Aplicações do transporte de massa
11.1 Percolação invariante
A percolação invariante estende os modelos de elos e de sítios, preservando as simetrias do grafo, mas permitindo dependências entre os estados das arestas ou dos vértices.
A exigência é que a distribuição da configuração permaneça a mesma quando aplicamos um automorfismo do grafo. A percolação de Bernoulli (ou i.i.d.) é um caso particular: cada aresta ou vértice é declarado aberto com probabilidade \(p\), independentemente dos demais. A invariância, porém, não exige independência; ela admite tanto dependências locais quanto correlações de longo alcance.
Quando desejamos distinguir entre os casos \(2^{V(G)}\), \(2^{E(G)}\) ou \(2^{V(G)\cup E(G)}\) acima, diremos que \(\mathbb {P}\) (ou \(\Omega \)) é uma percolação invariante de sítios (resp. elos, resp. mista).
Exercício Seja \(G\) um grafo de Cayley. Mostre que tanto a percolação de sítios quanto a de elos em \(G\) são percolações invariantes.
Pode \(\Omega \) consistir, quase certamente, em um único vértice? Se \(G\) é transitivo, não existe percolação invariante tal que \(|\Omega |=1\) quase certamente.
De fato, se houvesse uma medida \(\mathbb {P}\) tal, então \(\mathbb {P}[\Omega = \{ x\} ]\) seria constante independentemente de \(x\) (pela transitividade). Portanto,
Seja \(G\) transitivo. Pode \(\Omega \) ser, quase certamente, um conjunto finito e não vazio de vértices? Isto é, existe uma percolação invariante \(\Omega \) tal que \(0 \lt |\Omega | \lt \infty \) quase certamente?
Se houvesse tal medida \(\mathbb {P}\), então definimos \(\Omega '\) escolhendo-se inicialmente \(\Omega \) segundo \(\mathbb {P}\) e, em seguida, escolhendo-se uniformemente um vértice \(x\) de \(\Omega \), e fixando \(\Omega ' = \{ x\} \). Isto é,
Afirmamos que \(\Omega '\) é uma percolação invariante, o que contradiz o exemplo anterior.
De fato, seja \(\varphi \in \operatorname {Aut}(G)\). Então,
Como \(\Omega \) e \(\varphi \, \Omega \) têm a mesma distribuição, isso mostra que \(\Omega '\) é invariante.
Se \(G\) é transitivo, então o número de componentes finitas em uma percolação invariante \(\Omega \) deve ser 0 ou \(\infty \) quase certamente.
Com efeito, suponha que \(N\) denote o número de componentes finitas, e que \(\mathbb {P}[\, 0 \lt N \lt \infty \, ] \gt 0\). Então, definimos \(\Omega '\) como a união de todas as componentes finitas; a medida \(\mathbb {P}\bigl[\Omega ' \in \cdot \, \big|\, (0 \lt N \lt \infty )\bigr]\) é uma percolação invariante para a qual \(\mathbb {P}[\, |\Omega '| \lt \infty \, \mid \, 0 \lt N \lt \infty ] = 1\).
Para cada configuração \(\omega \in \{ 0,1\} ^{V(G)}\) e \(x,y \in G\), definimos
onde \(N\) é o número de pontos \(r\)-trifurcação na componente de \(x\). Mais precisamente, se a componente de \(x\) contém exatamente \(N\) pontos \(r\)-trifurcação, definimos
Observamos que \(F(\varphi x, \varphi y, \varphi \, \omega ) = F(x,y,\omega )\) para \(\varphi \in \operatorname {Aut}(G)\). Assim, definindo \(f(x,y) := \mathbb {E}[\, F(x,y,\Omega )\, ]\), temos que \(f\) é uma função invariante. Pelo princípio de transporte de massa,
Por definição, \(\sum _{x} F(o,x,\omega )\) é igual a 0 ou 1. Portanto, \(\sum _{x} f(o,x) \le 1\).
Denote por \(A\) o evento de que \(o\) é um ponto \(r\)-trifurcação e sua componente possui um número positivo e finito de pontos \(r\)-trifurcação. Para toda configuração \(\omega \in A\), a componente de \(o\) é infinita e, para qualquer \(x\) nessa componente, \(F(x,o,\omega )=\tfrac {1}{N}\). Logo \(\sum _xF(x,o,\omega )=\infty \) em \(A\). Se \(\mathbb P(A)\gt 0\), teríamos
contradição. Assim, para cada vértice \(o\),
Como \(V(G)\) é enumerável, a união desses eventos sobre todos os vértices também tem probabilidade zero. Se alguma componente possuísse um número positivo e finito de pontos de trifurcação, um desses pontos pertenceria justamente a essa união. Logo, quase certamente, cada componente contém ou nenhum ponto de trifurcação ou infinitos pontos de trifurcação.
11.2 Percolação crítica em grupos não amenáveis
Recordemos a definição de \(\Phi (G)\), a constante de Cheeger do grafo \(G\), e que \(G\) é amenável se e somente se \(\Phi (G) = 0\).
O teorema de Benjamini, Lyons, Peres e Schramm descreve a percolação no ponto crítico para a classe de grafos a seguir.
Trataremos da percolação por elos; o caso de sítios é análogo.
11.3 Exclusão de uma componente infinita única: \(k_{p_c} \neq 1\)
Seja \(S\) finito, conexo e não vazio. Como \(G\) é transitivo, ele é regular; denotemos seu grau por \(\deg _G\). Contando, para cada vértice de \(S\), as arestas que permanecem dentro de \(S\), obtemos
Cada vértice de \(\partial S\) é extremo exterior de pelo menos uma aresta de \(\partial _eS\). Portanto
e assim
Como todas as componentes de \(\Omega \) são finitas, defina-se
Assim, definimos \(f(x,y) := \mathbb {E}\bigl[F(x,y,\Omega )\bigr]\), que é uma função invariante. Pelo princípio de transporte de massa,
pois cada \(C(x)\) é finita e conexa.
Se \(G\) não for amenável, então \(\Phi (G)\gt 0\). Fixe um vértice \(x\). Como ele possui apenas finitos vizinhos e, para cada aresta \(e\) incidente a \(x\), temos \(\mathbb P[\Omega _\varepsilon (e)=1]\to 1\), podemos escolher \(\varepsilon \) tão pequeno que
para todo vizinho \(y\) de \(x\). Segue que
Se todas as componentes de \(\Omega _\varepsilon \) fossem finitas quase certamente, a primeira parte daria a desigualdade oposta. Logo \(\Omega _\varepsilon \) possui uma componente infinita com probabilidade positiva; sob ergodicidade, o evento de existência de uma componente infinita é invariante e, portanto, tem probabilidade um.
Considere o acoplamento natural das configurações de percolação \( (\Omega _p)_{p \in [0,1]} \). Suponha, por contradição, que em \(p_c\) exista quase certamente uma única componente infinita, que denotaremos por \(\mathcal C_\infty \). A hipótese é invariante e, pela ergodicidade da percolação de Bernoulli, essa é precisamente a situação correspondente a \(k_{p_c}=1\).
Para cada vértice \(x\in V(G)\), defina
O conjunto \(c(x)\) é não vazio. Além disso, está contido numa esfera finita em torno de \(x\); pela local finitude de \(G\), é finito. A construção é equivariante: aplicar um automorfismo à configuração leva \(c(x)\) em \(c(\varphi x)\).
Para \(0\lt \varepsilon \lt p_c\), definimos a configuração \(H_\varepsilon \) declarando aberta uma aresta \(e=\{ x,y\} \) se, e somente se,
\(d_G(x,\mathcal C_\infty )\lt \varepsilon ^{-1}\) e \(d_G(y,\mathcal C_\infty )\lt \varepsilon ^{-1}\);
todos os vértices de \(c(x)\cup c(y)\) pertencem a uma mesma componente de \(\Omega _{p_c-\varepsilon }\).
Como o acoplamento natural e a regra \(x\mapsto c(x)\) são equivariantes, \(H_\varepsilon \) é uma percolação invariante.
Usaremos as seguintes propriedades de \(H_\varepsilon \).
1. Monotonicidade. Se \(\varepsilon \gt \delta \gt 0\), então \(p_c-\varepsilon \lt p_c-\delta \) e a condição de distância para \(H_\varepsilon \) é mais restritiva. Logo
2. Cada aresta aparece quando \(\varepsilon \downarrow 0\). Fixe \(e=\{ x,y\} \). O conjunto \(c(x)\cup c(y)\) é finito e está contido na componente conexa \(\mathcal C_\infty \) de \(\Omega _{p_c}\). Podemos, portanto, escolher uma coleção finita de caminhos abertos em \(\Omega _{p_c}\) que conecta todos esses vértices. No acoplamento natural, uma aresta \(f\) pertence a \(\Omega _{p_c}\) quando \(U(f)\le p_c\); como os rótulos têm distribuição contínua, quase certamente nenhum dos rótulos da coleção finita é exatamente \(p_c\). Assim, existe \(\eta (e)\gt 0\) tal que todos esses caminhos já estão abertos em \(\Omega _{p_c-\varepsilon }\) sempre que \(0\lt \varepsilon \lt \eta (e)\). Reduzindo ainda mais \(\varepsilon \), a condição de distância também é satisfeita. Portanto
e, por convergência dominada,
Pelo Lema 11.3, para algum \(\varepsilon \gt 0\) suficientemente pequeno, \(H_\varepsilon \) possui uma componente infinita com probabilidade positiva. Fixe, numa configuração desse evento, um caminho simples infinito
formado por arestas de \(H_\varepsilon \).
3. Um caminho infinito em \(H_\varepsilon \) produz uma componente infinita abaixo de \(p_c\). Ponha
Esse conjunto é infinito. De fato, se \(U\) fosse finito, cada \(x_j\) estaria a distância menor que \(\varepsilon ^{-1}\) de algum vértice de \(U\); todos os \(x_j\) pertenceriam então à união finita de bolas de raio \(\lceil \varepsilon ^{-1}\rceil \) centradas nos vértices de \(U\). Essa união é finita pela local finitude, em contradição com o fato de o caminho \((x_j)\) ser simples e infinito.
Por outro lado, se \(x_j\sim x_{j+1}\) é uma aresta de \(H_\varepsilon \), a definição garante que \(c(x_j)\cup c(x_{j+1})\) está contido em uma única componente de \(\Omega _{p_c-\varepsilon }\). Encadeando essa afirmação ao longo do caminho, todo o conjunto \(U\) pertence a uma mesma componente de \(\Omega _{p_c-\varepsilon }\). Como \(U\) é infinito, essa componente é infinita.
Obtivemos, com probabilidade positiva, uma componente infinita para o parâmetro \(p_c-\varepsilon \lt p_c\), contradizendo a definição de \(p_c\). Logo
11.4 Exclusão de infinitas componentes infinitas: \(k_{p_c}\neq \infty \)
Recordemos a definição de um ponto \(r\)-trifurcação \(x\); esse evento é denotado por \(\Psi _{r}(x)\). Temos \(\Psi _{r}(x) = \{ M_{r} \ge 3 \} \) onde \(M_{r} = (N_{r})_{0,\, E(B(x,r))}\) e \(N_{r}\) é o número de componentes infinitas que intersectam a bola de raio \(r\); ou seja, \(\Psi _{r}(x)\) é o evento de que, ao tornar todas as arestas em \(B(x,r)\) a estarem fechadas, existam ao menos 3 caminhos infinitos a partir de \(\partial B(x,r)\). Tal evento é independente de \(\mathcal{F}_{\, E(B(x,r))}\).
Defina \(R(x,y,\Omega )\) como o indicador do evento de que exista um caminho simples infinito da forma \((\, x=x_0,\, y=x_1,\, x_2,\, x_3,\ldots )\) com \(\Omega (x_n \sim x_{n+1})=1\) para todo \(n\). Defina
Ou seja, \(F(x,y,\Omega )=1\) se é possível ir ao infinito a partir de \(x\) em duas direções, com uma delas passando por \(y\); se é possível ir ao infinito via \(y\) porém só existe uma direção, então \(F(x,y,\Omega )=2\). A regra atribui pesos distintos às duas possibilidades de prolongamento de um caminho até o infinito.
A função \(F\) é invariante e, consequentemente, \(f(x,y)\coloneqq \mathbb {E}[F(x,y,\Omega )]\) é invariante.
Note que
Logo,
O Princípio de Transporte de Massa implica
Sempre que \(|\mathcal{C}_{\Omega }(x)|=\infty \) e \(x\) é um ponto de trifurcação, obtemos \(\sum _{y}F(x,y,\Omega )\ge 3\). Além disso, para qualquer \(x\) com \(|\mathcal{C}_{\Omega }(x)|=\infty \), deve existir ao menos um caminho de \(x\) até o infinito, de modo que \(\sum _{y}F(x,y,\Omega )\ge 2\). Portanto,
Portanto,
Além disso,
Substituindo:
portanto,
Medida produto condicional: percolação invariante e Bernoulli
Seja \( G = (V,E) \) um grafo localmente finito. Considere:
Uma medida de percolação invariante \( \mu \) sobre \( \{ 0,1\} ^E \), ou seja, \( \omega \in \{ 0,1\} ^E \) é uma configuração aleatória onde cada aresta está aberta (\( \omega (e)=1 \)) ou fechada (\( \omega (e)=0 \));
Para cada configuração \( \omega \sim \mu \), as componentes abertas (componentes conexas do subgrafo induzido por \( \omega \)) são denotadas por \( \{ \mathcal{C}_i(\omega )\} _{i \in I} \), onde \( I \) é um conjunto (aleatório) de índices.
Sobre essa configuração, definimos uma segunda percolação de Bernoulli com parâmetro \( p \in [0,1] \), restrita às arestas abertas de \( \omega \).
Seja \( \nu \) a medida de probabilidade associada a uma percolação invariante.
Para cada realização \( \omega \) da percolação invariante, definimos uma configuração de percolação invariante + Bernoulli, \( \omega ^{\prime } \in \{ 0,1\} ^E \) por:
Arestas \( e \in \omega \): abertas com probabilidade \( p \in [0,1] \), independentemente entre si;
Arestas \( e \notin \omega \): fixadas como fechadas, ou seja, \( \omega ^{\prime }(e) = 0 \) com probabilidade 1.
A medida de percolação invariante + Bernoulli resultante é a medida produto condicional \( \mathbb {P}_{\nu }^p \) sobre \( \omega ^{\prime } \in \{ 0,1\} ^E \) dada por:
onde \( \mathbb {P}_p(\cdot \mid \omega ) \) é a medida produto de Bernoulli com parâmetro \(p\), condicionada à configuração \( \omega \), ou seja,
onde
Vimos que se \(\mathbb {P}[\Psi _{1}(x),\, x\leftrightarrow \infty ]\gt 0\), então
Escolhemos \(p\lt 1\) suficientemente próximo de \(1\) para que \(m\, p\gt 2\). Essa escolha usa a desigualdade estrita \(m\gt 2\), e não apenas \(m\ge 2\).
Seja \(\Omega '\) a percolação de elos de Bernoulli de parâmetro \(p\) sobre \(\Omega \). Então
Nessa construção, cada aresta de \( \Omega \) tem probabilidade \( p \) de permanecer em \( \Omega ' \).
Para comparar esse grau médio com o de uma componente finita, usamos a identidade \(|E(T)|=|T|-1\) para uma árvore finita \(T\). Portanto,
Se todas as componentes de \(\Omega '\) são árvores finitas quase certamente, consideramos a função de transporte \( F(x, y, \Omega ) \) definida por
que representa a quantidade de massa que o vértice \( x \) envia a \( y \), normalizada pelo tamanho de sua componente em \( \Omega ' \), e condicionada ao fato de \( x \) pertencer a uma componente infinita de \( \Omega \).
O Princípio de Transporte de Massa iguala a massa total esperada enviada à massa total esperada recebida:
A massa recebida em \(x\) pode ser escrita como
Portanto,
Como, por hipótese, todas as componentes de \( \Omega ' \) são árvores finitas, para cada componente \( C \) temos
e, portanto,
Por outro lado, o cálculo do grau médio forneceu
e, pela escolha de \( p \), temos \( mp \gt 2 \). Portanto,
o que leva a uma contradição.
Logo a hipótese de que todas as componentes de \( \Omega ' \) são finitas não pode ser verdadeira. Assim, \( \Omega ' \) contém quase certamente uma componente infinita, o que mostra que \( p_c \lt 1 \) para alguma componente \( \mathcal{C} \subseteq \Omega \).
Definimos a floresta geradora mínima livre \( \mathcal{F} \) de \( \Omega \) como o subconjunto de arestas \( e \in \Omega \) que não pertencem a nenhum ciclo de \( \Omega \) no qual \( e \) recebe o maior valor atribuído entre as arestas do ciclo.
A floresta geradora mínima livre de um grafo \( G \) com pesos aleatórios contínuos \( U(e) \in [0,1] \) atribuídos às arestas pode ser construída removendo-se de cada ciclo simples a aresta com o maior rótulo. Isso produz, com probabilidade 1, uma floresta livre de ciclos.
Seja \(G\) um grafo transitivo e \(\mathcal{F}= \mathcal{F}_{p_c}\) para \(p_c = p_c(G)\). Então, quase certamente, para todo \(x\), a componente \(\mathcal{C}_{\mathcal{F}}(x)\) de \(x\) em \(\mathcal{F}\) é uma árvore que abrange \(\mathcal{C}_{p_c}(x)\).
Em particular, se \(x\) é um ponto de trifurcação em uma componente infinita de \(\Omega _{p_c}\), então ele também é um ponto de trifurcação em uma árvore infinita em \(\mathcal{F}_{p_c}\).
É suficiente provar que para qualquer \(x \sim y \in \Omega _{p_c}\), temos \(y \leftrightarrow x\) em FGM.
Fixe \(x \sim y \in \Omega _{p_c}\). Seja \(u = U(x\sim y)\). Mostraremos que, se \(x \nleftrightarrow y\) em FGM, então a componente \(\mathcal{C}_u(x)\) em \(\Omega _u\) é infinita.
Assuma que \(y \nleftrightarrow x\) em FGM. Como \(x \sim y \notin \mathcal{F}\), deve existir um caminho simples \(\alpha : x\to y\) contido em \(\mathcal{C}_u(x)\), ou seja, com \(\alpha \) aberto em \(\Omega _u\).
Se \(\alpha \) for aberto em FGM, então \(x \leftrightarrow y\) em FGM, contradizendo nossa suposição. Portanto, deve existir uma aresta \(\alpha _\ell \sim \alpha _{\ell +1}\) que não pertence à FGM. No entanto, pela definição, isso proporciona um caminho simples \(\gamma : \alpha _{\ell }\to \alpha _{\ell +1}\) tal que
(já que \(\alpha \) é aberta em \(\Omega _u\)). Logo, \(E\bigl(\alpha \cup \gamma \bigr)\, \setminus \{ \alpha _\ell \sim \alpha _{\ell +1}\} \) é aberto em \(\Omega _u\), e, portanto, contém um caminho simples \(\beta :x\to y\) que também é aberto em \(\Omega _u\).
Numa floresta há um único caminho simples entre quaisquer dois vértices da mesma componente conexa. Se a interseção \(\gamma \cap \alpha \) contivesse um vértice \(\alpha _j\) diferente dos extremos, haveria dois caminhos distintos em \(F_{\lt w}\) ligando \(\alpha _i\) a \(\alpha _j\): um subcaminho de \(\alpha \) e um de \(\gamma \), formando um ciclo — impossível em \(F_{\lt w}\). Logo \(\gamma \cap \alpha =\{ \alpha _i,\alpha _{i+1}\} \).
Como \(\alpha \) é simples, a concatenação indicada não repete vértices, portanto \(\beta \) é simples.
De fato,
o que implica \(|\beta |=|\alpha |+|\gamma |-1\gt |\alpha |\).
Por indução, isso implica que, para qualquer \(k\), há um caminho \(\alpha :x\to y\) tal que \(\alpha \) está aberto em \(\Omega _u\) e \(|\alpha |\gt k\). Logo, \(|\, E(\mathcal{C}_u(x))\, |\gt k\) para todo \(k\), o que significa \(\bigl|\mathcal{C}_u(x)\bigr|=\infty \).
Mas como \( \mathcal{F}\subseteq \Omega _p \), na verdade temos:
temos uma contradição.
Concluímos que, se \(x\sim y \in \Omega _{p_c}\) e \(x \nleftrightarrow y\) em FGM, então \(|\mathcal{C}_u(x)|=\infty \), para \(u = U(x\sim y)\). Como \(U(x\sim y)\neq p_c\) quase certamente, temos
Logo, mostramos que quase certamente, para qualquer \(x\sim y \in \Omega _{p_c}\), também \(x\leftrightarrow y\) em FGM. Isso implica, por um exercício abaixo, que \(\mathcal{C}_{\mathcal{F}}(x)\) seja uma árvore que abrange \(\mathcal{C}_{p_c}(x)\), para qualquer \(x\), quase certamente.
Finalmente, se \(x\) é um ponto de trifurcação em \(\Omega _{p_c}\), então \(|\mathcal{C}_{p_c}(x)|=\infty \), e remover as arestas adjacentes a \(x\) dividiria \(\mathcal{C}_{p_c}(x)\) em pelo menos 3 componentes infinitas. Se \(T(x)\) for a árvore que abrange \(\mathcal{C}_{p_c}(x)\) em FGM, então remover as arestas adjacentes a \(x\) também dividirá \(T(x)\) em 3 componentes infinitas.
Suponha, por contradição, que \( \mathbb {P}[k_{p_c} = \infty ] \gt 0 \).
Fixe \( r \gt 0 \). Defina o evento:
Como assumimos \( k_{p_c} = \infty \) temos que \(p_{c} \lt 1\), então existe \( r \) tal que \( \mathbb {P}[\Psi _r(x)] \gt 0 \).
Então, se conectarmos quaisquer três componentes infinitas a partir de \(\partial B(x,r)\) por caminhos abertos dentro de \(B(x,r)\), obtemos
Pela transitividade, isso vale para qualquer vértice, e em particular
Seja agora \(\mathcal{F}= \mathcal{F}_{p_{c}}\) como no Lema 11.7. Aplicando o Lema 11.7, temos que, com probabilidade positiva, \( x \) é um ponto de trifurcação em uma árvore infinita da floresta geradora mínima livre \( \mathcal{F}_{p_c} \subseteq \Omega _{p_c} \).
Em seguida, pelo Lema 11.6, segue que \( \mathcal{F}_{p_c} \) contém quase certamente alguma subárvore \( \mathcal{C} \subseteq \Omega _{p_c} \) tal que
No entanto, como \( \mathcal{C} \subseteq \mathcal{C}' \), onde \( \mathcal{C}' \) é uma componente de \( \Omega _{p_c} \), segue que:
Entretanto,
Para ver isso suponha, por contradição, que
Então existe algum \( p \lt 1 \) tal que a percolação de Bernoulli com parâmetro \( p \) sobre \( \mathcal{C'} \) possui uma componente infinita com probabilidade positiva.
Contudo, como \( \mathcal{C'} \subseteq \Omega _{p_c} \), isso implica que \( \Omega _{p_c} \) percolaria com parâmetro \(p \cdot p_c\) menor que \( p_c \), o que contradiz a definição do limiar crítico \( p_c \).
Portanto,
Atribuímos variáveis aleatórias independentes com distribuição uniforme em \( [0,1] \) às arestas (independentemente da configuração \( \Omega \)). Definimos a floresta geradora mínima livre \(\mathcal{F} \) de \( \Omega \) como o subconjunto de arestas \( e \in \Omega \) que não pertencem a nenhum ciclo de \( \Omega \) no qual \( e \) recebe o maior valor atribuído entre as arestas do ciclo.
Não há ciclos em \(\mathcal{F} \), pois, em qualquer ciclo de \(\Omega \), a aresta de maior rótulo é removida. Além disso, toda componente de \(\mathcal F\) contida em uma componente infinita de \(\Omega \) é quase certamente infinita. Para ver isso, suponha que \(K\) seja uma componente finita de \(\mathcal F\) contida numa componente infinita de \(\Omega \). Existe então ao menos uma aresta aberta de \(\Omega \) com um extremo em \(K\) e outro fora de \(K\). Escolha, entre todas essas arestas, aquela de menor rótulo, digamos \(e\).
A aresta \(e\) não pode ser excluída da floresta. De fato, qualquer ciclo de \(\Omega \) que contenha \(e\) precisa sair de \(K\) por \(e\) e voltar a \(K\) por outra aresta \(f\) da mesma fronteira. Pela escolha de \(e\) e pela continuidade dos rótulos, quase certamente \(U(f)\gt U(e)\). Portanto \(e\) não é a aresta de maior rótulo desse ciclo. Como isso vale para todo ciclo que contém \(e\), a definição da floresta geradora mínima livre força \(e\in \mathcal F\), contradizendo o fato de \(K\) ser uma componente de \(\mathcal F\). Logo, cada vértice de uma componente infinita de \( \Omega \) pertence a alguma árvore infinita de \(\mathcal{F} \).
Suponha agora que a componente \( C_\Omega (x) \) tem, com probabilidade positiva, ao menos três fins. Fixe uma árvore finita \( T \) que contém \( x \) tal que, com probabilidade positiva, \( T \subset C_\Omega (x) \) e \( C_\Omega (x) \setminus V(T) \) possui ao menos três componentes infinitas. Com probabilidade positiva, ocorrem simultaneamente os seguintes eventos:
\( T \subset C_\Omega (x) \);
\( C_\Omega (x) \setminus V(T) \) possui ao menos três componentes infinitas;
todas as arestas de \( T \) recebem valores menores que \( \tfrac {1}{2} \);
todas as arestas incidentes a \( V(T) \), mas não pertencentes a \( T \), recebem valores maiores que \( \tfrac {1}{2} \).
Sob esse evento, \( T \subset \mathcal{F} \), e \( T \) pertence a uma árvore de \(\mathcal{F} \) com ao menos três fins.