Espaços Métricos
1.1 Da distância à estrutura
Em análise, a noção de aproximação depende dos objetos considerados. Para números reais, a distância é medida por \(|x-y|\); para vetores, por uma norma; para funções, pode ser medida pelo maior erro pontual ou por um erro médio. Essas medidas têm propriedades comuns: pontos distintos têm distância positiva, a ordem dos pontos não altera a distância e a distância direta não excede a soma das distâncias por um ponto intermediário.
Fréchet reuniu essas propriedades em 1906, ao introduzir os espaços métricos. Essa formulação permite estudar proximidade, abertura, continuidade e convergência sem recorrer a coordenadas, conservando as propriedades da distância necessárias a esses conceitos.
O ponto de partida pode ser visto na definição usual de continuidade. Para \(f:I\subset \mathbb {R}^n\to \mathbb {R}^m\), escrevemos
O papel das normas nessa expressão é apenas medir duas distâncias: uma no domínio e outra no contradomínio. Se \(X\) e \(Y\) admitirem funções distância \(d_X\) e \(d_Y\), a mesma condição se escreve
Para generalizar a continuidade dessa maneira, é necessário definir quais propriedades uma função distância deve satisfazer.
1.2 Métricas e primeiros exemplos
\(d(x,y)\geq 0\);
\(d(x,y)=0\) se, e somente se, \(x=y\);
\(d(x,y)=d(y,x)\);
\(d(x,z)\leq d(x,y)+d(y,z)\).
Os elementos de \(X\) serão chamados de pontos. Essa terminologia é útil mesmo quando \(X\) é um conjunto de funções, sequências ou outros objetos sem uma representação geométrica imediata. A desigualdade do último item é a desigualdade triangular; ela formaliza a ideia de que passar por um ponto intermediário não encurta o caminho direto.
Em algumas aplicações, a medida de distância disponível não distingue todos os objetos. A noção de pseudométrica permite considerar essa situação.
Uma pseudométrica pode satisfazer \(d(x,y)=0\) para \(x\ne y\). Essa é a única diferença entre as duas definições. Ao identificar pontos cuja distância é zero, obtém-se um espaço métrico; um exercício ao fim da seção tornará essa passagem precisa.
Para \(1\leq p\lt \infty \), defina
e, para \(p=\infty \),
São as métricas associadas às normas \(\ell ^p\). Os casos \(p=1\), \(p=2\) e \(p=\infty \) correspondem, respectivamente, à soma dos desvios coordenados, à distância euclidiana e ao maior desvio coordenado. Para \(1\lt p\lt \infty \), a desigualdade triangular é a desigualdade de Minkowski.
No caso euclidiano ela também pode ser vista diretamente. Escrevendo \(u=a-c\) e \(v=c-b\) e usando Cauchy–Schwarz,
Como os dois lados são não negativos, segue que \(d_2(a,b)\leq d_2(a,c)+d_2(c,b)\).
Fixe \(a\lt b\) e denote por \(\mathcal B([a,b])\) o conjunto das funções limitadas \(f:[a,b]\to \mathbb {R}\). O maior erro entre duas funções define a métrica
chamada métrica do supremo. Aqui, cada função é um ponto do espaço; a distância registra a pior discrepância entre os dois gráficos.
Como funções contínuas em \([a,b]\) são limitadas, \(C([a,b],\mathbb {R})\) é um subespaço de \(\mathcal B([a,b])\). Nesse subespaço também podemos medir um erro médio: para \(1\leq p\lt \infty \),
A desigualdade triangular é a desigualdade de Minkowski. Além disso, como \(|f-g|^p\) é contínua e não negativa, integral nula implica \(f=g\); portanto, nessa classe de funções, as expressões acima são de fato métricas. Essas métricas não medem a mesma coisa que \(d_\infty \); mais adiante veremos que essa diferença altera inclusive quais sequências de funções convergem.
Se \(G=(V,E)\) é um grafo conexo, defina \(d_G(x,y)\) como o menor número de arestas em um caminho que liga \(x\) a \(y\). A concatenação de um caminho mínimo de \(x\) a \(y\) com um caminho mínimo de \(y\) a \(z\) produz um percurso de \(x\) a \(z\). Como a distância é o menor comprimento possível,
As demais propriedades são imediatas. Essa é a distância no grafo.
No conjunto \(\mathcal R([a,b])\) das funções Riemann-integráveis, a expressão
é uma pseudométrica, mas não uma métrica. De fato, a função \(f\) dada por \(f(a)=1\) e \(f(x)=0\) para \(x\gt a\) não é nula, embora
e, portanto, \(d_2(f,0)=0\).
Outro exemplo aparece no conjunto \(\mathcal F(X)\) de todas as funções \(X\to \mathbb {R}\). Fixado \(x_0\in X\), a fórmula
compara somente o valor observado em \(x_0\). Duas funções que coincidam nesse ponto ficam a distância zero, ainda que sejam diferentes em todo o restante do domínio.
1.2.1 Bolas e conjuntos abertos
Os adjetivos “aberta” e “fechada” serão justificados em breve. Eles não significam que uma seja o complementar da outra: o complementar de \(B\left({x};{r}\right)\) é formado pelos pontos a distância ao menos \(r\) de \(x\).
No espaço \(\mathcal B([a,b])\), munido da métrica do supremo,
temos \(g\in {B\left[{f};{\varepsilon }\right]}\) exatamente quando
Para a bola aberta há uma sutileza. A condição pontual
é necessária, mas não é suficiente para funções apenas limitadas: os valores podem permanecer abaixo de \(\varepsilon \) e ainda ter supremo \(\varepsilon \). Em \([0,1]\), por exemplo, tome \(f=0\), \(\varepsilon =1\) e
Então \(|g(x)|\lt 1\) para todo \(x\), mas \(d_\infty (f,g)=1\).
Se \(f\) e \(g\) forem contínuas, \(|f-g|\) atinge o máximo em \([a,b]\). Nesse caso,
A Figura 1.2 ilustra a faixa uniforme em torno de \(f\).
Tome \(r=d(x,y)/3\). Se algum ponto \(z\) pertencesse às duas bolas, então
uma contradição.
Esse argumento mostra que uma métrica permite separar pontos distintos por bolas disjuntas. Em uma pseudométrica, isso pode falhar: pontos distintos a distância zero pertencem exatamente às mesmas bolas.
Toda bola aberta é aberta.
Toda bola fechada é fechada.
Se \(x\in B\left({a};{r}\right)\), ainda resta a margem \(s=r-d(x,a)\gt 0\). Para \(y\in B\left({x};{s}\right)\),
\[ d(y,a)\leq d(y,x)+d(x,a)\lt s+d(x,a)=r. \]Logo, \(B\left({x};{s}\right)\subset B\left({a};{r}\right)\).
Se \(x\notin {B\left[{a};{r}\right]}\), ponha \(s=d(x,a)-r\gt 0\). Para \(y\in B\left({x};{s}\right)\), a desigualdade triangular escrita como \(d(x,a)\leq d(x,y)+d(y,a)\) fornece
\[ d(y,a)\gt d(x,a)-s=r. \]Assim, \(B\left({x};{s}\right)\) está contida no complementar de \({B\left[{a};{r}\right]}\).
1.2.2 A topologia determinada pela métrica
\(\varnothing \) e \(X\) são abertos;
interseções finitas de abertos são abertas;
uniões arbitrárias de abertos são abertas.
Os dois conjuntos extremos são abertos diretamente pela definição: em \(\varnothing \) não há ponto a verificar, e qualquer bola em \(X\) está contida em \(X\).
Se \(U_1,\ldots ,U_n\) são abertos e \(x\in U_1\cap \cdots \cap U_n\), escolha \(r_i\gt 0\) com \(B\left({x};{r_i}\right)\subset U_i\). Então
Finalmente, se \(x\in \bigcup _{i\in I}U_i\), então \(x\in U_{i_0}\) para algum \(i_0\). Uma bola centrada em \(x\) e contida em \(U_{i_0}\) também está contida na união.
Uma união de bolas abertas é aberta pela proposição anterior e pelo teorema. Na direção oposta, se \(U\) é aberto, escolha para cada \(x\in U\) um raio \(r_x\gt 0\) com \(B\left({x};{r_x}\right)\subset U\). Então
O Teorema 1.16 diz precisamente que \(\mathcal T_{d}\) é uma topologia. No capítulo seguinte inverteremos o percurso: as três propriedades dos abertos serão tomadas como axiomas, mesmo quando nenhuma distância tiver sido escolhida.
1.2.3 Quando distâncias diferentes geram os mesmos abertos
Equivalência não significa igualdade das distâncias. Em \(\mathbb {Z}\), por exemplo, a métrica usual e a métrica discreta induzem a mesma topologia. Para a primeira,
e, na métrica discreta, \(\{ m\} =B_{\mathrm{disc}}(m;\frac12)\). Logo, em ambas, todo subconjunto é aberto.
Dada a bola \(B_{d_2}(a;r)\), a estimativa mostra que
Dizemos que \(d_1\) e \(d_2\) são Lipschitz-equivalentes quando existem \(h,k\gt 0\) com
para todos \(x,y\in X\).
Cada uma das duas estimativas fornece uma das comparações entre as métricas.
Fixe \(x\) em um espaço métrico \((X,d)\). Prove que \(y\in B\left({x};{r}\right)\) se, e somente se, \(x\in B\left({y};{r}\right)\). Se \(0\lt r\leq s\), mostre que \(B\left({x};{r}\right)\subset B\left({x};{s}\right)\). A inclusão precisa ser estrita quando \(r\lt s\)? Decida a questão e exiba um contraexemplo quando a resposta for negativa. Seja \(q:X\times X\to \mathbb {R}\) uma função simétrica que satisfaz \(q(x,x)=0\) e a desigualdade triangular. Sem supor previamente que \(q\) seja não negativa, prove que Uma função \(q:X\times X\to \mathbb {R}\) satisfaz as condições \(q(x,y)=0\) se, e somente se, \(x=y\); \(q(x,z)\leq q(z,y)+q(y,x)\) para todos \(x,y,z\in X\). Mostre que essas duas condições caracterizam as métricas em \(X\). Em particular, deduza delas a simetria, a não negatividade e a desigualdade triangular na forma usual. Verifique que, em \(X=\mathbb {R}\), a função \(q(x,y)=x-y\) satisfaz a primeira condição e viola a segunda, enquanto \(q(x,y)=|x-y|+1\) satisfaz a segunda e viola a primeira. Seja \(\mathcal R([a,b])\) o conjunto das funções Riemann-integráveis em um intervalo não degenerado \([a,b]\). Considere Determine qual axioma de métrica pode falhar e dê duas funções distintas a distância zero. Defina \(f\sim g\) quando \(d(f,g)=0\). Prove que \(\sim \) é uma relação de equivalência e que é uma métrica bem definida no conjunto quociente \(\mathcal R([a,b])/\! \sim \). A métrica \(p\)-ádica. Seja \(p\) primo. Para \(q\in \mathbb {Q}\setminus \{ 0\} \), denote por \(v_p(q)\) o único inteiro \(r\) tal que \(q=p^r c/d\), com \(c,d\in \mathbb {Z}\) não divisíveis por \(p\). Defina \(v_p(0)=+\infty \) e Prove que \(v_p(xy)=v_p(x)+v_p(y)\) e conclua que \(|xy|_p=|x|_p|y|_p\). Mostre que e que há igualdade quando \(v_p(x)\ne v_p(y)\). Traduza esse resultado para o valor absoluto \(p\)-ádico. Conclua que \(d_p(x,y)=|x-y|_p\) é uma métrica em \(\mathbb {Q}\). Explique por que a construção, escrita dessa forma, não pode usar um inteiro composto no lugar de \(p\). A aditividade de \(v_p\) segue da multiplicação das potências de \(p\). Para a soma, suponha \(m=v_p(x)\leq n=v_p(y)\) e escreva \(x=p^m u\), \(y=p^n v\), com \(u,v\) sem fatores \(p\). Então O fator entre parênteses não é divisível por \(p\) quando \(m\lt n\) e pode adquirir fatores adicionais de \(p\) quando \(m=n\). Portanto, com igualdade se \(|x|_p\ne |y|_p\). Aplicada a \(x-z=(x-y)+(y-z)\), essa desigualdade implica a desigualdade triangular para \(d_p\); os demais axiomas são imediatos. A primalidade garante que “não divisível por \(p\)” seja estável no argumento acima e que o expoente esteja bem definido. Para \(6\), por exemplo, e os fatores residuais de ambas as expressões têm numerador e denominador não divisíveis por \(6\). Não há, portanto, um expoente único. Seja \(X\ne \varnothing \) e seja \(\mathcal B(X)\) o espaço vetorial das funções limitadas \(X\to \mathbb {R}\). Verifique que é uma norma. Indique em qual passo a hipótese de limitação é usada. Seja \(V\) um espaço vetorial real munido de uma norma \(\| \cdot \| \). Prove que é uma métrica em \(V\). Verifique que essa métrica é invariante por translações e homogênea: Dê uma métrica em um espaço vetorial real que não possa provir de norma alguma e justifique sua escolha. Mostre a recíproca: se uma métrica em \(V\) satisfaz as duas identidades acima, então define uma norma cuja métrica induzida é a métrica original. Positividade, simetria e separação seguem dos axiomas da norma, e prova a desigualdade triangular. As duas identidades pedidas resultam de \(\| (x+z)-(y+z)\| =\| x-y\| \) e \(\| \lambda (x-y)\| =|\lambda |\| x-y\| \). Para o contraexemplo, pode-se usar a métrica discreta em \(V\ne \{ 0\} \): ela não é homogênea, pois \(d(2x,0)=1\ne 2d(x,0)\) para \(x\ne 0\). Na recíproca, a invariância por translações dá \(d(x,y)=d(x-y,0)\); a homogeneidade fornece a homogeneidade da norma, e a desigualdade triangular da métrica fornece \(\| x+y\| \leq \| x\| +\| y\| \). Seja \(V\) um espaço vetorial real. Partindo de um produto interno em \(V\), prove que é uma norma. Deduza a identidade do paralelogramo Se \(X\) é um conjunto com pelo menos dois pontos, use duas funções de suportes disjuntos para mostrar que a norma do supremo em \(\mathcal B(X)\) não provém de um produto interno. Suponha que uma norma real satisfaça a identidade do paralelogramo. Mostre que ela provém do produto interno dado pela fórmula de polarização Aplique o critério às três normas de \(\mathbb {R}^n\): Para \(n\geq 2\), quais são induzidas por um produto interno? Pela desigualdade de Cauchy–Schwarz, o que dá a desigualdade triangular; os outros axiomas de norma são diretos. Somando as expansões de \(\| x+y\| ^2\) e \(\| x-y\| ^2\), obtemos a identidade do paralelogramo. Para mostrar que a norma do supremo falha, escolha funções \(f,g\) que valem \(1\) em pontos distintos e \(0\) no restante. Então \(\| f+g\| _\infty =\| f-g\| _\infty =1\), enquanto \(2(\| f\| _\infty ^2+\| g\| _\infty ^2)=4\). Para a recíproca, ponha \(Q(x)=\| x\| ^2\) e A identidade do paralelogramo mostra que Trocando \(x\) e \(z\) e usando \(B(-u,y)=-B(u,y)\), obtemos também \(B(x+z,y)-B(x-z,y)=2B(z,y)\). Portanto, \(B(x+z,y)=B(x,y)+B(z,y)\). Seguem a homogeneidade para escalares racionais e, pela continuidade da norma, a homogeneidade para escalares reais. Como \(B\) é simétrica, ela é bilinear; além disso, \(B(x,x)=\| x\| ^2\), de modo que \(B\) é o produto interno procurado. Finalmente, \(\| \cdot \| _2\) provém do produto interno usual. Para \(e_1,e_2\), a identidade do paralelogramo dá \(8=4\) na norma \(\ell ^1\) e \(2=4\) na norma \(\ell ^\infty \). Assim, quando \(n\geq 2\), apenas \(\| \cdot \| _2\) entre as três normas listadas é induzida por produto interno. Sejam \(d_1\) e \(d_2\) métricas em \(X\), com topologias \(\mathcal T_1\) e \(\mathcal T_2\). Compare as três afirmações: existe \(c\gt 0\) tal que \(d_2(x,y)\leq cd_1(x,y)\) para todos \(x,y\in X\); para cada \(x\in X\) e \(r\gt 0\), alguma bola \(B_{d_1}(x;s)\) está contida em \(B_{d_2}(x;r)\); \(\mathcal T_2\subset \mathcal T_1\). Prove que (a) implica (b) e que (b) e (c) são equivalentes. Partindo da métrica usual \(d_2(x,y)=|x-y|\) em \(\mathbb {R}\), defina Mostre que \(d_1\) é uma métrica equivalente a \(d_2\). Prove que não existe \(c\gt 0\) para o qual \(d_2\leq cd_1\) em todo \(\mathbb {R}\). Isso mostra que métricas equivalentes não precisam ser Lipschitz-equivalentes. Em \(\mathbb {R}^n\), denote por \(d_2\) a métrica euclidiana e por \(d_\infty \) a métrica do supremo. Prove que e conclua que elas determinam os mesmos conjuntos abertos. Seja \((X,d)\) um espaço métrico. Trunque as grandes distâncias definindo Prove que \(\overline{d}\) é uma métrica. Mostre que \(d\) e \(\overline{d}\) induzem a mesma topologia. Compare a noção de conjunto limitado nas duas métricas.
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1.3 Continuidade
A continuidade não exige a preservação de distâncias, mas o controle das variações da imagem a partir das variações no domínio. O raio escolhido no domínio pode depender do ponto e da precisão exigida no contradomínio.
Em termos de bolas, a continuidade em \(a\) significa que uma bola centrada em \(a\) pode ser escolhida de modo que sua imagem esteja contida em qualquer bola previamente fixada em torno de \(f(a)\). O resultado seguinte exprime essa condição apenas em termos de abertos, sem mencionar os raios.
\(f\) é contínua em \(a\) se, e somente se, para cada aberto \(V\subset Y\) com \(f(a)\in V\) existe um aberto \(U\subset X\) tal que
\[ a\in U \quad \text{e}\quad f(U)\subset V. \]\(f\) é contínua se, e somente se, \(f^{-1}(V)\) é aberto em \(X\) para todo aberto \(V\subset Y\).
Suponha primeiro que \(f\) seja contínua em \(a\) e que \(V\) seja aberto com \(f(a)\in V\). Escolha \(\varepsilon \gt 0\) de modo que
Pela continuidade, existe \(\delta \gt 0\) para o qual
Tome \(U=B\left({a};{\delta }\right)\).
Na direção contrária, aplique a condição do item ao aberto \(V=B\left({f(a)};{\varepsilon }\right)\). O aberto correspondente \(U\) contém uma bola \(B\left({a};{\delta }\right)\), e então
Isso é a definição de continuidade em \(a\) e prova o primeiro item.
Agora suponha que \(f\) seja contínua em todos os pontos e fixe um aberto \(V\subset Y\). Para cada \(a\in f^{-1}(V)\), o primeiro item fornece um aberto \(U_a\) com
Logo, \(f^{-1}(V)=\bigcup _{a\in f^{-1}(V)}U_a\) é aberto.
Reciprocamente, se imagens inversas de abertos são abertas, então, para cada \(a\in X\) e \(\varepsilon \gt 0\), o conjunto \(f^{-1}(B\left({f(a)};{\varepsilon }\right))\) é aberto e contém \(a\). Ele contém alguma bola \(B\left({a};{\delta }\right)\), isto é,
Portanto, \(f\) é contínua em todo ponto.
A condição de continuidade da identidade em \(a\) é exatamente: para todo \(r\gt 0\), existe \(s\gt 0\) tal que \(B_{d_1}(a;s)\subset B_{d_2}(a;r)\).
Se \(L\gt 0\), dado \(\varepsilon \gt 0\), tome \(\delta =\varepsilon /L\). Quando \(L=0\), a função é constante e a conclusão é imediata.
Verifique que a identidade de um espaço métrico é contínua. Em seguida, se \(f:X\to Y\) e \(g:Y\to Z\) são contínuas, prove que \(g\circ f\) é contínua. Faça a segunda parte tanto pela definição métrica quanto usando imagens inversas de abertos. Prove diretamente, sem usar sequências, que toda função constante entre dois espaços métricos é contínua. Se o domínio \(X\) possui a métrica discreta, mostre que toda função \(f:X\to Y\) é contínua, qualquer que seja o espaço métrico \(Y\). Aplique o resultado às duas identidades e determine em quais pontos cada uma é contínua. No espaço \(C([0,1])\), compare a métrica integral com a métrica do supremo. Em cada uma delas, decida se a avaliação é contínua. Considere \(\mathbb {Q}\) e \(\{ 0,1\} \) com as métricas herdadas de \(\mathbb {R}\). Construa uma função contínua e sobrejetiva \(f:\mathbb {Q}\to \{ 0,1\} \). Por que a mesma construção não fornece uma função contínua de \(\mathbb {R}\) em \(\{ 0,1\} \)? No conjunto \(X=[0,1]^{\mathbb {N}}\), considere Prove que a identidade é Lipschitz, mas que a identidade na direção contrária não é contínua em \(0=(0,0,\ldots )\). Mostre que a identidade de \((X,d_w)\) em \((X,d_\infty )\) do Exercício 1.17 é descontínua em todos os pontos, e não apenas na origem. Defina \(f:\mathbb {Q}\to \mathbb {R}\) por Mostre que \(f\) é contínua para as métricas usuais. Explique por que não há um terceiro caso na definição. Considere a função de Dirichlet Prove pela definição \(\varepsilon \)–\(\delta \) que \(D:\mathbb {R}\to \mathbb {R}\) não é contínua em ponto algum. Depois determine o que ocorre com as restrições de \(D\) a \(\mathbb {Q}\) e a \(\mathbb {R}\setminus \mathbb {Q}\). Ver solução
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1.4 Sequências e Convergência
A convergência em um espaço métrico pode ser estudada por meio de distâncias, que são números reais. Isso permite formular limites em \(X\) sem supor que seus pontos possam ser somados, ordenados ou descritos por coordenadas.
Em outras palavras, \(x_n\to x\) exatamente quando a sequência real \(d(x_n,x)\) converge para zero. A mesma condição pode ser lida apenas com bolas.
\(x_n\to x\);
cada bola aberta centrada em \(x\) contém todos os termos de \((x_n)\) a partir de algum índice;
para todo \(m\geq 1\), a bola \(B\left({x};{1/m}\right)\) contém todos os termos de \((x_n)\) a partir de algum índice.
Os dois primeiros itens são equivalentes porque \(x_n\in B\left({x};{\varepsilon }\right)\) significa \(d(x_n,x)\lt \varepsilon \). O segundo implica o terceiro escolhendo os raios \(1/m\). Para a recíproca, dado \(\varepsilon \gt 0\), escolha \(m\) com \(1/m\lt \varepsilon \) e use \(B\left({x};{1/m}\right)\subset B\left({x};{\varepsilon }\right)\).
Se \(x_n\to x\) e \(x_n\to y\), então, para qualquer \(\varepsilon \gt 0\), existe um índice a partir do qual
Como isso vale para todo \(\varepsilon \), temos \(d(x,y)=0\) e, portanto, \(x=y\).
Em espaços topológicos mais gerais, uma sequência pode ter mais de um limite. A unicidade acima é uma consequência da separação por bolas estabelecida na Proposição 1.12.
Se \(f\) é contínua em \(a\), dado \(\varepsilon \gt 0\) escolha \(\delta \gt 0\) na definição de continuidade. Como \(x_n\to a\), eventualmente \(d_X(x_n,a)\lt \delta \), e então \(d_Y(f(x_n),f(a))\lt \varepsilon \).
Para a recíproca, suponha que \(f\) não seja contínua em \(a\). Existe \(\varepsilon _0\gt 0\) tal que, para cada \(n\geq 1\), podemos escolher \(x_n\in B_X(a;1/n)\) com
Então \(x_n\to a\), mas \(f(x_n)\) não converge para \(f(a)\), contradizendo a hipótese sequencial.
Escreva a negação formal de \(x_n\to x\) e prove que ela equivale à existência de \(\varepsilon _0\gt 0\) tal que, para todo \(N\), algum \(n\geq N\) satisfaz Use esse critério para mostrar que, na reta usual, as sequências \(((-1)^n)\) e \((n)\) não convergem. Prove que toda subsequência de uma sequência convergente converge para o mesmo limite. Deduza que uma sequência que possui duas subsequências com limites distintos não pode convergir. Caracterize completamente as sequências convergentes em um espaço munido da métrica discreta. Em \([0,1]^{\mathbb {N}}\), considere novamente Verifique que a série converge e que \(d_w\) é uma métrica. Para uma sequência de pontos \(x^{(n)}=(x^{(n)}_j)_{j\geq 1}\), prove que Como \(|x_j-y_j|\leq 1\), a série é dominada por \(\sum _{j\geq 1}2^{-j}\). Os axiomas da métrica seguem dos axiomas de \(|\cdot |\), aplicados termo a termo. Se \(d_w(x^{(n)},x)\to 0\), então, para cada \(j\) fixo, Na direção oposta, dado \(\varepsilon \gt 0\), escolha \(M\) de modo que \(\sum _{j\gt M}2^{-j}\lt \varepsilon /2\). Pela convergência das primeiras \(M\) coordenadas, existe \(N\) tal que, para \(n\geq N\) e \(1\leq j\leq M\), \(|x^{(n)}_j-x_j|\lt \varepsilon /2\). Assim, Considere com a métrica Construa uma sequência em \(X\) que converge coordenada a coordenada para um ponto de \([0,1]^{\mathbb {N}}\) que não pertence a \(X\). Construa uma sequência em \(X\) que converge coordenada a coordenada para \(0\in X\), mas não converge para \(0\) na métrica \(d_1\). Compare os dois fenômenos com o Exercício 1.24. Qual papel é desempenhado pelos pesos \(2^{-j}\)? Em \([0,1]^{\mathbb {N}}\), seja Mostre que \(x^{(n)}\to x\) nessa métrica se, e somente se, as coordenadas convergem uniformemente em \(j\): para todo \(\varepsilon \gt 0\), existe \(N\) tal que Dê um exemplo de uma sequência em \([0,1]^{\mathbb {N}}\) que converge em cada coordenada, mas não converge para a métrica do supremo. Identifique exatamente onde falta uniformidade. Ver solução
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1.5 Vizinhanças
Na formulação da continuidade, as bolas podem ser substituídas por conjuntos que contenham um aberto em torno do ponto. Esses conjuntos não precisam ser bolas nem possuir uma forma geométrica particular. Isso motiva a noção de vizinhança.
Uma vizinhança não precisa ser aberta. Ela apenas precisa conter um aberto que contenha \(x\). Essa distinção será útil quando a linguagem métrica for substituída pela linguagem puramente topológica.
se \(A\in \mathcal{V}_{x}\) e \(A\subset B\), então \(B\in \mathcal{V}_{x}\);
se \(A,B\in \mathcal{V}_{x}\), então \(A\cap B\in \mathcal{V}_{x}\);
para cada \(A\in \mathcal{V}_{x}\) existe \(B\subset A\), com \(x\in B\), tal que \(B\) é vizinhança de todos os seus pontos.
O primeiro item é imediato. Para o segundo, se \(B\left({x};{r}\right)\subset A\) e \(B\left({x};{s}\right)\subset B\), então
Para o terceiro, escolha uma bola aberta \(B\) centrada em \(x\) e contida em \(A\). Como \(B\) é aberto, todo ponto de \(B\) possui uma bola ainda contida em \(B\); portanto, \(B\) é vizinhança de cada um de seus pontos.
Suponha que \(f\) seja contínua em \(a\). Se \(V\) contém uma bola \(B\) centrada em \(f(a)\), a definição de continuidade mostra que \(f^{-1}(B)\) contém uma bola centrada em \(a\). Como \(f^{-1}(B)\subset f^{-1}(V)\), este último conjunto é uma vizinhança de \(a\).
Na direção contrária, aplique a hipótese às bolas centradas em \(f(a)\). Suas imagens inversas contêm bolas centradas em \(a\), que é exatamente a condição \(\varepsilon \)–\(\delta \).
Para cada \(x\), as bolas \(\{ B\left({x};{r}\right):r\gt 0\} \) formam uma base de vizinhanças. A família enumerável
também é uma base. A possibilidade de usar apenas os raios \(1/m\) fundamenta as caracterizações por sequências nos espaços métricos.
Se \(x_n\to x\), a propriedade vale para toda vizinhança de \(x\), logo também para os elementos da base. Reciprocamente, dada uma vizinhança \(V\) de \(x\), escolha \(B\in \mathcal{B}\) com \(B\subset V\). Os termos eventualmente pertencem a \(B\) e, portanto, a \(V\).
A necessidade segue da Proposição 1.38. Para a suficiência, seja \(V\) uma vizinhança de \(f(a)\) e escolha \(B\in \mathcal{B}\) com \(B\subset V\). Por hipótese, \(f^{-1}(B)\) é uma vizinhança de \(a\); como \(f^{-1}(B)\subset f^{-1}(V)\), também \(f^{-1}(V)\) é uma vizinhança de \(a\). Use agora a Proposição 1.38.
1.6 Produtos finitos de espaços métricos
Considere espaços métricos \((M_i,d_i)\), com \(1\leq i\leq n\), e escreva \(M=M_1\times \cdots \times M_n\). Há três escolhas particularmente úteis para medir a distância entre \(x=(x_1,\ldots ,x_n)\) e \(y=(y_1,\ldots ,y_n)\):
Cada fórmula reúne as distâncias das coordenadas de uma maneira diferente. Como o número de fatores é finito, porém, as três conduzem à mesma noção de proximidade.
A positividade, a simetria e a separação de pontos seguem das propriedades das métricas \(d_i\). A desigualdade triangular de \(d_{\Sigma }\) resulta da soma das desigualdades coordenada a coordenada; para \(d_{\max }\), usamos
e tomamos o máximo em \(i\). Para \(d_2\), a desigualdade triangular em cada coordenada, seguida da desigualdade de Minkowski em \(\mathbb {R}^n\), fornece
Resta comparar as fórmulas. Se \(a_i=d_i(x_i,y_i)\), então
o que prova as estimativas anunciadas.
É suficiente trabalhar com \(d_{\max }\). Se \(d_{\max }(x^{(k)},x)\to 0\), então
para cada \(i\). Reciprocamente, dado \(\varepsilon \gt 0\), a convergência da \(i\)-ésima coordenada fornece um índice \(N_i\) a partir do qual \(d_i(x_i^{(k)},x_i)\lt \varepsilon \). Para \(k\geq \max \{ N_1,\ldots ,N_n\} \), todas essas desigualdades valem ao mesmo tempo, e portanto \(d_{\max }(x^{(k)},x)\lt \varepsilon \).
Sejam \(a_1,\ldots ,a_n\) números positivos. Mostre que é uma métrica em \(M_1\times \cdots \times M_n\) e que ela é Lipschitz equivalente a \(d_{\max }\). Para \(1\leq i\leq n\), seja \(\pi _i:M_1\times \cdots \times M_n\to M_i\) a projeção na \(i\)-ésima coordenada. Mostre que \(\pi _i\) é Lipschitz quando o produto está munido de \(d_{\max }\). Dado um espaço métrico \(Z\), prove que uma função \(f:Z\to M_1\times \cdots \times M_n\) é contínua se, e somente se, cada função coordenada \(\pi _i\circ f\) é contínua. Suponha \(a\lt b\) e denote por \(\mathcal C([a,b])\) o conjunto das funções contínuas de \([a,b]\) em \(\mathbb {R}\). Considere Verifique que \(d_{\infty }\) e \(d_1\) são métricas. Mostre que a topologia de \(d_{\infty }\) é estritamente mais fina que a topologia de \(d_1\). Somente a separação de pontos para \(d_1\) pede atenção: se uma função contínua e não negativa possui integral nula, então ela é identicamente nula. As demais propriedades decorrem diretamente do módulo e da integral. Como a identidade de \((\mathcal C([a,b]),d_{\infty })\) em \((\mathcal C([a,b]),d_1)\) é contínua. A inclusão de topologias é própria. De fato, para \(n\geq 1\), defina Então \(d_1(f_n,0)=(b-a)/(2n)\to 0\), enquanto \(d_{\infty }(f_n,0)=1\) para todo \(n\). Ver solução
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Uma métrica fornece simultaneamente uma linguagem quantitativa e uma estrutura topológica: com ela medimos distâncias, mas também reconhecemos abertos, continuidade e convergência. As comparações feitas ao longo do capítulo mostram, contudo, que a parte topológica não registra todos os detalhes numéricos da distância. No capítulo seguinte, os conjuntos abertos passarão a ser o dado inicial, sem que seja preciso escolher antes uma métrica.