Espaços métricos
Na reta real, a ideia de proximidade já apareceu muitas vezes. Dizer que uma sequência \((x_n)\) converge para \(x\) significa que \(|x_n-x|\) pode ser feito arbitrariamente pequeno; dizer que \((x_n)\) é de Cauchy significa que \(|x_n-x_m|\) se torna pequeno quando \(m\) e \(n\) são grandes. Em ambos os casos, o valor absoluto está sendo usado como uma medida de distância.
A teoria dos espaços métricos começa com uma pergunta simples: quais propriedades dessa distância são realmente necessárias? Ao isolá-las, podemos transportar as ideias de proximidade, vizinhança, convergência e completude para conjuntos muito diferentes da reta, sem depender da ordem ou das operações algébricas de \(\mathbb {R}\).
Neste primeiro momento seguiremos um caminho concreto. Começaremos pela distância na reta, passaremos à noção abstrata de métrica e veremos como uma métrica produz bolas e, a partir delas, conjuntos abertos e fechados. Somente depois retomaremos sequências e completude nesse novo contexto.
6.1 Da distância na reta à métrica
Na reta, a distância entre \(x\) e \(y\) é
Ela satisfaz quatro propriedades elementares:
e
A última desigualdade é a forma abstrata da desigualdade triangular. É precisamente esse pequeno conjunto de propriedades que queremos conservar.
\(\operatorname {d}(p,q)\ge 0\), e \(\operatorname {d}(p,q)=0\) se, e somente se, \(p=q\);
\(\operatorname {d}(p,q)=\operatorname {d}(q,p)\);
\(\operatorname {d}(p,q)\le \operatorname {d}(p,r)+\operatorname {d}(r,q)\).
Não interromperemos a construção dos espaços métricos para demonstrar agora essa desigualdade. Ela será usada apenas para justificar a desigualdade triangular da distância euclidiana, e a demonstração fica como exercício logo abaixo.
A positividade, a separação e a simetria são imediatas. O único ponto que merece argumento é a desigualdade triangular
que decorre de Cauchy–Schwarz.
Cauchy–Schwarz e a desigualdade triangular euclidiana. Para \(x,y\in \mathbb {R}^n\), considere Use o fato de que \(q(t)\ge 0\) para todo \(t\in \mathbb {R}\) para provar a desigualdade de Cauchy–Schwarz. Em seguida, aplique-a a para obter a desigualdade triangular e concluir diretamente que \(\operatorname {d}_2(x,y)=\| x-y\| _2\) é uma métrica em \(\mathbb {R}^n\). Se \(y=0\), Cauchy–Schwarz é imediata. Se \(y\ne 0\), o polinômio atinge seu mínimo em \(t_0=\langle x,y\rangle /\| y\| _2^2\). Como \(q(t_0)\ge 0\), o que equivale a \(|\langle x,y\rangle |\le \| x\| _2\| y\| _2\). Além disso, a igualdade equivale a \(q(t_0)=0\), isto é, \(x=t_0y\); juntamente com o caso \(y=0\), recuperamos a caracterização por dependência linear. Aplicando a desigualdade, A extração das raízes não negativas fornece a desigualdade triangular. Para \(d_2(x,y)=\| x-y\| _2\), a não negatividade, a separação dos pontos e a simetria são imediatas da fórmula. A desigualdade triangular segue escrevendo \(x-z=(x-y)+(y-z)\). Assim, \(d_2\) é uma métrica. Ver solução
6.2 Bolas e a geometria produzida pela métrica
Uma métrica começa a produzir geometria quando fixamos um ponto e perguntamos quais pontos estão a uma distância menor que um número dado.
Na reta usual,
Em \(\mathbb {R}^2\) com a métrica euclidiana, as bolas são discos. A mesma coleção de pontos, porém, pode produzir figuras bastante diferentes quando mudamos a métrica.
6.3 Dos pontos próximos aos conjuntos abertos
As bolas permitem passar da comparação entre dois pontos à descrição local de conjuntos inteiros.
Seja \(q\in B(p,r)\). Como \(\operatorname {d}(p,q)\lt r\), o número
é positivo. Se \(s\in B(q,h)\), então, pela desigualdade triangular,
Logo \(B(q,h)\subset B(p,r)\). Portanto cada ponto de \(B(p,r)\) possui uma bola centrada nele e contida em \(B(p,r)\), e a bola é aberta.
uma união arbitrária de conjuntos abertos é aberta;
uma interseção finita de conjuntos abertos é aberta.
Se \(x\) pertence a uma união de abertos, pertence a algum deles e, portanto, contém uma bola centrada em \(x\) inteiramente dentro da união.
Se \(x\in G_1\cap \cdots \cap G_n\) e cada \(G_i\) é aberto, escolha \(r_i\gt 0\) com \(B(x,r_i)\subset G_i\). Para
temos \(B(x,r)\subset G_1\cap \cdots \cap G_n\).
É uma consequência imediata da definição de conjunto fechado, aplicada ao complementar.
Assim, \(E\) é aberto se, e somente se, \(E=\operatorname {int}E\).
Da definição seguem imediatamente
e, se \(F\) é fechado e \(E\subset F\), então \(\bar E\subset F\).
Se \(x\notin E\cup E'\), então existe \(r\gt 0\) tal que \(B(x,r)\cap E=\varnothing \). Logo \(B(x,r)\subset X\setminus E\), e existe um aberto contendo \(x\) e disjunto de \(E\). Portanto \(x\notin \bar E\).
Reciprocamente, se \(x\notin \bar E\), como \(X\setminus \bar E\) é aberto, existe \(r\gt 0\) tal que \(B(x,r)\subset X\setminus \bar E\). Como \(E\subset \bar E\), essa bola não encontra \(E\). Assim \(x\notin E\cup E'\). Isso prova \(\bar E=E\cup E'\). A caracterização dos fechados segue de \(E\) ser fechado se, e somente se, \(E=\bar E\).
Se alguma bola \(B(p,r)\) contivesse apenas finitos pontos de \(E\) distintos de \(p\), poderíamos tomar a menor das distâncias positivas desses pontos a \(p\) e diminuir o raio. Obteríamos uma bola centrada em \(p\) sem nenhum ponto de \(E\setminus \{ p\} \), contradizendo a definição de ponto de acumulação.
\((0,1)\) é aberto;
\([0,1]\) é fechado;
\(0\) é ponto de acumulação de \(\{ 1/n:n\in \mathbb {N}\} \);
\(1\) é ponto isolado de \(\{ 1\} \cup \{ 1/n:n\in \mathbb {N}\} \).
Se \(y\in E\), não há o que provar. Se \(y\notin E\), fixe \(r\gt 0\). Como \(y-r\) não é cota superior de \(E\), existe \(x\in E\) tal que
Logo \(B(y,r)\cap E\ne \varnothing \). Como isso vale para todo \(r\gt 0\), temos \(y\in E'\subset \bar E\).
6.4 Topologia relativa
A métrica induzida permite estudar um subconjunto \(Y\subset X\) como um espaço métrico por si só. A primeira identidade a guardar é simples: se \(p\in Y\), então
Assim, o que é aberto dentro de \(Y\) depende apenas do que pode ser visto ao permanecer em \(Y\).
Se \(E=Y\cap G\) com \(G\) aberto em \(X\), então, para cada \(p\in E\), existe \(r\gt 0\) com \(B_X(p,r)\subset G\). Logo
e \(E\) é aberto em \(Y\).
Reciprocamente, suponha \(E\) aberto em \(Y\). Para cada \(p\in E\), escolha \(r_p\gt 0\) tal que
Defina
Então \(G\) é aberto em \(X\) e \(E=Y\cap G\).
Basta tomar complementares na caracterização anterior. Com efeito, \(F\) é fechado em \(Y\) se, e somente se, \(Y\setminus F\) é aberto em \(Y\), isto é, se existe um aberto \(G\subset X\) com
Tomando \(C=X\setminus G\), obtemos \(F=Y\cap C\), com \(C\) fechado.
6.5 Sequências, Cauchy e completude
Nesta seção, introduzimos duas noções centrais no estudo de sequências em espaços métricos: convergência e condição de Cauchy. A primeira descreve quando os termos de uma sequência se aproximam de um ponto do espaço. A segunda descreve quando os termos da sequência passam a ficar próximos entre si. A noção de completude aparece justamente na relação entre essas duas ideias.
Convergência de sequências
Em outras palavras, a partir de certo índice, todos os termos da sequência ficam tão próximos de \(p\) quanto quisermos.
Suponha que \(p_n\to p\) e também \(p_n\to q\). Mostremos que \(p=q\).
Seja \(\varepsilon \gt 0\). Como \(p_n\to p\), existe \(N_1\in \mathbb {N}\) tal que
Como \(p_n\to q\), existe \(N_2\in \mathbb {N}\) tal que
Tomando \(n\ge \max \{ N_1,N_2\} \), a desigualdade triangular dá
Como \(\varepsilon \gt 0\) é arbitrário, segue que \(\operatorname {d}(p,q)=0\). Pela propriedade de separação da métrica, concluímos que \(p=q\).
Suponha primeiro que \(F\) seja fechado e que \(\{ x_n\} \subset F\) converja para \(x\in X\). Se \(x\notin F\), então \(x\in X\setminus F\). Como \(F\) é fechado, \(X\setminus F\) é aberto. Logo existe \(r\gt 0\) tal que
Mas, como \(x_n\to x\), existe \(N\in \mathbb {N}\) tal que
Isso contradiz o fato de que \(x_n\in F\) para todo \(n\).
Reciprocamente, suponha que toda sequência em \(F\) convergente em \(X\) tenha limite em \(F\). Mostremos que \(F\) é fechado. Seja \(x\) um ponto de acumulação de \(F\). Para cada \(n\in \mathbb {N}\), como \(B(x,1/n)\) contém um ponto de \(F\) distinto de \(x\), podemos escolher
Então
e portanto \(x_n\to x\). Pela hipótese, segue que \(x\in F\). Logo todo ponto de acumulação de \(F\) pertence a \(F\), e assim \(F\) é fechado.
Sequências de Cauchy
Na definição de convergência, o ponto limite aparece desde o início. A condição de Cauchy, por outro lado, é formulada apenas em termos da própria sequência: ela exige que, para índices suficientemente grandes, os termos fiquem arbitrariamente próximos entre si.
Suponha que \(p_n\to p\). Seja \(\varepsilon \gt 0\). Pela convergência, existe \(N\in \mathbb {N}\) tal que
Se \(m,n\ge N\), então, pela desigualdade triangular,
Logo \(\{ p_n\} \) é uma sequência de Cauchy.
A recíproca não vale em todo espaço métrico. Pode acontecer que uma sequência de Cauchy não converja no espaço considerado. É justamente para excluir esse tipo de situação que introduzimos a noção de completude.
Completude
A condição de Cauchy descreve uma sequência sem mencionar um candidato a limite. Isso leva à pergunta natural: quando essa informação interna basta para garantir que a sequência realmente converge no próprio espaço?
A diferença entre ser de Cauchy e convergir dentro do espaço já aparece no exemplo mais simples de um subespaço aberto da reta.
Considere o espaço métrico \((0,1)\) munido da métrica usual de \(\mathbb {R}\) e a sequência \(p_n=\frac1n\). Como \(p_n\to 0\) em \(\mathbb {R}\), segue pelo Teorema 6.46 que \((p_n)\) é uma sequência de Cauchy em \(\mathbb {R}\). Como a métrica em \((0,1)\) é simplesmente a restrição da métrica usual de \(\mathbb {R}\), conclui-se que \((p_n)\) também é de Cauchy em \((0,1)\).
Entretanto, essa sequência não converge em \((0,1)\), pois seu limite em \(\mathbb {R}\) é \(0\), e \(0\notin (0,1)\). Portanto, \((0,1)\) não é completo.
Seja \(\{ p_n\} \) uma sequência de Cauchy em \((X,\operatorname {d})\). Tomando \(\varepsilon =1\), existe \(N\in \mathbb {N}\) tal que
Em particular, para todo \(n\ge N\),
Logo os termos \(p_N,p_{N+1},p_{N+2},\ldots \) pertencem à bola \(B(p_N,1)\).
Os termos iniciais \(p_1,\ldots ,p_{N-1}\) formam um conjunto finito. Escolhendo
obtemos
Portanto, \(\{ p_n\} \) é limitada.
Em um espaço completo, toda sequência de Cauchy converge, e seu limite pertence ao próprio espaço.
Seja \((p_n)\) uma sequência de Cauchy em \(\mathbb {R}\). Pelo Teorema 6.49, \((p_n)\) é limitada. Para cada \(n\in \mathbb {N}\), considere o conjunto
Cada \(A_n\) é não vazio e limitado, de modo que podemos definir
Como \(A_{n+1}\subset A_n\), temos \(s_{n+1}\le s_n\). Assim, \((s_n)\) é decrescente. Além disso, como \(A_1\) é limitado inferiormente, a sequência \((s_n)\) também é limitada inferiormente. Pela propriedade do supremo, existe
Como \((s_n)\) é decrescente e limitada inferiormente por \(s\), segue que \(s_n\to s\).
Mostremos que \(p_n\to s\). Seja \(\varepsilon \gt 0\). Como \((p_n)\) é de Cauchy, existe \(N_1\in \mathbb {N}\) tal que, se \(m,n\ge N_1\), então \(|p_m-p_n|\lt \varepsilon \). Fixado \(n\ge N_1\), obtemos
Tomando o supremo em \(A_n\), segue que \(s_n\le p_n+\varepsilon \). Como \(p_n\in A_n\), também temos \(p_n\le s_n\). Logo
Como \(s_n\to s\), existe \(N_2\in \mathbb {N}\) tal que
Portanto, se \(n\ge \max \{ N_1,N_2\} \), então
Logo \(p_n\to s\). Concluímos que \(\mathbb {R}\) é completa.
Seja \(\{ p_n\} \) uma sequência de Cauchy em \(\mathbb {R}^k\), onde
Fixe \(j\in \{ 1,\ldots ,k\} \). Como
segue da condição de Cauchy para \(\{ p_n\} \) que a sequência real \(\{ x_{nj}\} _{n\in \mathbb {N}}\) é de Cauchy em \(\mathbb {R}\).
Pelo Teorema 6.51, cada uma dessas sequências converge em \(\mathbb {R}\). Assim, para cada \(j\), existe \(a_j\in \mathbb {R}\) tal que
Definamos
Mostremos que \(p_n\to p\). Seja \(\varepsilon \gt 0\). Para cada \(j=1,\ldots ,k\), existe \(N_j\in \mathbb {N}\) tal que
Se \(N=\max \{ N_1,\ldots ,N_k\} \), então, para \(n\ge N\),
Logo \(p_n\to p\). Portanto, toda sequência de Cauchy em \(\mathbb {R}^k\) converge em \(\mathbb {R}^k\), e assim \(\mathbb {R}^k\) é completo.
Esse produto é fechado em \(\mathbb {R}^k\). Pelo Teorema 6.52, o espaço \(\mathbb {R}^k\) é completo. Logo o resultado segue do teorema seguinte.
Seja \((X,\operatorname {d})\) um espaço métrico completo e seja \(A\subset X\) um subconjunto fechado. Considere uma sequência de Cauchy \(\{ p_n\} \) em \(A\).
Como a métrica em \(A\) é a induzida por \(X\), a sequência \(\{ p_n\} \) também é de Cauchy em \(X\). Pela completude de \(X\), existe \(p\in X\) tal que
Como todos os termos da sequência pertencem a \(A\) e \(A\) é fechado, o Teorema 6.42 implica que \(p\in A\).
Portanto, \(\{ p_n\} \) converge em \(A\). Logo \(A\) é completo.
6.6 Compacidade
A completude responde a uma pergunta sobre sequências de Cauchy: quando uma aproximação interna ao espaço possui um limite que permanece no próprio espaço? A compacidade expressa um controle global mais forte. Em um espaço compacto, toda sequência possui uma subsequência convergente e toda cobertura por abertos pode ser reduzida a uma quantidade finita de conjuntos.
Essas duas descrições — uma sequencial, outra por coberturas — são duas formas de uma mesma ideia de finitude topológica.
A noção de compacidade formaliza, em linguagem topológica, a ideia de que um conjunto pode ser controlado por uma quantidade finita de informação local.
Considere o conjunto
Para cada \(k\in E\), considere a bola aberta
Essas bolas são duas a duas disjuntas e formam uma cobertura aberta de \(E\), pois cada ponto \(k\in E\) pertence à bola \(B_k\).
Mais explicitamente, isso significa que, se \(\{ G_{\alpha }\} \) é uma cobertura aberta de \(K\), então existem finitamente muitos índices \(\alpha _{1}, \ldots , \alpha _{n}\) tais que
Considere o conjunto
Para cada \(n\in \mathbb {N}\), considere a bola aberta
As bolas \(B_n\) são duas a duas disjuntas e formam uma cobertura aberta de \(\mathbb {N}\).
No entanto, nenhuma subcoleção finita dessas bolas cobre \(\mathbb {N}\). De fato, uma subcoleção finita cobre apenas um número finito de pontos do conjunto.
Portanto, essa cobertura não admite subcobertura finita.
Considere o espaço métrico \(\mathbb {R}\) com a métrica usual. Para mostrar que \(\mathbb {R}\) não é compacto, exibiremos uma cobertura aberta que não possui subcobertura finita.
Seja \(\mathcal{V} = \{ V_n\} _{n \in \mathbb {N}}\) a coleção de intervalos abertos definida por
Dado qualquer número real \(x\), pela Propriedade Arquimediana, existe um inteiro positivo \(n\) tal que \(n \gt |x|\). Isso implica que \(-n \lt x \lt n\), ou seja, \(x \in V_n\). Logo,
Portanto, \(\mathcal{V}\) é uma cobertura aberta de \(\mathbb {R}\).
Suponha, por absurdo, que exista uma subcoleção finita \(\{ V_{n_1}, V_{n_2}, \dots , V_{n_k}\} \) que cubra \(\mathbb {R}\). Seja
Como os intervalos são encaixantes, temos
Mas o ponto \(x=N\) pertence a \(\mathbb {R}\) e não pertence a \((-N,N)\), o que contradiz o fato de que essa subcoleção cobre \(\mathbb {R}\). Concluímos que \(\mathbb {R}\) não é compacto.
Considere o conjunto limitado
Mostraremos que \(E\) não é compacto exibindo uma cobertura aberta que não admite subcobertura finita.
Para cada \(p \in E\), definimos a vizinhança aberta
Note que o raio de \(G_p\) é exatamente metade da distância de \(p\) até a fronteira de \(E\). Como cada ponto \(p \in E\) pertence à bola \(G_p\), a coleção \(\{ G_p\} _{p\in E}\) cobre \(E\). Além disso, cada \(G_p\) está contida em \(E\), pois, se \(x \in G_p\), então
Suponha agora, por absurdo, que exista uma subcoleção finita de abertos \(\{ G_{p_1}, G_{p_2}, \dots , G_{p_k}\} \) que cubra \(E\). Para cada bola \(G_{p_i}\), o ponto mais à direita que pertence a essa bola é \(p_i + \frac{1-|p_i|}{2}\), e esse número é sempre estritamente menor que \(1\). Definimos
Então \(\alpha \lt 1\). Escolhendo agora \(x\) de modo que
temos \(x\in E\), mas \(x\) não pertence a nenhuma das bolas escolhidas, contradizendo o fato de que essa subcoleção cobre \(E\). Portanto, o intervalo aberto \((-1,1)\) não é compacto.
A existência de uma classe ampla de conjuntos compactos infinitos em \(\mathbb {R}^{k}\) seguirá do Teorema 6.80.
Suponha primeiro que \(K\) seja compacto relativamente a \(X\), e seja \(\{ V_{\alpha }\} \) uma coleção de conjuntos abertos relativamente a \(Y\) tal que
Pelo Teorema 6.38, para cada \(\alpha \) existe um aberto \(G_{\alpha }\) de \(X\) tal que
Como \(K\subset Y\), os conjuntos \(G_\alpha \) também cobrem \(K\). Pela compacidade de \(K\) em \(X\), existem índices \(\alpha _1,\ldots ,\alpha _n\) tais que
Intersectando ambos os lados com \(Y\) e usando que \(K\subset Y\), obtemos
Logo \(K\) é compacto relativamente a \(Y\).
Reciprocamente, suponha que \(K\) seja compacto relativamente a \(Y\), e seja \(\{ G_{\alpha }\} \) uma cobertura aberta de \(K\) por abertos de \(X\). Defina
Cada \(V_{\alpha }\) é aberto relativamente a \(Y\), e os conjuntos \(V_\alpha \) cobrem \(K\). Pela compacidade de \(K\) em \(Y\), existem índices \(\alpha _1,\ldots ,\alpha _n\) tais que
Como \(V_{\alpha }\subset G_{\alpha }\) para todo \(\alpha \), segue que
Portanto, \(K\) é compacto relativamente a \(X\).
Seja \(K\) um subconjunto compacto de um espaço métrico \(X\). Mostraremos que o complementar de \(K\) é aberto.
Fixe um ponto \(p \in X\setminus K\). Para cada \(q \in K\), escolhemos vizinhanças \(V_q\) de \(p\) e \(W_q\) de \(q\), ambas com raio menor que \(\frac12 \operatorname {d}(p,q)\). Com essa escolha, \( V_q\cap W_q=\varnothing . \) De fato, se existisse um ponto \(x\in V_q\cap W_q\), então, pela desigualdade triangular,
o que é impossível.
Os conjuntos \(W_q\), com \(q\in K\), formam uma cobertura aberta de \(K\). Como \(K\) é compacto, existem pontos \(q_1,\ldots ,q_n\in K\) tais que \( K\subset W_{q_1}\cup \cdots \cup W_{q_n}. \) Agora definimos \( V=V_{q_1}\cap \cdots \cap V_{q_n}. \) Então \(V\) é uma vizinhança de \(p\). Além disso, como cada \(V_{q_i}\) é disjunta de \(W_{q_i}\), segue que \(V\) é disjunta de \( W=W_{q_1}\cup \cdots \cup W_{q_n}, \) e, em particular, de \(K\). Portanto, \( V\subset X\setminus K. \) Isso mostra que \(p\) é ponto interior de \(X\setminus K\). Como \(p\) foi arbitrário, concluímos que \(X\setminus K\) é aberto. Logo \(K\) é fechado.
Seja \(K\) um subconjunto compacto de um espaço métrico \((X,\operatorname {d})\) e fixe um ponto \(p\in X\). Para cada \(n\in \mathbb {N}\), considere a bola aberta
A família \(\{ B(p,n)\} _{n\in \mathbb {N}}\) é uma cobertura aberta de \(K\), pois, para cada \(x\in K\), existe \(n\gt \operatorname {d}(x,p)\) e então \(x\in B(p,n)\).
Pela compacidade, existe uma subcobertura finita
Se \(N=\max \{ n_1,\ldots ,n_m\} \), então
Logo \(K\) é limitado.
Suponha \(F \subset K \subset X\), com \(F\) fechado em \(X\) e \(K\) compacto. Seja \(\{ V_{\alpha }\} \) uma cobertura aberta de \(F\). Como \(F\) é fechado, seu complementar \(F^{c}\) é aberto. Acrescentando \(F^{c}\) à família \(\{ V_\alpha \} \), obtemos uma cobertura aberta de \(K\).
Como \(K\) é compacto, essa cobertura admite uma subcobertura finita. Se \(F^{c}\) estiver entre os conjuntos escolhidos, podemos removê-lo sem afetar a cobertura de \(F\), já que \(F^{c}\) não contém pontos de \(F\). Resta, assim, uma subcoleção finita da família original \(\{ V_\alpha \} \) que cobre \(F\). Portanto, \(F\) é compacto.
Fixe um membro \(K_{1}\) da coleção e ponha \(G_{\alpha }=K_{\alpha }^{c}\). Suponha, por absurdo, que nenhum ponto de \(K_1\) pertença a todos os conjuntos \(K_\alpha \). Então os conjuntos \(G_\alpha \) formam uma cobertura aberta de \(K_1\). Como \(K_1\) é compacto, existem índices \(\alpha _1,\ldots ,\alpha _n\) tais que
Mas isso equivale a dizer que
o que contradiz a hipótese de que toda interseção finita é não vazia. Logo
Suponha, por absurdo, que nenhum ponto de \(K\) seja ponto de acumulação de \(E\). Então, para cada \(q \in K\), existe uma vizinhança \(V_{q}\) que contém no máximo um ponto de \(E\), a saber, o próprio \(q\), no caso em que \(q\in E\).
A família \(\{ V_q\} _{q\in K}\) é uma cobertura aberta de \(K\). No entanto, nenhuma subcoleção finita dessa família pode cobrir o conjunto infinito \(E\), pois cada um de seus membros contém no máximo um ponto de \(E\). Como \(E\subset K\), isso mostra que nenhuma subcoleção finita pode cobrir \(K\), em contradição com a compacidade de \(K\).
Portanto, algum ponto de \(K\) é ponto de acumulação de \(E\).
Considere o conjunto \(E=\{ x_n;\, n\in \mathbb {N}\} \subset X\). Se \(E\) é finito, então algum ponto \(x\in E\) aparece infinitas vezes na sequência. Nesse caso, basta tomar uma subsequência constante igual a \(x\), que evidentemente converge para \(x\).
Suponha agora que \(E\) seja infinito. Como \(X\) é compacto, todo subconjunto infinito de \(X\) possui um ponto de acumulação. Seja \(x\) um ponto de acumulação de \(E\). Para cada \(k\in \mathbb {N}\), o conjunto \(E\cap B(x,1/k)\) é infinito; em particular, podemos escolher \(n_1\lt n_2\lt \cdots \) de modo que \(x_{n_k}\in B(x,1/k)\) para todo \(k\). Assim, \(\operatorname {d}(x_{n_k},x)\lt 1/k\) para todo \(k\), e portanto \(x_{n_k}\to x\).
Escreva \(I_n=[a_n,b_n]\). Seja \(E=\{ a_n:\ n\in \mathbb {N}\} \). Como \(a_n\le b_1\) para todo \(n\), o conjunto \(E\) é não vazio e limitado superiormente. Seja \(x=\sup E\).
Da inclusão \(I_{m+n}\subset I_m\) segue que
Em particular, \(x\le b_m\) para todo \(m\). Por outro lado, como \(a_m\in E\), temos \(a_m\le x\). Logo
Assim, \(x\in I_m\) para todo \(m\), e portanto \(x\in \bigcap _{n=1}^\infty I_n\).
Escreva cada \(I_n\) como o conjunto dos pontos \(\mathbf{x}=(x_1,\ldots ,x_k)\) tais que
e ponha
Para cada \(j\), a sequência \(\{ I_{n,j}\} \) satisfaz as hipóteses do Teorema 6.75. Portanto, existe \(x_j^*\in \mathbb {R}\) tal que
Definindo
vemos que \(\mathbf{x}^{*}\in I_n\) para todo \(n=1,2,3,\ldots \). Logo
A ideia da prova é a seguinte: supondo que exista uma cobertura aberta sem subcobertura finita, subdividimos sucessivamente a \(k\)-célula em partes menores e escolhemos sempre uma subcélula que ainda não admita subcobertura finita. Isso produz uma sequência encaixante de células cada vez menores. O ponto pertencente à interseção de todas elas levará a uma contradição.
Seja \(I\) uma \(k\)-célula, formada pelos pontos \(\mathbf{x}=(x_{1}, \ldots , x_{k})\) tais que
Ponha
Então, para quaisquer \(\mathbf{x},\mathbf{y}\in I\), temos \(|\mathbf{x}-\mathbf{y}| \leq \delta \).
Suponha, por absurdo, que exista uma cobertura aberta \(\{ G_{\alpha }\} \) de \(I\) que não admita subcobertura finita. Dividimos cada intervalo \([a_j,b_j]\) ao meio, no ponto
Isso decompõe \(I\) em \(2^k\) subcélulas. Pelo menos uma dessas subcélulas, que chamaremos de \(I_1\), não pode ser coberta por nenhuma subcoleção finita de \(\{ G_\alpha \} \); caso contrário, reunindo subcoberturas finitas para cada uma das subcélulas, obteríamos uma subcobertura finita de \(I\).
Repetindo o mesmo processo com \(I_1\), depois com a subcélula escolhida no passo seguinte, e assim sucessivamente, construímos por indução uma sequência de \(k\)-células
com as propriedades:
\(I \supset I_{1} \supset I_{2} \supset I_{3} \supset \cdots \);
cada \(I_n\) não é coberta por nenhuma subcoleção finita de \(\{ G_\alpha \} \);
se \(\mathbf{x},\mathbf{y}\in I_n\), então \(|\mathbf{x}-\mathbf{y}| \leq 2^{-n}\delta \).
Pelo teorema das interseções encaixantes de \(k\)-células, existe um ponto
Como \(\{ G_\alpha \} \) cobre \(I\), existe algum índice \(\alpha \) tal que \(\mathbf{x}^{*}\in G_\alpha \). Como \(G_\alpha \) é aberto, existe \(r\gt 0\) tal que
Escolha agora \(n\) suficientemente grande para que
Então, pela propriedade (c), todo ponto de \(I_n\) está a distância menor que \(r\) de \(\mathbf{x}^{*}\), e portanto pertence a \(G_\alpha \). Assim,
Isso contradiz a propriedade (b), segundo a qual \(I_n\) não é coberta por nenhuma subcoleção finita de \(\{ G_\alpha \} \).
A contradição mostra que toda cobertura aberta de \(I\) admite uma subcobertura finita. Portanto, \(I\) é compacto.
Seja \(E\subset \mathbb {R}^k\).
Suponha primeiro que \(E\) seja compacto. Pelo Teorema 6.67, \(E\) é fechado, e pelo Teorema 6.68, \(E\) é limitado.
Reciprocamente, suponha que \(E\) seja fechado e limitado. Como \(E\) é limitado, existe uma \(k\)-célula \(I\) tal que \(E\subset I\). Pelo Teorema 6.79, \(I\) é compacto. Como \(E\) é fechado em \(\mathbb {R}^k\), em particular é fechado relativamente a \(I\). Pelo Teorema 6.69, concluímos que \(E\) é compacto.
6.7 Conjuntos perfeitos e o conjunto de Cantor
A compacidade fornece um mecanismo poderoso: famílias encaixantes de compactos não vazios não podem desaparecer no limite. Vamos usá-lo agora para estudar conjuntos sem pontos isolados. A combinação entre ser fechado e não possuir pontos isolados é muito mais rígida do que parece e força, em \(\mathbb {R}^k\), a não enumerabilidade.
Assim, a não enumerabilidade reaparece aqui por uma razão completamente diferente da diagonalização de Cantor: ela será consequência de estrutura topológica.
Recordemos que um conjunto \(E\) é dito perfeito se \(E\) é fechado e todo ponto de \(E\) é ponto de acumulação de \(E\). Em outras palavras, um conjunto perfeito é um conjunto fechado que não possui pontos isolados.
Como \(P\) é perfeito, ele é infinito. Suponha, por contradição, que
Construiremos bolas abertas \(V_n=B(\mathbf{c}_n,r_n)\) tais que, para todo \(n\),
\(\overline{V}_{n+1}\subset V_n\);
\(\mathbf{x}_n\notin \overline{V}_{n+1}\);
\(V_n\cap P\neq \varnothing \).
Comecemos tomando \(V_1=B(\mathbf{x}_1,1)\). Suponha construído \(V_n\). Como \(V_n\cap P\neq \varnothing \) e \(P\) não possui pontos isolados, podemos escolher
Como \(V_n\) é aberto, existe \(\rho \gt 0\) tal que
Defina
Com essa escolha, as condições (i), (ii) e (iii) ficam satisfeitas.
Agora definimos
Como \(P\) é fechado e \(\overline{V}_n\) é compacto, cada \(K_n\) é compacto. Além disso, cada \(K_n\) é não vazio pela condição (iii), e da condição (i) segue que
Pelo corolário do Teorema 6.71, existe
Como \(P=\{ \mathbf{x}_1,\mathbf{x}_2,\ldots \} \), temos \(\mathbf{x}=\mathbf{x}_m\) para algum \(m\).
Por outro lado, como \(\mathbf{x}\in K_{m+1}\), segue que
o que contradiz a condição (ii), segundo a qual \(\mathbf{x}_m\notin \overline{V}_{m+1}\). Essa contradição mostra que \(P\) não pode ser enumerável. Portanto, \(P\) é não enumerável.
O intervalo \([a,b]\) é fechado em \(\mathbb {R}\) e todo ponto de \([a,b]\) é ponto de acumulação de \([a,b]\). Logo \([a,b]\) é perfeito. Pelo teorema anterior, segue que \([a,b]\) é não enumerável. Em particular, como \(\mathbb {R}\) contém intervalos fechados não degenerados, conclui-se que \(\mathbb {R}\) é não enumerável.
O conjunto que vamos construir agora mostra que existem conjuntos perfeitos em \(\mathbb {R}\) que não contêm nenhum intervalo.
Seja \(E_{0}\) o intervalo \([0,1]\). Remova o intervalo aberto \(\left(\frac{1}{3}, \frac{2}{3}\right)\), e seja \(E_{1}\) a união dos intervalos
Remova agora os terços médios desses dois intervalos, e seja \(E_{2}\) a união dos intervalos
Prosseguindo desse modo, obtemos uma sequência de conjuntos compactos \(E_{n}\) tais que
\(E_{1} \supset E_{2} \supset E_{3} \supset \cdots \);
\(E_{n}\) é a união de \(2^{n}\) intervalos, cada um deles de comprimento \(3^{-n}\).
O conjunto
é denominado conjunto de Cantor. Como cada \(E_n\) é compacto e a família é encaixante, o Teorema 6.71 mostra que \(P\) não é vazio. Além disso, \(P\) é compacto, por ser interseção de fechados contidos no compacto \(E_1\).
Os intervalos removidos ao longo da construção são intervalos abertos cujos extremos têm a forma
para inteiros \(m\ge 1\) e valores adequados de \(k\). Nenhum desses intervalos tem ponto em comum com \(P\).
Além disso, \(P\) não contém nenhum intervalo. De fato, se \((\alpha ,\beta )\subset P\), escolhendo \(m\) suficientemente grande para que \(3^{-m}\lt \beta -\alpha \), teríamos \((\alpha ,\beta )\subset E_m\). Mas \(E_m\) é a união de \(2^m\) intervalos fechados disjuntos, cada um de comprimento \(3^{-m}\), separados por lacunas abertas. Um intervalo aberto de comprimento maior que \(3^{-m}\) não pode estar contido em \(E_m\). Essa contradição mostra que \(P\) não contém intervalos.
Como o conjunto de Cantor \(P\) é a interseção de uma família decrescente de conjuntos fechados,
segue que \(P\) é fechado. Resta mostrar que \(P\) não tem pontos isolados.
Fixe \(x\in P\) e seja \(S\) um intervalo aberto que contém \(x\). Como \(S\) é aberto, existe \(\eta \gt 0\) tal que
Escolha \(n\) suficientemente grande para que
Então cada intervalo componente de \(E_n\) tem comprimento menor que \(\eta \). Seja \(I_n\) o único intervalo componente de \(E_n\) que contém \(x\). Pela escolha de \(n\), temos
Sejam \(a_n\lt b_n\) as extremidades de \(I_n\). Como \(x\in I_n\), pelo menos uma dessas extremidades é diferente de \(x\). Escolha
Pela construção do conjunto de Cantor, as extremidades dos intervalos que permanecem em cada etapa nunca são removidas. Em particular, as extremidades de todo intervalo componente de \(E_n\) pertencem a \(P\). Logo \(x_n\in P\).
Assim,
Como \(S\) foi um intervalo aberto arbitrário contendo \(x\), concluímos que toda vizinhança de \(x\) contém um ponto de \(P\) distinto de \(x\). Portanto, \(x\) é ponto de acumulação de \(P\).
Como \(x\in P\) foi arbitrário, todo ponto de \(P\) é ponto de acumulação de \(P\). Como já vimos que \(P\) é fechado, segue que \(P\) é perfeito.
O interesse do conjunto de Cantor neste ponto é inteiramente topológico: ele é perfeito e não enumerável, mas não contém intervalo algum. É um exemplo fundamental de como um conjunto pode ser extremamente rico em pontos sem se parecer localmente com um intervalo.
6.8 Conexidade
Depois de estudar propriedades ligadas à aproximação, completude e compacidade, mudamos de pergunta. Agora queremos formalizar quando um espaço é, em sentido topológico, “feito de uma só peça”. Essa é a função da conexidade.
A noção de conexidade procura capturar matematicamente a ideia de que um conjunto é “feito de uma só peça”. Em geral, essa noção é definida em termos da impossibilidade de decompor o conjunto em duas partes disjuntas e suficientemente separadas entre si.
Um subconjunto \(E\) da reta real \(\mathbb {R}\) é conexo se e somente se possui a seguinte propriedade: sempre que \(x,y\in E\) e \(x\lt z\lt y\), então \(z\in E\). Ou seja, os subconjuntos conexos de \(\mathbb {R}\) são exatamente os intervalos.
Suponha primeiro que existam \(x,y \in E\) e algum \(z \in (x,y)\) tal que \(z \notin E\). Definimos
Como \(x \in A_z\) e \(y \in B_z\), ambos os conjuntos são não vazios. Além disso, as inclusões
implicam
Logo \(A_z\) e \(B_z\) são separados. Como
isso mostra que \(E\) não é conexo.
Reciprocamente, suponha que \(E\) não seja conexo. Então
onde \(A\) e \(B\) são separados e não vazios. Escolha \(x \in A\) e \(y \in B\) e suponha, sem perda de generalidade, que \(x \lt y\). Considere
Como \(x \in A \cap [x,y]\), esse conjunto é não vazio, e o supremo está bem definido. Além disso,
Como \(\overline{A}\cap B=\varnothing \), segue que \(z\notin B\). Em particular, \(z\neq y\), pois \(y\in B\). Logo
Se \(z \notin A\), então \(z \notin A \cup B = E\). Como \(x \in A\), temos \(x\neq z\), e portanto
Assim, encontramos um ponto de \((x,y)\) que não pertence a \(E\).
Suponha agora que \(z \in A\). Como \(A \cap \overline{B} = \varnothing \), segue que \(z \notin \overline{B}\). Portanto, existe \(\eta \gt 0\) tal que
Escolha então um ponto
Pelo fato de \(t\gt z=\sup (A\cap [x,y])\), concluímos que \(t\notin A\). Pela escolha de \(t\), também temos \(t\notin B\). Assim,
Além disso,
de modo que \(t\in (x,y)\).
Em qualquer caso, encontramos um ponto entre \(x\) e \(y\) que não pertence a \(E\). Isso prova a recíproca.
Pelo teorema anterior, um subconjunto \(E\subset \mathbb {R}\) é conexo se e somente se, sempre que contém dois pontos \(x\lt y\), contém também todo ponto \(z\) entre eles. Mas essa é precisamente a propriedade característica dos intervalos.
Seja \(E\) conexo e suponha, por absurdo, que
onde \(A\) e \(B\) são separados e não vazios. Como \(E\subset \bar E\),
Essas duas partes são separadas em \(E\); pela conexidade, uma delas deve ser vazia. Suponha \(E\cap B=\varnothing \). Então \(E\subset A\), logo
Mas \(A\) e \(B\) são separados, de modo que \(\bar A\cap B=\varnothing \), contradizendo \(B\subset \bar E\) e \(B\ne \varnothing \). Portanto \(\bar E\) é conexo.
A conexidade encerra o capítulo no nível puramente métrico e topológico. Uma noção mais forte — ligar dois pontos por uma curva contínua — depende explicitamente da teoria de aplicações contínuas e será retomada ao final do capítulo seguinte.
6.9 Exercícios
1. Métricas e exemplos
Seja \(X\) um conjunto infinito. Para \(p,q\in X\), defina
Prove que \(d\) é uma métrica. Quais subconjuntos do espaço métrico resultante são abertos? Quais são fechados? Quais são compactos?
Para \(x,y\in \mathbb {R}\), defina
Determine, em cada caso, se se trata ou não de uma métrica.
Em qualquer espaço métrico \((M,d)\), defina
Prove que \(d'\) também é uma métrica em \(M\).
Considere, em \(\mathbb {R}^n\), as métricas
Em cada um dos casos abaixo, descreva geometricamente a bola aberta \(B(\mathbf{a};r)\):
em \((\mathbb {R}^2,d_1)\);
em \((\mathbb {R}^2,d_2)\);
em \((\mathbb {R}^3,d_1)\);
em \((\mathbb {R}^3,d_2)\).
Com as notações do exercício anterior, prove que, para todos \(\mathbf{x},\mathbf{y}\in \mathbb {R}^n\),
e
Sejam \((S_1,d_1)\) e \((S_2,d_2)\) espaços métricos. Defina, em \(S_1\times S_2\),
Prove que \(\rho \) é uma métrica em \(S_1\times S_2\). Construa outras métricas naturais em \(S_1\times S_2\).
2. Topologia dos espaços métricos
Prove que um intervalo aberto em \(\mathbb {R}\) é um conjunto aberto e que um intervalo fechado é um conjunto fechado.
Determine todos os pontos de acumulação dos seguintes subconjuntos de \(\mathbb {R}\) e decida, em cada caso, se o conjunto é aberto, fechado, ambos ou nenhum dos dois:
o conjunto dos inteiros;
o intervalo \((a,b]\);
o conjunto \(\{ 1/n:\ n=1,2,3,\ldots \} \);
o conjunto dos números racionais;
o conjunto dos números da forma \(2^{-n}+5^{-m}\), com \(m,n=1,2,\ldots \);
o conjunto dos números da forma \((-1)^n+(1/m)\), com \(m,n=1,2,\ldots \);
o conjunto dos números da forma \((1/n)+(1/m)\), com \(m,n=1,2,\ldots \);
o conjunto dos números da forma
\[ \frac{(-1)^n}{1+(1/n)}, \qquad n=1,2,\ldots . \]
Repita o exercício anterior para os seguintes subconjuntos de \(\mathbb {R}^2\):
\(\{ z\in \mathbb {C}:\ |z|\gt 1\} \);
\(\{ z\in \mathbb {C}:\ |z|\ge 1\} \);
o conjunto dos números complexos da forma \((1/n)+(i/m)\), com \(m,n=1,2,\ldots \);
\(\{ (x,y)\in \mathbb {R}^2:\ x^2-y^2\lt 1\} \);
\(\{ (x,y)\in \mathbb {R}^2:\ x\gt 0\} \);
\(\{ (x,y)\in \mathbb {R}^2:\ x\ge 0\} \).
Todo ponto de todo conjunto aberto \(E\subset \mathbb {R}^2\) é ponto de acumulação de \(E\)? Responda à mesma pergunta para conjuntos fechados em \(\mathbb {R}^2\).
Construa um conjunto limitado de números reais com exatamente três pontos de acumulação.
Seja \(E'\) o conjunto de todos os pontos de acumulação de um conjunto \(E\). Prove que \(E'\) é fechado. Prove que \(E\) e \(\bar E\) têm os mesmos pontos de acumulação. \(E\) e \(E'\) sempre têm os mesmos pontos de acumulação?
Seja \(E^\circ \) o conjunto de todos os pontos interiores de um conjunto \(E\).
Prove que \(E^\circ \) é sempre aberto.
Prove que \(E\) é aberto se, e somente se, \(E^\circ =E\).
Se \(G\subset E\) e \(G\) é aberto, prove que \(G\subset E^\circ \).
Prove que o complementar de \(E^\circ \) é o fecho do complementar de \(E\).
\(E\) e \(\bar E\) sempre têm os mesmos interiores?
\(E\) e \(E^\circ \) sempre têm os mesmos fechos?
Sejam \(A_1,A_2,A_3,\ldots \) subconjuntos de um espaço métrico.
Se \(B_n=\bigcup _{i=1}^n A_i\), prove que
\[ \overline{B_n}=\bigcup _{i=1}^n \bar A_i, \qquad n=1,2,3,\ldots . \]Se \(B=\bigcup _{i=1}^\infty A_i\), prove que
\[ \bar B \supset \bigcup _{i=1}^\infty \bar A_i. \]
Mostre, por meio de um exemplo, que essa inclusão pode ser própria.
Prove que todo conjunto aberto não vazio de \(\mathbb {R}\) contém números racionais e irracionais.
Prove que os únicos subconjuntos de \(\mathbb {R}\) que são simultaneamente abertos e fechados são \(\varnothing \) e \(\mathbb {R}\). O mesmo vale em \(\mathbb {R}^2\)?
Prove que todo subconjunto fechado de \(\mathbb {R}\) é a interseção de uma coleção enumerável de abertos.
Prove que um subconjunto não vazio, limitado e fechado de \(\mathbb {R}\) é ou um intervalo fechado, ou pode ser obtido de um intervalo fechado pela remoção de uma coleção enumerável de intervalos abertos disjuntos cujas extremidades pertencem ao conjunto original.
Prove que bolas abertas e intervalos abertos em \(\mathbb {R}^n\) são abertos.
Prove que o interior de um conjunto em \(\mathbb {R}^n\) é aberto.
Se \(S\subset \mathbb {R}^n\), prove que \(\operatorname {int}S\) é a união de todos os subconjuntos abertos de \(\mathbb {R}^n\) contidos em \(S\).
Se \(S,T\subset \mathbb {R}^n\), prove que
e
Seja \(S'\) o conjunto derivado e \(\bar S\) o fecho de \(S\) em \(\mathbb {R}^n\). Prove que:
\(S'\) é fechado;
se \(S\subseteq T\), então \(S'\subseteq T'\);
\((S\cup T)'=S'\cup T'\);
\((\bar S)'=S'\);
\(\bar S\) é fechado;
\(\bar S\) é a interseção de todos os fechados que contêm \(S\).
Se \(S,T\subset \mathbb {R}^n\), prove que
e que
sempre que \(S\) for aberto.
As afirmações dos exercícios anteriores sobre interior, conjunto derivado e fecho permanecem verdadeiras em qualquer espaço métrico? Justifique.
Prove as seguintes identidades em um espaço métrico \(M\), para todo subconjunto \(A\subset M\):
Se \(A_1,\ldots ,A_n\subset M\), prove que
Se \(F\) é uma família infinita de subconjuntos de \(M\), prove que
e dê um exemplo em que a inclusão seja própria.
Prove que
Dê um exemplo de uma família finita para a qual a inclusão seja própria.
Se \(\partial A\) denota a fronteira de \(A\), prove que
Prove que \(\operatorname {int}(\partial A)=\varnothing \) se \(A\) é aberto ou se \(A\) é fechado. Dê um exemplo em que \(\operatorname {int}(\partial A)=M\).
Suponha que \(\operatorname {int}A=\operatorname {int}B=\varnothing \) e que \(A\) seja fechado em \(M\). Prove que \(\operatorname {int}(A\cup B)=\varnothing \). Dê um exemplo em que \(\operatorname {int}A=\operatorname {int}B=\varnothing \), mas \(\operatorname {int}(A\cup B)=M\).
3. Topologia relativa
Seja \(Y\subset X\) um subespaço métrico. Prove diretamente, a partir das definições, que um subconjunto \(E\subset Y\) é aberto relativamente a \(Y\) se, e somente se, \(E=Y\cap G\) para algum aberto \(G\subset X\).
Descreva todos os subconjuntos abertos relativamente ao subespaço
Compare com os abertos de \(\mathbb {R}^2\).
Dê um exemplo de um conjunto que seja fechado relativamente a um subespaço \(Y\), mas não seja fechado no espaço ambiente \(X\).
4. Conjuntos compactos
Dê um exemplo de uma cobertura aberta do intervalo \((0,1)\) que não admita subcobertura finita.
A família dos intervalos abertos
é uma cobertura aberta de \((0,1)\). Prove, sem usar o Teorema de Heine–Borel, que nenhuma subfamília finita dessa coleção cobre \((0,1)\).
Dê um exemplo de um conjunto fechado não limitado e exiba uma cobertura aberta enumerável que não admita subcobertura finita.
Seja
Prove diretamente da definição que \(K\) é compacto, sem usar o teorema de Heine–Borel.
Construa um conjunto compacto de números reais cujos pontos de acumulação formem um conjunto enumerável.
Mostre que o Teorema 6.71 e seu corolário tornam-se falsos, em \(\mathbb {R}\), se a palavra “compacto” for substituída por “fechado” ou por “limitado”.
Considere \(\mathbb {Q}\) com a métrica usual. Seja \(E\) o conjunto de todos os racionais \(p\) tais que
Mostre que \(E\) é fechado e limitado em \(\mathbb {Q}\), mas não é compacto. Determine também se \(E\) é aberto em \(\mathbb {Q}\).
Prove que, em um espaço métrico \((M,d)\), a bola fechada
é um conjunto fechado.
Dê um exemplo de um espaço métrico em que \(\bar B(a;r)\) não coincida com o fecho de \(B(a;r)\).
Prove que todo subconjunto finito de um espaço métrico é fechado.
Prove que, se \(S\subseteq T\subseteq M\), então \(S\) é compacto em \(M\) se, e somente se, é compacto no subespaço \(T\).
Prove que, se \(S\) é fechado e \(T\) é compacto, então \(S\cap T\) é compacto.
Prove que a interseção de uma coleção arbitrária de subconjuntos compactos de um espaço métrico é compacta.
Prove que a união de um número finito de subconjuntos compactos de um espaço métrico é compacta.
5. Conjuntos perfeitos e pontos de condensação
Seja \(E\) o conjunto de todos os números em \([0,1]\) cuja expansão decimal contém apenas os dígitos \(4\) e \(7\). Determine se \(E\) é enumerável, denso em \([0,1]\), compacto e perfeito.
Existe um conjunto perfeito não vazio de \(\mathbb {R}\) que não contenha nenhum número racional? Justifique.
Defina um ponto \(p\) em um espaço métrico \(X\) como ponto de condensação de um conjunto \(E\subset X\) se toda vizinhança de \(p\) contém não enumeravelmente muitos pontos de \(E\).
Suponha \(E\subset \mathbb {R}^k\) não enumerável, e seja \(P\) o conjunto de todos os pontos de condensação de \(E\). Prove que \(P\) é perfeito e que \(P^c\cap E\) é no máximo enumerável.
Prove que todo conjunto aberto em \(\mathbb {R}\) é a união de uma coleção no máximo enumerável de intervalos abertos disjuntos.
Prove que toda coleção de abertos disjuntos em \(\mathbb {R}^n\) é no máximo enumerável. Dê um exemplo de uma coleção não enumerável de fechados disjuntos.
Prove que, se \(S\subset \mathbb {R}^n\) é não enumerável, então existe um ponto \(\mathbf{x}\in S\) que é ponto de condensação de \(S\).
Seja \(T\) o conjunto dos pontos de condensação de um conjunto não enumerável \(S\subset \mathbb {R}^n\). Prove que:
\(S-T\) é enumerável;
\(S\cap T\) é não enumerável;
\(T\) é fechado;
\(T\) não possui pontos isolados.
6. Conjuntos conexos
Se \(A\) e \(B\) são subconjuntos fechados disjuntos de um espaço métrico \(X\), prove que \(A\) e \(B\) são separados.
Prove o mesmo resultado do exercício anterior quando \(A\) e \(B\) são abertos disjuntos.
Fixe \(p\in X\) e \(\delta \gt 0\). Defina \(A\) como o conjunto de todos os \(q\in X\) tais que \(d(p,q)\lt \delta \), e \(B\) como o conjunto de todos os \(q\in X\) tais que \(d(p,q)\gt \delta \). Prove que \(A\) e \(B\) são separados.
Prove que todo espaço métrico conexo com pelo menos dois pontos é não enumerável.
Fechos e interiores de conjuntos conexos são sempre conexos? Analise a questão em \(\mathbb {R}^2\).
\(A_0\) e \(B_0\) são separados em \(\mathbb {R}\);
existe \(t_0\in (0,1)\) tal que \(\mathbf p(t_0)\notin A\cup B\);
todo subconjunto convexo de \(\mathbb {R}^k\) é conexo.