Grafos
Este capítulo reúne apenas a linguagem de teoria dos grafos usada ao longo do livro. O objetivo não é desenvolver a teoria em geral, mas fixar notação para distância, crescimento, simetrias e grafos de Cayley.
1.1 Grafos, caminhos e distância
Um grafo é um par \(G=(V,E)\), onde \(V=V(G)\) é o conjunto de vértices e \(E=E(G)\) é um conjunto de pares não ordenados de vértices. Se \(\{ x,y\} \in E\), escrevemos \(x\sim y\) e dizemos que \(x\) e \(y\) são adjacentes.
O grau de \(x\), denotado por \(\deg (x)\), é o número de seus vizinhos. Dizemos que \(G\) é localmente finito se todo vértice tem grau finito e \(d\)-regular se todo vértice tem grau \(d\). Salvo indicação em contrário, todos os grafos deste livro são infinitos, conexos e localmente finitos.
A distância de grafo é
Como trabalharemos com grafos conexos, \(d_G(x,y)\lt \infty \) para quaisquer \(x,y\).
Para \(r\ge 0\), definimos a bola e a esfera
Se \(A\subset V\), sua fronteira externa de vértices é
e sua fronteira de arestas é
Um subgrafo \(H\) de \(G\) possui \(V(H)\subset V(G)\) e \(E(H)\subset E(G)\). Se \(A\subset V(G)\), o subgrafo induzido por \(A\) contém todos os vértices de \(A\) e todas as arestas de \(G\) com os dois extremos em \(A\).
1.2 Árvores e crescimento
Um grafo sem ciclos é uma floresta; uma floresta conexa é uma árvore. Em uma árvore existe um único caminho simples entre dois vértices.
Quando distinguimos um vértice \(o\), chamado raiz, cada vértice \(x\ne o\) tem um único vizinho mais próximo de \(o\), seu pai; os vizinhos mais distantes de \(o\) são seus filhos. A árvore infinita \(d\)-regular será denotada por \(\mathbb T_d\).
O crescimento de um grafo é medido pelo volume das bolas. Fixado \(o\in V(G)\), escrevemos
Em grafos transitivos, a ordem de crescimento não depende da escolha de \(o\).
Dizemos que \(G\) tem crescimento subexponencial se
e crescimento polinomial de grau no máximo \(D\) se existe \(C\lt \infty \) tal que
para todo \(r\). Em particular, \(\mathbb Z^d\) tem crescimento polinomial de ordem \(d\), enquanto \(\mathbb T_d\), para \(d\ge 3\), tem crescimento exponencial.
Essas noções aparecem quando se converte decaimento de probabilidades de conexão em somabilidade espacial.
1.3 Grafos de Cayley
Seja \(\Gamma \) um grupo e seja \(S\subset \Gamma \) um conjunto finito de geradores. Podemos substituir \(S\) por \(S\cup S^{-1}\) e, portanto, supor \(S\) simétrico.
A distância da identidade \(e\) a \(g\) coincide com o menor comprimento de uma palavra em \(S\) que representa \(g\); essa quantidade é a norma de palavra \(|g|_S\).
Para \(\Gamma =\mathbb Z^d\) e \(S=\{ \pm e_1,\dots ,\pm e_d\} \), obtemos a rede usual \(\mathbb Z^d\).
O grafo de Cayley do grupo livre em \(k\) geradores, usando os geradores e seus inversos, é a árvore regular de grau \(2k\).
A árvore regular de grau \(d\) também pode ser realizada como grafo de Cayley do produto livre de \(d\) cópias de \(\mathbb Z/2\mathbb Z\).
1.4 Automorfismos e grafos transitivos
Um automorfismo de \(G\) é uma bijeção \(\varphi :V(G)\to V(G)\) que preserva adjacências. O conjunto de todos os automorfismos forma o grupo \(\operatorname {Aut}(G)\).
Em um grafo transitivo, todos os vértices têm o mesmo grau e qualquer quantidade definida apenas pela geometria enraizada do grafo é independente da raiz.
Se \(x,y,g\in \Gamma \), defina
Essa aplicação é bijetiva e satisfaz \(\varphi _{x,y}(x)=y\). Se \(h=gs\) com \(s\in S\), então
logo adjacências são preservadas. Portanto \(\varphi _{x,y}\) é um automorfismo do grafo de Cayley.
A recíproca é falsa: existem grafos transitivos que não são grafos de Cayley. Para os argumentos deste livro, a propriedade importante será a transitividade em si, e não uma representação específica por geradores.
1.5 Quase-isometrias
A escolha do conjunto finito de geradores muda as distâncias em um grafo de Cayley, mas não muda sua geometria em grande escala. A linguagem adequada para essa afirmação é a de quase-isometria.
Considere a identidade em \(\Gamma \). Como \(S\) é finito, existe
Escreva
Pela desigualdade triangular para a norma de palavra,
Como \(|g^{-1}h|_T=d_T(g,h)\), segue que
Trocando \(S\) e \(T\), existe \(L'\lt \infty \) tal que
Tomando
obtemos
Logo a identidade é uma quase-isometria com \(C=0\) e, como é sobrejetiva, com \(D=0\).