Capítulo 2

Percolação

Seja \(G=(V,E)\) um grafo infinito, conexo e localmente finito. Como as bolas finitas em torno de um vértice esgotam \(V\), tanto \(V\) quanto \(E\) são enumeráveis. Na percolação de elos de Bernoulli com parâmetro \(p\in [0,1]\), cada aresta é declarada aberta com probabilidade \(p\) e fechada com probabilidade \(1-p\), independentemente das demais. O objeto resultante é um subgrafo aleatório de \(G\), e nosso interesse principal será compreender suas propriedades de conectividade.

O modelo foi introduzido por Broadbent e Hammersley em 1957. Apesar da simplicidade da definição, ele apresenta uma transição de fase: ao variar \(p\), passa-se de um regime sem componentes infinitas para outro em que componentes infinitas podem ocorrer.

2.1 O modelo de Bernoulli

O espaço de configurações é

\[ \Omega =\{ 0,1\} ^{E}. \]

Para \(\omega \in \Omega \) e \(e\in E\), dizemos que \(e\) está aberta quando \(\omega (e)=1\) e fechada quando \(\omega (e)=0\).

Se \(F\subset E\) é finito e \(\sigma \in \{ 0,1\} ^{F}\), o cilindro determinado por \((F,\sigma )\) é

\[ C(F,\sigma )=\{ \omega \in \Omega :\omega (e)=\sigma (e)\text{ para todo }e\in F\} . \]

Denotamos por \(\mathcal{F}_0\) a álgebra dos eventos cilíndricos e por

\[ \mathcal{F}=\sigma (\mathcal{F}_0) \]

a \(\sigma \)-álgebra produto. A medida produto \(\P _p\) é caracterizada por

\[ \P _p(C(F,\sigma )) = \prod _{\substack {e\in F\\ \sigma (e)=1}}p \prod _{\substack {e\in F\\ \sigma (e)=0}}(1-p). \]

Equivalentemente, sob \(\P _p\) as variáveis \((\omega (e))_{e\in E}\) são independentes e têm distribuição de Bernoulli com parâmetro \(p\). A tripla \((\Omega ,\mathcal{F},\P _p)\) será nosso espaço de probabilidade.

Dada \(\omega \in \Omega \), escrevemos \(G_\omega \) para o subgrafo de \(G\) com conjunto de vértices \(V\) e conjunto de arestas abertas

\[ E(\omega )=\{ e\in E:\omega (e)=1\} . \]

Para \(x\in V\), denotamos por \(\mathcal{C}(x)=\mathcal{C}_\omega (x)\) a componente de \(x\) em \(G_\omega \). Escrevemos

\[ x\leftrightarrow y \]

quando \(x\) e \(y\) pertencem à mesma componente aberta. Para \(A,B\subset V\), o evento \(A\leftrightarrow B\) significa que existem \(a\in A\) e \(b\in B\) com \(a\leftrightarrow b\). Finalmente,

\[ x\leftrightarrow \infty \]

denota o evento \(|\mathcal{C}(x)|=\infty \).

Exercício 2.1
Mostre que, para cada \(x\in V\), o evento \(\{ x\leftrightarrow \infty \} \) é mensurável. Sugestão: escreva-o como uma interseção enumerável de eventos que dependem apenas de uma bola finita em torno de \(x\).

2.2 Eventos caudais e a lei 0–1

A existência de uma componente infinita é um evento global: modificar um número finito de arestas não altera sua ocorrência. A linguagem adequada para formalizar essa observação é a de eventos caudais.

Se \((A_n)_{n\ge 1}\) é uma sequência de eventos, definimos sua \(\sigma \)-álgebra caudal por

\[ \mathcal{T} = \bigcap _{n\ge 1}\sigma (A_n,A_{n+1},\ldots ). \]

Os eventos de \(\mathcal{T}\) são chamados eventos caudais.

Teorema 2.1 (Lei \(0\)–\(1\) de Kolmogorov)
Se \(A_1,A_2,\ldots \) são eventos independentes e \(A\) pertence à \(\sigma \)-álgebra caudal associada, então
\[ \P (A)\in \{ 0,1\} . \]

Demonstração

Para cada \(n\), o evento \(A\) pertence a \(\sigma (A_{n+1},A_{n+2},\ldots )\) e, portanto, é independente de \(\sigma (A_1,\ldots ,A_n)\). Como

\[ \sigma (A_1,A_2,\ldots ) = \sigma \! \left(\bigcup _{n\ge 1}\sigma (A_1,\ldots ,A_n)\right), \]

um argumento padrão de classe monótona mostra que \(A\) é independente de toda a \(\sigma \)-álgebra \(\sigma (A_1,A_2,\ldots )\). Mas \(A\) pertence a essa \(\sigma \)-álgebra. Logo, \(A\) é independente de si mesmo e

\[ \P (A)=\P (A\cap A)=\P (A)^2. \]

Portanto, \(\P (A)\) é \(0\) ou \(1\).

No espaço de percolação, para \(F\subset E\) finito, escrevemos

\[ \mathcal{F}_F=\sigma (\omega (e):e\in F) \qquad \text{e}\qquad \mathcal{T}_F=\sigma (\omega (e):e\notin F). \]

A \(\sigma \)-álgebra caudal das arestas é

\[ \mathcal{T}_{\mathrm{edge}} = \bigcap _{F\subset E,\, F\text{ finito}}\mathcal{T}_F. \]

Assim, um evento é caudal quando seu valor não pode ser alterado modificando apenas um número finito de arestas.

A aproximação por eventos cilíndricos será usada várias vezes neste livro.

Teorema 2.2
Seja \((\Omega ,\mathcal{F},\P )\) um espaço de probabilidade e seja \(\mathcal{A}\subset \mathcal{F}\) uma álgebra que gera \(\mathcal{F}\). Para todo \(B\in \mathcal{F}\) e todo \(\varepsilon \gt 0\), existe \(A\in \mathcal{A}\) tal que
\[ \P (A\triangle B)\lt \varepsilon . \]

Demonstração

Seja \(\mathcal{M}\) a classe dos conjuntos \(B\in \mathcal{F}\) que podem ser aproximados, em diferença simétrica, por elementos de \(\mathcal{A}\) com erro arbitrariamente pequeno. Claramente \(\mathcal{A}\subset \mathcal{M}\) e \(\mathcal{M}\) é fechada por complementos.

Suponha agora que \(B_n\uparrow B\) com \(B_n\in \mathcal{M}\). Pela continuidade da medida, para todo \(\varepsilon \gt 0\) existe \(n\) tal que \(\P (B\setminus B_n)\lt \varepsilon /2\). Escolhendo \(A\in \mathcal{A}\) com \(\P (A\triangle B_n)\lt \varepsilon /2\), obtemos \(\P (A\triangle B)\lt \varepsilon \). Logo \(B\in \mathcal{M}\). A estabilidade por interseções decrescentes segue tomando complementos. Portanto \(\mathcal{M}\) é uma classe monótona que contém a álgebra \(\mathcal{A}\). Pelo teorema da classe monótona,

\[ \mathcal{F}=\sigma (\mathcal{A})\subseteq \mathcal{M}, \]

e a inclusão oposta é imediata.

Considere o evento

\[ I=\{ \omega :\text{$G_\omega $ contém uma componente infinita}\} . \]

Ele é mensurável, pois, sendo \(V\) enumerável,

\[ I=\bigcup _{x\in V}\{ x\leftrightarrow \infty \} . \]

Mais importante, \(I\) é caudal. De fato, suponha que duas configurações \(\omega \) e \(\eta \) coincidam fora de um conjunto finito \(F\subset E\). Se \(\omega \) possui uma componente infinita \(C\), remover as arestas de \(F\) de \(C\) produz apenas um número finito de componentes; pelo menos uma delas continua infinita. Abrir depois algumas arestas de \(F\) não pode destruir essa componente. Logo, \(\eta \) também possui uma componente infinita. Trocando os papéis de \(\omega \) e \(\eta \), obtemos a equivalência.

Teorema 2.3
Para todo grafo infinito, conexo e localmente finito \(G\), defina
\[ \Theta _G(p)=\P _p(I) = \P _p(\text{existe uma componente infinita}). \]
Então
\[ \Theta _G(p)\in \{ 0,1\} \qquad \text{para todo }p\in [0,1]. \]

Demonstração

Enumere \(E=\{ e_1,e_2,\ldots \} \). As variáveis coordenadas \(\omega (e_i)\) são independentes e, como acabamos de mostrar, \(I\) pertence à \(\sigma \)-álgebra caudal dessas coordenadas. A conclusão segue da lei \(0\)–\(1\) de Kolmogorov.

2.3 Acoplamento monótono e parâmetro crítico

É útil construir simultaneamente as percolações para todos os valores de \(p\). Seja \((U_e)_{e\in E}\) uma família de variáveis independentes, uniformes em \([0,1]\), e defina

\[ \omega _p(e)=\mathbf{1}_{\{ U_e\le p\} }. \]

Para cada \(p\), a configuração \(\omega _p\) tem distribuição \(\P _p\). Além disso,

\[ p\le q \quad \Longrightarrow \quad \omega _p\le \omega _q \]

coordenada a coordenada.

Um evento \(A\subset \Omega \) é crescente se

\[ \omega \in A,\quad \omega \le \eta \quad \Longrightarrow \quad \eta \in A. \]

É decrescente quando seu complementar é crescente.

Lema 2.4
Se \(A\) é crescente e \(B\) é decrescente, então, para \(p\le q\),
\[ \P _p(A)\le \P _q(A), \qquad \P _p(B)\ge \P _q(B). \]

Demonstração

No acoplamento acima, \(\omega _p\le \omega _q\). Assim, \(\omega _p\in A\) implica \(\omega _q\in A\), enquanto \(\omega _q\in B\) implica \(\omega _p\in B\). Tomando probabilidades, obtemos as duas desigualdades.

O evento \(I\) é crescente. Portanto, \(p\mapsto \Theta _G(p)\) é não decrescente. Como \(\Theta _G(p)\) só assume os valores \(0\) e \(1\), existe um único limiar entre os dois regimes.

Definição 2.1
Definimos o parâmetro crítico de \(G\) por
\[ p_c(G) = \sup \{ p:\Theta _G(p)=0\} = \inf \{ p:\Theta _G(p)=1\} . \]

Como \(G\) é infinito e conexo, \(\Theta _G(0)=0\) e \(\Theta _G(1)=1\). Consequentemente,

\[ \Theta _G(p)=0\quad \text{se }p\lt p_c(G), \qquad \Theta _G(p)=1\quad \text{se }p\gt p_c(G). \]

Nada nessa definição determina o comportamento exatamente em \(p=p_c(G)\). A percolação crítica é um dos temas centrais da teoria, e seu comportamento depende fortemente da geometria do grafo.

Exercício 2.2
Mostre diretamente que \(p_c(\mathbb {Z})=1\).

2.4 Invariância e ergodicidade

Em grafos com muitas simetrias, a lei \(0\)–\(1\) também pode ser vista como uma consequência da ergodicidade.

Se \(\varphi \in \operatorname {Aut}(G)\) e \(\omega \in \Omega \), definimos

\[ (\varphi \omega )(e)=\omega (\varphi ^{-1}e). \]

Para um evento \(A\in \mathcal{F}\), escrevemos

\[ \varphi A=\{ \varphi \omega :\omega \in A\} . \]

Dizemos que \(A\) é invariante se \(\varphi A=A\) para todo \(\varphi \in \operatorname {Aut}(G)\). A medida de Bernoulli \(\P _p\) é invariante sob automorfismos, pois os estados das arestas são i.i.d.

Denote por \(\mathcal{I}_{\operatorname {Aut}(G)}\) a \(\sigma \)-álgebra dos eventos invariantes. Dizemos que \(\P _p\) é \(\operatorname {Aut}(G)\)-ergódica se

\[ A\in \mathcal{I}_{\operatorname {Aut}(G)} \quad \Longrightarrow \quad \P _p(A)\in \{ 0,1\} . \]

Proposição 2.5 (Ergodicidade da percolação)
Suponha que \(G\) seja conexo e localmente finito e que toda órbita de vértices sob \(\operatorname {Aut}(G)\) seja infinita. Então \(\P _p\) é \(\operatorname {Aut}(G)\)-ergódica.

Demonstração

Seja \(A\) um evento invariante e fixe \(\varepsilon \gt 0\). Pelo Teorema 2.2, existe um evento cilíndrico \(B\), dependente apenas de um conjunto finito de arestas \(F\), tal que

\[ \P _p(A\triangle B)\lt \varepsilon . \]

Se \(F=\varnothing \), então \(B\) é constante e a estimativa abaixo é imediata. Podemos, portanto, supor \(F\neq \varnothing \). Escolha um vértice \(x\) incidente a alguma aresta de \(F\) e seja \(K\) o conjunto finito dos extremos das arestas de \(F\). Como a órbita de \(x\) é infinita e \(G\) é localmente finito, ela é não limitada. Logo existe \(\varphi \in \operatorname {Aut}(G)\) tal que

\[ \operatorname {dist}(\varphi x,K)\gt \operatorname {diam}(K)+1. \]

Como automorfismos preservam distâncias, isso implica \(\varphi F\cap F=\emptyset \). Portanto, os eventos \(B\) e \(\varphi B\) dependem de conjuntos disjuntos de coordenadas e são independentes.

Além disso, \(A=\varphi A\) e \(\P _p(\varphi B)=\P _p(B)\). Usando

\[ (C_1\cap D_1)\triangle (C_2\cap D_2) \subseteq (C_1\triangle C_2)\cup (D_1\triangle D_2), \]

obtemos

\[ \bigl|\P _p(A\cap \varphi A)-\P _p(B\cap \varphi B)\bigr| \le \P _p(A\triangle B) +\P _p(\varphi A\triangle \varphi B) \lt 2\varepsilon . \]

Por outro lado,

\begin{align*} \bigl|\P _p(B)^2-\P _p(A)^2\bigr| & = |\P _p(B)-\P _p(A)|\, \bigl(\P _p(B)+\P _p(A)\bigr)\\ & \le 2\P _p(A\triangle B) \lt 2\varepsilon . \end{align*}

Como \(A=\varphi A\) e \(B\) e \(\varphi B\) são independentes,

\begin{align*} \bigl|\P _p(A)-\P _p(A)^2\bigr| & = \bigl|\P _p(A\cap \varphi A)-\P _p(A)^2\bigr|\\ & \le \bigl|\P _p(A\cap \varphi A)-\P _p(B\cap \varphi B)\bigr| + \bigl|\P _p(B)^2-\P _p(A)^2\bigr|\\ & \lt 4\varepsilon . \end{align*}

Como \(\varepsilon \) é arbitrário, \(\P _p(A)=\P _p(A)^2\).

Exercício 2.3
Mostre que o evento \(I\) de existência de uma componente infinita é invariante sob \(\operatorname {Aut}(G)\). Conclua que, em um grafo transitivo infinito, a Proposição 2.5 fornece outra prova do Teorema 2.3.

2.5 Desigualdade de Harris

A monotonicidade também produz correlação positiva. O resultado seguinte é a forma da desigualdade FKG de que precisaremos. No contexto de medidas produto de Bernoulli, ela é usualmente chamada de desigualdade de Harris.

Uma função \(f:\Omega \to \mathbb {R}\) é crescente quando

\[ \omega \le \eta \quad \Longrightarrow \quad f(\omega )\le f(\eta ). \]

Antes da prova, registramos uma forma conveniente da aproximação por informação finita. Enumere \(E=\{ e_1,e_2,\ldots \} \) e defina

\[ \mathcal{F}_n=\sigma (\omega (e_1),\ldots ,\omega (e_n)). \]

Lema 2.6 (Aproximação por informação finita)
Se \(X\in L^2(\P _p)\) e
\[ X_n=\mathbf{E}_p[X\mid \mathcal{F}_n], \]
então \(X_n\to X\) em \(L^2\). Além disso, se \(X\) é crescente, cada \(X_n\) é crescente como função das primeiras \(n\) coordenadas.

Demonstração

Pelo Teorema 2.2, indicadores de eventos cilíndricos são densos, em \(L^2\), entre indicadores de eventos mensuráveis. Por aproximação por funções simples, as variáveis que dependem de um número finito de coordenadas são densas em \(L^2(\P _p)\).

Fixe \(\varepsilon \gt 0\) e escolha uma variável \(Y\), mensurável com respeito a \(\mathcal{F}_N\) para algum \(N\), tal que \(\| X-Y\| _2\lt \varepsilon \). Para \(n\ge N\), temos \(\mathbf{E}_p[Y\mid \mathcal{F}_n]=Y\). Pela contração da esperança condicional em \(L^2\),

\[ \| X_n-X\| _2 \le \| \mathbf{E}_p[X-Y\mid \mathcal{F}_n]\| _2+\| Y-X\| _2 \le 2\varepsilon . \]

Isso prova a convergência.

Se \(X\) é crescente, fixar as primeiras \(n\) coordenadas e fazer a média sobre as restantes preserva a ordem coordenada a coordenada. Logo, \(X_n\) também é crescente.

Proposição 2.7 (Desigualdade de Harris)
Se \(A\) e \(B\) são eventos crescentes, então
\[ \P _p(A\cap B)\ge \P _p(A)\P _p(B). \]
Mais geralmente, se \(f\) e \(g\) são funções mensuráveis, limitadas e crescentes, então
\[ \mathbf{E}_p[fg]\ge \mathbf{E}_p[f]\mathbf{E}_p[g]. \]

Demonstração

Começamos com o caso em que \(f\) e \(g\) dependem apenas de \(n\) arestas. A prova é por indução em \(n\).

Para \(n=1\),

\[ \mathbf{E}_p[fg] =pf(1)g(1)+(1-p)f(0)g(0), \]

enquanto

\[ \mathbf{E}_p[f]=pf(1)+(1-p)f(0), \qquad \mathbf{E}_p[g]=pg(1)+(1-p)g(0). \]

Subtraindo e fatorando,

\[ \mathbf{E}_p[fg]-\mathbf{E}_p[f]\mathbf{E}_p[g] = p(1-p)\bigl(f(1)-f(0)\bigr)\bigl(g(1)-g(0)\bigr) \ge 0, \]

pois \(f\) e \(g\) são crescentes.

Suponha o resultado válido para \(n-1\) coordenadas. Condicione nos primeiros \(n-1\) estados e aplique o caso de uma coordenada à última. Se

\[ \bar f=\mathbf{E}_p[f\mid \omega (e_1),\ldots ,\omega (e_{n-1})], \qquad \bar g=\mathbf{E}_p[g\mid \omega (e_1),\ldots ,\omega (e_{n-1})], \]

então

\[ \mathbf{E}_p[fg]\ge \mathbf{E}_p[\bar f\, \bar g]. \]

As funções \(\bar f\) e \(\bar g\) são crescentes nas primeiras \(n-1\) coordenadas. Pela hipótese de indução,

\begin{equation} \label{eq3} \mathbf{E}_p[\bar f\, \bar g] \ge \mathbf{E}_p[\bar f]\mathbf{E}_p[\bar g] = \mathbf{E}_p[f]\mathbf{E}_p[g]. \tag{2.1} \end{equation}

Isso prova o caso finito.

Para o caso geral, defina

\[ f_n=\mathbf{E}_p[f\mid \mathcal{F}_n], \qquad g_n=\mathbf{E}_p[g\mid \mathcal{F}_n]. \]

Pelo lema anterior, \(f_n\) e \(g_n\) são crescentes, dependem apenas de \(n\) coordenadas e convergem em \(L^2\) para \(f\) e \(g\), respectivamente. Pelo caso finito,

\[ \mathbf{E}_p[f_ng_n]\ge \mathbf{E}_p[f_n]\mathbf{E}_p[g_n]. \]

Tomando limites, obtemos a desigualdade desejada. A versão para eventos segue aplicando o resultado a \(f=\mathbf{1}_A\) e \(g=\mathbf{1}_B\).

Corolário 2.8
Se \(A_1,\ldots ,A_k\) são eventos crescentes, então
\[ \P _p\! \left(\bigcap _{j=1}^k A_j\right) \ge \prod _{j=1}^k\P _p(A_j). \]
A mesma afirmação vale para eventos decrescentes.

Demonstração

A primeira afirmação segue por indução. Para eventos decrescentes, aplique a desigualdade de Harris às funções \(-\mathbf{1}_{A_j}\) ou, equivalentemente, troque aberta por fechada.

2.6 A componente de um vértice

Para \(x\in V\), definimos a função de percolação enraizada

\[ \theta _{G,x}(p)=\P _p(x\leftrightarrow \infty ). \]

Se \(G\) é transitivo, esse valor não depende de \(x\), e escrevemos simplesmente \(\theta _G(p)\).

A função \(p\mapsto \theta _{G,x}(p)\) é não decrescente. A relação entre \(\theta _{G,x}\) e a probabilidade global \(\Theta _G\) é especialmente simples em grafos conexos.

Teorema 2.9
Seja \(G\) um grafo infinito, conexo e localmente finito. Para cada \(p\in [0,1]\), as seguintes afirmações são equivalentes:
  1. \(\Theta _G(p)=1\);

  2. existe \(x\in V\) tal que \(\theta _{G,x}(p)\gt 0\);

  3. para todo \(x\in V\), \(\theta _{G,x}(p)\gt 0\).

Demonstração

Como

\[ I=\bigcup _{z\in V}\{ z\leftrightarrow \infty \} \]

e \(V\) é enumerável, \(\Theta _G(p)=1\) implica que existe \(z\) com \(\theta _{G,z}(p)\gt 0\).

Fixe agora \(x\in V\). Se \(\theta _{G,z}(p)\gt 0\), então necessariamente \(p\gt 0\). Escolha um caminho simples entre \(x\) e \(z\) com \(m\) arestas. Se todas essas arestas estiverem abertas, então \(x\leftrightarrow z\); pela independência,

\[ \P _p(x\leftrightarrow z)\ge p^m\gt 0. \]

Os eventos \(\{ x\leftrightarrow z\} \) e \(\{ z\leftrightarrow \infty \} \) são crescentes. Pela desigualdade de Harris,

\[ \theta _{G,x}(p) \ge \P _p(x\leftrightarrow z,\ z\leftrightarrow \infty ) \ge \P _p(x\leftrightarrow z)\, \theta _{G,z}(p) \gt 0. \]

Logo, (2) implica (3).

Finalmente, (3) implica (2), e se \(\theta _{G,x}(p)\gt 0\) para algum \(x\), então \(\Theta _G(p)\gt 0\). Pelo Teorema 2.3, \(\Theta _G(p)=1\).

Corolário 2.10
Para todo \(x\in V\),
\[ p_c(G) = \sup \{ p:\theta _{G,x}(p)=0\} = \inf \{ p:\theta _{G,x}(p)\gt 0\} . \]
Em particular, o parâmetro crítico não depende da escolha da raiz.

2.7 Grafos unidimensionais

O caso de \(\mathbb {Z}\) sugere uma classe de grafos que podem ser separados do infinito por cortes de tamanho uniformemente limitado.

Definição 2.2 (Conjunto de corte)
Seja \(o\in V\). Um conjunto finito de arestas \(A\subset E\) é um conjunto de corte para \(o\) se a componente de \(o\) no grafo \(G\setminus A\) é finita. Equivalentemente, todo caminho infinito simples iniciado em \(o\) utiliza alguma aresta de \(A\).

Em \(\mathbb {Z}\), tomando \(o=0\), podemos escolher

\[ A_n=\bigl\{ \{ n,n+1\} ,\{ -n,-n-1\} \bigr\} , \qquad n\ge 0. \]

Os conjuntos \(A_n\) são dois a dois disjuntos, são conjuntos de corte para \(0\) e têm cardinalidade \(2\).

Definição 2.3 (Grafo unidimensional)
Um grafo infinito e conexo \(G\) é chamado unidimensional se existem um vértice \(o\in V\) e uma sequência \((A_n)_{n\ge 1}\) de conjuntos de corte para \(o\), dois a dois disjuntos, tais que
\[ \sup _n|A_n|\lt \infty . \]

Exercício 2.4

Mostre que o grafo escada \(\mathbb {Z}\times \{ 0,1\} \) é unidimensional.

Exercício 2.5
Seja \(G\) um grupo finitamente gerado e suponha que \(H\le G\) tenha índice finito e seja isomorfo a \(\mathbb {Z}\). Mostre que qualquer grafo de Cayley de \(G\) é unidimensional.

Teorema 2.11
Se \(G\) é unidimensional, então
\[ p_c(G)=1. \]

Demonstração

Sejam \(o\) e \((A_n)\) como na definição, e escolha \(M\lt \infty \) tal que \(|A_n|\le M\) para todo \(n\). Para \(p\lt 1\), denote por \(\mathcal{E}_n\) o evento de que todas as arestas de \(A_n\) estão fechadas. Então

\[ \P _p(\mathcal{E}_n)=(1-p)^{|A_n|}\ge (1-p)^M\gt 0. \]

Como os conjuntos \(A_n\) são dois a dois disjuntos, os eventos \(\mathcal{E}_n\) são independentes. Assim,

\begin{align*} \P _p\! \left(\bigcap _{k=1}^n\mathcal{E}_k^c\right) & =\prod _{k=1}^n\P _p(\mathcal E_k^c)\\ & =\prod _{k=1}^n\bigl(1-\P _p(\mathcal E_k)\bigr)\\ & \le \bigl(1-(1-p)^M\bigr)^n \longrightarrow 0. \end{align*}

Como os eventos \(\bigcap _{k=1}^n\mathcal E_k^c\) decrescem com \(n\), pela continuidade da probabilidade,

\[ \P _p\! \left(\bigcap _{k\ge 1}\mathcal E_k^c\right) = \lim _{n\to \infty } \P _p\! \left(\bigcap _{k=1}^n\mathcal E_k^c\right) =0. \]

Portanto, quase certamente algum \(\mathcal{E}_n\) ocorre. Quando isso acontece, todas as arestas de um conjunto de corte para \(o\) estão fechadas, e então \(|\mathcal{C}(o)|\lt \infty \). Logo,

\[ \theta _{G,o}(p)=0 \qquad \text{para todo }p\lt 1. \]

Pelo corolário anterior, \(p_c(G)=1\).