Grupo Fundamental e Espaços de Recobrimento
Os capítulos anteriores trataram de propriedades como compacidade, conexidade e separação, formuladas diretamente em termos topológicos. Neste capítulo, estudaremos um invariante algébrico: um grupo associado ao espaço por meio das classes de homotopia de laços.
O grupo fundamental permite estudar deformações de laços que mantêm fixo o ponto base. Os espaços de recobrimento fornecem um método para calcular esse grupo: laços no espaço de base podem ser levantados a caminhos no espaço de recobrimento. No exemplo
um laço no círculo é levantado a um caminho na reta. Fixado o ponto inicial do levantamento, sua extremidade determina o número de voltas do laço.
A ordem dos resultados será
Terminaremos com o cálculo do grupo fundamental do espaço projetivo real. Esses cálculos apresentam métodos básicos da topologia algébrica.
13.1 Homotopia e caminhos
Denotaremos por
o intervalo unitário.
Sejam \(X\) e \(Y\) espaços topológicos e \(f,g:X\to Y\) contínuas. Uma homotopia de \(f\) em \(g\) é uma aplicação contínua
tal que
para todo \(x\in X\).
Nesse caso escrevemos
Para cada \(s\in I\), a aplicação
é contínua. Assim, uma homotopia pode ser vista como uma deformação contínua da aplicação \(f\) na aplicação \(g\). A palavra “contínua” é essencial: não basta ter uma coleção arbitrária de aplicações \(H_s\).
A reflexividade é dada por
Se \(H\) é uma homotopia de \(f\) em \(g\), então
é uma homotopia de \(g\) em \(f\).
Para a transitividade, sejam \(H\) uma homotopia de \(f\) em \(g\) e \(K\) uma homotopia de \(g\) em \(h\). Defina
As duas expressões coincidem em \(s=1/2\), onde ambas valem \(g(x)\). O lema da colagem garante a continuidade de \(L\).
Uma aplicação contínua \(f:X\to Y\) é nul-homotópica se é homotópica a uma aplicação constante.
Um espaço \(X\) é contrátil se a identidade
é nul-homotópica.
Para o grupo fundamental, precisamos de uma forma mais rígida de homotopia.
Dois caminhos \(\alpha ,\beta :I\to X\) com os mesmos extremos são homotópicos com extremos fixos se são homotópicos relativamente ao conjunto \(\{ 0,1\} \).
Escreveremos
13.1.1 Concatenação e inversão
Se \(\alpha \) é um caminho de \(x\) a \(y\), seu caminho inverso é
que vai de \(y\) a \(x\).
Se \(\alpha \) vai de \(x\) a \(y\) e \(\beta \) vai de \(y\) a \(z\), a concatenação é
A concatenação não é literalmente associativa como operação sobre caminhos parametrizados. As duas expressões
percorrem os mesmos trechos, mas com velocidades diferentes. A associatividade aparecerá depois de passarmos a classes de homotopia.
Defina
O argumento de \(\alpha \) permanece em \(I\), e os extremos \(t=0\) e \(t=1\) ficam fixos durante toda a deformação.
Para a associatividade, considere o caminho \(\delta \) que percorre \(\alpha \), \(\beta \) e \(\gamma \), nessa ordem, reservando um terço do intervalo para cada trecho. Tanto \((\alpha *\beta )*\gamma \) quanto \(\alpha *(\beta *\gamma )\) são reparametrizações de \(\delta \) que preservam \(0\) e \(1\). O Lema 13.7 mostra que ambos são homotópicos a \(\delta \) com extremos fixos.
As identidades envolvendo \(c_x\) e \(c_y\) seguem do mesmo lema: concatenar um caminho constante apenas introduz um intervalo de espera no início ou no fim.
Para a identidade com o inverso, suponha que \(\alpha \) vá de \(x\) a \(y\). A homotopia
começa em \(\alpha *\overline\alpha \) e termina no caminho constante \(c_x\). As duas expressões coincidem em \(t=1/2\), e os extremos permanecem em \(x\) durante toda a homotopia. A outra identidade é obtida aplicando o mesmo argumento a \(\overline\alpha \).
Se \(H\) e \(K\) são as duas homotopias, defina
As duas partes coincidem em \(t=1/2\), e o lema da colagem conclui a prova.
13.2 O grupo fundamental
Fixe um ponto \(x_0\in X\).
Denotaremos por \([\alpha ]\) a classe de homotopia com extremos fixos de um laço.
A concatenação de caminhos não satisfaz, antes da passagem ao quociente, as identidades de grupo. Essas identidades valem para as classes de homotopia com extremos fixos, como foi estabelecido na demonstração.
Em um espaço conexo por caminhos, o ponto base não altera a classe de isomorfismo do grupo.
A aplicação está bem definida e é um homomorfismo pelas propriedades da concatenação. Sua inversa é \(\Phi _{\overline\lambda }\), pois os trechos \(\lambda *\overline\lambda \) e \(\overline\lambda *\lambda \) são homotópicos a caminhos constantes.
Por isso escrevemos frequentemente \(\pi _1(X)\) quando \(X\) é conexo por caminhos e o ponto base não é relevante.
13.2.1 Aplicações contínuas e invariância
Uma aplicação contínua entre espaços pontuados induz um homomorfismo entre seus grupos fundamentais.
Se
é contínua e \(f(x_0)=y_0\), então
é um homomorfismo.
Além disso,
e
Se \(\alpha \simeq _{\mathrm{ef}}\beta \), então uma homotopia entre eles pode ser composta com \(f\), produzindo uma homotopia com extremos fixos entre \(f\circ \alpha \) e \(f\circ \beta \). Assim \(f_*\) está bem definida.
Também
o que prova que \(f_*\) é um homomorfismo. As demais identidades seguem diretamente da definição.
De fato,
e
Se
contrai \(X\) ao ponto \(a\), então o caminho
liga cada \(x\in X\) a \(a\). Logo \(X\) é conexo por caminhos.
Fixe \(x_0\in X\) e escreva
um caminho de \(x_0\) a \(a\). Se \(\alpha \) é um laço baseado em \(x_0\), considere
A borda desse quadrado é, a menos de reparametrização, o laço
baseado em \(a\). Como o próprio quadrado fornece um preenchimento dessa borda, esse laço é nul-homotópico. Portanto
Como \(\Phi _\lambda \) é um isomorfismo pela Proposição 13.14, segue que \([\alpha ]=1\).
As projeções \(\pi _X:X\times Y\to X\) e \(\pi _Y:X\times Y\to Y\) induzem
Na direção oposta, defina
Homotopias nas duas coordenadas produzem uma homotopia no produto, de modo que \(\Theta \) está bem definida. As duas aplicações preservam concatenação e são inversas uma da outra.
13.2.2 Esferas de dimensão pelo menos dois
O círculo fornecerá um exemplo de grupo fundamental não trivial. Demonstraremos primeiro que as esferas de dimensão pelo menos dois têm grupo fundamental trivial.
Veja \(\mathbb {S}^n\) como a esfera unitária de \(\mathbb {R}^{n+1}\) com o produto interno euclidiano. Seja \(\alpha :I\to \mathbb {S}^n\) um laço. Como \(\alpha \) é uniformemente contínua, podemos escolher uma partição
tão fina que, para cada \(j\), a imagem de \([t_{j-1},t_j]\) esteja contida no hemisfério aberto
Em cada subintervalo, ligue \(\alpha (t_{j-1})\) a \(\alpha (t_j)\) pelo arco
O denominador não se anula porque os extremos pertencem ao mesmo hemisfério aberto. Os arcos se colam e formam um laço \(\beta \).
Além disso, para cada \(t\in [t_{j-1},t_j]\), os pontos \(\alpha (t)\) e \(\beta (t)\) pertencem ao mesmo hemisfério \(H_j\) e, portanto, não são antipodais. Assim
está bem definida em cada subintervalo. Essas fórmulas concordam nos pontos \(t_j\) e fornecem uma homotopia com extremos fixos entre \(\alpha \) e \(\beta \).
A imagem de \(\beta \) está contida em uma união finita de grandes círculos. Cada um deles é a interseção de \(\mathbb {S}^n\) com um subespaço linear próprio de \(\mathbb {R}^{n+1}\). Uma união finita de subespaços lineares próprios não cobre \(\mathbb {R}^{n+1}\); logo existe
A projeção estereográfica identifica
Nesse espaço, \(\beta \) é nul-homotópico pela interpolação linear. Como \(\alpha \simeq _{\mathrm{ef}}\beta \), o laço \(\alpha \) também é nul-homotópico.
13.3 Espaços de recobrimento
A definição seguinte abstrai exatamente o comportamento da aplicação
Uma aplicação contínua e sobrejetiva
é uma aplicação de recobrimento se, para todo \(x\in X\), existe um aberto \(U\ni x\) tal que
onde cada \(V_\lambda \) é aberto em \(\widetilde X\) e
é um homeomorfismo.
Nesse caso, \(\widetilde X\) é um espaço de recobrimento de \(X\).
O aberto \(U\) é dito distinguido, e os conjuntos \(V_\lambda \) são as folhas do recobrimento sobre \(U\).
A definição diz que, localmente no espaço de base, o recobrimento é apenas uma coleção disjunta de cópias do mesmo aberto.
Dado \(\widetilde x\in \widetilde X\), escolha um aberto distinguido \(U\) contendo \(p(\widetilde x)\) e a folha \(V\) que contém \(\widetilde x\). Então
é um homeomorfismo. Logo \(p\) é um homeomorfismo local.
Se \(A\subset \widetilde X\) é aberto e \(\widetilde x\in A\), então
é uma vizinhança aberta de \(p(\widetilde x)\) contida em \(p(A)\). Portanto \(p(A)\) é aberto.
Se \(\widetilde x\in p^{-1}(x)\) e \(V\) é uma folha sobre um aberto distinguido \(U\ni x\), então
pois \(p|_V\) é injetiva. Logo a fibra é discreta.
Sobre um mesmo aberto distinguido \(U\), cada ponto possui exatamente um ponto da fibra em cada folha. Portanto a cardinalidade da fibra é constante em \(U\).
13.3.1 Exemplos
A aplicação
é um recobrimento de infinitas folhas.
Todo ponto do círculo possui um arco aberto pequeno o bastante para admitir uma determinação contínua do argumento. A imagem inversa desse arco é uma união disjunta de intervalos, e cada intervalo se projeta homeomorficamente sobre o arco.
Nem todo homeomorfismo local é um recobrimento.
13.4 Levantamento de caminhos
Para caminhos, aplicações de recobrimento garantem existência e unicidade depois de escolhido o ponto inicial.
As imagens inversas, por \(\alpha \), dos abertos distinguidos formam uma cobertura aberta de \(I\). Pelo lema do número de Lebesgue para coberturas abertas de um intervalo compacto, existe uma partição
tão fina que, para cada \(j\),
está contido em algum aberto distinguido \(U_j\).
No primeiro intervalo, escolha a folha \(V_1\) que contém \(\widetilde x_0\) e defina
Indutivamente, ao chegar a \(t_{j-1}\), existe uma única folha \(V_j\) sobre \(U_j\) que contém \(\widetilde\alpha (t_{j-1})\), e usamos a mesma fórmula com \(V_j\). O lema da colagem fornece um caminho contínuo em todo o intervalo.
Para a unicidade, sejam \(\widetilde\alpha _1\) e \(\widetilde\alpha _2\) dois levantamentos com o mesmo ponto inicial. O conjunto
é não vazio. Se \(t\in A\), escolha uma vizinhança distinguida \(U\) de \(\alpha (t)\) e a folha \(V\) que contém o valor comum dos dois levantamentos. Para \(s\) suficientemente próximo de \(t\), ambos permanecem em \(V\) e são dados por
Logo \(A\) é aberto.
Se \(t\notin A\), os dois valores pertencem a folhas distintas sobre alguma vizinhança distinguida de \(\alpha (t)\). Pela continuidade dos levantamentos, eles permanecem nessas folhas distintas para \(s\) próximo de \(t\). Portanto \(I\setminus A\) também é aberto. Como \(I\) é conexo,
A demonstração estabelece também a unicidade: fixado o ponto inicial, o caminho levantado fica inteiramente determinado.
Seja
Em torno de um ponto de \(A\), os dois levantamentos caem na mesma folha de uma vizinhança distinguida de \(f(y)\) e são dados pela mesma inversa local de \(p\); logo \(A\) é aberto. Em torno de um ponto fora de \(A\), os dois valores pertencem a folhas distintas e continuam separados em uma vizinhança; portanto \(Y\setminus A\) também é aberto. Como \(Y\) é conexo e \(A\) é não vazio, \(A=Y\).
13.5 Levantamento de homotopias
Para que o ponto final de um levantamento dependa apenas da classe de homotopia do caminho, precisamos levantar famílias contínuas de caminhos.
Para cada \(y\in Y\), levante o caminho
a partir de \(\widetilde f(y)\). Isso define uma única candidata \(\widetilde H(y,t)\).
Resta verificar a continuidade conjunta. Fixe \(y_0\in Y\). A imagem compacta
pode ser percorrida em finitos trechos, cada um contido em um aberto distinguido. Assim, para alguma partição
há abertos distinguidos \(U_j\) tais que
Pela continuidade de \(H\) e pela compacidade de cada intervalo fechado, podemos escolher uma vizinhança \(N\) de \(y_0\) tal que
para todo \(j\). Encolhendo \(N\) se necessário, a continuidade de \(\widetilde f\) garante ainda que \(\widetilde f(N)\) esteja na mesma folha de \(p^{-1}(U_1)\) que contém \(\widetilde f(y_0)\).
No primeiro trecho, portanto,
para uma folha fixa \(V_1\). No extremo \(t_1\), a imagem de \(N\) cai continuamente em uma única folha sobre \(U_2\) depois de um novo encolhimento de \(N\). Repetindo o argumento finitas vezes, obtemos, em cada faixa \(N\times [t_{j-1},t_j]\), uma expressão contínua dada pela inversa de uma folha fixa. As expressões coincidem nos extremos pela unicidade do levantamento e, pelo lema da colagem, \(\widetilde H\) é contínua em \(N\times I\).
Como \(y_0\) foi arbitrário, a continuidade vale em todo \(Y\times I\).
A unicidade segue, para cada \(y\), da unicidade do levantamento do caminho \(t\mapsto H(y,t)\).
Levante uma homotopia com extremos fixos entre \(\alpha \) e \(\beta \). As bordas verticais da homotopia levantada permanecem em fibras. Como fibras são discretas e \(I\) é conexo, essas bordas são constantes.
Esse corolário permite relacionar o levantamento de caminhos às classes de homotopia que definem o grupo fundamental.
13.6 Recobrimentos e o grupo fundamental
Fixe um recobrimento pontuado
Suponha
Então o laço \(p\circ \widetilde\alpha \) é homotópico, com extremos fixos, ao laço constante em \(x_0\). Levante essa homotopia começando em \(\widetilde\alpha \).
A borda esquerda da homotopia levantada projeta no caminho constante em \(x_0\) e começa em \(\widetilde x_0\); pela unicidade, ela permanece constantemente em \(\widetilde x_0\). Assim, no instante final, obtemos um levantamento do laço constante começando em \(\widetilde x_0\). Pela unicidade, esse levantamento é o próprio laço constante. As duas bordas verticais permanecem fixas, de modo que a homotopia levantada é uma homotopia com extremos fixos. Logo \(\widetilde\alpha \) é nul-homotópico e
Se \(\widetilde\alpha \) é um laço, então
Reciprocamente, suponha
para algum laço \(\widetilde\beta \) baseado em \(\widetilde x_0\). Os caminhos \(\alpha \) e \(p\circ \widetilde\beta \) são homotópicos com extremos fixos. Seus levantamentos a partir de \(\widetilde x_0\) terminam no mesmo ponto pelo Corolário 13.32. Como \(\widetilde\beta \) é fechado, \(\widetilde\alpha \) também é.
13.7 O grupo fundamental do círculo
Voltamos agora ao recobrimento
Escolha \(1\in \mathbb {S}^1\) como ponto base. Se \(\alpha \) é um laço baseado em \(1\), seja \(\widetilde\alpha \) seu levantamento começando em \(0\). Como
temos
Se \(\alpha \) e \(\beta \) são homotópicos com extremos fixos, seus levantamentos começando em \(0\) terminam no mesmo ponto pelo Corolário 13.32. Logo \(w\) depende apenas da classe \([\alpha ]\).
Se
o levantamento de \(\beta \) que começa em \(m\) é
Portanto o levantamento de \(\alpha *\beta \) começando em \(0\) termina em \(m+n\). Assim
Para cada \(n\in \mathbb {Z}\), considere
Seu levantamento começando em \(0\) é
logo
Portanto \(w\) é sobrejetiva.
Se
o levantamento \(\widetilde\alpha \) começa e termina em \(0\). Como \(\mathbb {R}\) é convexo, a homotopia linear
contrai \(\widetilde\alpha \) ao laço constante e mantém os dois extremos em \(0\). Compondo com \(p\), obtemos uma nul-homotopia de \(\alpha \) com extremos fixos. Assim
e \(w\) é injetiva.
O isomorfismo associa a cada classe de laços no círculo seu número de voltas. A concatenação de laços corresponde à soma dos inteiros associados.
13.7.1 Uma aplicação: o disco não retrai sobre o círculo
Se existisse uma retração, teríamos
Aplicando o grupo fundamental,
Mas
pois o disco é contrátil. Logo \(i_*\) é o homomorfismo nulo, e \(r_*\circ i_*\) também seria nulo. Isso contradiz
Esse é o primeiro exemplo em que um invariante algébrico fornece uma obstrução concreta à existência de uma aplicação contínua.
13.8 O grupo fundamental do espaço projetivo
O método de levantamento de caminhos permite também calcular o grupo fundamental do espaço projetivo real.
Considere o recobrimento de duas folhas
Fixe \(x_0\in \mathbb {S}^n\) e use \([x_0]\) como ponto base em \(\mathbb {P}^n\).
Se \(\alpha \) é um laço em \(\mathbb {P}^n\) baseado em \([x_0]\), seu levantamento \(\widetilde\alpha \) começando em \(x_0\) termina necessariamente em um dos dois pontos da fibra:
Pelo levantamento de homotopias, esse ponto final depende apenas da classe \([\alpha ]\).
Defina
A aplicação está bem definida pelo levantamento de homotopias.
Ela é um homomorfismo. Se \(\widetilde\beta \) é o levantamento de \(\beta \) que começa em \(x_0\), então o levantamento de \(\beta \) que começa em \(-x_0\) é \(-\widetilde\beta \), pois a transformação antipodal comuta com \(q\). Assim, ao levantar \(\alpha *\beta \), o segundo trecho preserva ou troca a folha exatamente como o levantamento de \(\beta \) a partir de \(x_0\). Consequentemente,
Ele é sobrejetivo: escolha um caminho em \(\mathbb {S}^n\) de \(x_0\) até \(-x_0\); sua projeção é um laço cujo levantamento termina em \(-x_0\).
Resta mostrar que o núcleo é trivial. Se o levantamento de \(\alpha \) termina em \(x_0\), então ele é um laço em \(\mathbb {S}^n\). Como \(n\ge 2\),
pelo Teorema 13.19. Logo \(\widetilde\alpha \) é nul-homotópico, e sua projeção \(\alpha \) também é. Portanto \(\varepsilon \) é injetiva.
13.9 Daqui em diante: topologia algébrica
A teoria de recobrimentos prossegue em várias direções. Sob hipóteses locais naturais, pode-se construir um recobrimento universal e classificar os recobrimentos conexos por subgrupos do grupo fundamental. Transformações de deck, ações sobre fibras e o teorema de Seifert–van Kampen pertencem à continuação natural da teoria.
Os resultados desenvolvidos neste capítulo relacionam as seguintes noções:
O grupo fundamental não determina toda a topologia do espaço:
e \(\mathbb {S}^2\) não é contrátil. Os exemplos estudados mostram, porém, que ele distingue o círculo de um ponto, impede uma retração do disco sobre sua fronteira e distingue a esfera do espaço projetivo. Esses resultados ilustram o uso de invariantes algébricos no estudo de problemas topológicos.
13.10 Exercícios
Verifique diretamente que homotopia relativa a um subconjunto é uma relação de equivalência. Complete os detalhes da Proposição 13.8, escrevendo homotopias explícitas para e Mostre que Prove que a mudança de ponto base da Proposição 13.14 é um homomorfismo. Use a Proposição 13.18 para mostrar que todo produto finito de espaços simplesmente conexos é simplesmente conexo. Complete os detalhes da prova de que justificando a aproximação do laço por uma cadeia finita de arcos geodésicos. Verifique que é um recobrimento de \(m\) folhas. Mostre diretamente que a fibra de uma aplicação de recobrimento é discreta. Analise por que é um homeomorfismo local mas não um recobrimento. Complete os detalhes da prova da unicidade do levantamento de caminhos, mostrando que o conjunto de coincidência e seu complemento são abertos. Seja Determine explicitamente seu levantamento para \(\mathbb {R}\) depois de escolhido o ponto inicial. Mostre que o número de voltas satisfaz Para determine o homomorfismo sob a identificação Use e a Proposição 13.18 para mostrar que Use o Teorema 13.38 para provar o teorema do ponto fixo de Brouwer no disco: toda aplicação contínua possui um ponto fixo. No recobrimento antipodal descreva explicitamente a classe não trivial de Mostre que o cilindro tem o mesmo grupo fundamental do círculo. Mostre que o anel é homeomorfo a \(\mathbb {S}^1\times I\) e conclua que Explique por que o grupo fundamental não pode distinguir \(\mathbb {S}^2\) de um ponto, embora esses espaços não sejam homeomorfos.
As classes de homotopia de laços definem o grupo fundamental. O levantamento de caminhos em recobrimentos permite estudar essas classes por meio das extremidades dos caminhos levantados. No círculo, esse procedimento fornece o isomorfismo com o grupo dos inteiros, expresso pelo número de voltas.
A associação entre deformações contínuas e estruturas algébricas, utilizada nesses cálculos, é um dos métodos básicos da topologia algébrica.