Capítulo 10

Integração

A derivada descreve a variação local de uma função. A integral responde a uma pergunta complementar: como acumular essas variações ao longo de um intervalo?

Em Cálculo, essa pergunta costuma aparecer primeiro como área. Para a Análise, porém, é mais útil começar de outra forma. Dividimos o intervalo em partes, aproximamos a função por baixo e por cima em cada uma delas e perguntamos se essas aproximações podem ser forçadas a concordar. Essa é a ideia de Darboux.

O ponto de vista tem duas vantagens. Primeiro, a definição da integral não depende da existência prévia de primitivas; o Teorema Fundamental do Cálculo aparecerá depois como um resultado profundo que liga integração e derivação. Segundo, a construção admite uma extensão natural: em vez de medir cada subintervalo pelo seu comprimento, podemos medi-lo pela variação de uma outra função. Essa é a integral de Riemann–Stieltjes.

O percurso do capítulo será, portanto,

\[ \text{partições} \longrightarrow \text{somas de Darboux} \longrightarrow \text{integrabilidade} \longrightarrow \text{caracterizações}, \]
\[ \text{TFC} \longrightarrow \text{integrais infinitas} \longrightarrow \text{Riemann--Stieltjes}. \]

10.1 Partições e somas de Darboux

Sejam \(a\lt b\). Uma partição de \([a,b]\) é um conjunto finito

\[ P=\{ x_0,x_1,\ldots ,x_n\} \]

tal que

\[ a=x_0\lt x_1\lt \cdots \lt x_n=b. \]

Escreveremos

\[ I_i=[x_{i-1},x_i], \qquad \Delta x_i=x_i-x_{i-1}, \]

e chamaremos

\[ \| P\| =\max _{1\le i\le n}\Delta x_i \]

de malha da partição.

Se \(P\) e \(Q\) são partições de \([a,b]\), dizemos que \(Q\) é um refinamento de \(P\) quando \(P\subset Q\).

A definição da integral começa com uma função limitada. Para uma função limitada \(f:[a,b]\to \mathbb {R}\), usaremos a notação

\[ \| f\| _\infty =\sup _{x\in [a,b]}|f(x)|. \]

Definição 10.1
Seja \(f:[a,b]\to \mathbb {R}\) limitada e seja \(P=\{ x_0,\ldots ,x_n\} \) uma partição de \([a,b]\). Para cada \(i\), defina
\[ m_i=\inf _{x\in I_i}f(x), \qquad M_i=\sup _{x\in I_i}f(x). \]
A soma inferior de Darboux e a soma superior de Darboux associadas a \(P\) são
\[ L(f,P)=\sum _{i=1}^{n}m_i\Delta x_i \]
e
\[ U(f,P)=\sum _{i=1}^{n}M_i\Delta x_i. \]

Em cada subintervalo, \(m_i\) é a melhor constante que aproxima \(f\) por baixo e \(M_i\) a melhor constante que a aproxima por cima. Consequentemente,

\[ L(f,P)\le U(f,P). \]

O ponto essencial é que o refinamento de uma partição melhora simultaneamente as duas aproximações.

Teorema 10.2 (Monotonicidade por refinamento)
Se \(Q\) refina \(P\), então
\[ L(f,P)\le L(f,Q)\le U(f,Q)\le U(f,P). \]

Demonstração

Basta analisar a inserção de um único ponto. Suponha que \(Q=P\cup \{ c\} \), com \(c\in (x_{k-1},x_k)\). Escreva

\[ m=\inf _{[x_{k-1},x_k]}f, \quad m'=\inf _{[x_{k-1},c]}f, \quad m''=\inf _{[c,x_k]}f. \]

Como \(m\le m'\) e \(m\le m''\),

\[ m(x_k-x_{k-1}) \le m'(c-x_{k-1})+m''(x_k-c). \]

Todos os demais termos da soma inferior permanecem inalterados; portanto \(L(f,P)\le L(f,Q)\).

O mesmo argumento, com supremos, fornece \(U(f,Q)\le U(f,P)\). A inserção sucessiva dos pontos de \(Q\setminus P\) prova o resultado geral. A desigualdade \(L(f,Q)\le U(f,Q)\) é imediata.

Duas partições quaisquer \(P\) e \(Q\) possuem um refinamento comum: \(P\cup Q\). Esse fato permite comparar somas construídas a partir de partições completamente diferentes.

Corolário 10.3
Para quaisquer partições \(P,Q\) de \([a,b]\),
\[ L(f,P)\le U(f,Q). \]

Demonstração

Se \(R=P\cup Q\), então

\[ L(f,P)\le L(f,R)\le U(f,R)\le U(f,Q). \]

10.2 Integral inferior, integral superior e integral de Darboux

As somas inferiores formam um conjunto limitado superiormente por qualquer soma superior. Analogamente, as somas superiores são limitadas inferiormente por qualquer soma inferior. A completude de \(\mathbb {R}\) permite, portanto, fazer as melhores aproximações possíveis.

Definição 10.4
Se \(f:[a,b]\to \mathbb {R}\) é limitada, definimos a integral inferior de \(f\) por
\[ \underline{\int _a^b} f = \sup _{P}L(f,P), \]
e a integral superior de \(f\) por
\[ \overline{\int _a^b} f = \inf _{P}U(f,P), \]
onde o supremo e o ínfimo são tomados sobre todas as partições de \([a,b]\).

Pelo Corolário 10.3,

\[ \underline{\int _a^b}f \le \overline{\int _a^b}f. \]

Definição 10.5
Uma função limitada \(f:[a,b]\to \mathbb {R}\) é integrável no sentido de Darboux, ou simplesmente Riemann-integrável, quando
\[ \underline{\int _a^b}f = \overline{\int _a^b}f. \]
O valor comum é denotado por
\[ \int _a^b f(x)\, dx. \]
Escreveremos \(f\in \mathcal R[a,b]\).

A definição diz exatamente que as melhores aproximações por baixo e por cima se encontram. A forma operacional dessa ideia é o critério seguinte.

Teorema 10.6 (Critério de Darboux)
Uma função limitada \(f:[a,b]\to \mathbb {R}\) é Riemann-integrável se, e somente se, para todo \(\varepsilon \gt 0\) existe uma partição \(P\) tal que
\[ U(f,P)-L(f,P)\lt \varepsilon . \]

Demonstração

Suponha primeiro que \(f\) seja integrável e escreva

\[ I=\int _a^b f. \]

Pela definição de supremo, existe uma partição \(P_1\) tal que

\[ L(f,P_1)\gt I-\frac{\varepsilon }{2}. \]

Pela definição de ínfimo, existe uma partição \(P_2\) tal que

\[ U(f,P_2)\lt I+\frac{\varepsilon }{2}. \]

Para o refinamento comum \(P=P_1\cup P_2\),

\[ L(f,P)\ge L(f,P_1), \qquad U(f,P)\le U(f,P_2), \]

e portanto

\[ U(f,P)-L(f,P)\lt \varepsilon . \]

Reciprocamente, suponha que, para todo \(\varepsilon \gt 0\), exista \(P\) com \(U(f,P)-L(f,P)\lt \varepsilon \). Como

\[ L(f,P) \le \underline{\int _a^b}f \le \overline{\int _a^b}f \le U(f,P), \]

temos

\[ 0\le \overline{\int _a^b}f-\underline{\int _a^b}f \lt \varepsilon . \]

Como \(\varepsilon \) é arbitrário, as duas integrais coincidem.

O critério de oscilação

Para um intervalo \(I\subset [a,b]\), defina a oscilação de \(f\) em \(I\) por

\[ \omega (f;I) = \sup _{I}f-\inf _{I}f. \]

A ideia é a análoga, para funções, da oscilação de uma sequência: em lugar de medir a diferença entre \(\limsup \) e \(\liminf \) das caudas, medimos a diferença entre o supremo e o ínfimo dos valores de \(f\) em um intervalo. Mais adiante, ao encolher esses intervalos em torno de um ponto, essa analogia ficará ainda mais direta. Se \(P=\{ x_0,\ldots ,x_n\} \), escrevemos

\[ \omega _i=\omega (f;I_i). \]

Então

\[ U(f,P)-L(f,P) = \sum _{i=1}^{n}\omega _i\Delta x_i. \]

Temos, portanto, uma versão particularmente geométrica do critério de Darboux.

Corolário 10.7 (Critério de oscilação)
Uma função limitada \(f:[a,b]\to \mathbb {R}\) é Riemann-integrável se, e somente se, para todo \(\varepsilon \gt 0\) existe uma partição \(P\) tal que
\[ \sum _{i=1}^{n}\omega (f;I_i)\Delta x_i\lt \varepsilon . \]

Demonstração

Basta observar que, para toda partição \(P\),

\[ U(f,P)-L(f,P) = \sum _i\omega (f;I_i)\Delta x_i \]

e aplicar o Critério de Darboux.

10.3 Somas de Riemann e uma segunda caracterização

As somas de Darboux escolhem, em cada intervalo, os valores extremos possíveis. Podemos também escolher um ponto qualquer.

Definição 10.8
Uma partição marcada de \([a,b]\) é um par \((P,\xi )\), onde
\[ P=\{ x_0,\ldots ,x_n\} \]
é uma partição e
\[ \xi _i\in [x_{i-1},x_i] \]
é uma marca em cada subintervalo. A correspondente soma de Riemann é
\[ S(f;P,\xi ) = \sum _{i=1}^{n}f(\xi _i)\Delta x_i. \]

Para toda escolha das marcas,

\[ L(f,P)\le S(f;P,\xi )\le U(f,P). \]

Assim, se uma única partição torna pequena a diferença entre as somas superior e inferior, todas as somas marcadas de seus refinamentos ficam presas em um intervalo pequeno.

Teorema 10.9 (Caracterização por refinamentos)
Para uma função limitada \(f:[a,b]\to \mathbb {R}\), são equivalentes:
  1. \(f\in \mathcal R[a,b]\);

  2. existe \(I\in \mathbb {R}\) tal que, para todo \(\varepsilon \gt 0\), existe uma partição \(P_0\) com a seguinte propriedade: para toda partição marcada \((P,\xi )\) cujo \(P\) refina \(P_0\),

    \[ |S(f;P,\xi )-I|\lt \varepsilon . \]
Nesse caso,
\[ I=\int _a^b f. \]

Demonstração

Suponha primeiro que \(f\) seja integrável e escreva

\[ J=\int _a^b f. \]

Dado \(\varepsilon \gt 0\), escolha \(P_0\) pelo Critério de Darboux de modo que

\[ U(f,P_0)-L(f,P_0)\lt \varepsilon . \]

Se \(P\) refina \(P_0\), então

\[ L(f,P_0)\le L(f,P)\le S(f;P,\xi )\le U(f,P)\le U(f,P_0). \]

Como \(J\in [L(f,P_0),U(f,P_0)]\), segue que

\[ |S(f;P,\xi )-J|\lt \varepsilon . \]

Logo o item 2 vale com \(I=J\).

Reciprocamente, suponha que exista \(I\) com a propriedade do item 2. Fixe \(\varepsilon \gt 0\) e escolha \(P_0=\{ x_0,\ldots ,x_n\} \) de modo que toda soma marcada de todo refinamento de \(P_0\) esteja a menos de \(\varepsilon /4\) de \(I\).

Para cada \(i\), escolha pontos \(\xi _i^+,\xi _i^-\in I_i\) tais que

\[ M_i-f(\xi _i^+) \lt \frac{\varepsilon }{4(b-a)} \]

e

\[ f(\xi _i^-)-m_i \lt \frac{\varepsilon }{4(b-a)}. \]

Isso é possível pelas definições de supremo e ínfimo. Assim,

\[ 0\le U(f,P_0)-S(f;P_0,\xi ^+) \lt \frac{\varepsilon }{4} \]

e

\[ 0\le S(f;P_0,\xi ^-)-L(f,P_0) \lt \frac{\varepsilon }{4}. \]

Como ambas as somas marcadas estão a menos de \(\varepsilon /4\) de \(I\), obtemos

\[ U(f,P_0)-L(f,P_0)\lt \varepsilon . \]

Pelo Critério de Darboux, \(f\) é integrável.

Resta identificar o valor da integral. Pela primeira parte da prova, uma função integrável satisfaz a propriedade do item 2 com

\[ J=\int _a^b f. \]

Dado \(\eta \gt 0\), escolha uma partição que refine simultaneamente as partições associadas a \(I\) e a \(J\), e tome qualquer sistema de marcas. A soma correspondente fica a menos de \(\eta \) de ambos os números; logo

\[ |I-J|\lt 2\eta . \]

Como \(\eta \) é arbitrário, \(I=J\).

Para a integral de Riemann, a linguagem usual em termos da malha também é equivalente.

Teorema 10.10 (Caracterização pela malha)
Uma função limitada \(f:[a,b]\to \mathbb {R}\) é Riemann-integrável com integral \(I\) se, e somente se, para todo \(\varepsilon \gt 0\) existe \(\delta \gt 0\) tal que
\[ \| P\| \lt \delta \quad \Longrightarrow \quad |S(f;P,\xi )-I|\lt \varepsilon \]
para toda partição marcada \((P,\xi )\).

Demonstração

Suponha primeiro que \(f\) seja integrável e escreva

\[ I=\int _a^b f. \]

Fixe \(\varepsilon \gt 0\). Pelo Teorema 10.9, existe uma partição

\[ P_0=\{ a=t_0\lt t_1\lt \cdots \lt t_m=b\} \]

tal que toda soma marcada associada a um refinamento de \(P_0\) fica a menos de \(\varepsilon /2\) de \(I\).

Escolha \(M\ge \| f\| _\infty \). Se \(m=1\), qualquer partição já refina \(P_0\). Suponha \(m\ge 2\). Tome \(\delta \gt 0\) tão pequeno que

\[ 2M(m-1)\delta \lt \frac{\varepsilon }{2}. \]

Se \(P\) é uma partição com \(\| P\| \lt \delta \), considere

\[ R=P\cup P_0. \]

A passagem de \(P\) para \(R\) altera apenas os subintervalos de \(P\) que contêm algum dos pontos \(t_1,\ldots ,t_{m-1}\). Há no máximo \(m-1\) desses subintervalos, e a soma de seus comprimentos é menor que \((m-1)\delta \).

Dado um sistema de marcas \(\xi \) para \(P\), escolha marcas para \(R\) arbitrariamente nos subintervalos novos e mantenha as antigas onde não houve subdivisão. As duas somas diferem apenas na parte afetada; como \(|f|\le M\),

\[ |S(f;P,\xi )-S(f;R,\eta )| \le 2M(m-1)\delta \lt \frac{\varepsilon }{2}. \]

Como \(R\) refina \(P_0\),

\[ |S(f;R,\eta )-I|\lt \frac{\varepsilon }{2}, \]

e portanto

\[ |S(f;P,\xi )-I|\lt \varepsilon . \]

Reciprocamente, suponha que exista \(I\) com a propriedade da malha. Fixe \(\varepsilon \gt 0\) e escolha \(\delta \gt 0\) de modo que toda soma marcada associada a uma partição de malha menor que \(\delta \) fique a menos de \(\varepsilon /4\) de \(I\). Tome uma partição \(P=\{ x_0,\ldots ,x_n\} \) com \(\| P\| \lt \delta \).

Como na prova do Teorema 10.9, podemos escolher marcas \(\xi ^+\) e \(\xi ^-\) tais que

\[ U(f,P)-S(f;P,\xi ^+)\lt \frac{\varepsilon }{4}, \qquad S(f;P,\xi ^-)-L(f,P)\lt \frac{\varepsilon }{4}. \]

As duas somas marcadas estão a menos de \(\varepsilon /4\) de \(I\). Logo

\[ U(f,P)-L(f,P)\lt \varepsilon , \]

e o Critério de Darboux mostra que \(f\) é integrável. A identificação de \(I\) com \(\int _a^b f\) segue da unicidade já provada no Teorema 10.9.

10.4 Classes de funções integráveis

O critério de oscilação torna muito simples provar a integrabilidade de várias classes fundamentais.

Teorema 10.11
Toda função contínua \(f:[a,b]\to \mathbb {R}\) é Riemann-integrável.

Demonstração

Como \([a,b]\) é compacto, \(f\) é uniformemente contínua. Dado \(\varepsilon \gt 0\), existe \(\delta \gt 0\) tal que

\[ |x-y|\lt \delta \quad \Longrightarrow \quad |f(x)-f(y)| \lt \frac{\varepsilon }{b-a}. \]

Escolha uma partição \(P\) com \(\| P\| \lt \delta \). Então

\[ \omega (f;I_i)\lt \frac{\varepsilon }{b-a} \]

para todo \(i\), e

\[ U(f,P)-L(f,P) = \sum _i\omega (f;I_i)\Delta x_i \lt \frac{\varepsilon }{b-a}\sum _i\Delta x_i = \varepsilon . \]

Teorema 10.12
Toda função monótona \(f:[a,b]\to \mathbb {R}\) é Riemann-integrável.

Demonstração

Suponha primeiro que \(f\) seja não decrescente. Para a partição uniforme

\[ x_i=a+i\frac{b-a}{n}, \]

temos

\[ M_i=f(x_i), \qquad m_i=f(x_{i-1}). \]

Logo

\[ U(f,P)-L(f,P) = \frac{b-a}{n} \sum _{i=1}^{n}\bigl(f(x_i)-f(x_{i-1})\bigr) = \frac{b-a}{n}\bigl(f(b)-f(a)\bigr), \]

que tende a \(0\).

Se \(f\) é não crescente, então

\[ M_i=f(x_{i-1}), \qquad m_i=f(x_i), \]

e o mesmo cálculo fornece

\[ U(f,P)-L(f,P) = \frac{b-a}{n}\bigl(f(a)-f(b)\bigr) \longrightarrow 0. \]

Em ambos os casos, o Critério de Darboux conclui a prova.

Corolário 10.13
Se \(f:[a,b]\to \mathbb {R}\) é limitada e contínua exceto, possivelmente, em um número finito de pontos, então \(f\) é Riemann-integrável.

Demonstração

Se \(\| f\| _\infty =0\), não há o que provar. Suponha \(|f|\le M\) com \(M\gt 0\), e sejam \(c_1,\ldots ,c_r\) os possíveis pontos de descontinuidade.

Fixe \(\varepsilon \gt 0\). Escolha intervalos abertos relativos \(J_1,\ldots ,J_r\) de \([a,b]\), cada um contendo \(c_j\), de modo que a soma de seus comprimentos seja menor que

\[ \frac{\varepsilon }{4M}. \]

Podemos substituir esses intervalos por sua união escrita como união finita de intervalos abertos disjuntos. Insira na partição todos os extremos desses intervalos.

O complemento dessa união em \([a,b]\) é uma união finita de intervalos fechados. Em cada um deles \(f\) é contínua e, portanto, uniformemente contínua. Refinando a partição dentro desses componentes, podemos garantir que todo subintervalo que não esteja contido na união dos \(J_j\) tenha oscilação menor que

\[ \frac{\varepsilon }{2(b-a)}. \]

Nos subintervalos contidos na região dos \(J_j\), usamos apenas \(\omega (f;I)\le 2M\). Assim,

\[ U(f,P)-L(f,P) \lt 2M\frac{\varepsilon }{4M} + \frac{\varepsilon }{2(b-a)}(b-a) = \varepsilon . \]

O Critério de Darboux conclui a prova.

Exemplo 10.14
A função de Dirichlet
\[ f(x)= \begin{cases} 1,& x\in \mathbb {Q},\\ 0,& x\notin \mathbb {Q}\end{cases} \]
não é Riemann-integrável em nenhum intervalo não degenerado. De fato, em todo subintervalo existem racionais e irracionais; portanto \(m_i=0\) e \(M_i=1\). Assim,
\[ L(f,P)=0, \qquad U(f,P)=b-a \]
para toda partição.

Operações com funções integráveis

Teorema 10.15
Se \(f,g\in \mathcal R[a,b]\) e \(\lambda \in \mathbb {R}\), então:
  1. \(f+g\in \mathcal R[a,b]\) e

    \[ \int _a^b(f+g)=\int _a^b f+\int _a^b g; \]
  2. \(\lambda f\in \mathcal R[a,b]\) e

    \[ \int _a^b\lambda f=\lambda \int _a^b f; \]
  3. \(fg\in \mathcal R[a,b]\);

  4. \(|f|\in \mathcal R[a,b]\);

  5. \(\max \{ f,g\} \) e \(\min \{ f,g\} \) são Riemann-integráveis.

Demonstração

Usaremos a caracterização pela malha.

Se \(f,g\in \mathcal R[a,b]\), então, para uma mesma partição marcada,

\[ S(f+g;P,\xi )=S(f;P,\xi )+S(g;P,\xi ). \]

Dado \(\varepsilon \gt 0\), escolha \(\delta \) que funcione simultaneamente para \(f\) e \(g\), com erro \(\varepsilon /2\). Segue que

\[ S(f+g;P,\xi ) \longrightarrow \int _a^b f+\int _a^b g, \]

uniformemente nas marcas quando \(\| P\| \to 0\). Pelo Teorema 10.10, \(f+g\) é integrável e

\[ \int _a^b(f+g)=\int _a^b f+\int _a^b g. \]

Do mesmo modo,

\[ S(\lambda f;P,\xi )=\lambda S(f;P,\xi ), \]

o que prova a segunda afirmação para todo \(\lambda \in \mathbb {R}\).

Para o produto, ponha

\[ A=\| f\| _\infty , \qquad B=\| g\| _\infty . \]

Se \(x,y\in I\), então

\[ |f(x)g(x)-f(y)g(y)| \le A|g(x)-g(y)|+B|f(x)-f(y)|. \]

Logo

\[ \omega (fg;I) \le A\, \omega (g;I)+B\, \omega (f;I). \]

Escolha uma partição comum para a qual as somas ponderadas das oscilações de \(f\) e \(g\) sejam tão pequenas quanto desejado. O critério de oscilação mostra que \(fg\) é integrável.

Como

\[ \bigl||f(x)|-|f(y)|\bigr| \le |f(x)-f(y)|, \]

temos

\[ \omega (|f|;I)\le \omega (f;I), \]

e portanto \(|f|\) é integrável. Finalmente,

\[ \max \{ f,g\} =\frac{f+g+|f-g|}{2}, \qquad \min \{ f,g\} =\frac{f+g-|f-g|}{2}, \]

e as duas últimas afirmações seguem das anteriores.

Teorema 10.16 (Monotonicidade da integral)
Se \(f,g\in \mathcal R[a,b]\) e \(f(x)\le g(x)\) para todo \(x\), então
\[ \int _a^b f\le \int _a^b g. \]
Em particular, se \(f\ge 0\), então
\[ \int _a^b f\ge 0. \]

Demonstração

Para toda partição marcada,

\[ S(f;P,\xi )\le S(g;P,\xi ). \]

Passe ao limite quando a malha tende a zero.

Corolário 10.17
Se \(f\in \mathcal R[a,b]\), então
\[ \left|\int _a^b f(x)\, dx\right| \le \int _a^b |f(x)|\, dx \le (b-a)\| f\| _\infty . \]

Demonstração

Como

\[ -|f|\le f\le |f|, \]

a monotonicidade e a linearidade da integral fornecem

\[ -\int _a^b|f| \le \int _a^b f \le \int _a^b|f|, \]

e portanto

\[ \left|\int _a^b f\right| \le \int _a^b|f|. \]

Além disso,

\[ |f(x)|\le \| f\| _\infty \]

para todo \(x\), logo

\[ \int _a^b|f(x)|\, dx \le \int _a^b\| f\| _\infty \, dx = (b-a)\| f\| _\infty . \]

Teorema 10.18 (Alteração em finitíssimos pontos)
Se \(f,g:[a,b]\to \mathbb {R}\) são limitadas e coincidem exceto, possivelmente, em um conjunto finito, então \(f\) é Riemann-integrável se, e somente se, \(g\) é Riemann-integrável. Nesse caso,
\[ \int _a^b f=\int _a^b g. \]

Demonstração

Ponha \(h=f-g\). Então \(h\) é limitada e é nula fora de um conjunto finito

\[ E=\{ c_1,\ldots ,c_r\} . \]

Se \(h\equiv 0\), o resultado é imediato. Escolha \(M\gt 0\) com \(|h|\le M\). Dado \(\varepsilon \gt 0\), cubra os pontos \(c_j\) por finitíssimos intervalos abertos relativos de \([a,b]\), de comprimento total menor que \(\varepsilon /(2M)\), e escolha uma partição \(P_0\) contendo os extremos desses intervalos.

Para qualquer refinamento marcado \((P,\xi )\) de \(P_0\), os termos da soma de Riemann só podem ser não nulos nos subintervalos contidos nessa cobertura. Logo

\[ |S(h;P,\xi )| \le M\frac{\varepsilon }{2M} \lt \varepsilon . \]

Pelo Teorema 10.9, \(h\) é integrável e

\[ \int _a^b h=0. \]

Como \(f=g+h\), a linearidade da integral mostra que \(f\) é integrável se, e somente se, \(g\) é, e que suas integrais coincidem.

10.5 Aditividade em intervalos

A integral é local no intervalo: dividir o domínio e integrar as partes produz o mesmo resultado que integrar tudo de uma vez.

Teorema 10.19
Se \(a\lt c\lt b\), então \(f\) é Riemann-integrável em \([a,b]\) se, e somente se, é integrável em \([a,c]\) e em \([c,b]\). Nesse caso,
\[ \int _a^b f = \int _a^c f+\int _c^b f. \]

Demonstração

Suponha primeiro que \(f\) seja integrável em \([a,c]\) e em \([c,b]\). Dado \(\varepsilon \gt 0\), escolha partições \(P_1\) e \(P_2\) desses intervalos tais que

\[ U(f,P_1)-L(f,P_1)\lt \frac{\varepsilon }{2}, \qquad U(f,P_2)-L(f,P_2)\lt \frac{\varepsilon }{2}. \]

Então \(P=P_1\cup P_2\) é uma partição de \([a,b]\) e

\[ U(f,P)-L(f,P) = \bigl(U(f,P_1)-L(f,P_1)\bigr) + \bigl(U(f,P_2)-L(f,P_2)\bigr) \lt \varepsilon . \]

Logo \(f\) é integrável em \([a,b]\).

Reciprocamente, suponha que \(f\) seja integrável em \([a,b]\). Dado \(\varepsilon \gt 0\), escolha uma partição \(P\) de \([a,b]\) contendo \(c\) e tal que

\[ U(f,P)-L(f,P)\lt \varepsilon . \]

As subpartições \(P_1=P\cap [a,c]\) e \(P_2=P\cap [c,b]\) satisfazem

\[ 0\le U(f,P_j)-L(f,P_j) \le U(f,P)-L(f,P)\lt \varepsilon , \]

e o Critério de Darboux mostra que as duas restrições são integráveis.

Por fim, escreva

\[ I_1=\int _a^c f, \qquad I_2=\int _c^b f, \qquad I=\int _a^b f. \]

Dado \(\varepsilon \gt 0\), escolha partições \(P_1,P_2\) tais que

\[ L(f,P_1)\gt I_1-\frac{\varepsilon }{2}, \qquad L(f,P_2)\gt I_2-\frac{\varepsilon }{2}. \]

Então

\[ I\ge L(f,P_1\cup P_2) = L(f,P_1)+L(f,P_2) \gt I_1+I_2-\varepsilon . \]

Analogamente, escolhendo partições cujas somas superiores estejam a menos de \(\varepsilon /2\) de \(I_1\) e \(I_2\), obtemos

\[ I\lt I_1+I_2+\varepsilon . \]

Como \(\varepsilon \) é arbitrário,

\[ \int _a^b f = \int _a^c f+\int _c^b f. \]

Adotamos as convenções

\[ \int _a^a f=0, \qquad \int _b^a f=-\int _a^b f. \]

Com elas, a aditividade

\[ \int _a^b f+\int _b^c f=\int _a^c f \]

vale para quaisquer \(a,b,c\) para os quais as integrais estejam definidas.

10.6 Descontinuidades e o critério de Lebesgue

A integrabilidade de uma função limitada não exige continuidade em todos os pontos. O que importa é que suas descontinuidades sejam suficientemente esparsas.

Definição 10.20
Um conjunto \(E\subset \mathbb {R}\) tem medida zero se, para todo \(\varepsilon \gt 0\), existem intervalos abertos \(J_1,J_2,\ldots \) tais que
\[ E\subset \bigcup _{k=1}^{\infty }J_k \]
e
\[ \sum _{k=1}^{\infty }|J_k|\lt \varepsilon . \]

Proposição 10.21
Valem as seguintes propriedades:
  1. todo subconjunto de um conjunto de medida zero tem medida zero;

  2. toda união enumerável de conjuntos de medida zero tem medida zero;

  3. todo conjunto enumerável tem medida zero.

Demonstração

O primeiro item é imediato.

Para o segundo, escreva

\[ E=\bigcup _{n=1}^{\infty }E_n, \]

com cada \(E_n\) de medida zero. Dado \(\varepsilon \gt 0\), cubra \(E_n\) por intervalos abertos cuja soma dos comprimentos seja menor que \(\varepsilon /2^n\). A reunião de todas essas coberturas cobre \(E\), e a soma total dos comprimentos é menor que

\[ \sum _{n=1}^{\infty }\frac{\varepsilon }{2^n} = \varepsilon . \]

Para o terceiro, se

\[ E=\{ x_1,x_2,\ldots \} , \]

cubra \(x_n\) por um intervalo aberto de comprimento menor que \(\varepsilon /2^n\). O caso finito é ainda mais simples.

Para uma função limitada \(f\), defina a oscilação de \(f\) no ponto \(x\) por

\[ \omega _f(x) = \inf _{\delta \gt 0} \omega \bigl(f;[a,b]\cap (x-\delta ,x+\delta )\bigr). \]

Lema 10.22
Para \(x\in [a,b]\),
\[ f\text{ é contínua em }x \quad \Longleftrightarrow \quad \omega _f(x)=0. \]

Demonstração

Se \(f\) é contínua em \(x\), então, dado \(\varepsilon \gt 0\), existe \(\delta \gt 0\) tal que

\[ |f(y)-f(x)|\lt \frac{\varepsilon }{2} \]

sempre que \(y\in [a,b]\) e \(|y-x|\lt \delta \). Para quaisquer \(y,z\) nessa vizinhança,

\[ |f(y)-f(z)| \le |f(y)-f(x)|+|f(z)-f(x)| \lt \varepsilon , \]

logo a oscilação nessa vizinhança é menor que \(\varepsilon \), e \(\omega _f(x)=0\).

Reciprocamente, se \(\omega _f(x)=0\), dado \(\varepsilon \gt 0\) existe \(\delta \gt 0\) tal que

\[ \omega \bigl(f;[a,b]\cap (x-\delta ,x+\delta )\bigr)\lt \varepsilon . \]

Como \(x\) pertence a esse conjunto, para todo \(y\) na mesma vizinhança,

\[ |f(y)-f(x)|\lt \varepsilon . \]

Portanto \(f\) é contínua em \(x\).

Lema 10.23
Para todo \(\eta \gt 0\), o conjunto
\[ K_\eta =\{ x\in [a,b]:\omega _f(x)\ge \eta \} \]
é fechado.

Demonstração

Se \(x\notin K_\eta \), então \(\omega _f(x)\lt \eta \). Pela definição de oscilação pontual, existe \(\delta \gt 0\) tal que

\[ \omega \bigl(f;[a,b]\cap (x-\delta ,x+\delta )\bigr)\lt \eta . \]

Se \(|y-x|\lt \delta /2\), então uma vizinhança suficientemente pequena de \(y\) está contida em \((x-\delta ,x+\delta )\). Logo

\[ \omega _f(y)\lt \eta . \]

Portanto o complemento de \(K_\eta \) é aberto.

Lema 10.24 (Número de Lebesgue em um intervalo)
Se uma coleção finita de abertos relativos \(V_1,\ldots ,V_N\) de \([a,b]\) cobre \([a,b]\), então existe \(\delta \gt 0\) tal que todo subintervalo de \([a,b]\) de comprimento menor que \(\delta \) está contido em algum \(V_j\).

Demonstração

Para cada \(x\in [a,b]\), escolha \(r_x\gt 0\) e um índice \(j(x)\) tais que

\[ [a,b]\cap (x-r_x,x+r_x)\subset V_{j(x)}. \]

Os intervalos

\[ (x-r_x/2,x+r_x/2) \]

cobrem \([a,b]\). Pela compacidade, basta uma subcobertura finita, associada a pontos \(x_1,\ldots ,x_m\). Tome

\[ \delta =\frac12\min _{1\le k\le m}r_{x_k}. \]

Se um subintervalo \(I\) tem comprimento menor que \(\delta \), escolha \(y\in I\) e \(k\) tal que

\[ |y-x_k|\lt r_{x_k}/2. \]

Para qualquer \(z\in I\),

\[ |z-x_k| \le |z-y|+|y-x_k| \lt \delta +\frac{r_{x_k}}2 \le r_{x_k}. \]

Logo

\[ I\subset V_{j(x_k)}. \]

Teorema 10.25 (Critério de Lebesgue para a integral de Riemann)
Se \(f:[a,b]\to \mathbb {R}\) é limitada, então
\[ f\in \mathcal R[a,b] \quad \Longleftrightarrow \quad D_f\text{ tem medida zero}, \]
onde \(D_f\) é o conjunto dos pontos de descontinuidade de \(f\).

Demonstração

Para \(m\in \mathbb {N}\), defina

\[ D_m=\left\{ x\in [a,b]:\omega _f(x)\ge \frac1m\right\} . \]

Pelo Lema 10.23, cada \(D_m\) é fechado. Além disso,

\[ D_f=\bigcup _{m=1}^{\infty }D_m. \]

De fato, pelo Lema 10.22, \(f\) é descontínua em \(x\) exatamente quando \(\omega _f(x)\gt 0\); pela propriedade arquimediana, nesse caso existe \(m\in \mathbb {N}\) tal que

\[ \frac1m\le \omega _f(x). \]

Suponha primeiro que \(f\) seja integrável. Fixe \(m\) e \(\varepsilon \gt 0\). Pelo critério de oscilação, escolha uma partição \(P=\{ x_0,\ldots ,x_n\} \) tal que

\[ \sum _i\omega (f;I_i)\Delta x_i \lt \frac{\varepsilon }{4m}. \]

Considere os índices para os quais

\[ \omega (f;I_i)\ge \frac1m. \]

A soma dos comprimentos desses intervalos é menor que \(\varepsilon /4\). Todo ponto de \(D_m\) que não seja um ponto da partição pertence ao interior de algum desses intervalos. Alargando ligeiramente os finitíssimos intervalos selecionados, podemos cobri-los por intervalos abertos cuja soma dos comprimentos seja menor que \(\varepsilon /2\). Os finitíssimos pontos de \(P\) podem ser cobertos por intervalos abertos com soma dos comprimentos menor que \(\varepsilon /2\). Logo \(D_m\) tem medida zero.

Pela Proposição 10.21,

\[ D_f=\bigcup _{m=1}^{\infty }D_m \]

também tem medida zero.

Reciprocamente, suponha que \(D_f\) tenha medida zero. Se \(f\equiv 0\), o resultado é imediato; suponha

\[ |f|\le M \qquad \text{com }M\gt 0. \]

Fixe \(\varepsilon \gt 0\) e escolha \(\eta \gt 0\) tal que

\[ \eta (b-a)\lt \frac{\varepsilon }{2}. \]

O conjunto

\[ K_\eta =\{ x:\omega _f(x)\ge \eta \} \]

é fechado pelo Lema 10.23; portanto é compacto. Como \(K_\eta \subset D_f\), ele tem medida zero. Escolha intervalos abertos \(G_1,G_2,\ldots \) cobrindo \(K_\eta \) e satisfazendo

\[ \sum _j|G_j|\lt \frac{\varepsilon }{4M}. \]

Pela compacidade de \(K_\eta \), uma subfamília finita \(G_1,\ldots ,G_r\) já o cobre.

Se \(x\notin K_\eta \), então \(\omega _f(x)\lt \eta \). Logo existe um intervalo aberto \(V_x\) contendo \(x\) tal que

\[ \omega (f;V_x\cap [a,b])\lt \eta . \]

O conjunto compacto

\[ [a,b]\setminus \bigcup _{j=1}^{r}G_j \]

é coberto por finitíssimos desses intervalos, digamos \(V_1,\ldots ,V_s\). Assim,

\[ G_1,\ldots ,G_r,V_1,\ldots ,V_s \]

é uma cobertura aberta finita de \([a,b]\).

Pelo Lema 10.24, existe uma partição \(P\) de malha suficientemente pequena para que cada subintervalo \(I_i\) esteja contido em um dos conjuntos dessa cobertura. Se \(I_i\subset V_k\), então

\[ \omega (f;I_i)\lt \eta . \]

Nos demais subintervalos, contidos em algum \(G_j\), usamos

\[ \omega (f;I_i)\le 2M. \]

Como os subintervalos de \(P\) têm interiores disjuntos, a soma dos comprimentos daqueles contidos na união dos \(G_j\) é no máximo

\[ \sum _{j=1}^{r}|G_j|. \]

Consequentemente,

\[ \begin{aligned} U(f,P)-L(f,P) & = \sum _i\omega (f;I_i)\Delta x_i\\ & \lt 2M\sum _{j=1}^{r}|G_j| +\eta (b-a)\\ & \lt \frac{\varepsilon }{2}+\frac{\varepsilon }{2} = \varepsilon . \end{aligned} \]

O Critério de Darboux conclui a prova.

Exemplo 10.26

A função de Thomae

\[ t(x)= \begin{cases} 1/q,& x=p/q\in \mathbb {Q},\ \gcd (p,q)=1,\ q\gt 0,\\ 0,& x\notin \mathbb {Q}\end{cases} \]

é contínua em todo irracional e descontínua em todo racional.

De fato, fixe \(x_0\notin \mathbb {Q}\) e \(\varepsilon \gt 0\). Escolha \(N\) tal que \(1/N\lt \varepsilon \). No intervalo \([x_0-1,x_0+1]\) há apenas finitíssimos racionais reduzidos \(p/q\) com \(q\le N\): para cada um dos finitíssimos denominadores \(q\le N\), apenas finitos inteiros \(p\) podem satisfazer \(p/q\in [x_0-1,x_0+1]\). Como \(x_0\) não é nenhum desses racionais, existe \(0\lt \delta \lt 1\) tal que \((x_0-\delta ,x_0+\delta )\) não contém nenhum desses finitíssimos pontos. Assim, se \(|x-x_0|\lt \delta \), então

\[ 0\le t(x)\lt \frac1N\lt \varepsilon , \]

e \(t\) é contínua em \(x_0\).

Se \(x_0=p/q\) é racional na forma reduzida, toda vizinhança de \(x_0\) contém irracionais \(y\), para os quais \(t(y)=0\), enquanto \(t(x_0)=1/q\gt 0\). Logo \(t\) é descontínua em \(x_0\).

Portanto o conjunto de descontinuidades é

\[ D_t=\mathbb {Q}\cap [a,b], \]

que é enumerável e, pela Proposição 10.21, tem medida zero. Pelo Critério de Lebesgue, \(t\) é Riemann-integrável.

Como todo subintervalo contém irracionais, o ínfimo de \(t\) em cada subintervalo é \(0\). Portanto

\[ L(t,P)=0 \]

para toda partição \(P\), e consequentemente

\[ \int _a^b t(x)\, dx=0. \]

10.7 A função integral e o Teorema Fundamental do Cálculo

A definição de Darboux não usa primitivas. Agora podemos perguntar quando a integral produz uma primitiva.

Fixe \(f\in \mathcal R[a,b]\) e defina

\[ F(x)=\int _a^x f(t)\, dt, \qquad x\in [a,b]. \]

Teorema 10.27
Se \(|f(x)|\le M\) em \([a,b]\), então
\[ |F(y)-F(x)| \le M|y-x| \]
para todos \(x,y\in [a,b]\). Em particular, \(F\) é Lipschitz e, portanto, contínua.

Demonstração

Suponha \(x\lt y\). Pela aditividade,

\[ F(y)-F(x)=\int _x^y f(t)\, dt. \]

Pelo Corolário 10.17,

\[ |F(y)-F(x)| \le \int _x^y|f(t)|\, dt \le M(y-x). \]

Se \(y\lt x\), basta trocar os papéis de \(x\) e \(y\); para \(x=y\), a desigualdade é trivial.

Teorema 10.28 (Teorema Fundamental do Cálculo I)
Se \(f\in \mathcal R[a,b]\) é contínua em \(x_0\in (a,b)\), então a função
\[ F(x)=\int _a^x f(t)\, dt \]
é diferenciável em \(x_0\) e
\[ F'(x_0)=f(x_0). \]
Em particular, se \(f\) é contínua em \([a,b]\), então \(F'=f\) em \((a,b)\), com as derivadas laterais correspondentes nos extremos.

Demonstração

Para \(h\neq 0\) suficientemente pequeno,

\[ \frac{F(x_0+h)-F(x_0)}{h} = \frac1h\int _{x_0}^{x_0+h}f(t)\, dt. \]

Subtraindo \(f(x_0)\),

\[ \frac{F(x_0+h)-F(x_0)}{h}-f(x_0) = \frac1h \int _{x_0}^{x_0+h}\bigl(f(t)-f(x_0)\bigr)\, dt. \]

Logo

\[ \left| \frac{F(x_0+h)-F(x_0)}{h}-f(x_0) \right| \le \sup _{t\text{ entre }x_0\text{ e }x_0+h} |f(t)-f(x_0)|. \]

O lado direito tende a \(0\) pela continuidade de \(f\) em \(x_0\).

Nos extremos \(a\) e \(b\), o mesmo argumento é aplicado apenas para \(h\gt 0\) ou \(h\lt 0\), respectivamente, produzindo as derivadas laterais correspondentes.

A recíproca, no sentido adequado, é a segunda parte do teorema.

Teorema 10.29 (Teorema Fundamental do Cálculo II)
Se \(G:[a,b]\to \mathbb {R}\) é contínua em \([a,b]\), diferenciável em \((a,b)\), e a derivada \(G'\) admite uma extensão \(h\in \mathcal R[a,b]\), então
\[ \int _a^b h(x)\, dx = G(b)-G(a). \]
Pelo Teorema 10.18, o valor da integral não depende dos valores escolhidos para a extensão nos extremos. Por isso escreveremos simplesmente
\[ \int _a^b G'(x)\, dx. \]

Demonstração

Seja \(P=\{ x_0,\ldots ,x_n\} \) uma partição. Pelo Teorema do Valor Médio, para cada \(i\) existe \(\xi _i\in (x_{i-1},x_i)\) tal que

\[ G(x_i)-G(x_{i-1}) = G'(\xi _i)\Delta x_i = h(\xi _i)\Delta x_i. \]

Somando,

\[ G(b)-G(a) = \sum _{i=1}^{n}h(\xi _i)\Delta x_i. \]

O lado direito é uma soma de Riemann de \(h\). Pelo Teorema 10.10, quando a malha tende a zero essas somas convergem para

\[ \int _a^b h(x)\, dx. \]

Logo

\[ G(b)-G(a)=\int _a^b G'(x)\, dx. \]

Corolário 10.30 (Fórmula de Newton–Leibniz)
Se \(f\) é contínua em \([a,b]\) e \(G\) é qualquer primitiva de \(f\), então
\[ \int _a^b f(x)\, dx = G(b)-G(a). \]

Demonstração

No interior de \([a,b]\), temos \(G'=f\). Como \(f\) é contínua, \(f\in \mathcal R[a,b]\) e fornece uma extensão Riemann-integrável da derivada aos extremos. Aplique o Teorema Fundamental do Cálculo II.

Integração por partes e mudança de variável

Teorema 10.31 (Integração por partes)
Se \(f,g\) são contínuas em \([a,b]\), diferenciáveis em \((a,b)\), e as funções \(f'g\) e \(fg'\), definidas em \((a,b)\), admitem extensões Riemann-integráveis a \([a,b]\), então
\[ \int _a^b f(x)g'(x)\, dx = f(b)g(b)-f(a)g(a) - \int _a^b f'(x)g(x)\, dx. \]
Como no Teorema Fundamental do Cálculo II, os valores escolhidos para as extensões nos extremos não alteram as integrais.

Demonstração

A função \(fg\) é contínua em \([a,b]\), diferenciável em \((a,b)\), e

\[ (fg)'=f'g+fg'. \]

Pelo Teorema 10.15, a derivada \((fg)'\) é Riemann-integrável, pois \(f'g\) e \(fg'\) são integráveis por hipótese. Aplicando o Teorema Fundamental do Cálculo II,

\[ f(b)g(b)-f(a)g(a) = \int _a^b f'(x)g(x)\, dx + \int _a^b f(x)g'(x)\, dx, \]

e basta rearranjar os termos.

Teorema 10.32 (Mudança de variável)
Se \(\varphi :[\alpha ,\beta ]\to [a,b]\) é de classe \(C^1\) e \(f:[a,b]\to \mathbb {R}\) é contínua, então
\[ \int _\alpha ^\beta f(\varphi (t))\varphi '(t)\, dt = \int _{\varphi (\alpha )}^{\varphi (\beta )} f(x)\, dx. \]

Demonstração

Defina

\[ F(x)=\int _{\varphi (\alpha )}^x f(u)\, du. \]

Pelo Teorema Fundamental do Cálculo I, \(F'=f\). Pela regra da cadeia,

\[ (F\circ \varphi )'(t) = f(\varphi (t))\varphi '(t). \]

Como \(f\circ \varphi \) e \(\varphi '\) são contínuas, o produto é contínuo e, portanto, Riemann-integrável. O Teorema Fundamental do Cálculo II aplicado a \(F\circ \varphi \) em \([\alpha ,\beta ]\) fornece

\[ \int _\alpha ^\beta f(\varphi (t))\varphi '(t)\, dt = F(\varphi (\beta ))-F(\varphi (\alpha )), \]

que é exatamente

\[ \int _{\varphi (\alpha )}^{\varphi (\beta )}f(x)\, dx. \]

10.8 Integrais infinitas

Até aqui, a integral de Riemann foi definida em intervalos fechados e limitados. Há, porém, situações naturais em que o domínio se estende indefinidamente. O exemplo mais simples é uma função definida em \([a,\infty )\). Nesse caso, integramos primeiro até um ponto finito \(R\) e estudamos o comportamento dessa integral quando \(R\to \infty \).

Diremos que \(f:[a,\infty )\to \mathbb {R}\) é Riemann-integrável em intervalos compactos se

\[ f|_{[a,R]}\in \mathcal R[a,R] \qquad \text{para todo }R\gt a. \]

Definição 10.33 (Integral infinita)

Se \(f:[a,\infty )\to \mathbb {R}\) é Riemann-integrável em intervalos compactos, dizemos que a integral infinita

\[ \int _a^\infty f(x)\, dx \]

converge se existe, como número real, o limite

\[ \lim _{R\to \infty }\int _a^R f(x)\, dx. \]

Nesse caso, definimos

\[ \int _a^\infty f(x)\, dx = \lim _{R\to \infty }\int _a^R f(x)\, dx. \]

Se esse limite não existe como número real, dizemos que a integral diverge.

De modo análogo, se \(f:(-\infty ,b]\to \mathbb {R}\) é Riemann-integrável em todo intervalo compacto \([R,b]\), definimos

\[ \int _{-\infty }^b f(x)\, dx = \lim _{R\to -\infty }\int _R^b f(x)\, dx \]

quando esse limite existe e é finito.

Integrais desse tipo são também chamadas integrais impróprias sobre intervalos ilimitados. O termo imprópria indica que o novo objeto é definido por um limite de integrais de Riemann usuais.

Definição 10.34
Se \(f:\mathbb {R}\to \mathbb {R}\) é Riemann-integrável em todo intervalo compacto, escolha \(c\in \mathbb {R}\). Dizemos que
\[ \int _{-\infty }^{\infty }f(x)\, dx \]
converge se ambas as integrais
\[ \int _{-\infty }^{c}f(x)\, dx \qquad \text{e}\qquad \int _c^\infty f(x)\, dx \]
convergem. Nesse caso, definimos
\[ \int _{-\infty }^{\infty }f(x)\, dx = \int _{-\infty }^{c}f(x)\, dx + \int _c^\infty f(x)\, dx. \]

A definição não depende do ponto \(c\). De fato, se \(c\lt d\), a aditividade em intervalos finitos fornece

\[ \int _c^R f = \int _c^d f+\int _d^R f. \]

Fazendo \(R\to \infty \), vemos que a convergência de uma das caudas direitas equivale à da outra, e seus valores diferem por \(\int _c^d f\). O mesmo vale para a cauda esquerda, e a soma total permanece inalterada.

Observação 10.35
Não basta fazer os extremos tenderem simetricamente ao infinito. Por exemplo, para \(f(x)=x\),
\[ \int _{-R}^{R}x\, dx=0 \qquad \text{para todo }R\gt 0, \]
mas as duas integrais
\[ \int _0^\infty x\, dx \qquad \text{e}\qquad \int _{-\infty }^0 x\, dx \]
divergem. Assim, a integral sobre toda a reta não existe no sentido da Definição 10.34. O limite simétrico, quando existe, é outro conceito, chamado valor principal de Cauchy.

Para funções não negativas, a convergência possui uma caracterização particularmente simples.

Proposição 10.36
Se \(f:[a,\infty )\to \mathbb {R}\) é Riemann-integrável em intervalos compactos e \(f\ge 0\), então
\[ \int _a^\infty f(x)\, dx \]
converge se, e somente se, o conjunto
\[ \left\{ \int _a^R f(x)\, dx:\ R\gt a \right\} \]
é limitado superiormente. Nesse caso,
\[ \int _a^\infty f(x)\, dx = \sup _{R\gt a}\int _a^R f(x)\, dx. \]

Demonstração

Defina

\[ F(R)=\int _a^R f(x)\, dx. \]

Como \(f\ge 0\), a monotonicidade da integral mostra que \(F\) é não decrescente. Se \(F(R)\) converge para um número real \(L\), então seus valores são limitados superiormente.

Reciprocamente, suponha que \(F\) seja limitada superiormente e ponha

\[ L=\sup _{R\gt a}F(R). \]

Dado \(\varepsilon \gt 0\), pela definição de supremo existe \(R_0\gt a\) tal que

\[ L-\varepsilon \lt F(R_0)\le L. \]

Se \(R\ge R_0\), a monotonicidade dá

\[ L-\varepsilon \lt F(R_0)\le F(R)\le L. \]

Logo \(F(R)\to L\) quando \(R\to \infty \), e a integral infinita converge.

Quando \(f\ge 0\) e as integrais parciais não são limitadas superiormente, temos

\[ \int _a^R f(x)\, dx\longrightarrow +\infty . \]

Nesse caso é comum escrever

\[ \int _a^\infty f(x)\, dx=+\infty , \]

entendendo que a integral diverge para \(+\infty \).

Teorema 10.37 (Comparação para integrais infinitas)
Sejam \(f,g:[a,\infty )\to \mathbb {R}\) Riemann-integráveis em intervalos compactos e suponha que exista \(A\ge a\) tal que
\[ 0\le f(x)\le g(x) \qquad \text{para todo }x\ge A. \]
Então:
  1. se \(\displaystyle \int _a^\infty g(x)\, dx\) converge, então \(\displaystyle \int _a^\infty f(x)\, dx\) converge;

  2. se \(\displaystyle \int _a^\infty f(x)\, dx\) diverge para \(+\infty \), então \(\displaystyle \int _a^\infty g(x)\, dx\) também diverge para \(+\infty \).

Demonstração

Para \(R\ge A\),

\[ 0\le \int _A^R f(x)\, dx \le \int _A^R g(x)\, dx. \]

Se \(\int _a^\infty g\) converge, então, pela aditividade,

\[ \int _A^\infty g(x)\, dx = \int _a^\infty g(x)\, dx-\int _a^A g(x)\, dx \]

também converge. Assim, as integrais

\[ \int _A^R g(x)\, dx \]

são limitadas superiormente. Pela Proposição 10.36, aplicada agora no intervalo \([A,\infty )\), a integral

\[ \int _A^\infty f(x)\, dx \]

converge. Somando a integral finita \(\int _a^A f\), concluímos que \(\int _a^\infty f\) converge.

O segundo item é a contrapositiva do primeiro, observando que, a partir de \(A\), as duas funções são não negativas; portanto, se uma das integrais diverge, sua cauda diverge para \(+\infty \).

O modelo fundamental é a integral das potências.

Exemplo 10.38 (Integrais \(p\))
Para \(p\in \mathbb {R}\),
\[ \int _1^\infty \frac{dx}{x^p} \]
converge se, e somente se, \(p\gt 1\). De fato, se \(p\neq 1\), a fórmula de Newton–Leibniz fornece
\[ \int _1^R x^{-p}\, dx = \frac{R^{1-p}-1}{1-p}. \]
Se \(p\gt 1\), então \(R^{1-p}\to 0\), e portanto
\[ \int _1^\infty \frac{dx}{x^p} = \frac1{p-1}. \]
Se \(p\lt 1\), as integrais parciais tendem a \(+\infty \). Para \(p=1\),
\[ \int _1^R\frac{dx}{x}=\log R\longrightarrow +\infty . \]

Exemplo 10.39
A exponencial decrescente fornece outro exemplo básico:
\[ \int _0^\infty e^{-x}\, dx = \lim _{R\to \infty }\bigl(1-e^{-R}\bigr) = 1. \]
Aqui usamos as propriedades usuais da função exponencial já familiares do Cálculo; sua construção analítica detalhada será retomada posteriormente no livro.

As integrais infinitas transformam, portanto, uma questão sobre um domínio não limitado em uma questão de convergência da função

\[ R\longmapsto \int _a^R f(x)\, dx. \]

É exatamente esse ponto de vista que aparece no critério integral para séries.

10.9 Integral de Riemann–Stieltjes

Na integral de Riemann, cada subintervalo \([x_{i-1},x_i]\) recebe o peso

\[ x_i-x_{i-1}. \]

Nada obriga, porém, que a acumulação seja medida pelo comprimento. Seja \(\alpha :[a,b]\to \mathbb {R}\) uma função não decrescente. Podemos medir o subintervalo pela variação

\[ \Delta \alpha _i = \alpha (x_i)-\alpha (x_{i-1}). \]

Quando \(\alpha (x)=x\), recuperamos a teoria anterior. Quando \(\alpha \) tem saltos, parte do peso fica concentrada em pontos. Essa possibilidade é a novidade essencial da integral de Stieltjes.

Definição 10.40
Se \(f:[a,b]\to \mathbb {R}\) é limitada, \(\alpha :[a,b]\to \mathbb {R}\) é não decrescente e \(P=\{ x_0,\ldots ,x_n\} \), definimos
\[ L_\alpha (f,P) = \sum _{i=1}^{n} m_i\bigl(\alpha (x_i)-\alpha (x_{i-1})\bigr), \]
\[ U_\alpha (f,P) = \sum _{i=1}^{n} M_i\bigl(\alpha (x_i)-\alpha (x_{i-1})\bigr), \]
onde
\[ m_i=\inf _{I_i}f, \qquad M_i=\sup _{I_i}f. \]

Como \(\alpha \) é não decrescente, todos os pesos \(\Delta \alpha _i\) são não negativos. O argumento de refinamento usado para as somas de Darboux permanece válido sem mudança essencial.

Teorema 10.41
Se \(Q\) refina \(P\), então
\[ L_\alpha (f,P) \le L_\alpha (f,Q) \le U_\alpha (f,Q) \le U_\alpha (f,P). \]

Demonstração

Como no caso de Darboux, basta inserir um único ponto \(c\in (x_{k-1},x_k)\). Escreva

\[ \Delta \alpha = \alpha (x_k)-\alpha (x_{k-1}), \]
\[ \Delta \alpha ' = \alpha (c)-\alpha (x_{k-1}), \qquad \Delta \alpha '' = \alpha (x_k)-\alpha (c). \]

Como \(\alpha \) é não decrescente,

\[ \Delta \alpha ',\Delta \alpha ''\ge 0, \qquad \Delta \alpha =\Delta \alpha '+\Delta \alpha ''. \]

Se \(m,m',m''\) são os ínfimos de \(f\) no intervalo original e nos dois subintervalos, então \(m\le m',m''\), e portanto

\[ m\Delta \alpha \le m'\Delta \alpha '+m''\Delta \alpha ''. \]

Logo a soma inferior não diminui. O argumento com supremos mostra que a soma superior não aumenta. Inserindo sucessivamente os pontos de um refinamento, obtemos as desigualdades externas. A desigualdade

\[ L_\alpha (f,Q)\le U_\alpha (f,Q) \]

segue termo a termo de \(m_i\le M_i\) e \(\Delta \alpha _i\ge 0\).

Corolário 10.42
Para quaisquer partições \(P,Q\) de \([a,b]\),
\[ L_\alpha (f,P)\le U_\alpha (f,Q). \]

Demonstração

Para o refinamento comum \(R=P\cup Q\),

\[ L_\alpha (f,P) \le L_\alpha (f,R) \le U_\alpha (f,R) \le U_\alpha (f,Q). \]

Se \(|f|\le M\), então, para toda partição \(P\),

\[ -M\bigl(\alpha (b)-\alpha (a)\bigr) \le L_\alpha (f,P) \le U_\alpha (f,P) \le M\bigl(\alpha (b)-\alpha (a)\bigr). \]

Assim, as famílias de somas inferiores e superiores são, respectivamente, limitadas superior e inferiormente. Além disso, pelo Corolário 10.35, toda soma inferior é menor que toda soma superior.

Definição 10.43
Definimos
\[ \underline{\int _a^b} f\, d\alpha = \sup _P L_\alpha (f,P), \qquad \overline{\int _a^b} f\, d\alpha = \inf _P U_\alpha (f,P). \]
Dizemos que \(f\) é Riemann–Stieltjes integrável em relação a \(\alpha \) quando as duas quantidades coincidem. Nesse caso escrevemos
\[ \int _a^b f\, d\alpha \]
e denotamos \(f\in \mathcal R(\alpha ;[a,b])\).

Pelo Corolário 10.35,

\[ \underline{\int _a^b} f\, d\alpha \le \overline{\int _a^b} f\, d\alpha . \]

A integral de Riemann é o caso

\[ \alpha (x)=x. \]

10.10 Caracterizações da integrabilidade de Stieltjes

A teoria de Darboux reaparece quase palavra por palavra, mas com os comprimentos \(\Delta x_i\) substituídos pelas variações \(\Delta \alpha _i\).

Teorema 10.44 (Critério de Darboux–Stieltjes)
Uma função limitada \(f\) pertence a \(\mathcal R(\alpha ;[a,b])\) se, e somente se, para todo \(\varepsilon \gt 0\) existe uma partição \(P\) tal que
\[ U_\alpha (f,P)-L_\alpha (f,P)\lt \varepsilon . \]

Demonstração

Se

\[ I=\int _a^b f\, d\alpha , \]

então, pela definição de supremo e ínfimo, existem partições \(P_1,P_2\) tais que

\[ L_\alpha (f,P_1)\gt I-\frac{\varepsilon }{2}, \qquad U_\alpha (f,P_2)\lt I+\frac{\varepsilon }{2}. \]

Para o refinamento comum \(P=P_1\cup P_2\),

\[ L_\alpha (f,P)\ge L_\alpha (f,P_1), \qquad U_\alpha (f,P)\le U_\alpha (f,P_2), \]

e assim

\[ U_\alpha (f,P)-L_\alpha (f,P)\lt \varepsilon . \]

Reciprocamente, suponha que para todo \(\varepsilon \gt 0\) exista \(P\) com

\[ U_\alpha (f,P)-L_\alpha (f,P)\lt \varepsilon . \]

Como

\[ L_\alpha (f,P) \le \underline{\int _a^b}f\, d\alpha \le \overline{\int _a^b}f\, d\alpha \le U_\alpha (f,P), \]

a diferença entre as integrais superior e inferior é menor que \(\varepsilon \) para todo \(\varepsilon \gt 0\). Logo elas coincidem.

Como

\[ U_\alpha (f,P)-L_\alpha (f,P) = \sum _{i=1}^{n} \omega (f;I_i) \bigl(\alpha (x_i)-\alpha (x_{i-1})\bigr), \]

obtemos imediatamente:

Corolário 10.45 (Critério de oscilação ponderada)
Temos \(f\in \mathcal R(\alpha ;[a,b])\) se, e somente se, para todo \(\varepsilon \gt 0\) existe \(P\) tal que
\[ \sum _{i=1}^{n} \omega (f;I_i)\Delta \alpha _i \lt \varepsilon . \]

Demonstração

Para toda partição,

\[ U_\alpha (f,P)-L_\alpha (f,P) = \sum _i\omega (f;I_i)\Delta \alpha _i. \]

A conclusão é exatamente o Critério de Darboux–Stieltjes escrito nessa forma.

Somas de Riemann–Stieltjes

Para uma partição marcada \((P,\xi )\), defina

\[ S_\alpha (f;P,\xi ) = \sum _{i=1}^{n} f(\xi _i) \bigl(\alpha (x_i)-\alpha (x_{i-1})\bigr). \]

Teorema 10.46 (Caracterização por somas de Stieltjes)
Para uma função limitada \(f\), são equivalentes:
  1. \(f\in \mathcal R(\alpha ;[a,b])\);

  2. existe \(I\in \mathbb {R}\) tal que, para todo \(\varepsilon \gt 0\), existe uma partição \(P_0\) para a qual toda partição marcada \((P,\xi )\) com \(P\) refinando \(P_0\) satisfaz

    \[ |S_\alpha (f;P,\xi )-I|\lt \varepsilon . \]
Nesse caso,
\[ I=\int _a^b f\, d\alpha . \]

Demonstração

Suponha primeiro que

\[ J=\int _a^b f\, d\alpha \]

exista. Pelo Critério de Darboux–Stieltjes, dado \(\varepsilon \gt 0\), escolha \(P_0\) tal que

\[ U_\alpha (f,P_0)-L_\alpha (f,P_0)\lt \varepsilon . \]

Se \(P\) refina \(P_0\), então

\[ L_\alpha (f,P_0) \le L_\alpha (f,P) \le S_\alpha (f;P,\xi ) \le U_\alpha (f,P) \le U_\alpha (f,P_0). \]

Como \(J\) também pertence ao intervalo entre as somas inferior e superior,

\[ |S_\alpha (f;P,\xi )-J|\lt \varepsilon . \]

Reciprocamente, suponha que exista \(I\) com a propriedade do item 2. Fixe \(\varepsilon \gt 0\) e escolha \(P_0=\{ x_0,\ldots ,x_n\} \) de modo que toda soma marcada associada a um refinamento de \(P_0\) fique a menos de \(\varepsilon /4\) de \(I\).

Para cada \(i\) com \(\Delta \alpha _i=\alpha (x_i)-\alpha (x_{i-1})\gt 0\), escolha marcas \(\xi _i^+,\xi _i^-\in I_i\) tais que

\[ M_i-f(\xi _i^+) \lt \frac{\varepsilon }{4\bigl(\alpha (b)-\alpha (a)+1\bigr)} \]

e

\[ f(\xi _i^-)-m_i \lt \frac{\varepsilon }{4\bigl(\alpha (b)-\alpha (a)+1\bigr)}. \]

Nos intervalos com \(\Delta \alpha _i=0\), as marcas são irrelevantes. Então

\[ U_\alpha (f,P_0)-S_\alpha (f;P_0,\xi ^+)\lt \frac{\varepsilon }{4}, \]
\[ S_\alpha (f;P_0,\xi ^-)-L_\alpha (f,P_0)\lt \frac{\varepsilon }{4}. \]

Como as duas somas marcadas estão a menos de \(\varepsilon /4\) de \(I\), segue que

\[ U_\alpha (f,P_0)-L_\alpha (f,P_0)\lt \varepsilon . \]

Logo \(f\in \mathcal R(\alpha ;[a,b])\).

Para identificar \(I\), aplique a primeira parte ao valor

\[ J=\int _a^b f\, d\alpha . \]

Dado \(\eta \gt 0\), escolha uma partição que refine simultaneamente as partições associadas a \(I\) e a \(J\). Qualquer soma marcada desse refinamento fica a menos de \(\eta \) de ambos; portanto

\[ |I-J|\lt 2\eta . \]

Como \(\eta \) é arbitrário, \(I=J\).

Teorema 10.47 (Linearidade em relação ao integrando)
Se \(f,g\in \mathcal R(\alpha ;[a,b])\) e \(r,s\in \mathbb {R}\), então
\[ rf+sg\in \mathcal R(\alpha ;[a,b]) \]
e
\[ \int _a^b(rf+sg)\, d\alpha = r\int _a^b f\, d\alpha + s\int _a^b g\, d\alpha . \]

Demonstração

Para toda partição marcada,

\[ S_\alpha (rf+sg;P,\xi ) = rS_\alpha (f;P,\xi ) + sS_\alpha (g;P,\xi ). \]

Dados \(\varepsilon \gt 0\), use o Teorema 10.39 para escolher partições-base para \(f\) e \(g\), com erros suficientemente pequenos, e tome um refinamento comum. A identidade acima mostra que todas as somas do refinamento convergem para

\[ r\int _a^b f\, d\alpha +s\int _a^b g\, d\alpha . \]

A caracterização por somas conclui a prova.

Teorema 10.48 (Linearidade em relação ao integrador)
Se \(\alpha ,\beta \) são não decrescentes, \(r,s\ge 0\), e \(f\) é Riemann–Stieltjes integrável em relação a \(\alpha \) e a \(\beta \), então \(f\) é integrável em relação a \(r\alpha +s\beta \) e
\[ \int _a^b f\, d(r\alpha +s\beta ) = r\int _a^b f\, d\alpha + s\int _a^b f\, d\beta . \]
Adicionar uma constante ao integrador não altera a integral.

Demonstração

Para qualquer partição marcada,

\[ S_{r\alpha +s\beta }(f;P,\xi ) = rS_\alpha (f;P,\xi )+sS_\beta (f;P,\xi ). \]

Escolha partições-base para as duas integrais e tome um refinamento comum. A caracterização por somas de Stieltjes fornece a fórmula. A última afirmação segue porque os incrementos de um integrador constante são todos nulos.

Para a integral de Stieltjes, a formulação por refinamentos é mais natural que a formulação puramente pela malha: uma função \(\alpha \) pode concentrar uma quantidade positiva de variação em um único ponto.

Exemplo 10.49 (Por que refinamentos são necessários)

Em \([-1,1]\), defina

\[ \alpha (x)= \begin{cases} 0,& x\lt 0,\\ 1,& x\ge 0, \end{cases} \qquad f(x)= \begin{cases} 0,& x\le 0,\\ 1,& x\gt 0. \end{cases} \]

A função \(f\) é Riemann–Stieltjes integrável em relação a \(\alpha \), com integral \(0\). De fato, tome

\[ P_0=\{ -1,0,1\} . \]

Em qualquer refinamento de \(P_0\), o único incremento não nulo de \(\alpha \) ocorre no subintervalo que termina em \(0\), e \(f\) é identicamente nula nesse subintervalo. Logo todas as somas marcadas de todos os refinamentos de \(P_0\) valem \(0\).

Por outro lado, podemos escolher partições \(P_n\) com

\[ \| P_n\| \longrightarrow 0 \]

e contendo um subintervalo

\[ \left[-\frac1{2n},\frac1{2n}\right] \]

que atravessa \(0\). Nesse subintervalo o incremento de \(\alpha \) vale \(1\). Se a marca for escolhida à esquerda de \(0\), a contribuição é \(0\); se for escolhida à direita, a contribuição é \(1\). Portanto as somas marcadas não convergem uniformemente nas marcas quando apenas exigimos \(\| P\| \to 0\).

Se \(\alpha \) é contínua, essa dificuldade desaparece.

Corolário 10.50
Se \(\alpha \) é contínua e não decrescente, então \(f\in \mathcal R(\alpha ;[a,b])\) com integral \(I\) se, e somente se, para todo \(\varepsilon \gt 0\) existe \(\delta \gt 0\) tal que
\[ \| P\| \lt \delta \quad \Longrightarrow \quad |S_\alpha (f;P,\xi )-I|\lt \varepsilon \]
para toda partição marcada.

Demonstração

Suponha primeiro que

\[ I=\int _a^b f\, d\alpha . \]

Fixe \(\varepsilon \gt 0\). Pelo Teorema 10.39, escolha

\[ P_0=\{ a=t_0\lt t_1\lt \cdots \lt t_m=b\} \]

tal que toda soma marcada de todo refinamento de \(P_0\) esteja a menos de \(\varepsilon /2\) de \(I\).

Se \(m=1\), qualquer partição refina \(P_0\). Suponha \(m\ge 2\) e ponha \(M=\| f\| _\infty \). Pela continuidade uniforme de \(\alpha \), existe \(\delta \gt 0\) tal que, sempre que \(|u-v|\lt \delta \),

\[ |\alpha (u)-\alpha (v)| \lt \frac{\varepsilon }{4M(m-1)+1}. \]

Se \(P\) tem malha menor que \(\delta \), ponha \(R=P\cup P_0\). A passagem de \(P\) para \(R\) altera apenas os subintervalos de \(P\) que contêm algum dos pontos \(t_1,\ldots ,t_{m-1}\). Há no máximo \(m-1\) deles. Escolhendo marcas em \(R\) como no argumento do Teorema 10.10, obtemos

\[ |S_\alpha (f;P,\xi )-S_\alpha (f;R,\eta )| \le 2M\sum _{\text{intervalos afetados}}\Delta \alpha \lt \frac{\varepsilon }{2}. \]

Como \(R\) refina \(P_0\),

\[ |S_\alpha (f;R,\eta )-I|\lt \frac{\varepsilon }{2}, \]

e portanto

\[ |S_\alpha (f;P,\xi )-I|\lt \varepsilon . \]

Reciprocamente, suponha que a condição da malha valha para algum \(I\). Dado \(\varepsilon \gt 0\), escolha \(\delta \gt 0\) de modo que toda soma marcada associada a uma partição de malha menor que \(\delta \) fique a menos de \(\varepsilon /4\) de \(I\). Escolha uma partição \(P\) com \(\| P\| \lt \delta \). Aproximando, em cada subintervalo, o supremo e o ínfimo de \(f\) por valores de \(f\), obtemos marcas \(\xi ^+,\xi ^-\) tais que

\[ U_\alpha (f,P)-S_\alpha (f;P,\xi ^+)\lt \frac{\varepsilon }{4}, \]
\[ S_\alpha (f;P,\xi ^-)-L_\alpha (f,P)\lt \frac{\varepsilon }{4}. \]

As duas somas marcadas estão a menos de \(\varepsilon /4\) de \(I\). Logo

\[ U_\alpha (f,P)-L_\alpha (f,P)\lt \varepsilon . \]

O Critério de Darboux–Stieltjes prova a integrabilidade, e a unicidade no Teorema 10.39 mostra que o valor da integral é \(I\).

10.11 Funções Stieltjes-integráveis

Teorema 10.51
Se \(f\) é contínua em \([a,b]\) e \(\alpha \) é não decrescente, então
\[ f\in \mathcal R(\alpha ;[a,b]). \]

Demonstração

Como \(f\) é uniformemente contínua, dado \(\varepsilon \gt 0\) existe uma partição \(P\) suficientemente fina para que

\[ \omega (f;I_i) \lt \frac{\varepsilon }{1+\alpha (b)-\alpha (a)} \]

para todo \(i\). Então

\[ U_\alpha (f,P)-L_\alpha (f,P) = \sum _i\omega (f;I_i)\Delta \alpha _i \lt \varepsilon . \]

O resultado complementar exige continuidade do integrador.

Teorema 10.52
Se \(f\) é monótona e \(\alpha \) é contínua e não decrescente em \([a,b]\), então
\[ f\in \mathcal R(\alpha ;[a,b]). \]

Demonstração

Suponha primeiro que \(f\) seja não decrescente. Para uma partição \(P\),

\[ \omega (f;I_i)=f(x_i)-f(x_{i-1}), \]

e portanto

\[ \begin{aligned} U_\alpha (f,P)-L_\alpha (f,P) & = \sum _i \bigl(f(x_i)-f(x_{i-1})\bigr)\Delta \alpha _i\\ & \le \left(\max _i\Delta \alpha _i\right) \sum _i\bigl(f(x_i)-f(x_{i-1})\bigr)\\ & = \left(\max _i\Delta \alpha _i\right) \bigl(f(b)-f(a)\bigr). \end{aligned} \]

Como \(\alpha \) é uniformemente contínua, podemos escolher uma partição de malha suficientemente pequena para tornar \(\max _i\Delta \alpha _i\) arbitrariamente pequeno. O Critério de Darboux–Stieltjes conclui.

Se \(f\) é não crescente, então \(-f\) é não decrescente. O caso anterior e a linearidade em relação ao integrando, Teorema  10.40, concluem a prova.

Conjuntos \(\alpha \)-nulos

Quando \(\alpha \) é contínua e não decrescente, existe uma versão ponderada do critério de Lebesgue.

Definição 10.53
Se
\[ J=(u,v)\cap [a,b] \]
é um intervalo aberto relativo de \([a,b]\), definimos seu \(\alpha \)-comprimento por
\[ |J|_\alpha = \alpha \bigl(\min \{ v,b\} \bigr) - \alpha \bigl(\max \{ u,a\} \bigr). \]
Um conjunto \(E\subset [a,b]\) é \(\alpha \)-nulo se, para todo \(\varepsilon \gt 0\), existem intervalos abertos relativos \(J_1,J_2,\ldots \) tais que
\[ E\subset \bigcup _{k=1}^{\infty }J_k \]
e
\[ \sum _{k=1}^{\infty }|J_k|_\alpha \lt \varepsilon . \]

Para \(\alpha (x)=x\), recuperamos a noção usual de medida zero.

Proposição 10.54
Suponha que \(\alpha \) seja contínua e não decrescente.
  1. todo subconjunto de um conjunto \(\alpha \)-nulo é \(\alpha \)-nulo;

  2. toda união enumerável de conjuntos \(\alpha \)-nulos é \(\alpha \)-nula;

  3. todo conjunto enumerável é \(\alpha \)-nulo.

Demonstração

O primeiro item é imediato. Para o segundo, se

\[ E=\bigcup _{n=1}^{\infty }E_n, \]

e cada \(E_n\) é \(\alpha \)-nulo, cubra \(E_n\) por intervalos cuja soma das variações de \(\alpha \) seja menor que \(\varepsilon /2^n\). A reunião dessas coberturas tem variação total menor que \(\varepsilon \).

Para o terceiro, basta mostrar que um ponto é \(\alpha \)-nulo. Fixe \(x\in [a,b]\) e \(\varepsilon \gt 0\). Pela continuidade de \(\alpha \), podemos escolher um intervalo aberto relativo \(J\) contendo \(x\) de modo que

\[ |J|_\alpha \lt \varepsilon . \]

Logo \(\{ x\} \) é \(\alpha \)-nulo, e o item 2 conclui o caso enumerável.

Teorema 10.55 (Critério de Lebesgue–Stieltjes)
Suponha que \(\alpha \) seja contínua e não decrescente e que \(f\) seja limitada em \([a,b]\). Então
\[ f\in \mathcal R(\alpha ;[a,b]) \quad \Longleftrightarrow \quad D_f\text{ é }\alpha \text{-nulo}. \]

Demonstração

Para \(m\in \mathbb {N}\), defina

\[ D_m=\left\{ x\in [a,b]:\omega _f(x)\ge \frac1m\right\} . \]

Pelo Lema 10.23, cada \(D_m\) é fechado. Além disso,

\[ D_f=\bigcup _{m=1}^{\infty }D_m, \]

pela caracterização da continuidade pela oscilação e pela propriedade arquimediana, exatamente como na prova do Teorema 10.25.

Suponha primeiro que \(f\in \mathcal R(\alpha ;[a,b])\). Fixe \(m\) e \(\varepsilon \gt 0\). Pelo critério de oscilação ponderada, escolha uma partição \(P=\{ x_0,\ldots ,x_n\} \) tal que

\[ \sum _i\omega (f;I_i)\Delta \alpha _i \lt \frac{\varepsilon }{4m}. \]

Nos subintervalos para os quais

\[ \omega (f;I_i)\ge \frac1m, \]

a soma das variações \(\Delta \alpha _i\) é menor que \(\varepsilon /4\). Todo ponto de \(D_m\) que não pertença à partição está no interior de um desses subintervalos.

Como \(\alpha \) é contínua, podemos alargar ligeiramente os finitíssimos subintervalos selecionados para intervalos abertos de modo que a soma das variações de \(\alpha \) fique menor que \(\varepsilon /2\). Pela Proposição 10.47, os finitíssimos pontos da partição também podem ser cobertos por intervalos de variação total menor que \(\varepsilon /2\). Logo \(D_m\) é \(\alpha \)-nulo. Aplicando novamente a Proposição 10.47,

\[ D_f=\bigcup _{m=1}^{\infty }D_m \]

é \(\alpha \)-nulo.

Reciprocamente, suponha que \(D_f\) seja \(\alpha \)-nulo. Se \(f\equiv 0\), o resultado é imediato. Suponha

\[ |f|\le M \qquad \text{com }M\gt 0. \]

Fixe \(\varepsilon \gt 0\). Se \(\alpha (b)=\alpha (a)\), todas as somas de Stieltjes são nulas e não há o que provar. Caso contrário, escolha \(\eta \gt 0\) tal que

\[ \eta \bigl(\alpha (b)-\alpha (a)\bigr) \lt \frac{\varepsilon }{2}. \]

O conjunto

\[ K_\eta =\{ x:\omega _f(x)\ge \eta \} \]

é compacto e está contido em \(D_f\); logo é \(\alpha \)-nulo. Escolha intervalos abertos relativos \(G_1,G_2,\ldots \) cobrindo \(K_\eta \) e satisfazendo

\[ \sum _j |G_j|_\alpha \lt \frac{\varepsilon }{4M}. \]

Pela compacidade de \(K_\eta \), basta uma subfamília finita \(G_1,\ldots ,G_r\).

No compacto

\[ [a,b]\setminus \bigcup _{j=1}^{r}G_j \]

temos \(\omega _f(x)\lt \eta \). Para cada ponto desse compacto, escolha uma vizinhança aberta \(V_x\) na qual a oscilação de \(f\) seja menor que \(\eta \). Uma subfamília finita \(V_1,\ldots ,V_s\) já cobre o compacto. Portanto

\[ G_1,\ldots ,G_r,V_1,\ldots ,V_s \]

é uma cobertura aberta finita de \([a,b]\). Pelo Lema 10.24, escolha uma partição \(P\) de malha tão pequena que cada subintervalo \(I_i\) esteja contido em um desses abertos.

Se \(I_i\subset V_k\), então

\[ \omega (f;I_i)\lt \eta . \]

Nos demais subintervalos usamos \(\omega (f;I_i)\le 2M\). Para os subintervalos contidos na união dos \(G_j\), a soma dos incrementos de \(\alpha \) é no máximo

\[ \sum _{j=1}^{r}|G_j|_\alpha . \]

De fato, podemos atribuir cada subintervalo a um dos \(G_j\) que o contém; para um \(j\) fixo, a soma dos incrementos de \(\alpha \) sobre subintervalos disjuntos contidos em \(G_j\) não excede \(|G_j|_\alpha \), pela monotonicidade de \(\alpha \). Consequentemente,

\[ \begin{aligned} U_\alpha (f,P)-L_\alpha (f,P) & = \sum _i\omega (f;I_i)\Delta \alpha _i\\ & \lt 2M\sum _{j=1}^{r}|G_j|_\alpha + \eta \bigl(\alpha (b)-\alpha (a)\bigr)\\ & \lt \varepsilon . \end{aligned} \]

O Critério de Darboux–Stieltjes conclui a prova.

Esse teorema explica precisamente o papel dos saltos do integrador. Quando \(\alpha \) possui um salto, um ponto isolado pode carregar peso positivo; nesse ponto, uma descontinuidade de \(f\) deixa de ser desprezível.

10.12 Saltos e pesos concentrados

Considere, para \(c\in (a,b]\), a função

\[ H_c(x)= \begin{cases} 0,& x\lt c,\\ 1,& x\ge c. \end{cases} \]

Ela é não decrescente e possui um único salto, de tamanho \(1\), em \(c\).

Teorema 10.56
Se \(f:[a,b]\to \mathbb {R}\) é limitada e contínua em \(c\), então
\[ \int _a^b f\, dH_c=f(c). \]
Mais geralmente, se
\[ \alpha (x) = C+\sum _{j=1}^{m}p_jH_{c_j}(x), \qquad p_j\ge 0, \qquad c_j\in (a,b], \]
e \(f\) é contínua em cada \(c_j\), então
\[ \int _a^b f\, d\alpha = \sum _{j=1}^{m}p_j f(c_j). \]

Demonstração

Comecemos com um único salto. Fixe \(\varepsilon \gt 0\). Pela continuidade de \(f\) em \(c\), existe \(u\lt c\) tal que

\[ |f(x)-f(c)|\lt \varepsilon \qquad \text{para }u\le x\le c. \]

Escolha uma partição \(P_0\) que contenha \(u\) e \(c\). Em qualquer refinamento \(P\) de \(P_0\), todos os incrementos de \(H_c\) são nulos, exceto o incremento do único subintervalo cuja extremidade direita é \(c\). Esse incremento vale \(1\), e tal subintervalo está contido em \([u,c]\).

Assim, para qualquer sistema de marcas,

\[ S_{H_c}(f;P,\xi )=f(\xi _k) \]

para alguma \(\xi _k\in [u,c]\). Consequentemente,

\[ |S_{H_c}(f;P,\xi )-f(c)|\lt \varepsilon . \]

Pelo Teorema 10.39,

\[ \int _a^b f\, dH_c=f(c). \]

Para

\[ \alpha =C+\sum _{j=1}^{m}p_jH_{c_j}, \]

a constante \(C\) não contribui para os incrementos. Aplicando a linearidade em relação ao integrador, Teorema 10.41, obtemos

\[ \int _a^b f\, d\alpha = \sum _{j=1}^{m}p_j\int _a^b f\, dH_{c_j} = \sum _{j=1}^{m}p_jf(c_j). \]

Observação 10.57
A escolha
\[ H_c(x)=0\quad (x\lt c), \qquad H_c(x)=1\quad (x\ge c) \]
fixa uma convenção para o salto. Com essa convenção, o peso do salto aparece no subintervalo que termina em \(c\). Por isso, no caso de um único salto, bastaria supor continuidade de \(f\) pela esquerda em \(c\). Exigimos continuidade em \(c\) no enunciado para evitar carregar convenções laterais ao longo do capítulo.

Esse exemplo mostra a diferença conceitual entre Riemann e Stieltjes. A medida por comprimento ignora pontos isolados; um integrador com saltos pode atribuir peso positivo exatamente a esses pontos.

10.13 Quando \(d\alpha \) se reduz a um peso \(dx\)

A outra situação fundamental ocorre quando a variação de \(\alpha \) está distribuída continuamente.

Teorema 10.58
Suponha que \(\alpha \in C^1[a,b]\) seja não decrescente e que \(f\in \mathcal R[a,b]\). Então
\[ \int _a^b f\, d\alpha = \int _a^b f(x)\alpha '(x)\, dx. \]

Demonstração

Como \(\alpha '\) é contínua, o Teorema 10.11 mostra que \(\alpha '\in \mathcal R[a,b]\). Pelo Teorema 10.15, a função

\[ x\longmapsto f(x)\alpha '(x) \]

também é Riemann-integrável.

Seja \((P,\xi )\) uma partição marcada. Em cada subintervalo \([x_{i-1},x_i]\), o Teorema do Valor Médio aplicado a \(\alpha \) fornece \(\eta _i\in (x_{i-1},x_i)\) tal que

\[ \alpha (x_i)-\alpha (x_{i-1}) = \alpha '(\eta _i)\Delta x_i. \]

Logo

\[ S_\alpha (f;P,\xi ) = \sum _i f(\xi _i)\alpha '(\eta _i)\Delta x_i. \]

Por outro lado, a soma de Riemann de \(f\alpha '\) com as mesmas marcas é

\[ S(f\alpha ';P,\xi ) = \sum _i f(\xi _i)\alpha '(\xi _i)\Delta x_i. \]

Se \(M=\| f\| _\infty \), então

\[ \begin{aligned} |S_\alpha (f;P,\xi )-S(f\alpha ’;P,\xi )| & \le M\sum _i |\alpha ’(\eta _i)-\alpha ’(\xi _i)|\Delta x_i\\ & \le M(b-a)\, \omega _{\alpha '}(\| P\| ), \end{aligned} \]

onde

\[ \omega _{\alpha '}(\delta ) = \sup \{ |\alpha '(x)-\alpha '(y)|:|x-y|\le \delta \} . \]

Como \(\alpha '\) é uniformemente contínua,

\[ \omega _{\alpha '}(\delta )\longrightarrow 0 \qquad (\delta \to 0). \]

Pelo Teorema 10.10,

\[ S(f\alpha ';P,\xi ) \longrightarrow \int _a^b f(x)\alpha '(x)\, dx \]

uniformemente nas marcas quando \(\| P\| \to 0\). Portanto as somas de Riemann–Stieltjes têm o mesmo limite. Como \(\alpha \) é contínua, o Corolário 10.43 conclui que

\[ \int _a^b f\, d\alpha = \int _a^b f(x)\alpha '(x)\, dx. \]

Em particular, para \(\alpha (x)=x\),

\[ d\alpha =dx \]

no sentido da integral.

10.14 Integradores de variação limitada

A hipótese de que \(\alpha \) seja não decrescente garante pesos não negativos. Podemos ir além permitindo que o integrador tenha variação total finita.

Definição 10.59

Para \(\alpha :[a,b]\to \mathbb {R}\) e uma partição \(P\), defina

\[ V(\alpha ,P) = \sum _{i=1}^{n} |\alpha (x_i)-\alpha (x_{i-1})|. \]

Dizemos que \(\alpha \) tem variação limitada em \([a,b]\) quando existe \(M\gt 0\) tal que

\[ V(\alpha ,P)\le M \]

para toda partição \(P\) de \([a,b]\).

Nesse caso, o conjunto

\[ \{ V(\alpha ,P):P\text{ partição de }[a,b]\} \]

é não vazio e limitado superiormente. Pela completude de \(\mathbb {R}\), possui supremo. Definimos então a variação total de \(\alpha \) por

\[ V_a^b(\alpha ) = \sup _P V(\alpha ,P). \]

Adotamos também a convenção

\[ V_a^a(\alpha )=0. \]

Proposição 10.60
Se \(\alpha \) tem variação limitada em \([a,b]\) e
\[ [a',b']\subset [a,b], \]
então a restrição de \(\alpha \) a \([a',b']\) também tem variação limitada. Além disso,
\[ V_{a'}^{b'}(\alpha )\le V_a^b(\alpha ). \]

Demonstração

Se \(P\) é uma partição de \([a',b']\), acrescente a \(P\) os pontos \(a,a',b',b\), quando distintos, obtendo uma partição \(Q\) de \([a,b]\). Todos os termos que aparecem em \(V(\alpha ,P)\) também aparecem em \(V(\alpha ,Q)\), possivelmente junto com termos adicionais não negativos. Logo

\[ V(\alpha ,P)\le V(\alpha ,Q)\le V_a^b(\alpha ). \]

Portanto as variações das partições de \([a',b']\) são uniformemente limitadas; tomando o supremo, obtemos a desigualdade desejada.

Proposição 10.61
Toda função monótona em \([a,b]\) tem variação limitada. Mais precisamente, se \(\alpha \) é não decrescente,
\[ V_a^b(\alpha )=\alpha (b)-\alpha (a), \]
e, se \(\alpha \) é não crescente,
\[ V_a^b(\alpha )=\alpha (a)-\alpha (b). \]

Demonstração

Se \(\alpha \) é não decrescente, então, para toda partição,

\[ V(\alpha ,P) = \sum _i\bigl(\alpha (x_i)-\alpha (x_{i-1})\bigr) = \alpha (b)-\alpha (a). \]

Logo o supremo dessas variações tem o mesmo valor. O caso não crescente é análogo, pois todos os incrementos têm sinal não positivo.

Proposição 10.62
Toda função \(\alpha :[a,b]\to \mathbb {R}\) de variação limitada é limitada. Mais precisamente,
\[ |\alpha (x)| \le |\alpha (a)|+V_a^b(\alpha ) \qquad \text{para todo }x\in [a,b]. \]

Demonstração

Para qualquer \(x\in [a,b]\),

\[ |\alpha (x)-\alpha (a)| \le V_a^x(\alpha ) \le V_a^b(\alpha ). \]

Logo

\[ |\alpha (x)| \le |\alpha (a)|+|\alpha (x)-\alpha (a)| \le |\alpha (a)|+V_a^b(\alpha ). \]

Teorema 10.63 (Decomposição de Jordan)
Uma função \(\alpha :[a,b]\to \mathbb {R}\) tem variação limitada se, e somente se, pode ser escrita como diferença de duas funções não decrescentes.

Demonstração

Suponha primeiro que

\[ \alpha =\alpha _1-\alpha _2, \]

com \(\alpha _1,\alpha _2\) não decrescentes. Para qualquer partição \(P=\{ x_0,\ldots ,x_n\} \),

\[ \begin{aligned} V(\alpha ,P) & = \sum _i \left| \Delta \alpha _1(i)-\Delta \alpha _2(i) \right|\\ & \le \sum _i\Delta \alpha _1(i) + \sum _i\Delta \alpha _2(i)\\ & = \alpha _1(b)-\alpha _1(a) + \alpha _2(b)-\alpha _2(a). \end{aligned} \]

Tomando o supremo em \(P\), vemos que \(\alpha \) tem variação limitada.

Reciprocamente, suponha

\[ V_a^b(\alpha )\lt \infty \]

e defina

\[ V(x)=V_a^x(\alpha ), \qquad a\le x\le b. \]

Essa quantidade é finita, pois

\[ V_a^x(\alpha )\le V_a^b(\alpha ). \]

Se \(x\lt y\), qualquer partição de \([a,x]\), acrescida dos pontos \(x,y\), fornece

\[ V(y)\ge V(x)+|\alpha (y)-\alpha (x)|. \]

Mais precisamente, tomando supremos sobre as partições de \([a,x]\),

\[ V(y)-V(x)\ge |\alpha (y)-\alpha (x)|. \]

Defina

\[ \alpha _1(x)=\frac{V(x)+\alpha (x)}2, \qquad \alpha _2(x)=\frac{V(x)-\alpha (x)}2. \]

Para \(x\lt y\),

\[ \alpha _1(y)-\alpha _1(x) = \frac{V(y)-V(x)+\alpha (y)-\alpha (x)}2 \ge 0, \]

pois

\[ V(y)-V(x)\ge |\alpha (y)-\alpha (x)| \ge -\bigl(\alpha (y)-\alpha (x)\bigr). \]

Do mesmo modo,

\[ \alpha _2(y)-\alpha _2(x) = \frac{V(y)-V(x)-(\alpha (y)-\alpha (x))}2 \ge 0. \]

Logo \(\alpha _1\) e \(\alpha _2\) são não decrescentes e

\[ \alpha =\alpha _1-\alpha _2. \]

A integral para integradores de variação limitada

Para uma função \(\alpha \) de variação limitada, usaremos a decomposição canônica produzida na prova do Teorema 10.56:

\[ \alpha =\alpha _+-\alpha _-, \qquad \alpha _+(x)=\frac{V(x)+\alpha (x)}2, \qquad \alpha _-(x)=\frac{V(x)-\alpha (x)}2. \]

As duas funções \(\alpha _+\) e \(\alpha _-\) são não decrescentes.

Definição 10.64
Dizemos que \(f\) é Riemann–Stieltjes integrável em relação a uma função \(\alpha \) de variação limitada se \(f\) é integrável em relação a \(\alpha _+\) e a \(\alpha _-\). Nesse caso, definimos
\[ \int _a^b f\, d\alpha = \int _a^b f\, d\alpha _+ - \int _a^b f\, d\alpha _-. \]

Corolário 10.65 (Convergência das somas para integradores de variação limitada)
Se \(f\) é integrável em relação a uma função \(\alpha \) de variação limitada, então, para toda partição marcada, continuaremos a escrever
\[ S_\alpha (f;P,\xi ) = \sum _i f(\xi _i)\bigl(\alpha (x_i)-\alpha (x_{i-1})\bigr). \]
Para todo \(\varepsilon \gt 0\), existe uma partição \(P_0\) tal que, para todo refinamento marcado \((P,\xi )\) de \(P_0\),
\[ \left| S_\alpha (f;P,\xi ) - \int _a^b f\, d\alpha \right| \lt \varepsilon . \]

Demonstração

Escreva

\[ \alpha =\alpha _+-\alpha _-. \]

Então

\[ S_\alpha (f;P,\xi ) = S_{\alpha _+}(f;P,\xi ) - S_{\alpha _-}(f;P,\xi ). \]

Aplique o Teorema 10.39 às duas integrais, com erro \(\varepsilon /2\), e tome um refinamento comum das duas partições-base.

Corolário 10.66
Se \(f\) é contínua e \(\alpha \) tem variação limitada, então
\[ \int _a^b f\, d\alpha \]
existe.

Demonstração

As funções \(\alpha _+\) e \(\alpha _-\) são não decrescentes. Pelo Teorema 10.44, uma função contínua \(f\) é integrável em relação a ambas.

A decomposição canônica torna a definição acima inequívoca. Além disso, se

\[ \alpha =\beta _1-\beta _2 \]

é outra decomposição em funções não decrescentes e \(f\) também é integrável em relação a \(\beta _1\) e \(\beta _2\), então o valor obtido por essa decomposição coincide com o valor canônico. De fato,

\[ \alpha _++\beta _2=\beta _1+\alpha _-. \]

Pela linearidade em relação ao integrador, Teorema 10.41,

\[ \int f\, d\alpha _+ +\int f\, d\beta _2 = \int f\, d\beta _1+\int f\, d\alpha _-, \]

e as duas diferenças coincidem.

Teorema 10.67 (Integração por partes de Stieltjes)
Suponha que \(f\) e \(\alpha \) tenham variação limitada e que as duas integrais de Stieltjes abaixo existam. Então
\[ \int _a^b f\, d\alpha + \int _a^b \alpha \, df = f(b)\alpha (b)-f(a)\alpha (a). \]
Em particular, a fórmula vale quando \(f\) e \(\alpha \) são contínuas e de variação limitada.

Demonstração

Escreva as decomposições canônicas

\[ \alpha =\alpha _+-\alpha _-, \qquad f=f_+-f_-. \]

A existência de

\[ \int _a^b f\, d\alpha \]

significa que \(f\) é integrável em relação a \(\alpha _+\) e \(\alpha _-\); analogamente, a existência de

\[ \int _a^b\alpha \, df \]

significa que \(\alpha \) é integrável em relação a \(f_+\) e \(f_-\).

Fixe \(\varepsilon \gt 0\). Pela caracterização por somas de Stieltjes, podemos escolher uma única partição \(P_0\) tal que, para todo refinamento \(P=\{ x_0,\ldots ,x_n\} \) de \(P_0\), as somas com marcas nas extremidades satisfaçam

\[ \left| \sum _i f(x_i)\bigl(\alpha (x_i)-\alpha (x_{i-1})\bigr) - \int _a^b f\, d\alpha \right| \lt \varepsilon \]

e

\[ \left| \sum _i \alpha (x_{i-1})\bigl(f(x_i)-f(x_{i-1})\bigr) - \int _a^b \alpha \, df \right| \lt \varepsilon . \]

Isso segue do Corolário 10.58, aplicado às duas integrais, tomando depois um refinamento comum das partições-base.

Para toda partição \(P\), vale a identidade algébrica exata

\[ \begin{aligned} & f(x_i)\alpha (x_i)-f(x_{i-1})\alpha (x_{i-1})\\ & \qquad = f(x_i)\bigl(\alpha (x_i)-\alpha (x_{i-1})\bigr) + \alpha (x_{i-1})\bigl(f(x_i)-f(x_{i-1})\bigr). \end{aligned} \]

Somando em \(i\), obtemos

\[ \begin{aligned} f(b)\alpha (b)-f(a)\alpha (a) & = \sum _i f(x_i)\Delta \alpha _i + \sum _i\alpha (x_{i-1})\Delta f_i. \end{aligned} \]

As duas somas do lado direito ficam, para todo refinamento suficientemente fino no sentido de refinamento, a menos de \(\varepsilon \) das integrais correspondentes. Logo

\[ \left| f(b)\alpha (b)-f(a)\alpha (a) - \left( \int _a^b f\, d\alpha +\int _a^b\alpha \, df \right) \right| \lt 2\varepsilon . \]

Como \(\varepsilon \) é arbitrário, segue a fórmula desejada.

10.15 O que as duas integrais estão medindo

A integral de Riemann corresponde ao integrador identidade:

\[ \int _a^b f(x)\, dx = \int _a^b f\, d\alpha \qquad \text{quando }\alpha (x)=x. \]

Se \(\alpha \in C^1[a,b]\) é não decrescente,

\[ \int _a^b f\, d\alpha = \int _a^b f(x)\alpha '(x)\, dx, \]

para toda \(f\in \mathcal R[a,b]\); nesse caso, a variação de \(\alpha \) atua como uma densidade.

Se \(\alpha \) é uma função degrau com saltos \(p_j\) nos pontos \(c_j\), e \(f\) é contínua nesses pontos,

\[ \int _a^b f\, d\alpha = \sum _j p_jf(c_j), \]

e a integral se torna uma soma ponderada.

Esses dois extremos revelam a ideia central:

\[ \boxed {\text{Riemann acumula usando comprimento}} \]

e

\[ \boxed {\text{Stieltjes acumula usando variação}.} \]

A integral de Stieltjes contém, numa mesma linguagem, integrais ponderadas e somas discretas. Essa flexibilidade será uma das pontes naturais entre Análise, Probabilidade e teoria da medida.

10.16 Exercícios

Exercício 10.1

Seja \(f:[a,b]\to \mathbb {R}\) limitada. Prove diretamente, a partir das definições, que

\[ \underline{\int _a^b} f \le \overline{\int _a^b} f. \]
Exercício 10.2

Calcule as integrais inferior e superior da função de Dirichlet em \([0,1]\).

Exercício 10.3

Seja \(f\) limitada em \([a,b]\) e suponha que \(f\) seja nula fora de um conjunto finito. Prove que \(f\) é Riemann-integrável e que

\[ \int _a^b f=0. \]
Exercício 10.4

Seja \(f:[a,b]\to \mathbb {R}\) limitada e suponha que o conjunto

\[ E=\{ x\in [a,b]:f(x)\neq 0\} \]

seja enumerável. Suponha ainda que \(f\) seja contínua em todo ponto de \([a,b]\setminus E\). Prove que \(f\) é Riemann-integrável e que

\[ \int _a^b f=0. \]
Exercício 10.5

Prove que uma função com um número finito de descontinuidades em \([a,b]\) é Riemann-integrável sempre que for limitada e contínua fora desses pontos.

Exercício 10.6

Seja \(f\in \mathcal R[a,b]\). Prove que, se

\[ m\le f(x)\le M \]

para todo \(x\), então

\[ m(b-a)\le \int _a^b f(x)\, dx\le M(b-a). \]
Exercício 10.7

Prove que, se \(f\in \mathcal R[a,b]\) e

\[ \int _a^b |f(x)|\, dx=0, \]

então \(f(x)=0\) em todo ponto de continuidade de \(f\).

Exercício 10.8

Seja \(f\) contínua e não negativa em \([a,b]\). Prove que

\[ \int _a^b f=0 \quad \Longleftrightarrow \quad f\equiv 0. \]
Exercício 10.9

Prove o teorema do valor médio para integrais: se \(f\) é contínua em \([a,b]\), existe \(c\in [a,b]\) tal que

\[ \int _a^b f(x)\, dx=f(c)(b-a). \]
Exercício 10.10

Se \(f,g\in \mathcal R[a,b]\) e \(g\ge 0\), prove que existem \(m,M\) tais que

\[ m\int _a^b g \le \int _a^b fg \le M\int _a^b g, \]

onde \(m=\inf f\) e \(M=\sup f\). Se \(f\) é contínua, deduza que existe \(c\in [a,b]\) com

\[ \int _a^b f(x)g(x)\, dx = f(c)\int _a^b g(x)\, dx. \]
Exercício 10.11

Prove diretamente pelo critério de Darboux que a função de Thomae é Riemann-integrável em \([0,1]\) e tem integral zero, sem usar o critério de Lebesgue.

Exercício 10.12

Retome o conjunto de Cantor do Exemplo 6.88. Mostre que ele tem medida zero.

Exercício 10.13

Use o critério de Lebesgue para mostrar que a função indicadora do conjunto de Cantor é Riemann-integrável.

Exercício 10.14

Seja \(F(x)=\int _a^x f(t)\, dt\), com \(f\in \mathcal R[a,b]\). Prove que \(F\) é Lipschitz e determine uma constante de Lipschitz em termos de \(f\).

Exercício 10.15

Dê um exemplo de função Riemann-integrável \(f\) para a qual a função integral

\[ F(x)=\int _a^x f(t)\, dt \]

não seja diferenciável em algum ponto.

Exercício 10.16

Prove o Teorema Fundamental do Cálculo I usando apenas as somas superior e inferior, sem recorrer à estimativa do Teorema 10.27.

Exercício 10.17

Seja \(G\) contínua em \([a,b]\) e diferenciável em \((a,b)\). Suponha que \(G'\) admita uma extensão Riemann-integrável a \([a,b]\). Prove novamente

\[ \int _a^b G'=G(b)-G(a) \]

usando diretamente a caracterização por somas de Riemann.

Exercício 10.18

Seja

\[ \alpha (x)=x^2 \]

em \([0,1]\). Calcule

\[ \int _0^1 x\, d\alpha (x) \]

de duas formas: pela definição de Stieltjes e pelo Teorema 10.51.

Exercício 10.19

Seja \(H_c\) a função degrau definida no texto. Mostre que, se \(f\) não é contínua em \(c\), então \(f\) pode deixar de ser Riemann–Stieltjes integrável em relação a \(H_c\).

Exercício 10.20

Para

\[ \alpha (x)= \sum _{j=1}^{m}p_jH_{c_j}(x), \qquad p_j\gt 0, \qquad c_j\in (a,b], \]

prove diretamente pelas somas de Darboux–Stieltjes que

\[ \int _a^b f\, d\alpha = \sum _{j=1}^{m}p_jf(c_j) \]

sempre que \(f\) seja contínua nos pontos \(c_j\).

Exercício 10.21

Suponha que \(\alpha \) seja contínua e estritamente crescente. Mostre que um conjunto \(E\subset [a,b]\) é \(\alpha \)-nulo se, e somente se, \(\alpha (E)\subset [\alpha (a),\alpha (b)]\) tem medida zero.

Exercício 10.22

Em \([0,1]\), defina

\[ \alpha (x)= \begin{cases} 0,& 0\le x\le \frac12,\\ x-\frac12,& \frac12\lt x\le 1. \end{cases} \]

Construa uma função limitada \(f\) que seja descontínua em todos os pontos de \([0,\frac12]\), mas Riemann–Stieltjes integrável em relação a \(\alpha \). Use o Critério de Lebesgue–Stieltjes para justificar sua resposta.

Exercício 10.23

Seja \(\alpha \in C^1[a,b]\). Mostre que, se \(\alpha '\ge 0\), então a definição de Riemann–Stieltjes fornece

\[ \int _a^b f\, d\alpha = \int _a^b f\alpha ' \]

para toda \(f\in \mathcal R[a,b]\).

Exercício 10.24

Calcule a variação total das funções:

  1. \(\alpha (x)=x\) em \([a,b]\);

  2. \(\alpha (x)=|x|\) em \([-1,1]\);

  3. \(\alpha (x)=\sin x\) em \([0,2\pi ]\);

  4. uma função degrau com finitíssimos saltos.

Exercício 10.25

Se \(\alpha \) tem variação limitada e \(a\lt c\lt b\), prove a aditividade da variação total:

\[ V_a^b(\alpha ) = V_a^c(\alpha )+V_c^b(\alpha ). \]

Deduza que a função

\[ V(x)=V_a^x(\alpha ) \]

é não decrescente.

Exercício 10.26

Verifique a fórmula de integração por partes de Stieltjes quando \(f\) e \(\alpha \) são funções degrau com conjuntos de pontos de salto disjuntos. Explique por que a ausência de saltos comuns garante a existência das duas integrais. Depois recupere a fórmula para funções contínuas de variação limitada usando o teorema do texto.

Exercício 10.27

Seja \(F\) uma função de distribuição discreta com suporte finito \(\{ x_1,\ldots ,x_m\} \subset (a,b)\):

\[ F(x)=\sum _{x_j\le x}p_j, \qquad p_j\gt 0, \qquad \sum _{j=1}^{m}p_j=1. \]

Mostre que, para toda função contínua \(g:[a,b]\to \mathbb {R}\),

\[ \int _a^b g\, dF = \sum _{j=1}^{m}p_jg(x_j). \]
Exercício 10.28 (difficulty=2)

Lema fundamental do cálculo das variações. Seja \(f:[a,b]\to \mathbb {R}\) contínua. Suponha que

\[ \int _a^b f(x)g(x)\, dx=0 \]

para toda função contínua \(g:[a,b]\to \mathbb {R}\). Prove que

\[ f\equiv 0. \]

Mostre que é suficiente supor a identidade apenas para funções contínuas \(g\ge 0\).

Ver solução
Basta trabalhar com a hipótese restrita às funções contínuas não negativas. Suponha \(f(x_0)\gt 0\). Pela continuidade, existem um intervalo relativo de comprimento positivo \(I\subseteq [a,b]\) e \(c\gt 0\) tais que \(f\ge c\) em \(I\). Escolha \(g\ge 0\), contínua, não identicamente nula e com suporte contido em \(I\). Então
\[ \int _a^b fg\ge c\int _I g\gt 0, \]
contrariando a hipótese. Se \(f(x_0)\lt 0\), o mesmo argumento aplicado a \(-f\) produz contradição. Logo \(f\equiv 0\). Aqui se usa a convenção de intervalo não degenerado, \(a\lt b\).
Exercício 10.29 (difficulty=3)

Lema de Riemann–Lebesgue elementar. Seja \(f\in \mathcal R[a,b]\). Prove que

\[ \lim _{n\to \infty } \int _a^b f(x)\sin (nx)\, dx = 0 \]

e

\[ \lim _{n\to \infty } \int _a^b f(x)\cos (nx)\, dx = 0. \]
Ver solução

Se \(s\) é constante por partes, escreva seus valores como \(c_i\) nos intervalos de uma partição finita. As estimativas

\[ \left|\int _u^v\operatorname {sen}(nx)\, dx\right|\le \frac2n, \qquad \left|\int _u^v\cos (nx)\, dx\right|\le \frac2n \]

mostram que ambas as integrais com integrando \(s\) têm módulo no máximo \((2/n)\sum _i|c_i|\), que tende a zero.

Dado \(\varepsilon \gt 0\), escolha uma partição \(P\) com \(U(f,P)-L(f,P)\lt \varepsilon \). Tome em cada intervalo aberto da partição o ínfimo de \(f\) no intervalo fechado correspondente, definindo uma função degrau \(s\). Os valores nos finitíssimos pontos da partição são irrelevantes para a integral, e

\[ \int _a^b|f-s|\le U(f,P)-L(f,P)\lt \varepsilon . \]

Por isso,

\[ \left|\int _a^b f(x)\operatorname {sen}(nx)\, dx\right| \le \varepsilon + \left|\int _a^b s(x)\operatorname {sen}(nx)\, dx\right|. \]

Tomando limite superior e depois fazendo \(\varepsilon \downarrow 0\), obtemos o primeiro limite. O argumento com o cosseno é idêntico.

Exercício 10.30 (difficulty=2)

Mudança de variável. Seja \(\varphi :[\alpha ,\beta ]\to [a,b]\) de classe \(C^1\), estritamente crescente, com

\[ \varphi (\alpha )=a, \qquad \varphi (\beta )=b. \]

Para \(f\) contínua em \([a,b]\), prove

\[ \int _a^b f(x)\, dx = \int _\alpha ^\beta f(\varphi (t))\varphi '(t)\, dt. \]

Formule e prove a versão correspondente quando \(\varphi \) é estritamente decrescente.

Ver solução
Defina \(F(x)=\int _a^x f(u)\, du\). Como \(f\) é contínua, o Teorema Fundamental do Cálculo dá \(F'=f\). Pela regra da cadeia,
\[ (F\circ \varphi )'(t)=f(\varphi (t))\varphi '(t). \]
Integrando e aplicando novamente o Teorema Fundamental,
\[ \int _\alpha ^\beta f(\varphi (t))\varphi '(t)\, dt =F(\varphi (\beta ))-F(\varphi (\alpha )). \]
No caso crescente, isso vale \(F(b)-F(a)=\int _a^b f\). No caso decrescente, com \(\varphi (\alpha )=b\) e \(\varphi (\beta )=a\), vale \(-\int _a^b f\). Equivalentemente,
\[ \int _a^b f(x)\, dx =-\int _\alpha ^\beta f(\varphi (t))\varphi '(t)\, dt =\int _\alpha ^\beta f(\varphi (t))|\varphi '(t)|\, dt. \]
Exercício 10.31 (difficulty=3)

Decomposição de Jordan. Seja \(\alpha :[a,b]\to \mathbb {R}\). Prove que \(\alpha \) tem variação limitada se, e somente se, pode ser escrita na forma

\[ \alpha =u-v, \]

onde \(u\) e \(v\) são funções não decrescentes.

Dê uma construção explícita de \(u\) e \(v\) em termos da função de variação

\[ V(x)=V_a^x(\alpha ). \]
Ver solução

Se \(\alpha =u-v\), com \(u,v\) não decrescentes, então, para qualquer partição,

\[ \sum _i|\Delta \alpha _i| \le \sum _i\Delta u_i+\sum _i\Delta v_i =u(b)-u(a)+v(b)-v(a). \]

Logo \(\alpha \) tem variação limitada.

Reciprocamente, suponha que \(\alpha \) tenha variação limitada e ponha \(V(x)=V_a^x(\alpha )\). Para \(x\lt y\), a aditividade da variação dá

\[ V(y)-V(x)=V_x^y(\alpha )\ge |\alpha (y)-\alpha (x)|. \]

Defina

\[ u(x)=\frac{V(x)+\alpha (x)}2, \qquad v(x)=\frac{V(x)-\alpha (x)}2. \]

A desigualdade anterior implica \(u(y)\ge u(x)\) e \(v(y)\ge v(x)\). Assim, \(u,v\) são não decrescentes e \(\alpha =u-v\).

Exercício 10.32 (difficulty=3)

Oscilação e critério de Lebesgue. Seja \(f:[a,b]\to \mathbb {R}\) limitada e defina

\[ D_\eta = \{ x\in [a,b]:\omega _f(x)\ge \eta \} , \qquad \eta \gt 0. \]

Prove que:

  1. \(D_\eta \) é fechado;

  2. se \(f\) é Riemann-integrável, então \(D_\eta \) tem medida zero;

  3. conclua que o conjunto de pontos de descontinuidade de \(f\) tem medida zero.

Ver solução
  1. Se \(\omega _f(x)\lt \eta \), existe uma vizinhança relativa de \(x\) na qual a oscilação de \(f\) é menor que \(\eta \). Pontos suficientemente próximos de \(x\) possuem vizinhanças contidas nela e também têm oscilação menor que \(\eta \). Assim, \([a,b]\setminus D_\eta \) é aberto relativo, e \(D_\eta \) é fechado.

  2. Dado \(\varepsilon \gt 0\), escolha uma partição \(P\) tal que

    \[ \sum _i\omega (f;I_i)|I_i|\lt \frac{\varepsilon \eta }{2}. \]

    A soma dos comprimentos dos subintervalos com oscilação pelo menos \(\eta \) é menor que \(\varepsilon /2\). Todo ponto de \(D_\eta \) que não seja ponto da partição pertence ao interior de um desses subintervalos. Seus interiores, juntamente com intervalos abertos cobrindo os finitíssimos pontos da partição e de comprimento total menor que \(\varepsilon /2\), cobrem \(D_\eta \) com comprimento total menor que \(\varepsilon \). Logo \(D_\eta \) tem medida zero.

  3. Uma função é descontínua em \(x\) precisamente quando \(\omega _f(x)\gt 0\). Portanto

    \[ D_f=\bigcup _{m=1}^{\infty }D_{1/m}. \]

    A união enumerável de conjuntos de medida zero tem medida zero, concluindo a demonstração.