Capítulo 5

Integrais Múltiplas

Neste capítulo desenvolvemos a integração de funções escalares em regiões do plano e do espaço. O princípio é somar uma quantidade local, como densidade, pressão ou taxa de aquecimento, multiplicada pelo tamanho de uma pequena região. A geometria do domínio determina os limites de integração; o modelo determina o integrando.

Recordemos também que a integral definida de uma função não negativa \(f(x)\ge 0\) representa a área sob a curva \(y=f(x)\). Veremos agora que a integral dupla de uma função real não negativa \(f(x,y)\ge 0\) representa o volume sob a superfície \(z=f(x,y)\).

5.1 Integrais Duplas

Seja \(R=[a,b]\times [c,d]\subseteq \mathbb {R}^2\) um retângulo e seja \(f:R\to \mathbb {R}\) contínua. Seja \(P\) uma partição formada por \(a=x_0\lt x_1\lt \cdots \lt x_M=b\) e \(c=y_0\lt y_1\lt \cdots \lt y_N=d\). O conjunto \(P\) determina uma partição de \(R\) em uma malha de retângulos, sem sobreposição, \(R_{i,j}=[x_i,x_{i+1}]\times [y_j,y_{j+1}]\), para \(0\le i\lt M\) e \(0\le j\lt N\). Fixada \(P\), escolha pontos \(\mathsf{M}=\set {\xi _{i,j}}\) tais que \(\xi _{i,j}\in R_{i,j}\) para todos \(i,j\).

Ilustração: Integrais Duplas

Definição 5.1
A soma de Riemann de \(f\) associada à partição \(P\) e aos pontos \(\mathsf{M}\) é definida por
\begin{equation*} \mathcal R(f, P, \mathsf{M}) \triangleq \sum _{i=0}^{M-1} \sum _{j = 0}^{N-1} f(\xi _{i, j}) \operatorname {area}(R_{i,j}) = \sum _{i=0}^{M-1} \sum _{j = 0}^{N-1} f(\xi _{i, j}) (x_{i+1} - x_i) (y_{j+1} - y_j) \end{equation*}

Definição 5.2
A malha de uma partição \(P\) é definida por
\begin{equation*} \lVert P\rVert = \max _{0\le i\lt M,\, 0\le j\lt N}\sqrt{(x_{i+1}-x_i)^2+(y_{j+1}-y_j)^2}. \end{equation*}

Definição 5.3
A integral de Riemann de \(f\) sobre o retângulo \(R\) é definida por
\begin{equation*} \iint _R f(x, y) \, dx \, dy \triangleq \lim _{\lVert P\rVert \to 0} \mathcal R( f, P, \mathsf{M} ), \end{equation*}
desde que o limite exista e seja independente da escolha dos pontos \(\mathsf{M}\). Dizemos que uma função é integrável à Riemann em \(R\) se sua integral de Riemann existe e é finita.

Observação 5.1
Outras notações usuais para a integral são
\begin{equation*} \iint _R f \, dA, \quad \iint _R f \, dx \, dy, \quad \iint _R f \, dx_1 \, dx_2, \quad \text{e}\quad \iint _R f. \end{equation*}

Observação 5.2
Se \(f\ge 0\), a integral dupla representa o volume da região entre seu gráfico e o plano de base. Para uma função de sinal variável, ela representa o volume com sinal, isto é, a diferença entre as contribuições positivas e negativas. Alternativamente, se \(f(x,y)\) é a densidade de uma lâmina no ponto \((x,y)\), a integral dupla representa sua massa total.

Teorema 5.3
Toda função contínua em um retângulo fechado e limitado é integrável à Riemann.

Demonstração ▼

Como o retângulo \(R\) é compacto, \(f\) é uniformemente contínua: para cada \(\eta \gt 0\), existe \(\delta \gt 0\) tal que pontos de \(R\) a distância menor que \(\delta \) têm valores que diferem por menos que \(\eta \). Se \(\lVert P\rVert \lt \delta \), a oscilação de \(f\) em cada célula é menor que \(\eta \). Assim, as somas superior e inferior satisfazem

\[ U(f,P)-L(f,P)\le \eta \, \operatorname {area}(R). \]

Para obter diferença menor que \(\varepsilon \), basta tomar \(\eta \lt \varepsilon /\operatorname {area}(R)\), supondo área positiva. Pelo critério de Darboux, \(f\) é integrável. Cada soma de Riemann fica entre a soma inferior e a superior; por isso, o limite independe dos pontos escolhidos. No caso de área nula, todas as somas são zero.

Observação 5.4
A maioria das funções limitadas que encontraremos será integrável à Riemann. Funções limitadas com descontinuidades suficientemente simples, por exemplo um número finito de saltos, em geral são integráveis à Riemann em retângulos limitados. Um exemplo de função excessivamente descontínua que não é integrável à Riemann é \(f(x,y)=1\) se \(x,y\in \mathbb {Q}\) e \(0\) caso contrário.

Suponha agora que \(U\subseteq \mathbb {R}^2\) seja um domínio limitado regular 3 e que \(f:U\to \mathbb {R}\) seja uma função. Escolha um retângulo limitado \(R\supseteq U\) e, como antes, seja \(P\) uma partição de \(R\) em uma malha de retângulos. Definimos agora a soma de Riemann somando apenas sobre os retângulos \(R_{i,j}\) inteiramente contidos em \(U\). Explicitamente, seja

\begin{equation*} \chi _{i,j} = \begin{cases} 1 & R_{i,j} \subseteq U\\ 0 & \text{caso contrário}. \end{cases}\end{equation*}

e defina

\begin{equation*} \mathcal R(f, P, \mathsf{M}, U) = \sum _{\substack {0\le i\lt M,\ 0\le j\lt N\\ { R_{i,j}\subseteq U }}} f(\xi _{i,j})(x_{i+1}-x_i)(y_{j+1}-y_j). \end{equation*}

Definição 5.4
A integral de Riemann de \(f\) sobre o domínio \(U\) é definida por
\begin{equation*} \iint _U f(x, y) \, dx \, dy \triangleq \lim _{\lVert P\rVert \to 0} \mathcal R( f, P, \mathsf{M}, U ), \end{equation*}
desde que o limite exista e seja independente da escolha dos pontos \(\mathsf{M}\). Dizemos que \(f\) é integrável à Riemann em \(U\) se a integral de Riemann existe e é finita.

Teorema 5.5
Toda função contínua e limitada em uma região limitada regular, cuja fronteira tem área zero, é integrável à Riemann.
Observação 5.6
Como antes, a maioria das funções limitadas razoáveis que encontraremos será integrável à Riemann.

Para tratar funções não limitadas ou domínios não limitados, usamos um processo de limite.

Definição 5.5
Seja \(U\subseteq \mathbb {R}^2\) um domínio, não necessariamente limitado, e seja \(f:U\to \mathbb {R}\) uma função, também não necessariamente limitada. Para cada \(R\gt 0\), suponha que a função \(p\mapsto \min \{ |f(p)|,R\} \) seja integrável no sentido de Riemann em \(U\cap B(0,R)\). Dizemos que \(f\) é absolutamente integrável no sentido impróprio se
\begin{equation*} \lim _{R \to \infty } \iint _{U \cap B(0, R)} \min \{ |f|,R\} \, dA \end{equation*}
existe e é finito. A truncação contínua do valor de \(f\) é dada por \(f_R(p)=\max \{ -R,\min \{ f(p),R\} \} \).
Proposição 5.7
Se \(f\) é absolutamente integrável no sentido impróprio em \(U\), então
\begin{equation*} \lim _{R \to \infty } \iint _{U \cap B(0, R)} f_R \, dA \end{equation*}
existe e é finito.

Demonstração ▼

Se \(S\gt R\), a diferença entre as integrais truncadas, em módulo, é limitada por

\[ \iint _{U\cap B(0,S)}\min \{ |f|,S\} \, dA -\iint _{U\cap B(0,R)}\min \{ |f|,R\} \, dA. \]

De fato, em \(U\cap B(0,R)\) vale \(|f_S-f_R|\leq \min \{ |f|,S\} -\min \{ |f|,R\} \), e fora dessa bola \(|f_S|\leq \min \{ |f|,S\} \). Como as integrais absolutas truncadas convergem, essa diferença tende a zero quando \(R,S\to \infty \). As integrais assinadas truncadas formam, portanto, uma família de Cauchy e convergem.

Observação 5.8
Se \(f\) é absolutamente integrável no sentido impróprio, o limite acima não depende da forma particular como o domínio é expandido, desde que as regiões cresçam até preencher \(U\) e as truncações absolutas correspondentes tenham o mesmo limite. Por exemplo, podemos tomar o limite das integrais sobre \(U\cap [-R,R]^2\) e obteremos o mesmo valor.
Definição 5.6
Se \(f\) é absolutamente integrável no sentido impróprio, definimos
\begin{equation*} \iint _U f \, dx \, dy = \lim _{R \to \infty } \iint _{U \cap B(0, R)} f_R \, dA \end{equation*}

Exemplo 5.1 (Potência recebida por um painel (médio))
Um painel ocupa \(R=[0,2]\times [0,3]\), com coordenadas em metros, e recebe a densidade de potência \(q(x,y)=100+20x+10y\), em \(\mathrm{W/m^2}\). Calcule a potência total a partir de somas de Riemann em malhas uniformes, tomando os centros das células.
Solução
Em uma malha com \(M\) colunas e \(N\) linhas, cada célula tem área \(6/(MN)\). Os centros têm coordenadas \(x_i=2(i+1/2)/M\) e \(y_j=3(j+1/2)/N\). Como
\[ \frac1M\sum _{i=0}^{M-1}x_i=1,\qquad \frac1N\sum _{j=0}^{N-1}y_j=\frac32, \]
a soma é
\[ \frac6{MN}\sum _{i,j}(100+20x_i+10y_j) =6(100+20+15)=810\ \mathrm W. \]
Ela já é exata em qualquer uma dessas malhas, porque \(q\) é afim. Seu limite é a integral dupla. A potência média por unidade de área é \(810/6=135\ \mathrm{W/m^2}\). Integrar a densidade muda a unidade de \(\mathrm{W/m^2}\) para \(\mathrm W\).

Exercícios

Exercício 5.1 (code=N055,label=ex:N055,title=Aplicação; básico)
Uma placa em \([0,2]\times [0,1]\) tem densidade superficial constante de \(3\ \mathrm{kg/m^2}\). Calcule sua massa e explique o fator de área em cada parcela de uma soma de Riemann.
Ver solução

A área da placa é \(2\ \mathrm{m^2}\), logo sua massa é \(3\times 2=6\ \mathrm{kg}\). Em uma soma de Riemann, cada parcela é \(\rho \, \Delta A\): densidade superficial, em \(\mathrm{kg/m^2}\), multiplicada pela área da célula, em \(\mathrm{m^2}\). Somar apenas valores de densidade produziria unidades e dependência da malha incorretas.

Exercício 5.2 (code=N056,label=ex:N056,title=Justificação; médio)
Para \(f(x,y)=x+y\) em \([0,1]^2\), calcule as somas inferior e superior de uma malha uniforme \(n\times n\) e mostre que sua diferença tende a zero.
Ver solução

Nas células \([(i-1)/n,i/n]\times [(j-1)/n,j/n]\), a função é crescente nas duas coordenadas. Os mínimos são \((i+j-2)/n\) e os máximos \((i+j)/n\). Multiplicando por \(1/n^2\) e somando,

\[ L_n=1-\frac1n,\qquad U_n=1+\frac1n,\qquad U_n-L_n=\frac2n\to 0. \]

Ambas convergem para a integral \(1\). A diferença quantifica o efeito da discretização.

Exercício 5.3 (code=N057,label=ex:N057,title=Consolidação; básico)
Compare \(\iint _R f\, dA\) e \(\iint _R|f|\, dA\) para \(f(x,y)=x\) em \(R=[-1,1]\times [0,1]\). Interprete a diferença.
Ver solução

Por simetria, \(\iint _Rx\, dA=0\). Já

\[ \iint _R|x|\, dA=2\int _{-1}^1|x|\, dx=2. \]

A primeira integral registra contribuições com sinal e cancelamento entre as duas metades. A segunda soma suas magnitudes. Uma integral com integrando que muda de sinal não pode ser interpretada automaticamente como massa positiva.

5.2 Integrais Iteradas e o Teorema de Fubini

A definição por somas explica o significado da integral. Para calculá-la, queremos somar primeiro ao longo de uma variável e depois ao longo da outra. O Teorema de Fubini justifica essa passagem e esclarece quando a ordem pode ser trocada. Em regiões limitadas, funções contínuas não apresentam dificuldade; singularidades e domínios ilimitados exigem verificar integrabilidade absoluta.

Seja \(f(x,y)\) uma função contínua tal que \(f(x,y)\ge 0\) para todo \((x,y)\) no retângulo \(R=\lbrace (x,y):a\le x\le b,\ c\le y\le d\rbrace \subseteq \mathbb {R}^2\). Escreveremos frequentemente \(R=\lbrack a,b\rbrack \times \lbrack c,d\rbrack \). Para um número \(x_0\) no intervalo \(\lbrack a,b\rbrack \), corte a superfície \(z=f(x,y)\) pelo plano \(x=x_0\), paralelo ao plano \(yz\). A interseção da superfície com esse plano é a curva \(z=f(x_0,y)\), na qual \(x_0\) permanece fixo e apenas \(y\) varia. A área \(A\) sob essa curva, isto é, a área entre a curva e o plano \(xy\), quando \(y\) percorre \(\lbrack c,d\rbrack \), depende apenas do valor de \(x_0\). Usando então a variável \(x\) no lugar de \(x_0\), denotemos essa área por \(A(x)\); veja a Figura 5.1.

Figura 5.1 A área A(x) varia com x
Figura 5.1  A área \(A(x)\) varia com \(x\)

Temos \(A(x)=\displaystyle \int _c^d f(x,y)\, dy\), pois \(x\) é mantido fixo e apenas \(y\) varia. Para cada \(x\) fixado, \(f(x,y)\) é uma função contínua de \(y\) em \(\lbrack c,d\rbrack \), de modo que a área sob a curva é dada pela integral definida. Como \(A(x)\) é função de \(x\), o método das seções transversais do cálculo de uma variável mostra que o volume \(V\) do sólido situado sob \(z=f(x,y)\), acima do plano \(xy\) e sobre o retângulo \(R\), é a integral, em \(\lbrack a,b\rbrack \), das áreas dessas seções:

\begin{equation} \label{eqn:voliterx} V ~ =~ \displaystyle \int _a^b A(x)\, dx ~ =~ \displaystyle \int _a^b \left[ \displaystyle \int _c^d f(x,y)\, dy \right] \, dx \tag{5.1} \end{equation}

Chamaremos esse volume simplesmente de “volume sob a superfície”. A expressão acima envolve integrais iteradas. Primeiro integramos \(f(x,y)\) como função de \(y\), tratando \(x\) como constante; isso é integrar em relação a \(y\). É o que ocorre na integral “interna”, entre colchetes, em (5.1): essa é a primeira integral iterada. Depois dessa integração, resta uma expressão apenas em \(x\), que pode ser integrada em relação a \(x\). Essa é a integral “externa”, a segunda integral iterada. O resultado final é um número, o volume. O processo de realizar essas duas integrações sucessivas é chamado de integração dupla, e a última expressão em (5.1) é uma integral dupla.

Observe que integrar \(f(x,y)\) em relação a \(y\) é a operação inversa de derivar parcialmente \(f\) em relação a \(y\). Poderíamos igualmente usar seções sob a superfície paralelas ao plano \(xz\); nesse caso, a área da seção dependeria apenas de \(y\), e o volume \(V\) seria

\begin{equation} \label{eqn:volitery} V ~ =~ \displaystyle \int _c^d \left[ \displaystyle \int _a^b f(x,y)\, dx \right] \, dy ~ . \tag{5.2} \end{equation}

O Teorema de Fubini garante, sob hipóteses adequadas, que a ordem das integrais iteradas não altera o resultado. Em geral omitiremos os colchetes e escreveremos simplesmente

\begin{equation} \label{eqn:volint} V ~ =~ \displaystyle \int _c^d \displaystyle \int _a^b f(x,y)\, dx \, dy ~ , \tag{5.3} \end{equation}

O fato de \(dx\) aparecer antes de \(dy\) indica que \(f(x,y)\) é primeiro integrada em relação a \(x\), entre os limites “internos” \(a\) e \(b\); a função resultante é então integrada em relação a \(y\), entre os limites “externos” \(c\) e \(d\). A ordem de integração pode ser trocada quando isso for conveniente.

Seja \(U\subseteq \mathbb {R}^2\) um domínio.

Definição 5.7
Para \(x\in \mathbb {R}\), defina
\begin{equation*} S_x U = \set {y (x, y) \in U} \quad \text{e}\quad T_y U = \set {x (x, y) \in U} \end{equation*}

Exemplo 5.2
Se \(U=[a,b]\times [c,d]\), então
\begin{equation*} S_x U = \begin{cases} [c,d] & x \in [a, b]\\ \emptyset & x \not\in [a, b] \end{cases} \quad \text{e}\quad T_y U = \begin{cases} [a, b] & y \in [c, d]\\ \emptyset & y \not\in [c,d]. \end{cases}\end{equation*}

Nos domínios que consideraremos, \(S_xU\) e \(T_yU\) serão tipicamente intervalos, ou uniões finitas de intervalos.

Definição 5.8
Dada uma função \(f:U\to \mathbb {R}\), definimos as duas integrais iteradas por
\begin{equation*} \int _{x \in \mathbb {R}} \Big( \int _{y \in S_xU} f(x, y) \, dy \Big) \, dx \quad \text{e}\quad \int _{y \in \mathbb {R}} \Big( \int _{x \in T_y U} f(x, y) \, dx \Big) \, dy, \end{equation*}
com a convenção de que a integral sobre o conjunto vazio vale \(0\). Os parênteses foram mantidos acima apenas para clareza e serão omitidos à medida que a notação se tornar familiar.

Suponha que \(f(x,y)\) represente a densidade de uma lâmina no ponto \((x,y)\). Para qualquer \(x\in \mathbb {R}\),

\begin{equation*} \int _{y \in S_xU} f(x, y) \, dy \end{equation*}

representa a massa por unidade de comprimento na direção \(x\), obtida ao integrar a densidade ao longo da seção vertical. A massa de uma faixa estreita de largura \(\Delta x\) é aproximadamente essa quantidade multiplicada por \(\Delta x\). É natural esperar que, integrando essas massas de seção em \(x\), obtenhamos a massa total, isto é, a integral dupla. Pelo mesmo argumento, devemos obter o mesmo valor se primeiro tomarmos seções horizontais. Portanto, esperamos que as duas integrais iteradas coincidam com a integral dupla. Isso é verdadeiro sob uma hipótese de finitude.

Teorema 5.9 (Teorema de Fubini)
Suponha que \(U\) seja uma região regular e que \(f:U\to \mathbb {R}\) seja contínua (ou contínua por partes, com conjunto de descontinuidades de área zero). Se pelo menos uma das integrais iteradas abaixo, envolvendo \(|f|\), é finita,

\begin{equation} \label{eqnFubiniFiniteness} \begin{gathered} \int _{x \in \mathbb {R}} \Big( \int _{y \in S_xU} \left\lvert f(x, y)\right\rvert \, dy \Big) \, dx \lt \infty \quad \text{ou}\\ \int _{y \in \mathbb {R}} \Big( \int _{x \in T_y U} \left\lvert f(x, y)\right\rvert \, dx \Big) \, dy \lt \infty . \end{gathered} \tag{5.4} \end{equation}

então \(f\) é absolutamente integrável no sentido impróprio em \(U\) e
\begin{equation*} \iint _U f \, dA = \int _{x \in \mathbb {R}} \Big( \int _{y \in S_xU} f(x, y) \, dy \Big) \, dx = \int _{y \in \mathbb {R}} \Big( \int _{x \in T_y U} f(x, y) \, dx \Big) \, dy. \end{equation*}

Sem a hipótese (5.4), as integrais iteradas podem existir e ser finitas sem, contudo, serem iguais.

Exemplo 5.3
Para \((x,y)\in (0,1)^2\), defina
\begin{equation*} f(x, y)=\frac{x^2-y^2}{(x^2+y^2)^2}. \end{equation*}
No interior do quadrado, essa expressão é \(-\partial _x\partial _y\arctan (y/x)\). As identidades \(\partial _y\! \left(y/(x^2+y^2)\right)=f(x,y)\) e \(\partial _x\! \left(x/(x^2+y^2)\right)=-f(x,y)\) dão
\begin{equation*} \int _{x = 0}^1 \int _{y = 0}^1 f(x, y) \, dy \, dx = \frac{\pi }{4} \quad \text{e}\quad \int _{y = 0}^1 \int _{x = 0}^1 f(x, y) \, dx \, dy = -\frac{\pi }{4} \end{equation*}
Exemplo 5.4
Seja \(f(x,y)=(x-y)/(x+y)^3\) se \(x,y\gt 0\) e \(0\) caso contrário, e seja \(U=(0,1)^2\). Para \(x\) fixo, uma primitiva em \(y\) é \(y/(x+y)^2\); para \(y\) fixo, uma primitiva em \(x\) é \(-x/(x+y)^2\). Portanto, \(\int _0^1\int _0^1 f(x,y)\, dy\, dx=\int _0^1(1+x)^{-2}\, dx=\frac12\) e \(\int _0^1\int _0^1 f(x,y)\, dx\, dy=-\int _0^1(1+y)^{-2}\, dy=-\frac12\).

Exemplo 5.5
Defina
\begin{equation*} f(x, y) = \begin{cases} 1 & y \in (x, x+1) \text{ e } x \geq 0\\ -1 & y \in (x-1, x) \text{ e } x \geq 0\\ 0 & \text{caso contrário}. \end{cases}\end{equation*}
Integrando primeiro em \(y\), as duas faixas de largura \(1\) se cancelam para cada \(x\ge 0\), e o resultado é \(0\). Na ordem inversa, a integral em \(x\) vale \(-(y+1)\) para \(-1\lt y\lt 0\), \(y-1\) para \(0\lt y\lt 1\) e \(0\) fora desses intervalos. Sua integral em \(y\) é \(-\frac12-\frac12=-1\).

Exemplo 5.6
Calcule o volume \(V\) sob o plano \(z=8x+6y\) sobre o retângulo \(R=\lbrack 0,1\rbrack \times \lbrack 0,2\rbrack \).
Solução
Como \(f(x,y)=8x+6y\ge 0\) para \(0\le x\le 1\) e \(0\le y\le 2\), temos
\begin{align*} V ~ & =~ \displaystyle \int _0^2 \displaystyle \int _0^1 (8x+6y)\, dx \, dy\\ & =~ \displaystyle \int _0^2 \left( 4x^2 + 6xy \, \Big|_{x=0}^{x=1} \right) \, dy\\ & =~ \displaystyle \int _0^2 (4+6y) \, dy\\ & =~ 4y+3y^2 \, \Big|_0^2\\ & =~ 20 \end{align*}
Suponha agora que invertamos a ordem de integração. Podemos verificar que o resultado permanece o mesmo:
\begin{align*} V ~ & =~ \displaystyle \int _0^1 \displaystyle \int _0^2 (8x+6y)\, dy \, dx\\ & =~ \displaystyle \int _0^1 \left( 8xy + 3y^2 \, \Big|_{y=0}^{y=2} \right) \, dx\\ & =~ \displaystyle \int _0^1 (16x+12) \, dx\\ & =~ 8x^2 + 12x \, \Big|_0^1\\ & =~ 20 \end{align*}
Exemplo 5.7
Calcule o volume \(V\) sob a superfície \(z=e^{x+y}\) sobre o retângulo \(R=\lbrack 2,3\rbrack \times \lbrack 1,2\rbrack \).

Solução
Como \(f(x,y)=e^{x+y}\gt 0\) para todo \((x,y)\),
\begin{align*} V ~ & =~ \displaystyle \int _1^2 \displaystyle \int _2^3 e^{x+y} \, dx \, dy\\ & =~ \displaystyle \int _1^2 \left( e^{x+y} \, \Big|_{x=2}^{x=3} \right) \, dy\\ & =~ \displaystyle \int _1^2 (e^{y+3} - e^{y+2}) \, dy\\ & =~ e^{y+3} - e^{y+2} \, \Big|_1^2\\ & =~ e^5 - e^4 - ( e^4 - e^3 ) ~ =~ e^5 - 2e^4 + e^3 \end{align*}

Para uma função geral \(f(x)\), a integral \(\displaystyle \int _a^b f(x)\, dx\) representa área orientada: regiões entre o gráfico \(y=f(x)\) e o eixo \(x\) contribuem positivamente quando \(f(x)\ge 0\) e negativamente quando \(f(x)\le 0\). De modo análogo, a integral dupla de uma função contínua \(f(x,y)\) representa volume orientado: a parte situada entre \(z=f(x,y)\) e o plano \(xy\) contribui com sinal positivo quando \(f(x,y)\ge 0\) e com sinal negativo quando \(f(x,y)\le 0\). Assim, a integração dupla por integrais iteradas pode ser usada para calcular a integral dupla de qualquer função contínua sobre um retângulo, independentemente do sinal de \(f\).

Exemplo 5.8
Calcule \(\displaystyle \displaystyle \int _0^{2\pi }\displaystyle \displaystyle \int _0^\pi \sin (x+y)\, dx\, dy\).
Solução
A função \(f(x,y)=\sin (x+y)\) assume valores positivos e negativos no retângulo \(\lbrack 0,\pi \rbrack \times \lbrack 0,2\pi \rbrack \). Ainda assim, podemos calcular a integral dupla:
\begin{align*} \displaystyle \int _0^{2\pi } \displaystyle \int _0^{\pi } \sin (x+y) \, dx\, dy ~ & =~ \displaystyle \int _0^{2\pi } \left( -\cos (x+y) \, \Big|_{x=0}^{x=\pi } \right) \, dy\\ & =~ \displaystyle \int _0^{2\pi } (-\cos (y+\pi ) + \cos y) \, dy\\ & =~ \bigl[-\sin (y+\pi )+\sin y\bigr]_0^{2\pi }\\ & =~ -\sin 3\pi +\sin 2\pi +\sin \pi -\sin 0=0 \end{align*}
Exemplo 5.9 (Carga distribuída sobre uma placa (médio))
Uma placa retangular \(R=[0,2]\times [0,3]\), com coordenadas em metros, recebe pressão \(p(x,y)=100+20x+10y+5xy\), em pascals. Determine a força normal total e confira o resultado nas duas ordens.
Solução
A força elementar é \(p\, dA\). Como a pressão é contínua no retângulo, Fubini permite escrever
\[ F=\int _0^2\int _0^3p(x,y)\, \mathop{}\! \mathrm{d}y\, \mathop{}\! \mathrm{d}x =\int _0^2(345+82{,}5x)\, \mathop{}\! \mathrm{d}x=855\ \mathrm N. \]
Na outra ordem,
\[ F=\int _0^3\int _0^2p(x,y)\, \mathop{}\! \mathrm{d}x\, \mathop{}\! \mathrm{d}y =\int _0^3(240+30y)\, \mathop{}\! \mathrm{d}y=855\ \mathrm N. \]
A unidade é \(\mathrm{Pa\, m^2}=\mathrm N\). As duas ordens somam a mesma carga por faixas distintas.

Exercícios

A

Nos Exercícios 1–4, calcule o volume sob a superfície \(z=f(x,y)\) sobre o retângulo \(R\).

  1. Consolidaçãobásico \(f(x,y) = 4xy\), \(R= \lbrack 0,1 \rbrack \times \lbrack 0,1 \rbrack \)

    Solução
    \(\iint _R4xy\, dA=4(\frac12)(\frac12)=1\).

    Consolidaçãobásico \(f(x,y) = e^{x+y}\), \(R= \lbrack 0,1 \rbrack \times \lbrack -1,1 \rbrack \)

    Solução
    Pela separação das variáveis, o volume é \((\int _0^1e^x\, dx)(\int _{-1}^1e^y\, dy)=(e-1)(e-e^{-1})\).

  2. Consolidaçãobásico \(f(x,y) = x^3 + y^2\), \(R= \lbrack 0,1 \rbrack \times \lbrack 0,1 \rbrack \)

    Solução
    \(\iint _R(x^3+y^2)\, dA=\frac14+\frac13=\frac7{12}\).

    Consolidaçãobásico \(f(x,y) = x^4 + xy + y^3\), \(R= \lbrack 1,2 \rbrack \times \lbrack 0,2 \rbrack \)

    Solução
    Integrando termo a termo, \(\iint _Rx^4\, dA=\frac{31}{5}\), \(\iint _Rxy\, dA=3\) e \(\iint _Ry^3\, dA=4\); o volume é \(\frac{66}{5}\).

Nos Exercícios 5–12, calcule a integral dupla indicada.

  1. Consolidaçãobásico \(\displaystyle \displaystyle \int _0^1 \displaystyle \displaystyle \int _1^2 (1-y)x^2 \, dx\, dy\)

    Solução
    \(\frac12\int _1^2x^2\, dx=\frac76\).

    Consolidaçãobásico \(\displaystyle \displaystyle \int _0^1 \displaystyle \displaystyle \int _0^2 x(x+y) \, dx\, dy\)

    Solução
    A integral interna vale \(\frac83+2y\); integrando em \(y\), obtemos \(\frac{11}{3}\).

  2. Consolidaçãobásico \(\displaystyle \displaystyle \int _0^2 \displaystyle \displaystyle \int _0^1 (x+2) \, dx\, dy\)

    Solução
    A integral interna vale \(\frac52\), logo o resultado é \(5\).

    Consolidaçãobásico \(\displaystyle \displaystyle \int _{-1}^2 \displaystyle \displaystyle \int _{-1}^1 x(xy+ \sin x) \, dx\, dy\)

    Solução
    A integral em \(x\) é \(\frac23y+2(\sin 1-\cos 1)\). Integrando de \(-1\) a \(2\) em \(y\), obtemos \(1+6(\sin 1-\cos 1)\).

  3. Consolidaçãobásico \(\displaystyle \displaystyle \int _0^{\pi /2} \displaystyle \displaystyle \int _0^1 xy \cos (x^2 y) \, dx\, dy\)

    Solução
    Com \(u=x^2y\), a integral interna é \(\frac12\sin y\); a integral total vale \(\frac12\).

    Consolidaçãobásico \(\displaystyle \displaystyle \int _0^{\pi } \displaystyle \displaystyle \int _0^{\pi /2} \sin x \cos (y-\pi ) \, dx\, dy\)

    Solução
    A integral em \(x\) vale \(1\) e \(\cos (y-\pi )=-\cos y\); a integral em \(y\) é \(0\).

  4. Consolidaçãobásico \(\displaystyle \displaystyle \int _0^2 \displaystyle \displaystyle \int _1^4 xy \, dx\, dy\)

    Solução
    \(\int _0^2y\, dy\int _1^4x\, dx=2\cdot \frac{15}{2}=15\).

    Consolidaçãobásico \(\displaystyle \displaystyle \int _{-1}^1 \displaystyle \displaystyle \int _{-1}^2 1 \, dx\, dy\)

    Solução
    O integrando é \(1\) num retângulo de lados \(3\) e \(2\); a integral vale \(6\).

  5. Justificaçãomédio Seja \(M\) constante. Mostre que \(\displaystyle \int _c^d\displaystyle \int _a^b M\, dx\, dy=M(d-c)(b-a)\).

    Solução
    Integrando primeiro em \(x\), obtemos \(M(b-a)\), constante em \(y\); a integral externa dá \(M(b-a)(d-c)\).

5.3 Integrais Duplas sobre Regiões Gerais

Em uma região não retangular, os limites internos acompanham sua fronteira. Antes de integrar, descreva uma seção típica e identifique a projeção do domínio sobre o eixo externo. Trocar a ordem significa redescrever a mesma região; não basta permutar os símbolos diferenciais.

Na seção anterior vimos o significado de uma integral dupla sobre um retângulo. Podemos agora definir a integral dupla de uma função real \(f(x,y)\) sobre regiões mais gerais de \(\mathbb {R}^2\).

Suponha que uma região \(R\) no plano \(xy\) seja limitada à esquerda pela reta vertical \(x=a\), à direita pela reta \(x=b\), com \(a\lt b\), abaixo pela curva \(y={g}_{1}(x)\) e acima pela curva \(y={g}_{2}(x)\), como na Figura 5.2(a). Suporemos que \({g}_{1}(x)\) e \({g}_{2}(x)\) não se intersectem no intervalo aberto \((a,b)\), embora possam se encontrar nos extremos.

Seção vertical: ∫ _a^b ∫ _g_(1)(x)^g_(2)(x) f(x,y) dy dx Seção horizontal: ∫ _c^d ∫ _h_(1)(y)^h_(2)(y) f(x,y) dx dy Figura 5.2 Integral dupla sobre uma região não retangular RSeção vertical: \(\displaystyle \int _a^b \displaystyle \int _{{g}_{1}(x)}^{{g}_{2}(x)} f(x,y)\, dy\, dx\)      Seção vertical: ∫ _a^b ∫ _g_(1)(x)^g_(2)(x) f(x,y) dy dx Seção horizontal: ∫ _c^d ∫ _h_(1)(y)^h_(2)(y) f(x,y) dx dy Figura 5.2 Integral dupla sobre uma região não retangular RSeção horizontal: \(\displaystyle \int _c^d \displaystyle \int _{{h}_{1}(y)}^{{h}_{2}(y)} f(x,y)\, dx\, dy\)

Figura 5.2  Integral dupla sobre uma região não retangular \(R\)

Pelo método das seções da seção anterior, a integral dupla de uma função real \(f(x,y)\) sobre \(R\), denotada por \(\displaystyle \iint \limits _R f(x,y)\, dA\), é dada por

\begin{equation} \label{eqn:doubleintvert} \iint \limits _{R} f(x,y)\, dA ~ =~ \displaystyle \int _a^b \left[ \displaystyle \int _{{g}_{1}(x)}^{{g}_{2}(x)} f(x,y)\, dy \right] \, dx \tag{5.5} \end{equation}

Isto corresponde a tomar seções verticais em \(R\) entre as curvas \(y={g}_{1}(x)\) e \(y={g}_{2}(x)\). O símbolo \(dA\) é chamado, às vezes, de elemento de área ou infinitesimal, com \(A\) indicando área. Observe que \(f(x,y)\) é primeiro integrada em relação a \(y\), com funções de \(x\) como limites de integração. O resultado da primeira integral iterada depende apenas de \(x\), permitindo então realizar a segunda integral em \(x\).

Analogamente, se \(R\) é limitada à esquerda por \(x={h}_{1}(y)\), à direita por \(x={h}_{2}(y)\), abaixo pela reta horizontal \(y=c\) e acima pela reta \(y=d\), com \(c\lt d\), como na Figura 5.2(b), e se \({h}_{1}(y)\) e \({h}_{2}(y)\) não se intersectam no intervalo aberto \((c,d)\), então seções horizontais fornecem

\begin{equation} \label{eqn:doubleinthoriz} \iint \limits _{R} f(x,y)\, dA ~ =~ \displaystyle \int _c^d \left[ \displaystyle \int _{{h}_{1}(y)}^{{h}_{2}(y)} f(x,y)\, dx \right] \, dy \tag{5.6} \end{equation}

Essas definições incluem, em particular, o caso em que \(R\) é um retângulo. Além disso, se \(f(x,y)\ge 0\) em toda a região \(R\), então \(\iint \limits _R f(x,y)\, dA\) é o volume sob a superfície \(z=f(x,y)\) sobre \(R\).

Exemplo 5.10
Calcule o volume \(V\) sob o plano \(z=8x+6y\) sobre a região \(R=\lbrace (x,y):0\le x\le 1,\ 0\le y\le 2x^2\rbrace \).

Ilustração: Integrais Duplas sobre Regiões Gerais

Solução

A região \(R\) está representada na figura ao lado. Usando seções verticais, obtemos:

\begin{align*} V ~ & =~ \iint \limits _{R} (8x+6y)\, dA\\ & =~ \displaystyle \int _0^1 \left[ \displaystyle \int _{0}^{2x^2} (8x+6y)\, dy \right] \, dx\\ & =~ \displaystyle \int _0^1 \left( 8xy + 3y^2 \, \Big|_{y=0}^{y=2x^2} \right) \, dx\\ & =~ \displaystyle \int _0^1 ( 16x^3 + 12x^4 )\, dx\\ & =~ 4x^4 + \tfrac {12}{5}x^5 \, \Big|_0^1 ~ =~ 4 + \tfrac {12}{5} ~ =~ \tfrac {32}{5} ~ =~ 6.4 \end{align*}

Ilustração: Integrais Duplas sobre Regiões Gerais

O mesmo resultado é obtido usando seções horizontais:

\begin{align*} V ~ & =~ \iint \limits _{R} (8x+6y)\, dA\\ & =~ \displaystyle \int _0^2 \left[ \displaystyle \int _{\sqrt{y/2}}^{1} (8x+6y)\, dx \right] \, dy\\ & =~ \displaystyle \int _0^2 \left( 4x^2 + 6xy \, \Big|_{x=\sqrt{y/2}}^{x=1} \right) \, dy\\ & =~ \displaystyle \int _0^2 ( 4 + 6y - (2y + \tfrac {6}{\sqrt{2}}y\sqrt{y}\, ))\, dy ~ =~ \displaystyle \int _0^2 ( 4 + 4y - 3\sqrt{2}y^{3/2} )\, dy\\ & =~ 4y + 2y^2 - \tfrac {6\sqrt{2}}{5}y^{5/2} \, \Big|_0^2 ~ =~ 8 + 8 - \tfrac {6\sqrt{2}\sqrt{32}}{5} ~ =~ 16 - \tfrac {48}{5} ~ =~ \tfrac {32}{5} ~ =~ 6.4 \end{align*}
Exemplo 5.11
Calcule o volume \(V\) do sólido limitado pelos três planos coordenados e pelo plano \(2x+y+4z=4\).

Figura 5.3      Figura 5.3

Figura 5.3

Solução
O sólido aparece na Figura 5.3(a), com uma seção vertical típica. O volume \(V\) é dado por \(\iint \limits _R f(x,y)\, dA\), onde \(f(x,y)=z=\frac14(4-2x-y)\) e a região \(R\), mostrada na Figura 5.3(b), é \(R=\lbrace (x,y):0\le x\le 2,\ 0\le y\le -2x+4\rbrace \). Usando seções verticais em \(R\), as seções em \(R\) fornecem
\begin{align*} V ~ & =~ \iint \limits _{R} \tfrac {1}{4}(4-2x-y)\, dA\\ & =~ \displaystyle \int _0^2 \left[ \displaystyle \int _{0}^{-2x+4} \tfrac {1}{4}(4-2x-y)\, dy \right] \, dx\\ & =~ \displaystyle \int _0^2 \left( -\tfrac {1}{8}(4-2x-y)^2 \, \Big|_{y=0}^{y=-2x+4} \right) \, dx\\ & =~ \displaystyle \int _0^2 \tfrac {1}{8}(4-2x)^2\, dx\\ & =~ -\tfrac {1}{48}(4-2x)^3 \, \Big|_0^2 ~ =~ \tfrac {64}{48} ~ =~ \tfrac {4}{3} \end{align*}

Para uma região geral \(R\), que pode não ser de nenhum dos tipos considerados até aqui, a integral dupla \(\iint \limits _R f(x,y)\, dA\) pode ser construída diretamente. Suponha que \(f(x,y)\) seja não negativa e que \(R\) seja uma região limitada de \(\mathbb {R}^2\), contida em algum retângulo \(\lbrack a,b\rbrack \times \lbrack c,d\rbrack \). Divida esse retângulo em uma malha de sub-retângulos e considere apenas aqueles inteiramente contidos em \(R\), como os sub-retângulos sombreados da Figura 5.4(a). Em cada \(\lbrack {x}_{i},{x}_{i+1}\rbrack \times \lbrack {y}_{j},{y}_{j+1}\rbrack \), escolha um ponto \(({x}_{i*},{y}_{j*})\). O volume sob \(z=f(x,y)\) sobre esse sub-retângulo é aproximadamente \(f({x}_{i*},{y}_{j*})\, \Delta {x}_{i}\, \Delta {y}_{j}\), onde \(\Delta {x}_{i}={x}_{i+1}-{x}_{i}\), \(\Delta {y}_{j}={y}_{j+1}-{y}_{j}\), \(f({x}_{i*},{y}_{j*})\) é a altura e \(\Delta {x}_{i}\Delta {y}_{j}\) é a área da base do paralelepípedo, como na Figura 5.4(b). Assim, o volume total é aproximado pela soma dos volumes desses paralelepípedos, paralelepípedos, a saber,

\begin{equation} \label{eqn:approxvol} \sum _j \sum _i f({x}_{i*},{y}_{j*})\, \Delta {x}_{i} \, \Delta {y}_{j} ~ , \tag{5.7} \end{equation}

onde a soma percorre os índices dos sub-retângulos contidos em \(R\). Tomando sub-retângulos cada vez menores, de modo que o comprimento da maior diagonal tenda a \(0\), eles preenchem uma porção cada vez maior de \(R\) e a soma acima converge para o volume efetivo sob \(z=f(x,y)\) sobre \(R\). Definimos então \(\iint \limits _R f(x,y)\, dA\) como o limite dessa soma dupla, tomando o limite sobre todas as subdivisões do retângulo \(\lbrack a,b\rbrack \times \lbrack c,d\rbrack \) à medida que a maior diagonal dos sub-retângulos tende a \(0\).

Sub-retângulos no interior da região R Paralelepípedo sobre um sub-retângulo, com volume f(x_(i*),y_(j*)) Δ x_(i) Δ y_(j) Figura 5.4 Integral dupla sobre uma região geral R Sub-retângulos no interior da região \(R\)      Sub-retângulos no interior da região R Paralelepípedo sobre um sub-retângulo, com volume f(x_(i*),y_(j*)) Δ x_(i) Δ y_(j) Figura 5.4 Integral dupla sobre uma região geral R Paralelepípedo sobre um sub-retângulo, com volume \(f({x}_{i*},{y}_{j*})\, \Delta {x}_{i} \, \Delta {y}_{j}\)

Figura 5.4  Integral dupla sobre uma região geral \(R\)

Uma definição análoga vale para funções \(f(x,y)\) que não sejam sempre não negativas: quando \(f(x,y)\lt 0\), substitui-se a interpretação de volume pela de volume orientado negativo. Para regiões do tipo mostrado na Figura 5.2, a definição de integral de Riemann de uma variável reduz a definição de \(\iint \limits _R f(x,y)\, dA\) a duas integrais iteradas.

Por fim, a região \(R\) não precisa ser limitada. Integrais duplas impróprias, seja por domínio não limitado, seja pela presença de pontos onde \(f(x,y)\) não está definida, podem ser calculadas como uma sequência de integrais impróprias iteradas de uma variável.

Exemplo 5.12
Calcule \(\displaystyle \displaystyle \int _1^\infty \displaystyle \displaystyle \int _0^{1/x^2}2y\, dy\, dx\).
Solução
\begin{align*} \displaystyle \int _1^{\infty } \displaystyle \displaystyle \int _0^{1/{x^2}} 2y \, dy\, dx ~ & =~ \displaystyle \int _1^{\infty } \left(y^2 \, \Big|_{y=0}^{y=1/{x^2}} \right) \, dx\\ & =~ \displaystyle \int _1^{\infty } x^{-4}\, dx ~ =~ -\tfrac {1}{3} x^{-3} \, \Big|_{1}^{\infty } ~ =~ 0 - (-\tfrac {1}{3}) ~ =~ \tfrac {1}{3} \end{align*}
Exemplo 5.13 (Dose acumulada e escolha da ordem (difícil))
Em coordenadas adimensionais, uma taxa espacial de exposição é \(q(x,y)=e^{y^2}\) na região \(D=\{ (x,y):0\le x\le y\le 1\} \). Calcule a exposição total \(Q=\iint _Dq\, dA\).
Solução
Com seções verticais,
\[ Q=\int _0^1\int _x^1e^{y^2}\, \mathop{}\! \mathrm{d}y\, \mathop{}\! \mathrm{d}x. \]
A integral interna não tem primitiva elementar. A região também se descreve por \(0\le y\le 1\) e \(0\le x\le y\). Como o integrando é contínuo e o domínio é limitado, podemos trocar a ordem:
\[ Q=\int _0^1\int _0^ye^{y^2}\, \mathop{}\! \mathrm{d}x\, \mathop{}\! \mathrm{d}y =\int _0^1ye^{y^2}\, \mathop{}\! \mathrm{d}y=\frac{e-1}{2}. \]
A fronteira \(x=y\) passa a fornecer o limite superior interno. A dificuldade desaparece porque a variável ausente do integrando é integrada primeiro.

Exercícios

A

Nos Exercícios 1–6, calcule a integral dupla indicada.

  1. Consolidaçãobásico \(\displaystyle \displaystyle \int _0^1 \displaystyle \displaystyle \int _{\sqrt{x}}^1 24x^2 y \, dy\, dx\)

    Solução
    A integral interna é \(12x^2(1-x)\); assim, a integral vale \(12(\frac13-\frac14)=1\).

    Consolidaçãobásico \(\displaystyle \displaystyle \int _0^{\pi } \displaystyle \displaystyle \int _0^y \sin x \, dx\, dy\)

    Solução
    Integrando em \(x\), obtemos \(1-\cos y\); a integral vale \(\int _0^\pi (1-\cos y)\, dy=\pi \).

  2. Consolidaçãobásico \(\displaystyle \displaystyle \int _1^2 \displaystyle \displaystyle \int _0^{\ln x} 4x \, dy\, dx\)

    Solução
    A integral reduz-se a \(\int _1^2 4x\ln x\, dx=[2x^2\ln x-x^2]_1^2=8\ln 2-3\).

    Consolidaçãobásico \(\displaystyle \displaystyle \int _0^2 \displaystyle \displaystyle \int _0^{2y} e^{y^2} \, dx\, dy\)

    Solução
    A integral em \(x\) dá \(2ye^{y^2}\); com \(u=y^2\), o resultado é \(e^4-1\).

  3. Consolidaçãobásico \(\displaystyle \displaystyle \int _0^{\pi /2} \displaystyle \displaystyle \int _0^y \cos x \, \sin y \, dx\, dy\)

    Solução
    A integral interna é \(\sin ^2 y\); logo, o resultado é \(\frac\pi 4\).

    Consolidaçãomédio \(\displaystyle \displaystyle \int _0^{\infty } \displaystyle \displaystyle \int _0^{\infty } xye^{-(x^2 + y^2 )} \, dx\, dy\)

    Solução
    O integrando separa-se e cada fator \(\int _0^\infty xe^{-x^2}\, dx\) vale \(\frac12\); o resultado é \(\frac14\).

  4. Consolidaçãobásico \(\displaystyle \displaystyle \int _0^2 \displaystyle \displaystyle \int _0^y 1 \, dx\, dy\)

    Solução
    \(\int _0^2y\, dy=2\).

    Consolidaçãobásico \(\displaystyle \displaystyle \int _0^1 \displaystyle \displaystyle \int _0^{x^2} 2 \, dy\, dx\)

    Solução
    \(\int _0^1 2x^2\, dx=\frac23\).

  5. Aplicaçãobásico Calcule o volume \(V\) do sólido limitado pelos três planos coordenados e pelo plano \(x+y+z=1\).

    Solução
    O tetraedro tem interceptos unitários nos três eixos; seu volume é \(1/6\).

  6. Aplicaçãobásico Calcule o volume \(V\) do sólido limitado pelos três planos coordenados e pelo plano \(3x+2y+5z=6\).

    Solução
    Os interceptos são \(2\), \(3\) e \(6/5\). Portanto, \(V=\frac16(2)(3)(6/5)=6/5\).

B

  1. Justificaçãomédio Explique por que a integral dupla \(\iint \limits _R1\, dA\) fornece a área de \(R\). Para simplificar, você pode supor que \(R\) seja uma região do tipo mostrado na Figura 5.2(a).

    Solução
    Se \(R=\{ (x,y):a\le x\le b,\ g_1(x)\le y\le g_2(x)\} \), então \(\iint _R1\, dA=\int _a^b\int _{g_1(x)}^{g_2(x)}1\, dy\, dx=\int _a^b(g_2(x)-g_1(x))\, dx\), que é a soma das áreas das seções verticais, isto é, a área de \(R\).

C

  1. Ilustração: Exercícios

  2. Justificaçãodifícil Prove que o volume de um tetraedro com três arestas adjacentes mutuamente perpendiculares de comprimentos \(a\), \(b\) e \(c\), como na figura ao lado, é \(\frac{abc}{6}\). (Sugestão: imite o Exemplo 5.11 e recorde como três pontos não colineares determinam um plano.)

    Solução
    Coloque o vértice comum na origem e as arestas sobre os eixos. O plano oposto tem equação \(x/a+y/b+z/c=1\). Assim, \(V=\int _0^a\int _0^{b(1-x/a)}c(1-x/a-y/b)\, dy\, dx=abc/6\).

  3. Aprofundamentodifícil Mostre como o Exercício 12 pode ser usado para resolver o Exercício 10.

    Solução
    No plano \(3x+2y+5z=6\), os interceptos são \(2,3,6/5\). O tetraedro tem três arestas perpendiculares de comprimentos iguais a esses interceptos; pelo Exercício 12, \(V=(2)(3)(6/5)/6=6/5\).

5.4 Integrais Triplas

A integral tripla acrescenta uma terceira direção de acumulação. Para montar seus limites, escolha primeiro uma projeção plana do sólido; sobre cada ponto dessa projeção, descreva o intervalo da variável restante. A densidade é por unidade de volume, de modo que a integral fornece massa, carga ou outra quantidade total.

A definição de integral dupla de uma função real \(f(x,y)\) sobre uma região \(R\subseteq \mathbb {R}^2\) estende-se naturalmente à integral tripla de uma função real \(f(x,y,z)\) sobre um sólido limitado \(S\subseteq \mathbb {R}^3\) cuja fronteira tenha volume zero. Procedemos como antes: encerramos \(S\) em um paralelepípedo retangular e o subdividimos em pequenos paralelepípedos. Em cada bloco contido em \(S\), com arestas \(\Delta x\), \(\Delta y\) e \(\Delta z\), escolhemos um ponto \(({x}_{*},{y}_{*},{z}_{*})\). Definimos então a integral tripla de \(f\) sobre \(S\), denotada por \(\iiint \limits _S f(x,y,z)\, dV\), por

\begin{equation} \iiint \limits _{S} f(x,y,z)\, dV ~ =~ \lim _{\lVert P\rVert \to 0} \sum \sum \sum f({x}_{*},{y}_{*},{z}_{*})\, \Delta x\, \Delta y\, \Delta z ~ , \tag{5.8} \end{equation}

onde \(P\) percorre partições do paralelepípedo que contém \(S\) e \(\lVert P\rVert \) é o comprimento da maior diagonal de seus subparalelepípedos, e a soma tripla percorre todos os subparalelepípedos contidos em \(S\). Pode-se mostrar que o limite não depende da escolha do paralelepípedo retangular exterior. O símbolo \(dV\) é chamado de elemento de volume.

Geometricamente, a integral tripla generaliza a interpretação da integral dupla. Uma integral dupla pode ser vista como o volume sob uma superfície bidimensional; de modo análogo, a integral tripla pode ser interpretada como o hipervolume sob uma hipersuperfície tridimensional \(w=f(x,y,z)\) em \(\mathbb {R}^{4}\). Em geral, a palavra “volume” é usada em sentido amplo para a medida de um objeto \(n\)-dimensional, incluindo comprimento em \(\mathbb {R}^{1}\) e área em \(\mathbb {R}^2\). Embora seja difícil visualizar o volume de um objeto quadridimensional, a integral fornece uma maneira precisa de calculá-lo.

No caso em que \(S\) é um paralelepípedo retangular \(\lbrack {x}_{1},{x}_{2} \rbrack \times \lbrack {y}_{1},{y}_{2} \rbrack \times \lbrack {z}_{1},{z}_{2} \rbrack \), isto é, \(S = \lbrace (x,y,z): {x}_{1} \le x \le {x}_{2},~ {y}_{1}\le y\le {y}_{2},~ {z}_{1}\le z\le {z}_{2}\rbrace \), a integral tripla é uma sequência de três integrais iteradas:

\begin{equation} \iiint \limits _{S} f(x,y,z)\, dV ~ =~ \displaystyle \int _{{z}_{1}}^{{z}_{2}} \displaystyle \int _{{y}_{1}}^{{y}_{2}} \displaystyle \int _{{x}_{1}}^{{x}_{2}} f(x,y,z)\, dx\, dy\, dz ~ , \tag{5.9} \end{equation}

e a ordem de integração pode ser permutada. Este é o caso mais simples.

Um caso mais geral ocorre quando \(S\) é limitado abaixo por \(z={g}_{1}(x,y)\), acima por \(z={g}_{2}(x,y)\), enquanto \(y\) varia entre as curvas \({h}_{1}(x)\) e \({h}_{2}(x)\) e \(x\) varia entre \(a\) e \(b\). Então

\begin{equation} \label{eqn:vsolid} \iiint \limits _{S} f(x,y,z)\, dV ~ =~ \displaystyle \int _{a}^{b} \displaystyle \int _{{h}_{1}(x)}^{{h}_{2}(x)} \displaystyle \int _{{g}_{1}(x,y)}^{{g}_{2}(x,y)} f(x,y,z)\, dz\, dy\, dx ~ . \tag{5.10} \end{equation}

Nesse caso, a primeira integral iterada produz uma função de \(x\) e \(y\), pois seus limites dependem dessas variáveis, restando depois uma integral dupla do tipo estudado na seção anterior. Naturalmente, há muitas variações possíveis, por exemplo permutando os papéis de \(x\), \(y\) e \(z\). A principal dificuldade prática das integrais triplas costuma ser descrever corretamente o sólido e escolher uma ordem de integração conveniente. Por ora, o essencial é dominar o cálculo dessas integrais; veremos adiante outras aplicações.

Exemplo 5.14
Calcule \(\displaystyle \displaystyle \int _0^3\displaystyle \displaystyle \int _0^2\displaystyle \displaystyle \int _0^1(xy+z)\, dx\, dy\, dz\).
Solução
\begin{align*} \displaystyle \int _0^3 \displaystyle \int _0^2 \displaystyle \int _0^1 (xy+z) \, dx\, dy\, dz ~ & =~ \displaystyle \int _0^3 \displaystyle \int _0^2 \left( \tfrac {1}{2}x^2 y + xz \, \Big|_{x=0}^{x=1} \right) \, dy\, dz\\ & =~ \displaystyle \int _0^3 \displaystyle \int _0^2 \left( \tfrac {1}{2}y + z \right) \, dy\, dz\\ & =~ \displaystyle \int _0^3 \left( \tfrac {1}{4}y^2 + yz \, \Big|_{y=0}^{y=2} \right) \, dz\\ & =~ \displaystyle \int _0^3 (1+2z) \, dz\\ & =~ z + z^2 \, \Big|_0^3 ~ =~ 12 \end{align*}
Exemplo 5.15
Calcule \(\displaystyle \displaystyle \int _0^1\displaystyle \displaystyle \int _0^{1-x}\displaystyle \displaystyle \int _0^{2-x-y}(x+y+z)\, dz\, dy\, dx\).
Solução
Integramos primeiro em \(z\), mantendo \(x,y\) fixos:
\begin{align*} H(x,y)& =\int _0^{2-x-y}(x+y+z)\, \mathop{}\! \mathrm{d}z\\ & =(x+y)(2-x-y)+\tfrac 12(2-x-y)^2\\ & =2-\tfrac 12x^2-xy-\tfrac 12y^2. \end{align*}
A integral pedida é \(I=\int _0^1\int _0^{1-x}H(x,y)\, \mathop{}\! \mathrm{d}y\, \mathop{}\! \mathrm{d}x\). Uma primitiva de \(H\) em \(y\) é \(2y-\frac12x^2y-\frac12xy^2-\frac16y^3\). Substituindo \(y=1-x\) e \(y=0\), obtemos
\[ I=\int _0^1\left(\frac{11}{6}-2x+\frac{x^3}{6}\right)\mathop{}\! \mathrm{d}x =\frac{11}{6}-1+\frac1{24}=\frac78. \]
Cada limite foi substituído apenas na etapa relativa à sua variável.
Observe que o volume \(V\) de um sólido em \(\mathbb {R}^3\) é dado por

\begin{equation} V ~ =~ \iiint \limits _{S} 1\, dV ~ . \tag{5.11} \end{equation}

Como o integrando é a constante \(1\), a integral tripla acima reduz-se a uma integral dupla do tipo estudado na seção anterior quando o sólido é limitado acima por uma superfície \(z=f(x,y)\) e abaixo pelo plano \(xy\), isto é, \(z=0\). Há muitas outras possibilidades. Por exemplo, o sólido pode ser limitado abaixo e acima por \(z={g}_{1}(x,y)\) e \(z={g}_{2}(x,y)\), respectivamente, com \(y\) entre \({h}_{1}(x)\) e \({h}_{2}(x)\) e \(x\) entre \(a\) e \(b\). Então

\[ \begin{aligned} V=\iiint \limits _S1\, dV & =\displaystyle \int _a^b\displaystyle \int _{{h}_1(x)}^{{h}_2(x)}\displaystyle \int _{{g}_1(x,y)}^{{g}_2(x,y)}1\, dz\, dy\, dx\\ & =\displaystyle \int _a^b\displaystyle \int _{{h}_1(x)}^{{h}_2(x)}\left({g}_2(x,y)-{g}_1(x,y)\right)\, dy\, dx. \end{aligned} \]

como em (5.10). Veja o Exercício 10 para um exemplo.

Exemplo 5.16 (Quantidade de soluto em um reservatório (difícil))
Em coordenadas normalizadas, um reservatório ocupa \(S=\{ (x,y,z):x^2+y^2\le z\le 4\} \) e contém concentração \(c(x,y,z)=c_0(1+z)\), com \(c_0\gt 0\). Determine a quantidade total de soluto dividida pela escala de volume usada na normalização.
Solução
Para evitar antecipar uma mudança de coordenadas, usamos seções horizontais: em uma altura \(z\in [0,4]\), a seção é o disco \(x^2+y^2\le z\), cuja área é \(\pi z\). A concentração é constante nessa seção. Portanto,
\[ M=\int _0^4c_0(1+z)\pi z\, \mathop{}\! \mathrm{d}z =\pi c_0\left[\frac{z^2}{2}+\frac{z^3}{3}\right]_0^4 =\frac{88\pi c_0}{3}. \]
A integral tripla foi reduzida a uma integral de áreas ponderadas. Em coordenadas físicas com escala de comprimento \(\ell \), a quantidade total é \(\ell ^3M\). A mesma região poderá ser descrita em coordenadas cilíndricas na próxima seção.

Exercícios

A

Nos Exercícios 1–8, calcule a integral tripla indicada.

  1. Consolidaçãobásico \(\displaystyle \displaystyle \int _0^3 \displaystyle \displaystyle \int _0^2 \displaystyle \displaystyle \int _0^1 xyz \, dx\, dy\, dz\)

    Solução
    As integrais separam-se: \((\frac12)(2)(\frac92)=\frac92\).

    Consolidaçãomédio \(\displaystyle \displaystyle \int _0^1 \displaystyle \displaystyle \int _0^x \displaystyle \displaystyle \int _0^y xyz \, dz\, dy\, dx\)

    Solução
    Integrando sucessivamente, obtemos \(\int _0^1 x^5/8\, dx=1/48\).

  2. Consolidaçãomédio \(\displaystyle \displaystyle \int _0^{\pi } \displaystyle \displaystyle \int _0^x \displaystyle \displaystyle \int _0^{xy} x^2 \sin z \, dz\, dy\, dx\)

    Solução
    As integrais em \(z\) e \(y\) dão \(x^3-x\sin (x^2)\). Logo, o valor é \(\frac{\pi ^4}{4}-\frac{1-\cos (\pi ^2)}2\).

    Consolidaçãomédio \(\displaystyle \displaystyle \int _0^1 \displaystyle \displaystyle \int _0^z \displaystyle \displaystyle \int _0^y ze^{y^2} \, dx\, dy\, dz\)

    Solução
    Integrando em \(x\) e depois em \(y\), a integral externa fica \(\frac12\int _0^1 z(e^{z^2}-1)\, dz=\frac{e-2}{4}\).

  3. Consolidaçãomédio \(\displaystyle \displaystyle \int _1^e \displaystyle \displaystyle \int _0^y \displaystyle \displaystyle \int _0^{1/y} x^2 z \, dx\, dz\, dy\)

    Solução
    Integrando em \(x\) e depois em \(z\), resta \(\int _1^e(6y)^{-1}\, dy=1/6\).

    Consolidaçãomédio \(\displaystyle \displaystyle \int _1^2 \displaystyle \displaystyle \int _0^{y^2} \displaystyle \displaystyle \int _0^{z^2} yz \, dx\, dz\, dy\)

    Solução
    A integral em \(x\) dá \(yz^3\); em \(z\), \(y^9/4\). Portanto, o valor é \([y^{10}/40]_1^2=1023/40\).

  4. Consolidaçãobásico \(\displaystyle \displaystyle \int _1^2 \displaystyle \displaystyle \int _2^4 \displaystyle \displaystyle \int _0^3 1 \, dx\, dy\, dz\)

    Solução
    O volume do paralelepípedo é \(3\cdot 2\cdot 1=6\).

    Consolidaçãobásico \(\displaystyle \displaystyle \int _0^1 \displaystyle \displaystyle \int _0^{1-x} \displaystyle \displaystyle \int _0^{1-x-y} 1 \, dz\, dy\, dx\)

    Solução
    Integrando em \(z\) e \(y\), obtemos \(\int _0^1(1-x)^2/2\, dx=1/6\).

  5. Justificaçãomédio Seja \(M\) constante. Mostre que \(\displaystyle \int _{{z}_{1}}^{{z}_{2}}\displaystyle \int _{{y}_{1}}^{{y}_{2}} \displaystyle \int _{{x}_{1}}^{{x}_{2}} M\, dx\, dy\, dz = M({z}_{2} - {z}_{1})({y}_{2} - {y}_{1}) ({x}_{2} - {x}_{1})\).

    Solução
    Integrando a constante sucessivamente, obtemos \(M(x_2-x_1)(y_2-y_1)(z_2-z_1)\).

B

  1. Aplicaçãomédio Calcule o volume \(V\) do sólido \(S\) limitado pelos três planos coordenados, acima pelo plano \(x+y+z=2\) e abaixo pelo plano \(z=x+y\).

    Solução
    O sólido satisfaz \(x,y\ge 0\), \(x+y\le 1\) e \(x+y\le z\le 2-x-y\). Logo, \(V=\int _0^1\int _0^{1-x}2(1-x-y)\, dy\, dx=1/3\).

C

  1. Aprofundamentodifícil Suponha \(a\lt b\) e \(f\) contínua em \([a,b]\). Mostre que

    \[ \displaystyle \int _a^b\displaystyle \int _a^z\displaystyle \int _a^y f(x)\, dx\, dy\, dz= \displaystyle \int _a^b\frac{(b-x)^2}{2}f(x)\, dx. \]

    (Sugestão: examine como a mudança da ordem de integração altera os limites da integral tripla.)

    Solução
    Suponha \(f\) contínua em \([a,b]\). A região é \(a\le x\le y\le z\le b\). Fixado \(x\), a área correspondente no plano \(yz\) é \(\int _x^b\int _y^b1\, dz\, dy=(b-x)^2/2\). Trocando a ordem de integração, obtemos a identidade.

5.5 Mudança de Variáveis em Integrais Múltiplas

Uma boa mudança de variáveis simplifica simultaneamente o domínio e o integrando. O jacobiano corrige a área ou o volume de cada célula transformada. Em integrais escalares usamos seu valor absoluto; o sinal ficará relevante mais adiante, nas integrais orientadas de formas.

Diante da dificuldade de algumas integrais múltiplas, é natural perguntar se uma substituição adequada pode simplificá-las. A resposta é afirmativa, embora a mudança de variáveis seja um pouco mais sutil do que no cálculo de uma variável.

Recordemos primeiro um exemplo de uma variável. Considere a integral

\[ \displaystyle \int _1^2 x^3 \sqrt{x^2 - 1}\, dx ~ , \]

Fazemos a substituição

\begin{align*} u & = x^2 - 1 ~ \Rightarrow ~ x^2 = u + 1\\ du & = 2x\, dx\\ \text{o que altera os limites de integração} x & = 1 ~ \Rightarrow ~ u = 0\\ x & = 2 ~ \Rightarrow ~ u = 3 \end{align*}

e obtemos

\begin{align*} \displaystyle \int _1^2 x^3 \sqrt{x^2 - 1}\, dx ~ & =~ \displaystyle \int _1^2 \tfrac {1}{2}x^2 \cdot 2x \sqrt{x^2 - 1}\, dx\\ & =~ \displaystyle \int _0^3 \tfrac {1}{2}(u+1)\sqrt{u}\, du\\ & =~ \tfrac {1}{2} \displaystyle \int _0^3 \left( u^{3/2} + u^{1/2} \right)\, du\\ & =~ \tfrac {14\sqrt{3}}{5} ~ . \end{align*}

Vale a pena reinterpretar essa substituição, pois isso esclarece o que ocorre em várias variáveis. Tomamos \(u=x^2-1\). No intervalo \(\lbrack 1,2\rbrack \), a função \(x\mapsto x^2-1\) é estritamente crescente e leva \(\lbrack 1,2\rbrack \) sobre \(\lbrack 0,3\rbrack \); portanto possui uma inversa nesse último intervalo. Assim, em \(\lbrack 0,3\rbrack \) podemos escrever \(x\) como função de \(u\):

\[ x ~ =~ g(u) ~ =~ \sqrt{u+1} ~ . \]

Substituindo essa expressão de \(x\) em \(f(x)=x^3\sqrt{x^2-1}\), obtemos

\[ f(x) ~ =~ f(g(u)) ~ =~ (u+1)^{3/2} \sqrt{u} ~ , \]

e observamos que

\begin{align*} \frac{dx}{du} ~ =~ g\, ’(u) ~ \Rightarrow ~ dx ~ & =~ g\, ’(u)\, du\\ dx ~ & =~ \tfrac {1}{2} (u+1)^{-1/2}\, du ~ , \end{align*}

Além disso, como

\begin{align*} g(0) = 1 ~ \Rightarrow ~ 0 = g^{-1} (1)\\ g(3) = 2 ~ \Rightarrow ~ 3 = g^{-1} (2)\\ \end{align*}

a substituição realizada acima fornece

\begin{align*} \displaystyle \int _1^2 f(x)\, dx ~ & =~ \displaystyle \int _1^2 x^3 \sqrt{x^2 - 1}\, dx\\ & =~ \displaystyle \int _0^3 \tfrac {1}{2}(u+1)\sqrt{u}\, du ~ ~ ,~ \text{que também pode ser escrita como}\\ & =~ \displaystyle \int _0^3 (u+1)^{3/2} \sqrt{u} \, \cdot \tfrac {1}{2} (u+1)^{-1/2}\, du ~ ~ ,~ \text{isto é,}\\ \displaystyle \int _1^2 f(x)\, dx ~ & =~ \displaystyle \int _{g^{-1}(1)}^{g^{-1}(2)} f(g(u))\, g\, ’(u)\, du ~ . \end{align*}

Em geral, se \(x=g(u)\) é uma função diferenciável e estritamente crescente de um intervalo \(\lbrack c,d\rbrack \) sobre \(\lbrack a,b\rbrack \), com \(g'(u)\ne 0\) em \((c,d)\), \(a=g(c)\) e \(b=g(d)\), então \(c=g^{-1}(a)\), \(d=g^{-1}(b)\) e

\begin{equation} \displaystyle \int _a^b f(x)\, dx ~ =~ \displaystyle \int _{g^{-1}(a)}^{g^{-1}(b)} f(g(u))\, g\, '(u)\, du ~ . \tag{5.12} \end{equation}

Essa é a fórmula de mudança de variável para integrais de funções de uma variável, usada implicitamente na integração por substituição. Ela é um caso particular de uma fórmula mais geral para integrais múltiplas. Enunciaremos as versões para integrais duplas e triplas de funções reais de duas e três variáveis, respectivamente. Suporemos que as mudanças de coordenadas sejam continuamente diferenciáveis e que as regiões e os sólidos tenham fronteiras de medida nula. A demonstração do teorema seguinte está além do escopo deste texto.

Teorema 5.10

Fórmula de Mudança de Variáveis para Integrais Múltiplas
Sejam \(x=x(u,v)\) e \(y=y(u,v)\) funções continuamente diferenciáveis que definem uma mudança de coordenadas de uma região \(R'\) do plano \(uv\) sobre uma região \(R\) do plano \(xy\). Suponha que a aplicação seja injetiva no interior de \(R'\), que as fronteiras tenham área nula e que o determinante

\begin{equation} \label{eqn:jacob2} J(u,v) ~ =~ \begin{vmatrix} \dfrac {\partial x}{\partial u} & \dfrac {\partial x}{\partial v}\vspace{2mm} \\ \dfrac {\partial y}{\partial u} & \dfrac {\partial y}{\partial v} \end{vmatrix} \tag{5.13} \end{equation}

não se anule no interior de \(R'\). Então, para toda função integrável \(f\),

\begin{equation} \label{eqn:changevarint2} \iint \limits _{R} f(x,y)\, dA(x,y) ~ =~ \iint \limits _{R'} f(x(u,v),y(u,v))\, \left\lvert J(u,v)\right\rvert \, dA(u,v) ~ . \tag{5.14} \end{equation}

Usamos as notações \(dA(x,y)\) e \(dA(u,v)\) para os elementos de área nas coordenadas \((x,y)\) e \((u,v)\), respectivamente.

Analogamente, suponha que \(x=x(u,v,w)\), \(y=y(u,v,w)\) e \(z=z(u,v,w)\) definam uma mudança de coordenadas de um sólido \(S'\) no espaço \(uvw\) sobre um sólido \(S\) no espaço \(xyz\), injetiva no interior de \(S'\), com fronteiras de volume nulo e determinante

\begin{equation} \label{eqn:jacob3} J(u,v,w) ~ =~ \begin{vmatrix} \dfrac {\partial x}{\partial u} & \dfrac {\partial x}{\partial v} & \dfrac {\partial x}{\partial w}\vspace{2mm} \\ \dfrac {\partial y}{\partial u} & \dfrac {\partial y}{\partial v} & \dfrac {\partial y}{\partial w}\vspace{2mm} \\ \dfrac {\partial z}{\partial u} & \dfrac {\partial z}{\partial v} & \dfrac {\partial z}{\partial w} \end{vmatrix} \tag{5.15} \end{equation}

não nulo no interior de \(S'\). Então, para toda função integrável \(f\),

\begin{equation} \label{eqn:changevarint3} \begin{aligned} \iiint _S f(x,y,z)\, \mathop{}\! \mathrm{d}V & =\iiint _{S'} f(T(u,v,w))\, |J(u,v,w)|\, \mathop{}\! \mathrm{d}u\, \mathop{}\! \mathrm{d}v\, \mathop{}\! \mathrm{d}w,\\ T(u,v,w)& =(x(u,v,w),y(u,v,w),z(u,v,w)). \end{aligned} \tag{5.16} \end{equation}

O determinante \(J(u,v)\) em (5.13) é o jacobiano de \(x\) e \(y\) em relação a \(u\) e \(v\), e também é escrito como

\begin{equation} J(u,v) ~ =~ \frac{\partial (x,y)}{\partial (u,v)} ~ . \tag{5.17} \end{equation}

Analogamente, o jacobiano \(J(u,v,w)\) de três variáveis pode ser escrito como

\begin{equation} J(u,v,w) ~ =~ \frac{\partial (x,y,z)}{\partial (u,v,w)} ~ . \tag{5.18} \end{equation}

A fórmula (5.14) afirma, em particular, que \(dA(x,y)=\left\lvert J(u,v)\right\rvert \, dA(u,v)\), a versão bidimensional da relação \(dx=g'(u)\, du\) do caso de uma variável.

O exemplo seguinte mostra como usar a fórmula de mudança de variáveis.

Exemplo 5.17
Calcule \(\displaystyle \iint \limits _R e^{\frac{x-y}{x+y}}\, dA\), onde \(R=\lbrace (x,y):x\ge 0,\ y\ge 0,\ x+y\le 1\rbrace \).
Solução

Sem uma substituição, esta integral dupla é difícil de calcular em forma fechada. A forma do expoente sugere \(u=x-y\) e \(v=x+y\). Para aplicar (5.14), precisamos escrever \(x\) e \(y\) em termos de \(u\) e \(v\). Resolvendo o sistema, obtemos \(x=\frac12(u+v)\) e \(y=\frac12(v-u)\). A Figura 5.5 mostra como a aplicação \(x=x(u,v)=\frac12(u+v)\), \(y=y(u,v)=\frac12(v-u)\) leva a região \(R'\) sobre \(R\) de modo injetivo.

Figura 5.5 As regiões R e R'
Figura 5.5  As regiões \(R\) e \(R'\)

Agora,

\[ J(u,v) ~ =~ \begin{vmatrix} \dfrac {\partial x}{\partial u} & \dfrac {\partial x}{\partial v}\vspace{2mm} \\ \dfrac {\partial y}{\partial u} & \dfrac {\partial y}{\partial v} \end{vmatrix} ~ =~ \left| \begin{array}{rr} \tfrac {1}{2} & \tfrac {1}{2}\vspace{2mm}\\ -\tfrac {1}{2} & \tfrac {1}{2} \end{array}\right| ~ =~ \frac{1}{2} ~ \Rightarrow ~ \left\lvert J(u,v)\right\rvert ~ =~ \left| \frac{1}{2} \right| ~ =~ \frac{1}{2} ~ , \]

e, usando seções horizontais em \(R'\), obtemos

\begin{align*} \iint \limits _{R} e^{\frac{x-y}{x+y}} \, dA ~ & =~ \iint \limits _{R'} f(x(u,v),y(u,v))\, \left\lvert J(u,v)\right\rvert \, dA\\ & =~ \displaystyle \int _0^1 \displaystyle \int _{-v}^v e^{\frac{u}{v}} \, \tfrac {1}{2}\, du\, dv\\ & =~ \displaystyle \int _0^1 \left( \tfrac {v}{2} e^{\frac{u}{v}} \, \Big|_{u=-v}^{u=v} \right) \, dv\\ & =~ \displaystyle \int _0^1 \tfrac {v}{2} (e - e^{-1})\, dv\\ & =~ \frac{v^2}{4} (e - e^{-1}) \, \Big|_{0}^{1} ~ =~ \frac{1}{4} \left( e - \frac{1}{e} \right) ~ =~ \frac{e^2 - 1}{4e} \end{align*}
A fórmula de mudança de variáveis também permite calcular integrais duplas em coordenadas polares. Tomando

\[ x ~ =~ x(r,\theta ) ~ =~ r\cos \theta \quad \text{e} \quad y ~ =~ y(r,\theta ) ~ =~ r\sin \theta ~ , \]

temos

\[ J(r,\theta ) ~ =~ \begin{vmatrix} \dfrac {\partial x}{\partial r} & \dfrac {\partial x}{\partial \theta }\vspace{2mm} \\ \dfrac {\partial y}{\partial r} & \dfrac {\partial y}{\partial \theta } \end{vmatrix} ~ =~ \left| \begin{array}{rr} \cos \theta & -r\sin \theta \vspace{2mm}\\ \sin \theta & r\cos \theta \end{array}\right| =r(\cos ^2\theta +\sin ^2\theta )=r, \]

e, portanto, obtemos a fórmula:

Integral Dupla em Coordenadas Polares

\begin{equation} \label{eqn:polarint} \iint \limits _{R} f(x,y)\, dx\, dy ~ =~ \iint \limits _{R'} f(r\cos \theta ,r\sin \theta )\, r\, dr\, d\theta ~ , \tag{5.19} \end{equation}

onde \(r\ge 0\), \(\theta \) varia em um intervalo de comprimento \(2\pi \), e a aplicação \(x=r\cos \theta \), \(y=r\sin \theta \) é injetiva no interior de \(R'\); a origem e a semirreta escolhida como corte angular são conjuntos de área nula.

Exemplo 5.18

Calcule o volume \(V\) no interior do paraboloide \(z=x^2+y^2\) para \(0\le z\le 1\).

Ilustração: Mudança de Variáveis em Integrais Múltiplas

Solução: Usando seções verticais, temos

\[ V ~ =~ \iint \limits _{R} (1 - z)\, dA ~ =~ \iint \limits _{R} (1 - (x^2 + y^2 ))\, dA ~ , \]

onde \(R=\lbrace (x,y):x^2+y^2\le 1\rbrace \) é o disco unitário em \(\mathbb {R}^2\) (veja a figura ao lado). Em coordenadas polares \((r,\theta )\), \(x^2+y^2=r^2\) e o disco unitário corresponde a \(R'=\lbrace (r,\theta ):0\le r\le 1,\ 0\le \theta \le 2\pi \rbrace \). Logo,

\begin{align*} V ~ & =~ \displaystyle \int _0^{2\pi } \displaystyle \int _0^1 (1 - r^2 )\, r\, dr\, d\theta \\ & =~ \displaystyle \int _0^{2\pi } \displaystyle \int _0^1 (r - r^3 )\, dr\, d\theta \\ & =~ \displaystyle \int _0^{2\pi } \left( \tfrac {r^2}{2} - \tfrac {r^4}{4} \, \Big|_{r=0}^{r=1} \right) \, d\theta \\ & =~ \displaystyle \int _0^{2\pi } \tfrac {1}{4} \, d\theta \\ & =~ \frac{\pi }{2} \end{align*}
Exemplo 5.19

Calcule o volume \(V\) no interior do cone \(z=\sqrt{x^2+y^2}\) para \(0\le z\le 1\).

Ilustração: Mudança de Variáveis em Integrais Múltiplas

Solução: Usando seções verticais, temos

\[ V ~ =~ \iint \limits _{R} (1 - z)\, dA ~ =~ \iint \limits _{R} \left( 1 - \sqrt{x^2 + y^2} \right) \, dA ~ , \]

onde \(R=\lbrace (x,y):x^2+y^2\le 1\rbrace \) é o disco unitário em \(\mathbb {R}^2\). Em coordenadas polares \((r,\theta )\), temos \(\sqrt{x^2+y^2}=r\), e o disco unitário corresponde a \(R'=\lbrace (r,\theta ):0\le r\le 1,\ 0\le \theta \le 2\pi \rbrace \). Logo,

\begin{align*} V ~ & =~ \displaystyle \int _0^{2\pi } \displaystyle \int _0^1 (1 - r)\, r\, dr\, d\theta \\ & =~ \displaystyle \int _0^{2\pi } \displaystyle \int _0^1 (r - r^2 )\, dr\, d\theta \\ & =~ \displaystyle \int _0^{2\pi } \left( \tfrac {r^2}{2} - \tfrac {r^3}{3} \, \Big|_{r=0}^{r=1} \right) \, d\theta \\ & =~ \displaystyle \int _0^{2\pi } \tfrac {1}{6} \, d\theta \\ & =~ \frac{\pi }{3} \end{align*}

De modo semelhante, pode-se mostrar, veja os Exercícios 5–6, que integrais triplas em coordenadas cilíndricas e esféricas assumem as formas seguintes:

Integral Tripla em Coordenadas Cilíndricas

\begin{equation} \label{eqn:cylinderint} \iiint \limits _{S} f(x,y,z)\, dx\, dy\, dz ~ =~ \iiint \limits _{S'} f(r\cos \theta ,r\sin \theta ,z)\, r\, dr\, d\theta \, dz ~ , \tag{5.20} \end{equation}

onde \(r\ge 0\), \(\theta \) varia em um intervalo de comprimento \(2\pi \), e a aplicação \((r,\theta ,z)\mapsto (r\cos \theta ,r\sin \theta ,z)\) é injetiva no interior de \(S'\), salvo no eixo e na semirreta de corte angular, conjuntos de volume nulo.

Integral Tripla em Coordenadas Esféricas

\begin{equation} \label{eqn:sphereint} \begin{aligned} \iiint _S f(x,y,z)\, \mathop{}\! \mathrm{d}V & =\iiint _{S'} f(T(\rho ,\theta ,\phi ))\, \rho ^2\sin \phi \, \mathop{}\! \mathrm{d}\rho \, \mathop{}\! \mathrm{d}\phi \, \mathop{}\! \mathrm{d}\theta ,\\ T(\rho ,\theta ,\phi ) & =(\rho \sin \phi \cos \theta ,\rho \sin \phi \sin \theta ,\rho \cos \phi ). \end{aligned} \tag{5.21} \end{equation}

onde \(\rho \ge 0\), \(0\le \phi \le \pi \), \(\theta \) varia em um intervalo de comprimento \(2\pi \), e a aplicação \(x=\rho \sin \phi \cos \theta \), \(y=\rho \sin \phi \sin \theta \), \(z=\rho \cos \phi \) é injetiva no interior das regiões de coordenadas; a origem, o eixo e a semirreta de corte angular têm volume nulo.

Exemplo 5.20

Para \(a\gt 0\), calcule o volume \(V\) da esfera \(x^2+y^2+z^2\le a^2\).

Solução: Em coordenadas esféricas, o interior da esfera corresponde a \(0\le \rho \le a\), e portanto

\begin{align*} V ~ & =~ \iiint \limits _{S} 1\, dV ~ =~ \displaystyle \int _0^{2\pi } \displaystyle \int _0^{\pi } \displaystyle \int _0^a 1 \, \rho ^2 \, \sin \phi \, d\rho \, d\phi \, d\theta \\ & =~ \displaystyle \int _0^{2\pi } \displaystyle \int _0^{\pi } \left( \frac{\rho ^3}{3}\, \Big|_{\rho =0}^{\rho =a}\right)\, \sin \phi \, d\phi \, d\theta ~ =~ \displaystyle \int _0^{2\pi } \displaystyle \int _0^{\pi } \frac{a^3}{3}\, \sin \phi \, d\phi \, d\theta \\ & =~ \displaystyle \int _0^{2\pi } \left( -\frac{a^3}{3}\, \cos \phi \, \Big|_{\phi =0}^{\phi =\pi } \right) \, d\theta ~ =~ \displaystyle \int _0^{2\pi } \frac{2a^3}{3}\, d\theta ~ =~ \frac{4\pi a^3}{3} ~ . \end{align*}
Exemplo 5.21 (Lâmina elíptica não homogênea (difícil))
Uma lâmina ocupa \(x^2/a^2+y^2/b^2\le 1\), com \(a,b\gt 0\), e tem densidade \(\rho (x,y)=\rho _0(1+x^2/a^2+y^2/b^2)\), \(\rho _0\gt 0\). Determine sua massa e seu momento de inércia \(I_z=\iint (x^2+y^2)\rho \, dA\) em torno do eixo normal pelo centro.
Solução
A geometria sugere \(x=ar\cos \theta \), \(y=br\sin \theta \), com \(0\le r\le 1\), \(0\le \theta \le 2\pi \). O jacobiano em módulo é \(abr\); a aplicação é injetiva no interior após escolher \(0\lt \theta \lt 2\pi \), e as exceções na origem e na borda têm área zero. Assim,
\[ M=\rho _0ab\int _0^{2\pi }\int _0^1(1+r^2)r\, \mathop{}\! \mathrm{d}r\, \mathop{}\! \mathrm{d}\theta =\frac{3\pi \rho _0ab}{2}. \]
Para o momento, \(x^2+y^2=r^2(a^2\cos ^2\theta +b^2\sin ^2\theta )\), logo
\[ I_z=\rho _0ab \left(\int _0^1(r^3+r^5)\, \mathop{}\! \mathrm{d}r\right) \left(\int _0^{2\pi }(a^2\cos ^2\theta +b^2\sin ^2\theta )\, \mathop{}\! \mathrm{d}\theta \right) =\frac{5\pi \rho _0ab(a^2+b^2)}{12}. \]
A razão \(I_z/M=5(a^2+b^2)/18\) tem dimensão de comprimento ao quadrado. A densidade maior perto da borda aumenta a importância das massas afastadas do eixo.

Exercícios

A

  1. Aplicaçãobásico Calcule o volume \(V\) no interior do paraboloide \(z=x^2+y^2\) para \(0\le z\le 4\).

    Solução
    Em coordenadas cilíndricas, \(0\le r\le 2\) e \(r^2\le z\le 4\). Assim, \(V=2\pi \int _0^2(4-r^2)r\, dr=8\pi \).

  2. Aplicaçãobásico Calcule o volume \(V\) no interior do cone \(z=\sqrt{x^2+y^2}\) para \(0\le z\le 3\).

    Solução
    O sólido fica entre \(z=r\) e \(z=3\), com \(0\le r\le 3\); \(V=2\pi \int _0^3(3-r)r\, dr=9\pi \).

B

  1. Aplicaçãomédio Calcule o volume \(V\) do sólido contido simultaneamente em \(x^2+y^2+z^2\le 4\) e \(x^2+y^2\le 1\).

    Solução
    Em coordenadas cilíndricas, \(0\le r\le 1\), \(0\le \theta \le 2\pi \) e \(-\sqrt{4-r^2}\le z\le \sqrt{4-r^2}\). Logo, \(V=4\pi \int _0^1r\sqrt{4-r^2}\, dr=\frac{4\pi }{3}(8-3\sqrt3)\).

  2. Aplicaçãomédio Calcule o volume \(V\) contido simultaneamente na esfera \(x^2+y^2+z^2\le 1\) e no cone \(z\ge \sqrt{x^2+y^2}\).

    Solução
    Em coordenadas esféricas, \(0\le \rho \le 1\), \(0\le \phi \le \pi /4\) e \(0\le \theta \le 2\pi \). Portanto, \(V=2\pi \int _0^{\pi /4}\int _0^1\rho ^2\sin \phi \, d\rho \, d\phi =\frac{\pi }{3}(2-\sqrt2)\).

    Justificaçãomédio Demonstre a fórmula (5.20).

    Solução
    Para \(\Phi (r,\theta ,z)=(r\cos \theta ,r\sin \theta ,z)\), \(D\Phi =\begin{bmatrix} \cos \theta & -r\sin \theta & 0 \\ \sin \theta & r\cos \theta & 0 \\ 0 & 0 & 1 \end{bmatrix}\), de modo que \(|\det D\Phi |=r\). Aplicando a mudança de variáveis, obtemos (5.20); o eixo e a semirreta de corte angular têm volume zero.

    Justificaçãomédio Demonstre a fórmula (5.21).

    Solução
    Para \(\Phi (\rho ,\phi ,\theta )=(\rho \sin \phi \cos \theta ,\rho \sin \phi \sin \theta ,\rho \cos \phi )\), seu jacobiano é \(\det D\Phi =\rho ^2\sin \phi \), logo \(|\det D\Phi |=\rho ^2\sin \phi \). A fórmula segue da mudança de variáveis; a origem, o eixo e a semirreta angular são de volume zero.

  3. Consolidaçãomédio Calcule \(\iint \limits _R\sin \left(\frac{x+y}{2}\right)\cos \left(\frac{x-y}{2}\right)\, dA\), onde \(R\) é o triângulo de vértices \((0,0)\), \((2,0)\) e \((1,1)\). (Sugestão: use a mudança de variáveis \(u=(x+y)/2\), \(v=(x-y)/2\).)

    Solução
    A inversa é \(x=u+v\), \(y=u-v\), com jacobiano de módulo \(2\); a região vira \(0\le u\le 1\), \(0\le v\le u\). A integral vale \(2\int _0^1\sin u\int _0^u\cos v\, dv\, du=2\int _0^1\sin ^2u\, du=1-\frac12\sin 2\).

  4. Aplicaçãomédio Calcule o volume do sólido limitado por \(z=x^2+y^2\) e \(z^2=4(x^2+y^2)\).

    Solução
    A componente limitada fica entre \(z=r^2\) e o cone superior \(z=2r\), para \(0\le r\le 2\). Logo, \(V=2\pi \int _0^2(2r-r^2)r\, dr=8\pi /3\).

  5. Aplicaçãomédio Calcule o volume no interior do cilindro elíptico \(\frac{x^2}{a^2}+\frac{y^2}{b^2}=1\), para \(0\le z\le 2\).

    Solução
    A base tem área \(\pi ab\) e altura \(2\), portanto \(V=2\pi ab\).

C

  1. Justificaçãodifícil Mostre que, para \(a,b,c\gt 0\), o volume do elipsoide \(\frac{x^2}{a^2}+\frac{y^2}{b^2}+\frac{z^2}{c^2}=1\) é \(\tfrac {4\pi abc}{3}\). (Sugestão: use \(x=au\), \(y=bv\), \(z=cw\) e o Exemplo 5.20.)

    Solução
    A aplicação \((u,v,w)\mapsto (au,bv,cw)\) tem jacobiano \(abc\) e leva a esfera unitária ao elipsoide. Assim, \(V=abc\cdot (4\pi /3)=4\pi abc/3\).

  2. Aprofundamentodifícil Mostre que a função Beta, definida por

    \[ B(x,y) ~ =~ \displaystyle \int _0^1 t^{x-1} (1-t)^{y-1} \, dt ~ ,\quad \text{para $x > 0$, $y > 0$,} \]

    satisfaz \(B(y,x)=B(x,y)\) para \(x\gt 0\), \(y\gt 0\).

    Solução
    Na integral que define \(B(y,x)\), faça \(s=1-t\); os fatores trocam de posição e obtemos \(B(x,y)\).

  3. Aprofundamentodifícil Usando a substituição \(t=u/(u+1)\), mostre que a função Beta pode ser escrita como

    \[ B(x,y) ~ =~ \displaystyle \int _0^{\infty } \frac{u^{x-1}}{(u+1)^{x+y}}\, du ~ ,\quad \text{para $x > 0$, $y > 0$.} \]

    Solução
    Temos \(1-t=1/(u+1)\) e \(dt=du/(u+1)^2\). Substituindo, \(t^{x-1}(1-t)^{y-1}dt=u^{x-1}(u+1)^{-x-y}\, du\); os limites passam de \(0,1\) a \(0,\infty \).

5.6 Aplicação: Centro de Massa

O centro de massa é uma média das posições ponderada pela massa. A integral da densidade fornece o denominador; a integral da coordenada multiplicada pela densidade fornece o numerador. Simetrias só podem simplificar o cálculo quando preservam tanto o domínio quanto a densidade.

Ilustração: Aplicação: Centro de Massa

Recordemos do cálculo de uma variável que, para uma região \(R=\lbrace (x,y):a\le x\le b,\ 0\le y\le f(x)\rbrace \subseteq \mathbb {R}^2\) representando uma lâmina fina (veja a figura ao lado), com \(f\) contínua em \(\left[{a},{b}\right]\), supondo que \(R\) tenha área positiva, as coordenadas \((\overline{x},\overline{y})\) do centro de massa de \(R\) são

\[ \overline{x} = \frac{M_y}{M} \quad \text{e} \quad \overline{y} = \frac{M_x}{M} ~ , \]

onde

\begin{equation} \label{eqn:moment1} M_x = \displaystyle \int _a^b \frac{(f(x))^2}{2}\, dx ~ , \quad M_y = \displaystyle \int _a^b x f(x)\, dx ~ , \quad M = \displaystyle \int _a^b f(x)\, dx ~ , \tag{5.22} \end{equation}

supondo que \(R\) tenha densidade uniforme, isto é, que sua massa esteja distribuída uniformemente. Nesse caso, a área \(M\) da região é tomada como sua massa, com densidade constante igual a \(1\) para simplificar.

No caso geral, a densidade de uma região, ou lâmina, \(R\) é uma função contínua \(\delta =\delta (x,y)\) das coordenadas \((x,y)\) dos pontos de \(R\). Para uma região limitada regular \(R\subseteq \mathbb {R}^2\) e densidade contínua não negativa com massa total positiva, as coordenadas \((\overline{x},\overline{y})\) do centro de massa são dadas por

\begin{equation} \label{eqn:center2} \overline{x} = \frac{M_y}{M} \quad \text{e} \quad \overline{y} = \frac{M_x}{M} ~ , \tag{5.23} \end{equation}

onde

\begin{equation} \label{eqn:moment2} M_y = \iint \limits _{R} x\delta (x,y)\, dA ~ , \quad M_x = \iint \limits _{R} y\delta (x,y)\, dA ~ , \quad M = \iint \limits _{R} \delta (x,y)\, dA ~ , \tag{5.24} \end{equation}

As quantidades \(M_x\) e \(M_y\) são os momentos, ou primeiros momentos, de \(R\) em relação aos eixos \(x\) e \(y\), respectivamente. A quantidade \(M\) é a massa de \(R\). Para compreender a fórmula, considere um pequeno retângulo em \(R\), de dimensões \(\Delta x\) e \(\Delta y\) próximas de \(0\). Sua massa é aproximadamente \(\delta (x_*,y_*)\Delta x\, \Delta y\), para algum ponto \((x_*,y_*)\) do retângulo. A massa total de \(R\) é o limite das somas dessas massas quando as diagonais dos retângulos tendem a \(0\), isto é, \(\iint \limits _R\delta (x,y)\, dA\).

As fórmulas em (5.22) são o caso particular de (5.24) em que \(\delta (x,y)=1\) em toda a região \(R\).

Exemplo 5.22
Determine o centro de massa da região \(R=\lbrace (x,y):0\le x\le 1,\ 0\le y\le 2x^2\rbrace \) se a densidade no ponto \((x,y)\) é \(\delta (x,y)=x+y\).

Ilustração: Aplicação: Centro de Massa

Solução
A região \(R\) está representada na figura ao lado. Temos
\begin{align*} M ~ & =~ \iint \limits _{R} \delta (x,y)\, dA\\ & =~ \displaystyle \int _0^1 \displaystyle \int _0^{2x^2} (x+y)\, dy\, dx\\ & =~ \displaystyle \int _0^1 \left( xy + \frac{y^2}{2} \, \Bigg|_{y=0}^{y=2x^2} \right) \, dx\\ & =~ \displaystyle \int _0^1 ( 2x^3 + 2x^4 ) \, dx\\ & =~ \frac{x^4}{2} + \frac{2x^5}{5} \, \Bigg|_0^1 ~ =~ \frac{9}{10} \end{align*}
e
\begin{alignat*}{2} M_x ~ & =~ \iint \limits _{R} y\delta (x,y)\, dA & M_y ~ & =~ \iint \limits _{R} x\delta (x,y)\, dA\\ & =~ \displaystyle \int _0^1 \displaystyle \int _0^{2x^2} y(x+y)\, dy\, dx \qquad \qquad \qquad & \phantom{M_y} & =~ \displaystyle \int _0^1 \displaystyle \int _0^{2x^2} x(x+y)\, dy\, dx\\ & =~ \displaystyle \int _0^1 \left( \frac{xy^2}{2} + \frac{y^3}{3} \, \Bigg|_{y=0}^{y=2x^2} \right) \, dx & \phantom{M_y} & =~ \displaystyle \int _0^1 \left( x^2 y + \frac{xy^2}{2} \, \Bigg|_{y=0}^{y=2x^2} \right) \, dx\\ & =~ \displaystyle \int _0^1 ( 2x^5 + \frac{8x^6}{3} ) \, dx & \phantom{M_y} & =~ \displaystyle \int _0^1 ( 2x^4 + 2x^5 ) \, dx\\ & =~ \frac{x^6}{3} + \frac{8x^7}{21} \, \Bigg|_0^1 ~ =~ \frac{5}{7} & \phantom{M_y} & =~ \frac{2x^5}{5} + \frac{x^6}{3} \, \Bigg|_0^1 ~ =~ \frac{11}{15} ~ , \end{alignat*}
portanto o centro de massa \((\overline{x},\overline{y})\) é
\[ \overline{x} ~ =~ \frac{M_y}{M} ~ =~ \frac{11/15}{9/10} ~ =~ \frac{22}{27} ~ , \quad \overline{y} ~ =~ \frac{M_x}{M} ~ =~ \frac{5/7}{9/10} ~ =~ \frac{50}{63} ~ . \]
Observe que esse centro de massa está um pouco mais deslocado em direção ao canto superior de \(R\) do que no caso de densidade uniforme. De fato, (5.22) fornece \((\overline{x},\overline{y})=(\frac34,\frac35)\) nesse caso. Isso é coerente com o fato de que \(\delta (x,y)=x+y\) cresce à medida que \((x,y)\) se aproxima daquele canto.

Se \(\delta (x,y)\) é constante em \(R\), o centro de massa \((\overline{x},\overline{y})\) é chamado de centroide de \(R\).

As fórmulas do centro de massa em \(\mathbb {R}^2\) generalizam-se para um sólido limitado regular \(S\subseteq \mathbb {R}^3\). Se \(S\) possui densidade de massa contínua não negativa \(\delta (x,y,z)\) e massa total positiva, então seu centro de massa tem coordenadas \((\overline{x},\overline{y},\overline{z})\), onde

\begin{equation} \label{eqn:center3} \overline{x} ~ =~ \frac{M_{yz}}{M} ~ ,\quad \overline{y} ~ =~ \frac{M_{xz}}{M} ~ ,\quad \overline{z} ~ =~ \frac{M_{xy}}{M} ~ , \tag{5.25} \end{equation}

onde

\begin{gather} \label{eqn:moment3} M_{yz}=\iiint _S x\delta \, \mathop{}\! \mathrm{d}V,\qquad M_{xz}=\iiint _S y\delta \, \mathop{}\! \mathrm{d}V, \tag{5.26}\\ M_{xy}=\iiint _S z\delta \, \mathop{}\! \mathrm{d}V,\qquad M=\iiint _S\delta \, \mathop{}\! \mathrm{d}V. \tag{5.27} \end{gather}

Nesse caso, \(M_{yz}\), \(M_{xz}\) e \(M_{xy}\) são os momentos, ou primeiros momentos, de \(S\) em relação aos planos \(yz\), \(xz\) e \(xy\), respectivamente. Além disso, \(M\) é a massa de \(S\).

Exemplo 5.23
Determine o centro de massa do sólido \(S=\lbrace (x,y,z):z\ge 0,\ x^2+y^2+z^2\le a^2\rbrace \) se a densidade é \(\delta (x,y,z)=1\).

Ilustração: Aplicação: Centro de Massa

Solução

O sólido \(S\) é o hemisfério superior da esfera de raio \(a\) centrada na origem. Como a densidade é constante e \(S\) é simétrico em torno do eixo \(z\), temos \(\overline{x}=\overline{y}=0\); resta calcular \(\overline{z}\). Temos

\[ M ~ =~ \iiint \limits _{S} \delta (x,y,z)\, dV = \iiint \limits _{S} 1\, dV = \operatorname {Vol}(S). \]

Como o volume de \(S\) é metade do volume da esfera de raio \(a\), que pelo Exemplo 5.20 vale \(\frac{4\pi a^3}{3}\), temos \(M=\frac{2\pi a^3}{3}\). Além disso,

\begin{align*} M_{xy} ~ & =~ \iiint \limits _{S} z\delta (x,y,z)\, dV\\ & =~ \iiint \limits _{S} z\, dV ~ ~ ,~ \text{que, em coordenadas esféricas, é}\\ & =~ \displaystyle \int _0^{2\pi } \displaystyle \int _0^{\pi /2} \displaystyle \int _0^a (\rho \, \cos \phi )\, \rho ^2 \, \sin \phi \, d\rho \, d\phi \, d\theta \\[8pt]& =~ \displaystyle \int _0^{2\pi } \displaystyle \int _0^{\pi /2} \, \sin \phi \, \cos \phi \left( \displaystyle \int _0^a \rho ^3 \, d\rho \right) \, d\phi \, d\theta \\[8pt]& =~ \displaystyle \int _0^{2\pi } \displaystyle \int _0^{\pi /2} \tfrac {a^4}{4}\, \sin \phi \, \cos \phi \, d\phi \, d\theta \\[8pt] M_{xy} ~ & =~ \displaystyle \int _0^{2\pi } \displaystyle \int _0^{\pi /2} \tfrac {a^4}{8}\, \sin 2\phi \, d\phi \, d\theta ~ ~ ~ \text{(pois $\sin 2\phi = 2\sin \phi \, \cos \phi $)}\\[8pt]& =~ \displaystyle \int _0^{2\pi } \left( -\tfrac {a^4}{16}\, \cos 2\phi \, \Big|_{\phi =0}^{\phi =\pi /2} \right) \, d\theta \\[8pt]& =~ \displaystyle \int _0^{2\pi } \tfrac {a^4}{8}\, d\theta \\ & =~ \frac{\pi a^4}{4}~ , \end{align*}
\[ \overline{z} ~ =~ \frac{M_{xy}}{M} ~ =~ \frac{\tfrac {\pi a^4}{4}}{\tfrac {2\pi a^3}{3}} ~ =~ \frac{3a}{8} ~ . \]

Assim, o centro de massa de \(S\) é \((\overline{x},\overline{y},\overline{z})=\left(0,0,\frac{3a}{8}\right)\).

Exemplo 5.24 (Centro de massa com densidade assimétrica (médio))
Em coordenadas normalizadas, uma lâmina triangular ocupa \(D=\{ x\ge 0,y\ge 0,x+y\le 1\} \) e tem densidade \(\rho =k(x+2y)\), com \(k\gt 0\). Determine seu centro de massa.
Solução
Usamos \(0\le x\le 1\) e \(0\le y\le 1-x\). As integrais são
\begin{align*} M& =k\int _0^1\int _0^{1-x}(x+2y)\, \mathop{}\! \mathrm{d}y\, \mathop{}\! \mathrm{d}x=\frac{k}{2},\\ M_y& =k\int _0^1\int _0^{1-x}x(x+2y)\, \mathop{}\! \mathrm{d}y\, \mathop{}\! \mathrm{d}x=\frac{k}{6},\\ M_x& =k\int _0^1\int _0^{1-x}y(x+2y)\, \mathop{}\! \mathrm{d}y\, \mathop{}\! \mathrm{d}x=\frac{5k}{24}. \end{align*}
Portanto, \((\bar x,\bar y)=(1/3,5/12)\). O ponto satisfaz \(\bar x,\bar y\gt 0\) e \(\bar x+\bar y\lt 1\), como esperado para uma média ponderada em um triângulo. A maior densidade na direção de \(y\) desloca o centro acima do centroide uniforme \((1/3,1/3)\). O fator \(k\) cancela nas razões.

Exercícios

A

Nos Exercícios 1–5, determine o centro de massa da região \(R\) com a densidade indicada \(\delta (x,y)\).

  1. Aplicaçãobásico \(R = \lbrace (x,y): 0 \le x \le 2,~ 0 \le y \le 4~ \rbrace \), \(\delta (x,y) = 2y\)

    Solução
    Pela simetria, \(\overline{x}=1\). Além disso, \(M=32\) e \(M_x=256/3\), de modo que \(\overline{y}=M_x/M=8/3\).

  2. Aplicaçãobásico \(R = \lbrace (x,y): 0 \le x \le 1,~ 0 \le y \le x^2 \rbrace \), \(\delta (x,y) = x+y\)

    Solução
    A massa e os momentos são \(M=7/20\), \(M_y=17/60\) e \(M_x=11/84\). Portanto, \((\overline{x},\overline{y})=(17/21,55/147)\).

  3. Aplicaçãobásico Para \(a\gt 0\), \(R = \lbrace (x,y): y \ge 0, ~ x^2 + y^2 \le a^2 \rbrace \), \(\delta (x,y) = 1\)

    Solução
    Pela simetria, \(\overline{x}=0\). Em polares, \(M=\pi a^2/2\) e \(M_x=\int _0^\pi \int _0^a(r\sin \theta )r\, dr\, d\theta =2a^3/3\); logo, \(\overline{y}=4a/(3\pi )\).

  4. Aplicaçãobásico \(R = \lbrace (x,y): y \ge 0,~ x \ge 0, ~ 1 \le x^2 + y^2 \le 4~ \rbrace \), \(\delta (x,y) = \sqrt{x^2 + y^2}\)

    Solução
    A região e a densidade são simétricas na troca de \(x\) por \(y\), então as coordenadas do centro coincidem. Em polares, \(M=\int _0^{\pi /2}\int _1^2r^2\, dr\, d\theta =7\pi /6\) e \(M_y=\int _0^{\pi /2}\int _1^2r^3\cos \theta \, dr\, d\theta =15/4\). Assim, \((\overline{x},\overline{y})=(45/(14\pi ),45/(14\pi ))\).

  5. Aplicaçãobásico \(R = \lbrace (x,y): y \ge 0, ~ x^2 + y^2 \le 1~ \rbrace \), \(\delta (x,y) = y\)

    Solução
    Pela simetria, \(\overline{x}=0\). Em polares, \(M=\int _0^\pi \int _0^1r^2\sin \theta \, dr\, d\theta =2/3\) e \(M_x=\int _0^\pi \int _0^1r^3\sin ^2\theta \, dr\, d\theta =\pi /8\). Portanto, \(\overline{y}=3\pi /16\).

B

Nos Exercícios 6–10, determine o centro de massa do sólido \(S\) com a densidade indicada \(\delta (x,y,z)\).

  1. Aplicaçãomédio \(S = \lbrace (x,y,z): 0 \le x \le 1,~ 0 \le y \le 1,~ 0 \le z \le 1~ \rbrace \), \(\delta (x,y,z) = xyz\)

    Solução
    \(M=1/8\) e cada momento coordenado, por simetria, é \(\int _0^1x^2\, dx(\int _0^1y\, dy)^2=1/12\). Logo, \(\overline{x}=\overline{y}=\overline{z}=2/3\).

  2. Aplicaçãomédio Para \(a\gt 0\), \(S = \lbrace (x,y,z): z \ge 0,~ x^2 + y^2 + z^2 \le a^2 \rbrace \), \(\delta (x,y,z) = x^2 + y^2 + z^2\)

    Solução
    A simetria dá \(\overline{x}=\overline{y}=0\). Em esféricas, \(M=2\pi a^5/5\) e \(M_{xy}=\int _0^{2\pi }\int _0^{\pi /2}\int _0^a\rho ^5\sin \phi \cos \phi \, d\rho \, d\phi \, d\theta =\pi a^6/6\). Portanto, \(\overline{z}=5a/12\).

  3. Aplicaçãomédio Para \(a\gt 0\), \(S = \lbrace (x,y,z): x \ge 0,~ y \ge 0,~ z \ge 0, ~ x^2 + y^2 + z^2 \le a^2 \rbrace \), \(\delta (x,y,z) = 1\)

    Solução
    Pela simetria, basta calcular \(\overline{x}\). O volume é \(\pi a^3/6\); em esféricas, \(M_{yz}=\int _0^{\pi /2}\int _0^{\pi /2}\int _0^a\rho ^3\sin ^2\phi \cos \theta \, d\rho \, d\phi \, d\theta =\pi a^4/16\). Logo, o centro é \((3a/8,3a/8,3a/8)\).

  4. Aplicaçãomédio \(S = \lbrace (x,y,z): 0 \le x \le 1,~ 0 \le y \le 1,~ 0 \le z \le 1~ \rbrace \), \(\delta (x,y,z) = x^2 + y^2 + z^2\)

    Solução
    Pela simetria, as três coordenadas são iguais. A massa é \(M=1\). Um momento é \(\int _{[0,1]^3}x(x^2+y^2+z^2)\, dV=1/4+1/6+1/6=7/12\). Assim, o centro de massa é \((7/12,7/12,7/12)\).

  5. Aplicaçãomédio \(S = \lbrace (x,y,z): 0 \le x \le 1,~ 0 \le y \le 1,~ 0 \le z \le 1 - x - y \rbrace \), \(\delta (x,y,z) = 1\)

    Solução
    O sólido é o tetraedro \(x,y,z\ge 0\), \(x+y+z\le 1\), simétrico nas coordenadas. Sua massa é \(1/6\) e \(M_{yz}=\int _0^1\int _0^{1-x}x(1-x-y)\, dy\, dx=1/24\). Portanto, o centro é \((1/4,1/4,1/4)\).

5.7 Aplicação: Probabilidade e Valor Esperado

Uma densidade de probabilidade funciona como uma distribuição de massa total igual a \(1\). Integrar sobre uma região fornece a probabilidade do evento; integrar uma coordenada multiplicada pela densidade fornece sua média. Em duas variáveis, o formato do suporte pode produzir dependência mesmo quando a expressão da densidade é simples.

Nesta seção discutiremos brevemente algumas aplicações de integrais múltiplas à teoria da probabilidade. Em particular, veremos como usá-las para calcular probabilidades e valores esperados.

Probabilidade

Considere um dado honesto de seis faces e seja \(X\) a variável que registra o resultado. A probabilidade de obter \(3\), escrita \(P(X=3)\), é \(\frac16\), pois os seis resultados são equiprováveis. Da mesma forma, a probabilidade de obter no máximo \(3\), isto é, \(P(X\le 3)\), vale \(\frac36=\frac12\), pois há três resultados possíveis, \(1\), \(2\) e \(3\), entre os seis. Observe que \(P(X\le 3)=P(X=1)+P(X=2)+P(X=3)\). Dizemos que \(X\) é uma variável aleatória discreta no espaço amostral, ou espaço de probabilidade, \(\Omega \) formado por todos os resultados possíveis: \(\Omega =\lbrace 1,2,3,4,5,6\rbrace \). Um evento \(A\) é um subconjunto do espaço amostral. No exemplo do dado, o evento \(X\le 3\) é \(\lbrace 1,2,3\rbrace \).

Agora seja \(X\) uma variável que representa um número real escolhido ao acaso em \((0,1)\). O conjunto dos reais entre \(0\) e \(1\) não é discreto, nem enumerável: não pode ser colocado em correspondência biunívoca com os inteiros positivos. 4 Nesse caso, para cada \(x\in (0,1)\), a probabilidade \(P(X=x)\) deve ser \(0\). Em vez disso, consideramos \(P(X\le x)=x\). A razão é simples: \((0,1)\) tem comprimento \(1\), enquanto \((0,x)\) tem comprimento \(x\). Como \(X\) é escolhido uniformemente em \((0,1)\), isto é, é uniformemente distribuído, temos

\[ P(X \le x) ~ =~ \frac{\text{comprimento de $(0,x)$}}{\text{comprimento de $(0,1)$}} ~ =~ \frac{x}{1} ~ =~ x ~ . \]

Dizemos que \(X\) é uma variável aleatória contínua no espaço amostral \(\Omega =(0,1)\). Um evento \(A\) é um subconjunto do espaço amostral; por exemplo, o evento \(X\le x\) corresponde ao intervalo \((0,x)\).

Para uma variável aleatória discreta, a probabilidade de um evento é a soma das probabilidades dos resultados que o compõem. Para uma variável aleatória contínua, a probabilidade de um evento será, em vez disso, a integral de uma função, como veremos a seguir.

Seja \(X\) uma variável aleatória contínua real que assume valores em \(\Omega =(a,b)\) com probabilidade \(1\). A função de distribuição \(F\) de \(X\) é definida por

\begin{align} \label{eqn:distribfcn} F(x) ~ & =~ P(X \le x)~ , \quad \text{para $-\infty < x < \infty $} \tag{5.28}\\ & =~ \begin{cases} 1, & \text{para $x \ge b$}\\ P(X \le x), & \text{para $a < x < b$}\\ 0, & \text{para $x \le a~ $.} \end{cases} \tag{5.29}\end{align}

Suponha que exista uma função integrável não negativa \(f\) em \(\mathbb {R}\) tal que

\begin{equation} \label{eqn:pdf} F(x) ~ =~ \displaystyle \int _{-\infty }^x f(y)\, dy~ , \quad \text{para $-\infty < x < \infty $} ~ , \tag{5.30} \end{equation}

e

\begin{equation} \label{eqn:pdfint} \displaystyle \int _{-\infty }^{\infty } f(x)\, dx ~ =~ 1 ~ . \tag{5.31} \end{equation}

Chamamos \(f\) de função densidade de probabilidade, ou f.d.p., de \(X\). Assim,

\begin{equation} \label{eqn:pdfprob} P(X \le x) ~ =~ \displaystyle \int _{a}^x f(y)\, dy~ , \quad \text{para $a < x < b$} ~ . \tag{5.32} \end{equation}

Além disso, pelo Teorema Fundamental do Cálculo, nos pontos em que \(f\) é contínua,

\begin{equation} \label{eqn:pdfderiv} F\, '(x) ~ =~ f(x)~ . \tag{5.33} \end{equation}

Exemplo 5.25
Seja \(X\) um número real escolhido uniformemente em \((0,1)\). Dizemos que \(X\) tem distribuição uniforme em \((0,1)\), com função de distribuição

\begin{equation} F(x) ~ =~ P(X \le x) ~ =~ \begin{cases} 1, & \text{para $x \ge 1$}\\ x, & \text{para $0 < x < 1$}\\ 0, & \text{para $x \le 0~ $,} \end{cases} \tag{5.34} \end{equation}

e uma função densidade de probabilidade é

\begin{equation} f(x) ~ =~ \begin{cases} 1, & \text{para $0 < x < 1$}\\ 0, & \text{caso contrário.} \end{cases} \tag{5.35} \end{equation}

Em geral, se \(X\) é escolhido uniformemente em um intervalo \((a,b)\), então sua função de distribuição é

\begin{equation} F(x) ~ =~ P(X \le x) ~ =~ \begin{cases} 1, & \text{para $x \ge b$}\\ \frac{x-a}{b-a}, & \text{para $a < x < b$}\\ 0, & \text{para $x \le a~ $,} \end{cases} \tag{5.36} \end{equation}

e uma função densidade de probabilidade é

\begin{equation} f(x) ~ =~ \begin{cases} \frac{1}{b-a}, & \text{para $a < x < b$}\\ 0, & \text{caso contrário.} \end{cases} \tag{5.37} \end{equation}

Exemplo 5.26
Uma distribuição fundamental é a distribuição normal padrão, cuja função densidade de probabilidade \(f\) é

\begin{equation} \label{eqn:normalpdf} f(x) ~ =~ \frac{1}{\sqrt{2\pi }} e^{-x^2 /2}~ , \quad \text{para $-\infty < x < \infty $.} \tag{5.38} \end{equation}

Essa densidade produz a conhecida “curva em sino” e é amplamente usada em estatística. Como \(f\) deve ser uma densidade, devemos ter

\begin{equation} \displaystyle \int _{-\infty }^{\infty } \frac{1}{\sqrt{2\pi }} e^{-x^2 /2}\, dx ~ =~ 1 \tag{5.39} \end{equation}

pela fórmula (5.31), o que equivale a

\begin{equation} \displaystyle \int _{-\infty }^{\infty } e^{-x^2 /2}\, dx ~ =~ \sqrt{2\pi } ~ . \tag{5.40} \end{equation}

Podemos verificar essa identidade usando uma integral dupla em coordenadas polares. Primeiro,
\begin{align*} \displaystyle \int _{-\infty }^{\infty } \displaystyle \int _{-\infty }^{\infty } e^{-(x^2 + y^2 )/2}\, dx\, dy ~ & =~ \displaystyle \int _{-\infty }^{\infty } e^{-y^2 /2} \left( \displaystyle \int _{-\infty }^{\infty } e^{-x^2 /2}\, dx \right) \, dy\\[6pt]& =~ \left( \displaystyle \int _{-\infty }^{\infty } e^{-x^2 /2}\, dx \right)\, \left( \displaystyle \int _{-\infty }^{\infty } e^{-y^2 /2}\, dy \right)\\[6pt]& =~ \left( \displaystyle \int _{-\infty }^{\infty } e^{-x^2 /2}\, dx \right)^2 \end{align*}
pois a mesma função é integrada duas vezes, apenas com nomes diferentes para as variáveis. Por outro lado, em coordenadas polares,
\begin{align*} \displaystyle \int _{-\infty }^{\infty } \displaystyle \int _{-\infty }^{\infty } e^{-(x^2 + y^2 )/2}\, dx\, dy ~ & =~ \displaystyle \int _0^{2\pi } \displaystyle \int _0^{\infty } e^{-r^2 /2}\, r\, dr\, d\theta \\[6pt]& =~ \displaystyle \int _0^{2\pi } \left( -e^{-r^2 /2} \, \Bigg|_{r=0}^{r=\infty } \, \right)\, d\theta \\[6pt]& =~ \displaystyle \int _0^{2\pi } (0 - (-e^0))\, d\theta = \displaystyle \int _0^{2\pi } 1\, d\theta ~ =~ 2\pi ~ , \end{align*}
e portanto
\begin{align*} \left( \displaystyle \int _{-\infty }^{\infty } e^{-x^2 /2}\, dx \right)^2 ~ & =~ 2\pi ~ ~ ,~ \text{e portanto}\\[6pt] \displaystyle \int _{-\infty }^{\infty } e^{-x^2 /2}\, dx ~ & =~ \sqrt{2\pi } ~ . \end{align*}
Além de variáveis aleatórias individuais, podemos considerar variáveis conjuntamente distribuídas. Sejam \(X\), \(Y\) e \(Z\) três variáveis aleatórias contínuas reais definidas no mesmo espaço amostral \(\Omega \) (a discussão para duas variáveis é análoga). A função de distribuição conjunta \(F\) de \(X\), \(Y\) e \(Z\) é dada por

\begin{equation} F(x,y,z) ~ =~ P(X \le x,~ Y \le y,~ Z \le z)~ , \quad \text{para $-\infty < x,y,z < \infty $.} \tag{5.41} \end{equation}

Se existe uma função integrável não negativa \(f\) em \(\mathbb {R}^3\) tal que

\begin{equation} \label{eqn:pdf3} F(x,y,z) ~ =~ \displaystyle \int _{-\infty }^z \displaystyle \int _{-\infty }^y \displaystyle \int _{-\infty }^x f(u,v,w)\, du\, dv\, dw~ , \quad \text{para $-\infty < x,y,z < \infty $} \tag{5.42} \end{equation}

e

\begin{equation} \label{eqn:pdfint3} \displaystyle \int _{-\infty }^{\infty } \displaystyle \int _{-\infty }^{\infty } \displaystyle \int _{-\infty }^{\infty } f(x,y,z)\, dx\, dy\, dz ~ =~ 1 ~ , \tag{5.43} \end{equation}

então chamamos \(f\) de função densidade de probabilidade conjunta, ou f.d.p. conjunta, de \(X\), \(Y\) e \(Z\). Em geral, se \({a}_{1}\lt {b}_{1}\), \({a}_{2}\lt {b}_{2}\) e \({a}_{3}\lt {b}_{3}\), temos

\begin{equation} \label{eqn:pdfprob3} P({a}_{1} \lt X \le {b}_{1},~ {a}_{2} \lt Y \le {b}_{2},~ {a}_{3} \lt Z \le {b}_{3}) ~ =~ \displaystyle \int _{{a}_{3}}^{{b}_{3}}\displaystyle \int _{{a}_{2}}^{{b}_{2}}\displaystyle \int _{{a}_{1}}^{{b}_{1}} f(x,y,z)\, dx\, dy\, dz~ , \tag{5.44} \end{equation}

Os símbolos \(\le \) e \(\lt \) podem ser trocados em qualquer combinação. Assim, uma integral tripla pode representar uma probabilidade quando \(f\) é uma densidade.

Exemplo 5.27
Escolha \(a\), \(b\) e \(c\) independentemente e uniformemente em \((0,1)\). Qual é a probabilidade de a equação \(ax^2+bx+c=0\) possuir pelo menos uma raiz real \(x\)?

Ilustração: Aplicação: Probabilidade e Valor Esperado

Solução

Pela fórmula quadrática, existe pelo menos uma raiz real se \(b^2-4ac\ge 0\). Devemos portanto calcular \(P(b^2-4ac\ge 0)\). Usaremos três variáveis aleatórias conjuntamente distribuídas. Como \(0\lt a,b,c\lt 1\),

\[ b^2 - 4ac ~ \ge ~ 0 ~ \Leftrightarrow ~ 0 ~ \lt ~ 4ac ~ \le ~ b^2 ~ \lt ~ 1 ~ \Leftrightarrow ~ 0 ~ \lt ~ 2\sqrt{a}\, \sqrt{c} ~ \le ~ b ~ \lt ~ 1 ~ , \]

onde a última relação vale para todos \(0\lt a,c\lt 1\) tais que

\[ 0 ~ \lt ~ 4ac ~ \lt ~ 1 ~ \Leftrightarrow ~ 0 ~ \lt ~ c ~ \lt ~ \frac{1}{4a} ~ . \]

Considerando \(a\), \(b\) e \(c\) como variáveis reais, a região \(R\) no plano \(ac\) onde a relação acima vale é \(R=\lbrace (a,c):0\lt a\lt 1,\ 0\lt c\lt 1,\ 0\lt c\lt \frac1{4a}\rbrace \). Ela é a união das regiões \({R}_{1}\) e \({R}_{2}\), como mostra a figura ao lado.

Sejam agora \(X\), \(Y\) e \(Z\) variáveis aleatórias contínuas, cada uma uniforme em \((0,1)\); pense nelas como representando \(a\), \(b\) e \(c\), respectivamente. Assim como \(f(x)=1\) é a densidade uniforme em \((0,1)\), \(f(x,y,z)=1\) para \(x,y,z\in (0,1)\) e \(0\) fora desse cubo é a densidade conjunta de \(X\), \(Y\) e \(Z\). Portanto,

\[ P(b^2 - 4ac \ge 0) ~ =~ P((a,c) \in R,~ 2\sqrt{a}\, \sqrt{c} \le b \lt 1)~ , \]

essa probabilidade é a integral tripla de \(f(a,b,c)=1\), com \(b\) variando de \(2\sqrt a\, \sqrt c\) até \(1\) e \((a,c)\) percorrendo \(R\). Como \(R={R}_{1}\cup {R}_{2}\), dividimos a integral em duas partes, usando seções verticais em \(R\):

\begin{align*} P(b^2 - 4ac \ge 0) ~ & =~ \underbrace{\displaystyle \int _0^{1/4} \displaystyle \int _0^1}_{{R}_{1}} \displaystyle \int _{2\sqrt{a}\, \sqrt{c}}^1 1\, db\, dc\, da ~ +~ \underbrace{\displaystyle \int _{1/4}^1 \displaystyle \int _0^{1/4a}}_{{R}_{2}} \displaystyle \int _{2\sqrt{a}\, \sqrt{c}}^1 1\, db\, dc\, da\\ & =~ \displaystyle \int _0^{1/4} \displaystyle \int _0^1 (1-2\sqrt{a}\, \sqrt{c})\, dc\, da ~ +~ \displaystyle \int _{1/4}^1 \displaystyle \int _0^{1/4a} (1-2\sqrt{a}\, \sqrt{c})\, dc\, da\\ & =~ \displaystyle \int _0^{1/4} \left( c - \tfrac {4}{3}\sqrt{a}\, c^{3/2} \, \Big|_{c=0}^{c=1} \, \right)\, da ~ +~ \displaystyle \int _{1/4}^1 \left( c - \tfrac {4}{3}\sqrt{a}\, c^{3/2} \, \Big|_{c=0}^{c=1/4a} \, \right)\, da\\ & =~ \displaystyle \int _0^{1/4} \left( 1 - \tfrac {4}{3}\sqrt{a} \right)\, da ~ +~ \displaystyle \int _{1/4}^1 \tfrac {1}{12a}\, da\\ & =~ a - \frac{8}{9}a^{3/2}\, \Bigg|_0^{1/4} ~ +~ \frac{1}{12}\ln a \, \Bigg|_{1/4}^1\\ & =~ \left( \frac{1}{4} - \frac{1}{9} \right) ~ +~ \left( 0 - \frac{1}{12}\ln \frac{1}{4} \right) ~ =~ \frac{5}{36} + \frac{1}{12}\ln 4\\ P(b^2 - 4ac \ge 0) ~ & =~ \frac{5+3\ln 4}{36} ~ \approx ~ 0.2544 \end{align*}

Em outras palavras, a probabilidade de \(ax^2+bx+c=0\) ter ao menos uma raiz real é de aproximadamente \(25\)%.

Valor Esperado

O valor esperado \(EX\) de uma variável aleatória \(X\) pode ser interpretado como o valor médio de \(X\), ponderado pelas probabilidades. Se \(X\) é discreta, então

\begin{equation} EX ~ =~ \sum \limits _{x} x\, P(X=x)~ , \tag{5.45} \end{equation}

onde a soma percorre todos os valores \(x\) do espaço amostral. Por exemplo, se \(X\) representa o resultado de um dado de seis faces, então

\begin{equation} EX ~ =~ \sum \limits _{x=1}^6 x\, P(X=x) ~ =~ \sum \limits _{x=1}^6 x\, \frac{1}{6} ~ =~ 3.5 \tag{5.46} \end{equation}

é o valor esperado de \(X\), isto é, a média dos números de \(1\) a \(6\).

Se \(X\) é uma variável aleatória contínua real com densidade \(f\) e \(\int _{-\infty }^{\infty }|x|f(x)\, dx\lt \infty \), então

\begin{equation} EX ~ =~ \displaystyle \int _{-\infty }^{\infty } x\, f(x)\, dx ~ . \tag{5.47} \end{equation}

Por exemplo, se \(X\) tem distribuição uniforme em \((0,1)\), sua densidade é

\begin{equation} f(x) ~ =~ \begin{cases} 1, & \text{para $0 < x < 1$}\\ 0, & \text{caso contrário,} \end{cases} \tag{5.48} \end{equation}

e portanto

\begin{equation} EX ~ =~ \displaystyle \int _{-\infty }^{\infty } x\, f(x)\, dx ~ =~ \displaystyle \int _0^1 x\, dx ~ =~ \frac{1}{2} ~ . \tag{5.49} \end{equation}

Para duas variáveis aleatórias contínuas reais \(X\) e \(Y\), conjuntamente distribuídas com densidade \(f(x,y)\) e com primeiros momentos finitos, os valores esperados de \(X\) e \(Y\) são

\begin{equation} EX ~ =~ \displaystyle \int _{-\infty }^{\infty } \displaystyle \int _{-\infty }^{\infty } x\, f(x,y)\, dx\, dy \quad \text{e}\quad EY ~ =~ \displaystyle \int _{-\infty }^{\infty } \displaystyle \int _{-\infty }^{\infty } y\, f(x,y)\, dx\, dy ~ , \tag{5.50} \end{equation}

respectivamente.

Exemplo 5.28
Se escolhermos \(n\gt 2\) números reais independentes e uniformes em \((0,1)\), quais são os valores esperados do menor e do maior desses números?
Solução
Sejam \({U}_{1},\dots ,{U}_{n}\) variáveis aleatórias contínuas independentes, cada uma uniforme em \((0,1)\). Defina as variáveis aleatórias \(X\) e \(Y\) por
\[ X = \min ({U}_{1}, \dots , {U}_{n}) \quad \text{e} \quad Y = \max ({U}_{1}, \dots , {U}_{n}) ~ . \]
Sabe-se 5 que a densidade conjunta de \(X\) e \(Y\) é

\begin{equation} \label{eqn:minmaxexpval} f(x,y) ~ =~ \begin{cases} n(n-1)(y-x)^{n-2}, & \text{para $0 \le x \le y \le 1$}\\ 0, & \text{caso contrário.} \end{cases} \tag{5.51} \end{equation}

Logo, o valor esperado de \(X\) é
\begin{align*} EX ~ & =~ \displaystyle \int _0^1 \displaystyle \int _x^1 n(n-1)x(y-x)^{n-2} \, dy\, dx\\ & =~ \displaystyle \int _0^1 \left( nx(y-x)^{n-1} \, \Big|_{y=x}^{y=1} \, \right)\, dx\\ & =~ \displaystyle \int _0^1 nx(1-x)^{n-1} \, dx~ ~ ,~ \text{e, integrando por partes, obtemos}\\ & =~ -x(1-x)^n - \frac{1}{n+1}(1-x)^{n+1} \, \Big|_0^1\\ EX ~ & =~ \frac{1}{n+1} ~ , \end{align*}
e, analogamente, veja o Exercício 3,
\[ EY ~ =~ \displaystyle \int _0^1 \displaystyle \int _0^y n(n-1)y(y-x)^{n-2} \, dx\, dy ~ =~ \frac{n}{n+1} ~ . \]
Por exemplo, se repetirmos muitas vezes o experimento de escolher \(n=3\) números uniformes em \((0,1)\) e registrarmos o mínimo e o máximo de cada amostra, a média dos mínimos se aproximará de \(\frac14\) e a média dos máximos de \(\frac34\) à medida que o número de amostras cresce. O Exercício 4 propõe uma verificação computacional simples desse fato.
Exemplo 5.29 (Dois tempos normalizados dependentes (difícil))
Dois tempos normalizados \(X,Y\) têm densidade conjunta \(f(x,y)=6x\) em \(0\lt x\lt y\lt 1\), e zero fora desse triângulo. Verifique a normalização, calcule \(P(Y\gt 3/4)\), as médias e a covariância.
Solução
Integrando primeiro em \(x\),
\[ \int _0^1\int _0^y6x\, \mathop{}\! \mathrm{d}x\, \mathop{}\! \mathrm{d}y =\int _0^13y^2\, \mathop{}\! \mathrm{d}y=1. \]
A mesma descrição do suporte dá
\[ P(Y\gt 3/4)=\int _{3/4}^13y^2\, \mathop{}\! \mathrm{d}y=\frac{37}{64}. \]
As médias e o produto médio são
\begin{align*} \mathbb E[X]& =\int _0^1\int _0^y6x^2\, \mathop{}\! \mathrm{d}x\, \mathop{}\! \mathrm{d}y=\frac12,\\ \mathbb E[Y]& =\int _0^13y^3\, \mathop{}\! \mathrm{d}y=\frac34,\\ \mathbb E[XY]& =\int _0^1\int _0^y6x^2y\, \mathop{}\! \mathrm{d}x\, \mathop{}\! \mathrm{d}y=\frac25. \end{align*}
Logo, \(\operatorname {Cov}(X,Y)=2/5-(1/2)(3/4)=1/40\gt 0\). As variáveis são dependentes: o suporte já impõe \(X\lt Y\), e a covariância não nula confirma essa conclusão. Nenhum produto de probabilidades marginais foi usado.

Exercícios

B

  1. Consolidaçãomédio Calcule \(\displaystyle \int _{-\infty }^{\infty }e^{-x^2}\, dx\) usando os resultados deste capítulo.

    Solução
    Faça \(u=\sqrt2x\) e use \(\int _{-\infty }^{\infty }e^{-u^2/2}\, du=\sqrt{2\pi }\); a integral pedida vale \(\sqrt\pi \).

  2. Consolidaçãomédio Para \(\sigma \gt 0\) e \(\mu \in \mathbb {R}\), calcule \(\displaystyle \int _{-\infty }^{\infty }\frac1{\sigma \sqrt{2\pi }} e^{-(x-\mu )^2/2\sigma ^2}\, dx\).

    Solução
    Com \(u=(x-\mu )/\sigma \), \(dx=\sigma \, du\); a integral torna-se a integral da densidade normal padrão, portanto vale \(1\).

  3. Justificaçãomédio Mostre que \(EY=\frac{n}{n+1}\) no Exemplo 5.28.

    Solução
    Pela densidade conjunta do exemplo, \(EY=n(n-1)\int _0^1y\int _0^y(y-x)^{n-2}\, dx\, dy=n\int _0^1y^n\, dy=n/(n+1)\).

C

  1. Aprofundamentodifícil Escreva um programa, na linguagem de sua escolha, que verifique numericamente o Exemplo 5.28 para \(n=3\), usando um grande número de amostras.

    Solução
    Uma implementação em Python é:
    import random
    N = 1000000
    amostras = [[random.random() for _ in range(3)] for _ in range(N)]
    minimo = sum(min(s) for s in amostras)/N
    maximo = sum(max(s) for s in amostras)/N
    As médias devem ficar próximas de \(1/4\) e \(3/4\), respectivamente.

  2. Aprofundamentodifícil Repita o exercício anterior para \(n=4\).

    Solução
    No programa anterior, troque range(3) por range(4). As médias se aproximam de \(1/5\) e \(4/5\).

  3. Aplicaçãodifícil Para variáveis aleatórias contínuas \(X,Y\) com densidade conjunta \(f(x,y)\), defina os segundos momentos \(E(X^2)\) e \(E(Y^2)\) por

    \[ E(X^2 ) ~ =~ \displaystyle \int _{-\infty }^{\infty } \displaystyle \int _{-\infty }^{\infty } x^2 \, f(x,y)\, dx\, dy \quad \text{e}\quad E(Y^2 ) ~ =~ \displaystyle \int _{-\infty }^{\infty } \displaystyle \int _{-\infty }^{\infty } y^2 \, f(x,y)\, dx\, dy ~ , \]

    e as variâncias \(\text{Var}(X)\) e \(\text{Var}(Y)\) por

    \[ \text{Var}(X) ~ =~ E(X^2 ) - (EX)^2 \quad \text{e}\quad \text{Var}(Y) ~ =~ E(Y^2 ) - (EY)^2 ~ . \]

    Calcule \(\text{Var}(X)\) e \(\text{Var}(Y)\) para \(X\) e \(Y\) do Exemplo 5.28.

    Solução
    \(X\) tem densidade marginal \(n(1-x)^{n-1}\) e \(Y\) tem densidade marginal \(ny^{n-1}\). Assim, \(E(X^2)=2/((n+1)(n+2))\) e \(E(Y^2)=n/(n+2)\). Subtraindo os quadrados das médias, \(\operatorname {Var}(X)=\operatorname {Var}(Y)=n/((n+1)^2(n+2))\).

  4. Aprofundamentodifícil Prosseguindo o exercício anterior, a correlação \(\rho \) entre \(X\) e \(Y\) é definida por

    \[ \rho ~ =~ \frac{E(XY) - (EX)(EY)}{\sqrt{\text{Var}(X)\, \text{Var}(Y)}} ~ , \]

    onde \(E(XY)=\displaystyle \int _{-\infty }^{\infty }\displaystyle \int _{-\infty }^{\infty }xy\, f(x,y)\, dx\, dy\). Calcule \(\rho \) para \(X\) e \(Y\) do Exemplo 5.28.
    (Observação: \(E(XY)-(EX)(EY)\) é a covariância de \(X\) e \(Y\).)

    Solução
    Com \(x=uy\) na integral conjunta, obtemos \(E(XY)=n(n-1)\int _0^1y^{n+1}\, dy\int _0^1u(1-u)^{n-2}\, du=1/(n+2)\). Logo, \(\operatorname {Cov}(X,Y)=1/((n+1)^2(n+2))\) e, usando as variâncias do exercício anterior, \(\rho =1/n\).

  5. Aprofundamentodifícil No Exemplo 5.27, a resposta mudaria se o intervalo \((0,100)\) fosse usado no lugar de \((0,1)\)? Explique.

    Solução
    Não. Escreva \(a=100A\), \(b=100B\), \(c=100C\), com \(A,B,C\) independentes e uniformes em \((0,1)\). A condição \(b^2-4ac\ge 0\) equivale a \(B^2-4AC\ge 0\), pois o discriminante é multiplicado por \(100^2\gt 0\). A probabilidade continua sendo \((5+3\ln 4)/36\).

  1. Neste capítulo, “regular” significa aberto e conexo, com fronteira formada por um número finito de curvas diferenciáveis por partes. Em particular, a fronteira tem área zero, que é a propriedade necessária para a definição por somas de Riemann. A ressalva importa: existem conjuntos abertos de área finita cuja fronteira tem área infinita. ↩
  2. De fato, se os reais de \((0,1)\) fossem uma lista \(x_1,x_2,\ldots \), poderíamos construir um número \(x\in (0,1)\) cuja \(n\)-ésima casa decimal difere da \(n\)-ésima casa decimal de \(x_n\), escolhendo essa casa entre \(1\) e \(2\). Assim, \(x\) não estaria na lista. ↩
  3. Veja o Cap. 6 de [2]. ↩