Capítulo 4

Percolação em árvores

4.1 Processo de Galton–Watson

O processo de Galton–Watson surgiu do problema da sobrevivência de sobrenomes ao longo das gerações, estudado por Francis Galton e Henry William Watson no século XIX. Nesse modelo, cada indivíduo produz, independentemente dos demais, um número aleatório de descendentes segundo uma distribuição fixa.

Partimos de um único indivíduo, que constitui a geração inicial. Seus filhos formam a primeira geração; os filhos destes, a segunda, e assim sucessivamente. A repetição da mesma regra de descendência produz uma árvore genealógica aleatória.

Em vez de acompanhar toda a árvore, consideramos o tamanho da população em cada geração. Isso permite estudar a probabilidade de extinção: sob a hipótese não degenerada usual, a população se extingue quase certamente quando o número médio de descendentes por indivíduo é menor ou igual a 1; quando essa média é maior que 1, a sobrevivência tem probabilidade positiva.

Na percolação em árvores, a exploração da componente aberta pode ser descrita por esse processo de ramificação. O critério de extinção fornecerá, assim, o parâmetro crítico.

Definição 4.1

Seja \( \mu \) uma distribuição em \( \mathbb {N} \), ou seja, \( \mu : \mathbb {N} \to [0,1] \) tal que \( \sum _{n} \mu (n) = 1 \). O processo de Galton–Watson com distribuição de descendência \( \mu \), também denotado por \( \mathrm{GW}_{\mu } \), é a seguinte cadeia de Markov \( (Z_{n})_{n} \) sobre \( \mathbb {N} \):

Seja \( (X_{j,k})_{j,k\in \mathbb {N}} \) uma família de variáveis aleatórias i.i.d. com distribuição \(\mu \).

  1. Na geração \(n=0\), definimos \(Z_0=1\), isto é, iniciamos com um único indivíduo.

  2. Dado \( Z_{n} \), definimos:

    \[ Z_{n+1} := \sum _{k=1}^{Z_{n}} X_{n+1, k} \]

    onde \( X_{n+1, k} \) representa o número de descendentes do \( k \)-ésimo indivíduo na geração \( n \).

Escrevemos ainda \(p_k=\mu (k)\), \(k\geq 0\), para a probabilidade de um indivíduo ter exatamente \(k\) descendentes.

Critério de extinção

Seja \(m\) o número médio de descendentes por indivíduo,

\[ m=\mathbf{E}[X_{1,1}]=\sum _{k\geq 0} k p_k, \]

e seja \(q\) a probabilidade de extinção. O comportamento do processo depende de \(m\) e do caso degenerado \(p_1=1\):

Teorema 4.1
  • Se \( m \lt 1 \), então \( q = 1 \), ou seja, a extinção ocorre quase certamente.

  • Se \( m \gt 1 \), então \( q \lt 1\).

  • Se \(m=1\) e \(p_1\neq 1\), então \(q=1\).

Demonstração

Considere a função geradora da distribuição de descendência,

\[ f(s)=\mathbf{E}[s^{X_{1,1}}]=\sum _{k\ge 0}p_k s^k, \qquad 0\le s\le 1. \]

Seja

\[ q_n=\P (Z_n=0). \]

Como o estado \(0\) é absorvente, \(q_n\) é também a probabilidade de o processo ter se extinguido até a geração \(n\). Condicionando no número \(k\) de descendentes do indivíduo inicial, a extinção até a geração \(n+1\) ocorre exatamente quando cada uma das \(k\) linhagens se extingue até a geração \(n\). Pela independência das linhagens,

\[ q_{n+1} =\sum _{k\ge 0}p_k q_n^k =f(q_n), \qquad q_0=0. \]

Assim, \((q_n)_n\) é crescente e converge para a probabilidade de extinção \(q\). Pela continuidade de \(f\),

\[ q=f(q). \]

Além disso, se \(s\in [0,1]\) satisfaz \(f(s)=s\), então

\[ q_0=0\le s, \qquad q_n\le s \Longrightarrow q_{n+1}=f(q_n)\le f(s)=s. \]

Por indução, \(q_n\le s\) para todo \(n\); logo \(q\le s\). Portanto, \(q\) é o menor ponto fixo de \(f\) em \([0,1]\).

A função \(f\) é convexa, satisfaz \(f(1)=1\) e

\[ f'(1-)=m \]

(com o valor \(+\infty \) permitido). Se \(m\lt 1\), a convexidade fornece, para \(0\le s\lt 1\),

\[ f(s) \ge f(1)+f'(1-)(s-1) =1+m(s-1). \]

Como \(s-1\lt 0\) e \(m\lt 1\),

\[ 1+m(s-1)\gt 1+(s-1)=s. \]

Logo \(f(s)\gt s\) para todo \(s\lt 1\), o único ponto fixo é \(1\) e \(q=1\).

Se \(m=1\), a convexidade fornece \(f(s)\ge s\) em \([0,1]\). Se houvesse igualdade em algum \(s\lt 1\), a convexidade e a igualdade também em \(1\) forçariam \(f\) a coincidir com a reta identidade em todo o intervalo \([s,1]\) e, por analiticidade em \((0,1)\), em todo \((0,1)\); isso equivale ao caso degenerado \(p_1=1\). Portanto, quando \(p_1\neq 1\), temos novamente \(f(s)\gt s\) para todo \(s\lt 1\) e, assim, \(q=1\).

Finalmente, suponha \(m\gt 1\). Então, para \(s\lt 1\) suficientemente próximo de \(1\),

\[ f(s)\lt s. \]

Como \(f(0)=p_0\ge 0\), a continuidade fornece um ponto fixo em \([0,1)\); se \(p_0=0\), o próprio \(0\) já é ponto fixo. Como \(q\) é o menor ponto fixo, segue que \(q\lt 1\).

Exemplo 4.1 (Distribuição binomial)
Se os indivíduos geram descendentes segundo uma distribuição binomial \( X \sim \operatorname {Bin}(d, p) \), então a média é \( m = d p \). O ponto crítico ocorre quando \( m = 1 \), ou seja,
\[ p_c = \frac{1}{d}. \]
Para \(p\lt p_c\) ocorre extinção quase certa; para \(p\gt p_c\), há probabilidade positiva de sobrevivência. No ponto crítico, vale a ressalva do caso degenerado \(p_1=1\).

O processo de Galton–Watson também é usado em biologia populacional e epidemiologia. Para a percolação, o exemplo binomial permite descrever a componente aberta em árvores regulares.

4.2 Percolação em árvores regulares

Considere \(d\ge 3\) e seja \(\mathbb T_d\) a árvore infinita \(d\)-regular: todo vértice possui exatamente \(d\) vizinhos. Fixe uma raiz \(o\). A escolha da raiz não altera o grafo; ela serve apenas para orientar as arestas em direção ao infinito.

Se \(x_1,\dots ,x_d\) são os vizinhos de \(o\), a remoção de \(o\) decompõe \(\mathbb T_d\) em \(d\) subárvores disjuntas \(T_1,\dots ,T_d\), onde \(T_j\) contém \(x_j\). Vista como árvore enraizada em \(x_j\), cada \(T_j\) possui exatamente \(d-1\) filhos por vértice.

É preciso distinguir a raiz dos demais vértices: a componente de \(o\) na árvore \(d\)-regular não é, desde a geração inicial, um processo de Galton–Watson homogêneo com distribuição \(\operatorname {Bin}(d-1,p)\), pois a raiz possui \(d\) vizinhos. Em cada ramo \(T_j\), porém, o processo de descendência é Galton–Watson com essa distribuição.

Proposição 4.2
Fixe \(j\in \{ 1,\dots ,d\} \). Condicionalmente à abertura da aresta \(\{ o,x_j\} \), o número de vértices da componente de \(o\) em sucessivas gerações dentro de \(T_j\) é um processo de Galton–Watson com distribuição de descendência
\[ \operatorname {Bin}(d-1,p). \]
Os processos associados aos diferentes ramos são independentes.

Demonstração

Cada vértice de \(T_j\) possui \(d-1\) vizinhos mais distantes de \(o\). As arestas que ligam um vértice a esses descendentes são independentes e abertas com probabilidade \(p\). Assim, o número de descendentes abertos de cada indivíduo tem distribuição \(\operatorname {Bin}(d-1,p)\), independentemente dos demais. Ramos distintos usam conjuntos disjuntos de arestas, o que fornece a independência.

Teorema 4.3
Para \(d\ge 3\), na percolação por elos em \(\mathbb T_d\),
\[ p_c(\mathbb T_d)=\frac1{d-1}. \]
Além disso,
\[ \theta _{\mathbb T_d,o}\! \left(\frac1{d-1}\right)=0, \]
e, portanto, não existe componente infinita no ponto crítico quase certamente.

Demonstração

Em cada ramo \(T_j\), a sobrevivência além de \(x_j\) é governada por um processo de Galton–Watson com média

\[ m=p(d-1). \]

Se \(p\le 1/(d-1)\), esse processo se extingue quase certamente. Como há apenas \(d\) ramos,

\[ \P _p(o\leftrightarrow \infty )=0. \]

Logo

\[ p_c(\mathbb T_d)\ge \frac1{d-1}. \]

Se \(p\gt 1/(d-1)\), o processo de Galton–Watson em cada ramo sobrevive com probabilidade positiva. A aresta \(\{ o,x_j\} \) está aberta com probabilidade \(p\gt 0\), independentemente da configuração no restante de \(T_j\). Portanto, para qualquer \(j\),

\[ \P _p\bigl(\{ o,x_j\} \text{ aberta e o ramo }T_j\text{ sobrevive}\bigr) = p\, \P _p(T_j\text{ sobrevive}) \gt 0, \]

o que implica \(\theta _{\mathbb T_d,o}(p)\gt 0\). Assim

\[ p_c(\mathbb T_d)\le \frac1{d-1}. \]

No ponto crítico \(p=1/(d-1)\), a média do processo é \(1\) e a distribuição \(\operatorname {Bin}(d-1,p)\) não é degenerada em \(1\) para \(d\ge 3\). Pelo critério de extinção de Galton–Watson, todos os ramos se extinguem quase certamente; portanto \(\theta _{\mathbb T_d,o}(p_c)=0\).

Por transitividade de \(\mathbb T_d\), todo vértice tem a mesma probabilidade de pertencer a uma componente infinita; no ponto crítico essa probabilidade é zero. Como \(\mathbb T_d\) é enumerável, a probabilidade de existir alguma componente infinita é no máximo a soma, sobre os vértices, dessas probabilidades, e portanto é zero.