Capítulo 2

Topologia

No capítulo anterior, a métrica permitiu definir proximidade, convergência e continuidade. Estudaremos agora uma estrutura que permite formular essas noções sem escolher uma distância: a estrutura de espaço topológico. Seu ponto de partida é a família dos subconjuntos considerados abertos.

Essa passagem para uma linguagem mais abstrata tomou forma entre o final do século XIX e o início do século XX, em trabalhos de Fréchet, Hausdorff, Kuratowski e Alexandroff, entre outros. Um marco foi o livro de Felix Hausdorff, Grundzüge der Mengenlehre, publicado em 1914.

Após a definição de espaço topológico e os primeiros exemplos, introduziremos os axiomas básicos de separação \(T_0\), \(T_1\) e \(T_2\) e compararemos topologias definidas sobre o mesmo conjunto. Em seguida, veremos como descrever uma topologia por conjuntos fechados, por operadores de fecho e interior, por geradores, bases e sub-bases e, localmente, por sistemas de vizinhanças. O capítulo termina com pontos de acumulação, densidade e fronteira; continuidade, enumerabilidade, sequências e metrizabilidade serão desenvolvidas em capítulos próprios.

2.1 Definição

A definição se apoia em dois resultados do capítulo anterior. Pelo Teorema 1.26, a continuidade em espaços métricos pode ser formulada inteiramente em termos de conjuntos abertos. Pelo Teorema 1.16, esses abertos satisfazem três propriedades que tomaremos como axiomas de uma topologia.

Definição 2.1 (Espaço Topológico)

Seja \(X\) um conjunto qualquer. Dizemos que uma família \(\mathcal{T}\sb {X} \subset \mathcal{P}\left(X\right)\) define uma topologia no espaço \(X\), ou que \({\left({X}, {\mathcal{T}\sb {X}}\right)}\) é um espaço topológico, quando \(\mathcal{T}\sb {X}\) satisfaz:

  1. \(\varnothing , X \in \mathcal{T}\sb {X}\).

  2. A família \(\mathcal{T}\sb {X}\) é fechada por interseção finita:

    \begin{equation*} A, B \in \mathcal{T}\sb {X} \Rightarrow A \cap B \in \mathcal{T}\sb {X}. \end{equation*}
  3. A família \(\mathcal{T}\sb {X}\) é fechada por união arbitrária:

    \begin{equation*} A_\lambda \in \mathcal{T}\sb {X}\, (\lambda \in \Lambda ) \Rightarrow \bigcup _{\lambda \in \Lambda } A_\lambda \in \mathcal{T}\sb {X}. \end{equation*}

Os subconjuntos \(A \subset X\) tais que \(A \in \mathcal{T}\sb {X}\) são chamados abertos de \({\left({X}, {\mathcal{T}\sb {X}}\right)}\). Quando a topologia estiver clara pelo contexto, diremos simplesmente que \(X\) é um espaço topológico.

Observação 2.2 (Sutilezas)
Um espaço topológico é, portanto, um par \((X,\mathcal{T})\). Como ocorre com grupos ou espaços vetoriais, quando a estrutura estiver clara pelo contexto usaremos apenas o símbolo \(X\).

Definição 2.3
Seja \((X, \mathcal{T})\) um espaço topológico e seja \(A\subset X\). Dizemos que \(A\) é fechado se \(X\setminus A\in \mathcal{T}\).

A topologia de um espaço métrico, definida em 1.18 é de fato, pela Proposição 1.16, uma topologia no sentido da Definição 2.1. Vejamos outros exemplos de topologia.

2.1.1 Exemplos

Exemplo 2.4 (Topologia da reta)

No conjunto dos números reais \(\mathbb {R}\) a topologia usual é a topologia na qual um conjunto \(A\) é aberto se dado \(a\in A\) existe \(\varepsilon _{a}\) tal que \((a-\varepsilon _{a},a+\varepsilon _{a})\subset A\).

Nessa topologia os abertos serão os conjuntos que podem ser escritos como união de intervalos.

O conjunto dos números reais \(\mathbb {R}\) com essa topologia será denotado por \(\retaaa \) ou simplesmente \(\mathbb {R}\).

Figura 2.1 Abertos em ℝ na topologia usual. Figura 2.1 Abertos em ℝ na topologia usual.

Figura 2.1 Abertos em \(\mathbb {R}\) na topologia usual.

Exemplo 2.5 (Topologia associada a métrica)

Dado um espaço métrico \((X,d)\), considere os abertos definidos em 1.13. Pela Proposição 1.16, esses conjuntos formam uma topologia, chamada topologia induzida pela métrica e denotada por \(\mathcal{T}_d\).

Exemplo 2.6 (Topologias num conjunto com dois elementos)

Topologias possíveis em \(X = \{ a,b\} \)

  1. \(\{ \varnothing , \{ a,b\} \} \) (topologia trivial)

  2. \(\{ \varnothing , \{ a\} , \{ a,b\} \} \) (topologia de Sierpinski)

  3. \(\{ \varnothing , \{ b\} , \{ a,b\} \} \) (topologia de Sierpinski)

  4. \(\{ \varnothing , \{ a\} , \{ b\} , \{ a,b\} \} \) (topologia discreta)

A menos de permutar as letras, temos três topologias distintas com dois elementos.

Figura 2.2 O conjunto de todas as topologias possíveis no conjunto \ a, b\

Figura 2.2 O conjunto de todas as topologias possíveis no conjunto \(\{ a, b\} \)

Exemplo 2.7

A menos de permutar os elementos, as topologias possíveis em \(X=\{ a,b,c\} \) são

  1. \(\{ \varnothing , X\} \) (topologia trivial)

  2. \(\{ \varnothing , \{ a\} , X\} \)

  3. \(\{ \varnothing , \{ a,b\} , X\} \)

  4. \(\{ \varnothing , \{ c\} , \{ a,b\} , X\} \)

  5. \(\{ \varnothing , \{ c\} , \{ b,c\} , X\} \)

  6. \(\{ \varnothing , \{ c\} , \{ a,c\} , \{ b,c\} , X\} \)

  7. \(\{ \varnothing , \{ a\} , \{ b\} , \{ a,b\} , X\} \)

  8. \( \{ \varnothing , \{ b\} , \{ c\} , \{ a,b\} , \{ b,c\} , X\} \)

  9. \(\{ \varnothing , \{ a\} , \{ b\} , \{ c\} , \{ a,b\} , \{ a,c\} , \{ b,c\} , X\} \) (topologia discreta)

Figura 2.3 O conjunto de todas as topologias possíveis no conjunto \ a, b,c\

Figura 2.3 O conjunto de todas as topologias possíveis no conjunto \(\{ a, b,c\} \)

Exemplo 2.8 (Topologia Discreta)

Dado um conjunto qualquer \(X\), \((X, \mathcal{P}\left(X\right))\) é um espaço topológico. Esta topologia é induzida, por exemplo, pela métrica discreta mencionada no Exemplo 1.3.

Figura 2.4 Ilustração da topologia discreta para um conjunto com três pontos.

Figura 2.4 Ilustração da topologia discreta para um conjunto com três pontos.

Exercício
Prove que, em um conjunto finito \(X\), toda topologia induzida por uma métrica é a topologia discreta.

Exemplo 2.9 (Topologia da Continuidade Inferior)

Considere os números reais \(\mathbb {R}\) e a família

\begin{equation*} \mathcal{T}\sb {} = \{ \varnothing ,\mathbb {R}\} \cup {\left\{ \vphantom {\alpha \in \mathbb {R}}{(\alpha , \infty )} \thickspace \right| \thickspace \left. \vphantom {(\alpha , \infty )}{\alpha \in \mathbb {R}} \right\} }. \end{equation*}

Neste caso, \((\mathbb {R}, \mathcal{T}\sb {})\) é um espaço topológico. Essa topologia não é induzida por uma métrica: quaisquer dois abertos não vazios se intersectam, o que contradiz a Proposição 1.12 quando o espaço tem mais de um ponto. Esse espaço será denotado por \(\retaai \).

Do mesmo modo, existe a topologia da Continuidade Superior, dada por

\begin{equation*} \mathcal{T}\sb {} = \{ \varnothing ,\mathbb {R}\} \cup {\left\{ \vphantom {\alpha \in \mathbb {R}}{(-\infty , \alpha )} \thickspace \right| \thickspace \left. \vphantom {(-\infty , \alpha )}{\alpha \in \mathbb {R}} \right\} }. \end{equation*}

Esse espaço será denotado por \(\retaia \).

Exemplo 2.10 (Topologia do Ponto)

Fixado \(a\in X\), a topologia do ponto é formada pelo vazio e por todos os subconjuntos de \(X\) que contêm \(a\). Isto é,

\begin{equation} \label{etop_eq_topologiaPunto} \mathcal{T}_a = \{ U \subset X | a\in U\} \cup \{ \varnothing \} \tag{2.1} \end{equation}

Figura 2.5 Ilustração da topologia do ponto para um conjunto com três pontos.

Figura 2.5 Ilustração da topologia do ponto para um conjunto com três pontos.

Exemplo 2.11 (Topologia Inicial)

Seja \(X\) um conjunto e \({\left({Y}, {\mathcal{T}\sb {Y}}\right)}\) um espaço topológico. Considere uma aplicação \({f: X \to Y}\) qualquer. Então \((X, f^{-1}(\mathcal{T}\sb {Y}))\) é um espaço topológico. Essa topologia será estudada detalhadamente na seção 4.2

Exemplo 2.12 (Topologia Cofinita)

A topologia cofinita pode ser definida em qualquer conjunto \(X\): seus abertos são o vazio e os subconjuntos cujo complemento é finito. Equivalentemente, seus fechados são \(X\) e todos os subconjuntos finitos. Simbolicamente,

\[ \mathcal{T}=\{ A\subseteq X\mid A=\varnothing \mbox{ ou }X\setminus A\mbox{ é finita}\} . \]

Exemplo 2.13 (Topologia Relativa)
A topologia relativa ou induzida num subespaço S de um espaço topológico X é o conjunto das interseções de S com os abertos de X. Essa topologia será estudada detalhadamente na seção 4.1

Exemplo 2.14 (Topologia Trivial)

Dado um conjunto qualquer \(X\), a família \(\{ \varnothing ,X\} \) define a topologia trivial em \(X\). Se o conjunto \(X\) tiver mais do que um elemento, a topologia trivial não é induzida por uma métrica, pois não satisfaz a Proposição 1.12.

2.1.2 Primeiros axiomas de separação

Definição 2.15 (Axiomas de separação)
Seja \( (X, \mathcal{T}) \) um espaço topológico.
  • Um espaço \( X \) é Kolmogorov ou \({\mathbf T}_{0}\) se, dados pontos distintos \(x,y\in X\), existe um aberto que contém um deles e não contém o outro.

  • Um espaço \( X \) é Fréchet ou \({\mathbf T}_{1}\) se, dados pontos distintos \(x,y\in X\), existe um aberto \(U\) com \(x\in U\) e \(y\notin U\), e existe também um aberto \(V\) com \(y\in V\) e \(x\notin V\).

  • Finalmente, diz-se que \( X \) é Hausdorff ou \({\mathbf T}_{2}\) se, dados pontos distintos \(x,y\in X\), existem abertos disjuntos \(U,V\) tais que \(x\in U\) e \(y\in V\).

Figura 2.6 Espaços Topológicos T_(0) e T_(1)

Figura 2.6 Espaços Topológicos \({\mathbf T}_{0}\) e \({\mathbf T}_{1}\)

Figura 2.7 Espaços Topológicos T_(2)

Figura 2.7 Espaços Topológicos \({\mathbf T}_{2}\)

Os três axiomas medem, em graus crescentes, quanto a topologia consegue distinguir pontos. Temos \(T_2\Rightarrow T_1\Rightarrow T_0\): vizinhanças disjuntas separam cada ponto do outro, e a separação bilateral de \(T_1\) implica imediatamente a separação unilateral exigida por \(T_0\). incluindo sua preservação por construções topológicas, será feito no capítulo dedicado aos axiomas de separação. Do mesmo modo, continuidade e metrizabilidade serão tratadas em capítulos próprios.

Exercício 2.1

Dado o intervalo \([-1,1]\), considere \(\tau \) a coleção de seus subconjuntos que ou não contêm \(\{ 0\} \) ou contêm \((-1,1)\). Mostre que \(\tau \) é uma topologia sobre \([-1,1]\).

Exercício 2.2

Em cada um dos itens abaixo, mostre que \(\tau \) é uma topologia sobre \(X\):

  1. \(X = \{ 0, 1\} \)
    \(\tau = \{ \varnothing , \{ 0\} , X\} \)

  2. \(X\) conjunto não-enumerável
    \(\tau = \{ \varnothing \} \cup \{ A \subseteq X : X \setminus A \ \hbox{é enumerável}\} \)

  3. \(X = \mathbb {N}\)
    \(\tau = \{ \{ m \in \mathbb {N} : m \lt n\} : n \in \mathbb {N}\} \cup \{ \mathbb {N}\} \)

  4. \(X = \mathbb {N}\)
    \(\tau = \{ A \subseteq \mathbb {N} : 0 \in A\} \cup \{ \varnothing \} \)

Exercício 2.3

Seja \(X\) um conjunto infinito. Considere \(\tau \) uma topologia sobre \(X\) para a qual todos os subconjuntos infinitos de \(X\) são abertos. Mostre que \(\tau \) é a topologia discreta sobre \(X\).

Ver solução

A ideia é mostrar que cada conjunto unitário está na topologia e, portanto, a topologia é discreta. Escolha um conjunto infinito \( A \subset X \) de tal forma que \( A^c \) também é infinito.

\(\Box \) Se \( X \) é um conjunto infinito enumerável, podemos enumerar e definir \( A \) como o conjunto que contém os elementos ímpares. Isso garante que os conjuntos \( A \) e \( A ^c \) sejam infinitos.

\(\Box \)Se \( X \) é não enumerável, escolhemos subconjunto enumerável infinito \( A \).

Desta forma \(A \) e \( A ^c \) pertencem a \( \tau \), pois são conjuntos infinitos. Agora considere qualquer \( x \in X \). Note que \( A \cup \{ x \} \) e \( A ^c \cup \{ x \} \) pertencem a \( \tau \) uma vez que são conjuntos infinitos. Daí, sua interseção, que é \( \{ x \} \in \tau \) para todo \( x \in X \).

Exercício 2.4

Sejam \((X, d)\) um espaço métrico, \(a \in X\) e \(r \gt 0\). Mostre que \(B_{d}[a, r]\) e \(\{ x \in X : d(x, a) = r\} \) são fechados em \((X, \tau _d)\).

2.2 Comparando Topologias

Duas topologias definidas no mesmo conjunto podem conter quantidades diferentes de abertos. Essa comparação por inclusão tem uma interpretação imediata em termos de continuidade: quanto mais fina é a topologia do domínio, mais fácil é uma função ser contínua; quanto mais fina é a topologia do contradomínio, mais difícil.

Definição 2.16

Se \((X,\mathcal{T}\sb {1})\) e \((X,\mathcal{T}\sb {2})\) são duas topologias no mesmo conjunto \(X\) e \(\mathcal{T}\sb {1} \subset \mathcal{T}\sb {2}\), então dizemos que \(\mathcal{T}\sb {2}\) é mais forte ou mais fina que \(\mathcal{T}\sb {1}\). Também dizemos que \(\mathcal{T}\sb {1}\) é mais fraca que \(\mathcal{T}\sb {2}\). Podemos também dizer que \(\mathcal{T}\sb {1}\) é menor que \(\mathcal{T}\sb {2}\), ou que \(\mathcal{T}\sb {2}\) é maior que \(\mathcal{T}\sb {1}\).

Exemplo 2.17
  1. A topologia trivial \(\{ \varnothing , \{ a,b\} \} \) é mais fraca que topologia de Sierpinski \(\{ \varnothing , \{ b\} , \{ a,b\} \} \) que é mais fraca que a topologia discreta \(\{ \varnothing , \{ a\} , \{ b\} , \{ a,b\} \} \) em \(a,b\).

  2. A topologia de Sierpinski \(\{ \varnothing , \{ a\} , \{ a,b\} \} \) não é comparável com a topologia de Sierpinski \(\{ \varnothing , \{ b\} , \{ a,b\} \} \)

  3. A topologia trivial é a topologia mais fraca/menor em qualquer conjunto \(X\).

  4. A topologia discreta é a topologia mais fina/forte/maior em qualquer conjunto \(X\).

Figura 2.8 A topologia 1 é mais fraca que 2 que é mais fraca que 4. A topologia 1 é mais fraca que 3 que é mais fraca que 4. As topologias 2 e 3 não são comparáveis

Figura 2.8 A topologia 1 é mais fraca que 2 que é mais fraca que 4. A topologia 1 é mais fraca que 3 que é mais fraca que 4. As topologias 2 e 3 não são comparáveis

Proposição 2.18

Seja \(X\) um conjunto qualquer, e \(\mathcal{T}\sb {\lambda }\) \((\lambda \in \Lambda )\) uma família de topologias em \(X\). Então \(\mathcal{T}\sb {X} = \bigcap _{\lambda \in \Lambda } \mathcal{T}\sb {\lambda }\) é uma topologia em \(X\).

Demonstração

Basta verificar que \(\mathcal{T}\sb {X}\) satisfaz os axiomas listados na Definição 2.1. Por exemplo,

\begin{align*} A, B \in \mathcal{T}\sb {X} & \Rightarrow \forall \lambda \in \Lambda ,\, A \cap B \in \mathcal{T}\sb {\lambda } \\ & \Rightarrow A \cap B \in \bigcap _{\lambda \in \Lambda } \mathcal{T}\sb {\lambda } = \mathcal{T}\sb {X}. \end{align*}

A relação mais forte que define uma ordem parcial na família das topologias de um conjunto \(X\):

\begin{equation*} \mathcal{T}(X) = {\left\{ \vphantom {\mathcal{T}\sb {X} \text{ é topologia}}{\mathcal{T}\sb {X} \subset \mathcal{P}\left(X\right)} \thickspace \right| \thickspace \left. \vphantom {\mathcal{T}\sb {X} \subset \mathcal{P}\left(X\right)}{\mathcal{T}\sb {X} \text{ é topologia}} \right\} }, \end{equation*}

Existe um elemento máximo dentre todas as topologias de \(X\). É o conjunto das partes de \(X\), \(\mathcal{P}\left(X\right)\), que é a topologia mais forte que pode ser definida em \(X\). Por outro lado, \(\{ \varnothing , X\} \) é a topologia mais fraca em \(\mathcal{T}(X)\).

A Proposição 2.20 mostra que dada uma família de topologias \(\mathcal{T}\sb {\lambda \, } (\lambda \in \Lambda )\), existe a maior topologia que é menor que todas as \(\mathcal{T}\sb {\lambda }\). Essa topologia \(\mathcal{T}\sb {\delta }\) é o ínfimo das \(\mathcal{T}\sb {\lambda }\). Escrevemos

\begin{equation*} \mathcal{T}\sb {\delta } = \inf {\left\{ \vphantom {\lambda \in \Lambda }{\mathcal{T}\sb {\lambda }} \thickspace \right| \thickspace \left. \vphantom {\mathcal{T}\sb {\lambda }}{\lambda \in \Lambda } \right\} }. \end{equation*}

Proposição 2.19
Seja \(X\) um conjunto munido de duas topologias \(\mathcal{T}\sb {1}\) e \(\mathcal{T}\sb {2}\). Então a aplicação identidade
\[ \operatorname {id}:(X,\mathcal{T}\sb {1})\longrightarrow (X,\mathcal{T}\sb {2}) \]
é contínua se, e somente se, \(\mathcal{T}\sb {2}\subseteq \mathcal{T}\sb {1}\).

Exercício 2.5

Sejam \(X\) um conjunto infinito e \(x_1, x_2 \in X\) distintos. Mostre que

\[ \begin{array}{lll} \tau _1 & = & \{ A \subseteq X : x_1 \not\in A\} \cup \{ A \subseteq X : X \setminus A \ \hbox{é finito}\} \\ \tau _2 & = & \{ A \subseteq X : x_2 \not\in A\} \cup \{ A \subseteq X : X \setminus A \ \hbox{é finito}\} \end{array} \]

são topologias incomparáveis sobre \(X\) (isto é, \(\tau _1\) e \(\tau _2\) são topologias sobre \(X\), mas nem \(\tau _1\) é mais fina que \(\tau _2\) nem \(\tau _2\) é mais fina que \(\tau _1\)).

Exercício 2.6

Sejam \(X\) um conjunto não vazio e \(\{ \tau _i\} _{i\in I}\) uma coleção de topologias sobre \(X\). Mostre que \(\cap _{i\in I}\tau _i\) é uma topologia em \(X\), mas \(\cup _{i\in I}\tau _i\) não é necessariamente uma topologia em \(X\).

Exercício 2.7

Mostre que a topologia usual é mais fina do que a topologia de Zariski \(\mathcal{Z}\).

Exercício 2.8

Seja \(X\) um conjunto infinito. Seja \(\tau \) a topologia cofinita sobre \(X\). Mostre que \(\tau \) é a menor (no sentido da inclusão) topologia \(T_1\) sobre \(X\) — ou seja, mostre que \((X, \tau )\) é \(T_1\) e que se \(\sigma \) é uma outra topologia sobre \(X\) tal que \((X, \sigma )\) é \(T_1\), então \(\tau \subseteq \sigma \)).

Exercício 2.9

Mostre que não existe uma topologia sobre \(X\) que é a menor topologia \(T_2\) sobre \(X\). [Sugestão: Fixe \(x_1, x_2 \in X\) distintos e sejam \(\tau _1\) e \(\tau _2\), respectivamente, as topologias apresentadas no Exercício 4 da Lista 2. Mostre que \((X, \tau _1)\) e \((X, \tau _2)\) são \(T_2\), mas que \((X, \tau _1 \cap \tau _2)\) não é \(T_2\).]

Exercício 2.10

Sejam \(X\) um conjunto munido da topologia cofinita e \(Y\subseteq X\). Sejam \(\tau _c\) e \(\tau _s\), respectivamente, a topologia cofinita em \(Y\) e a topologia de subespaço em \(Y\) induzida pela topologia de \(X\). Compare \(\tau _c\) e \(\tau _s\) com respeito à inclusão (\(\subseteq \)).

2.3 Conjuntos Fechados

Os conjuntos fechados fornecem uma descrição equivalente da topologia. Muitas propriedades são mais naturais nessa linguagem, sobretudo as que envolvem fecho e pontos de acumulação.

As propriedades de ser aberto e de ser fechado não são mutuamente excludentes. Existem conjuntos que são simultaneamente abertos e fechados, assim como conjuntos que não satisfazem nenhuma dessas condições.

Definição 2.20 (Fechado)
Um subconjunto \(F\) de um espaço topológico \(X\) é fechado se seu complemento \(X\setminus F\) for aberto.

Geralmente, denotaremos os conjuntos fechados com as letras \( F \) ou \( H \).

Exemplo 2.21
  1. No conjunto dos números reais \(\mathbb {R}\) um intervalo fechado \([a,b]\) é fechado na topologia usual pois seu complementar é aberto

  2. Na topologia de Sierpinski os abertos são \(\{ \varnothing , \{ a\} , \{ a,b\} \} \), consequentemente os fechados são \(\{ \varnothing , \{ b\} , \{ a,b\} \} \)

  3. Na topologia discreta todo conjunto é aberto e consequentemente todo conjunto é fechado.

Exemplo 2.22 (Fechados em \(\mathbb {R}^2\))
Ilustração: Conjuntos Fechados Ilustração: Conjuntos Fechados

Figura 2.9 \(|x| \leq a,\, |y| \lt b\) não é fechado, mas \(|x| \leq a,\, |y|\leq b\) é fechado.

Figura 2.10 Abertos e fechados da topologia de Sierpinski

Figura 2.10 Abertos e fechados da topologia de Sierpinski

Proposição 2.23 (Propriedades de fechado)
Dado um espaço topológico \( X \) então
  1. O vazio e o espaço todo são fechados.

  2. A interseção arbitrária de fechados é fechada.

  3. A união finita de fechados é fechada.

Demonstração

Vamos caso por caso.

  1. \( X \) é fechado porque \( X \setminus X = \varnothing \) é aberto.

    Além disso, \( \varnothing \) é fechado porque \( X \setminus \varnothing = X \) é aberto.

  2. \( \bigcap _{i \in I} F_i \) é fechado porque, aplicando as leis de De Morgan temos que

    \begin{equation*} X \setminus \left(\bigcap _{i \in I} F_i \right) = \bigcup _{i \in I} X \setminus F_i \end{equation*}

    é aberto por ser uma união arbitrária de abertos.

  3. \( \bigcup _{i = 1} ^n F_i \) é fechado, para isso tome o complementar e veja que ele é aberto porque é uma interseção finita de abertos.

    \begin{equation*} X \setminus \left(\bigcup _{i = 1} ^{n} F_i \right) = \bigcap _{i = 1} ^n X \setminus F_i \end{equation*}

Com isso terminamos a demonstração.

Figura 2.11 A união finita de intervalos fechados é um fechado de ℝ na topologia usual.

Figura 2.11 A união finita de intervalos fechados é um fechado de \(\mathbb {R}\) na topologia usual.

Observação 2.24 (Aberto e fechado ao mesmo tempo)

O Lema 2.25 mostra imediatamente que \(\varnothing \) e \(X\) são simultaneamente abertos e fechados.

Um conjunto que é simultaneamente aberto e fechado é chamado clopen. Esses conjuntos terão papel central no estudo da conexidade.

Exemplo 2.25
Na topologia discreta todo conjunto é aberto, logo todo conjunto é fechado e assim todo conjunto é clopen.

Proposição 2.26 (Definindo a topologia por fechados)
Dado um conjunto \( X \) e uma família \(\mathcal{F}\subseteq \mathcal P(X)\) que satisfaz
  1. O vazio e o espaço todo estão em \(\mathcal{F}\).

  2. A interseção arbitrária de conjuntos em \(\mathcal{F}\) está em \(\mathcal{F}\).

  3. A união finita de conjuntos em \(\mathcal{F}\) está em \(\mathcal{F}\).

Então a família \(\mathcal{T}=\{ X\setminus F: F\in \mathcal{F}\} \) é uma topologia cujos fechados são exatamente os elementos de \(\mathcal{F}\).

Demonstração

Como \(X,\varnothing \in \mathcal F\), seus complementos \(\varnothing \) e \(X\) pertencem a \(\mathcal{T}\). Se \(U_i=X\setminus F_i\in \mathcal{T}\), então, pelas leis de De Morgan,

\[ \bigcup _{i\in I}U_i =X\setminus \bigcap _{i\in I}F_i\in \mathcal{T}, \]

pois \(\mathcal F\) é fechada por interseções arbitrárias. Analogamente, para \(F_1,\ldots ,F_n\in \mathcal F\),

\[ \bigcap _{j=1}^n(X\setminus F_j) =X\setminus \bigcup _{j=1}^nF_j\in \mathcal{T}. \]

Logo \(\mathcal{T}\) é uma topologia. Pela própria definição, seus complementos de abertos, isto é, seus fechados, são exatamente os elementos de \(\mathcal F\).

Exemplo 2.27 (Topologia de Zariski)
Seja \(\mathbb {R}[x_{1},\ldots ,x_{n}]\) o anel dos polinômios em \(n\) variáveis com coeficientes reais. Para cada conjunto de polinômios \(I\subset \mathbb {R}[x_{1},\ldots ,x_{n}]\), defina
\[ V(I)=\{ x\in \mathbb R^n:p(x)=0\text{ para todo }p\in I\} . \]
A família
\[ \mathcal F=\{ V(I):I\subseteq \mathbb R[x_1,\ldots ,x_n]\} \]
satisfaz as três condições da Proposição 2.28. De fato,
\[ \varnothing =V(\{ 1\} ), \qquad \mathbb R^n=V(\{ 0\} ). \]
Além disso, se \(I,J\) são famílias de polinômios e \(IJ=\{ fg:f\in I,\ g\in J\} \), então
\[ V(I)\cup V(J)=V(IJ), \]
pois um ponto anula todos os produtos \(fg\) se, e somente se, anula todos os polinômios de \(I\) ou todos os polinômios de \(J\). Finalmente, para qualquer família \((I_\alpha )_{\alpha \in A}\),
\[ \bigcap _{\alpha \in A}V(I_\alpha ) =V\! \left(\bigcup _{\alpha \in A}I_\alpha \right). \]
Portanto os conjuntos \(V(I)\) são os fechados de uma topologia em \(\mathbb R^n\). Essa topologia é denominada topologia de Zariski; seus abertos são os complementos \(\mathbb R^n\setminus V(I)\).

Exercício 2.11

Supondo \(n=1\) no exemplo anterior, mostre que a topologia de Zariski em \(\mathbb R\) coincide com a topologia cofinita.

Exercício 2.12
Sejam \(X\) um conjunto não vazio e \(d\) uma métrica sobre \(X\).
  1. Para \(a \in X\) e \(r \gt 0\) arbitrários, mostre que \(\overline{B_{d}(a, r)} \subseteq B_{d}[a, r]\).

  2. Mostre, através de um exemplo, que a igualdade \(\overline{B_{d}(a, r)} = B_{d}[a, r]\) não é necessariamente verdadeira.

2.4 Fecho e Interior

Definição 2.28
Seja \(X\) um espaço topológico, e seja \(A\subset X\). Definimos o fecho de \(A\) como o conjunto
\[ \overline{A}=\bigcap \{ F\subset X : F\text{ é fechado e }F\supset A\} . \]

É imediato da definição que \(\overline{A}\) é o menor subconjunto fechado de \(X\) que contém \(A.\) Os pontos de \(\overline A\) são chamados pontos aderentes a \(A\).

A aplicação \(A\to \overline{A}\) é denominada aplicação fecho.

Exemplo 2.29
Considere a topologia \(\mathcal{T} = \{ X, \varnothing , \{ a\} , \{ c, d\} , \{ a, c, d\} , \{ b, c, d, e\} \} \) em \(X = \{ a, b, c, d, e\} \) onde os subconjuntos fechados de \(X\) são \(\{ \varnothing , X, \{ b, c, d, e\} , \{ a, b,e\} , \{ b, e\} , \{ a\} \} \) Assim,
\[ \overline{\{ b\} } = \{ b, e\} , \overline{\{ a, c\} } = X, \overline{\{ b, d\} } = \{ b, c, d, e\} \]

Proposição 2.30

Seja \(X\) um espaço topológico. Então a aplicação fecho possui as seguintes propriedades:

  1. \(A\subset \overline{A}.\)

  2. \(\overline{\overline{A}}=\overline{A}.\)

  3. \(\overline{\varnothing }=\varnothing .\)

  4. \(\overline{A\bigcup B}=\overline{A}\bigcup \overline{B}.\)

  5. \(A\) é fechado se, e somente se, \(A=\overline{A}.\)

Demonstração

  1. é óbvio.

  2. Por a \(\overline{A}\subset \overline{\overline{A}}. \mathrm{E}\) como \(\overline{A}\) é um fechado contendo \(\overline{A}\), segue que \(\overline{\overline{A}}\subset \overline{A}.\)

  3. Como \(\varnothing \) é um fechado contendo \(\varnothing \), segue que \(\overline{\varnothing }\subset \varnothing .\)

  4. Começamos observando que \(A\subset B\) implica \(\overline{A}\subset \overline{B}.\)

    Como \(A\subset A\bigcup B\) e \(B\subset A\bigcup B\), segue que \(\overline{A}\subset \overline{A\bigcup B}\) e \(\overline{B}\subset \overline{A\bigcup B}\). Logo \(\overline{A}\bigcup \overline{B}\subset \overline{A\bigcup B}\). Por outro lado \(\overline{A}\bigcup \overline{B}\) é um fechado contendo \(A\bigcup B\). Logo \(\overline{A\bigcup B}\subset \overline{A}\bigcup \overline{B}.\)

  5. A demonstração é direta.

Exemplo 2.31 (Quadrados abertos)
Se consideramos os conjuntos
\begin{equation*} \begin{array}{cc} A:=(0,1)\times (0,1)\qquad & \qquad B:=(1,2)\times (0,1) \end{array}\end{equation*}
em \(\mathbb {R}^2\) com a topologia usual, é fácil demonstrar que \(\overline{A\cap B}=\varnothing \) enquanto que \(\overline{A}\cap \overline{B}=\{ 1\} \times [0,1]\).

Figura 2.12 Na figura da esquerda vemos que overlineAcap B=varnothing enquanto que na direita vemos que overlineAcap overlineB=\ 1\ × [0,1]

Figura 2.12 Na figura da esquerda vemos que \(\overline{A\cap B}=\varnothing \) enquanto que na direita vemos que \(\overline{A}\cap \overline{B}=\{ 1\} \times [0,1]\)

Podemos especificar uma topologia definindo uma aplicação fecho com as propriedades da proposição anterior.

Proposição 2.32

Seja \(X\) um conjunto, e seja \(A\in \mathcal{P}(X)\rightarrow \overline{A}\in \mathcal{P}(X) \) uma aplicação com as seguintes propriedades:

  1. \(A\subset \overline{A}.\)

  2. \(\overline{\overline{A}}=\overline{A}.\)

  3. \(\overline{\varnothing }=\varnothing .\)

  4. \(\overline{A\bigcup B}=\overline{A}\bigcup \overline{B}.\)

Seja \(\mathcal{F}=\{ A\subset X\ :\ A=\overline{A}\} .\) Então \(\mathcal{F}\) é a família de fechados de uma topologia \(\mathcal{T}\) em X. \(\overline{A}\) é o fecho de \(A\) para todo \(A\subset X.\)

Demonstração

É imediato que \(X\in \mathcal{F}.\) E assim segue de c que \(\varnothing \in \mathcal{F}.\)

Pela Proposição 2.52 item d temos que a união de dois subconjuntos de \(\mathcal{F}\) pertence \(\mathrm{a}\mathcal{F}.\)

Antes de demonstrar que qualquer interseção de subconjuntos de \(\mathcal{F}\) pertence a \(\mathcal{F},\) provemos que \( A\subset B\) implica \(\overline{A}\subset \overline{B}.\)

Novamente pela Proposição 2.52 item d temos que :

\[ A\subset B\Rightarrow B=A\bigcup (B\backslash A)\Rightarrow \overline{B}=\overline{A}\bigcup \overline{(B\backslash A)}\Rightarrow \overline{B}\supset \overline{A}. \]

Agora sejam \(A_{i}\in \mathcal{F}\) para todo \(i\in I. \) Então \(\bigcap _{i\in I}A_{i}\subset A_{i}\), e portanto \(\overline{\bigcap _{i\in I}A_{i}}\subset \overline{A_{i}}=A_{i}\) para todo \(i\in I\). Logo \(\displaystyle \overline{\bigcap _{i\in I}A_{i}}\subset \bigcap _{i\in I}A_{i}\), e segue que \(\displaystyle \bigcap _{i\in I}A_{i}\in \mathcal{F}.\)

Assim \(\mathcal{F}\) é a família de fechados para uma topologia \(\mathcal{T}\) em \(X\). Finalmente demonstraremos que \(\overline{A}\) é o fecho de \(A\) com relação a \(\mathcal{T}\). Começamos observando que

\[ \overline{A}\subset \overline{F}=F\text{ para todo }F\in \mathcal{F}\text{ tal que }F\supset A, \]

e portanto

\[ \overline{A}\subset \bigcap \{ F\in \mathcal{F}:F\supset A\} . \]

Por outro lado segue da Proposição 2.52 item \((\ref{it:prop4.2b})\) que \(\overline{A}\in \mathcal{F}\) e \(\overline{A}\supset A\). Consequentemente

\[ \bigcap \{ F\in \mathcal{F}:F\supset A\} \subset \overline{A}. \]

E assim podemos concluir que \(\overline{A}\) é o fecho de \(A.\)

Definição 2.33
Seja \(X\) um espaço topológico, e seja \(A\subset X\). Chamaremos de interior de \(A\) o conjunto
\[ {\kern 0ptA}^{\mathrm{o}}=\bigcup \{ U\subset X:U\text{ é aberto e }U\subset A\} . \]

Claramente \({\kern 0ptA}^{\mathrm{o}}\) é o maior subconjunto aberto de \(X\) que está contido em \(A\). Às vezes escreveremos \(\mathring {A}\) em lugar de \({\kern 0ptA}^{\mathrm{o}}.\)

Proposição 2.34
Seja \(X\) um espaço topológico, e seja \(A\subset X.\) Então
\[ X\setminus \overline{A}={\kern 0pt(X\setminus A)}^{\mathrm{o}} \qquad \text{e}\qquad X\setminus {\kern 0ptA}^{\mathrm{o}}=\overline{(X\setminus A)}. \]

Demonstração

Por definição,

\[ \overline{A}=\bigcap \{ F:F\text{ é fechado e }F\supseteq A\} . \]

Logo, pelas leis de De Morgan,

\begin{align*} X\setminus \overline{A} & =\bigcup \{ X\setminus F:F\text{ é fechado e }F\supseteq A\} \\ & =\bigcup \{ U:U\text{ é aberto e }U\subseteq X\setminus A\} \\ & ={\kern 0pt(X\setminus A)}^{\mathrm{o}}. \end{align*}

A segunda identidade é a primeira aplicada a \(X\setminus A\).

Proposição 2.35

Seja \(X\) um espaço topológico. Então a aplicação interior tem as seguintes propriedades:

  1. \({\kern 0ptA}^{\mathrm{o}}\subset A.\)

  2. \({\kern 0pt({\kern 0ptA}^{\mathrm{o}})}^{\mathrm{o}}={\kern 0ptA}^{\mathrm{o}}.\)

  3. \({\kern 0ptX}^{\mathrm{o}}=X.\)

  4. \({\kern 0pt(A\cap B)}^{\mathrm{o}}={\kern 0ptA}^{\mathrm{o}}\cap {\kern 0ptB}^{\mathrm{o}}.\)

  5. \(A\) é aberto se, e somente se, \(A={\kern 0ptA}^{\mathrm{o}}.\)

Demonstração

Cada item é dual ao item correspondente da Proposição 2.52, por complementação e pela Proposição 2.56. Por exemplo,

\[ {\kern 0pt(A\cap B)}^{\mathrm{o}} =X\setminus \overline{(X\setminus A)\cup (X\setminus B)} ={\kern 0ptA}^{\mathrm{o}}\cap {\kern 0ptB}^{\mathrm{o}}. \]

Os demais itens seguem do mesmo modo; alternativamente, decorrem diretamente do fato de \({\kern 0ptA}^{\mathrm{o}}\) ser o maior aberto contido em \(A\).

Proposição 2.36

Seja \(X\) um conjunto, e seja \(A\in \mathcal{P}(X)\rightarrow {\kern 0ptA}^{\mathrm{o}}\in \mathcal{P}(X)\) uma aplicação com as seguintes propriedades:

  1. \({\kern 0ptA}^{\mathrm{o}}\subset A.\)

  2. \({\kern 0pt({\kern 0ptA}^{\mathrm{o}})}^{\mathrm{o}}={\kern 0ptA}^{\mathrm{o}}.\)

  3. \({\kern 0ptX}^{\mathrm{o}}=X.\)

  4. \({\kern 0pt(A\cap B)}^{\mathrm{o}}={\kern 0ptA}^{\mathrm{o}}\cap {\kern 0ptB}^{\mathrm{o}}.\)

Seja \(\mathcal{T}=\{ A\subset X\ :\ A={\kern 0ptA}^{\mathrm{o}}\} \). Então \(\mathcal{T}\) é uma topologia em X. E \({\kern 0ptA}^{\mathrm{o}}\) é o interior de \(A\) para todo \(A\subset X.\)

Demonstração

Pelos axiomas dados, \(X\in \mathcal T\). A monotonicidade do operador interior segue das propriedades: se \(A\subseteq B\), então \(A=A\cap B\) e

\[ {\kern 0ptA}^{\mathrm{o}}={\kern 0ptA}^{\mathrm{o}}\cap {\kern 0ptB}^{\mathrm{o}}, \]

portanto \({\kern 0ptA}^{\mathrm{o}}\subseteq {\kern 0ptB}^{\mathrm{o}}\). Se \(U,V\in \mathcal T\), então

\[ {\kern 0pt(U\cap V)}^{\mathrm{o}}={\kern 0ptU}^{\mathrm{o}}\cap {\kern 0ptV}^{\mathrm{o}}=U\cap V, \]

logo \(U\cap V\in \mathcal T\).

Se \((U_i)_{i\in I}\subseteq \mathcal T\) e \(U=\bigcup _iU_i\), então, para cada \(i\), \(U_i={\kern 0ptU_i}^{\mathrm{o}}\subseteq {\kern 0ptU}^{\mathrm{o}}\) pela monotonicidade. Assim \(U\subseteq {\kern 0ptU}^{\mathrm{o}}\). Como sempre \({\kern 0ptU}^{\mathrm{o}}\subseteq U\), obtemos \(U={\kern 0ptU}^{\mathrm{o}}\), isto é, \(U\in \mathcal T\). Além disso, \({\kern 0pt\varnothing }^{\mathrm{o}}\subseteq \varnothing \), logo \(\varnothing \in \mathcal T\). Portanto \(\mathcal T\) é uma topologia.

Finalmente, \({\kern 0ptA}^{\mathrm{o}}\) pertence a \(\mathcal T\) pela idempotência e está contido em \(A\). Se \(U\in \mathcal T\) e \(U\subseteq A\), a monotonicidade fornece \(U={\kern 0ptU}^{\mathrm{o}}\subseteq {\kern 0ptA}^{\mathrm{o}}\). Logo \({\kern 0ptA}^{\mathrm{o}}\) é exatamente o maior aberto contido em \(A\).

Exercício 2.13

Para cada um dos espaços topológicos apresentados nos Exercícios 2.2 e 2.6, determine o interior e o fecho de um subconjunto arbitrário \(A\) de \(X\).

Exercício 2.14

Sejam \(\tau _1\) e \(\tau _2\) topologias sobre um conjunto X tais que \(\tau _1 \subseteq \tau _2\) e seja \(A \subseteq X\). Mostre que \(\operatorname {\mathrm{Int}}_{\tau _1}(A) \subseteq \operatorname {\mathrm{Int}}_{\tau _2}(A)\) e \(\overline{A}^{\tau _1} \supseteq \overline{A}^{\tau _2}\).

Exercício 2.15

Sejam \(X\) um espaço topológico, \(U\subseteq X\) e \(A\) um aberto de \(X\). Mostre que se \(A\cap \bar{U}\neq \varnothing \) então \(A\cap U\neq \varnothing \)

2.5 Topologia Gerada

Uma topologia pode ser apresentada pela família de todos os seus abertos ou por uma coleção de subconjuntos a partir da qual os abertos sejam obtidos. A segunda descrição é frequentemente mais conveniente: uma família menor de conjuntos pode determinar uma topologia cuja descrição completa seria pouco prática.

A construção deve respeitar as operações exigidas pelos axiomas. Além dos conjuntos inicialmente escolhidos, a topologia precisa conter o vazio e o espaço todo, e ser estável por uniões arbitrárias e interseções finitas. Procuramos a menor topologia que satisfaça essas exigências e contenha a família prescrita.

A partir de uma família de geradores, consideraremos interseções finitas e, em seguida, uniões dos conjuntos obtidos. Esse procedimento conduz às noções de base e sub-base, que permitem descrever uma topologia por famílias de subconjuntos com propriedades específicas.

Definição 2.37 (Topologia gerada)
Seja \(X\) um conjunto e seja \(\mathcal S\subseteq \mathcal P(X)\). A topologia gerada por \(\mathcal S\), denotada por
\[ \mathcal T\langle \mathcal S\rangle , \]
é a interseção de todas as topologias sobre \(X\) que contêm \(\mathcal S\). Equivalentemente, é a menor topologia sobre \(X\) na qual todos os elementos de \(\mathcal S\) são abertos.

A definição faz sentido porque a família das topologias que contêm \(\mathcal S\) nunca é vazia: a topologia discreta \(\mathcal P(X)\) sempre pertence a ela. Além disso, a interseção de uma família de topologias é novamente uma topologia. Assim, a interseção usada na definição é precisamente o menor elemento, com respeito à inclusão, entre todas as topologias que tornam os elementos de \(\mathcal S\) abertos.

É útil notar o caráter universal dessa construção. Para provar que um conjunto é aberto em \(\mathcal T\langle \mathcal S\rangle \), podemos produzi-lo usando as operações topológicas a partir dos geradores. Para provar que \(\mathcal T\langle \mathcal S\rangle \) está contida em alguma topologia \(\mathcal T'\), não precisamos descrever todos os seus abertos: basta verificar que \(\mathcal T'\) contém a família \(\mathcal S\). Essa ideia será usada repetidamente.

Exemplo 2.38
Se \(X=\{ a,b\} \) e \(\mathcal S=\{ \{ a\} \} \), então
\[ \mathcal T\langle \mathcal S\rangle =\{ \varnothing ,\{ a\} ,\{ a,b\} \} . \]
De fato, qualquer topologia que contenha \(\{ a\} \) já precisa conter \(\varnothing \) e \(X\). Esses três conjuntos, por sua vez, já formam uma topologia, de modo que nenhuma inclusão adicional é forçada. Esse exemplo simples mostra que a geração não significa necessariamente produzir uma família complicada: às vezes os próprios axiomas encerram o processo imediatamente.

Exemplo 2.39 (Intervalos sobrepostos)

Em \(X=[-1,1]\), considere como geradores os intervalos relativos dos tipos \([-1,b)\) e \((a,1]\), com \(a\lt 0\lt b\). Intersectando um conjunto de cada tipo obtemos

\[ [-1,b)\cap (a,1]=(a,b), \]

de modo que os intervalos abertos que atravessam o ponto \(0\) aparecem sem terem sido incluídos explicitamente na família inicial.

A partir dessas interseções, as uniões arbitrárias produzem todos os demais abertos da topologia gerada. Em particular, além de \(\varnothing \) e \(X\), surgem intervalos dos tipos

\[ [-1,b),\qquad (a,b),\qquad (a,1], \]

com \(a\lt 0\lt b\), e também uniões desses conjuntos. O exemplo é pequeno, mas expõe o mecanismo que aparecerá em construções muito maiores: os geradores fornecem as peças elementares e os axiomas determinam como elas podem ser combinadas.

A notação pode ser lida literalmente: gerar uma topologia é aplicar o menor fechamento possível pelas operações permitidas nos axiomas. A palavra “menor” é essencial. Se duas topologias tornam abertos todos os elementos de \(\mathcal S\), a topologia gerada está contida em ambas; ela retém exatamente a informação topológica forçada por \(\mathcal S\) e nada além disso.

Proposição 2.40 (Propriedades da topologia gerada)
Sejam \(\mathcal S,\mathcal D\subseteq \mathcal P(X)\) e seja \(\mathcal T\) uma topologia sobre \(X\). Então:
  1. \(\mathcal S\subseteq \mathcal T\langle \mathcal S\rangle \);

  2. se \(\mathcal S\subseteq \mathcal D\), então \(\mathcal T\langle \mathcal S\rangle \subseteq \mathcal T\langle \mathcal D\rangle \);

  3. \(\mathcal S\subseteq \mathcal T\) se, e somente se, \(\mathcal T\langle \mathcal S\rangle \subseteq \mathcal T\);

  4. \(\mathcal T\langle \mathcal T\rangle =\mathcal T\);

  5. se \(\mathcal S\subseteq \mathcal T\subseteq \mathcal T\langle \mathcal S\rangle \), então \(\mathcal T=\mathcal T\langle \mathcal S\rangle \);

  6. para uma família \((\mathcal S_\lambda )_{\lambda \in \Lambda }\),

    \[ \mathcal T\Bigl\langle \mathcal T\langle \mathcal S_\lambda \rangle , \lambda \in \Lambda \Bigr\rangle = \mathcal T\langle \mathcal S_\lambda ,\lambda \in \Lambda \rangle . \]

Demonstração

O primeiro item faz parte da própria construção: a topologia gerada é escolhida entre as topologias que contêm \(\mathcal S\).

Para o segundo, suponha \(\mathcal S\subseteq \mathcal D\). A topologia \(\mathcal T\langle \mathcal D\rangle \) contém \(\mathcal S\); pela minimalidade de \(\mathcal T\langle \mathcal S\rangle \), segue que

\[ \mathcal T\langle \mathcal S\rangle \subseteq \mathcal T\langle \mathcal D\rangle . \]

No terceiro item, se \(\mathcal S\subseteq \mathcal T\), então \(\mathcal T\) é uma das topologias consideradas na interseção que define \(\mathcal T\langle \mathcal S\rangle \); logo \(\mathcal T\langle \mathcal S\rangle \subseteq \mathcal T\). A recíproca decorre do primeiro item. O quarto item é o caso particular em que os geradores já formam uma topologia. O quinto é um princípio de sanduíche:

\[ \mathcal S\subseteq \mathcal T \subseteq \mathcal T\langle \mathcal S\rangle \]

implica, pelo terceiro item, \(\mathcal T\langle \mathcal S\rangle \subseteq \mathcal T\), e portanto igualdade.

Resta o último item. Ponha

\[ \mathcal S=\bigcup _{\lambda \in \Lambda }\mathcal S_\lambda . \]

Como cada \(\mathcal S_\lambda \) está contida em \(\mathcal T\langle \mathcal S\rangle \), o terceiro item fornece

\[ \mathcal T\langle \mathcal S_\lambda \rangle \subseteq \mathcal T\langle \mathcal S\rangle \qquad (\lambda \in \Lambda ). \]

Consequentemente, a topologia gerada pela família formada por todas as \(\mathcal T\langle \mathcal S_\lambda \rangle \) está contida em \(\mathcal T\langle \mathcal S\rangle \).

Para a inclusão oposta, cada gerador pertencente a alguma \(\mathcal S_\lambda \) já pertence a \(\mathcal T\langle \mathcal S_\lambda \rangle \). Assim, a topologia do lado esquerdo contém toda a união \(\mathcal S\). Pela minimalidade da topologia gerada por \(\mathcal S\), ela contém \(\mathcal T\langle \mathcal S\rangle \). As duas inclusões provam a igualdade.

2.6 Bases

Em uma família de geradores, as interseções finitas também precisam ser consideradas antes de tomar uniões. Para uma base, essa etapa já está incorporada às propriedades da família: todo aberto pode ser escrito como união de elementos da base.

Em argumentos locais, é frequente precisar de um elemento da base contido em um aberto \(U\) e que contenha um ponto \(x\) dado. A propriedade de base garante a existência de \(B\) com \(x\in B\subseteq U\). Em espaços métricos, a escolha de uma bola contida no aberto é um exemplo desse procedimento.

Definição 2.41 (Base)
Seja \((X,\mathcal T)\) um espaço topológico. Uma família \(\mathcal B\subseteq \mathcal T\) é uma base de \(\mathcal T\) quando, para todo \(U\in \mathcal T\), existe uma subfamília \(\mathcal B_U\subseteq \mathcal B\) tal que
\[ U=\bigcup _{B\in \mathcal B_U}B. \]
Adotamos a convenção de que a união da família vazia é \(\varnothing \).

Exemplo 2.42
  1. Os intervalos abertos \((a,b)\) formam uma base da topologia usual de \(\mathbb R\). De fato, cada aberto usual é união de intervalos abertos; localmente, dado \(x\in U\), podemos escolher \(a\lt x\lt b\) com \((a,b)\subseteq U\).

  2. Em um espaço métrico, as bolas abertas formam uma base da topologia induzida pela métrica. Aqui a afirmação é praticamente a definição de aberto métrico: todo ponto de um aberto possui uma bola centrada nele e contida no aberto.

  3. Em um espaço discreto, os singletons formam uma base. Como qualquer subconjunto é a união dos singletons de seus pontos, essa é a menor base possível em termos da informação local que precisa ser registrada.

  4. Toda topologia é, trivialmente, uma base para si mesma; basta representar um aberto \(U\) como a união da família unitária \(\{ U\} \). A observação é correta, mas pouco útil: o interesse de uma base é justamente substituir a topologia inteira por uma coleção mais manejável.

A definição por uniões admite uma caracterização local: cada ponto de um aberto deve pertencer a um elemento da base contido nesse aberto. Essa condição evita escrever explicitamente a união. A proposição seguinte reúne as caracterizações que utilizaremos.

Proposição 2.43 (Caracterizações de uma base)
Seja \((X,\mathcal T)\) um espaço topológico e \(\mathcal B\subseteq \mathcal P(X)\). São equivalentes:
  1. \(\mathcal B\) é uma base de \(\mathcal T\);

  2. as uniões de subfamílias de \(\mathcal B\) formam exatamente \(\mathcal T\);

  3. \(\mathcal B\subseteq \mathcal T\) e, para todo \(x\in U\in \mathcal T\), existe \(B\in \mathcal B\) com

    \[ x\in B\subseteq U. \]
Nessas condições,
\[ \mathcal T=\mathcal T\langle \mathcal B\rangle . \]

Demonstração

A equivalência entre os dois primeiros itens é apenas uma mudança de linguagem: dizer que \(\mathcal B\) é base significa exatamente dizer que os abertos de \(\mathcal T\) são as uniões de subfamílias de \(\mathcal B\).

Suponha o segundo item e tome \(x\in U\), com \(U\in \mathcal T\). Escrevendo

\[ U=\bigcup _{B\in \mathcal B_U}B, \]

algum elemento \(B\in \mathcal B_U\) contém \(x\). Como todos os elementos dessa subfamília aparecem na união que forma \(U\), temos \(B\subseteq U\). Além disso, cada elemento de \(\mathcal B\) é uma união de uma subfamília unitária de \(\mathcal B\), logo pertence a \(\mathcal T\). Isso fornece o terceiro item.

Agora suponha o terceiro item. Para cada \(U\in \mathcal T\) e cada \(x\in U\), escolha \(B_x\in \mathcal B\) com \(x\in B_x\subseteq U\). Então

\[ U=\bigcup _{x\in U}B_x, \]

de modo que todo aberto de \(\mathcal T\) é união de elementos de \(\mathcal B\). Como \(\mathcal B\subseteq \mathcal T\), toda união de elementos de \(\mathcal B\) é aberta. Assim vale o segundo item.

Por fim, como \(\mathcal B\subseteq \mathcal T\), temos \(\mathcal T\langle \mathcal B\rangle \subseteq \mathcal T\). Pela caracterização por uniões, a topologia \(\mathcal T\langle \mathcal B\rangle \) contém todos os abertos de \(\mathcal T\), pois contém \(\mathcal B\) e é fechada por uniões arbitrárias. Portanto

\[ \mathcal T=\mathcal T\langle \mathcal B\rangle . \]

Teorema 2.44 (Critério para construir uma base)
Se \(\mathcal B\subseteq \mathcal P(X)\) cobre \(X\) e, para todo \(x\in B_1\cap B_2\), com \(B_1,B_2\in \mathcal B\), existe \(B_3\in \mathcal B\) tal que
\[ x\in B_3\subseteq B_1\cap B_2, \]
então \(\mathcal B\) é uma base para \(\mathcal T\langle \mathcal B\rangle \). Equivalentemente, pode-se exigir que cada interseção \(B_1\cap B_2\) seja uma união de elementos de \(\mathcal B\).

Demonstração

Seja \(\mathcal U\) a família de todas as uniões de elementos de \(\mathcal B\). O vazio pertence a \(\mathcal U\) como união vazia, e \(X\in \mathcal U\) pela hipótese de cobertura. A família é fechada por uniões arbitrárias por construção.

Se \(U,V\in \mathcal U\) e \(x\in U\cap V\), escolha \(B_1,B_2\in \mathcal B\) com

\[ x\in B_1\subseteq U, \qquad x\in B_2\subseteq V. \]

Pela hipótese existe \(B_3\in \mathcal B\) com \(x\in B_3\subseteq B_1\cap B_2\subseteq U\cap V\). Logo

\[ U\cap V=\bigcup \{ B\in \mathcal B:B\subseteq U\cap V\} , \]

e portanto \(U\cap V\in \mathcal U\). Assim, \(\mathcal U\) é uma topologia.

Ela contém \(\mathcal B\), e qualquer topologia que contenha \(\mathcal B\) contém todas as suas uniões. Portanto \(\mathcal U=\mathcal T\langle \mathcal B\rangle \), e \(\mathcal B\) é uma base da topologia que gera. A formulação equivalente segue porque uma interseção é união de elementos de \(\mathcal B\) exatamente quando todo ponto da interseção admite um refinamento básico contido nela.

O critério permite construir uma topologia verificando duas propriedades da família proposta: ela cobre o espaço e permite refinar interseções em torno de cada ponto. Satisfeitas essas condições, os abertos são obtidos por uniões de seus elementos. Os exemplos seguintes aplicam esse procedimento.

Exemplo 2.45 (Famílias de bases na reta e no plano)

Em \(\mathbb R\), cada uma das famílias abaixo satisfaz o critério anterior:

\begin{align*} \mathcal B_1& =\{ (a,b):a\lt b\} ,\\ \mathcal B_2& =\{ [a,b):a\lt b\} ,\\ \mathcal B_3& =\mathcal B_1\cup \mathcal B_2,\\ \mathcal B_4& =\{ (a,b]:a\lt b\} ,\\ \mathcal B_5& =\{ (a,\infty ):a\in \mathbb R\} ,\\ \mathcal B_6& =\{ (-\infty ,a):a\in \mathbb R\} ,\\ \mathcal B_7& =\{ (a,b):a\lt b,\ a,b\in \mathbb Q\} ,\\ \mathcal B_8& =\{ [a,b):a\lt b,\ a,b\in \mathbb Q\} ,\\ \mathcal B_9& =\{ [a,b]:a\le b\} . \end{align*}

Essas famílias não geram todas a mesma topologia; justamente por isso são bons exemplos para comparar bases e topologias. A família \(\mathcal B_1\) produz a topologia usual, e \(\mathcal B_7\) produz a mesma topologia usando apenas extremos racionais. Já \(\mathcal B_2\) fornece a topologia de Sorgenfrey. A família \(\mathcal B_9\) contém todos os singletons, pois \([a,a]=\{ a\} \), e portanto gera a topologia discreta. Assim, coleções visualmente semelhantes de intervalos podem codificar estruturas topológicas bastante diferentes.

Esse ponto merece atenção: uma base não é apenas uma família conveniente de conjuntos. Sua forma determina quais aproximações locais são permitidas. Alterar um colchete, restringir extremos aos racionais ou substituir intervalos por raios pode manter a topologia ou mudá-la completamente.

Em \(\mathbb R^2\), exemplos úteis são:

\begin{align*} \mathcal B_{10}& =\{ (a,b)\times (c,d):a\lt b,\ c\lt d\} ,\\ \mathcal B_{11}& =\{ \text{discos abertos}\} ,\\ \mathcal B_{12}& =\{ \text{triângulos abertos}\} ,\\ \mathcal B_{13}& =\{ [a,b)\times [c,d):a\lt b,\ c\lt d\} ,\\ \mathcal B_{14}& =\{ [a,b)\times (c,d):a\lt b,\ c\lt d\} ,\\ \mathcal B_{15}& =\{ (a,b)\times (c,d):a,b,c,d\in \mathbb Q,\ a\lt b,\ c\lt d\} . \end{align*}

As famílias \(\mathcal B_{10}\), \(\mathcal B_{11}\), \(\mathcal B_{12}\) e \(\mathcal B_{15}\) geram a topologia usual do plano, embora usem formas geométricas distintas. A razão é local: em torno de cada ponto de qualquer uma dessas figuras podemos inserir uma figura suficientemente pequena de outro tipo. Já as bases que usam intervalos semiabertos nas coordenadas produzem topologias mais finas.

A reta de Sorgenfrey mostra que alterar os intervalos escolhidos como elementos básicos pode modificar propriedades globais da topologia. A comparação com a reta usual permitirá examinar quais propriedades são preservadas e quais deixam de valer.

Exemplo 2.46 (Reta de Sorgenfrey)

A família

\[ \mathcal B=\{ [a,b):a\lt b\} \]

forma uma base de uma topologia em \(\mathbb R\), chamada topologia de Sorgenfrey ou topologia do limite inferior.

Para verificar o critério de base, primeiro note que cada \(x\in \mathbb R\) pertence, por exemplo, a \([x,x+1)\). Além disso, se dois elementos básicos têm interseção não vazia, então

\[ [a,b)\cap [a',b') = [\max \{ a,a'\} ,\min \{ b,b'\} ), \]

que novamente é um intervalo do mesmo tipo. Assim, nesse caso nem sequer é necessário decompor a interseção em vários elementos da base: a própria interseção, quando não vazia, já é básica.

A reta de Sorgenfrey será usada várias vezes adiante porque sua topologia é próxima da usual o bastante para preservar muita intuição, mas diferente o bastante para separar várias propriedades que coincidem em espaços métricos familiares.

Exemplo 2.47 (Propriedades da reta de Sorgenfrey)

A reta de Sorgenfrey possui as seguintes propriedades:

  1. sua topologia é estritamente mais fina que a topologia usual. Para ver a inclusão, dado um intervalo usual \((a,b)\), escreva

    \[ (a,b)=\bigcup _{x\in (a,b)}[x,b). \]

    Logo todo intervalo aberto usual é aberto em Sorgenfrey, e o mesmo vale para toda união desses intervalos. A inclusão é própria porque \([a,b)\) pertence à base de Sorgenfrey e não é aberto na topologia usual;

  2. os intervalos básicos \([a,b)\) são clopen. De fato,

    \[ \mathbb R\setminus [a,b)=(-\infty ,a)\cup [b,\infty ). \]

    O primeiro raio é usualmente aberto e, portanto, também é aberto em Sorgenfrey. Para o segundo,

    \[ [b,\infty )=\bigcup _{n\ge 1}[b,b+n), \]

    de modo que o complementar inteiro é aberto;

  3. \(\mathbb Q\) é denso. Todo elemento básico \([a,b)\) contém o intervalo usual \((a,b)\), que contém um racional. Assim, todo aberto não vazio encontra \(\mathbb Q\), e o espaço é separável;

  4. para cada \(a\in \mathbb R\), a família

    \[ \left\{ [a,a+1/n):n\ge 1\right\} \]

    é uma base enumerável de vizinhanças. Se \(a\in [u,v)\), basta escolher \(n\) grande o bastante para que \(a+1/n\lt v\). Portanto a reta de Sorgenfrey é primeiro enumerável.

Essas quatro propriedades serão retomadas em capítulos posteriores. Em particular, veremos que algumas implicações familiares entre enumerabilidade, separabilidade e propriedades de produto deixam de valer nesse espaço.

No plano de Moore, a alteração da topologia ocorre junto à borda de um semiplano. Esse exemplo permite estudar o efeito de uma modificação local da base, mantendo a topologia usual nos pontos interiores do semiplano.

Exemplo 2.48 (Plano de Moore)

Seja

\[ M=\{ (x,y)\in \mathbb R^2:y\ge 0\} . \]

Para pontos \((p,q)\) com \(q\gt 0\), use como vizinhanças básicas discos euclidianos suficientemente pequenos e contidos em \(M\). Para um ponto \((p,0)\) do eixo, use conjuntos da forma

\[ \{ (p,0)\} \cup \{ (x,y):(x-p)^2+(y-\varepsilon )^2\lt \varepsilon ^2\} , \qquad \varepsilon \gt 0. \]

Esses conjuntos formam uma base para uma topologia em \(M\), chamada topologia do plano de Moore. Geometricamente, um ponto acima do eixo possui vizinhanças ordinárias, enquanto um ponto do eixo possui vizinhanças que tocam o eixo apenas nesse ponto e se abrem para o semiplano superior.

A condição de base pode ser verificada separando os casos. Duas vizinhanças de pontos interiores comportam-se como discos usuais. Se o ponto considerado está no eixo, diminuímos o raio do disco tangente até que ele caiba na interseção dada. Por fim, quando uma vizinhança interior encontra uma vizinhança tangente, qualquer ponto da interseção está acima do eixo e admite um disco euclidiano pequeno ainda contido nela.

Fora do eixo horizontal não aparece nenhuma diferença em relação à topologia de subespaço herdada de \(\mathbb R^2\): em torno de um ponto com segunda coordenada positiva, os elementos básicos são exatamente discos suficientemente pequenos. A modificação topológica está concentrada na borda.

Proposição 2.49
Se \(\mathcal B\) é uma base de uma topologia \(\mathcal T\) e \(\mathcal T'\) é outra topologia no mesmo conjunto, então
\[ \mathcal T\subseteq \mathcal T' \quad \Longleftrightarrow \quad \mathcal B\subseteq \mathcal T'. \]

Demonstração

Se \(\mathcal T\subseteq \mathcal T'\), então todo elemento de \(\mathcal B\subseteq \mathcal T\) pertence automaticamente a \(\mathcal T'\).

Reciprocamente, suponha \(\mathcal B\subseteq \mathcal T'\). Seja \(U\in \mathcal T\). Como \(\mathcal B\) é base de \(\mathcal T\), existe uma subfamília \(\mathcal B_U\subseteq \mathcal B\) tal que

\[ U=\bigcup _{B\in \mathcal B_U}B. \]

Cada \(B\in \mathcal B_U\) é aberto em \(\mathcal T'\) por hipótese; portanto a união \(U\) também é aberta em \(\mathcal T'\). Logo \(\mathcal T\subseteq \mathcal T'\).

Uma base pode, em casos importantes, ser escolhida enumerável. Por exemplo, os intervalos abertos com extremos racionais formam uma base enumerável da topologia usual de \(\mathbb R\). A condição abstrata correspondente — o segundo axioma de enumerabilidade — e sua relação com bases locais serão estudadas no capítulo de Enumerabilidade.

Exercício 2.16
Sejam \(\tau _1\) e \(\tau _2\) topologias sobre um conjunto \(X\) e sejam \(\mathcal B_1\) e \(\mathcal B_2\) bases para \(\tau _1\) e \(\tau _2\), respectivamente. Mostre que são equivalentes:
  1. para quaisquer \(x\in X\) e \(B\in \mathcal B_2\) com \(x\in B\), existe \(C\in \mathcal B_1\) tal que \(x\in C\subseteq B\);

  2. \(\tau _1\supseteq \tau _2\).

Exercício 2.17

Sejam \(X\) um conjunto infinito e \(x_0\in X\). Mostre que

\[ \mathcal B=\{ \{ x\} :x\in X,\ x\ne x_0\} \cup \{ A\subseteq X:x_0\in A,\ X\setminus A\text{ é finito}\} \]

é base para

\[ \tau =\{ A\subseteq X:x_0\notin A\} \cup \{ A\subseteq X:X\setminus A\text{ é finito}\} . \]
Exercício 2.18
Considere, em \(\mathbb N\), as topologias
\[ \tau _1=\{ \{ m\in \mathbb N:m\lt n\} :n\in \mathbb N\} \cup \{ \mathbb N\} , \]
e
\[ \tau _2=\{ A\subseteq \mathbb N:0\in A\} \cup \{ \varnothing \} . \]
  1. Mostre que, se \(\mathcal B_1\) é uma base para \(\tau _1\), então \(\mathcal B_1\supseteq \tau _1\setminus \{ \varnothing ,\mathbb N\} \).

  2. Encontre uma base \(\mathcal B_2\) para \(\tau _2\) que esteja contida em qualquer base para \(\tau _2\).

Exercício 2.19
Considere a reta de Sorgenfrey.
  1. Quais intervalos da reta são abertos e fechados nessa topologia?

  2. Descreva os fechos de \(\mathbb Q\), de \(\{ 1/n:n\in \mathbb N\} \), de \(\{ -1/n:n\in \mathbb N\} \) e de \(\mathbb Z\).

Exercício 2.20
Considere o plano de Moore definido acima.
  1. Prove que os conjuntos descritos formam uma base para uma topologia em \(M\).

  2. Prove que a topologia em \(M\setminus \{ (x,0):x\in \mathbb R\} \) é a topologia usual de subespaço.

  3. Determine o fecho de \(A=\mathbb Q\times \{ 1\} \) e de \(B=\mathbb Q\times \{ 0\} \).

    Como contraponto aos dois exemplos anteriores, a reta de Michael parte da topologia usual e torna os pontos irracionais isolados. O exercício mostra que duas modificações aparentemente pequenas da reta podem produzir topologias mais finas que a usual e, ainda assim, incomparáveis entre si.

Exercício 2.21
Reta de Michael. Denote por \(\tau \) a topologia usual de \(\mathbb R\) e considere
\[ \mathcal B=\tau \cup \{ \{ x\} :x\in \mathbb R\setminus \mathbb Q\} . \]
  1. Mostre que \(\mathcal B\) é base para uma topologia em \(\mathbb R\).

  2. Mostre que as topologias da reta de Sorgenfrey e da reta de Michael são incomparáveis.

  3. Verifique que a topologia da reta de Michael é mais fina que a usual e conclua que ela é \(T_2\).

Exercício 2.22
Seja \(X\) um espaço topológico e \(\mathcal B\) uma base para \(X\).
  1. Se \(Y\) é um espaço topológico e \(f:Y\to X\), mostre que \(f\) é contínua se, e somente se, \(f^{-1}(B)\) é aberto em \(Y\) para todo \(B\in \mathcal B\setminus \{ \varnothing \} \).

  2. Se \(Y\) é um espaço topológico e \(f:X\to Y\), mostre que \(f\) é aberta se, e somente se, \(f(B)\) é aberto em \(Y\) para todo \(B\in \mathcal B\setminus \{ \varnothing \} \).

2.6.1 Forma da Topologia Gerada

Uma família de geradores não precisa satisfazer a condição local exigida de uma base. O obstáculo é simples: se dois geradores se intersectam, a interseção pode não ser união de geradores da família original. Antes de tomar uniões arbitrárias, precisamos então acrescentar as interseções finitas que os axiomas topológicos forçam.

Esse é o papel de uma sub-base. Ela fornece as peças mais elementares; as interseções finitas dessas peças produzem uma base; por fim, as uniões dos elementos da base produzem a topologia. A cadeia conceitual é

\[ \text{sub-base} \longrightarrow \text{interseções finitas} \longrightarrow \text{base} \longrightarrow \text{uniões arbitrárias} \longrightarrow \text{topologia}. \]

O próximo resultado torna essa descrição precisa.

Definição 2.50 (Sub-base)
Seja \((X,\mathcal T)\) um espaço topológico. Uma família \(\mathcal C\subseteq \mathcal P(X)\) é uma sub-base de \(\mathcal T\) quando
\[ \mathcal T=\mathcal T\langle \mathcal C\rangle , \]
isto é, quando \(\mathcal T\) é a menor topologia em que todo elemento de \(\mathcal C\) é aberto.

Definição 2.51 (Base induzida por uma família)
Para \(\mathcal S\subseteq \mathcal P(X)\), defina
\[ \mathcal B\langle \mathcal S\rangle = \left\{ \bigcap _{A\in \mathcal S'}A: \mathcal S'\subseteq \mathcal S,\ |\mathcal S'|\lt \infty \right\} , \]
com a convenção de que a interseção da família vazia é \(X\).

Teorema 2.52 (Topologia gerada por uma sub-base)
Se \(\mathcal C\) é uma sub-base de \((X,\mathcal T)\), então \(\mathcal B\langle \mathcal C\rangle \) é uma base de \(\mathcal T\). Em particular,
\[ \mathcal T = \left\{ \bigcup _{B\in \mathcal B'}B: \mathcal B'\subseteq \mathcal B\langle \mathcal C\rangle \right\} . \]

Demonstração

Denote por \(\mathcal B=\mathcal B\langle \mathcal C\rangle \) a família das interseções finitas de elementos de \(\mathcal C\). Como toda topologia que contém \(\mathcal C\) é fechada por interseções finitas, temos

\[ \mathcal B\subseteq \mathcal T\langle \mathcal C\rangle . \]

Considere agora

\[ \mathcal U= \left\{ \bigcup _{B\in \mathcal B'}B: \mathcal B'\subseteq \mathcal B \right\} . \]

O vazio pertence a \(\mathcal U\) como união vazia, e \(X\) pertence a \(\mathcal B\) por corresponder à interseção da família vazia. Logo \(X\in \mathcal U\). A família \(\mathcal U\) é fechada por uniões arbitrárias por construção.

Para interseções, escreva

\[ U=\bigcup _{A\in \mathcal A}A, \qquad V=\bigcup _{B\in \mathcal D}B, \]

com \(\mathcal A,\mathcal D\subseteq \mathcal B\). Então

\[ U\cap V = \bigcup _{(A,B)\in \mathcal A\times \mathcal D}(A\cap B). \]

Como \(A\) e \(B\) são interseções finitas de elementos de \(\mathcal C\), também \(A\cap B\) é uma interseção finita de elementos de \(\mathcal C\); portanto \(A\cap B\in \mathcal B\). Segue que \(U\cap V\in \mathcal U\).

Assim, \(\mathcal U\) é uma topologia. Ela contém \(\mathcal C\), pois cada \(C\in \mathcal C\) é uma interseção finita com um único fator. Pela minimalidade,

\[ \mathcal T\langle \mathcal C\rangle \subseteq \mathcal U. \]

A inclusão oposta já foi observada, porque todos os elementos de \(\mathcal B\) e suas uniões pertencem à topologia gerada. Portanto \(\mathcal U=\mathcal T\langle \mathcal C\rangle \), e \(\mathcal B\) é uma base dessa topologia.

Exercício 2.23
Seja \(\mathcal S\) uma família de subconjuntos de \(X\) que não cobre \(X\), isto é,
\[ X\neq \bigcup _{S\in \mathcal S}S. \]
Na topologia gerada por \(\mathcal S\), mostre que existe \(x\in X\) cuja única vizinhança é o próprio \(X\), isto é, \(\mathcal{V}_{x}=\{ X\} \).

2.6.2 Topologia da Ordem

A ordem de um conjunto pode fornecer sua própria noção de proximidade. Na reta real, por exemplo, os intervalos abertos são simultaneamente objetos de ordem e os blocos básicos da topologia usual. A mesma ideia funciona em qualquer conjunto totalmente ordenado, embora nas extremidades seja preciso tratar separadamente a existência de um primeiro ou de um último elemento.

Seja \(X\) um conjunto com uma ordem total \(\leq \). Isto significa que a relação é reflexiva, antissimétrica, transitiva e total: quaisquer dois pontos podem ser comparados. Escrevemos \(x\lt y\) quando \(x\le y\) e \(x\ne y\).

Para \(a\lt b\), definimos como de costume

\[ (a,b)=\{ x:a\lt x\lt b\} ,\quad (a,b]=\{ x:a\lt x\le b\} , \]
\[ [a,b)=\{ x:a\le x\lt b\} ,\quad [a,b]=\{ x:a\le x\le b\} . \]

Definição 2.53 (Topologia da ordem)
Suponha que \(X\) tenha mais de um elemento. Considere a família formada por:
  1. todos os intervalos \((a,b)\);

  2. os intervalos \([a_0,b)\) quando \(X\) possui um menor elemento \(a_0\);

  3. os intervalos \((a,b_0]\) quando \(X\) possui um maior elemento \(b_0\).

Essa família é uma base; a topologia correspondente é a topologia da ordem.

Vejamos por que essa família é realmente uma base. Primeiro, ela cobre \(X\). Se \(x\) não é uma extremidade do espaço ordenado, existem elementos \(a\lt x\lt b\) e então \(x\in (a,b)\). Se \(x\) é o menor elemento, usamos um intervalo \([x,b)\); se é o maior, usamos \((a,x]\). Nos casos em que um ponto possui apenas sucessor ou predecessor imediato, os intervalos permitidos adaptam-se do mesmo modo.

A segunda condição é local. Se \(x\) pertence à interseção de dois elementos básicos, escolhemos novos extremos dentro dos extremos que aparecem nas duas vizinhanças. Quando \(x\) não é extremo de \(X\), isso fornece um intervalo aberto \((c,d)\) com

\[ x\in (c,d)\subseteq B_1\cap B_2. \]

Se \(x\) coincide com o menor ou com o maior elemento, usamos respectivamente um intervalo dos tipos \([a_0,d)\) ou \((c,b_0]\). Portanto a condição de refinamento de interseções é satisfeita.

Exemplo 2.54
A ordem usual de \(\mathbb R\) induz exatamente a topologia usual. Como a reta não possui primeiro nem último elemento, a base da topologia da ordem é formada apenas pelos intervalos \((a,b)\), que já conhecemos como uma base da topologia euclidiana. Esse exemplo explica a escolha da definição: ela generaliza literalmente a construção familiar da reta.

Exemplo 2.55 (Ordem lexicográfica)

Em \(\mathbb R\times \mathbb R\), defina

\[ (x,y)\lt (x',y') \]

quando \(x\lt x'\), ou quando \(x=x'\) e \(y\lt y'\). Com essa ordem, percorremos primeiro a segunda coordenada mantendo a primeira fixa; somente depois passamos para a próxima fibra vertical.

A topologia da ordem lexicográfica é gerada pelos intervalos abertos para essa ordem. Se os dois extremos possuem a mesma primeira coordenada, um intervalo lexicográfico pode ficar inteiramente contido em uma única reta vertical. Se as primeiras coordenadas dos extremos são diferentes, o intervalo contém uma cauda da primeira fibra, todas as fibras intermediárias e uma parte da fibra final.

Esse comportamento é muito diferente daquele da topologia produto usual de \(\mathbb R^2\), cujos abertos básicos são retângulos. O exemplo mostra que o mesmo conjunto subjacente pode carregar topologias bastante distintas, dependendo da estrutura usada para construir suas vizinhanças.

Exercício 2.24
Sejam \((X,\mathcal T_X)\) e \((Y,\mathcal T_Y)\) espaços topológicos disjuntos. Defina em \(X\cup Y\)
\[ \mathcal T_{X\cup Y} =\{ U\cup V:U\in \mathcal T_X,\ V\in \mathcal T_Y\} . \]
Mostre que essa é uma topologia e que
\[ \mathcal T_X=\{ X\cap W:W\in \mathcal T_{X\cup Y}\} , \qquad \mathcal T_Y=\{ Y\cap W:W\in \mathcal T_{X\cup Y}\} . \]
Observe ainda que \(\mathcal T_{X\cup Y}=\mathcal T\langle \mathcal T_X\cup \mathcal T_Y\rangle \).

2.7 Vizinhanças e Base de Vizinhanças de um Ponto

Assim como em espaços métricos, a topologia permite falar em vizinhanças sem mencionar distâncias. Para cada ponto \(x\), a família de suas vizinhanças registra toda a informação local relevante.

Definição 2.56

Seja \({\left({X}, {\mathcal{T}\sb {X}}\right)}\) um espaço topológico. Dado \(x \in X\), uma vizinhança aberta de \(x\) é um aberto \(A \in \mathcal{T}\sb {X}\) que contém o ponto \(x\). Uma vizinhança de \(x\) é qualquer conjunto que contenha uma vizinhança aberta de \(x\). Denotamos por \(\mathcal{V}_{x}\) a família de todas as vizinhanças de \(x\).

Pela definição acima temos que:

\[ A\in \mathcal{V}_{x}, \text{ se, e somente se, }x\in {\kern 0ptA}^{\mathrm{o}} \]

Em um espaço topológico qualquer, as vizinhanças de um ponto possuem as mesmas propriedades para o caso de espaços métricos que as descritas na Proposição 1.37.

Proposição 2.57

Seja \(X\) um espaço topológico, e \(x \in X\) um ponto de \(X\). Então valem as seguintes afirmações sobre a família \(\mathcal{V}_{x}\) de todas as vizinhanças de \(x\):

  1. \(x\in A\) para todo \(A\in \mathcal{V}_{x}.\)

  2. A interseção de duas vizinhanças de \(x\) também é uma vizinhança de \(x\). Ou seja, se \(A, B \in \mathcal{V}_{x}\), então \(A \cap B \in \mathcal{V}_{x}\).

  3. Se \(A \in \mathcal{V}_{x}\) então existe \(B \subset A\) tal que \(x \in B\), e \(B\) é vizinhança de todos os seus pontos.

  4. Se \(A \in \mathcal{V}_{x}\) e \(A \subset B\), então \(B \in \mathcal{V}_{x}\).

Demonstração

  1. Se \(A\in \mathcal{V}_{x}, \text{ então }x\in {\kern 0ptA}^{\mathrm{o}}\subset A.\)

  2. Se \(A, B\in \mathcal{V}_{x}, \) então \(x\in {\kern 0ptA}^{\mathrm{o}}\cap {\kern 0ptB}^{\mathrm{o}}={\kern 0pt(A\cap B)}^{\mathrm{o}}\). Logo \(A\cap B\in \mathcal{V}_{x}.\)

  3. Dado \(A\in \mathcal{V}_{x}\), seja \(C={\kern 0ptA}^{\mathrm{o}}\). Então \(x\in C\subset A\). Se \(y\in C\), o próprio \(C\) é uma vizinhança aberta de \(y\); portanto \(C\) é vizinhança de todos os seus pontos.

  4. Se \(A\in \mathcal{V}_{x}\text{ e }A\subset B\subset X, \text{ então }x\in {\kern 0ptA}^{\mathrm{o}}\subset {\kern 0ptB}^{\mathrm{o}}\). Logo \(B\in \mathcal{V}_{x}\).

Proposição 2.58

Seja \(X\) um espaço topológico. Um conjunto \(A \subset X\) é aberto se, e somente se, for vizinhança de todos os seus pontos.

Demonstração

Um conjunto aberto é vizinhança de todos os seus pontos. Reciprocamente, suponha que \(A \subset X\) seja vizinhança de todos os seus pontos. Vamos mostrar que \(A\) é aberto.

Por hipótese, para todo \(a \in A\) existe um aberto \(U_a\) tal que \(a \in U_a \subset A\). Logo,

\begin{equation*} A = \bigcup _{a \in A} U_a. \end{equation*}

E como \(A\) é uma união de abertos \(U_a\), temos que \(A\) é aberto.

Definição 2.59
  • Seja \({\left({X}, {\mathcal{T}\sb {X}}\right)}\) um espaço topológico e \(x \in X\). Uma família de vizinhanças de \(x\), \(\mathcal{B} \subset \mathcal{V}_{x}\), é chamada de base de vizinhanças ou base local de \(x\) quando para toda vizinhança \(V \in \mathcal{V}_{x}\) existir \(B \in \mathcal{B}\) tal que \(B \subset V\).

  • Se todos os conjuntos de \(\mathcal{B}\) forem abertos, ou seja, se \(\mathcal{B} \subset \mathcal{T}\sb {X}\), então diremos que \(\mathcal{B}\) é uma base de vizinhanças abertas de \(x\).

Reciprocamente, é possível determinar uma topologia a partir das famílias de vizinhanças de seus pontos, desde que essas famílias satisfaçam as condições seguintes.

Proposição 2.60

Seja \(X\) um conjunto não vazio. Para todo \(x\in X\) seja \(\mathcal{V}_{x}\) uma família não vazia de subconjuntos de \(X\) com as seguintes propriedades:

  1. \(x\in U\) para todo \(U\in \mathcal{V}_{x}.\)

  2. Se \(U, V\in \mathcal{V}_{x}\), então \(U\cap V\in \mathcal{V}_{x}.\)

  3. Dado \(U\in \mathcal{V}_{x}\), existe \(V\in \mathcal{V}_{x}, V\subset U, \) tal que \(U\in \mathcal{V}_{y}\) para todo \(y\in V.\)

  4. Se \(U\in \mathcal{V}_{x}\) e \(U\subset V\subset X, \text{ então }V\in \mathcal{V}_{x}.\)

Seja

\(\mathcal{T}=\{ U\subset X:U\in \mathcal{V}_{x}\) para todo \(x\in U\} .\) Então \(\mathcal{T}\) é uma topologia em \(X\), e \(\mathcal{V}_{x}\) é o sistema de vizinhanças de \(x\) em \((X,\mathcal{T})\) para todo \(x\in X\).

Demonstração

Primeiro demonstraremos que \(\mathcal{T}\) é uma topologia em \(X.\)

É imediato que \(\varnothing \in \mathcal{T}\). Para demonstrar que \( X\in \mathcal{T}\), seja \(x\in X\), e seja \(U\in \mathcal{V}_{x}\). Como \(U\subset X\), segue da Proposição 2.63 item d que \(X\in \mathcal{V}_{x}\). Logo \(X\in \mathcal{T}.\)

Sejam \( U_{i}\in \mathcal{T}\) para todo \(i\in I\), e seja \(x\displaystyle \in \bigcup _{i\in I}U_{i}.\) Então \(x\in U_{i}\) para algum \(i\in I\). Como \( U_{i}\in \mathcal{T}\), temos que \(U_{i}\in \mathcal{V}_{x}\). Como \(U_{i}\displaystyle \subset \bigcup _{i\in I}U_{i}\), pela Proposição 2.63 item d temos que \(\displaystyle \bigcup _{i\in I}U_{i}\in \mathcal{V}_{x}.\) E assim \(\displaystyle \bigcup _{i\in I}U_{i}\in \mathcal{T}.\)

Sejam \(U, V\in \mathcal{T}\), e seja \(x\in U\cap V. \) Então \(U, V\in \mathcal{V}_{x}\), e segue da Proposição 2.63 item b que \(U\cap V\in \mathcal{V}_{x}\). Logo \(U\cap V\in \mathcal{T}.\)

A seguir demonstraremos que toda vizinhança de \(x\) pertence a \(\mathcal{V}_{x}\). Seja \(U\) uma vizinhança de \(x. \) Então \(x\in {\kern 0ptU}^{\mathrm{o}}\). Como \( {\kern 0ptU}^{\mathrm{o}}\in \mathcal{T}\), segue que \({\kern 0ptU}^{\mathrm{o}}\in \mathcal{V}_{x}\). Como \({\kern 0ptU}^{\mathrm{o}}\subset U\), pela Proposição 2.63 item d podemos concluir que \(U\in \mathcal{V}_{x}.\)

Finalmente demonstraremos que todo \(U\in \mathcal{V}_{x}\) é uma vizinhança de \(x\). Seja \(U\in \mathcal{V}_{x}\), e seja \(V=\{ y\in U:U\in \mathcal{V}_{y}\} \). Segue da Proposição 2.63 item a que \(x\in U\), e como \(U\in \mathcal{V}_{x},\) temos que \(x\in V.\)

A seguir veremos que \( V\in \mathcal{T}\). Dado \(y\in V\), temos que \(U\in \mathcal{V}_{y}\). Pela Proposição 2.63 item c temos que existe \(W\in \mathcal{V}_{y}, W\subset U\), tal que \(U\in \mathcal{V}_{z}\) para todo \(z\in W\). Segue então da Proposição 2.63 item a que \(W\subset V\). Segue do item d dessa proposição que \(V\in \mathcal{V}_{y}\). Logo \(V\in \mathcal{T}.\)

Como \( x\in V\) e \(V\in \mathcal{T}\), podemos concluir que \(x\in {\kern 0ptU}^{\mathrm{o}}\). Logo \(U\) é uma vizinhança de \(x.\)

Exemplo 2.61

  1. Seja \(X\) um espaço topológico, seja \(x\in X\), e seja \(\mathcal{B}_{x}=\){ \(U\in \mathcal{V}_{x}:U\) é aberto \(\} \). Então \(\mathcal{B}_{x}\) é uma base de vizinhanças de \(x.\)

  2. Seja \(X\) um espaço métrico, seja \(x\in X\), e seja

    \[ \mathcal{B}_{x}=\{ B(x;r)\ :\ r\gt 0\} . \]

    Então \(\mathcal{B}_{x}\) é uma base de vizinhanças de \(x.\)

  3. Seja \(X\) um espaço métrico, seja \(x\in X\), e seja

    \[ \mathcal{B}_{x}=\{ B[x;r]\ :\ r\gt 0\} . \]

    Então \(\mathcal{B}_{x}\) é uma base de vizinhanças de \(x.\)

Proposição 2.62

Seja \(X\) um espaço topológico não vazio, e seja \(\mathcal{B}_{x}\) uma base de vizinhanças de \(x\), para todo \( x\in X.\) Então:

  1. \(x\in U\) para todo \(U\in \mathcal{B}_{x}.\)

  2. Dados \(U, V\in \mathcal{B}_{x}\), existe \(W\in \mathcal{B}_{x}\) tal que \(W\subset U\cap V.\)

  3. Dado \(U\in \mathcal{B}_{x}\), existe \(V\in \mathcal{B}_{x}, V\subset U, \) tal que para todo \(y\in V\) existe \(W\in \mathcal{B}_{y}\) tal que \(W\subset U.\)

  4. Um conjunto \(U\subset X\) é aberto se, e somente se, para todo \(x\in U\) existe \(V\in \mathcal{B}_{x} \) tal que \(V\subset U.\)

Demonstração

O primeiro item segue porque todo elemento de \(\mathcal{B}_x\) é uma vizinhança de \(x\). Para o segundo, se \(U,V\in \mathcal{B}_x\), então \(U\cap V\) é uma vizinhança de \(x\) pela Proposição 2.60; como \(\mathcal{B}_x\) é base local, existe \(W\in \mathcal{B}_x\) com \(W\subseteq U\cap V\).

Para o terceiro, tome \(U\in \mathcal{B}_x\). Pela Proposição 2.60, existe uma vizinhança \(O\subseteq U\) de \(x\) que é vizinhança de todos os seus pontos. Escolha \(V\in \mathcal{B}_x\) com \(V\subseteq O\). Para cada \(y\in V\), como \(U\) é uma vizinhança de \(y\), a base \(\mathcal{B}_y\) contém algum \(W\subseteq U\).

Finalmente, se \(U\) é aberto e \(x\in U\), então \(U\) é uma vizinhança de \(x\) e contém algum elemento de \(\mathcal{B}_x\). Reciprocamente, se para cada \(x\in U\) existe \(V_x\in \mathcal{B}_x\) com \(V_x\subseteq U\), então \(U\) é vizinhança de cada um de seus pontos e, pela Proposição 2.61, é aberto.

Reciprocamente temos:

Proposição 2.63

Seja \(X\) um conjunto não vazio. Para todo \(x\in X\) seja \(\mathcal{B}_{x}\) uma família não vazia de subconjuntos de \(X\) com as seguintes propriedades:

  1. \(x\in U\) para todo \(U\in \mathcal{B}_{x}.\)

  2. Dados \(U, V\in \mathcal{B}_{x}\), existe \(W\in \mathcal{B}_{x}\) tal que \(W\subset U\cap V.\)

  3. Dado \(U\in \mathcal{B}_{x}\), existe \(V\in \mathcal{B}_{x}, V\subset U, \) tal que para todo \(y\in V\) existe \(W\in \mathcal{B}_{y}\) tal que \(W\subset U.\)

Seja \(\mathcal{T}=\){ \(U\subset X\) : para todo \(x\in U\) existe \(V\in \mathcal{B}_{x}\) tal que \(V\subset U\)}. Então \(\mathcal{T}\) é uma topologia em \(X \) e \(\mathcal{B}_{x}\) é uma base de vizinhanças de \(x\) em \( (X,\mathcal{T})\) para todo \(x\in X.\)

Demonstração

Para todo \(x\in X\) seja

\[ \mathcal{V}_{x}=\{ U\subset X:U\supset V\text{ para algum }V\in \mathcal{B}_{x}\} . \]

É claro que as famílias \(\mathcal{V}_{x}\) verificam as propriedades a, b, c e d da Proposição 2.63, e que

\[ \mathcal{T}=\{ U\subset X : U\in \mathcal{V}_{x}\text{ para todo }x\in U\} . \]

Pela Proposição 2.63 \(\mathcal{T}\) é uma topologia em \(X\) e \(\mathcal{V}_{x}\) é o sistema de vizinhanças de \(x\) em \((X,\mathcal{T})\) para todo \(x\in X\). Segue que \(\mathcal{B}_{x}\) é uma base de vizinhanças de \(x\) em \((X,\mathcal{T})\) para todo \(x\in X.\)

A proposição seguinte caracteriza abertos, fechados, fecho de um conjunto e interior de um conjunto em termos de bases de vizinhanças.

Proposição 2.64

Seja \(X\) um espaço topológico não vazio, seja \(A\subset X\), e seja \(\mathcal{B}_{x}\) uma base de vizinhanças de \(x\), para todo \(x\in X.\) Então:

  1. \(A\) é aberto se, e somente se, para todo \(x\in A\) existe \(V\in \mathcal{B}_{x}\) tal que \(V\subset A.\)

  2. \(A\) é fechado se, e somente se, para todo \(x\not\in A\), existe \(V\in \mathcal{B}_{x}\) tal que \(V\cap A=\varnothing \).

  3. \(\overline{A}=\{ x\in X:V\cap A\neq \varnothing \) para todo \(V\in \mathcal{B}_{x}\} .\)

  4. \({\kern 0ptA}^{\mathrm{o}}=\{ x\in X:V\subset A\) para algum \(V\in \mathcal{B}_{x}\} .\)

Demonstração

  1. É exatamente o quarto item da Proposição 2.65.

  2. O conjunto \(A\) é fechado se, e somente se, \(X\setminus A\) é aberto. Aplicando o item anterior a \(X\setminus A\), obtemos a equivalência desejada.

  3. Se \(x\notin \overline A\), então, aplicando b ao fechado \(\overline A\), existe \(V\in \mathcal{B}_x\) tal que \(V\cap \overline A=\varnothing \); em particular, \(V\cap A=\varnothing \).

    Reciprocamente, suponha que exista \(V\in \mathcal{B}_x\) tal que \(V\cap A=\varnothing \). Como \(V\) é uma vizinhança de \(x\), temos \(x\in {\kern 0ptV}^{\mathrm{o}}\). Além disso, \(A\subseteq X\setminus V\subseteq X\setminus {\kern 0ptV}^{\mathrm{o}}\). O último conjunto é fechado; logo

    \[ \overline A\subseteq X\setminus {\kern 0ptV}^{\mathrm{o}}, \]

    e portanto \(x\notin \overline A\).

  4. Pela Proposição 2.56, \(X\backslash {\kern 0ptA}^{\mathrm{o}}=\overline{(X\backslash A)}\). Se \(B\) denota o conjunto da direita em d, então usando c segue que

    \( x\not\in {\kern 0ptA}^{\mathrm{o}}\Leftrightarrow x\in \overline{(X\backslash A)}\Leftrightarrow V\cap (X\backslash A)\neq \varnothing \) para todo \(V\in \mathcal{B}_{x}\)

    \(\Leftrightarrow V\not\subset A\) para todo \(V\in \mathcal{B}_{x}\Leftrightarrow x\not\in B.\)

Quando um ponto admite uma base local enumerável, surge o primeiro axioma de enumerabilidade. Essa condição, e suas consequências para sequências, serão estudadas no capítulo de Enumerabilidade.

2.8 Pontos de acumulação e conjuntos densos

Pontos de acumulação descrevem onde um conjunto se adensa localmente. A noção será especialmente útil no estudo de sequências; ao final da seção, ela nos levará naturalmente aos conjuntos densos.

Definição 2.65 (ponto de acumulação)
Dado um conjunto \( A \) num espaço topológico \( X \), diz-se que um ponto \( x \in X \) é um ponto de acumulação de \( A \) se para qualquer vizinhança \( U_x \) de \( x \) temos que
\begin{equation*} (U_x \setminus \{ x \} ) \cap A \not= \varnothing \end{equation*}

Vamos apresentar algumas terminologias para o conjunto de pontos de acumulação.

Definição 2.66 (Conjunto derivado)
O conjunto de pontos de acumulação de um conjunto \( A \) é denominado conjunto derivado. Normalmente, denotaremos o conjunto derivado de \(A\) por \(A'\).
Observação 2.67 (Vizinhanças perfuradas)

Quando consideramos uma vizinhança \( U_x \) de um ponto \( x \in X \), às vezes (especialmente quando falamos de pontos de acumulação), é útil retirar o próprio ponto da vizinhança.

O conjunto \( U_x \setminus \{ x \} \) é geralmente denominado de vizinhança perfurada de \( x \).

Exemplo 2.68
A família \(\mathcal{T} = \{ X, \varnothing , \{ a\} , \{ c, d\} , \{ a, c, d\} , \{ b, c, d, e\} \} \) define uma topologia em \(X = \{ a, b, c, d, e\} \). Considere o subconjunto \(A = \{ a, b, c\} \) de \(X\). Observe que \(b \in X\) é um ponto de acumulação de \(A\), pois os conjuntos abertos contendo \(b\) são \(\{ b, c, d, e\} \) e \(X\), e cada um contém um ponto de \(A\) diferente de \(b\), ou seja, \(c\). Por outro lado, o ponto \(a \in X\) não é um ponto de acumulação de \(A\), pois o conjunto aberto \(\{ a\} \), que contém \(a\), não contém um ponto de \(A\) diferente de \(a\). Similarmente, os pontos \(d\) e \(e\) são pontos de acumulação de \(A\) e o ponto \(c\) não é um ponto de acumulação de \(A\). Assim, \(A '= \{ b, d, e\} \)é o conjunto derivado de \(A\).

Exemplo 2.69

Conjunto derivado de \((0, 1)\) na topologia usual e na reta de Sorgenfrey.

Na topologia usual de \(\mathbb {R}\), temos \((0, 1)' = [0, 1]\).

Na reta de Sorgenfrey, isto é, em \(\mathbb {R}\) com a topologia cuja base é formada pelos intervalos \([a,b)\), precisamos considerar os abertos básicos que contêm \(x\), isto é, \(x \in [a, b)\). Se \(x\in [a,b)\), então \([x,b)\subset [a,b)\); portanto basta considerar vizinhanças básicas da forma \([x,b)\).

Se \(0\leq x\lt 1\), então \(\bigl((0,1)\setminus \{ x\} \bigr)\cap [x,b)\) contém pontos de \((x,\min \{ 1,b\} )\) e, portanto, é não vazio. Portanto, \(x\) é um ponto de acumulação. Se \(x \lt 0\), então \(x \in [x, 0)\) que não contém nenhum ponto em \((0, 1)\). Similarmente, se \(x \geq 1\), então \(x \in [x, x + 1)\) que não contém nenhum ponto em \((0, 1)\). Em ambos os casos, a condição na definição de ponto de acumulação não é satisfeita, de modo que \(x\) não é um ponto de acumulação. Logo, obtemos que \((0, 1)' = [0, 1)\).

Uma propriedade interessante dos conjuntos derivados é apresentada no seguinte lema.

Proposição 2.70 (Decomposição do Fecho)
\begin{equation*} \overline{A} = A \cup A ’ \end{equation*}

Demonstração

A demonstração é imediata, demonstraremos a contenção dupla.

  1. Vamos ver que todos os pontos \( \overline{A} \setminus A \) estão em \( A '\). Com efeito, dado um \( x \not\in A\) e aderente a \( A \), temos que para todas as vizinhanças \( U_x \) de \( x \)

    \begin{equation*} U_x \cap A \not= \varnothing \end{equation*}

    Como \( x \not\in A \), temos \( (U_x \setminus \{ x \} ) \cap A \not= \varnothing \), cumprindo a definição do ponto de acumulação.

  2. Está claro que \( A \subset \overline{A} \), então resta apenas verificar que \( A '\subset \overline{A} \). Se \(x\in A'\), toda vizinhança de \(x\) contém um ponto de \(A\) diferente de \(x\) e, em particular, intersecta \(A\). Pela Proposição 2.67, temos \(x\in \overline A\).

O resultado fornece a seguinte caracterização dos conjuntos fechados.

Observação 2.71 (Acumulação e Fechado)

Um conjunto é fechado se, e somente se, contém todos os seus pontos de acumulação.

Esta é uma consequência direta da proposição 2.67 e do lema 2.74.

Deve-se notar que, claramente, essa decomposição, em geral, não é uma partição, como mostra o exemplo simples a seguir.
Exemplo 2.72 (disco)
Se considerarmos o disco \( D \) em \( \mathbb {R}^2 \) com a topologia usual, é fácil mostrar que seus pontos de acumulação coincidem com seu fecho, e assim

\begin{equation} \overline{D} \setminus D \subsetneq D ' \tag{2.2} \end{equation}

Em geral, temos apenas que \( \overline{A} \setminus A \subset A '\).

Definição 2.73 (Pontos isolados)
Denominamos pontos isolados de um conjunto \( A \), todos os pontos de \( A \) que não são pontos de acumulação. Ou seja, os pontos \( x \in A \) que possuem uma vizinhança que satisfaz
\begin{equation*} U_x \cap A = \{ x \} \end{equation*}

Exemplo 2.74 (Topologia não discreta em um conjunto enumerável infinito)

Considere, em \(\mathbb {N}\), a família

\[ \mathcal{T}_{\Omega }=\{ \varnothing ,\mathbb {N}\} \cup \{ \Omega _y:y\in \mathbb {N}\} , \qquad \Omega _y=\{ i\in \mathbb {N}:i=0\text{ ou }i\gt y\} . \]

Essa família é uma topologia. Todo aberto não vazio contém \(0\), de modo que o espaço não é \(T_1\): por exemplo, não existe aberto que contenha \(1\) e exclua \(0\). Por outro lado, ele é \(T_0\), pois, dados \(m\lt n\) com \(m\gt 0\), o aberto \(\Omega _m\) contém \(n\) e não contém \(m\), e \(\Omega _n\) contém \(0\) e não contém \(n\).

Nenhum ponto é isolado. Com efeito, todo aberto não vazio contém \(0\) e, para cada \(y\), o conjunto \(\Omega _y\) contém infinitos naturais.

Figura 2.13 Uma topologia T_0, não T_1 e não discreta em um conjunto enumerável infinito.

Figura 2.13 Uma topologia \(T_0\), não \(T_1\) e não discreta em um conjunto enumerável infinito.

Passemos agora à noção de densidade.

Definição 2.75 (conjunto denso)
Dizemos que um conjunto \( A \) é denso em um espaço topológico \( X \) se o fecho de \( A \) for todo o espaço \( X \). Ou seja, se
\begin{equation*} \overline{A} = X \end{equation*}
A definição pelo fecho é conceitualmente simples, mas nem sempre é a forma mais prática de verificar densidade. A caracterização seguinte será usada com frequência.

Proposição 2.76 (Caracterização da densidade)
As seguintes afirmações são equivalentes:
  1. \( A \) é denso.

  2. Todo aberto \( U \) não vazio contém algum ponto de \( A \).

Demonstração

Suponha primeiro que \(A\) seja denso e seja \(U\) um aberto não vazio. Escolha \(x\in U\). Como \(x\in \overline{A}\) e \(U\) é uma vizinhança de \(x\), temos \(U\cap A\neq \varnothing \).

Reciprocamente, suponha que todo aberto não vazio intercepte \(A\). Seja \(x\in X\) e seja \(V\) uma vizinhança de \(x\). Existe um aberto \(U\) tal que \(x\in U\subset V\). Por hipótese, \(U\cap A\neq \varnothing \), e portanto também \(V\cap A\neq \varnothing \). Logo \(x\in \overline{A}\). Como \(x\) é arbitrário, \(\overline{A}=X\).

A condição adicional de possuir um subconjunto denso enumerável recebe o nome de separabilidade. Ela será estudada, juntamente com os axiomas de enumerabilidade e a propriedade de Lindelöf, no capítulo de Enumerabilidade.

Para finalizar esta seção, apresentamos o conceito de fronteira de um conjunto.

Definição 2.77 (Fronteira de um conjunto)

Definimos a fronteira de um conjunto como os pontos aderentes ao conjunto que não são internos. Colocado de outra maneira

\begin{equation} \operatorname {fr} (A) = \overline{A} \setminus {\kern 0ptA}^{\mathrm{o}} \tag{2.3} \end{equation}

Figura 2.14 Interior, Exterior e Fronteira

Figura 2.14 Interior, Exterior e Fronteira
É interessante ver que, como parece intuitivo, um conjunto e seu complemento compartilham uma fronteira.
Proposição 2.78 (Fronteira e Complementação)
\begin{equation*} \operatorname {fr} (X\setminus A) = \operatorname {fr} (A) \end{equation*}

Demonstração

Usando as identidades de dualidade entre fecho e interior,

\begin{align*} \operatorname {fr}(X\setminus A) & = \overline{X\setminus A}\setminus {\kern 0pt(X\setminus A)}^{\mathrm{o}} \\ & = (X\setminus {\kern 0ptA}^{\mathrm{o}})\setminus (X\setminus \overline{A}) \\ & = \overline{A}\setminus {\kern 0ptA}^{\mathrm{o}} = \operatorname {fr}(A). \end{align*}

A fronteira de um conjunto também pode ser descrita como a interseção das aderências do conjunto e de seu complementar.

Proposição 2.79 (Fronteira e Aderência)
\begin{equation*} \operatorname {fr} (A) = \overline{A} \cap \overline{X\setminus A} \end{equation*}

Demonstração

Nós sabemos que

\begin{equation*} \overline{A} \cap \overline{X\setminus A} = \overline{A} \cap (X\setminus {\kern 0ptA}^{\mathrm{o}}) \end{equation*}

Assim, basta que \( \overline{A} \cap (X\setminus {\kern 0ptA}^{\mathrm{o}}) = \overline{A} \setminus {\kern 0ptA}^{\mathrm{o}} \), o que é evidente pela definição de diferença.

O interior, o exterior e a fronteira dependem da topologia

Figura 2.15 A influência da força da topologia na espessura da fronteira.

Figura 2.15 A influência da força da topologia na espessura da fronteira.

Figura 2.16 Interior, limite e exterior de conjuntos incluindo as topologias extremais discreta e trivial.

Figura 2.16 Interior, limite e exterior de conjuntos incluindo as topologias extremais discreta e trivial.

Exercício 2.25

Considere, sobre um conjunto não-enumerável \(X\), a topologia co-enumerável. Quais das afirmações a seguir são verdadeiras? Justifique.

  1. \(D \subseteq X\) é denso em \(X\) se, e somente se, \(D\) é não-enumerável.

  2. Todos os abertos não vazios de \(X\) são densos em \(X\).

  3. Se \(D \subseteq X\) é denso em \(X\), então \(D\) é aberto em \(X\).

Exercício 2.26

Sejam \(X\) um espaço topológico e \(D_1, D_2 \subseteq X\) densos em \(X\). Pode-se afirmar que \(D_1 \cap D_2\) é denso em \(X\)? E se \(D_1\), além de denso, for aberto em \(X\)?

Exercício 2.27

Sejam \(X\) um espaço topológico e \(x \in X\). Mostre que \(x\) é ponto isolado de \(X\) se, e somente se, \(\{ x\} \) é aberto em \(X\).

Exercício 2.28

Sejam \(X\) um espaço topológico e \(A\) contido em \(X\). Mostre que \(A^{\circ }=\varnothing \) se, e somente se, \(A^{\complement }\) é denso em \(X\).

Exercício 2.29

Sejam \(X\) um espaço topológico e \(A \subseteq X\). Dizemos que \(x \in X\) é ponto de fronteira de \(A\) se toda vizinhança \(V\) de \(x\) em \(X\) satisfaz \(V \cap A \neq \varnothing \) e \(V \cap (X \setminus A) \neq \varnothing \). O conjunto de todos os pontos de fronteira de \(A\) é denominado a fronteira de \(A\) em \(X\) e é denotado por \(\operatorname {fr}(A)\). Mostre que:

  1. \(\operatorname {fr}(A) = \overline{A} \cap \overline{X \setminus A}\).

  2. \(A^{\circ } = A \setminus \operatorname {fr}(A)\)

  3. \(\overline{A} = A \cup \operatorname {fr}(A)\)

  4. \(A\) é aberto em \(X\) se, e somente se, \(\operatorname {fr}(A) = \overline{A} \setminus A\)

  5. \(A\) é fechado em \(X\) se, e somente se, \(\operatorname {fr}(A) = A \setminus {\kern 0pt(}^{\mathrm{o}}A)\)

Exercício 2.30

Sejam \(X\) um espaço topológico, \(A, B \subseteq X\) e \(\mathcal{A} \neq \varnothing \). Complete com \(\subseteq \), \(\supseteq \) ou, se for o caso, =:

\[ \begin{array}{rcl}(A \cup B)^{\circ } & \line (1,0){25} & A^{\circ } \cup B^{\circ } \\ \left(\bigcup _{A \in \mathcal{A}} A \right) ^{\circ } & \line (1,0){25} & \bigcup _{A \in \mathcal{A}} A^{\circ } \\ (A \cap B)^{\circ } & \line (1,0){25} & A^{\circ } \cap B^{\circ } \\ \left(\bigcap _{A \in \mathcal{A}} A \right)^{\circ } & \line (1,0){25} & \bigcap _{A \in \mathcal{A}} A^{\circ } \\ \overline{A \cup B} & \line (1,0){25} & \overline{A} \cup \overline{B} \\ \overline{\bigcup _{A \in \mathcal{A}} A} & \line (1,0){25} & \bigcup _{A \in \mathcal{A}} \overline{A} \\ \overline{A \cap B} & \line (1,0){25} & \overline{A} \cap \overline{B} \\ \overline{\bigcap _{A \in \mathcal{A}} A} & \line (1,0){25} & \bigcap _{A \in \mathcal{A}} \overline{A} \\ \end{array} \]
Exercício 2.31
Sejam \(X\) um espaço topológico e \(U \subseteq X\). Mostre que:
  1. \(\overline{U}^{\complement }=(U^{\complement })^\circ \)

  2. \((U^\circ )^{\complement }=\overline{U^{\complement }}\)

  3. \(U\) é denso em \(X\) se, e somente se, \(U^{\complement }\) possui interior vazio.

Exercício 2.32

Sejam \(X\) um espaço topológico e \(A \subseteq X\). Mostre que \(A\) é um subespaço fechado e discreto de \(X\) se, e somente se, \(A' = \varnothing \).

2.9 Sequências e convergência

Como os próximos capítulos já utilizarão sequências, registramos aqui apenas a noção básica de convergência topológica. As caracterizações sequenciais de fecho e continuidade serão estudadas mais adiante, sob hipóteses de enumerabilidade.

Definição 2.80 (Sequência)
Uma sequência em um espaço \(X\) é uma aplicação \(f:\mathbb {N}\to X\). Escrevemos usualmente \((x_n)_{n\geq 1}\), onde \(x_n=f(n)\) é o \(n\)-ésimo termo.

Definição 2.81
Seja \(X\) um espaço topológico. Dizemos que uma sequência \((x_n)\) em \(X\) converge para \(x\in X\) quando, para toda vizinhança \(V\) de \(x\), existe \(N\in \mathbb N\) tal que
\[ n\geq N\quad \Longrightarrow \quad x_n\in V. \]
Escrevemos \(x_n\to x\).

Observação 2.82
Para verificar \(x_n\to x\), basta testar a condição acima em uma base local de \(x\).

Exemplo 2.83 (Topologia trivial)
Se \(X\) tem pelo menos dois elementos e possui a topologia trivial, toda sequência em \(X\) converge para todo ponto de \(X\).

Exemplo 2.84 (Sequências eventualmente constantes)
Se existem \(x\in X\) e \(N\) tais que \(x_n=x\) para todo \(n\geq N\), então \((x_n)\) converge para \(x\) em qualquer topologia. O limite pode não ser único: na topologia trivial, por exemplo, a mesma sequência converge para todos os pontos do espaço.

Exercício 2.33
Em um espaço topológico discreto \(X\), mostre que \(x_n\to x\) se, e somente se, \((x_n)\) é eventualmente constante com valor eventual \(x\).

Fora do contexto métrico, uma sequência pode ter mais de um limite e pode não detectar todo o fecho de um conjunto. O capítulo de Enumerabilidade explicará quando o comportamento familiar dos espaços métricos é recuperado.

As noções de aberto, fechado, base, fecho, interior, vizinhança, acumulação, densidade e fronteira formam a linguagem básica que será usada em todo o restante do livro. Nos capítulos seguintes essa linguagem será aplicada à continuidade, às construções topológicas, aos axiomas de separação, à enumerabilidade e às sequências, à compacidade, à conexidade e à metrizabilidade.