Capítulo 12

Espaços Métricos Completos

Metrizabilidade e completude são propriedades distintas. A primeira exige a existência de uma métrica que induza a topologia dada. A segunda se refere a uma métrica escolhida e exige que toda sequência de Cauchy tenha limite no espaço.

Essa distinção é essencial. O intervalo \((0,1)\) com a métrica usual não é completo, embora seja homeomorfo a \(\mathbb R\) e, portanto, admita uma métrica compatível completa. Depois de estudar completamentos, veremos duas consequências centrais da completude: o Teorema do Ponto Fixo de Banach e o Teorema de Baire.

12.1 Sequências de Cauchy e completude

Definição 12.1 (Sequência de Cauchy)
Seja \((X,d)\) um espaço métrico. Uma sequência \((x_n)\) é de Cauchy quando, para todo \(\varepsilon \gt 0\), existe \(N\) tal que
\[ m,n\geq N \quad \Longrightarrow \quad d(x_m,x_n)\lt \varepsilon . \]

Definição 12.2 (Espaço completo)
Um espaço métrico \((X,d)\) é completo quando toda sequência de Cauchy em \(X\) converge para um ponto de \(X\).

Toda sequência convergente é de Cauchy. A recíproca caracteriza precisamente a completude.

Proposição 12.3
Toda sequência de Cauchy em um espaço métrico é limitada.

Demonstração

Se \((x_n)\) é de Cauchy, existe \(N\) tal que

\[ m,n\geq N\Longrightarrow d(x_m,x_n)\lt 1. \]

Em particular, para \(n\geq N\) temos \(d(x_n,x_N)\lt 1\). Os termos anteriores a \(x_N\) são finitos em número. Logo toda a sequência está contida em alguma bola centrada em \(x_N\).

Proposição 12.4
Se \(A\) é um subespaço de um espaço métrico \((X,d)\), então:
  1. se \(X\) é completo e \(A\) é fechado, então \(A\) é completo;

  2. se \(A\) é completo, então \(A\) é fechado em \(X\).

Demonstração

Se \((a_n)\) é de Cauchy em \(A\), então também é de Cauchy em \(X\). Pela completude de \(X\), existe \(x\in X\) com \(a_n\to x\). Como \(A\) é fechado, \(x\in A\).

Reciprocamente, suponha \(A\) completo e seja \(x\in \overline A\). Para cada \(n\geq 1\), escolha \(a_n\in A\) com \(d(a_n,x)\lt 1/n\). Então \(a_n\to x\) em \(X\), logo \((a_n)\) é de Cauchy em \(A\). Pela completude de \(A\), existe \(a\in A\) com \(a_n\to a\). A unicidade do limite em espaços métricos dá \(x=a\in A\).

Definição 12.5 (Completamente metrizável)
Um espaço topológico é completamente metrizável quando admite alguma métrica compatível que seja completa.

Exemplo 12.6
O intervalo \((0,1)\) com a métrica usual não é completo. Entretanto, a aplicação
\[ h:(0,1)\longrightarrow \mathbb R, \qquad h(x)=\log \frac{x}{1-x}, \]
é um homeomorfismo. A métrica
\[ \rho (x,y)=|h(x)-h(y)| \]
é compatível com a topologia usual de \((0,1)\) e é completa, pois \(h\) é uma isometria de \(((0,1),\rho )\) sobre \(\mathbb R\).

O exemplo mostra que a completude de uma métrica não é determinada apenas pela topologia que ela induz. A existência de alguma métrica compatível completa, por outro lado, é uma propriedade topológica.

12.2 Completamento

Definição 12.7 (Completamento)
Um completamento de um espaço métrico \((X,d)\) é um espaço métrico completo \((\widehat X,\widehat d)\) juntamente com uma isometria
\[ \iota :X\longrightarrow \widehat X \]
cuja imagem é densa.

A construção é análoga à passagem dos racionais aos reais: pontos ausentes são representados por sequências de Cauchy.

Seja \(\mathcal C\) o conjunto de todas as sequências de Cauchy em \(X\). Para \((x_n),(y_n)\in \mathcal C\), defina

\[ (x_n)\sim (y_n) \quad \Longleftrightarrow \quad d(x_n,y_n)\longrightarrow 0. \]

É imediato verificar que \(\sim \) é uma relação de equivalência.

Lema 12.8
Se \((x_n)\) e \((y_n)\) são sequências de Cauchy em \(X\), então a sequência real \(d(x_n,y_n)\) converge.

Demonstração

Pela desigualdade triangular,

\[ \bigl|d(x_n,y_n)-d(x_m,y_m)\bigr| \leq d(x_n,x_m)+d(y_n,y_m). \]

O lado direito tende a zero quando \(m,n\to \infty \). Logo \((d(x_n,y_n))\) é uma sequência de Cauchy em \(\mathbb R\), que é completo.

Defina

\[ \widehat X=\mathcal C/{\sim } \]

e, para classes \(\xi =[(x_n)]\) e \(\eta =[(y_n)]\),

\[ \widehat d(\xi ,\eta ) = \lim _{n\to \infty }d(x_n,y_n). \]

Proposição 12.9
A função \(\widehat d\) está bem definida e é uma métrica em \(\widehat X\).

Demonstração

O Lema 12.8 garante a existência do limite. Se \((x_n)\sim (x'_n)\) e \((y_n)\sim (y'_n)\), então

\[ \bigl|d(x_n,y_n)-d(x'_n,y'_n)\bigr| \leq d(x_n,x'_n)+d(y_n,y'_n)\longrightarrow 0, \]

logo o valor do limite não depende dos representantes.

As propriedades de simetria e desigualdade triangular passam ao limite. Além disso,

\[ \widehat d([(x_n)],[(y_n)])=0 \]

se, e somente se, \(d(x_n,y_n)\to 0\), isto é, se, e somente se, as duas sequências representam a mesma classe.

Para \(x\in X\), seja \(\iota (x)\) a classe da sequência constante \((x,x,\ldots )\).

Teorema 12.10 (Existência do completamento)
Todo espaço métrico possui um completamento.

Demonstração

A aplicação \(\iota :X\to \widehat X\) é isométrica, pois

\[ \widehat d(\iota (x),\iota (y))=d(x,y). \]

Mostremos primeiro que \(\iota (X)\) é densa. Seja \(\xi =[(x_n)]\in \widehat X\). Para cada \(N\),

\[ \widehat d(\iota (x_N),\xi ) = \lim _{n\to \infty }d(x_N,x_n). \]

Como \((x_n)\) é de Cauchy, esse valor tende a zero quando \(N\to \infty \).

Resta provar que \(\widehat X\) é completo. Seja \((\xi _m)\) uma sequência de Cauchy em \(\widehat X\). Pela densidade de \(\iota (X)\), escolha \(x_m\in X\) de modo que

\[ \widehat d(\iota (x_m),\xi _m)\lt 2^{-m}. \]

Então \((x_m)\) é de Cauchy em \(X\), pois

\[ d(x_m,x_n) \leq 2^{-m} +\widehat d(\xi _m,\xi _n) +2^{-n}. \]

Seja \(\xi =[(x_m)]\in \widehat X\). Como

\[ \widehat d(\iota (x_m),\xi ) = \lim _{n\to \infty }d(x_m,x_n), \]

o lado direito tende a zero quando \(m\to \infty \). Portanto

\[ \widehat d(\xi _m,\xi ) \leq \widehat d(\xi _m,\iota (x_m)) +\widehat d(\iota (x_m),\xi ) \longrightarrow 0. \]

Logo \(\widehat X\) é completo.

Teorema 12.11 (Unicidade do completamento)
Se \((Y,\iota )\) e \((Z,\jmath)\) são dois completamentos de \(X\), existe uma única isometria sobrejetiva
\[ T:Y\longrightarrow Z \]
tal que \(T\circ \iota =\)
\(\).
Teorema
Demonstração

Dado \(\)

yY\(\), escolha uma sequência \((x_n)\) em \(X\) tal que \(\iota (x_n)\to y\). Como \(\iota \) é isométrica, \((x_n)\) é de Cauchy em \(X\); portanto \((\jmath(x_n))\) é de Cauchy em \(Z\) e possui limite. Defina

\[ T(y)=\lim _{n\to \infty }\jmath(x_n). \]

Se outra sequência \((x'_n)\) satisfaz \(\iota (x'_n)\to y\), então \(d(x_n,x'_n)\to 0\), e daí \(d_Z(\jmath(x_n),\jmath(x'_n))\to 0\). Logo \(T\) está bem definida.

Passando ao limite nas igualdades

\[ d_Z(\jmath(x_n),\jmath(u_n)) = d_Y(\iota (x_n),\iota (u_n)), \]

vemos que \(T\) preserva distâncias. Em particular, é injetiva. Sua imagem é completa e, portanto, fechada em \(Z\) pela Proposição 12.4; ela contém o conjunto denso \(\jmath(X)\), logo é todo \(Z\). A condição \(T\circ \iota =\)\(\) determina \(\)T\(\) num conjunto denso e, por continuidade, garante a unicidade.

Demonstração

12.3 O Teorema do Ponto Fixo de Banach

A demonstração do teorema de Banach fornece, além da existência e da unicidade do ponto fixo, um processo iterativo que converge para ele.

Definição 12.12 (Contração)
Uma aplicação \(T:X\to X\) num espaço métrico é uma contração se existe \(q\in [0,1)\) tal que
\[ d(Tx,Ty)\leq q\, d(x,y) \]
para todos \(x,y\in X\).

Teorema 12.13 (Teorema do Ponto Fixo de Banach)
Se \((X,d)\) é completo e \(T:X\to X\) é uma contração, então \(T\) possui um único ponto fixo \(p\). Para qualquer \(x_0\in X\), a sequência iterativa
\[ x_{n+1}=T(x_n) \]
converge para \(p\). Além disso,
\[ d(x_n,p) \leq \frac{q^n}{1-q}\, d(x_1,x_0). \]

Demonstração

Pela propriedade de contração,

\[ d(x_{n+1},x_n) \leq q^n d(x_1,x_0). \]

Se \(m\gt n\), a desigualdade triangular fornece

\[ d(x_m,x_n) \leq \sum _{k=n}^{m-1}d(x_{k+1},x_k) \leq d(x_1,x_0)\sum _{k=n}^{\infty }q^k = \frac{q^n}{1-q}d(x_1,x_0). \]

Logo \((x_n)\) é de Cauchy. Pela completude, existe \(p\in X\) com \(x_n\to p\). Como uma contração é Lipschitz, é contínua, e portanto

\[ T(p)=T\left(\lim x_n\right) =\lim T(x_n) =\lim x_{n+1} =p. \]

Se \(p\) e \(r\) são pontos fixos,

\[ d(p,r)=d(Tp,Tr)\leq q\, d(p,r), \]

o que, como \(q\lt 1\), implica \(d(p,r)=0\). Assim o ponto fixo é único.

Fazendo \(m\to \infty \) na estimativa anterior obtemos

\[ d(x_n,p)\leq \frac{q^n}{1-q}d(x_1,x_0). \]

Exemplo 12.14 (A equação \(x=\cos x\))
Considere \(T(x)=\cos x\) em \([0,1]\). Temos \(T([0,1])\subset [0,1]\) e
\[ |T'(x)|=|\sin x|\leq \sin 1\lt 1. \]
Pelo teorema do valor médio, \(T\) é uma contração. Portanto existe um único \(p\in [0,1]\) tal que \(p=\cos p\), e as iterações
\[ x_{n+1}=\cos x_n \]
convergem para esse ponto a partir de qualquer \(x_0\in [0,1]\).

12.3.1 Uma aplicação a equações diferenciais

O mesmo mecanismo transforma uma equação diferencial em uma equação de ponto fixo.

Proposição 12.15
Se \(K\) é compacto e \(Y\) é um espaço métrico completo, então \(C(K,Y)\), munido da métrica do supremo
\[ d_\infty (f,g)=\sup _{t\in K}d(f(t),g(t)), \]
é completo.

Demonstração

Se \((f_n)\) é de Cauchy para \(d_\infty \), então, para cada \(t\in K\), a sequência \((f_n(t))\) é de Cauchy em \(Y\) e possui um limite \(f(t)\). Dado \(\varepsilon \gt 0\), escolha \(N\) tal que

\[ m,n\geq N \quad \Longrightarrow \quad d_\infty (f_m,f_n)\lt \varepsilon . \]

Fixando \(n\geq N\) e fazendo \(m\to \infty \), obtemos

\[ d(f_n(t),f(t))\leq \varepsilon \]

uniformemente em \(t\). Logo \(f_n\to f\) uniformemente. O limite uniforme de funções contínuas é contínuo, de modo que \(f\in C(K,Y)\) e \(d_\infty (f_n,f)\to 0\).

Teorema 12.16 (Existência e unicidade local para EDOs)
Considere o problema
\[ y'(t)=F(t,y(t)), \qquad y(t_0)=y_0, \]
onde \(F\) é contínua no retângulo
\[ R=[t_0-a,t_0+a]\times [y_0-b,y_0+b] \]
e satisfaz, para alguma constante \(L\),
\[ |F(t,u)-F(t,v)|\leq L|u-v| \]
em \(R\). Então existe \(h\gt 0\) para o qual o problema possui uma única solução em \([t_0-h,t_0+h]\).

Demonstração

Como \(R\) é compacto e \(F\) é contínua, existe

\[ M=\max _{(t,y)\in R}|F(t,y)|. \]

Escolha \(h\gt 0\) com

\[ h\leq a,\qquad hM\leq b,\qquad hL\lt 1. \]

No espaço completo

\[ C([t_0-h,t_0+h],\mathbb R) \]

considere o subconjunto fechado

\[ \mathcal X= \left\{ \varphi : \| \varphi -y_0\| _\infty \leq b\right\} . \]

Defina

\[ (T\varphi )(t) = y_0+\int _{t_0}^{t}F(s,\varphi (s))\, ds. \]

A escolha de \(h\) garante que \(T(\mathcal X)\subset \mathcal X\). Além disso,

\[ \| T\varphi -T\psi \| _\infty \leq hL\, \| \varphi -\psi \| _\infty . \]

Logo \(T\) é uma contração. Pelo Teorema 12.13, existe uma única \(\varphi \in \mathcal X\) tal que \(T\varphi =\varphi \). Pela regra fundamental do cálculo, essa identidade integral é equivalente ao problema diferencial.

A prova revela o conteúdo algorítmico do resultado: as iterações

\[ \varphi _{n+1}(t) = y_0+\int _{t_0}^{t}F(s,\varphi _n(s))\, ds \]

são as aproximações sucessivas de Picard e convergem para a solução.

12.4 O teorema de interseção de Cantor

A completude também pode ser reconhecida por conjuntos fechados encaixados.

Definição 12.17 (Diâmetro)
Se \(A\) é um subconjunto não vazio de um espaço métrico, definimos
\[ \operatorname {diam}(A) = \sup \{ d(x,y):x,y\in A\} , \]
admitindo o valor \(+\infty \).

Teorema 12.18 (Teorema de Interseção de Cantor)
Se \((X,d)\) é completo e
\[ F_1\supset F_2\supset F_3\supset \cdots \]
é uma sequência de fechados não vazios tal que
\[ \operatorname {diam}(F_n)\longrightarrow 0, \]
então
\[ \bigcap _{n\geq 1}F_n \]
consiste em exatamente um ponto.

Demonstração

Escolha \(x_n\in F_n\). Se \(m\geq n\), então \(x_m,x_n\in F_n\), logo

\[ d(x_m,x_n)\leq \operatorname {diam}(F_n). \]

Portanto \((x_n)\) é de Cauchy e converge, pela completude, para algum \(x\in X\).

Para cada \(n\), todos os termos \(x_m\) com \(m\geq n\) pertencem a \(F_n\). Como \(F_n\) é fechado, \(x\in F_n\). Logo \(x\) pertence à interseção.

Se \(x,y\) pertencem à interseção, então, para todo \(n\),

\[ d(x,y)\leq \operatorname {diam}(F_n). \]

Fazendo \(n\to \infty \), obtemos \(d(x,y)=0\), portanto \(x=y\).

12.5 Categoria de Baire

O Teorema de Baire estabelece uma consequência topológica da completude. Sua formulação utiliza conjuntos cujo fecho tem interior vazio e uniões enumeráveis desses conjuntos. Introduziremos primeiro essas noções.

Definição 12.19 (Conjunto denso em lugar nenhum)
Um subconjunto \(A\subset X\) é denso em lugar nenhum quando
\[ \operatorname {int}(\overline A)=\varnothing . \]

Definição 12.20 (Conjunto magro)
Um subconjunto \(M\subset X\) é magro ou de primeira categoria quando pode ser escrito como união enumerável de conjuntos densos em lugar nenhum.

Definição 12.21 (Espaço de Baire)
Um espaço topológico \(X\) é um espaço de Baire quando toda interseção enumerável de abertos densos é densa em \(X\).

Teorema 12.22 (Teorema de Categoria de Baire)
Todo espaço métrico completo é um espaço de Baire.

Demonstração

Sejam \(G_1,G_2,\ldots \) abertos densos em \(X\) e seja \(U\) um aberto não vazio. Mostraremos que

\[ U\cap \bigcap _{n\geq 1}G_n\neq \varnothing . \]

Como \(G_1\) é denso, \(U\cap G_1\) é aberto não vazio. Escolha uma bola fechada

\[ \overline B(x_1,r_1)\subset U\cap G_1 \]

com \(0\lt r_1\lt 1\). Suponha escolhida \(\overline B(x_n,r_n)\). Como \(G_{n+1}\) é denso,

\[ B(x_n,r_n)\cap G_{n+1} \]

é aberto não vazio. Escolha

\[ \overline B(x_{n+1},r_{n+1}) \subset B(x_n,r_n)\cap G_{n+1} \]

com \(0\lt r_{n+1}\lt 2^{-(n+1)}\).

Temos, assim, uma sequência encaixada de bolas fechadas

\[ \overline B(x_1,r_1) \supset \overline B(x_2,r_2) \supset \cdots \]

cujos diâmetros tendem a zero. Pelo Teorema 12.18, existe um único ponto \(x\) na interseção. Como a primeira bola está contida em \(U\) e a \(n\)-ésima bola está contida em \(G_n\), segue que

\[ x\in U\cap \bigcap _{n\geq 1}G_n. \]

Como \(U\) era um aberto não vazio arbitrário, a interseção é densa.

Corolário 12.23
Um espaço métrico completo não vazio não é magro em si mesmo.

Demonstração

Se

\[ X=\bigcup _{n\geq 1}A_n \]

com cada \(A_n\) denso em lugar nenhum, então

\[ G_n=X\setminus \overline{A_n} \]

é aberto e denso. Pelo Teorema de Baire, \(\bigcap _n G_n\) é denso e, em particular, não vazio. Mas

\[ \bigcap _{n\geq 1}G_n = X\setminus \bigcup _{n\geq 1}\overline{A_n} \subset X\setminus \bigcup _{n\geq 1}A_n = \varnothing , \]

contradição.

Corolário 12.24
O conjunto dos números reais não é enumerável.

Demonstração

Se

\[ \mathbb R=\{ x_1,x_2,\ldots \} , \]

então

\[ \mathbb R=\bigcup _{n\geq 1}\{ x_n\} . \]

Cada singleton é fechado e tem interior vazio, logo é denso em lugar nenhum. Isso contradiz o Corolário 12.23, pois \(\mathbb R\) com a métrica usual é completo.

Observação 12.25
A força do Teorema de Baire não está apenas nessa aplicação elementar. Em análise funcional, ele é o mecanismo por trás de resultados como os teoremas da aplicação aberta, do gráfico fechado e da limitação uniforme. Aqui, porém, sua função é mais básica: mostrar que completude possui consequências topológicas globais que não aparecem na definição por sequências de Cauchy.

Exercícios

  1. Mostre que \(\mathbb Q\), com a métrica usual, não é completo e identifique seu completamento.

  2. Mostre que \(\mathbb R^n\), com qualquer uma das métricas usuais \(d_1,d_2,d_\infty \), é completo.

  3. Seja \((X,d)\) completo e seja \(A\subset X\) fechado. Dê uma segunda prova de que \(A\) é completo usando o Teorema de Interseção de Cantor.

  4. Mostre que o produto de uma família finita de espaços métricos completos, munido da métrica do máximo, é completo.

  5. Mostre que o produto enumerável de espaços métricos completos, munido da métrica

    \[ D(x,y)=\sum _{n\geq 1}2^{-n}\min \{ 1,d_n(x_n,y_n)\} , \]

    é completo.

  6. Seja \(T:X\to X\) uma contração de razão \(q\lt 1\) em um espaço completo. Mostre que

    \[ d(x_n,p)\leq \frac{q}{1-q}\, d(x_n,x_{n-1}) \]

    para as iterações de Banach.

  7. Use o Teorema de Banach para provar que a equação

    \[ x=e^{-x} \]

    possui uma única solução em \([0,1]\).

  8. No Teorema 12.16, explique exatamente onde entram a completude do espaço de funções e a condição de Lipschitz.

  9. Prove a recíproca do Teorema de Interseção de Cantor: se toda sequência decrescente de fechados não vazios com diâmetros tendendo a zero possui interseção não vazia, então o espaço métrico é completo.

  10. Mostre que todo aberto de um espaço métrico completo é um espaço de Baire com a topologia relativa.

  11. Mostre que \(\mathbb Q\) é magro em si mesmo. Isso entra em conflito com o fato de \(\mathbb Q\) ser denso em \(\mathbb R\)? Explique.