Capítulo 3

Funções Contínuas

Os conjuntos abertos determinam a estrutura de um espaço topológico. Uma aplicação é contínua quando a imagem inversa de cada aberto do contradomínio é aberta no domínio. Partiremos dessa formulação global e, em seguida, estudaremos sua caracterização local por vizinhanças de cada ponto.

3.1 Continuidade e imagens inversas

A identidade

\[ f^{-1}\! \left(\bigcup _{\lambda }U_\lambda \right) =\bigcup _{\lambda }f^{-1}(U_\lambda ), \qquad f^{-1}(U\cap V)=f^{-1}(U)\cap f^{-1}(V) \]

explica por que a imagem inversa é o operador natural na definição: ela preserva exatamente as operações que aparecem nos axiomas de uma topologia.

Definição 3.1
Sejam \(X\) e \(Y\) espaços topológicos e \(f\colon X\to Y\). Dizemos que \(f\) é contínua quando a imagem inversa de todo aberto de \(Y\) é aberta em \(X\):
\[ V\in \mathcal T_Y \quad \Longrightarrow \quad f^{-1}(V)\in \mathcal T_X. \]
Também diremos que \(f\) é contínua em \(a\in X\) quando, para cada aberto \(V\subseteq Y\) que contém \(f(a)\), existe um aberto \(U\subseteq X\) com
\[ a\in U \qquad \text{e}\qquad f(U)\subseteq V. \]
Mais adiante verificaremos que a continuidade global equivale à continuidade em todos os pontos.

Notação 3.2
Denotaremos por \(C(X,Y)\) o conjunto das aplicações contínuas de \(X\) em \(Y\). Quando \(Y=\mathbb R\), escreveremos simplesmente \(C(X)\).

Figura 3.1 Continuidade: abertos do contradomínio têm imagens inversas abertas.

Figura 3.1 Continuidade: abertos do contradomínio têm imagens inversas abertas.

A caracterização por fechados é a forma dual da mesma condição, obtida por complementação.

Proposição 3.3
Para uma aplicação \(f\colon X\to Y\) entre espaços topológicos, são equivalentes:
  1. \(f\) é contínua;

  2. \(f^{-1}(A)\) é aberto em \(X\) para todo aberto \(A\) de \(Y\);

  3. \(f^{-1}(F)\) é fechado em \(X\) para todo fechado \(F\) de \(Y\).

Demonstração

Os dois primeiros itens são a definição. Para comparar abertos e fechados, use

\[ f^{-1}(Y\setminus A)=X\setminus f^{-1}(A). \]

Assim, preservar abertos por imagem inversa é equivalente a preservar fechados.

Observação 3.4 (Importância das topologias)
A continuidade depende das topologias escolhidas. Se refinamos a topologia do domínio, há mais candidatos a abertos para as imagens inversas; se engrossamos a topologia do contradomínio, há menos abertos a testar. Em ambos os movimentos a continuidade se torna, em geral, mais fácil de satisfazer.

Observação 3.5 (Casos extremos)
  1. Se o domínio \(X\) é discreto, toda aplicação \(X\to Y\) é contínua.

  2. Se o contradomínio \(Y\) possui a topologia trivial, toda aplicação \(X\to Y\) é contínua.

Observação 3.6 (Aplicações constantes e identidade)
  1. Toda aplicação constante é contínua: a imagem inversa de um aberto é \(X\) ou \(\varnothing \).

  2. A identidade

    \[ \operatorname {id}\colon (X,\mathcal{T}_{\mathrm{discreta}}) \longrightarrow (X,\mathcal{T}_{\mathrm{trivial}}) \]

    é contínua e bijetiva. Se \(X\) tem mais de um ponto, sua inversa não é contínua.

3.1.1 A leitura local

A condição pontual da Definição 3.1 é a versão local da condição por imagens inversas. Se \(f\) é contínua e \(V\) é aberto com \(f(a)\in V\), podemos tomar \(U=f^{-1}(V)\). No sentido inverso, suponha \(f\) contínua em cada ponto e fixe um aberto \(V\subseteq Y\). Para cada \(a\in f^{-1}(V)\), escolha um aberto \(U_a\) com

\[ a\in U_a\subseteq f^{-1}(V). \]

Então

\[ f^{-1}(V)=\bigcup _{a\in f^{-1}(V)}U_a \]

é aberto. Portanto, \(f\) é contínua se, e somente se, é contínua em cada ponto.

O critério local pode ser verificado usando apenas elementos de bases de vizinhanças.

Proposição 3.7
Seja \(f\colon X\to Y\), e sejam \(\mathcal{B}_a\) e \(\mathcal{B}_{f(a)}\) bases de vizinhanças de \(a\) e \(f(a)\), respectivamente. São equivalentes:
  1. \(f\) é contínua em \(a\);

  2. para cada \(V\in \mathcal{V}\sb {}\left(f(a)\right)\), existe \(U\in \mathcal{V}\sb {}\left(a\right)\) tal que \(f(U)\subseteq V\);

  3. para cada \(V\in \mathcal{B}_{f(a)}\), existe \(U\in \mathcal{B}_a\) tal que \(f(U)\subseteq V\).

Demonstração

Se \(f\) é contínua em \(a\) e \(V\) é uma vizinhança de \(f(a)\), escolha um aberto \(V_0\) com \(f(a)\in V_0\subseteq V\) e depois um aberto \(U_0\) com \(a\in U_0\) e \(f(U_0)\subseteq V_0\). Isso prova a\(\Rightarrow \)b.

Para passar de b a c, refine a vizinhança do domínio por um elemento de \(\mathcal{B}_a\).

Finalmente, suponha c. Dado um aberto \(V\ni f(a)\), escolha \(V_0\in \mathcal{B}_{f(a)}\) com \(V_0\subseteq V\), e depois \(U_0\in \mathcal{B}_a\) com \(f(U_0)\subseteq V_0\). Como \(U_0\) é uma vizinhança, contém um aberto \(U\ni a\); então \(f(U)\subseteq V\).

3.1.2 Composição

A estabilidade por composição pode ser vista tanto globalmente quanto localmente.

Proposição 3.8
Se \(f\colon X\to Y\) é contínua em \(a\) e \(g\colon Y\to Z\) é contínua em \(f(a)\), então \(g\circ f\) é contínua em \(a\).

Demonstração

Dada uma vizinhança \(W\) de \(g(f(a))\), escolha uma vizinhança \(V\) de \(f(a)\) com \(g(V)\subseteq W\) e, em seguida, uma vizinhança \(U\) de \(a\) com \(f(U)\subseteq V\). Então

\[ (g\circ f)(U)\subseteq W. \]

Proposição 3.9
Se \(f\colon X\to Y\) e \(g\colon Y\to Z\) são contínuas, então \(g\circ f\) é contínua.

Demonstração

Para todo aberto \(W\subseteq Z\),

\[ (g\circ f)^{-1}(W)=f^{-1}(g^{-1}(W)), \]

e as duas imagens inversas sucessivas são abertas.

3.2 Homeomorfismos e Homeomorfismos Locais

Uma aplicação contínua pode identificar pontos distintos e, por isso, não precisa preservar toda a estrutura topológica. Para expressar a equivalência entre dois espaços, consideramos bijeções nas quais tanto a aplicação quanto sua inversa são contínuas.

Definição 3.10 (Homeomorfismo)
Um homeomorfismo \(f:X\to Y\) é uma bijeção tal que \(f\) e \(f^{-1}\) são contínuas. Quando existe tal aplicação, dizemos que \(X\) e \(Y\) são homeomorfos.

Observação 3.11 (Continuidade da inversa)
Uma bijeção contínua não precisa ser um homeomorfismo. A continuidade da inversa é o que garante que a correspondência preserve a topologia nas duas direções.

Exemplo 3.12 (Homeomorfismos)
  1. A identidade

    \[ \operatorname {id}\colon (X,\mathcal{T}_{\mathrm{discreta}}) \to (X,\mathcal{T}_{\mathrm{trivial}}) \]

    é contínua e bijetiva, mas não é um homeomorfismo quando \(X\) tem mais de um ponto.

  2. Considere a lemniscata \(L\subset \mathbb R^2\) parametrizada por

    \[ \varphi (t)=\left(\frac{t}{1+t^4},\frac{t^3}{1+t^4}\right). \]

    A reta real não é homeomorfa a \(L\). Ainda não dispomos das ferramentas formais para provar isso, mas a geometria antecipa a conexidade: ao remover o ponto \(O=(0,0)\), pequenas vizinhanças de \(O\) em \(L\) exibem quatro ramos, enquanto pequenas vizinhanças de um ponto da reta exibem apenas dois.

    Figura 3.2 A lemniscata antecipa um argumento local que será formalizado por conexidade.

    Figura 3.2 A lemniscata antecipa um argumento local que será formalizado por conexidade.
  3. Considere dois subconjuntos \(X,Y\subset \mathbb R^2\), cada um formado por três segmentos que se encontram apenas num mesmo extremo. Emparelhe os três segmentos de \(X\) com os de \(Y\) e use interpolação linear em cada par.

    Figura 3.3 Homeomorfismo construído segmento a segmento.

    Figura 3.3 Homeomorfismo construído segmento a segmento.

    A parametrização do segmento com extremos \(a,b\) é

    \begin{equation} \label{interpolacao} \begin{array}{cc} f_{ab}:& [0,1]\to \mathbb {R}^2\\ & t\mapsto (1-t)a+tb. \end{array} \tag{3.1} \end{equation}

    Ela é um homeomorfismo de \([0,1]\) sobre \([a,b]\). Portanto um homeomorfismo de \([c,d]\) em \([a,b]\) é \(f_{ab}\circ f_{cd}^{-1}\). Como as definições coincidem no extremo comum, o lema da colagem permite unir as três aplicações parciais; o mesmo vale para a inversa. Ilustração: Homeomorfismos e Homeomorfismos Locais

3.2.1 Homeomorfismos locais

Definição 3.13 (Homeomorfismo local)
Uma aplicação \(f:X\to Y\) é um homeomorfismo local em \(x_0\) se existe um aberto \(U\ni x_0\) tal que \(f(U)\) é aberto em \(Y\) e
\[ f|_U:U\longrightarrow f(U) \]
é um homeomorfismo. Se isso vale para todo \(x_0\in X\), dizemos que \(f\) é um homeomorfismo local.

Todo homeomorfismo é um homeomorfismo local. A noção local permite comparar vizinhanças em espaços que não precisam ser globalmente homeomorfos.

Exemplo 3.14 (Esfera e plano)
A esfera
\[ {\mathbb {S}^{2}}=\{ x\in \mathbb R^3:\| x\| =1\} \]
é localmente homeomorfa a \(\mathbb R^2\). Se \(p=(x_0,y_0,z_0)\) tem \(z_0\neq 0\), tome uma vizinhança \(U\) de \(p\) contida no hemisfério determinado pelo sinal de \(z_0\). A projeção
\[ \pi _{xy}:U\to \pi _{xy}(U),\qquad (x,y,z)\mapsto (x,y), \]
é um homeomorfismo, com inversa
\[ (x,y)\longmapsto \left(x,y,\frac{z_0}{|z_0|}\sqrt{1-x^2-y^2}\right). \]
Se \(x_0\neq 0\), pode-se usar a projeção no plano \(yz\); os demais casos são análogos, escolhendo uma coordenada não nula.

3.2.2 Aplicações abertas, fechadas e mergulhos

Definição 3.15 (Aplicações abertas, fechadas e mergulhos)
Sejam \(X\) e \(Y\) espaços topológicos.
  1. Uma aplicação \(f:X\to Y\) é um homeomorfismo se é bijetiva e \(f,f^{-1}\) são contínuas.

  2. \(f\) é aberta se leva abertos de \(X\) em abertos de \(Y\).

  3. \(f\) é fechada se leva fechados de \(X\) em fechados de \(Y\).

  4. \(f\) é um mergulho se é um homeomorfismo de \(X\) sobre o subespaço \(f(X)\subset Y\).

Proposição 3.16
Se \(f:X\to Y\) é uma bijeção, são equivalentes:
  1. \(f\) é um homeomorfismo;

  2. \(f\) é contínua e aberta;

  3. \(f\) é contínua e fechada.

Demonstração

Se \(f\) é um homeomorfismo e \(U\subseteq X\) é aberto, então

\[ f(U)=(f^{-1})^{-1}(U) \]

é aberto; o mesmo argumento com complementos mostra que \(f\) é fechada.

Reciprocamente, suponha \(f\) contínua e aberta. Para todo aberto \(U\subseteq X\), \((f^{-1})^{-1}(U)=f(U)\) é aberto, logo \(f^{-1}\) é contínua. Se \(f\) é contínua e fechada, aplicamos o mesmo argumento aos fechados.

Exemplo 3.17
  1. Uma aplicação aberta que não é contínua: tome \(X=(\mathbb R,\mathcal{T}_{\mathrm{usual}})\), \(Y=(\{ a,b\} ,\mathcal{T}_{\mathrm{discreta}})\) e

    \[ f(x)=\begin{cases} a,& x\ge 0,\\ b,& x\lt 0.\end{cases} \]

    Toda imagem de aberto é aberta em \(Y\), mas \(f^{-1}(\{ a\} )=[0,\infty )\) não é aberto. Como \(Y\) é discreto, \(f\) também é fechada.

  2. Uma aplicação que não é aberta nem fechada: se \(A\) tem ao menos dois elementos, considere a identidade de \((A,\mathcal{T}_{\mathrm{discreta}})\) em \((A,\mathcal{T}_{\mathrm{trivial}})\).

  3. Uma aplicação aberta que não é fechada: tome \(X=(\{ a,b\} ,\mathcal{T}_{\mathrm{discreta}})\), \(Y=(\{ a,b\} ,\{ \varnothing ,\{ a\} ,\{ a,b\} \} )\) e a aplicação constante com valor \(a\).

  4. Uma aplicação fechada que não é aberta: tome \(X=(\{ a,b\} ,\mathcal{T}_{\mathrm{discreta}})\), \(Y=(\mathbb R,\mathcal{T}_{\mathrm{usual}})\) e defina \(f(a)=0\), \(f(b)=1\).

  5. A identidade de um espaço topológico em si mesmo é aberta e fechada.

Ilustração: Aplicações abertas, fechadas e mergulhos

Exercício 3.1

Seja \((X,d)\) um espaço métrico.

  1. Mostre que, para todo subconjunto não vazio \(A\subseteq X\), a função

    \[ \begin{array}{rcl} d(\, \cdot \, ,A)\colon X & \longrightarrow & \mathbb {R}\\ x & \longmapsto & d(x,A) \end{array} \]

    é contínua.

  2. Sejam \(A,B\subseteq X\) fechados, não vazios e disjuntos. Mostre que a função \(f\colon X\to [0,1]\) dada por

    \[ f(x)=\frac{d(x,A)}{d(x,A)+d(x,B)} \]

    é contínua.

Exercício 3.2

Sejam \(X\) e \(Y\) espaços topológicos e \(f\colon X\to Y\).

  1. Seja \(\mathcal{U}\) uma família de abertos de \(X\) tal que \(X=\bigcup \mathcal{U}\). Mostre que, se \(f|_U\) é contínua para todo \(U\in \mathcal{U}\), então \(f\) é contínua.

  2. Sejam \(A\) e \(B\) fechados em \(X\), com \(X=A\cup B\). Mostre que, se \(f|_A\) e \(f|_B\) são contínuas, então \(f\) é contínua.

  3. Conclua que, se \(\mathcal{F}\) é uma família finita de subconjuntos fechados de \(X\), \(X=\bigcup \mathcal{F}\), e \(f|_F\) é contínua para todo \(F\in \mathcal{F}\), então \(f\) é contínua.

  4. Dê um contraexemplo mostrando que a hipótese de finitude não pode ser omitida no item anterior.

  5. Dê um contraexemplo mostrando que a hipótese de os conjuntos serem fechados não pode ser omitida no item (b).

Exercício 3.3

Considere \(\{ 0,1\} \) com a topologia trivial e a aplicação \(f\colon \mathbb {R}\to \{ 0,1\} \) definida por

\[ f(x)= \begin{cases} 0,& x\in \mathbb {Q},\\ 1,& x\notin \mathbb {Q}. \end{cases} \]

Mostre que \(f\) é sobrejetora, contínua e aberta. Portanto, a imagem de um espaço metrizável por uma aplicação contínua e aberta não precisa sequer ser \(T_0\). O que acontece se substituirmos “aberta” por “fechada”?

Exercício 3.4

Mostre que toda bola aberta de \(\mathbb {R}^n\) é homeomorfa a \(\mathbb {R}^n\).

  1. Mostre que quaisquer dois intervalos fechados e limitados de \(\mathbb {R}\) com mais de um ponto são homeomorfos.

  2. Dê um contraexemplo mostrando que a palavra “limitados” não pode ser omitida no item anterior.