Número de componentes infinitas
Uma questão básica da teoria da percolação é saber quantas componentes infinitas podem coexistir. Em \(\mathbb Z^d\), Aizenman, Kesten e Newman provaram em 1987 que, quando existe uma componente infinita, ela é quase certamente única. Burton e Keane deram depois um argumento particularmente simples, baseado em ergodicidade, modificações locais e amenabilidade.
Neste capítulo apresentamos essa prova em duas etapas. Primeiro mostraremos que, em um grafo transitivo, o número de componentes infinitas só pode ser
quase certamente. Em seguida, mostraremos que a alternativa \(\infty \) é impossível em grafos amenáveis.
6.1 Modificações locais e a lei \(0,1,\infty \)
Usaremos repetidamente o fato de que, para \(p\in (0,1)\), qualquer modificação de um número finito de arestas tem probabilidade estritamente positiva.
Seja \(F\subset E(G)\) finito e seja \(\eta \in \{ 0,1\} ^{F}\). Para \(\omega \in \{ 0,1\} ^{E(G)}\), definimos
Quando \(\eta \equiv 1\) ou \(\eta \equiv 0\), escrevemos \(\omega _{1,F}\) e \(\omega _{0,F}\).
Particione \(A\) de acordo com os \(2^{|F|}\) possíveis estados das arestas de \(F\). Existe \(\xi \in \{ 0,1\} ^{F}\) tal que
Dentro de um cilindro, a medida produto se decompõe entre as coordenadas de \(F\) e as coordenadas fora de \(F\). Substituir o padrão \(\xi \) pelo padrão \(\eta \) multiplica o peso das coordenadas de \(F\) por um fator estritamente positivo, pois \(0\lt p\lt 1\). Portanto, a imagem desse subconjunto pela modificação \(\omega \mapsto \omega _{\eta ,F}\) tem probabilidade positiva.
Esse pequeno lema é a forma de propriedade de energia finita de que precisaremos.
Seja \(N=N(\omega )\) o número de componentes infinitas da configuração aberta.
O número \(N\) é invariante por automorfismos de \(G\). Pela ergodicidade da percolação de Bernoulli em grafos transitivos, existe
tal que \(N=k_p\) quase certamente.
Resta excluir \(2\le k_p\lt \infty \). Fixe \(o\in V(G)\) e denote por \(N_r\) o número de componentes infinitas que intersectam a bola \(B(o,r)\). Como as bolas exaurem o grafo,
e, portanto,
Se \(2\le k_p\lt \infty \), então \(N\ge 2\) quase certamente e, pela continuidade crescente da probabilidade,
Em particular, existe \(r\) tal que
A bola \(B(o,r)\) é conexa. Considere o conjunto finito \(F_r\) das arestas com ambas as extremidades em \(B(o,r)\). Se declararmos todas as arestas de \(F_r\) abertas, todas as componentes infinitas que intersectam \(B(o,r)\) passam a pertencer a uma única componente aberta. Assim, em qualquer configuração com \(N_r\ge 2\), essa modificação reduz o número total de componentes infinitas em pelo menos uma unidade.
Pelo lema de energia finita, a configuração modificada ocorre com probabilidade positiva. Teríamos, portanto,
em contradição com \(N=k_p\) quase certamente. Logo, nenhum valor finito maior que \(1\) é possível.
6.2 Amenabilidade
A unicidade da componente infinita está intimamente ligada à possibilidade de encontrar grandes conjuntos com fronteira pequena.
Equivalentemente, com essa convenção, \(G\) é amenável se existe uma sequência de conjuntos finitos, conexos e não vazios \((S_n)_n\) tal que
Uma sequência com essa propriedade é chamada de sequência de Følner.
A interpretação geométrica é simples: em um grafo amenável existem regiões finitas cujo volume é muito maior que sua fronteira. Em um grafo não amenável, ao contrário, toda região finita possui uma fronteira proporcional ao volume.
Seja \(S\subset \mathbb T_d\) finito e conexo, com \(|S|\ge 2\). Mostre que Deduza que \(\Phi (\mathbb T_d)=d-2\).
6.3 Pontos de trifurcação
O argumento de Burton–Keane transforma a hipótese de infinitas componentes infinitas em uma densidade positiva de pontos com três braços infinitos.
Seja \(\omega \) uma configuração e \(x\in V(G)\). Dizemos que \(x\) é um ponto de trifurcação se \(x\) pertence a uma componente aberta infinita e, ao remover \(x\) dessa componente, restam pelo menos três componentes conexas infinitas.
Denotaremos por \(\mathsf T(x)\) o evento de que \(x\) é um ponto de trifurcação.
A figura mental é a de um vértice do qual partem pelo menos três braços abertos que seguem para o infinito e que não podem ser conectados entre si sem passar novamente pelo vértice.
O primeiro lema mostra por que esses pontos aparecem quando há infinitas componentes infinitas.
Fixe \(o\in V(G)\). Como o número de componentes infinitas que intersectam \(B(o,r)\) cresce para \(N=\infty \), existe \(r\) tal que o evento
tem probabilidade positiva.
Escreva \(K=B(o,r)\). Em cada configuração de \(A\), cada uma dessas componentes possui, após a remoção de \(K\), uma componente infinita ligada a \(K\) por alguma aresta aberta da fronteira. Como \(K\) é finito e localmente finito, sua fronteira de arestas é finita e há apenas finitas triplas possíveis dessas arestas. O evento \(A\) é a união dos eventos em que alguma dessas triplas liga \(K\) a três componentes infinitas distintas fora de \(K\). Como \(\P _p(A)\gt 0\), ao menos uma dessas triplas determina um subevento de probabilidade positiva. Assim, existem três arestas fixas
e um subevento \(A'\subset A\), de probabilidade positiva, tal que:
as três arestas \(e_1,e_2,e_3\) estão abertas;
para cada \(i\), o vértice \(b_i\) pertence a uma componente aberta infinita do subgrafo induzido por \(V(G)\setminus K\);
essas três componentes infinitas são distintas.
Escolha uma árvore geradora do subgrafo induzido por \(K\). Acrescente a ela as três arestas \(e_i\) e considere a subárvore mínima \(Q\) que contém \(b_1,b_2,b_3\). Essa árvore possui um único vértice de ramificação \(v\in K\) no qual se encontram os três caminhos que levam a \(b_1,b_2,b_3\).
Agora modificamos apenas as arestas que têm pelo menos uma extremidade em \(K\): declaramos abertas as arestas de \(Q\) e fechadas todas as demais. Fora desse conjunto finito, a configuração permanece inalterada. Após essa modificação, os três braços de \(Q\) ligam \(v\) às três componentes infinitas distintas localizadas fora de \(K\), e nenhuma outra aresta incidente a \(K\) pode reconectá-las. Consequentemente, a remoção de \(v\) deixa pelo menos três componentes abertas infinitas.
Pelo lema de energia finita, o evento obtido por essa modificação tem probabilidade positiva. Portanto,
para algum \(v\in K\). Pela transitividade e invariância da medida de Bernoulli, a probabilidade de ser ponto de trifurcação é a mesma em todos os vértices, e assim
Precisamos agora da parte combinatória do argumento.
Fixe uma componente aberta infinita \(C\) que contenha pelo menos um ponto de trifurcação de \(S\), e escreva
Usaremos o seguinte fato elementar de teoria de grafos.
Fato combinatório. Se \(H\) é um grafo conexo e localmente finito e \(T\) é um conjunto finito não vazio de vértices tal que, para cada \(t\in T\), o grafo \(H\setminus \{ t\} \) possui pelo menos três componentes infinitas, então \(H\setminus T\) possui pelo menos \(|T|+2\) componentes infinitas.
Vamos justificar esse fato com um pouco mais de detalhe. Cada \(t\in T\) é um ponto de articulação de \(H\). Considere a árvore bloco–corte de \(H\): seus vértices são os pontos de articulação e os blocos maximais de \(H\), e ligamos um ponto de articulação a cada bloco que o contém. Para um grafo conexo, essa estrutura é uma árvore.
Remova dessa árvore os vértices correspondentes aos elementos de \(T\). Como \(T\) é finito e \(H\) é localmente finito, cada elemento de \(T\) tem grau finito na árvore bloco–corte; logo surgem apenas finitas componentes. Contraia cada uma delas a um único vértice e mantenha os vértices de \(T\). Obtemos uma árvore finita \(Q\).
Um vértice contraído de \(Q\) será chamado infinito quando a parte correspondente de \(H\setminus T\) contém infinitos vértices. Para cada \(t\in T\), as pelo menos três componentes infinitas de \(H\setminus \{ t\} \) determinam três direções distintas na árvore bloco–corte. Remover os demais vértices do conjunto finito \(T\) não pode tornar finitas todas as componentes contidas em uma dessas direções; em cada direção resta ao menos uma componente infinita de \(H\setminus T\). Portanto, em \(Q\), de cada vértice \(t\in T\) partem pelo menos três ramos que contêm vértices infinitos.
Agora tome a menor subárvore \(Q_\infty \) de \(Q\) que contém todos os vértices infinitos. Equivalentemente, remova sucessivamente de \(Q\) as folhas que não são infinitas. Nenhum dos três ramos infinitos que partem de um vértice de \(T\) é eliminado; assim, todo vértice de \(T\) tem grau pelo menos \(3\) em \(Q_\infty \). Todas as folhas de \(Q_\infty \) são vértices infinitos.
Seja \(L\) o número de folhas de \(Q_\infty \) e seja \(m\) o número de vértices de grau pelo menos \(3\). Para uma árvore finita,
As folhas contribuem \(-1\) cada uma, os vértices de grau \(2\) contribuem \(0\) e cada um dos \(m\) vértices de grau pelo menos \(3\) contribui ao menos \(1\). Portanto,
e assim
Como todo vértice de \(T\) tem grau pelo menos \(3\), temos \(m\ge |T|\). Logo \(Q_\infty \) possui pelo menos \(|T|+2\) folhas infinitas. Elas correspondem a componentes infinitas distintas de \(H\setminus T\), provando o fato combinatório.
Aplicando o fato a \(H=C\) e \(T=T_C\), concluímos que
possui pelo menos \(|T_C|+2\) componentes infinitas.
Cada uma dessas componentes contém um vértice distinto de \(C\cap \partial S\). De fato, se a componente já começa fora de \(S\), ela contém um vizinho externo de algum ponto de \(T_C\subset S\). Caso contrário, ela contém um vértice de \(S\) e, por ser infinita, algum caminho aberto nela precisa sair de \(S\); o primeiro vértice após a saída pertence a \(\partial S\). Componentes distintas são disjuntas e, portanto, fornecem vértices de fronteira distintos. Logo,
Somando sobre as diferentes componentes abertas infinitas \(C\) que contêm pontos de trifurcação em \(S\), os conjuntos \(C\cap \partial S\) são disjuntos. Consequentemente,
como queríamos.
6.4 Teorema de Burton–Keane
Estamos prontos para excluir a possibilidade de infinitas componentes infinitas em grafos amenáveis.
Os casos \(p=0\) e \(p=1\) são imediatos. Suponha \(p\in (0,1)\).
Pelo Lema 6.2,
Resta excluir \(N=\infty \).
Suponha, por absurdo, que \(N=\infty \) quase certamente. Pelo Lema 6.3,
Por transitividade, essa probabilidade independe de \(o\).
Se \(S\subset V(G)\) é finito, denote por
o número de pontos de trifurcação em \(S\). Pela invariância,
Por outro lado, o Lema 6.4 fornece, configuração por configuração,
Tomando expectativas,
Dividindo por \(|S|\),
Como \(G\) é amenável, escolha uma sequência de Følner \((S_n)_n\). Fazendo \(n\to \infty \),
contradizendo \(t_p\gt 0\).
Portanto \(N\neq \infty \) quase certamente. A lei \(0,1,\infty \) conclui que \(N\in \{ 0,1\} \) quase certamente.
Ideia da prova.
O argumento pode ser resumido em uma tensão entre volume e fronteira. Se houvesse infinitas componentes infinitas, a energia finita permitiria produzir pontos de trifurcação com densidade positiva. Em uma região grande, portanto, esperaríamos um número de trifurcações proporcional ao volume. Mas cada trifurcação exige novos braços que escapam da região, e o número desses braços é controlado pela fronteira. Em um grafo amenável, a fronteira é desprezível em relação ao volume, e as duas estimativas são incompatíveis.