Capítulo 5

Combinatória

Habito a Possibilidade —
Emily Dickinson

Em problemas de contagem, raramente é necessário enumerar todas as possibilidades. A dificuldade principal consiste, em geral, em identificar corretamente quais objetos estão sendo contados e de que maneira podem ser organizados.

Em alguns problemas, as possibilidades são divididas em casos disjuntos; em outros, uma escolha é realizada em várias etapas. Há ainda situações em que a ordem dos elementos altera o resultado e outras em que ela é irrelevante. Essas distinções determinam os princípios e as fórmulas que serão utilizados.

A enumeração de casos simples pode servir para reconhecer a estrutura de uma contagem. As fórmulas gerais surgem quando esse raciocínio é expresso de forma independente do número particular de possibilidades.

5.1 Princípios de contagem

5.1.1 O princípio aditivo

Suponha que uma possibilidade possa pertencer a uma de duas classes que não têm elementos em comum. Se a primeira classe contém \(m\) possibilidades e a segunda contém \(n\), então há \(m+n\) possibilidades ao todo.

Princípio aditivo
Se \(A\) e \(B\) são conjuntos finitos e disjuntos, então
\[ \# (A\cup B)=\# A+\# B. \]

Se os conjuntos não forem disjuntos, os elementos de \(A\cap B\) serão contados duas vezes. Nesse caso,

\[ \# (A\cup B)=\# A+\# B-\# (A\cap B). \]

O princípio aditivo aplica-se quando a contagem é dividida em casos disjuntos. Conta-se cada caso separadamente e somam-se os resultados. Essa situação deve ser distinguida daquela em que uma mesma escolha é realizada em etapas sucessivas.

Exemplo 5.1 (Exercício resolvido)
Uma livraria separou para uma promoção \(18\) livros de matemática e \(12\) livros de física. Nenhum livro pertence às duas categorias. Quantos livros participam da promoção?

Solução
Cada livro da promoção está em exatamente uma das duas categorias. Assim, podemos separar a contagem em dois casos: escolher um livro de matemática ou escolher um livro de física. Como os casos não se sobrepõem, somamos:
\[ 18+12=30. \]
Portanto, \(30\) livros participam da promoção.

5.1.2 O princípio multiplicativo

Considere agora uma escolha feita em etapas. Para cada resultado da primeira etapa, uma segunda escolha ainda precisa ser feita. Se há \(n\) possibilidades na primeira etapa e, para cada uma delas, há \(m\) possibilidades na segunda, então cada uma das \(n\) escolhas iniciais se desdobra em \(m\) resultados.

Se as possibilidades da primeira etapa são

\[ a_1,a_2,\dots ,a_n \]

e as da segunda são

\[ b_1,b_2,\dots ,b_m, \]

então os resultados completos são pares

\[ (a_i,b_j). \]

Para \(a_1\) há \(m\) pares possíveis; para \(a_2\) há outros \(m\); e assim por diante. Temos \(n\) grupos com \(m\) resultados em cada um. Por isso aparecem \(n\cdot m\) possibilidades, e não \(n+m\).

Princípio multiplicativo
Se uma escolha é realizada em duas etapas, com \(n\) possibilidades na primeira e exatamente \(m\) possibilidades na segunda para cada resultado da primeira, então há
\[ n\cdot m \]
possibilidades ao todo.

Em termos de conjuntos, se \(\# A=n\) e \(\# B=m\), então

\[ \# (A\times B)=\# A\cdot \# B. \]

Exemplo 5.2 (Exercício resolvido)
João decidiu passar as férias no Japão. Uma agência oferece \(3\) voos de ida e \(2\) cruzeiros para a volta. De quantas maneiras João pode escolher a viagem?

Solução
Para cada um dos \(3\) voos há \(2\) escolhas de cruzeiro. Logo,
\[ 3\cdot 2=6. \]

O mesmo argumento vale para qualquer número finito de etapas. As opções podem variar de uma etapa para outra; basta que o número de possibilidades em cada etapa seja conhecido para qualquer escolha feita anteriormente.

Princípio multiplicativo generalizado
Se uma escolha é realizada em \(r\) etapas e, qualquer que seja o resultado das etapas anteriores, há respectivamente
\[ n_1,n_2,\dots ,n_r \]
possibilidades em cada etapa, então o número total de resultados é
\[ n_1n_2\cdots n_r. \]

Exemplo 5.3 (Exercício resolvido)
Em certo país, as placas de automóveis são formadas por três letras seguidas de dois algarismos. Admitindo repetição, quantas placas são possíveis?

Solução
Há \(26\) possibilidades para cada letra e \(10\) para cada algarismo. Logo,
\[ 26^3\cdot 10^2=1\, 757\, 600. \]

Exemplo 5.4 (Exercício resolvido)
Um sistema admite códigos de dois formatos:
\[ \text{LLDDD}\qquad \text{ou}\qquad \text{LLLDD}, \]
onde L representa uma letra e D um algarismo. Dentro de cada código, letras não podem se repetir e algarismos não podem se repetir. Quantos códigos são possíveis?

Solução

Aqui aparecem os dois princípios ao mesmo tempo. Primeiro separamos a contagem pelos dois formatos, que são casos alternativos.

No formato LLDDD, há

\[ 26\cdot 25 \]

maneiras de escolher as duas letras em ordem. Para os três algarismos há

\[ 10\cdot 9\cdot 8 \]

possibilidades. Portanto esse formato produz

\[ 26\cdot 25\cdot 10\cdot 9\cdot 8 \]

códigos.

No formato LLLDD, o mesmo raciocínio fornece

\[ 26\cdot 25\cdot 24\cdot 10\cdot 9 \]

códigos. Como um código pertence a exatamente um dos dois formatos, somamos:

\[ 26\cdot 25\cdot 10\cdot 9\cdot 8 + 26\cdot 25\cdot 24\cdot 10\cdot 9 = 1\, 872\, 000. \]

A multiplicação conta as escolhas sucessivas dentro de cada formato; a soma reúne os dois casos possíveis.

5.1.3 Subconjuntos e palavras binárias

Exemplo 5.5 (Exercício resolvido)
Seja \(A=\{ a_1,\dots ,a_n\} \). Quantos subconjuntos possui \(A\)?

Solução

A cada subconjunto \(B\subseteq A\) associamos uma palavra binária de comprimento \(n\): na posição \(i\) escrevemos \(1\) se \(a_i\in B\) e \(0\) se \(a_i\notin B\).

Por exemplo,

\[ 100\cdots 0,\qquad 111\cdots 1,\qquad 000\cdots 0 \]

representam, respectivamente, \(\{ a_1\} \), o próprio conjunto \(A\) e o conjunto vazio.

A associação é reversível. Portanto, contar subconjuntos é o mesmo que contar palavras binárias de comprimento \(n\). Como cada posição admite duas escolhas,

\[ \# \mathcal P(A)=\underbrace{2\cdot 2\cdots 2}_{n\text{ vezes}}=2^n. \]

A contagem anterior baseia-se numa correspondência biunívoca entre subconjuntos de \(A\) e palavras binárias de comprimento \(n\). Cada subconjunto determina uma única palavra e, reciprocamente, cada palavra determina um único subconjunto. Os dois conjuntos têm, portanto, a mesma cardinalidade.

Exercício 5.1

Um restaurante oferece \(4\) massas, \(6\) carnes e \(5\) acompanhamentos. Quantos pratos podem ser formados escolhendo um item de cada categoria?

Ver solução
\(120\).
Exercício 5.2

Uma senha tem três letras seguidas de quatro algarismos. Quantas senhas existem se repetições são permitidas?

Ver solução
\(26^3\cdot 10^4\).
Exercício 5.3

Quantos inteiros de três algarismos têm apenas algarismos ímpares?

Ver solução
\(125\).
Exercício 5.4 (difficulty=1)
Quantos inteiros de três algarismos têm pelo menos um algarismo igual a zero?
Ver solução
\(900-9^3=171\).

5.2 Contagens em que a ordem importa

Em determinados problemas, duas escolhas formadas pelos mesmos elementos podem ser distintas quando a ordem é alterada. Escolher Ana e Bruno para uma comissão é a mesma escolha que Bruno e Ana; escolher Ana para presidente e Bruno para vice é diferente de inverter essas funções. No segundo caso, o objeto contado é uma lista ordenada.

5.2.1 Arranjos sem repetição

Definição 5.1
Um arranjo de \(r\) elementos de um conjunto \(A\) com \(n\) elementos, com \(r\leq n\), é uma lista ordenada de comprimento \(r\) formada por elementos distintos de \(A\).

Considere inicialmente cinco estudantes disputando três funções diferentes: presidente, vice-presidente e secretário. Para presidente há \(5\) escolhas. Feita essa escolha, a mesma pessoa não pode ocupar a vice-presidência, de modo que restam \(4\) escolhas. Escolhidos presidente e vice, restam \(3\) possibilidades para secretário. Pelo princípio multiplicativo,

\[ 5\cdot 4\cdot 3=60. \]

Nesse problema, não se escolhem apenas três pessoas; preenchem-se três posições distintas. Assim, Ana como presidente e Bruno como vice constitui um resultado diferente daquele em que as duas funções são trocadas.

O mesmo raciocínio vale com \(n\) elementos e \(r\) posições. Para formar um arranjo, preenchemos as posições uma de cada vez. Há \(n\) escolhas para a primeira posição. Depois de usada uma delas, restam \(n-1\) para a segunda; depois \(n-2\) para a terceira. Ao chegar à posição \(r\), já usamos \(r-1\) elementos, portanto restam

\[ n-(r-1)=n-r+1 \]

escolhas. Multiplicando o número de escolhas feitas em cada etapa, obtemos

\[ n(n-1)(n-2)\cdots (n-r+1). \]

A escrita com fatoriais apenas compacta esse produto. Como

\[ n!=n(n-1)\cdots (n-r+1)(n-r)!, \]

dividir ambos os lados por \((n-r)!\) fornece

\[ n(n-1)\cdots (n-r+1)=\frac{n!}{(n-r)!}. \]

Teorema 5.1
O número de arranjos de \(r\) elementos escolhidos entre \(n\) elementos é
\[ A(n,r)=n(n-1)\cdots (n-r+1)=\frac{n!}{(n-r)!}. \]

Exemplo 5.6 (Exercício resolvido)
São sorteados, sem reposição, \(5\) números dentre \(1,2,\dots ,50\). Quantos resultados são possíveis se a ordem de saída importa?

Solução
Temos
\[ A(50,5)=\frac{50!}{45!}=254\, 251\, 200. \]

Exemplo 5.7 (Exercício resolvido)
Quantos inteiros entre \(100\) e \(999\) possuem todos os algarismos distintos?

Solução
A resposta não é simplesmente \(A(10,3)\), pois o primeiro algarismo não pode ser zero. Há \(9\) escolhas para o primeiro algarismo, \(9\) para o segundo e \(8\) para o terceiro. Logo,
\[ 9\cdot 9\cdot 8=648. \]

5.2.2 Permutações

Quando todos os elementos são utilizados, obtém-se o caso particular das permutações.

Definição 5.2
Uma permutação de um conjunto com \(n\) elementos é uma lista ordenada que contém cada elemento exatamente uma vez.

A contagem pode ser feita diretamente. Considere \(n\) objetos distintos e \(n\) posições. Para a primeira posição há \(n\) escolhas. Depois de ocupado um lugar, restam \(n-1\) objetos para a segunda posição; depois \(n-2\) para a terceira, e assim sucessivamente, até restar uma única escolha para a última posição. Portanto,

\[ n(n-1)(n-2)\cdots 2\cdot 1=n!. \]

Assim o fatorial não aparece como uma convenção arbitrária: ele registra exatamente o número de escolhas sucessivas necessárias para ordenar todos os elementos. Naturalmente, isso também é o caso \(r=n\) da fórmula dos arranjos:

\[ A(n,n)=n!. \]

Exemplo 5.8 (Exercício resolvido)
Cinco livros distintos serão colocados lado a lado em uma estante. De quantas maneiras isso pode ser feito?

Solução
Cada ordenação é uma permutação. Portanto, há
\[ 5!=120 \]
ordenações.

Exemplo 5.9 (Exercício resolvido)
Oito pessoas distintas vão se sentar lado a lado. De quantas maneiras isso pode ser feito se Ana e Bruno devem permanecer juntos?

Solução

A restrição impede que simplesmente contemos as \(8!\) permutações. Em vez disso, tratamos Ana e Bruno provisoriamente como um único bloco. Temos então esse bloco e as outras seis pessoas, isto é, \(7\) objetos a ordenar:

\[ 7! \]

possibilidades.

Mas, dentro do bloco, Ana e Bruno podem aparecer nas ordens AB ou BA. Para cada uma das \(7!\) ordenações dos blocos há, portanto, duas ordens internas. Logo o total é

\[ 2\cdot 7!=10\, 080. \]

O artifício do bloco é útil sempre que certos elementos precisam permanecer consecutivos: primeiro contamos o bloco como um único objeto e depois contamos as ordens possíveis dentro dele.

Exercício 5.5

Quantas palavras de quatro letras distintas podem ser formadas com as letras \(\{ A,B,C,D,E,F\} \)?

Ver solução
\(A(6,4)=360\).
Exercício 5.6

Quantas placas formadas por três letras distintas seguidas de quatro algarismos distintos são possíveis?

Ver solução
\(A(26,3)A(10,4)=78\, 624\, 000\).
Exercício 5.7

Quantos números de quatro algarismos têm todos os algarismos distintos?

Ver solução
\(4536\).
Exercício 5.8 (difficulty=1)

Quantos números pares de quatro algarismos têm todos os algarismos distintos?

Ver solução
\(2296\).
Exercício 5.9
Treze livros distintos serão colocados em uma estante. Se \(6\) são de cálculo, \(3\) de geometria analítica e \(4\) de física, de quantas maneiras podemos ordená-los de modo que livros do mesmo assunto fiquem juntos?
Ver solução
\(3!\, 6!\, 3!\, 4!\).

5.3 Permutações com repetições

Se cada posição de uma lista admite livremente qualquer um de \(n\) símbolos, uma lista de comprimento \(r\) pode ser formada de \(n^r\) maneiras. Há, porém, uma situação distinta, na qual as multiplicidades de cada símbolo estão previamente fixadas.

Nesse caso, permutar entre si cópias iguais não produz uma nova ordenação. A contagem deve, portanto, corrigir as repetições introduzidas quando essas cópias são tratadas provisoriamente como distintas.

Exemplo 5.10 (Exercício resolvido)
Quantas palavras podem ser formadas com três letras \(a\) e duas letras \(b\)?

Solução
Se distinguíssemos artificialmente as letras como
\[ a_1,a_2,a_3,b_1,b_2, \]
teríamos \(5!\) ordenações. Mas trocar entre si as três ocorrências de \(a\) não altera a palavra, assim como trocar as duas ocorrências de \(b\). Cada palavra foi contada \(3!2!\) vezes. Logo,
\[ \frac{5!}{3!2!}=10. \]

Teorema 5.2
Suponha que uma palavra de comprimento \(n\) seja formada por \(r\) símbolos distintos, com multiplicidades \(n_1,\dots ,n_r\), de modo que
\[ n_1+\cdots +n_r=n. \]
O número de palavras distintas é
\[ \frac{n!}{n_1!\cdots n_r!}. \]

Demonstração

Distinga provisoriamente todas as cópias de um mesmo símbolo. Se o primeiro símbolo aparece \(n_1\) vezes, escreva suas cópias como

\[ a_1,a_2,\dots ,a_{n_1}, \]

e faça o mesmo com os demais símbolos. Passamos então a ter \(n\) objetos distintos, que podem ser ordenados de \(n!\) maneiras.

Agora apagamos os índices. Uma palavra sem índices não muda quando permutamos entre si as \(n_1\) cópias do primeiro símbolo: há \(n_1!\) maneiras de fazer isso. Independentemente, podemos permutar as \(n_2\) cópias do segundo símbolo de \(n_2!\) maneiras, e assim por diante. Portanto, cada palavra realmente distinta apareceu exatamente

\[ n_1!n_2!\cdots n_r! \]

vezes na contagem artificial de \(n!\) ordenações.

Dividindo pelo número de vezes que cada palavra foi repetida, obtemos

\[ \frac{n!}{n_1!\cdots n_r!}. \]

A divisão corrige a contagem realizada com cópias artificialmente distintas. O denominador é precisamente o número de ordenações que produzem o mesmo resultado depois que os índices são retirados.

Exemplo 5.11 (Exercício resolvido)
Quantas palavras diferentes podem ser escritas usando todas as letras da palavra BANANA?

Solução
A palavra tem \(6\) letras: \(A\) aparece \(3\) vezes, \(N\) aparece \(2\) vezes e \(B\) aparece uma vez. Portanto,
\[ \frac{6!}{3!2!}=60. \]

Exemplo 5.12 (Exercício resolvido)
Um estudante precisa deslocar-se \(6\) quadras para leste e \(4\) quadras para o norte. De quantas maneiras pode fazer o percurso andando exatamente \(10\) quadras?

Figura 5.1 Um caminho mínimo é determinado pela ordem de 6 passos para leste e 4 para norte.

Figura 5.1 Um caminho mínimo é determinado pela ordem de \(6\) passos para leste e \(4\) para norte.

Solução

Represente um passo para leste por \(L\) e um passo para norte por \(N\). Um caminho mínimo é então completamente determinado pela ordem em que aparecem seis letras \(L\) e quatro letras \(N\). Por exemplo,

\[ LLNLLNNLLN \]

descreve um caminho específico, e qualquer palavra com seis \(L\) e quatro \(N\) descreve exatamente um caminho mínimo.

Assim, o problema geométrico foi transformado em um problema de ordenar dez símbolos com repetições prescritas. Portanto,

\[ \frac{10!}{6!4!}=210. \]

Exercício 5.10

Quantas palavras diferentes podem ser escritas usando todas as letras de MATEMATICA?

Ver solução
\(\dfrac {10!}{3!2!2!}=151\, 200\).
Exercício 5.11

De quantas maneiras podemos ordenar \(8\) bolas em uma fila se \(3\) são vermelhas, \(3\) são azuis e \(2\) são verdes, considerando indistinguíveis as bolas de mesma cor?

Ver solução
\(560\).
Exercício 5.12 (difficulty=1)
Quantos caminhos mínimos existem entre \((0,0)\) e \((7,5)\) se só podemos caminhar para a direita ou para cima?
Ver solução
\(\binom {12}{5}=792\).

5.4 Combinações

Considere a escolha de \(r\) elementos de um conjunto com \(n\) elementos, sem levar em conta a ordem. Uma maneira de obter a fórmula correspondente consiste em contar primeiro as listas ordenadas e, em seguida, determinar quantas delas representam a mesma escolha.

Definição 5.3
Uma combinação de \(r\) elementos de um conjunto \(A\) é um subconjunto de \(A\) com exatamente \(r\) elementos.

Considere, inicialmente,

\[ A=\{ a,b,c,d\} \]

e suponha que queremos escolher dois elementos. Se mantivermos a ordem, obtemos listas como

\[ (a,b),(b,a),(a,c),(c,a),\dots \]

e o princípio multiplicativo dá \(4\cdot 3=12\) listas ordenadas.

Mas, se estamos apenas escolhendo uma dupla, as listas \((a,b)\) e \((b,a)\) representam a mesma escolha \(\{ a,b\} \). O mesmo acontece com toda dupla: cada subconjunto de dois elementos foi contado exatamente

\[ 2!=2 \]

vezes. Por isso o número de duplas é

\[ \frac{4\cdot 3}{2!}=6. \]

O mesmo argumento vale no caso geral. Há \(A(n,r)\) maneiras de escolher e ordenar \(r\) elementos. Fixe um subconjunto com \(r\) elementos. Ele pode ser ordenado de

\[ r! \]

maneiras, e todas essas ordenações representam a mesma combinação quando a ordem é esquecida. Assim, na contagem por arranjos, cada combinação aparece exatamente \(r!\) vezes. Dividindo por esse fator,

\[ \binom {n}{r} = \frac{A(n,r)}{r!} = \frac{n!}{r!(n-r)!}. \]

A diferença entre arranjos e combinações está, portanto, na informação preservada: o arranjo registra os elementos escolhidos e sua ordem; a combinação registra apenas o subconjunto escolhido.

Exemplo 5.13 (Exercício resolvido)
Quantos subconjuntos de três elementos possui o conjunto
\[ \{ a,b,c,d,e,f\} ? \]

Solução
A ordem não importa, portanto
\[ \binom {6}{3}=20. \]

Exemplo 5.14 (Exercício resolvido)
Entre \(20\) estudantes, dos quais \(11\) são mulheres e \(9\) são homens, queremos formar um comitê com duas mulheres e dois homens. Quantos comitês são possíveis?

Solução
Escolhemos duas mulheres e dois homens:
\[ \binom {11}{2}\binom {9}{2}=55\cdot 36=1980. \]

Exemplo 5.15 (Exercício resolvido)
Uma comissão de \(4\) pessoas será formada a partir de \(6\) matemáticos e \(5\) físicos. Quantas comissões contêm pelo menos dois matemáticos?

Solução

A condição “pelo menos dois” não descreve um único caso. A comissão pode ter exatamente \(2\), \(3\) ou \(4\) matemáticos. Esses casos são disjuntos, então contamos cada um deles e somamos.

Com exatamente dois matemáticos, escolhemos também dois físicos:

\[ \binom 62\binom 52. \]

Com exatamente três matemáticos, escolhemos um físico:

\[ \binom 63\binom 51. \]

Com quatro matemáticos, não escolhemos físicos:

\[ \binom 64. \]

Assim,

\[ \binom 62\binom 52+\binom 63\binom 51+\binom 64 = 15\cdot 10+20\cdot 5+15 = 265. \]

A condição “pelo menos” foi tratada pela decomposição em casos exaustivos e disjuntos.

Exercício 5.13

Quantos subconjuntos de três elementos possui um conjunto com \(8\) elementos?

Ver solução
\(56\).
Exercício 5.14

Dados \(20\) pontos no plano, sem três colineares, quantas retas determinadas por pares desses pontos existem? Quantos triângulos têm vértices entre os \(20\) pontos?

Ver solução
\(190\) retas e \(1140\) triângulos.
Exercício 5.15

Uma equipe de \(5\) pessoas será escolhida dentre \(12\). De quantas maneiras isso pode ser feito?

Ver solução
\(792\).
Exercício 5.16 (difficulty=1)
Uma equipe de \(5\) pessoas será escolhida dentre \(7\) matemáticos e \(6\) físicos. Quantas equipes contêm exatamente \(3\) matemáticos?
Ver solução
\(\binom 73\binom 62=525\).

5.5 Coeficientes binomiais

Os coeficientes binomiais contam subconjuntos de cardinalidade fixada. Essa interpretação combinatória permite obter diversas identidades sem recorrer diretamente à expressão em fatoriais.

5.5.1 Simetria

Escolher \(r\) elementos entre \(n\) equivale a decidir quais \(n-r\) ficarão de fora. De fato, a cada subconjunto \(B\) com \(r\) elementos corresponde exatamente o seu complementar, que possui \(n-r\) elementos, e essa correspondência pode ser invertida. Portanto as duas coleções têm a mesma quantidade de elementos:

\[ \binom {n}{r}=\binom {n}{n-r}. \]

A identidade expressa, portanto, a correspondência entre escolher os elementos de um subconjunto e escolher os elementos de seu complementar.

5.5.2 A identidade de Pascal

Teorema 5.3 (Identidade de Pascal)
Para \(1\leq r\leq n-1\),
\[ \binom {n}{r} = \binom {n-1}{r} + \binom {n-1}{r-1}. \]

Demonstração

Fixe um elemento \(a\) de um conjunto \(A\) com \(n\) elementos e conte os subconjuntos de \(A\) com \(r\) elementos.

Há dois casos disjuntos. Se o subconjunto não contém \(a\), escolhemos os \(r\) elementos entre os outros \(n-1\), obtendo \(\binom {n-1}{r}\) possibilidades. Se contém \(a\), escolhemos os outros \(r-1\) elementos entre os \(n-1\) restantes, obtendo \(\binom {n-1}{r-1}\) possibilidades.

Pelo princípio aditivo, somamos os dois casos.

A demonstração consiste em particionar os subconjuntos em dois casos disjuntos, conforme contenham ou não o elemento fixado. A identidade de Pascal é, assim, uma aplicação direta do princípio aditivo.

A identidade de Pascal gera o triângulo

\[ \begin{array}{ccccccccc}& & & & 1\\ & & & 1& & 1\\ & & 1& & 2& & 1\\ & 1& & 3& & 3& & 1\\ 1& & 4& & 6& & 4& & 1 \end{array} \]

no qual cada entrada interna é a soma das duas entradas imediatamente acima.

5.5.3 O binômio de Newton

Considere inicialmente o caso

\[ (a+b)^3=(a+b)(a+b)(a+b). \]

Para obter um termo \(ab^2\), precisamos escolher \(b\) em exatamente dois dos três fatores e \(a\) no fator restante. Há três maneiras de escolher quais dois fatores fornecerão o \(b\), por isso o termo \(ab^2\) aparece com coeficiente \(3\). Da mesma forma, o coeficiente de \(a^2b\) também é \(3\).

No caso geral, cada termo da expansão é produzido escolhendo, em cada fator, \(a\) ou \(b\). Se o termo final contém exatamente \(k\) fatores \(b\), basta escolher quais \(k\) dos \(n\) fatores forneceram esses \(b\). Existem \(\binom nk\) escolhas.

Teorema 5.4 (Binômio de Newton)
Para todo inteiro \(n\geq 0\),
\[ (a+b)^n = \sum _{k=0}^{n}\binom {n}{k}a^{n-k}b^k. \]

Demonstração

Na expansão de

\[ (a+b)^n=(a+b)\cdots (a+b), \]

um termo \(a^{n-k}b^k\) aparece sempre que escolhemos o termo \(b\) em exatamente \(k\) dos \(n\) fatores. Há \(\binom nk\) maneiras de fazer essa escolha. Portanto, esse é o coeficiente de \(a^{n-k}b^k\).

Exemplo 5.16 (Exercício resolvido)
Expanda \((x+2)^4\).

Solução
Em cada termo da expansão de \((x+2)^4\), escolhemos em quantos dos quatro fatores aparecerá o termo \(2\). Assim,
\[ \begin{aligned} (x+2)^4 & =\binom 40x^4 +\binom 41x^3(2) +\binom 42x^2(2^2) +\binom 43x(2^3) +\binom 44 2^4\\ & =x^4+8x^3+24x^2+32x+16. \end{aligned} \]
Os coeficientes \(1,4,6,4,1\) são justamente a quarta linha dos coeficientes binomiais.

Exercício 5.17

Use a identidade de Pascal para calcular \(\binom 83\) a partir da linha anterior.

Ver solução
\(35+21=56\).
Exercício 5.18

Mostre combinatoriamente que

\[ \sum _{k=0}^n\binom nk=2^n. \]
Ver solução
Conte os subconjuntos de \(\{ 1,2,\dots ,n\} \) de duas maneiras. Cada elemento pode ou não pertencer ao subconjunto, o que dá \(2^n\) subconjuntos. Por outro lado, para cada \(k=0,1,\dots ,n\) há \(\binom nk\) subconjuntos com \(k\) elementos; somando sobre \(k\) obtemos \(\sum _{k=0}^n\binom nk\). Logo as duas contagens coincidem.
Exercício 5.19

Expanda \((x+y)^5\) usando o binômio de Newton.

Ver solução
\((x+y)^5=x^5+5x^4y+10x^3y^2+10x^2y^3+5xy^4+y^5\), pois os coeficientes \(\binom 5k\), \(k=0,\dots ,5\), são \(1,5,10,10,5,1\).
Exercício 5.20

Determine o coeficiente de \(x^4\) na expansão de \((1+x)^9\).

Ver solução
\(126\).
Exercício 5.21 (difficulty=1)
Mostre que
\[ \sum _{k=0}^n(-1)^k\binom nk=0 \qquad (n\geq 1). \]
Ver solução
Dica: aplique o binômio de Newton a \((1-1)^n\). Como \((1+(-1))^n=\sum _{k=0}^n\binom nk(-1)^k\cdot 1^{n-k}\) e \((1-1)^n=0\) para \(n\geq 1\), a soma é zero.

5.6 Aprofundamento: o método de barras e estrelas

Certas equações em números inteiros podem ser interpretadas como problemas de distribuição de objetos idênticos entre caixas distintas. Nessa representação, as soluções correspondem a escolhas de posições para separadores.

Considere as soluções inteiras positivas de

\[ x_1+x_2+\cdots +x_r=n, \qquad n\geq r. \]

Disponha \(n\) objetos idênticos em uma fila. Uma divisão em \(r\) grupos não vazios é determinada pela escolha de \(r-1\) das \(n-1\) lacunas entre objetos consecutivos, nas quais são colocados separadores.

Por exemplo, a solução \((3,2,1)\) de \(x+y+z=6\) pode ser representada por

\[ \bullet \ \bullet \ \bullet \mid \bullet \ \bullet \mid \bullet . \]

Teorema 5.5
O número de soluções inteiras positivas de
\[ x_1+x_2+\cdots +x_r=n \]
é
\[ \binom {n-1}{r-1}. \]

Demonstração

Há \(n-1\) lacunas entre os \(n\) objetos. Escolher \(r-1\) delas determina univocamente os \(r\) blocos. Logo há \(\binom {n-1}{r-1}\) soluções.

Exemplo 5.17 (Exercício resolvido)
De quantas maneiras \(10\) ambulâncias idênticas podem ser distribuídas entre \(5\) instituições, se cada instituição deve receber pelo menos uma?

Solução
Queremos as soluções positivas de
\[ x_1+x_2+x_3+x_4+x_5=10. \]
Logo,
\[ \binom 94=126. \]

O caso das soluções não negativas pode ser reduzido ao anterior. Como algumas variáveis podem assumir o valor zero, adicionamos uma unidade a cada uma delas. Defina

\[ y_i=x_i+1. \]

Então \(x_i\geq 0\) se, e somente se, \(y_i\geq 1\), e

\[ x_1+\cdots +x_r=n \]

se transforma em

\[ y_1+\cdots +y_r=n+r. \]

Essa transformação é reversível: de uma solução positiva em \(y_1,\dots ,y_r\) recuperamos uma única solução não negativa tomando \(x_i=y_i-1\). Portanto os dois conjuntos de soluções têm o mesmo tamanho. Aplicando o resultado anterior à soma \(n+r\), obtemos

\[ \binom {(n+r)-1}{r-1}. \]

Proposição 5.6
O número de soluções inteiras não negativas de
\[ x_1+x_2+\cdots +x_r=n \]
é
\[ \binom {n+r-1}{r-1}. \]

Exemplo 5.18 (Exercício resolvido)
De quantas maneiras podemos distribuir \(18\) livros idênticos entre quatro salas, se a primeira sala deve receber pelo menos \(5\) livros e cada uma das outras três deve receber pelo menos \(2\)?

Solução

Se \(x_i\) é o número de livros enviados à sala \(i\), queremos contar as soluções de

\[ x_1+x_2+x_3+x_4=18 \]

sujeitas às restrições

\[ x_1\geq 5,\qquad x_2,x_3,x_4\geq 2. \]

Retiramos primeiro as quantidades obrigatórias. Escreva

\[ y_1=x_1-5,\qquad y_2=x_2-2,\qquad y_3=x_3-2,\qquad y_4=x_4-2. \]

Então \(y_1,y_2,y_3,y_4\geq 0\) e

\[ y_1+y_2+y_3+y_4=18-(5+2+2+2)=7. \]

Agora temos um problema padrão de soluções não negativas. Portanto,

\[ \binom {7+4-1}{4-1} = \binom {10}{3} = 120. \]

A mesma substituição trata limites inferiores distintos: retiram-se primeiro as quantidades obrigatórias e aplica-se, ao restante, a fórmula para soluções não negativas.

Exercício 5.22

Quantas soluções inteiras positivas possui \(x+y+z+w=23\)?

Ver solução
\(\binom {22}{3}=1540\).
Exercício 5.23

Quantas soluções inteiras não negativas possui \(x+y+z+w=23\)?

Ver solução
\(\binom {26}{3}=2600\).
Exercício 5.24

Um apostador possui \(18\) fichas idênticas e deseja distribuí-las entre \(4\) apostas, colocando pelo menos uma ficha em cada uma. De quantas maneiras pode fazer isso?

Ver solução
\(\binom {17}{3}=680\).
Exercício 5.25 (difficulty=1)
Quantas soluções inteiras satisfazem
\[ x+y+z=20,\qquad x\geq 2,\quad y\geq 3,\quad z\geq 1? \]
Ver solução
Faça \(u=x-1\), \(v=y-2\), \(w=z\). Então \(u,v,w\geq 1\) e \(u+v+w=17\), dando \(\binom {16}{2}=120\) soluções.