Ferramentas probabilísticas
A desigualdade de van den Berg–Kesten e a fórmula de Russo permitem estudar dois aspectos das conexões abertas. A primeira controla ocorrências disjuntas de eventos crescentes; a segunda relaciona a variação de uma esperança com as influências das arestas.
5.1 Desigualdade BK
Fixe um conjunto finito de arestas \(F\subset E(G)\) e escreva \(\Omega _F=\{ 0,1\} ^F\). Para \(K\subset F\) e \(\omega \in \Omega _F\), denotamos por
o cilindro determinado por \(\omega \) em \(K\).
Dizemos que \(K\) certifica um evento \(A\subset \Omega _F\) na configuração \(\omega \) quando \(C_{\omega ,K}\subset A\).
Para eventos de conexão, \(A\circ B\) significa que as duas ocorrências podem ser realizadas por conjuntos disjuntos de arestas. Por exemplo, se \(A\) e \(B\) especificam duas conexões em um subgrafo finito, então \(A\circ B\) exige caminhos abertos disjuntos em arestas que certifiquem essas conexões.
A prova por indução em \(|F|\) usa a seguinte descrição de \(A\circ B\) em termos de configurações com suportes disjuntos.
Para configurações \(\omega ,\eta \in \Omega _F\) com suportes disjuntos, escrevemos \(\omega +\eta \) para a configuração cuja coordenada em \(e\) é \(\omega (e)+\eta (e)\).
Suponha primeiro que \(\xi \in A\circ B\) e escolha certificados disjuntos \(K,L\subset F\). Defina
Então \(\xi =\omega +\eta \) e os suportes são disjuntos. Como \(K\cap L=\varnothing \), a configuração \(\omega \) coincide com \(\xi \) em \(K\), logo \(\omega \in C_{\xi ,K}\subset A\); do mesmo modo, \(\eta \in C_{\xi ,L}\subset B\).
Reciprocamente, suponha \(\xi =\omega +\eta \) com suportes disjuntos, \(\omega \in A\) e \(\eta \in B\). Tome \(K=\operatorname {supp}(\omega )\) e \(L=\operatorname {supp}(\eta )\). Se uma configuração coincide com \(\omega \) em \(K\), ela é maior ou igual a \(\omega \); como \(A\) é crescente, \(K\) certifica \(A\). Analogamente, \(L\) certifica \(B\). Logo \(\xi \in A\circ B\).
O caso \(|F|\le 1\) é imediato. Suponha o resultado conhecido para \(|F|-1\) arestas e escolha \(e\in F\). Ponha \(F'=F\setminus \{ e\} \). Para um evento \(C\subset \Omega _F\) e \(j\in \{ 0,1\} \), defina sua seção
onde \(\omega _{j,e}\) é obtida acrescentando a coordenada \(e\) com valor \(j\).
Se \(C\) é crescente, então \(C_0\subset C_1\) e ambas as seções são crescentes. Escreva \(D=A\circ B\). Do Lema 5.2 obtemos
e
Além disso, como \(A_0\subset A_1\) e \(B_0\subset B_1\),
Pela hipótese de indução,
Para a estimativa cruzada, ponha
As inclusões acima dão \(D_0\subset E\cap H\) e \(D_1\subset E\cup H\). Portanto,
onde a última desigualdade usa novamente a hipótese de indução.
Usando
e a fórmula análoga para \(B\), expandimos o produto e aplicamos as três estimativas anteriores:
Passagem para grafos infinitos.
A desigualdade se estende a eventos de conexão que possuem testemunhos finitos — por exemplo, \(\{ x\leftrightarrow y\} \) ou \(\{ A\leftrightarrow B\} \) com \(A\) e \(B\) finitos. Para isso, escolhe-se uma exaustão por subgrafos finitos \(G_1\subset G_2\subset \cdots \) e restringem-se os caminhos a \(G_n\). Os eventos assim obtidos crescem para o evento de conexão original, e o mesmo vale para a ocorrência disjunta. Aplicando BK em cada \(G_n\) e passando ao limite por continuidade crescente da probabilidade, obtemos a desigualdade correspondente no grafo infinito. Eventos sem testemunho finito, como \(\{ x\leftrightarrow \infty \} \), exigem uma aproximação específica antes de aplicar esse argumento.
5.2 Fórmula de Russo
Seja \(X:\Omega _F\to \mathbb R\) uma variável aleatória. Para \(e\in F\), defina
A quantidade \(\mathbf{E}_p[\partial _eX]\) é a influência da aresta \(e\) sobre \(X\).
É útil permitir parâmetros distintos em cada aresta. Escreva \(F=\{ e_1,\dots ,e_n\} \) e, para \(\mathbf p=(p_1,\dots ,p_n)\), seja \(\P _{\mathbf p}\) a medida produto com
Defina \(f(\mathbf p)=\mathbf{E}_{\mathbf p}[X]\).
Fixe \(j\) e condicione nos estados de todas as arestas exceto \(e_j\). Para cada configuração das demais coordenadas, a esperança condicional de \(X\) é uma função afim de \(p_j\):
Logo
Aplicando a regra da cadeia à diagonal \(p_1=\cdots =p_n=p\),
que é a fórmula desejada.
Para um evento \(A\), dizemos que \(e\) é pivotal na configuração \(\omega \) quando mudar apenas o estado de \(e\) altera a ocorrência de \(A\). Equivalentemente,
Como \(A\) é crescente,
A diferença entre os dois indicadores é, portanto, \(1\) exatamente quando forçar \(e\) a aberta faz \(A\) ocorrer e forçar \(e\) a fechada faz \(A\) falhar, isto é, exatamente quando \(e\) é pivotal.
Aplique a fórmula de Russo–Margulis a \(X=\mathbf1_A\) e use o Lema 5.4.