O argumento de Duminil-Copin e Tassion
A prova de Duminil-Copin e Tassion para a nitidez da transição de fase na percolação de Bernoulli se baseia em um critério de fronteira. Para cada conjunto finito, o argumento considera uma quantidade que mede o fluxo esperado de conexões através de sua fronteira. A condição de que esse fluxo seja menor que um caracteriza o regime subcrítico.
Ao longo deste capítulo, \(G=(V,E)\) é um grafo infinito, conexo, localmente finito e transitivo, e \(o\in V\) é um vértice fixo. Consideramos percolação de elos de Bernoulli com parâmetro \(p\).
8.1 O critério de fronteira
Se \(S\subset V\) e \(x,y\in S\), escrevemos
quando existe um caminho aberto de \(x\) a \(y\) cujos vértices pertencem a \(S\). Para conjuntos \(A,B\subset S\), a notação \(A\stackrel{S}{\leftrightarrow }B\) tem o significado análogo.
Para \(S\subset V\), definimos a fronteira orientada de arestas por
Cada aresta que cruza a fronteira de \(S\) aparece exatamente uma vez nessa orientação.
Se \(S\) é finito e contém \(o\), definimos
Assim, \(\varphi _p(S)\) é o número esperado de arestas abertas que saem de \(S\) e cuja extremidade interna está conectada a \(o\) por um caminho aberto inteiramente contido em \(S\).
Para \(r\ge 0\), seja \(B_r=B(o,r)\) e defina a susceptibilidade truncada por
A truncação se aplica apenas à soma sobre os vértices de \(B_r\); a conexão continua sendo tomada no grafo inteiro.
A decomposição de um caminho em sua primeira saída de um conjunto finito permite relacionar as conexões internas às conexões que alcançam o exterior. O lema seguinte expressa essa relação.
Suponha que \(z\stackrel{A}{\leftrightarrow }B\). Escolha um caminho aberto simples
contido em \(A\), e seja \(k\) o primeiro índice tal que \(x_{k+1}\notin S\). Então
Os três eventos podem ser testemunhados por conjuntos disjuntos de arestas, usando respectivamente o trecho inicial do caminho, a aresta de saída e o trecho final. Portanto,
A desigualdade de BK e a independência do estado da aresta \(\{ x,y\} \) dão o resultado.
Para \(u\in V(G)\), defina
Como \(B_r\) é finito, \(H_r^*\le |B_r|\lt \infty \), e
Fixe \(u\in V(G)\) e escolha um automorfismo \(\psi _u\) tal que \(\psi _u(o)=u\). Para \(v\in B_r\setminus \psi _uS\), aplique o Lema 8.1 com raiz \(u\), conjunto \(\psi _uS\), \(A=V(G)\) e \(B=\{ v\} \). Obtemos
Somando em \(v\in B_r\setminus \psi _uS\) e usando a transitividade,
A contribuição dos vértices de \(B_r\cap \psi _uS\) é no máximo \(|S|\). Portanto
Tomando o supremo em \(u\),
e, como \(\varphi _p(S)\lt 1\),
Assim
Fazendo \(r\to \infty \) e usando o Exercício 8.1, obtemos
8.2 Um parâmetro crítico alternativo
Defina
Para cada \(S\) finito, \(p\mapsto \varphi _p(S)\) é contínua e não decrescente. Consequentemente, o conjunto
é um intervalo inicial de \([0,1]\). Em particular, todo \(p\lt q_c\) pertence a \(\mathcal Q\).
Se \(p\lt q_c\), o Lema 8.2 implica \(\chi (p)\lt \infty \). Pelo Lema 7.1, existe \(c(p)\gt 0\) tal que
Em particular, \(\theta _G(p)=0\). Logo
A desigualdade oposta será obtida por uma estimativa diferencial para probabilidades de conexão em volume finito.
8.3 A desigualdade diferencial
Para \(r\ge 1\), escreva
O evento \(A_r\) depende apenas das arestas com as duas extremidades em \(B_r\).
Seja \(E_r\) o conjunto das arestas com ambas as extremidades em \(B_r\). Para uma configuração em \(E_r\), defina
No evento \(A_r^c\), temos \(o\in \mathcal S\).
Como \(A_r\) é crescente e depende de um número finito de arestas, a fórmula de Russo dá
Para um evento crescente, condicionado a \(e\) ser pivotal, \(A_r^c\) ocorre exatamente quando \(e\) está fechada. Como a pivotalidade não depende do estado da própria aresta,
Fixe agora \(S\subset B_r\) com \(o\in S\). No evento \(\{ \mathcal S=S\} \), uma aresta \((x,y)\in \partial _eS\) é pivotal para \(A_r\) precisamente quando
Com efeito, todo \(y\in B_r\setminus S\) está conectado a \(S_r(o)\), enquanto toda aresta da fronteira de \(S\) está fechada sempre que sua extremidade interna pertence à componente de \(o\) em \(S\). Além disso, o evento \(\{ \mathcal S=S\} \) é determinado pelas arestas que não têm as duas extremidades em \(S\), ao passo que \(\{ o\stackrel{S}{\leftrightarrow }x\} \) depende apenas das arestas internas a \(S\). Esses eventos são, portanto, independentes.
Decompondo segundo os possíveis valores de \(\mathcal S\), obtemos
que é a desigualdade desejada.
para todo \(p\lt p_c\), existem \(c(p)\gt 0\) e \(C(p)\lt \infty \) tais que
\[ \P _p\bigl[o\leftrightarrow S_n(o)\bigr] \le C(p)e^{-c(p)n}; \]para todo \(p\gt p_c\),
\[ \theta _G(p) \ge \frac{p-p_c}{p(1-p_c)}. \]
Já vimos que \(q_c\le p_c\). Fixe agora \(p\gt q_c\). Para todo \(t\gt q_c\) e todo conjunto finito \(S\ni o\), temos \(\varphi _t(S)\ge 1\). Portanto, pelo Lema 8.3,
Escrevendo \(f_r(t)=1-\P _t(A_r)\),
Integre entre \(q\) e \(p\), onde \(q_c\lt q\lt p\):
Como \(f_r(q)\le 1\),
Fazendo \(q\downarrow q_c\),
Finalmente, fazendo \(r\to \infty \),
Logo \(p_c\le q_c\), e portanto \(p_c=q_c\). A mesma desigualdade, agora com \(q_c=p_c\), dá o segundo item.
Para o primeiro item, se \(p\lt p_c=q_c\), então \(p\in \mathcal Q\), de modo que existe \(S\ni o\) finito com \(\varphi _p(S)\lt 1\). O Lema 8.2 fornece \(\chi (p)\lt \infty \), e o Lema 7.1 fornece o decaimento exponencial.
8.4 A susceptibilidade no ponto crítico
O critério de fronteira também permite provar a divergência da susceptibilidade no ponto crítico.
Como \(q_c=p_c\), nenhum conjunto finito \(S\ni o\) satisfaz \(\varphi _{p_c}(S)\lt 1\). De fato, se \(p_c\lt 1\) e tal conjunto existisse, a continuidade de \(p\mapsto \varphi _p(S)\) daria a mesma desigualdade para algum \(p\gt p_c\), contradizendo a definição de \(q_c\). Se \(p_c=1\), considere a componente \(K\) de \(o\) no subgrafo induzido por \(S\). Como \(K\) é finita e \(G\) é infinito e conexo, existe uma aresta \((x,y)\) com \(x\in K\) e \(y\notin K\). Em \(p=1\), temos \(o\stackrel{S}{\leftrightarrow }x\), e portanto \(\varphi _1(S)\ge 1\).
Logo, para todo \(r\),
Se \(D\) é o grau de \(G\), então
Na última desigualdade usamos que, se \((x,y)\in \partial _eB_r\), então \(d(o,x)=r\), que cada \(x\) participa de no máximo \(D\) arestas de saída e que
Portanto \(\chi (p_c)=\infty \).
A equivalência final segue do teorema anterior e do fato de que \(\chi (p)=\infty \) para \(p\gt p_c\).