Regime subcrítico
O regime \(p\lt p_c\) é marcado pela nitidez da transição de fase: abaixo do parâmetro crítico, a componente de um vértice tem tamanho médio finito e as conexões a grandes distâncias decaem exponencialmente.
A prova separa dois fenômenos. A finitude da susceptibilidade implica decaimento exponencial; o teorema de Menshikov e Aizenman–Barsky mostra que essa susceptibilidade é finita em todo o regime subcrítico. O Capítulo 8 retomará a segunda afirmação por uma rota mais curta, devida a Duminil-Copin e Tassion.
7.1 Susceptibilidade e decaimento exponencial
Fixe um grafo infinito, conexo e localmente finito \(G\). Para \(x\in V(G)\), escrevemos
para a esfera de raio \(n\) centrada em \(x\).
A susceptibilidade pode ser infinita. Se \(p\gt p_c(G)\), então \(\P _p[x\leftrightarrow \infty ]\gt 0\) para todo \(x\), e portanto \(\chi _{G,x}(p)=\infty \).
A conexão entre susceptibilidade e decaimento espacial é dada pelo lema seguinte, frequentemente atribuído ao argumento de Hammersley.
Se \(p=0\), então
e a conclusão é imediata, por exemplo com \(C=1\) e \(c=1\). Suponha, portanto, \(p\gt 0\).
Pela transitividade,
não depende de \(x\). Como
podemos escolher \(m\ge 1\) tal que \(a_m=:\alpha \lt 1\). Como \(G\) é infinito e conexo, \(S(x,m)\neq \emptyset \); uma geodésica de comprimento \(m\) está aberta com probabilidade \(p^m\gt 0\), de modo que
Se \(x\leftrightarrow S(x,n+m)\), existe um caminho aberto simples que parte de \(x\) e alcança \(S(x,n+m)\). Seja \(y\) o primeiro vértice desse caminho em \(S(x,m)\). Os dois trechos do caminho, antes e depois de \(y\), fornecem ocorrência disjunta dos eventos
Logo, pela desigualdade BK,
onde usamos novamente a transitividade na última igualdade.
Iterando,
Isso já é decaimento exponencial. Por exemplo, tomando \(c=-m^{-1}\log \alpha \) e ajustando uma constante \(C\) para os primeiros \(m\) valores de \(n\), obtemos a forma anunciada.
Portanto, o decaimento exponencial em todo o regime subcrítico reduz-se à finitude de
Esse é o conteúdo do teorema de nitidez da transição.
7.2 Nitidez: os pontos críticos \(p_T\) e \(p_c\)
Suponha agora que \(G\) seja transitivo. Definimos
Como \(\chi (p)=\infty \) para \(p\gt p_c\), temos imediatamente \(p_T\le p_c\).
Combinando o Teorema 7.2 com o Lema 7.1, obtemos imediatamente:
O resultado foi obtido independentemente por Menshikov (Menshikov 1986) e por Aizenman–Barsky (Aizenman e Barsky 1987). O argumento de Menshikov parte de uma estimativa subexponencial suficientemente forte e fecha um procedimento de bootstrap. O método de Aizenman–Barsky introduz um campo auxiliar de vértices “verdes” e transforma o problema em desigualdades diferenciais. É essa segunda prova que apresentamos a seguir.
Leitura avançada.
A demonstração abaixo é substancialmente mais técnica que o restante do capítulo e pode ser omitida em uma primeira leitura. O argumento de Duminil-Copin–Tassion, no Capítulo 8, oferece uma rota mais curta para a mesma conclusão.
7.3 O campo fantasma e a magnetização
Fixe um vértice \(o\in V(G)\) e denote por \(D\) o grau de \(G\). Além da percolação de elos com parâmetro \(p\), colorimos cada vértice de verde, independentemente dos demais e das arestas, com probabilidade \(\varepsilon \in (0,1)\). Denotamos por \(\Gamma \) o conjunto aleatório de vértices verdes e por \(\P _{p,\varepsilon }\) a medida produto correspondente.
Para \(r\ge 1\), seja \(B_r=B(o,r)\). Escrevemos \(\mathcal C_r(x)\) para a componente de \(x\) na percolação restrita ao subgrafo induzido por \(B_r\); se \(x\notin B_r\), tomamos \(\mathcal C_r(x)=\emptyset \). Em particular,
Essa truncação é importante: todos os eventos envolvendo \(\mathcal C_r\) dependem apenas de um número finito de arestas, e portanto a fórmula de Russo pode ser aplicada diretamente.
Representação pelo vértice fantasma.
É útil representar as cores verdes acrescentando um vértice auxiliar \(\mathfrak g\) e, para cada vértice \(v\), uma aresta fantasma \(\{ v,\mathfrak g\} \), aberta com probabilidade \(\varepsilon \), independentemente das arestas de \(G\) e das demais arestas fantasma. Então
no grafo aumentado correspondente. A prova da desigualdade BK apresentada no capítulo de ferramentas probabilísticas é coordenada a coordenada e vale, sem alteração, para medidas produto com parâmetros distintos em coordenadas distintas. Assim, podemos aplicá-la ao produto em que as arestas ordinárias têm parâmetro \(p\) e as arestas fantasma têm parâmetro \(\varepsilon \).
A ligação com a percolação usual aparece no limite
De fato, condicionando no tamanho da componente,
com a convenção de que \((1-\varepsilon )^\infty =0\). Analogamente,
Portanto,
Mostre que Mostre que
Escreva \(q=1-\varepsilon \), \(X_r=|\mathcal C_r|\) e \(X=|\mathcal C(o)|\). Os eventos que definem \(M_r\) crescem para o evento que define \(M\). Mais precisamente, se a componente completa de \(o\) encontra um vértice verde mas \(\mathcal C_r\) não encontra nenhum, então \(\mathcal C_r\) alcança \(S(o,r)\) e todos os seus vértices são não verdes. Consequentemente,
de modo que a convergência é, inclusive, uniforme em \(p\).
Para a derivada em \(\varepsilon \), temos
Se \(X\lt \infty \), então \(X_r=X\) para todo \(r\) suficientemente grande; se \(X=\infty \), então \(X_r\to \infty \) e \(X_rq^{X_r-1}\to 0\). Como
o teorema da convergência dominada fornece
Para a derivada em \(p\), na representação pelo vértice fantasma, seja \(I_r(e)\) o evento de que a aresta ordinária \(e\) seja pivotal para \(\{ o\leftrightarrow \mathfrak g\} \) dentro de \(B_r\), e seja \(I(e)\) o evento pivotal correspondente no grafo inteiro. Pela fórmula de Russo em volume finito,
Para justificar a passagem ao limite, precisamos de um controle uniforme em \(p\). Fixe um intervalo compacto
O primeiro passo é controlar as arestas distantes. Como a pivotalidade de \(e\) não depende do estado da própria aresta, para \(s\in J\),
Se \(e\) está fechada e é pivotal, a componente de \(o\) não contém vértices verdes e uma das extremidades de \(e\) pertence a essa componente. Se \(e\not\subset B_{R-1}\), a componente alcança distância pelo menos \(R-1\) de \(o\) e, portanto, possui ao menos \(R\) vértices.
Fixada a configuração das arestas ordinárias, há no máximo \(DX_r\) arestas incidentes a \(\mathcal C_r\). Condicionando em \(\mathcal C_r\) e usando que a probabilidade de seus \(X_r\) vértices serem todos não verdes é \(q^{X_r}\), obtemos, uniformemente em \(r\) e em \(s\in J\),
O lado direito tende a zero quando \(R\to \infty \). O mesmo argumento, aplicado à componente completa de \(o\), fornece
também uniformemente em \(s\in J\). Em particular, a série das influências no volume infinito tem cauda uniformemente pequena em \(J\).
Fixadas as caudas, resta apenas um conjunto finito de arestas próximas da origem. Fixe uma aresta \(e\). Para todos os valores de \(s\in J\), use o mesmo acoplamento por variáveis uniformes para as arestas ordinárias e o mesmo campo verde. Para \(r\) suficientemente grande para conter \(e\), se \(I_r(e)\) e \(I(e)\) diferem, então, em pelo menos um dos dois estados forçados de \(e\) — aberta ou fechada —, a componente de \(o\) dentro de \(B_r\) alcança \(S(o,r)\) sem conter vértices verdes. Se \(K_r^\xi \) denota essa componente quando \(e\) é forçada ao estado \(\xi \in \{ 0,1\} \), então, nesse evento, \(|K_r^\xi |\ge r+1\). Condicionando nas arestas ordinárias,
Como há apenas dois estados forçados,
Logo, em qualquer conjunto finito de arestas, a soma das probabilidades de pivotalidade converge uniformemente em \(s\in J\).
Combinando essa convergência nas arestas de \(B_{R-1}\) com (7.1) e (7.2), concluímos que
uniformemente em \(s\in J\).
Cada função \(p\mapsto M_r(p,\varepsilon )\) é diferenciável e já vimos que \(M_r(\, \cdot \, ,\varepsilon )\to M(\, \cdot \, ,\varepsilon )\) uniformemente. Pelo teorema de convergência uniforme das derivadas, \(M\) é diferenciável em \(J\) e
Como \(J\subset (0,1)\) foi arbitrário, a conclusão vale para todo \(p\in (0,1)\). Além disso,
localmente uniformemente em \(p\).
7.4 As desigualdades diferenciais de Aizenman–Barsky
Para \(x\in B_r\), seja
Se \(x\in B_r\), então \(B_r\subset B(x,2r)\); pela transitividade,
Escrevemos \(A\circ B\) para ocorrência disjunta, no sentido da desigualdade BK.
Primeiro considere o evento \(A_o\circ A_o\): existem duas conexões abertas, disjuntas em arestas, de \(o\) a vértices verdes. Pela desigualdade BK,
Resta tratar configurações em que \(|\mathcal C_r\cap \Gamma |\ge 2\), mas \(A_o\circ A_o\) não ocorre. Trabalhe no grafo finito aumentado por \(\mathfrak g\). Há pelo menos duas arestas fantasma abertas ligadas a vértices distintos da componente de \(o\). Como não existem dois caminhos \(o\)–\(\mathfrak g\) disjuntos em arestas, o teorema de Menger, na versão para arestas, mostra que existe uma aresta aberta cuja remoção separa \(o\) de \(\mathfrak g\). Essa aresta não pode ser fantasma, pois há pelo menos duas arestas fantasma abertas.
Escolha, entre as arestas pivotais que aparecem em um caminho aberto de \(o\) a \(\mathfrak g\), a última antes de chegar a \(\mathfrak g\), e escreva-a como \(e=\{ x,y\} \), com \(x\) do lado de \(o\). Ao remover \(e\), a componente de \(o\) não contém vértices verdes. Além disso, existem dois caminhos de \(y\) a \(\mathfrak g\) disjuntos em arestas: caso contrário, Menger produziria outra aresta de corte entre \(y\) e \(\mathfrak g\), que seria uma aresta pivotal situada depois de \(e\), contradizendo a escolha de \(e\). Em termos do campo verde, do lado de \(y\) ocorrem, portanto, duas conexões disjuntas a vértices verdes distintos.
Para tornar a contagem compatível com Russo, force \(e\) a estar fechada e denote por \(\mathcal C_{r,e}\) a componente de \(o\) em \(B_r\). Defina
Defina ainda \(A_y^{(e)}\) como o evento de que \(y\) esteja ligado a \(\Gamma \) no grafo em que \(e\) foi removida. Os eventos \(B_{x,y}\) e \(A_y^{(e)}\) não dependem do estado original de \(e\), e
é exatamente o evento de que \(e\) seja pivotal para \(A_o\), com orientação de \(x\) para \(y\).
O condicionamento usado nesse passo pode ser escrito explicitamente. Fixe \(C\subseteq B_r\) com \(o,x\in C\) e \(y\notin C\). O evento
é determinado pelas arestas com pelo menos uma extremidade em \(C\) e pelas cores dos vértices de \(C\): as arestas internas determinam a conexão de \(o\) aos vértices de \(C\), as arestas da fronteira de \(C\) devem estar fechadas no grafo em que \(e\) foi removida, e nenhum vértice de \(C\) pode ser verde. Consequentemente, depois de condicionarmos nesse evento, as arestas com ambas as extremidades em \(B_r\setminus C\) e as cores dos vértices de \(B_r\setminus C\) continuam independentes, com parâmetros \(p\) e \(\varepsilon \).
Nesse condicionamento, \(A_y^{(e)}\) coincide com o evento, que denotaremos por \(A_y^C\), de que \(y\) se conecta a um vértice verde usando apenas o subgrafo induzido por \(B_r\setminus C\). Com efeito, qualquer caminho que entrasse em \(C\) teria de atravessar uma aresta da fronteira de \(C\), e todas essas arestas estão fechadas quando \(\mathcal C_{r,e}=C\). Além disso, como \(y\in B_r\),
Por monotonicidade e transitividade, a probabilidade de \(A_y^C\) sob a medida produto restante é, portanto, no máximo
A medida condicional nas coordenadas externas a \(C\) ainda é produto. Aplicando BK nesse espaço,
Como o último fator é no máximo \(M_{2r}\), obtemos
Multiplicando pela probabilidade do evento condicionado e somando sobre todos os conjuntos \(C\) admissíveis, segue que
Finalmente, se \(e\) é pivotal, há uma única orientação \(e=(x,y)\) para a qual \(x\in \mathcal C_{r,e}\) e \(y\notin \mathcal C_{r,e}\). Nessa orientação,
é exatamente o evento \(I_r(e)\). Portanto, ao somarmos sobre as arestas orientadas, cada aresta pivotal é contada uma única vez. Pela fórmula de Russo,
Na configuração original a aresta separadora \(e\) deve estar aberta. Como o evento no lado direito da definição acima independe do estado de \(e\), aparece um fator \(p\). Consequentemente,
Somando os dois casos, obtemos a desigualdade desejada.
Pela fórmula de Russo,
Quando uma aresta fechada \(e=\{ x,y\} \) é pivotal, podemos orientá-la de modo que \(x\in \mathcal C_r\) e \(y\notin \mathcal C_r\). Necessariamente \(\mathcal C_r\cap \Gamma =\emptyset \), enquanto \(y\) se conecta a um vértice verde fora de \(\mathcal C_r\).
Condicionando em \(\mathcal C_r=C\), a probabilidade dessa conexão a partir de \(y\) é, por monotonicidade e transitividade, no máximo \(M_{2r}\). Como cada vértice de \(C\) é incidente a no máximo \(D\) arestas, obtemos
Passando ao limite \(r\to \infty \), obtemos as duas desigualdades fundamentais.
Temos a decomposição
O primeiro termo é
e o segundo é controlado pelo Lema 7.5. O Lema 7.4 permite passar ao limite. A segunda desigualdade segue da mesma forma a partir do Lema 7.6.
7.5 Prova do teorema de Aizenman–Barsky
Fixe
Para todo \(s\in [p,q]\),
Escolha \(\eta \gt 0\) de modo que
para todos \(s\in [p,q]\) e \(0\lt \varepsilon \lt \eta \).
Além disso,
Logo, para cada \(s\in [p,q]\), a função \(\varepsilon \mapsto M(s,\varepsilon )\) é estritamente crescente em \((0,\eta )\). Como \(M(s,0)=0\) e
temos \(M(s,\eta )\ge \eta (1-q)^D\). Fixe
A inversa \(f_s\) de \(\varepsilon \mapsto M(s,\varepsilon )\) está, portanto, definida em \([0,x_0]\), uniformemente em \(s\in [p,q]\), e satisfaz
Pela regra da função inversa,
de modo que, para \(0\lt x\le x_0\),
Usando a segunda desigualdade do Lema 7.7 na primeira, obtemos, uniformemente em \(s\in [p,q]\),
Escrevendo \(x=M(s,\varepsilon )\) e \(\varepsilon =f_s(x)\), essa desigualdade equivale a
Portanto,
O lado esquerdo é exatamente
Como \(f_s'\) é uniformemente limitado, existe uma constante \(C_q\lt \infty \), dependente apenas de \(q\) e de \(D\), tal que
Suponha, por contradição, que
Como \(p\lt p_c\), a componente de \(o\) é finita quase certamente, e portanto
Consequentemente,
Integrando a desigualdade anterior entre \(y\) e \(x\), e depois fazendo \(y\downarrow 0\), obtemos
ou seja,
Para \(\varepsilon \gt 0\) suficientemente pequeno, temos \(M(p,\varepsilon )\le x_0\), e portanto \(f_p(M(p,\varepsilon ))=\varepsilon \). Assim,
Em particular, para \(\varepsilon \gt 0\) fixo e \(\varepsilon '\) suficientemente pequeno,
Retomando a primeira desigualdade do Lema 7.7, podemos escrevê-la como
Integramos essa desigualdade no retângulo
Como \(M\) é crescente nas duas variáveis,
Dividindo por \(\log (\varepsilon /\varepsilon ')\) e fazendo \(\varepsilon '\downarrow 0\), obtemos
pois \(M(p,0)=\theta _G(p)=0\). Assim,
Finalmente, fazendo \(\varepsilon \downarrow 0\), chegamos a
contradizendo \(q\lt p_c\).
Logo \(\chi (p)\lt \infty \). Como \(p\lt p_c\) era arbitrário, concluímos que \(p_T\ge p_c\). Juntamente com a desigualdade trivial \(p_T\le p_c\), isso prova \(p_T=p_c\).
Conclusão.
O conteúdo essencial do capítulo pode ser resumido em uma cadeia curta de implicações:
O primeiro passo é a nitidez da transição; o segundo é o argumento de Hammersley. O Capítulo 8 dá uma prova alternativa da primeira implicação, baseada na quantidade \(\varphi _p(S)\), sem recorrer ao campo fantasma.