Percolação
Seja \(G=(V,E)\) um grafo infinito, conexo e localmente finito. Como as bolas finitas em torno de um vértice esgotam \(V\), tanto \(V\) quanto \(E\) são enumeráveis. Na percolação de elos de Bernoulli com parâmetro \(p\in [0,1]\), cada aresta é declarada aberta com probabilidade \(p\) e fechada com probabilidade \(1-p\), independentemente das demais. O objeto resultante é um subgrafo aleatório de \(G\), e nosso interesse principal será compreender suas propriedades de conectividade.
O modelo foi introduzido por Broadbent e Hammersley em 1957. Apesar da simplicidade da definição, ele apresenta uma transição de fase: ao variar \(p\), passa-se de um regime sem componentes infinitas para outro em que componentes infinitas podem ocorrer.
2.1 O modelo de Bernoulli
O espaço de configurações é
Para \(\omega \in \Omega \) e \(e\in E\), dizemos que \(e\) está aberta quando \(\omega (e)=1\) e fechada quando \(\omega (e)=0\).
Se \(F\subset E\) é finito e \(\sigma \in \{ 0,1\} ^{F}\), o cilindro determinado por \((F,\sigma )\) é
Denotamos por \(\mathcal{F}_0\) a álgebra dos eventos cilíndricos e por
a \(\sigma \)-álgebra produto. A medida produto \(\P _p\) é caracterizada por
Equivalentemente, sob \(\P _p\) as variáveis \((\omega (e))_{e\in E}\) são independentes e têm distribuição de Bernoulli com parâmetro \(p\). A tripla \((\Omega ,\mathcal{F},\P _p)\) será nosso espaço de probabilidade.
Dada \(\omega \in \Omega \), escrevemos \(G_\omega \) para o subgrafo de \(G\) com conjunto de vértices \(V\) e conjunto de arestas abertas
Para \(x\in V\), denotamos por \(\mathcal{C}(x)=\mathcal{C}_\omega (x)\) a componente de \(x\) em \(G_\omega \). Escrevemos
quando \(x\) e \(y\) pertencem à mesma componente aberta. Para \(A,B\subset V\), o evento \(A\leftrightarrow B\) significa que existem \(a\in A\) e \(b\in B\) com \(a\leftrightarrow b\). Finalmente,
denota o evento \(|\mathcal{C}(x)|=\infty \).
2.2 Eventos caudais e a lei 0–1
A existência de uma componente infinita é um evento global: modificar um número finito de arestas não altera sua ocorrência. A linguagem adequada para formalizar essa observação é a de eventos caudais.
Se \((A_n)_{n\ge 1}\) é uma sequência de eventos, definimos sua \(\sigma \)-álgebra caudal por
Os eventos de \(\mathcal{T}\) são chamados eventos caudais.
Para cada \(n\), o evento \(A\) pertence a \(\sigma (A_{n+1},A_{n+2},\ldots )\) e, portanto, é independente de \(\sigma (A_1,\ldots ,A_n)\). Como
um argumento padrão de classe monótona mostra que \(A\) é independente de toda a \(\sigma \)-álgebra \(\sigma (A_1,A_2,\ldots )\). Mas \(A\) pertence a essa \(\sigma \)-álgebra. Logo, \(A\) é independente de si mesmo e
Portanto, \(\P (A)\) é \(0\) ou \(1\).
No espaço de percolação, para \(F\subset E\) finito, escrevemos
A \(\sigma \)-álgebra caudal das arestas é
Assim, um evento é caudal quando seu valor não pode ser alterado modificando apenas um número finito de arestas.
A aproximação por eventos cilíndricos será usada várias vezes neste livro.
Seja \(\mathcal{M}\) a classe dos conjuntos \(B\in \mathcal{F}\) que podem ser aproximados, em diferença simétrica, por elementos de \(\mathcal{A}\) com erro arbitrariamente pequeno. Claramente \(\mathcal{A}\subset \mathcal{M}\) e \(\mathcal{M}\) é fechada por complementos.
Suponha agora que \(B_n\uparrow B\) com \(B_n\in \mathcal{M}\). Pela continuidade da medida, para todo \(\varepsilon \gt 0\) existe \(n\) tal que \(\P (B\setminus B_n)\lt \varepsilon /2\). Escolhendo \(A\in \mathcal{A}\) com \(\P (A\triangle B_n)\lt \varepsilon /2\), obtemos \(\P (A\triangle B)\lt \varepsilon \). Logo \(B\in \mathcal{M}\). A estabilidade por interseções decrescentes segue tomando complementos. Portanto \(\mathcal{M}\) é uma classe monótona que contém a álgebra \(\mathcal{A}\). Pelo teorema da classe monótona,
e a inclusão oposta é imediata.
Considere o evento
Ele é mensurável, pois, sendo \(V\) enumerável,
Mais importante, \(I\) é caudal. De fato, suponha que duas configurações \(\omega \) e \(\eta \) coincidam fora de um conjunto finito \(F\subset E\). Se \(\omega \) possui uma componente infinita \(C\), remover as arestas de \(F\) de \(C\) produz apenas um número finito de componentes; pelo menos uma delas continua infinita. Abrir depois algumas arestas de \(F\) não pode destruir essa componente. Logo, \(\eta \) também possui uma componente infinita. Trocando os papéis de \(\omega \) e \(\eta \), obtemos a equivalência.
Enumere \(E=\{ e_1,e_2,\ldots \} \). As variáveis coordenadas \(\omega (e_i)\) são independentes e, como acabamos de mostrar, \(I\) pertence à \(\sigma \)-álgebra caudal dessas coordenadas. A conclusão segue da lei \(0\)–\(1\) de Kolmogorov.
2.3 Acoplamento monótono e parâmetro crítico
É útil construir simultaneamente as percolações para todos os valores de \(p\). Seja \((U_e)_{e\in E}\) uma família de variáveis independentes, uniformes em \([0,1]\), e defina
Para cada \(p\), a configuração \(\omega _p\) tem distribuição \(\P _p\). Além disso,
coordenada a coordenada.
Um evento \(A\subset \Omega \) é crescente se
É decrescente quando seu complementar é crescente.
No acoplamento acima, \(\omega _p\le \omega _q\). Assim, \(\omega _p\in A\) implica \(\omega _q\in A\), enquanto \(\omega _q\in B\) implica \(\omega _p\in B\). Tomando probabilidades, obtemos as duas desigualdades.
O evento \(I\) é crescente. Portanto, \(p\mapsto \Theta _G(p)\) é não decrescente. Como \(\Theta _G(p)\) só assume os valores \(0\) e \(1\), existe um único limiar entre os dois regimes.
Como \(G\) é infinito e conexo, \(\Theta _G(0)=0\) e \(\Theta _G(1)=1\). Consequentemente,
Nada nessa definição determina o comportamento exatamente em \(p=p_c(G)\). A percolação crítica é um dos temas centrais da teoria, e seu comportamento depende fortemente da geometria do grafo.
2.4 Invariância e ergodicidade
Em grafos com muitas simetrias, a lei \(0\)–\(1\) também pode ser vista como uma consequência da ergodicidade.
Se \(\varphi \in \operatorname {Aut}(G)\) e \(\omega \in \Omega \), definimos
Para um evento \(A\in \mathcal{F}\), escrevemos
Dizemos que \(A\) é invariante se \(\varphi A=A\) para todo \(\varphi \in \operatorname {Aut}(G)\). A medida de Bernoulli \(\P _p\) é invariante sob automorfismos, pois os estados das arestas são i.i.d.
Denote por \(\mathcal{I}_{\operatorname {Aut}(G)}\) a \(\sigma \)-álgebra dos eventos invariantes. Dizemos que \(\P _p\) é \(\operatorname {Aut}(G)\)-ergódica se
Seja \(A\) um evento invariante e fixe \(\varepsilon \gt 0\). Pelo Teorema 2.2, existe um evento cilíndrico \(B\), dependente apenas de um conjunto finito de arestas \(F\), tal que
Se \(F=\varnothing \), então \(B\) é constante e a estimativa abaixo é imediata. Podemos, portanto, supor \(F\neq \varnothing \). Escolha um vértice \(x\) incidente a alguma aresta de \(F\) e seja \(K\) o conjunto finito dos extremos das arestas de \(F\). Como a órbita de \(x\) é infinita e \(G\) é localmente finito, ela é não limitada. Logo existe \(\varphi \in \operatorname {Aut}(G)\) tal que
Como automorfismos preservam distâncias, isso implica \(\varphi F\cap F=\emptyset \). Portanto, os eventos \(B\) e \(\varphi B\) dependem de conjuntos disjuntos de coordenadas e são independentes.
Além disso, \(A=\varphi A\) e \(\P _p(\varphi B)=\P _p(B)\). Usando
obtemos
Por outro lado,
Como \(A=\varphi A\) e \(B\) e \(\varphi B\) são independentes,
Como \(\varepsilon \) é arbitrário, \(\P _p(A)=\P _p(A)^2\).
2.5 Desigualdade de Harris
A monotonicidade também produz correlação positiva. O resultado seguinte é a forma da desigualdade FKG de que precisaremos. No contexto de medidas produto de Bernoulli, ela é usualmente chamada de desigualdade de Harris.
Uma função \(f:\Omega \to \mathbb {R}\) é crescente quando
Antes da prova, registramos uma forma conveniente da aproximação por informação finita. Enumere \(E=\{ e_1,e_2,\ldots \} \) e defina
Pelo Teorema 2.2, indicadores de eventos cilíndricos são densos, em \(L^2\), entre indicadores de eventos mensuráveis. Por aproximação por funções simples, as variáveis que dependem de um número finito de coordenadas são densas em \(L^2(\P _p)\).
Fixe \(\varepsilon \gt 0\) e escolha uma variável \(Y\), mensurável com respeito a \(\mathcal{F}_N\) para algum \(N\), tal que \(\| X-Y\| _2\lt \varepsilon \). Para \(n\ge N\), temos \(\mathbf{E}_p[Y\mid \mathcal{F}_n]=Y\). Pela contração da esperança condicional em \(L^2\),
Isso prova a convergência.
Se \(X\) é crescente, fixar as primeiras \(n\) coordenadas e fazer a média sobre as restantes preserva a ordem coordenada a coordenada. Logo, \(X_n\) também é crescente.
Começamos com o caso em que \(f\) e \(g\) dependem apenas de \(n\) arestas. A prova é por indução em \(n\).
Para \(n=1\),
enquanto
Subtraindo e fatorando,
pois \(f\) e \(g\) são crescentes.
Suponha o resultado válido para \(n-1\) coordenadas. Condicione nos primeiros \(n-1\) estados e aplique o caso de uma coordenada à última. Se
então
As funções \(\bar f\) e \(\bar g\) são crescentes nas primeiras \(n-1\) coordenadas. Pela hipótese de indução,
Isso prova o caso finito.
Para o caso geral, defina
Pelo lema anterior, \(f_n\) e \(g_n\) são crescentes, dependem apenas de \(n\) coordenadas e convergem em \(L^2\) para \(f\) e \(g\), respectivamente. Pelo caso finito,
Tomando limites, obtemos a desigualdade desejada. A versão para eventos segue aplicando o resultado a \(f=\mathbf{1}_A\) e \(g=\mathbf{1}_B\).
A primeira afirmação segue por indução. Para eventos decrescentes, aplique a desigualdade de Harris às funções \(-\mathbf{1}_{A_j}\) ou, equivalentemente, troque aberta por fechada.
2.6 A componente de um vértice
Para \(x\in V\), definimos a função de percolação enraizada
Se \(G\) é transitivo, esse valor não depende de \(x\), e escrevemos simplesmente \(\theta _G(p)\).
A função \(p\mapsto \theta _{G,x}(p)\) é não decrescente. A relação entre \(\theta _{G,x}\) e a probabilidade global \(\Theta _G\) é especialmente simples em grafos conexos.
\(\Theta _G(p)=1\);
existe \(x\in V\) tal que \(\theta _{G,x}(p)\gt 0\);
para todo \(x\in V\), \(\theta _{G,x}(p)\gt 0\).
Como
e \(V\) é enumerável, \(\Theta _G(p)=1\) implica que existe \(z\) com \(\theta _{G,z}(p)\gt 0\).
Fixe agora \(x\in V\). Se \(\theta _{G,z}(p)\gt 0\), então necessariamente \(p\gt 0\). Escolha um caminho simples entre \(x\) e \(z\) com \(m\) arestas. Se todas essas arestas estiverem abertas, então \(x\leftrightarrow z\); pela independência,
Os eventos \(\{ x\leftrightarrow z\} \) e \(\{ z\leftrightarrow \infty \} \) são crescentes. Pela desigualdade de Harris,
Logo, (2) implica (3).
Finalmente, (3) implica (2), e se \(\theta _{G,x}(p)\gt 0\) para algum \(x\), então \(\Theta _G(p)\gt 0\). Pelo Teorema 2.3, \(\Theta _G(p)=1\).
2.7 Grafos unidimensionais
O caso de \(\mathbb {Z}\) sugere uma classe de grafos que podem ser separados do infinito por cortes de tamanho uniformemente limitado.
Em \(\mathbb {Z}\), tomando \(o=0\), podemos escolher
Os conjuntos \(A_n\) são dois a dois disjuntos, são conjuntos de corte para \(0\) e têm cardinalidade \(2\).
Mostre que o grafo escada \(\mathbb {Z}\times \{ 0,1\} \) é unidimensional.
Sejam \(o\) e \((A_n)\) como na definição, e escolha \(M\lt \infty \) tal que \(|A_n|\le M\) para todo \(n\). Para \(p\lt 1\), denote por \(\mathcal{E}_n\) o evento de que todas as arestas de \(A_n\) estão fechadas. Então
Como os conjuntos \(A_n\) são dois a dois disjuntos, os eventos \(\mathcal{E}_n\) são independentes. Assim,
Como os eventos \(\bigcap _{k=1}^n\mathcal E_k^c\) decrescem com \(n\), pela continuidade da probabilidade,
Portanto, quase certamente algum \(\mathcal{E}_n\) ocorre. Quando isso acontece, todas as arestas de um conjunto de corte para \(o\) estão fechadas, e então \(|\mathcal{C}(o)|\lt \infty \). Logo,
Pelo corolário anterior, \(p_c(G)=1\).