Capítulo 9

Conexidade

A conexidade é uma propriedade global: um espaço conexo não admite uma decomposição em dois abertos disjuntos e não vazios. Estudaremos sua preservação por aplicações contínuas e seu uso para distinguir espaços que podem ter propriedades locais semelhantes.

Começaremos por três maneiras equivalentes de reconhecer uma separação: por abertos disjuntos, por conjuntos simultaneamente abertos e fechados e por aplicações para um espaço discreto de dois pontos. Só depois aplicaremos essa linguagem à reta. Em seguida estudaremos componentes, produtos e quocientes, e então passaremos à conexidade por caminhos e às versões locais dessas noções.

9.1 Conjuntos conexos

Definição 9.1 (Conexidade)
Um espaço topológico \(X\) é conexo quando não existem abertos não vazios \(U,V\subset X\) tais que
\[ X=U\cup V, \qquad U\cap V=\varnothing . \]
Se tais abertos existem, dizemos que \(X\) é desconexo. Um subconjunto \(A\subset X\) é conexo quando é conexo com a topologia de subespaço.

Um par \((U,V)\) como acima é chamado, às vezes, de uma separação de \(X\). A definição admite uma forma equivalente que será usada repetidamente.

Proposição 9.2 (Caracterizações da conexidade)
Para um espaço topológico \(X\), são equivalentes:
  1. \(X\) é conexo;

  2. os únicos subconjuntos simultaneamente abertos e fechados de \(X\) são \(\varnothing \) e \(X\);

  3. toda aplicação contínua \(f:X\to \{ 0,1\} \), onde \(\{ 0,1\} \) tem a topologia discreta, é constante.

Demonstração

Se \(X=U\cup V\) é uma separação, então \(U=X\setminus V\) é simultaneamente aberto e fechado e não é trivial. Reciprocamente, se \(A\) é aberto e fechado, não vazio e distinto de \(X\), então

\[ X=A\cup (X\setminus A) \]

é uma separação.

Para a terceira condição, se \(A\) é um clopen não trivial, sua função indicadora \(\mathbf1_A:X\to \{ 0,1\} \) é contínua e não constante. Reciprocamente, se \(f:X\to \{ 0,1\} \) é contínua e não constante, os conjuntos \(f^{-1}(0)\) e \(f^{-1}(1)\) formam uma separação de \(X\).

Exemplo 9.3
Um espaço discreto com pelo menos dois pontos é desconexo. O espaço de Sierpiński, por outro lado, é conexo: nenhum de seus subconjuntos unitários é ao mesmo tempo aberto e fechado.

9.2 Conexidade e continuidade

A conexidade é preservada por imagens contínuas. Embora uma aplicação contínua possa identificar pontos, a imagem de um espaço conexo não admite uma separação em dois abertos relativos disjuntos e não vazios.

Teorema 9.4 (Imagem contínua de conexo)
Se \(f:X\to Y\) é contínua e \(A\subset X\) é conexo, então \(f(A)\) é conexo.

Demonstração

Restringindo \(f\), basta tratar o caso em que \(f:X\to Y\) é sobrejetiva e \(X\) é conexo. Se \(Y\) tivesse um clopen não trivial \(C\), então \(f^{-1}(C)\) seria um clopen não trivial de \(X\), contradição.

9.3 Intervalos e a reta

Na reta, um conjunto é conexo exatamente quando contém todos os pontos entre quaisquer dois de seus elementos. Essa propriedade permitirá caracterizar os subconjuntos conexos como intervalos.

Teorema 9.5
Todo intervalo \(I\subset \mathbb {R}\) é conexo.

Demonstração

Suponha, por absurdo, que \(I=U\cup V\) seja uma separação. Escolha \(a\in U\) e \(b\in V\); trocando os nomes se necessário, suponha \(a\lt b\). Considere

\[ S=U\cap [a,b] \]

e seja \(c=\sup S\). Como \(I\) é um intervalo, \(c\in I\), logo \(c\in U\) ou \(c\in V\).

Se \(c\in U\), a abertura relativa de \(U\) fornece pontos de \(U\) imediatamente à direita de \(c\), contradizendo que \(c\) seja uma cota superior de \(S\). Se \(c\in V\), a abertura relativa de \(V\) fornece uma vizinhança de \(c\) em \(I\) contida em \(V\). Pela definição de supremo, porém, há pontos de \(S\subset U\) arbitrariamente próximos de \(c\) pela esquerda, novamente uma contradição.

Proposição 9.6
Um subconjunto \(A\subset \mathbb {R}\) é conexo se, e somente se, é um intervalo.

Demonstração

Já provamos uma direção. Para a outra, suponha que \(A\) não seja um intervalo. Então existem \(a,b\in A\) e \(c\notin A\) com \(a\lt c\lt b\). Os conjuntos

\[ A\cap (-\infty ,c) \qquad \text{e}\qquad A\cap (c,\infty ) \]

são abertos relativos, disjuntos, não vazios e cobrem \(A\). Logo \(A\) é desconexo.

Exemplo 9.7
Nenhum subconjunto de \(\mathbb {Q}\) com mais de um ponto é conexo. De fato, dados \(a\lt b\) no subconjunto, escolha um irracional \(c\) entre eles e repita a separação anterior. Em particular, \(\mathbb {Q}\) é totalmente desconexo: suas componentes conexas são pontos.

Combinando a conexidade dos intervalos com a preservação por imagens contínuas, obtemos o teorema do valor intermediário.

Corolário 9.8 (Teorema do Valor Intermediário)
Se \(I\subset \mathbb {R}\) é um intervalo e \(f:I\to \mathbb {R}\) é contínua, então \(f(I)\) é um intervalo. Em particular, se \(a\lt b\) e \(y\) está entre \(f(a)\) e \(f(b)\), existe \(c\in [a,b]\) tal que \(f(c)=y\).

9.4 Uniões, fechos e componentes

Há duas operações que permitem obter conjuntos conexos a partir de outros: a união de uma família com um ponto comum e a passagem ao fecho. A primeira será utilizada também na definição de componente conexa.

Teorema 9.9 (União de conexos com ponto comum)
Se \((C_\lambda )_{\lambda \in \Lambda }\) é uma família de subconjuntos conexos de \(X\) e
\[ \bigcap _{\lambda \in \Lambda }C_\lambda \neq \varnothing , \]
então \(\bigcup _\lambda C_\lambda \) é conexo.

Demonstração

Tome \(p\in \bigcap _\lambda C_\lambda \) e suponha que \(C=\bigcup _\lambda C_\lambda \) admita uma separação \(C=U\cup V\). O ponto comum pertence a uma das partes; suponha \(p\in U\). Para cada \(\lambda \),

\[ C_\lambda =(C_\lambda \cap U)\cup (C_\lambda \cap V). \]

Esses dois conjuntos são abertos relativos em \(C_\lambda \) e são disjuntos. Como \(p\in C_\lambda \cap U\), a conexidade de \(C_\lambda \) força \(C_\lambda \cap V=\varnothing \). Isso vale para todo \(\lambda \), logo \(V=\varnothing \), contradição.

Na demonstração, a presença de um ponto comum impede que os conjuntos da família pertençam a lados distintos de uma separação. Existem variantes baseadas em interseções sucessivas, mas utilizaremos apenas a versão estabelecida acima.

Proposição 9.10
Se \(C\subset X\) é conexo e
\[ C\subset D\subset \overline C, \]
então \(D\) é conexo. Em particular, \(\overline C\) é conexo.

Demonstração

Suponha que \(D=U\cup V\) seja uma separação. Como \(C\) é conexo, ele está inteiramente contido em um dos dois conjuntos, digamos \(C\subset U\). Como \(V\) é aberto em \(D\) e não encontra \(C\), também não pode encontrar \(\overline C\cap D\). Mas \(D\subset \overline C\), logo \(V=\varnothing \), contradição.

9.4.1 Componentes conexas

Definição 9.11 (Componente conexa)
A componente conexa de \(x\in X\) é a união de todos os subconjuntos conexos de \(X\) que contêm \(x\).

A proposição anterior mostra que essa união é conexa, pois todos os conjuntos que a formam contêm \(x\). Assim, a componente de \(x\) é o maior subconjunto conexo de \(X\) que contém esse ponto.

Proposição 9.12
As componentes conexas de \(X\) formam uma partição de \(X\). Além disso, toda componente conexa é fechada.

Demonstração

Se as componentes \(C_x\) e \(C_y\) se intersectam, então \(C_x\cup C_y\) é conexo. Pela maximalidade, \(C_x=C_y\). Logo componentes distintas são disjuntas e, como cada ponto pertence à sua componente, elas particionam \(X\).

Por outro lado, \(\overline{C_x}\) é conexo e contém \(x\). Pela maximalidade de \(C_x\), temos \(\overline{C_x}=C_x\), logo \(C_x\) é fechada.

Componentes não precisam ser abertas. Em \(\mathbb {Q}\), por exemplo, elas são singletons, que não são abertos na topologia usual relativa.

9.5 Produtos, quocientes e somas

Proposição 9.13
Uma imagem contínua de um espaço conexo é conexa. Em particular, todo quociente de um espaço conexo é conexo.

A afirmação para quocientes decorre do teorema anterior. Para produtos, a conexidade também é preservada, sem restrição sobre a quantidade de fatores.

Teorema 9.14 (Produtos de conexos)
Se \((X_\lambda )_{\lambda \in \Lambda }\) é uma família não vazia de espaços não vazios, então
\[ \prod _{\lambda \in \Lambda }X_\lambda \]
é conexo se, e somente se, cada \(X_\lambda \) é conexo.

Demonstração

Se o produto é conexo, cada fator é conexo por ser imagem contínua do produto por uma projeção.

Reciprocamente, suponha todos os fatores conexos e fixe \(a=(a_\lambda )\) no produto. Para cada subconjunto finito \(F\subset \Lambda \), seja \(X_F\) o conjunto dos pontos que podem diferir de \(a\) apenas nas coordenadas de \(F\). Então \(X_F\) é homeomorfo ao produto finito \(\prod _{\lambda \in F}X_\lambda \), logo é conexo. Todos os \(X_F\) contêm \(a\), portanto

\[ D=\bigcup _{F\subset \Lambda ,\; F\text{ finito}}X_F \]

é conexo.

O conjunto \(D\) é denso no produto: um aberto básico restringe apenas finitíssimas coordenadas, e podemos escolher nelas um ponto adequado, mantendo as demais coordenadas iguais às de \(a\). Como o fecho de um conexo é conexo, \(\overline D=\prod X_\lambda \) é conexo.

As somas têm o comportamento oposto.

Proposição 9.15
Uma soma disjunta de espaços não vazios é conexa se, e somente se, há apenas um somando e esse somando é conexo.

Demonstração

Cada somando é aberto e fechado na soma. Assim, se há pelo menos dois somandos não vazios, qualquer um deles é um clopen não trivial.

SubespaçosQuocientesProdutosSomas
ConexoNãoSimSimNão

9.6 Conexidade por caminhos

A conexidade exclui separações por abertos. A conexidade por caminhos exige que quaisquer dois pontos possam ser ligados por uma aplicação contínua de um intervalo.

Definição 9.16 (Caminho)
Um caminho em \(X\) é uma aplicação contínua
\[ \gamma :[0,1]\to X. \]
Se \(\gamma (0)=x\) e \(\gamma (1)=y\), dizemos que \(\gamma \) liga \(x\) a \(y\).

Definição 9.17 (Conexidade por caminhos)
Um espaço \(X\) é conexo por caminhos se, dados \(x,y\in X\), existe um caminho que liga \(x\) a \(y\).

Dois caminhos podem ser colados quando o final do primeiro coincide com o início do segundo.

Proposição 9.18 (Concatenação)
Se \(\gamma \) liga \(x\) a \(y\) e \(\eta \) liga \(y\) a \(z\), então
\[ (\gamma *\eta )(t)= \begin{cases} \gamma (2t),& 0\leq t\leq \frac12,\\ \eta (2t-1),& \frac12\leq t\leq 1 \end{cases} \]
é um caminho de \(x\) a \(z\).

Demonstração

As duas fórmulas são contínuas em seus intervalos de definição e coincidem em \(t=1/2\), onde ambas assumem o valor \(y\). O lema da colagem garante a continuidade da concatenação.

A existência de caminhos define uma relação de equivalência: dois pontos são equivalentes quando podem ser ligados por um caminho. Suas classes são as componentes conexas por caminhos.

Exemplo 9.19
O espaço \(\mathbb {R}^n\) é conexo por caminhos: o segmento
\[ \gamma (t)=(1-t)x+ty \]
liga \(x\) a \(y\).

Exemplo 9.20
Se \(n\geq 2\) e \(E\subset \mathbb {R}^n\) é enumerável, então \(\mathbb {R}^n\setminus E\) é conexo por caminhos. Dados \(x,y\notin E\), escolha \(z\) fora da união das retas que passam por \(x\) e algum ponto de \(E\), das retas que passam por \(y\) e algum ponto de \(E\), e da reta que passa por \(x\) e \(y\). Essa é uma união enumerável de retas e não cobre \(\mathbb {R}^n\): escolha uma reta auxiliar que não pertença à família. Cada reta da família a intercepta em no máximo um ponto, enquanto a reta auxiliar é não enumerável. Os segmentos \([x,z]\) e \([z,y]\) evitam \(E\); sua concatenação fornece o caminho desejado.

Proposição 9.21
Todo espaço conexo por caminhos é conexo.

Demonstração

Fixe \(x_0\in X\). Para cada \(x\in X\), escolha um caminho \(\gamma _x\) de \(x_0\) a \(x\). A imagem \(\gamma _x([0,1])\) é conexa, pois é imagem contínua do intervalo. Todas essas imagens contêm \(x_0\) e sua união é \(X\). Pelo lema do ponto comum, \(X\) é conexo.

A recíproca não vale, como mostra o exemplo da curva seno do topólogo.

Exemplo 9.22 (A curva seno do topólogo)

Considere

\[ S=\left\{ \left(x,\sin \frac1x\right):x\gt 0\right\} \cup \bigl(\{ 0\} \times [-1,1]\bigr)\subset \mathbb {R}^2. \]

A primeira parte é a imagem contínua de \((0,\infty )\) e, portanto, é conexa. O conjunto \(S\) é exatamente seu fecho, logo também é conexo.

Entretanto, \(S\) não é conexo por caminhos. Suponha que \(\gamma (t)=(u(t),v(t))\) ligue um ponto do segmento vertical a um ponto da curva. Seja

\[ t_0=\max \{ t:u(t)=0\} . \]

Para \(t\gt t_0\) suficientemente próximo de \(t_0\), temos \(u(t)\gt 0\), enquanto \(u(t)\to 0\) quando \(t\downarrow t_0\). Pela propriedade do valor intermediário de \(u\), em intervalos arbitrariamente pequenos à direita de \(t_0\) a função \(u\) assume valores \(x\) para os quais \(\sin (1/x)=1\) e também valores para os quais \(\sin (1/x)=-1\). Assim existem sequências \(s_n,t_n\downarrow t_0\) com

\[ v(s_n)=1,\qquad v(t_n)=-1. \]

A continuidade de \(v\) em \(t_0\) exigiria simultaneamente \(v(t_0)=1\) e \(v(t_0)=-1\), absurdo.

Nesse exemplo há uma única componente conexa, mas duas componentes conexas por caminhos: a curva oscilante e o segmento vertical. A componente dada pela curva não é fechada. Isso mostra uma diferença importante: componentes conexas são sempre fechadas; componentes por caminhos, não.

Exemplo 9.23 (Espaço pente)
Seja \(K=\{ 1/n:n\geq 1\} \) e considere
\[ P_2=((0,1]\times \{ 0\} )\cup (K\times [0,1]), \qquad P_1=\{ 0\} \times (0,1], \]
com \(P=P_1\cup P_2\). O conjunto \(P_2\) é conexo e \(P_2\subset P\subset \overline{P_2}\), logo \(P\) é conexo. Por outro lado, um ponto de \(P_1\) não pode ser ligado por caminho a um ponto de \(P_2\): qualquer tentativa de alcançar a base teria de atravessar o ponto ausente \((0,0)\). Portanto \(P\) não é conexo por caminhos.

O lema do ponto comum continua válido com “conexo” substituído por “conexo por caminhos”.

Proposição 9.24
Se \((C_\lambda )_{\lambda \in \Lambda }\) é uma família de subconjuntos conexos por caminhos e \(\bigcap _\lambda C_\lambda \neq \varnothing \), então \(\bigcup _\lambda C_\lambda \) é conexo por caminhos.

Demonstração

Escolha \(p\) na interseção. Dados \(x,y\) na união, existem índices \(\lambda \) e \(\mu \) com \(x\in C_\lambda \) e \(y\in C_\mu \). Dentro de \(C_\lambda \) há um caminho de \(x\) a \(p\), e dentro de \(C_\mu \) há um caminho de \(p\) a \(y\). A concatenação desses caminhos permanece na união e liga \(x\) a \(y\).

Proposição 9.25
Um produto arbitrário de espaços não vazios é conexo por caminhos se, e somente se, cada fator é conexo por caminhos.

Demonstração

Uma direção segue das projeções. Para a outra, dados \(x=(x_\lambda )\) e \(y=(y_\lambda )\), escolha para cada \(\lambda \) um caminho \(\gamma _\lambda :[0,1]\to X_\lambda \) de \(x_\lambda \) a \(y_\lambda \). A aplicação

\[ \gamma (t)=(\gamma _\lambda (t))_{\lambda \in \Lambda } \]

é contínua pela propriedade universal da topologia produto e liga \(x\) a \(y\).

9.7 Conexidade local

A conexidade do espaço não garante a existência de vizinhanças conexas arbitrariamente pequenas. Para exigir essa propriedade em torno de cada ponto, introduzimos a noção de conexidade local.

Definição 9.26 (Conexidade local)
Um espaço \(X\) é localmente conexo se todo ponto possui uma base de vizinhanças abertas e conexas. É localmente conexo por caminhos se todo ponto possui uma base de vizinhanças abertas e conexas por caminhos.

Todo espaço localmente conexo por caminhos é localmente conexo. A recíproca não é verdadeira em geral.

A caracterização seguinte transforma uma definição local numa afirmação sobre componentes.

Proposição 9.27
Um espaço \(X\) é localmente conexo se, e somente se, toda componente conexa de todo aberto \(U\subset X\) é aberta em \(X\).

Demonstração

Suponha \(X\) localmente conexo e seja \(C\) uma componente de um aberto \(U\). Para \(x\in C\), escolha uma vizinhança aberta conexa \(V\) com \(x\in V\subset U\). Como \(V\) encontra \(C\), a maximalidade da componente implica \(V\subset C\). Logo \(C\) é aberta.

Reciprocamente, dado \(x\in U\) aberto, tome a componente \(C\) de \(U\) que contém \(x\). Por hipótese, \(C\) é aberta; sendo conexa e contida em \(U\), ela fornece a vizinhança básica desejada.

A mesma caracterização vale para conexidade local por caminhos.

Proposição 9.28
Um espaço \(X\) é localmente conexo por caminhos se, e somente se, as componentes conexas por caminhos de todo aberto são abertas.

Demonstração

Suponha primeiro que \(X\) seja localmente conexo por caminhos e seja \(C\) uma componente conexa por caminhos de um aberto \(U\). Para cada \(x\in C\), escolha uma vizinhança aberta e conexa por caminhos \(V\) com \(x\in V\subset U\). Como \(V\) encontra \(C\), a maximalidade da componente por caminhos implica \(V\subset C\). Logo \(C\) é aberta.

Reciprocamente, dado \(x\in U\) com \(U\) aberto, tome a componente conexa por caminhos de \(U\) que contém \(x\). Por hipótese, ela é aberta; sendo conexa por caminhos e contida em \(U\), fornece a vizinhança básica exigida.

Corolário 9.29
Se \(X\) é localmente conexo por caminhos, então todo aberto conexo de \(X\) é conexo por caminhos. Em particular, se \(X\) é conexo e localmente conexo por caminhos, então \(X\) é conexo por caminhos.

Demonstração

As componentes por caminhos de um aberto são abertas. Se o aberto é conexo, ele não pode ser união de duas ou mais componentes abertas disjuntas; portanto há uma única componente por caminhos.

9.7.1 Comportamento topológico

Subespaços arbitrários não preservam conexidade local. Por exemplo, \(\{ 0\} \cup \{ 1/n:n\geq 1\} \subset \mathbb {R}\) não é localmente conexo em \(0\), embora \(\mathbb {R}\) seja. Subespaços abertos, porém, preservam tanto conexidade local quanto conexidade local por caminhos.

A conexidade local também é preservada por quocientes.

Proposição 9.30
Se \(q:X\to Y\) é uma aplicação quociente e \(X\) é localmente conexo, então \(Y\) é localmente conexo. O mesmo vale para conexidade local por caminhos.

Demonstração

Seja \(U\subset Y\) aberto. Então \(q^{-1}(U)\) é aberto em \(X\). Suponha primeiro \(X\) localmente conexo e seja \(C\) uma componente conexa de \(U\). Cada componente de \(q^{-1}(U)\) é aberta. A imagem de uma dessas componentes por \(q\) é conexa e, portanto, está contida em uma componente de \(U\). Assim \(q^{-1}(C)\) é união de componentes de \(q^{-1}(U)\), logo é aberto. Como \(q\) é quociente, \(C\) é aberto. Pela caracterização anterior, \(Y\) é localmente conexo.

O mesmo argumento, substituindo componentes conexas por componentes conexas por caminhos, prova a segunda afirmação.

Produtos finitos preservam conexidade local e conexidade local por caminhos. Para produtos infinitos, essa conclusão pode falhar.

Exemplo 9.31
Cada espaço discreto \(\{ 0,1\} \) é localmente conexo e localmente conexo por caminhos. Entretanto,
\[ \{ 0,1\} ^{\mathbb {N}} \]
com a topologia produto não é localmente conexo: todo aberto básico deixa infinitas coordenadas livres e, por isso, é desconexo. Esse é o espaço de Cantor.

Somas arbitrárias preservam as duas propriedades locais, pois cada somando é um subespaço aberto e fechado.

SubespaçosQuocientesProdutosSomas
Localmente conexoabertosSimfinitosSim
\shortstack{Localmente conexo\\por caminhos}abertosSimfinitosSim

Exercício 9.1

Sejam \(\tau _1\subset \tau _2\) topologias no mesmo conjunto \(X\). Determine quais implicações entre conexidade de \((X,\tau _1)\) e de \((X,\tau _2)\) são válidas.

Exercício 9.2

Seja \((A_i)_{i\in I}\) uma família de subconjuntos conexos de \(X\) tal que \(A_i\cap A_j\neq \varnothing \) para todos \(i,j\). Mostre que \(\bigcup _i A_i\) é conexo.

Exercício 9.3

Se \(C\subset X\) é conexo e encontra tanto \(A\) quanto \(X\setminus A\), mostre que \(C\) encontra a fronteira de \(A\).

Exercício 9.4

Mostre que um conjunto infinito com a topologia cofinita é conexo.

Exercício 9.5

Mostre que toda função contínua \(f:\mathbb {R}\to \mathbb {N}\), com \(\mathbb {N}\) discreto, é constante.

Exercício 9.6

Se \(A\subset X\) é aberto, fechado, conexo e não vazio, mostre que \(A\) é uma componente conexa de \(X\).

Exercício 9.7

Use pontos de corte para mostrar que \((0,1)\) e \((0,1]\) não são homeomorfos.

Exercício 9.8

Mostre que nenhum subconjunto de \(\mathbb {R}\) é homeomorfo a \(S^1\).

Exercício 9.9

Para \(n\gt 1\), mostre que \(\mathbb {R}\) e \(\mathbb {R}^n\) não são homeomorfos. Sugestão: remova um ponto e compare a conexidade do que resta.

Exercício 9.10

Se \(f:[0,1]\to [0,1]\) é contínua, mostre que \(f\) possui um ponto fixo.

Exercício 9.11

Se \(f:S^1\to \mathbb {R}\) é contínua, mostre que existe \(x\in S^1\) tal que \(f(x)=f(-x)\).

Exercício 9.12

Prove que a imagem contínua e sobrejetiva de um espaço conexo por caminhos é conexa por caminhos.

Exercício 9.13

Mostre que o fecho de um conjunto conexo por caminhos pode deixar de ser conexo por caminhos.

Exercício 9.14

Prove que \(\prod _i X_i\) é conexo por caminhos se, e somente se, cada \(X_i\) é conexo por caminhos.

Exercício 9.15

Seja \(n\gt 1\) e \(A\subset \mathbb {R}^n\) enumerável. Mostre que \(\mathbb {R}^n\setminus A\) é conexo por caminhos.

Exercício 9.16
Mostre que um conjunto infinito enumerável com a topologia cofinita é conexo, mas não é conexo por caminhos.

Conexidade, conexidade por caminhos e suas versões locais são condições distintas. A primeira exclui separações do espaço por abertos; a segunda exige caminhos entre quaisquer dois pontos; as condições locais exigem bases de vizinhanças com essas propriedades. A curva seno do topólogo e o espaço pente mostram diferenças entre essas noções, que serão utilizadas posteriormente no estudo de espaços com estrutura geométrica e algébrica.