Combinatória
Habito a Possibilidade —
Em problemas de contagem, raramente é necessário enumerar todas as possibilidades. A dificuldade principal consiste, em geral, em identificar corretamente quais objetos estão sendo contados e de que maneira podem ser organizados.
Em alguns problemas, as possibilidades são divididas em casos disjuntos; em outros, uma escolha é realizada em várias etapas. Há ainda situações em que a ordem dos elementos altera o resultado e outras em que ela é irrelevante. Essas distinções determinam os princípios e as fórmulas que serão utilizados.
A enumeração de casos simples pode servir para reconhecer a estrutura de uma contagem. As fórmulas gerais surgem quando esse raciocínio é expresso de forma independente do número particular de possibilidades.
5.1 Princípios de contagem
5.1.1 O princípio aditivo
Suponha que uma possibilidade possa pertencer a uma de duas classes que não têm elementos em comum. Se a primeira classe contém \(m\) possibilidades e a segunda contém \(n\), então há \(m+n\) possibilidades ao todo.
Se \(A\) e \(B\) são conjuntos finitos e disjuntos, então
Se os conjuntos não forem disjuntos, os elementos de \(A\cap B\) serão contados duas vezes. Nesse caso,
O princípio aditivo aplica-se quando a contagem é dividida em casos disjuntos. Conta-se cada caso separadamente e somam-se os resultados. Essa situação deve ser distinguida daquela em que uma mesma escolha é realizada em etapas sucessivas.
5.1.2 O princípio multiplicativo
Considere agora uma escolha feita em etapas. Para cada resultado da primeira etapa, uma segunda escolha ainda precisa ser feita. Se há \(n\) possibilidades na primeira etapa e, para cada uma delas, há \(m\) possibilidades na segunda, então cada uma das \(n\) escolhas iniciais se desdobra em \(m\) resultados.
Se as possibilidades da primeira etapa são
e as da segunda são
então os resultados completos são pares
Para \(a_1\) há \(m\) pares possíveis; para \(a_2\) há outros \(m\); e assim por diante. Temos \(n\) grupos com \(m\) resultados em cada um. Por isso aparecem \(n\cdot m\) possibilidades, e não \(n+m\).
Se uma escolha é realizada em duas etapas, com \(n\) possibilidades na primeira e exatamente \(m\) possibilidades na segunda para cada resultado da primeira, então há
Em termos de conjuntos, se \(\# A=n\) e \(\# B=m\), então
O mesmo argumento vale para qualquer número finito de etapas. As opções podem variar de uma etapa para outra; basta que o número de possibilidades em cada etapa seja conhecido para qualquer escolha feita anteriormente.
Se uma escolha é realizada em \(r\) etapas e, qualquer que seja o resultado das etapas anteriores, há respectivamente
Aqui aparecem os dois princípios ao mesmo tempo. Primeiro separamos a contagem pelos dois formatos, que são casos alternativos.
No formato LLDDD, há
maneiras de escolher as duas letras em ordem. Para os três algarismos há
possibilidades. Portanto esse formato produz
códigos.
No formato LLLDD, o mesmo raciocínio fornece
códigos. Como um código pertence a exatamente um dos dois formatos, somamos:
A multiplicação conta as escolhas sucessivas dentro de cada formato; a soma reúne os dois casos possíveis.
5.1.3 Subconjuntos e palavras binárias
A cada subconjunto \(B\subseteq A\) associamos uma palavra binária de comprimento \(n\): na posição \(i\) escrevemos \(1\) se \(a_i\in B\) e \(0\) se \(a_i\notin B\).
Por exemplo,
representam, respectivamente, \(\{ a_1\} \), o próprio conjunto \(A\) e o conjunto vazio.
A associação é reversível. Portanto, contar subconjuntos é o mesmo que contar palavras binárias de comprimento \(n\). Como cada posição admite duas escolhas,
A contagem anterior baseia-se numa correspondência biunívoca entre subconjuntos de \(A\) e palavras binárias de comprimento \(n\). Cada subconjunto determina uma única palavra e, reciprocamente, cada palavra determina um único subconjunto. Os dois conjuntos têm, portanto, a mesma cardinalidade.
Um restaurante oferece \(4\) massas, \(6\) carnes e \(5\) acompanhamentos. Quantos pratos podem ser formados escolhendo um item de cada categoria? Uma senha tem três letras seguidas de quatro algarismos. Quantas senhas existem se repetições são permitidas? Quantos inteiros de três algarismos têm apenas algarismos ímpares? Ver solução
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5.2 Contagens em que a ordem importa
Em determinados problemas, duas escolhas formadas pelos mesmos elementos podem ser distintas quando a ordem é alterada. Escolher Ana e Bruno para uma comissão é a mesma escolha que Bruno e Ana; escolher Ana para presidente e Bruno para vice é diferente de inverter essas funções. No segundo caso, o objeto contado é uma lista ordenada.
5.2.1 Arranjos sem repetição
Considere inicialmente cinco estudantes disputando três funções diferentes: presidente, vice-presidente e secretário. Para presidente há \(5\) escolhas. Feita essa escolha, a mesma pessoa não pode ocupar a vice-presidência, de modo que restam \(4\) escolhas. Escolhidos presidente e vice, restam \(3\) possibilidades para secretário. Pelo princípio multiplicativo,
Nesse problema, não se escolhem apenas três pessoas; preenchem-se três posições distintas. Assim, Ana como presidente e Bruno como vice constitui um resultado diferente daquele em que as duas funções são trocadas.
O mesmo raciocínio vale com \(n\) elementos e \(r\) posições. Para formar um arranjo, preenchemos as posições uma de cada vez. Há \(n\) escolhas para a primeira posição. Depois de usada uma delas, restam \(n-1\) para a segunda; depois \(n-2\) para a terceira. Ao chegar à posição \(r\), já usamos \(r-1\) elementos, portanto restam
escolhas. Multiplicando o número de escolhas feitas em cada etapa, obtemos
A escrita com fatoriais apenas compacta esse produto. Como
dividir ambos os lados por \((n-r)!\) fornece
5.2.2 Permutações
Quando todos os elementos são utilizados, obtém-se o caso particular das permutações.
A contagem pode ser feita diretamente. Considere \(n\) objetos distintos e \(n\) posições. Para a primeira posição há \(n\) escolhas. Depois de ocupado um lugar, restam \(n-1\) objetos para a segunda posição; depois \(n-2\) para a terceira, e assim sucessivamente, até restar uma única escolha para a última posição. Portanto,
Assim o fatorial não aparece como uma convenção arbitrária: ele registra exatamente o número de escolhas sucessivas necessárias para ordenar todos os elementos. Naturalmente, isso também é o caso \(r=n\) da fórmula dos arranjos:
A restrição impede que simplesmente contemos as \(8!\) permutações. Em vez disso, tratamos Ana e Bruno provisoriamente como um único bloco. Temos então esse bloco e as outras seis pessoas, isto é, \(7\) objetos a ordenar:
possibilidades.
Mas, dentro do bloco, Ana e Bruno podem aparecer nas ordens AB ou BA. Para cada uma das \(7!\) ordenações dos blocos há, portanto, duas ordens internas. Logo o total é
O artifício do bloco é útil sempre que certos elementos precisam permanecer consecutivos: primeiro contamos o bloco como um único objeto e depois contamos as ordens possíveis dentro dele.
Quantas palavras de quatro letras distintas podem ser formadas com as letras \(\{ A,B,C,D,E,F\} \)? Quantas placas formadas por três letras distintas seguidas de quatro algarismos distintos são possíveis? Quantos números de quatro algarismos têm todos os algarismos distintos? Quantos números pares de quatro algarismos têm todos os algarismos distintos? Ver solução
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5.3 Permutações com repetições
Se cada posição de uma lista admite livremente qualquer um de \(n\) símbolos, uma lista de comprimento \(r\) pode ser formada de \(n^r\) maneiras. Há, porém, uma situação distinta, na qual as multiplicidades de cada símbolo estão previamente fixadas.
Nesse caso, permutar entre si cópias iguais não produz uma nova ordenação. A contagem deve, portanto, corrigir as repetições introduzidas quando essas cópias são tratadas provisoriamente como distintas.
Distinga provisoriamente todas as cópias de um mesmo símbolo. Se o primeiro símbolo aparece \(n_1\) vezes, escreva suas cópias como
e faça o mesmo com os demais símbolos. Passamos então a ter \(n\) objetos distintos, que podem ser ordenados de \(n!\) maneiras.
Agora apagamos os índices. Uma palavra sem índices não muda quando permutamos entre si as \(n_1\) cópias do primeiro símbolo: há \(n_1!\) maneiras de fazer isso. Independentemente, podemos permutar as \(n_2\) cópias do segundo símbolo de \(n_2!\) maneiras, e assim por diante. Portanto, cada palavra realmente distinta apareceu exatamente
vezes na contagem artificial de \(n!\) ordenações.
Dividindo pelo número de vezes que cada palavra foi repetida, obtemos
A divisão corrige a contagem realizada com cópias artificialmente distintas. O denominador é precisamente o número de ordenações que produzem o mesmo resultado depois que os índices são retirados.
Represente um passo para leste por \(L\) e um passo para norte por \(N\). Um caminho mínimo é então completamente determinado pela ordem em que aparecem seis letras \(L\) e quatro letras \(N\). Por exemplo,
descreve um caminho específico, e qualquer palavra com seis \(L\) e quatro \(N\) descreve exatamente um caminho mínimo.
Assim, o problema geométrico foi transformado em um problema de ordenar dez símbolos com repetições prescritas. Portanto,
Quantas palavras diferentes podem ser escritas usando todas as letras de MATEMATICA? De quantas maneiras podemos ordenar \(8\) bolas em uma fila se \(3\) são vermelhas, \(3\) são azuis e \(2\) são verdes, considerando indistinguíveis as bolas de mesma cor? Ver solução
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5.4 Combinações
Considere a escolha de \(r\) elementos de um conjunto com \(n\) elementos, sem levar em conta a ordem. Uma maneira de obter a fórmula correspondente consiste em contar primeiro as listas ordenadas e, em seguida, determinar quantas delas representam a mesma escolha.
Considere, inicialmente,
e suponha que queremos escolher dois elementos. Se mantivermos a ordem, obtemos listas como
e o princípio multiplicativo dá \(4\cdot 3=12\) listas ordenadas.
Mas, se estamos apenas escolhendo uma dupla, as listas \((a,b)\) e \((b,a)\) representam a mesma escolha \(\{ a,b\} \). O mesmo acontece com toda dupla: cada subconjunto de dois elementos foi contado exatamente
vezes. Por isso o número de duplas é
O mesmo argumento vale no caso geral. Há \(A(n,r)\) maneiras de escolher e ordenar \(r\) elementos. Fixe um subconjunto com \(r\) elementos. Ele pode ser ordenado de
maneiras, e todas essas ordenações representam a mesma combinação quando a ordem é esquecida. Assim, na contagem por arranjos, cada combinação aparece exatamente \(r!\) vezes. Dividindo por esse fator,
A diferença entre arranjos e combinações está, portanto, na informação preservada: o arranjo registra os elementos escolhidos e sua ordem; a combinação registra apenas o subconjunto escolhido.
A condição “pelo menos dois” não descreve um único caso. A comissão pode ter exatamente \(2\), \(3\) ou \(4\) matemáticos. Esses casos são disjuntos, então contamos cada um deles e somamos.
Com exatamente dois matemáticos, escolhemos também dois físicos:
Com exatamente três matemáticos, escolhemos um físico:
Com quatro matemáticos, não escolhemos físicos:
Assim,
A condição “pelo menos” foi tratada pela decomposição em casos exaustivos e disjuntos.
Quantos subconjuntos de três elementos possui um conjunto com \(8\) elementos? Dados \(20\) pontos no plano, sem três colineares, quantas retas determinadas por pares desses pontos existem? Quantos triângulos têm vértices entre os \(20\) pontos? Uma equipe de \(5\) pessoas será escolhida dentre \(12\). De quantas maneiras isso pode ser feito? Ver solução
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5.5 Coeficientes binomiais
Os coeficientes binomiais contam subconjuntos de cardinalidade fixada. Essa interpretação combinatória permite obter diversas identidades sem recorrer diretamente à expressão em fatoriais.
5.5.1 Simetria
Escolher \(r\) elementos entre \(n\) equivale a decidir quais \(n-r\) ficarão de fora. De fato, a cada subconjunto \(B\) com \(r\) elementos corresponde exatamente o seu complementar, que possui \(n-r\) elementos, e essa correspondência pode ser invertida. Portanto as duas coleções têm a mesma quantidade de elementos:
A identidade expressa, portanto, a correspondência entre escolher os elementos de um subconjunto e escolher os elementos de seu complementar.
5.5.2 A identidade de Pascal
Fixe um elemento \(a\) de um conjunto \(A\) com \(n\) elementos e conte os subconjuntos de \(A\) com \(r\) elementos.
Há dois casos disjuntos. Se o subconjunto não contém \(a\), escolhemos os \(r\) elementos entre os outros \(n-1\), obtendo \(\binom {n-1}{r}\) possibilidades. Se contém \(a\), escolhemos os outros \(r-1\) elementos entre os \(n-1\) restantes, obtendo \(\binom {n-1}{r-1}\) possibilidades.
Pelo princípio aditivo, somamos os dois casos.
A demonstração consiste em particionar os subconjuntos em dois casos disjuntos, conforme contenham ou não o elemento fixado. A identidade de Pascal é, assim, uma aplicação direta do princípio aditivo.
A identidade de Pascal gera o triângulo
no qual cada entrada interna é a soma das duas entradas imediatamente acima.
5.5.3 O binômio de Newton
Considere inicialmente o caso
Para obter um termo \(ab^2\), precisamos escolher \(b\) em exatamente dois dos três fatores e \(a\) no fator restante. Há três maneiras de escolher quais dois fatores fornecerão o \(b\), por isso o termo \(ab^2\) aparece com coeficiente \(3\). Da mesma forma, o coeficiente de \(a^2b\) também é \(3\).
No caso geral, cada termo da expansão é produzido escolhendo, em cada fator, \(a\) ou \(b\). Se o termo final contém exatamente \(k\) fatores \(b\), basta escolher quais \(k\) dos \(n\) fatores forneceram esses \(b\). Existem \(\binom nk\) escolhas.
Na expansão de
um termo \(a^{n-k}b^k\) aparece sempre que escolhemos o termo \(b\) em exatamente \(k\) dos \(n\) fatores. Há \(\binom nk\) maneiras de fazer essa escolha. Portanto, esse é o coeficiente de \(a^{n-k}b^k\).
Use a identidade de Pascal para calcular \(\binom 83\) a partir da linha anterior. Mostre combinatoriamente que Expanda \((x+y)^5\) usando o binômio de Newton. Determine o coeficiente de \(x^4\) na expansão de \((1+x)^9\). Ver solução
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5.6 Aprofundamento: o método de barras e estrelas
Certas equações em números inteiros podem ser interpretadas como problemas de distribuição de objetos idênticos entre caixas distintas. Nessa representação, as soluções correspondem a escolhas de posições para separadores.
Considere as soluções inteiras positivas de
Disponha \(n\) objetos idênticos em uma fila. Uma divisão em \(r\) grupos não vazios é determinada pela escolha de \(r-1\) das \(n-1\) lacunas entre objetos consecutivos, nas quais são colocados separadores.
Por exemplo, a solução \((3,2,1)\) de \(x+y+z=6\) pode ser representada por
Há \(n-1\) lacunas entre os \(n\) objetos. Escolher \(r-1\) delas determina univocamente os \(r\) blocos. Logo há \(\binom {n-1}{r-1}\) soluções.
O caso das soluções não negativas pode ser reduzido ao anterior. Como algumas variáveis podem assumir o valor zero, adicionamos uma unidade a cada uma delas. Defina
Então \(x_i\geq 0\) se, e somente se, \(y_i\geq 1\), e
se transforma em
Essa transformação é reversível: de uma solução positiva em \(y_1,\dots ,y_r\) recuperamos uma única solução não negativa tomando \(x_i=y_i-1\). Portanto os dois conjuntos de soluções têm o mesmo tamanho. Aplicando o resultado anterior à soma \(n+r\), obtemos
Se \(x_i\) é o número de livros enviados à sala \(i\), queremos contar as soluções de
sujeitas às restrições
Retiramos primeiro as quantidades obrigatórias. Escreva
Então \(y_1,y_2,y_3,y_4\geq 0\) e
Agora temos um problema padrão de soluções não negativas. Portanto,
A mesma substituição trata limites inferiores distintos: retiram-se primeiro as quantidades obrigatórias e aplica-se, ao restante, a fórmula para soluções não negativas.
Quantas soluções inteiras positivas possui \(x+y+z+w=23\)? Quantas soluções inteiras não negativas possui \(x+y+z+w=23\)? Um apostador possui \(18\) fichas idênticas e deseja distribuí-las entre \(4\) apostas, colocando pelo menos uma ficha em cada uma. De quantas maneiras pode fazer isso? Ver solução
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