um cálculo direto fornece
Como \(\mathbb {K}\subseteq \mathbb {R}\), essa soma é não nula quando \(q\neq 0\). Portanto, todo quatérnio não nulo é invertível e
Para \(\mathbb {K}=\mathbb {R}\), escrevemos simplesmente \(\mathbb H\).
Em um espaço vetorial com base \(\{ 1,u\} \), defina por bilinearidade uma multiplicação com identidade \(1\) e \(u^2=\alpha 1+\beta u\), onde \(\alpha ,\beta \in \mathbb {K}\). Verifique a associatividade nos vetores básicos e determine as constantes de estrutura não nulas em função de \(\alpha \) e \(\beta \). Prove que a álgebra é isomorfa a \(\mathbb {K}[x]/(x^2-\beta x-\alpha )\). Sobre \(\mathbb R\), classifique-a segundo o sinal de \(\Delta =\beta ^2+4\alpha \), identificando-a com \(\mathbb R\times \mathbb R\), os números duais ou \(\mathbb C\).
Sejam \(z_i z_j=\sum _k\gamma _{ij}^kz_k\) e \(z'_j=\sum _iP_{ij}z_i\), com \(P\) invertível e \(Q=P^{-1}\). Determine as constantes \(\gamma '{}_{ij}^{k}\) na nova base. Explique por que uma mudança de base não altera a associatividade. Após estudar a Seção 16.7, retome o exercício e interprete a multiplicação como um tensor de tipo \((1,2)\): um elemento de \(\mathfrak A\otimes \mathfrak A^*\otimes \mathfrak A^*\).
8.5 Álgebras de grupo
Se \(G\) é um grupo finito, a álgebra de grupo \(\mathbb {K}G\) é o espaço vetorial que possui \(G\) como base:
A multiplicação é a extensão bilinear da multiplicação de \(G\). Assim,
A associatividade vem da associatividade em \(G\), e o elemento neutro de \(G\) é a identidade da álgebra. Além disso, \(\mathbb {K}G\) é comutativa se, e somente se, \(G\) é abeliano.
O comportamento de uma álgebra de grupo pode depender do corpo de escalares, como mostra o exemplo seguinte.
Seja \(C_3=\{ 1,\omega ,\omega ^2\} \) e defina
Para \(y=\alpha +\beta \omega +\gamma \omega ^2\), temos
Logo, \(J\) é um ideal unidimensional. Como \(e^2=3e\), se \(\operatorname {char}\mathbb {K}\neq 3\), o elemento \(e/3\) é a identidade de \(J\). Em particular, sobre \(\mathbb {Q}\), temos \(J\cong \mathbb {Q}\) como álgebras.
Se \(\operatorname {char}\mathbb {K}=3\), então \(e^2=0\) e o produto de quaisquer dois elementos de \(J\) é zero. O mesmo subespaço, portanto, possui comportamentos algébricos radicalmente diferentes conforme o corpo base.
As álgebras de grupo relacionam a teoria de representações à álgebra linear: uma representação de \(G\) em um espaço vetorial \(V\) estende-se, por linearidade, a um homomorfismo de álgebras \(\mathbb {K}G\to \operatorname {Hom}(V,V)\). Desse modo, uma ação de grupo pode ser estudada por meio de operadores lineares.
Na álgebra \(\mathbb {K}C_2\), com \(C_2=\{ e,g\} \), determine quando \(a e+b g\) é invertível e calcule o inverso. Se a característica é diferente de dois, mostre que \(e_+=(e+g)/2\) e \(e_-=(e-g)/2\) são idempotentes de produto zero e deduza \(\mathbb {K}C_2\simeq \mathbb {K}\times \mathbb {K}\). O que muda em característica dois? Identifique nesse caso a álgebra com \(\mathbb {K}[\varepsilon ]/(\varepsilon ^2)\).
Seja \(G\) um grupo finito. Defina
Prove que \(\epsilon \) é um homomorfismo unital sobrejetivo. Mostre que seu núcleo tem base \(\{ g-e:g\in G,\ g\neq e\} \), onde \(e\) é o neutro de \(G\), e conclua que \(\mathbb {K}G/\ker \epsilon \simeq \mathbb {K}\).
Se \(C_m=\langle g:g^m=e\rangle \), prove que a avaliação \(x\mapsto g\) induz um isomorfismo
Supondo que \(x^m-1\) tenha \(m\) raízes distintas em \(\mathbb {K}\), deduza que \(\mathbb {K}C_m\simeq \mathbb {K}^m\). Mostre, em contraste, que em característica prima \(p\), o elemento \(g-e\) da álgebra \(\mathbb {K}C_p\) é não nulo e nilpotente.