Transporte de massa
O princípio de transporte de massa transforma simetria em uma identidade de balanço. Cada vértice envia massa aos demais segundo uma regra compatível com os automorfismos; em situações unimodulares, a massa total esperada enviada por um vértice coincide com a massa total esperada recebida.
Sua formulação exige apenas algumas noções elementares sobre ações de grupos.
10.1 Ações, órbitas e estabilizadores
Seja \(\Gamma \) um grupo que atua em um conjunto \(X\). Escrevemos
com
Para \(x\in X\), definimos a órbita de \(x\) por
e o estabilizador de \(x\) por
A ação é chamada transitiva quando \(\Gamma x=X\) para todo \(x\in X\).
Se \(S\subset \Gamma \), usaremos ainda a notação
A partir de agora, suponha que \(X\) seja um grafo localmente finito e que \(\Gamma \leq \operatorname {Aut}(X)\). Como os automorfismos preservam distâncias, para quaisquer \(x,y\in X\),
Em particular, \(\Gamma _x y\) é finito.
Para \(x,y\in X\), defina também
Esse conjunto pode ser vazio; quando não é, ele é simultaneamente uma classe lateral à esquerda de \(\Gamma _x\) e uma classe lateral à direita de \(\Gamma _y\).
Se \(h\in \Gamma _{x,y}\), então \(g^{-1}h\in \Gamma _x\), de modo que \(h\in g\Gamma _x\). Reciprocamente, se \(k\in \Gamma _x\), então \(gk\in \Gamma _{x,y}\). Logo,
Analogamente, \(hg^{-1}\in \Gamma _y\) para todo \(h\in \Gamma _{x,y}\), e obtemos
Da primeira identidade,
e a aplicação \(u\mapsto g u\) é uma bijeção entre \(\Gamma _x z\) e \(\Gamma _{x,y}z\). Portanto,
Como \(\Gamma _y=g\Gamma _xg^{-1}\), temos também
o que prova a segunda igualdade.
10.2 Funções invariantes
Uma função
é chamada invariante sob a ação de \(\Gamma \) se
para todos \(g\in \Gamma \) e \(x,y\in X\).
Interpretaremos \(f(x,y)\) como a quantidade de massa enviada por \(x\) para \(y\). A invariância significa que essa regra não distingue posições que são equivalentes pelas simetrias do grafo.
O resultado geral envolve um fator de correção que mede a possível assimetria entre estabilizadores.
A única parte menos imediata da prova é a troca dos índices da soma. Vale isolá-la.
Se \(y\in \Gamma _{z,b}a\), existe \(g\in \Gamma \) tal que
Aplicando \(g^{-1}\), obtemos
isto é, \(z\in \Gamma _{y,a}b\). A implicação inversa é a mesma conta com \(g\) e \(g^{-1}\) trocados.
Para a cardinalidade, escolha \(g\) como acima. Pelo Lema 10.1,
Fixe \(a,b\in X\). Para \(z\in \Gamma b\), o conjunto \(\Gamma _{z,b}\) é não vazio. Se \(g\in \Gamma _{z,b}\), então, pela invariância de \(f\),
Portanto, \(f(y,b)\) tem o mesmo valor para todo \(y\in \Gamma _{z,b}a\). Podemos distribuir o termo \(f(a,z)\) uniformemente sobre esse conjunto:
Somando em \(z\in \Gamma b\),
A reindexação é o passo central. Pelo Lema 10.3, o par \((z,y)\) contribui para a soma acima exatamente quando
Como todos os termos são não negativos, podemos trocar a ordem das somas por Tonelli:
Fixado \(y\), o mesmo lema mostra que o denominador não depende do \(z\) que aparece na soma:
Por outro lado, o Lema 10.1 dá
Há exatamente \(|\Gamma _y b|\) parcelas, cada uma igual a \(1/|\Gamma _b y|\). Portanto,
e obtemos
10.3 Unimodularidade
O fator que aparece no princípio geral desaparece quando a ação não distingue, em termos de cardinalidade de órbitas de estabilizadores, o sentido \(x\to y\) do sentido \(y\to x\).
Suponha que \(\Gamma \leq \operatorname {Aut}(X)\). Dizemos que a ação de \(\Gamma \) sobre \(X\) é unimodular se
para todos \(x,y\in X\) que pertencem à mesma órbita.
Um grafo transitivo \(X\) é chamado unimodular quando a ação natural de \(\operatorname {Aut}(X)\) sobre \(X\) é unimodular.
Os grafos de Cayley fornecem o exemplo básico de uma ação transitiva unimodular. Se
o grupo \(\Gamma \) atua em \(X\) por translações à esquerda,
Essa ação é transitiva e seus estabilizadores são triviais:
Consequentemente,
e a ação é unimodular. O princípio de transporte de massa pode, portanto, ser aplicado a grafos de Cayley usando diretamente a ação por translações. Essa é a forma que será usada nas aplicações do capítulo seguinte.
Quando a ação é transitiva e unimodular, o princípio geral assume a forma mais familiar.
Como a ação é transitiva, \(\Gamma o=X\). Aplicando o Teorema 10.2 com \(a=b=o\), obtemos
Pela unimodularidade, o quociente é igual a \(1\).
O recíproco também é verdadeiro: para ações transitivas, a identidade de transporte de massa caracteriza a unimodularidade. Para uma exposição geral da técnica e de suas aplicações à percolação, veja (Lyons e Peres 2016, Cap. 8).
A implicação direta é o Corolário 10.4.
Para a recíproca, suponha que a identidade de transporte de massa valha para toda função invariante. Fixe \(a,b\in X\) e considere a órbita diagonal do par \((a,b)\):
Defina
A função \(f\) é invariante. Aplicando a identidade de transporte de massa no vértice \(a\), temos
O lado esquerdo conta precisamente os vértices da órbita \(\Gamma _a b\), portanto é igual a \(|\Gamma _a b|\).
Por outro lado, \(f(x,a)=1\) se e somente se existe \(g\in \Gamma \) tal que
Logo, os possíveis valores de \(x\) formam o conjunto \(\Gamma _{b,a}a\). Como a ação é transitiva, \(\Gamma _{b,a}\neq \emptyset \), e pelo Lema 10.1,
Consequentemente,
Como \(a\) e \(b\) são arbitrários, a ação é unimodular.
10.4 Forma aleatória do princípio
Nas aplicações probabilísticas, a massa pode depender não apenas de uma configuração de arestas, mas de qualquer objeto aleatório que preserve as simetrias do grafo.
Seja \((\mathcal Z,\mathcal A)\) um espaço mensurável sobre o qual \(\Gamma \) atua mensuravelmente, e seja \(\mathsf Z\) um elemento aleatório de \(\mathcal Z\) cuja lei é invariante sob essa ação. Considere uma função mensurável
satisfazendo
para todo \(g\in \Gamma \), \(x,y\in X\) e \(z\in \mathcal Z\).
Defina
A invariância da lei de \(\mathsf Z\) torna \(f\) invariante. Pelo Teorema 10.5 e por Tonelli,
Configurações de arestas correspondem ao caso \(\mathcal Z=\{ 0,1\} ^{E(X)}\). Pares de configurações, rótulos auxiliares e outras marcas invariantes são cobertos tomando produtos de espaços. Em qualquer desses casos, a massa esperada enviada pela origem é igual à massa esperada recebida pela origem.