Capítulo 6

Espaços métricos

Na reta real, a ideia de proximidade já apareceu muitas vezes. Dizer que uma sequência \((x_n)\) converge para \(x\) significa que \(|x_n-x|\) pode ser feito arbitrariamente pequeno; dizer que \((x_n)\) é de Cauchy significa que \(|x_n-x_m|\) se torna pequeno quando \(m\) e \(n\) são grandes. Em ambos os casos, o valor absoluto está sendo usado como uma medida de distância.

A teoria dos espaços métricos começa com uma pergunta simples: quais propriedades dessa distância são realmente necessárias? Ao isolá-las, podemos transportar as ideias de proximidade, vizinhança, convergência e completude para conjuntos muito diferentes da reta, sem depender da ordem ou das operações algébricas de \(\mathbb {R}\).

Neste primeiro momento seguiremos um caminho concreto. Começaremos pela distância na reta, passaremos à noção abstrata de métrica e veremos como uma métrica produz bolas e, a partir delas, conjuntos abertos e fechados. Somente depois retomaremos sequências e completude nesse novo contexto.

6.1 Da distância na reta à métrica

Na reta, a distância entre \(x\) e \(y\) é

\[ d(x,y)=|x-y|. \]

Ela satisfaz quatro propriedades elementares:

\[ d(x,y)\ge 0,\qquad d(x,y)=0\iff x=y,\qquad d(x,y)=d(y,x), \]

e

\[ d(x,z)\le d(x,y)+d(y,z). \]

A última desigualdade é a forma abstrata da desigualdade triangular. É precisamente esse pequeno conjunto de propriedades que queremos conservar.

Definição 6.1
Um conjunto \(X\) é um espaço métrico quando está equipado com uma função
\[ \operatorname {d}:X\times X\longrightarrow \mathbb {R} \]
tal que, para quaisquer \(p,q,r\in X\),
  1. \(\operatorname {d}(p,q)\ge 0\), e \(\operatorname {d}(p,q)=0\) se, e somente se, \(p=q\);

  2. \(\operatorname {d}(p,q)=\operatorname {d}(q,p)\);

  3. \(\operatorname {d}(p,q)\le \operatorname {d}(p,r)+\operatorname {d}(r,q)\).

A função \(\operatorname {d}\) é chamada métrica em \(X\), e escrevemos \((X,\operatorname {d})\). Quando não houver risco de ambiguidade, diremos simplesmente que \(X\) é um espaço métrico.

Observação 6.2
Os axiomas não dizem como os pontos de \(X\) são; dizem apenas como medir a proximidade entre eles. Por isso chamaremos os elementos de \(X\) de “pontos”, mesmo quando forem funções, sequências ou outros objetos.

Observação 6.3
A desigualdade triangular exprime a única restrição geométrica realmente substantiva: passar por um ponto intermediário não pode encurtar o caminho entre dois pontos.

Figura 6.1 A desigualdade triangular: o caminho direto não é maior que um caminho que passa por um ponto intermediário.

Figura 6.1 A desigualdade triangular: o caminho direto não é maior que um caminho que passa por um ponto intermediário.

Exemplo 6.4
A reta real. Em \(\mathbb {R}\),
\[ \operatorname {d}(x,y)=|x-y| \]
é a métrica usual. É o modelo que motivou a definição.

Lema 6.5 (Desigualdade de Cauchy–Schwarz)
Para \(x,y\in \mathbb {R}^n\),
\[ |\langle x,y\rangle |\le \| x\| _2\, \| y\| _2. \]
A igualdade ocorre se, e somente se, \(x\) e \(y\) são linearmente dependentes.

Não interromperemos a construção dos espaços métricos para demonstrar agora essa desigualdade. Ela será usada apenas para justificar a desigualdade triangular da distância euclidiana, e a demonstração fica como exercício logo abaixo.

Proposição 6.6
Em \(\mathbb {R}^n\),
\[ \operatorname {d}_2(x,y)=\| x-y\| _2 =\left(\sum _{j=1}^{n}(x_j-y_j)^2\right)^{1/2} \]
define uma métrica.

A positividade, a separação e a simetria são imediatas. O único ponto que merece argumento é a desigualdade triangular

\[ \| u+v\| _2\le \| u\| _2+\| v\| _2, \]

que decorre de Cauchy–Schwarz.

Exercício 6.1

Cauchy–Schwarz e a desigualdade triangular euclidiana. Para \(x,y\in \mathbb {R}^n\), considere

\[ q(t)=\| x-ty\| _2^2. \]

Use o fato de que \(q(t)\ge 0\) para todo \(t\in \mathbb {R}\) para provar a desigualdade de Cauchy–Schwarz. Em seguida, aplique-a a

\[ \| u+v\| _2^2 =\| u\| _2^2+2\langle u,v\rangle +\| v\| _2^2 \]

para obter a desigualdade triangular e concluir diretamente que \(\operatorname {d}_2(x,y)=\| x-y\| _2\) é uma métrica em \(\mathbb {R}^n\).

Ver solução

Se \(y=0\), Cauchy–Schwarz é imediata. Se \(y\ne 0\), o polinômio

\[ q(t)=\| x\| _2^2-2t\langle x,y\rangle +t^2\| y\| _2^2 \]

atinge seu mínimo em \(t_0=\langle x,y\rangle /\| y\| _2^2\). Como \(q(t_0)\ge 0\),

\[ 0\le \| x\| _2^2- \frac{\langle x,y\rangle ^2}{\| y\| _2^2}, \]

o que equivale a \(|\langle x,y\rangle |\le \| x\| _2\| y\| _2\). Além disso, a igualdade equivale a \(q(t_0)=0\), isto é, \(x=t_0y\); juntamente com o caso \(y=0\), recuperamos a caracterização por dependência linear.

Aplicando a desigualdade,

\[ \| u+v\| _2^2 \le \| u\| _2^2+2\| u\| _2\| v\| _2+\| v\| _2^2 =(\| u\| _2+\| v\| _2)^2. \]

A extração das raízes não negativas fornece a desigualdade triangular. Para \(d_2(x,y)=\| x-y\| _2\), a não negatividade, a separação dos pontos e a simetria são imediatas da fórmula. A desigualdade triangular segue escrevendo \(x-z=(x-y)+(y-z)\). Assim, \(d_2\) é uma métrica.

Exemplo 6.7
Métrica discreta. Seja \(X\) um conjunto qualquer. A função
\[ \operatorname {d}(x,y)= \begin{cases} 0,& x=y,\\ 1,& x\ne y \end{cases} \]
é uma métrica em \(X\). Esse exemplo é importante porque mostra que uma métrica não precisa nascer de uma geometria euclidiana previamente existente.

Exemplo 6.8
Métrica induzida. Se \((X,\operatorname {d}_X)\) é um espaço métrico e \(Y\subset X\), então
\[ \operatorname {d}_Y(p,q)=\operatorname {d}_X(p,q),\qquad p,q\in Y, \]
define uma métrica em \(Y\). Dizemos que \(Y\) possui a métrica induzida, ou restrita, de \(X\).

Exemplo 6.9
O intervalo \([0,1]\), com
\[ \operatorname {d}(x,y)=|x-y|, \]
é um subespaço métrico de \(\mathbb {R}\).

Exemplo 6.10
Por que a separação é necessária. Seja \(X\) o conjunto das funções \(f:[-1,1]\to \mathbb {R}\) e defina
\[ \operatorname {d}_0(f,g)=|f(0)-g(0)|. \]
Essa função é não negativa, simétrica e satisfaz a desigualdade triangular, mas não é uma métrica. Por exemplo, \(f(x)=0\) e \(g(x)=x^2\) são funções distintas e, no entanto, \(\operatorname {d}_0(f,g)=0\).

6.2 Bolas e a geometria produzida pela métrica

Uma métrica começa a produzir geometria quando fixamos um ponto e perguntamos quais pontos estão a uma distância menor que um número dado.

Definição 6.11
Seja \((X,\operatorname {d})\) um espaço métrico. Para \(p\in X\) e \(r\gt 0\), a bola aberta de centro \(p\) e raio \(r\) é
\[ B(p,r)=\{ q\in X:\operatorname {d}(p,q)\lt r\} . \]

Na reta usual,

\[ B(p,r)=(p-r,p+r). \]

Em \(\mathbb {R}^2\) com a métrica euclidiana, as bolas são discos. A mesma coleção de pontos, porém, pode produzir figuras bastante diferentes quando mudamos a métrica.

Exemplo 6.12
Em \(\mathbb {R}^n\), além da distância euclidiana, duas métricas particularmente úteis são
\[ \operatorname {d}_1(x,y)=\sum _{j=1}^{n}|x_j-y_j| \]
e
\[ \operatorname {d}_\infty (x,y)=\max _{1\le j\le n}|x_j-y_j|. \]
A primeira é frequentemente chamada métrica do taxista. Mais geralmente, para \(p\ge 1\),
\[ \operatorname {d}_p(x,y)=\left(\sum _{j=1}^{n}|x_j-y_j|^p\right)^{1/p} \]
é uma métrica; a desigualdade triangular nesse caso é a desigualdade de Minkowski.

Exemplo 6.13
Em \(\mathbb {R}^2\), a bola de raio \(r\) para \(\operatorname {d}_2\) é um disco; para \(\operatorname {d}_1\), é um losango; e para \(\operatorname {d}_\infty \), é um quadrado.

Figura 6.2 O mesmo centro e o mesmo raio produzem bolas diferentes em métricas diferentes.

Figura 6.2 O mesmo centro e o mesmo raio produzem bolas diferentes em métricas diferentes.

Exemplo 6.14
Na métrica discreta, se \(0\lt r\le 1\), então
\[ B(p,r)=\{ p\} . \]
Se \(r\gt 1\), então \(B(p,r)=X\). Assim, a geometria da métrica discreta é radicalmente diferente da geometria usual da reta.

Exemplo 6.15 (Métrica do carteiro)
Fixe a origem \(O=(0,0)\) em \(\mathbb {R}^2\). Defina
\[ d_c(x,y)= \begin{cases} \| x-y\| _2,& \text{se }x\text{ e }y\text{ pertencem à mesma reta que passa por }O,\\[1mm] \| x\| _2+\| y\| _2,& \text{caso contrário.} \end{cases} \]
Essa é uma métrica. A interpretação é simples: em direções diferentes, para ir de \(x\) a \(y\) é preciso passar pela origem. O exemplo mostra que a métrica, e não o desenho subjacente do conjunto, determina a geometria que será usada.

6.3 Dos pontos próximos aos conjuntos abertos

As bolas permitem passar da comparação entre dois pontos à descrição local de conjuntos inteiros.

Definição 6.16
Seja \(p\in X\). Um conjunto \(V\subset X\) é uma vizinhança de \(p\) se existe \(r\gt 0\) tal que
\[ B(p,r)\subset V. \]
As bolas abertas são, portanto, as vizinhanças básicas de um ponto.

Definição 6.17
Um conjunto \(G\subset X\) é aberto se, para todo \(p\in G\), existe \(r\gt 0\) tal que
\[ B(p,r)\subset G. \]

Teorema 6.18
Toda bola aberta é um conjunto aberto.

Demonstração

Seja \(q\in B(p,r)\). Como \(\operatorname {d}(p,q)\lt r\), o número

\[ h=r-\operatorname {d}(p,q) \]

é positivo. Se \(s\in B(q,h)\), então, pela desigualdade triangular,

\[ \operatorname {d}(p,s)\le \operatorname {d}(p,q)+\operatorname {d}(q,s)\lt \operatorname {d}(p,q)+h=r. \]

Logo \(B(q,h)\subset B(p,r)\). Portanto cada ponto de \(B(p,r)\) possui uma bola centrada nele e contida em \(B(p,r)\), e a bola é aberta.

Teorema 6.19 (Uniões e interseções de abertos)
  1. uma união arbitrária de conjuntos abertos é aberta;

  2. uma interseção finita de conjuntos abertos é aberta.

Demonstração

Se \(x\) pertence a uma união de abertos, pertence a algum deles e, portanto, contém uma bola centrada em \(x\) inteiramente dentro da união.

Se \(x\in G_1\cap \cdots \cap G_n\) e cada \(G_i\) é aberto, escolha \(r_i\gt 0\) com \(B(x,r_i)\subset G_i\). Para

\[ r=\min \{ r_1,\ldots ,r_n\} , \]

temos \(B(x,r)\subset G_1\cap \cdots \cap G_n\).

Definição 6.20
Um conjunto \(F\subset X\) é fechado quando seu complementar \(X\setminus F\) é aberto.

Teorema 6.21
Um conjunto é aberto se, e somente se, seu complementar é fechado.

Demonstração

É uma consequência imediata da definição de conjunto fechado, aplicada ao complementar.

Teorema 6.22
Para qualquer família \(\{ E_\alpha \} \), valem as leis de De Morgan

\begin{equation} \label{eq:de_morgan} \left(\bigcup _\alpha E_\alpha \right)^c =\bigcap _\alpha E_\alpha ^c, \qquad \left(\bigcap _\alpha E_\alpha \right)^c =\bigcup _\alpha E_\alpha ^c. \tag{6.1} \end{equation}

Corolário 6.23
Uma interseção arbitrária de conjuntos fechados é fechada, e uma união finita de conjuntos fechados é fechada.

Definição 6.24
Seja \(E\subset X\). Um ponto \(p\in E\) é um ponto interior de \(E\) se existe \(r\gt 0\) tal que
\[ B(p,r)\subset E. \]
O conjunto de todos os pontos interiores de \(E\) é chamado interior de \(E\) e será denotado por \(\operatorname {int}E\).

Assim, \(E\) é aberto se, e somente se, \(E=\operatorname {int}E\).

Definição 6.25
O fecho de \(E\subset X\), denotado por \(\bar E\), é a interseção de todos os conjuntos fechados que contêm \(E\):
\[ \bar E=\bigcap \{ F\subset X:E\subset F\text{ e }F\text{ é fechado}\} . \]
Equivalentemente, \(\bar E\) é o menor conjunto fechado que contém \(E\).

Da definição seguem imediatamente

\[ E\subset \bar E, \qquad \bar E\text{ é fechado}, \]

e, se \(F\) é fechado e \(E\subset F\), então \(\bar E\subset F\).

Definição 6.26
Seja \(E\subset X\). Um ponto \(p\in X\) é um ponto de acumulação de \(E\) se, para todo \(r\gt 0\),
\[ \bigl(B(p,r)\setminus \{ p\} \bigr)\cap E\ne \varnothing . \]
O conjunto dos pontos de acumulação de \(E\) será denotado por \(E'\).

Definição 6.27
Um ponto \(p\in E\) é isolado em \(E\) quando não é ponto de acumulação de \(E\).

Proposição 6.28
Para todo \(E\subset X\),
\[ \bar E=E\cup E'. \]
Consequentemente, \(E\) é fechado se, e somente se, contém todos os seus pontos de acumulação.

Demonstração

Se \(x\notin E\cup E'\), então existe \(r\gt 0\) tal que \(B(x,r)\cap E=\varnothing \). Logo \(B(x,r)\subset X\setminus E\), e existe um aberto contendo \(x\) e disjunto de \(E\). Portanto \(x\notin \bar E\).

Reciprocamente, se \(x\notin \bar E\), como \(X\setminus \bar E\) é aberto, existe \(r\gt 0\) tal que \(B(x,r)\subset X\setminus \bar E\). Como \(E\subset \bar E\), essa bola não encontra \(E\). Assim \(x\notin E\cup E'\). Isso prova \(\bar E=E\cup E'\). A caracterização dos fechados segue de \(E\) ser fechado se, e somente se, \(E=\bar E\).

Teorema 6.29
Se \(p\) é ponto de acumulação de \(E\), então toda vizinhança de \(p\) contém infinitos pontos de \(E\).

Demonstração

Se alguma bola \(B(p,r)\) contivesse apenas finitos pontos de \(E\) distintos de \(p\), poderíamos tomar a menor das distâncias positivas desses pontos a \(p\) e diminuir o raio. Obteríamos uma bola centrada em \(p\) sem nenhum ponto de \(E\setminus \{ p\} \), contradizendo a definição de ponto de acumulação.

Exemplo 6.30
Na reta com a métrica usual:
  1. \((0,1)\) é aberto;

  2. \([0,1]\) é fechado;

  3. \(0\) é ponto de acumulação de \(\{ 1/n:n\in \mathbb {N}\} \);

  4. \(1\) é ponto isolado de \(\{ 1\} \cup \{ 1/n:n\in \mathbb {N}\} \).

Definição 6.31
Um conjunto \(E\subset X\) é limitado se existem \(q\in X\) e \(M\gt 0\) tais que
\[ \operatorname {d}(p,q)\lt M\qquad \text{para todo }p\in E. \]

Definição 6.32
Um conjunto \(E\subset X\) é denso em \(X\) se
\[ \bar E=X. \]
Equivalentemente, toda bola aberta de \(X\) encontra \(E\).

Definição 6.33
Um conjunto \(E\subset X\) é perfeito se é fechado e não possui pontos isolados; equivalentemente, se todo ponto de \(E\) é ponto de acumulação de \(E\).

Teorema 6.34
Seja \(E\subset \mathbb {R}\) não vazio e limitado superiormente. Se \(y=\sup E\), então
\[ y\in \bar E. \]
Em particular, se \(E\) é fechado, então \(\sup E\in E\).

Demonstração

Se \(y\in E\), não há o que provar. Se \(y\notin E\), fixe \(r\gt 0\). Como \(y-r\) não é cota superior de \(E\), existe \(x\in E\) tal que

\[ y-r\lt x\le y\lt y+r. \]

Logo \(B(y,r)\cap E\ne \varnothing \). Como isso vale para todo \(r\gt 0\), temos \(y\in E'\subset \bar E\).

Observação 6.35
Em \(\mathbb {R}^n\), as métricas \(\operatorname {d}_1\), \(\operatorname {d}_2\) e \(\operatorname {d}_\infty \) produzem bolas geometricamente diferentes, mas os mesmos conjuntos abertos. Por exemplo,
\[ \operatorname {d}_\infty (x,y)\le \operatorname {d}_2(x,y)\le \sqrt n\, \operatorname {d}_\infty (x,y), \]
e
\[ \operatorname {d}_\infty (x,y)\le \operatorname {d}_1(x,y)\le n\, \operatorname {d}_\infty (x,y). \]
Essas desigualdades mostram que toda bola de uma dessas métricas contém uma bola suficientemente pequena das outras. Portanto elas geram a mesma topologia em \(\mathbb {R}^n\). Só agora essa afirmação faz sentido: “mesma topologia” quer dizer exatamente “mesmos conjuntos abertos”.

6.4 Topologia relativa

A métrica induzida permite estudar um subconjunto \(Y\subset X\) como um espaço métrico por si só. A primeira identidade a guardar é simples: se \(p\in Y\), então

\[ B_Y(p,r)=Y\cap B_X(p,r). \]

Assim, o que é aberto dentro de \(Y\) depende apenas do que pode ser visto ao permanecer em \(Y\).

Definição 6.36
Se \(E\subset Y\subset X\), dizemos que \(E\) é aberto relativamente a \(Y\) quando é aberto no espaço métrico \(Y\) com a métrica induzida. Equivalentemente, para cada \(p\in E\) existe \(r\gt 0\) tal que
\[ B_X(p,r)\cap Y\subset E. \]

Exemplo 6.37
O intervalo \([0,1)\) não é aberto em \(\mathbb {R}\), mas é aberto relativamente a \([0,1]\), pois
\[ [0,1)=[0,1]\cap (-1,1). \]

Teorema 6.38
Se \(Y\subset X\), um conjunto \(E\subset Y\) é aberto relativamente a \(Y\) se, e somente se, existe um aberto \(G\subset X\) tal que
\[ E=Y\cap G. \]

Demonstração

Se \(E=Y\cap G\) com \(G\) aberto em \(X\), então, para cada \(p\in E\), existe \(r\gt 0\) com \(B_X(p,r)\subset G\). Logo

\[ B_Y(p,r)=Y\cap B_X(p,r)\subset E, \]

e \(E\) é aberto em \(Y\).

Reciprocamente, suponha \(E\) aberto em \(Y\). Para cada \(p\in E\), escolha \(r_p\gt 0\) tal que

\[ B_X(p,r_p)\cap Y\subset E. \]

Defina

\[ G=\bigcup _{p\in E}B_X(p,r_p). \]

Então \(G\) é aberto em \(X\) e \(E=Y\cap G\).

Teorema 6.39
Se \(Y\subset X\), um conjunto \(F\subset Y\) é fechado relativamente a \(Y\) se, e somente se, existe um fechado \(C\subset X\) tal que
\[ F=Y\cap C. \]

Demonstração

Basta tomar complementares na caracterização anterior. Com efeito, \(F\) é fechado em \(Y\) se, e somente se, \(Y\setminus F\) é aberto em \(Y\), isto é, se existe um aberto \(G\subset X\) com

\[ Y\setminus F=Y\cap G. \]

Tomando \(C=X\setminus G\), obtemos \(F=Y\cap C\), com \(C\) fechado.

6.5 Sequências, Cauchy e completude

Nesta seção, introduzimos duas noções centrais no estudo de sequências em espaços métricos: convergência e condição de Cauchy. A primeira descreve quando os termos de uma sequência se aproximam de um ponto do espaço. A segunda descreve quando os termos da sequência passam a ficar próximos entre si. A noção de completude aparece justamente na relação entre essas duas ideias.

Convergência de sequências

Definição 6.40
Seja \((X,\operatorname {d})\) um espaço métrico e seja \(\{ p_n\} \) uma sequência em \(X\). Dizemos que \(\{ p_n\} \) converge para um ponto \(p\in X\) se, para todo \(\varepsilon \gt 0\), existe \(N\in \mathbb {N}\) tal que
\[ n\ge N \ \Rightarrow \ \operatorname {d}(p_n,p)\lt \varepsilon . \]
Nesse caso, escrevemos
\[ p_n\to p \qquad \text{ou}\qquad \lim _{n\to \infty }p_n=p. \]

Em outras palavras, a partir de certo índice, todos os termos da sequência ficam tão próximos de \(p\) quanto quisermos.

Teorema 6.41
Se uma sequência em um espaço métrico converge, então seu limite é único.

Demonstração

Suponha que \(p_n\to p\) e também \(p_n\to q\). Mostremos que \(p=q\).

Seja \(\varepsilon \gt 0\). Como \(p_n\to p\), existe \(N_1\in \mathbb {N}\) tal que

\[ n\ge N_1 \ \Rightarrow \ \operatorname {d}(p_n,p)\lt \frac{\varepsilon }{2}. \]

Como \(p_n\to q\), existe \(N_2\in \mathbb {N}\) tal que

\[ n\ge N_2 \ \Rightarrow \ \operatorname {d}(p_n,q)\lt \frac{\varepsilon }{2}. \]

Tomando \(n\ge \max \{ N_1,N_2\} \), a desigualdade triangular dá

\[ \operatorname {d}(p,q)\le \operatorname {d}(p,p_n)+\operatorname {d}(p_n,q)\lt \frac{\varepsilon }{2}+\frac{\varepsilon }{2}=\varepsilon . \]

Como \(\varepsilon \gt 0\) é arbitrário, segue que \(\operatorname {d}(p,q)=0\). Pela propriedade de separação da métrica, concluímos que \(p=q\).

Teorema 6.42
Seja \(F\subset X\). Então \(F\) é fechado se, e somente se, para toda sequência \(\{ x_n\} \subset F\) que converge em \(X\) para algum ponto \(x\), tem-se \(x\in F\).

Demonstração

Suponha primeiro que \(F\) seja fechado e que \(\{ x_n\} \subset F\) converja para \(x\in X\). Se \(x\notin F\), então \(x\in X\setminus F\). Como \(F\) é fechado, \(X\setminus F\) é aberto. Logo existe \(r\gt 0\) tal que

\[ B(x,r)\subset X\setminus F. \]

Mas, como \(x_n\to x\), existe \(N\in \mathbb {N}\) tal que

\[ n\ge N \ \Rightarrow \ x_n\in B(x,r). \]

Isso contradiz o fato de que \(x_n\in F\) para todo \(n\).

Reciprocamente, suponha que toda sequência em \(F\) convergente em \(X\) tenha limite em \(F\). Mostremos que \(F\) é fechado. Seja \(x\) um ponto de acumulação de \(F\). Para cada \(n\in \mathbb {N}\), como \(B(x,1/n)\) contém um ponto de \(F\) distinto de \(x\), podemos escolher

\[ x_n\in F\cap B(x,1/n). \]

Então

\[ \operatorname {d}(x_n,x)\lt \frac1n, \]

e portanto \(x_n\to x\). Pela hipótese, segue que \(x\in F\). Logo todo ponto de acumulação de \(F\) pertence a \(F\), e assim \(F\) é fechado.

Definição 6.43
Seja \((x_n)\) uma sequência em um espaço métrico \(X\). Uma subsequência de \((x_n)\) é uma sequência da forma \((x_{n_k})\), onde \((n_k)\) é uma sequência estritamente crescente de números naturais, isto é,
\[ n_1\lt n_2\lt \cdots \lt n_k\lt \cdots . \]

Observação 6.44
A convergência de uma sequência depende do espaço em que ela está sendo considerada. Por exemplo, a sequência \(p_n=1/n\) converge para \(0\) em \(\mathbb {R}\), mas não converge em \((0,1)\), pois esse limite não pertence ao espaço \((0,1)\).

Sequências de Cauchy

Na definição de convergência, o ponto limite aparece desde o início. A condição de Cauchy, por outro lado, é formulada apenas em termos da própria sequência: ela exige que, para índices suficientemente grandes, os termos fiquem arbitrariamente próximos entre si.

Definição 6.45
Seja \((X,\operatorname {d})\) um espaço métrico. Uma sequência \(\{ p_n\} \) em \(X\) é denominada sequência de Cauchy se, para todo \(\varepsilon \gt 0\), existe \(N\in \mathbb {N}\) tal que
\[ m,n\ge N \ \Rightarrow \ \operatorname {d}(p_m,p_n)\lt \varepsilon . \]

Teorema 6.46
Toda sequência convergente em um espaço métrico é uma sequência de Cauchy.

Demonstração

Suponha que \(p_n\to p\). Seja \(\varepsilon \gt 0\). Pela convergência, existe \(N\in \mathbb {N}\) tal que

\[ n\ge N \ \Rightarrow \ \operatorname {d}(p_n,p)\lt \frac{\varepsilon }{2}. \]

Se \(m,n\ge N\), então, pela desigualdade triangular,

\[ \operatorname {d}(p_m,p_n)\le \operatorname {d}(p_m,p)+\operatorname {d}(p,p_n)\lt \frac{\varepsilon }{2}+\frac{\varepsilon }{2}=\varepsilon . \]

Logo \(\{ p_n\} \) é uma sequência de Cauchy.

A recíproca não vale em todo espaço métrico. Pode acontecer que uma sequência de Cauchy não converja no espaço considerado. É justamente para excluir esse tipo de situação que introduzimos a noção de completude.

Completude

A condição de Cauchy descreve uma sequência sem mencionar um candidato a limite. Isso leva à pergunta natural: quando essa informação interna basta para garantir que a sequência realmente converge no próprio espaço?

Definição 6.47
Um espaço métrico \((X,\operatorname {d})\) é dito completo se toda sequência de Cauchy em \(X\) converge para algum ponto de \(X\).

A diferença entre ser de Cauchy e convergir dentro do espaço já aparece no exemplo mais simples de um subespaço aberto da reta.

Exemplo 6.48

Considere o espaço métrico \((0,1)\) munido da métrica usual de \(\mathbb {R}\) e a sequência \(p_n=\frac1n\). Como \(p_n\to 0\) em \(\mathbb {R}\), segue pelo Teorema 6.46 que \((p_n)\) é uma sequência de Cauchy em \(\mathbb {R}\). Como a métrica em \((0,1)\) é simplesmente a restrição da métrica usual de \(\mathbb {R}\), conclui-se que \((p_n)\) também é de Cauchy em \((0,1)\).

Entretanto, essa sequência não converge em \((0,1)\), pois seu limite em \(\mathbb {R}\) é \(0\), e \(0\notin (0,1)\). Portanto, \((0,1)\) não é completo.

Teorema 6.49
Toda sequência de Cauchy em um espaço métrico é limitada.

Demonstração

Seja \(\{ p_n\} \) uma sequência de Cauchy em \((X,\operatorname {d})\). Tomando \(\varepsilon =1\), existe \(N\in \mathbb {N}\) tal que

\[ m,n\ge N \ \Rightarrow \ \operatorname {d}(p_m,p_n)\lt 1. \]

Em particular, para todo \(n\ge N\),

\[ \operatorname {d}(p_n,p_N)\lt 1. \]

Logo os termos \(p_N,p_{N+1},p_{N+2},\ldots \) pertencem à bola \(B(p_N,1)\).

Os termos iniciais \(p_1,\ldots ,p_{N-1}\) formam um conjunto finito. Escolhendo

\[ M\gt \max \bigl\{ 1,\operatorname {d}(p_1,p_N),\ldots ,\operatorname {d}(p_{N-1},p_N)\bigr\} , \]

obtemos

\[ \operatorname {d}(p_n,p_N)\lt M \qquad \text{para todo }n\in \mathbb {N}. \]

Portanto, \(\{ p_n\} \) é limitada.

Em um espaço completo, toda sequência de Cauchy converge, e seu limite pertence ao próprio espaço.

Observação 6.50
A completude é uma propriedade do espaço métrico, e não apenas do conjunto subjacente. Um mesmo conjunto pode ser completo com uma métrica e não completo com outra.

Teorema 6.51
A reta real \(\mathbb {R}\), com a métrica usual, é completa.

Demonstração

Seja \((p_n)\) uma sequência de Cauchy em \(\mathbb {R}\). Pelo Teorema 6.49, \((p_n)\) é limitada. Para cada \(n\in \mathbb {N}\), considere o conjunto

\[ A_n=\{ p_k:\ k\ge n\} . \]

Cada \(A_n\) é não vazio e limitado, de modo que podemos definir

\[ s_n=\sup A_n. \]

Como \(A_{n+1}\subset A_n\), temos \(s_{n+1}\le s_n\). Assim, \((s_n)\) é decrescente. Além disso, como \(A_1\) é limitado inferiormente, a sequência \((s_n)\) também é limitada inferiormente. Pela propriedade do supremo, existe

\[ s=\inf \{ s_n:\ n\in \mathbb {N}\} \in \mathbb {R}. \]

Como \((s_n)\) é decrescente e limitada inferiormente por \(s\), segue que \(s_n\to s\).

Mostremos que \(p_n\to s\). Seja \(\varepsilon \gt 0\). Como \((p_n)\) é de Cauchy, existe \(N_1\in \mathbb {N}\) tal que, se \(m,n\ge N_1\), então \(|p_m-p_n|\lt \varepsilon \). Fixado \(n\ge N_1\), obtemos

\[ p_k\lt p_n+\varepsilon \qquad \text{para todo }k\ge n. \]

Tomando o supremo em \(A_n\), segue que \(s_n\le p_n+\varepsilon \). Como \(p_n\in A_n\), também temos \(p_n\le s_n\). Logo

\[ 0\le s_n-p_n\le \varepsilon \qquad \text{para todo }n\ge N_1. \]

Como \(s_n\to s\), existe \(N_2\in \mathbb {N}\) tal que

\[ n\ge N_2 \ \Rightarrow \ |s_n-s|\lt \varepsilon . \]

Portanto, se \(n\ge \max \{ N_1,N_2\} \), então

\[ |p_n-s|\le |p_n-s_n|+|s_n-s|\lt 2\varepsilon . \]

Logo \(p_n\to s\). Concluímos que \(\mathbb {R}\) é completa.

Teorema 6.52
O espaço euclidiano \(\mathbb {R}^k\) é completo.

Demonstração

Seja \(\{ p_n\} \) uma sequência de Cauchy em \(\mathbb {R}^k\), onde

\[ p_n=(x_{n1},x_{n2},\ldots ,x_{nk}). \]

Fixe \(j\in \{ 1,\ldots ,k\} \). Como

\[ |x_{mj}-x_{nj}|\le \| p_m-p_n\| , \]

segue da condição de Cauchy para \(\{ p_n\} \) que a sequência real \(\{ x_{nj}\} _{n\in \mathbb {N}}\) é de Cauchy em \(\mathbb {R}\).

Pelo Teorema 6.51, cada uma dessas sequências converge em \(\mathbb {R}\). Assim, para cada \(j\), existe \(a_j\in \mathbb {R}\) tal que

\[ x_{nj}\to a_j. \]

Definamos

\[ p=(a_1,\ldots ,a_k)\in \mathbb {R}^k. \]

Mostremos que \(p_n\to p\). Seja \(\varepsilon \gt 0\). Para cada \(j=1,\ldots ,k\), existe \(N_j\in \mathbb {N}\) tal que

\[ n\ge N_j \ \Rightarrow \ |x_{nj}-a_j|\lt \frac{\varepsilon }{\sqrt{k}}. \]

Se \(N=\max \{ N_1,\ldots ,N_k\} \), então, para \(n\ge N\),

\[ \| p_n-p\| = \left(\sum _{j=1}^k |x_{nj}-a_j|^2\right)^{1/2} \lt \left(\sum _{j=1}^k \frac{\varepsilon ^2}{k}\right)^{1/2} = \varepsilon . \]

Logo \(p_n\to p\). Portanto, toda sequência de Cauchy em \(\mathbb {R}^k\) converge em \(\mathbb {R}^k\), e assim \(\mathbb {R}^k\) é completo.

Corolário 6.53
Todo produto de intervalos fechados
\[ [a_1,b_1]\times \cdots \times [a_k,b_k]\subset \mathbb {R}^k, \]
com a métrica induzida de \(\mathbb {R}^k\), é completo.

Demonstração

Esse produto é fechado em \(\mathbb {R}^k\). Pelo Teorema 6.52, o espaço \(\mathbb {R}^k\) é completo. Logo o resultado segue do teorema seguinte.

Teorema 6.54
Todo subconjunto fechado de um espaço métrico completo é completo, quando munido da métrica induzida.

Demonstração

Seja \((X,\operatorname {d})\) um espaço métrico completo e seja \(A\subset X\) um subconjunto fechado. Considere uma sequência de Cauchy \(\{ p_n\} \) em \(A\).

Como a métrica em \(A\) é a induzida por \(X\), a sequência \(\{ p_n\} \) também é de Cauchy em \(X\). Pela completude de \(X\), existe \(p\in X\) tal que

\[ p_n\to p. \]

Como todos os termos da sequência pertencem a \(A\) e \(A\) é fechado, o Teorema 6.42 implica que \(p\in A\).

Portanto, \(\{ p_n\} \) converge em \(A\). Logo \(A\) é completo.

Exemplo 6.55
O intervalo fechado \([0,1]\), com a métrica usual, é completo. De fato, ele é fechado em \(\mathbb {R}\), e \(\mathbb {R}\) é completo. Em contraste, o intervalo aberto \((0,1)\) não é completo, como vimos no Exemplo 6.48.

6.6 Compacidade

A completude responde a uma pergunta sobre sequências de Cauchy: quando uma aproximação interna ao espaço possui um limite que permanece no próprio espaço? A compacidade expressa um controle global mais forte. Em um espaço compacto, toda sequência possui uma subsequência convergente e toda cobertura por abertos pode ser reduzida a uma quantidade finita de conjuntos.

Essas duas descrições — uma sequencial, outra por coberturas — são duas formas de uma mesma ideia de finitude topológica.

A noção de compacidade formaliza, em linguagem topológica, a ideia de que um conjunto pode ser controlado por uma quantidade finita de informação local.

Definição 6.56
Uma cobertura aberta de um conjunto \(E\) em um espaço métrico \(X\) é uma coleção \(\{ G_{\alpha }\} \) de subconjuntos abertos de \(X\) tal que
\[ E \subset \bigcup _{\alpha } G_{\alpha }. \]

Observação 6.57
Dizer que \(\{ G_\alpha \} \) é uma cobertura aberta de \(E\) significa simplesmente que cada ponto de \(E\) pertence a pelo menos um dos conjuntos \(G_\alpha \). Observamos que a família pode conter conjuntos que também tenham pontos fora de \(E\).

Exemplo 6.58 (Cobertura de um conjunto finito)

Considere o conjunto

\[ E=\{ 1,2,\ldots ,n\} \subset \mathbb {R}. \]

Para cada \(k\in E\), considere a bola aberta

\[ B_k=B(k,1/4). \]

Essas bolas são duas a duas disjuntas e formam uma cobertura aberta de \(E\), pois cada ponto \(k\in E\) pertence à bola \(B_k\).

Exemplo 6.59 (Uma cobertura aberta simples de um intervalo)
Considere o intervalo fechado \([0,1]\subset \mathbb {R}\). Então a família
\[ \left\{ \, \left(-\frac1n,\, 1+\frac1n\right):\ n\in \mathbb {N}\, \right\} \]
é uma cobertura aberta de \([0,1]\), pois cada um desses intervalos contém \([0,1]\). Nesse caso, qualquer um dos intervalos da família já constitui, sozinho, uma subcobertura finita.

Definição 6.60
Um subconjunto \(K\) de um espaço métrico \(X\) é dito compacto se toda cobertura aberta de \(K\) contém uma subcobertura finita.

Mais explicitamente, isso significa que, se \(\{ G_{\alpha }\} \) é uma cobertura aberta de \(K\), então existem finitamente muitos índices \(\alpha _{1}, \ldots , \alpha _{n}\) tais que

\[ K \subset G_{\alpha _{1}} \cup \cdots \cup G_{\alpha _{n}} . \]

Observação 6.61
A definição não afirma que toda cobertura aberta de \(K\) é finita, mas apenas que, mesmo quando a cobertura original é infinita, podemos extrair dela uma subfamília finita que ainda cubra \(K\).

Exemplo 6.62
Todo conjunto finito é compacto. De fato, se
\[ K=\{ x_1,\ldots ,x_n\} \]
e \(\{ G_\alpha \} \) é uma cobertura aberta de \(K\), então, para cada \(x_i\), escolhemos um conjunto \(G_{\alpha _i}\) que contenha \(x_i\). A família finita
\[ G_{\alpha _1},\ldots ,G_{\alpha _n} \]
já cobre \(K\).

Exemplo 6.63 (Cobertura do conjunto \(\mathbb {N}\) por bolas disjuntas)

Considere o conjunto

\[ E=\mathbb {N}=\{ 1,2,3,\ldots \} \subset \mathbb {R}. \]

Para cada \(n\in \mathbb {N}\), considere a bola aberta

\[ B_n=B(n,1/4). \]

As bolas \(B_n\) são duas a duas disjuntas e formam uma cobertura aberta de \(\mathbb {N}\).

No entanto, nenhuma subcoleção finita dessas bolas cobre \(\mathbb {N}\). De fato, uma subcoleção finita cobre apenas um número finito de pontos do conjunto.

Portanto, essa cobertura não admite subcobertura finita.

Figura 6.3 A cobertura de N pelas bolas B(n,1/4). Cada bola cobre apenas um ponto de N.

Figura 6.3 A cobertura de \(\mathbb {N}\) pelas bolas \(B(n,1/4)\). Cada bola cobre apenas um ponto de \(\mathbb {N}\).

Exemplo 6.64 (\(\mathbb {R}\) não é compacto)

Considere o espaço métrico \(\mathbb {R}\) com a métrica usual. Para mostrar que \(\mathbb {R}\) não é compacto, exibiremos uma cobertura aberta que não possui subcobertura finita.

Seja \(\mathcal{V} = \{ V_n\} _{n \in \mathbb {N}}\) a coleção de intervalos abertos definida por

\[ V_n = (-n, n). \]

Dado qualquer número real \(x\), pela Propriedade Arquimediana, existe um inteiro positivo \(n\) tal que \(n \gt |x|\). Isso implica que \(-n \lt x \lt n\), ou seja, \(x \in V_n\). Logo,

\[ \mathbb {R}= \bigcup _{n=1}^{\infty } V_n. \]

Portanto, \(\mathcal{V}\) é uma cobertura aberta de \(\mathbb {R}\).

Suponha, por absurdo, que exista uma subcoleção finita \(\{ V_{n_1}, V_{n_2}, \dots , V_{n_k}\} \) que cubra \(\mathbb {R}\). Seja

\[ N = \max \{ n_1, n_2, \dots , n_k\} . \]

Como os intervalos são encaixantes, temos

\[ V_{n_1} \cup V_{n_2} \cup \dots \cup V_{n_k} = V_N = (-N, N). \]

Mas o ponto \(x=N\) pertence a \(\mathbb {R}\) e não pertence a \((-N,N)\), o que contradiz o fato de que essa subcoleção cobre \(\mathbb {R}\). Concluímos que \(\mathbb {R}\) não é compacto.

Exemplo 6.65 (Intervalo aberto não é compacto)

Considere o conjunto limitado

\[ E = B(0,1) = \{ x \in \mathbb {R}: |x| \lt 1\} . \]

Mostraremos que \(E\) não é compacto exibindo uma cobertura aberta que não admite subcobertura finita.

Para cada \(p \in E\), definimos a vizinhança aberta

\[ G_p = B\left(p, \frac{1-|p|}{2}\right). \]

Note que o raio de \(G_p\) é exatamente metade da distância de \(p\) até a fronteira de \(E\). Como cada ponto \(p \in E\) pertence à bola \(G_p\), a coleção \(\{ G_p\} _{p\in E}\) cobre \(E\). Além disso, cada \(G_p\) está contida em \(E\), pois, se \(x \in G_p\), então

\[ |x| \le |x-p| + |p| \lt \frac{1-|p|}{2} + |p| = \frac{1+|p|}{2} \lt 1. \]

Suponha agora, por absurdo, que exista uma subcoleção finita de abertos \(\{ G_{p_1}, G_{p_2}, \dots , G_{p_k}\} \) que cubra \(E\). Para cada bola \(G_{p_i}\), o ponto mais à direita que pertence a essa bola é \(p_i + \frac{1-|p_i|}{2}\), e esse número é sempre estritamente menor que \(1\). Definimos

\[ \alpha = \max _{1 \le i \le k} \left( p_i + \frac{1-|p_i|}{2} \right). \]

Então \(\alpha \lt 1\). Escolhendo agora \(x\) de modo que

\[ \alpha \lt x \lt 1, \]

temos \(x\in E\), mas \(x\) não pertence a nenhuma das bolas escolhidas, contradizendo o fato de que essa subcoleção cobre \(E\). Portanto, o intervalo aberto \((-1,1)\) não é compacto.

Figura 6.4 Uma subcoleção finita dos conjuntos G_p nunca alcança pontos arbitrariamente próximos de 1.

Figura 6.4 Uma subcoleção finita dos conjuntos \(G_p\) nunca alcança pontos arbitrariamente próximos de \(1\).

A existência de uma classe ampla de conjuntos compactos infinitos em \(\mathbb {R}^{k}\) seguirá do Teorema 6.80.

Teorema 6.66
Suponha \(K \subset Y \subset X\). Então \(K\) é compacto relativamente a \(X\) se e somente se \(K\) é compacto relativamente a \(Y\).

Demonstração

Suponha primeiro que \(K\) seja compacto relativamente a \(X\), e seja \(\{ V_{\alpha }\} \) uma coleção de conjuntos abertos relativamente a \(Y\) tal que

\[ K \subset \bigcup _{\alpha } V_{\alpha }. \]

Pelo Teorema 6.38, para cada \(\alpha \) existe um aberto \(G_{\alpha }\) de \(X\) tal que

\[ V_{\alpha }=Y \cap G_{\alpha }. \]

Como \(K\subset Y\), os conjuntos \(G_\alpha \) também cobrem \(K\). Pela compacidade de \(K\) em \(X\), existem índices \(\alpha _1,\ldots ,\alpha _n\) tais que

\[ K \subset G_{\alpha _{1}} \cup \cdots \cup G_{\alpha _{n}}. \]

Intersectando ambos os lados com \(Y\) e usando que \(K\subset Y\), obtemos

\[ K \subset V_{\alpha _{1}} \cup \cdots \cup V_{\alpha _{n}}. \]

Logo \(K\) é compacto relativamente a \(Y\).

Reciprocamente, suponha que \(K\) seja compacto relativamente a \(Y\), e seja \(\{ G_{\alpha }\} \) uma cobertura aberta de \(K\) por abertos de \(X\). Defina

\[ V_{\alpha }=Y\cap G_{\alpha }. \]

Cada \(V_{\alpha }\) é aberto relativamente a \(Y\), e os conjuntos \(V_\alpha \) cobrem \(K\). Pela compacidade de \(K\) em \(Y\), existem índices \(\alpha _1,\ldots ,\alpha _n\) tais que

\[ K \subset V_{\alpha _{1}} \cup \cdots \cup V_{\alpha _{n}}. \]

Como \(V_{\alpha }\subset G_{\alpha }\) para todo \(\alpha \), segue que

\[ K \subset G_{\alpha _{1}} \cup \cdots \cup G_{\alpha _{n}}. \]

Portanto, \(K\) é compacto relativamente a \(X\).

Teorema 6.67
Subconjuntos compactos de espaços métricos são fechados.

Demonstração

Seja \(K\) um subconjunto compacto de um espaço métrico \(X\). Mostraremos que o complementar de \(K\) é aberto.

Fixe um ponto \(p \in X\setminus K\). Para cada \(q \in K\), escolhemos vizinhanças \(V_q\) de \(p\) e \(W_q\) de \(q\), ambas com raio menor que \(\frac12 \operatorname {d}(p,q)\). Com essa escolha, \( V_q\cap W_q=\varnothing . \) De fato, se existisse um ponto \(x\in V_q\cap W_q\), então, pela desigualdade triangular,

\[ \operatorname {d}(p,q)\le \operatorname {d}(p,x)+\operatorname {d}(x,q)\lt \frac12 \operatorname {d}(p,q)+\frac12 \operatorname {d}(p,q)=\operatorname {d}(p,q), \]

o que é impossível.

Os conjuntos \(W_q\), com \(q\in K\), formam uma cobertura aberta de \(K\). Como \(K\) é compacto, existem pontos \(q_1,\ldots ,q_n\in K\) tais que \( K\subset W_{q_1}\cup \cdots \cup W_{q_n}. \) Agora definimos \( V=V_{q_1}\cap \cdots \cap V_{q_n}. \) Então \(V\) é uma vizinhança de \(p\). Além disso, como cada \(V_{q_i}\) é disjunta de \(W_{q_i}\), segue que \(V\) é disjunta de \( W=W_{q_1}\cup \cdots \cup W_{q_n}, \) e, em particular, de \(K\). Portanto, \( V\subset X\setminus K. \) Isso mostra que \(p\) é ponto interior de \(X\setminus K\). Como \(p\) foi arbitrário, concluímos que \(X\setminus K\) é aberto. Logo \(K\) é fechado.

Teorema 6.68
Subconjuntos compactos de espaços métricos são limitados.

Demonstração

Seja \(K\) um subconjunto compacto de um espaço métrico \((X,\operatorname {d})\) e fixe um ponto \(p\in X\). Para cada \(n\in \mathbb {N}\), considere a bola aberta

\[ B(p,n)=\{ x\in X:\ \operatorname {d}(x,p)\lt n\} . \]

A família \(\{ B(p,n)\} _{n\in \mathbb {N}}\) é uma cobertura aberta de \(K\), pois, para cada \(x\in K\), existe \(n\gt \operatorname {d}(x,p)\) e então \(x\in B(p,n)\).

Pela compacidade, existe uma subcobertura finita

\[ K\subset B(p,n_1)\cup \cdots \cup B(p,n_m). \]

Se \(N=\max \{ n_1,\ldots ,n_m\} \), então

\[ K\subset B(p,N). \]

Logo \(K\) é limitado.

Teorema 6.69
Subconjuntos fechados de conjuntos compactos são compactos.

Demonstração

Suponha \(F \subset K \subset X\), com \(F\) fechado em \(X\) e \(K\) compacto. Seja \(\{ V_{\alpha }\} \) uma cobertura aberta de \(F\). Como \(F\) é fechado, seu complementar \(F^{c}\) é aberto. Acrescentando \(F^{c}\) à família \(\{ V_\alpha \} \), obtemos uma cobertura aberta de \(K\).

Como \(K\) é compacto, essa cobertura admite uma subcobertura finita. Se \(F^{c}\) estiver entre os conjuntos escolhidos, podemos removê-lo sem afetar a cobertura de \(F\), já que \(F^{c}\) não contém pontos de \(F\). Resta, assim, uma subcoleção finita da família original \(\{ V_\alpha \} \) que cobre \(F\). Portanto, \(F\) é compacto.

Corolário 6.70
Se \(F\) é fechado e \(K\) é compacto, então \(F \cap K\) é compacto.

Teorema 6.71
Se \(\{ K_{\alpha }\} \) é uma coleção de subconjuntos compactos de um espaço métrico \(X\) tal que a interseção de toda subcoleção finita de \(\{ K_{\alpha }\} \) é não vazia, então \(\bigcap K_{\alpha }\) é não vazia.

Demonstração

Fixe um membro \(K_{1}\) da coleção e ponha \(G_{\alpha }=K_{\alpha }^{c}\). Suponha, por absurdo, que nenhum ponto de \(K_1\) pertença a todos os conjuntos \(K_\alpha \). Então os conjuntos \(G_\alpha \) formam uma cobertura aberta de \(K_1\). Como \(K_1\) é compacto, existem índices \(\alpha _1,\ldots ,\alpha _n\) tais que

\[ K_1\subset G_{\alpha _1}\cup \cdots \cup G_{\alpha _n}. \]

Mas isso equivale a dizer que

\[ K_1\cap K_{\alpha _1}\cap \cdots \cap K_{\alpha _n}=\varnothing , \]

o que contradiz a hipótese de que toda interseção finita é não vazia. Logo

\[ \bigcap _\alpha K_\alpha \neq \varnothing . \]

Corolário 6.72
Se \(\{ K_{n}\} \) é uma sequência de conjuntos compactos não vazios tais que \(K_{n} \supset K_{n+1}\) para todo \(n=1,2,3,\ldots \), então \(\bigcap _{n=1}^{\infty } K_{n}\) é não vazio.

Teorema 6.73
Se \(E\) é um subconjunto infinito de um conjunto compacto \(K\), então \(E\) tem um ponto de acumulação em \(K\).

Demonstração

Suponha, por absurdo, que nenhum ponto de \(K\) seja ponto de acumulação de \(E\). Então, para cada \(q \in K\), existe uma vizinhança \(V_{q}\) que contém no máximo um ponto de \(E\), a saber, o próprio \(q\), no caso em que \(q\in E\).

A família \(\{ V_q\} _{q\in K}\) é uma cobertura aberta de \(K\). No entanto, nenhuma subcoleção finita dessa família pode cobrir o conjunto infinito \(E\), pois cada um de seus membros contém no máximo um ponto de \(E\). Como \(E\subset K\), isso mostra que nenhuma subcoleção finita pode cobrir \(K\), em contradição com a compacidade de \(K\).

Portanto, algum ponto de \(K\) é ponto de acumulação de \(E\).

Teorema 6.74
Seja \(X\) um espaço métrico compacto. Então toda sequência em \(X\) possui uma subsequência convergente para algum ponto de \(X\).

Demonstração

Considere o conjunto \(E=\{ x_n;\, n\in \mathbb {N}\} \subset X\). Se \(E\) é finito, então algum ponto \(x\in E\) aparece infinitas vezes na sequência. Nesse caso, basta tomar uma subsequência constante igual a \(x\), que evidentemente converge para \(x\).

Suponha agora que \(E\) seja infinito. Como \(X\) é compacto, todo subconjunto infinito de \(X\) possui um ponto de acumulação. Seja \(x\) um ponto de acumulação de \(E\). Para cada \(k\in \mathbb {N}\), o conjunto \(E\cap B(x,1/k)\) é infinito; em particular, podemos escolher \(n_1\lt n_2\lt \cdots \) de modo que \(x_{n_k}\in B(x,1/k)\) para todo \(k\). Assim, \(\operatorname {d}(x_{n_k},x)\lt 1/k\) para todo \(k\), e portanto \(x_{n_k}\to x\).

Teorema 6.75
Se \(\{ I_n\} \) é uma sequência de intervalos fechados, limitados e não vazios de \(\mathbb {R}\) tal que
\[ I_n \supset I_{n+1}\qquad (n=1,2,3,\ldots ), \]
então
\[ \bigcap _{n=1}^\infty I_n \neq \varnothing . \]

Demonstração

Escreva \(I_n=[a_n,b_n]\). Seja \(E=\{ a_n:\ n\in \mathbb {N}\} \). Como \(a_n\le b_1\) para todo \(n\), o conjunto \(E\) é não vazio e limitado superiormente. Seja \(x=\sup E\).

Da inclusão \(I_{m+n}\subset I_m\) segue que

\[ a_n\le a_{m+n}\le b_{m+n}\le b_m \qquad \text{para todos }m,n\in \mathbb {N}. \]

Em particular, \(x\le b_m\) para todo \(m\). Por outro lado, como \(a_m\in E\), temos \(a_m\le x\). Logo

\[ a_m\le x\le b_m \qquad \text{para todo }m\in \mathbb {N}. \]

Assim, \(x\in I_m\) para todo \(m\), e portanto \(x\in \bigcap _{n=1}^\infty I_n\).

Definição 6.76
Uma \(k\)-célula em \(\mathbb {R}^k\) é um conjunto da forma
\[ I=[a_1,b_1]\times \cdots \times [a_k,b_k] =\{ (x_1,\ldots ,x_k)\in \mathbb {R}^k:\ a_j\le x_j\le b_j,\ 1\le j\le k\} , \]
onde \(a_j\le b_j\) para todo \(j=1,\ldots ,k\).

Teorema 6.77
Seja \(k\) um inteiro positivo. Se \(\{ I_{n}\} \) é uma sequência de \(k\)-células tal que \(I_{n} \supset I_{n+1}\) para \(n=1,2,3,\ldots \), então \(\bigcap _{n=1}^{\infty } I_{n}\) é não vazio.

Demonstração

Escreva cada \(I_n\) como o conjunto dos pontos \(\mathbf{x}=(x_1,\ldots ,x_k)\) tais que

\[ a_{n, j} \leq x_{j} \leq b_{n, j} \quad (1 \leq j \leq k;\ n=1,2,3, \ldots ), \]

e ponha

\[ I_{n, j}=[a_{n, j}, b_{n, j}]. \]

Para cada \(j\), a sequência \(\{ I_{n,j}\} \) satisfaz as hipóteses do Teorema 6.75. Portanto, existe \(x_j^*\in \mathbb {R}\) tal que

\[ a_{n,j}\le x_j^*\le b_{n,j} \qquad (1\le j\le k;\ n=1,2,3,\ldots ). \]

Definindo

\[ \mathbf{x}^{*}=(x_1^{*}, \ldots , x_k^{*}), \]

vemos que \(\mathbf{x}^{*}\in I_n\) para todo \(n=1,2,3,\ldots \). Logo

\[ \mathbf{x}^{*}\in \bigcap _{n=1}^{\infty } I_n. \]

Observação 6.78
O resultado anterior generaliza para \(\mathbb {R}^k\) a propriedade de interseção de intervalos encaixantes na reta. Ele será o ingrediente central na prova da compacidade das \(k\)-células.

Teorema 6.79
Toda \(k\)-célula é compacta.

Demonstração

A ideia da prova é a seguinte: supondo que exista uma cobertura aberta sem subcobertura finita, subdividimos sucessivamente a \(k\)-célula em partes menores e escolhemos sempre uma subcélula que ainda não admita subcobertura finita. Isso produz uma sequência encaixante de células cada vez menores. O ponto pertencente à interseção de todas elas levará a uma contradição.

Seja \(I\) uma \(k\)-célula, formada pelos pontos \(\mathbf{x}=(x_{1}, \ldots , x_{k})\) tais que

\[ a_{j} \leq x_{j} \leq b_{j}\qquad (1 \leq j \leq k). \]

Ponha

\[ \delta =\bigl\| \, \mathbf{b}-\mathbf{a}\, \bigr\| =\left(\sum _{j=1}^{k}(b_j-a_j)^2\right)^{1/2}. \]

Então, para quaisquer \(\mathbf{x},\mathbf{y}\in I\), temos \(|\mathbf{x}-\mathbf{y}| \leq \delta \).

Suponha, por absurdo, que exista uma cobertura aberta \(\{ G_{\alpha }\} \) de \(I\) que não admita subcobertura finita. Dividimos cada intervalo \([a_j,b_j]\) ao meio, no ponto

\[ c_{j}=\frac{a_{j}+b_{j}}{2}. \]

Isso decompõe \(I\) em \(2^k\) subcélulas. Pelo menos uma dessas subcélulas, que chamaremos de \(I_1\), não pode ser coberta por nenhuma subcoleção finita de \(\{ G_\alpha \} \); caso contrário, reunindo subcoberturas finitas para cada uma das subcélulas, obteríamos uma subcobertura finita de \(I\).

Repetindo o mesmo processo com \(I_1\), depois com a subcélula escolhida no passo seguinte, e assim sucessivamente, construímos por indução uma sequência de \(k\)-células

\[ I \supset I_{1} \supset I_{2} \supset I_{3} \supset \cdots \]

com as propriedades:

  1. \(I \supset I_{1} \supset I_{2} \supset I_{3} \supset \cdots \);

  2. cada \(I_n\) não é coberta por nenhuma subcoleção finita de \(\{ G_\alpha \} \);

  3. se \(\mathbf{x},\mathbf{y}\in I_n\), então \(|\mathbf{x}-\mathbf{y}| \leq 2^{-n}\delta \).

Pelo teorema das interseções encaixantes de \(k\)-células, existe um ponto

\[ \mathbf{x}^{*}\in \bigcap _{n=1}^{\infty } I_n. \]

Como \(\{ G_\alpha \} \) cobre \(I\), existe algum índice \(\alpha \) tal que \(\mathbf{x}^{*}\in G_\alpha \). Como \(G_\alpha \) é aberto, existe \(r\gt 0\) tal que

\[ |\mathbf{y}-\mathbf{x}^{*}|\lt r \ \Rightarrow \ \mathbf{y}\in G_\alpha . \]

Escolha agora \(n\) suficientemente grande para que

\[ 2^{-n}\delta \lt r. \]

Então, pela propriedade (c), todo ponto de \(I_n\) está a distância menor que \(r\) de \(\mathbf{x}^{*}\), e portanto pertence a \(G_\alpha \). Assim,

\[ I_n\subset G_\alpha . \]

Isso contradiz a propriedade (b), segundo a qual \(I_n\) não é coberta por nenhuma subcoleção finita de \(\{ G_\alpha \} \).

A contradição mostra que toda cobertura aberta de \(I\) admite uma subcobertura finita. Portanto, \(I\) é compacto.

Teorema 6.80 (Heine–Borel)
Um subconjunto de \(\mathbb {R}^k\) é compacto se, e somente se, é fechado e limitado.

Demonstração

Seja \(E\subset \mathbb {R}^k\).

Suponha primeiro que \(E\) seja compacto. Pelo Teorema 6.67, \(E\) é fechado, e pelo Teorema 6.68, \(E\) é limitado.

Reciprocamente, suponha que \(E\) seja fechado e limitado. Como \(E\) é limitado, existe uma \(k\)-célula \(I\) tal que \(E\subset I\). Pelo Teorema 6.79, \(I\) é compacto. Como \(E\) é fechado em \(\mathbb {R}^k\), em particular é fechado relativamente a \(I\). Pelo Teorema 6.69, concluímos que \(E\) é compacto.

Observação 6.81
Completude e compacidade respondem a perguntas diferentes. A reta \(\mathbb {R}\) é completa, mas não é compacta; o intervalo fechado \([0,1]\) é completo e compacto; já \((0,1)\) não possui nenhuma dessas propriedades. Em \(\mathbb {R}^k\), o Teorema de Heine–Borel torna a compacidade particularmente concreta: ela equivale a ser fechado e limitado. Completude, por si só, não impõe qualquer condição de limitação.

6.7 Conjuntos perfeitos e o conjunto de Cantor

A compacidade fornece um mecanismo poderoso: famílias encaixantes de compactos não vazios não podem desaparecer no limite. Vamos usá-lo agora para estudar conjuntos sem pontos isolados. A combinação entre ser fechado e não possuir pontos isolados é muito mais rígida do que parece e força, em \(\mathbb {R}^k\), a não enumerabilidade.

Assim, a não enumerabilidade reaparece aqui por uma razão completamente diferente da diagonalização de Cantor: ela será consequência de estrutura topológica.

Recordemos que um conjunto \(E\) é dito perfeito se \(E\) é fechado e todo ponto de \(E\) é ponto de acumulação de \(E\). Em outras palavras, um conjunto perfeito é um conjunto fechado que não possui pontos isolados.

Exemplo 6.82
O conjunto \(\mathbb {R}\) é perfeito.

Exemplo 6.83
O conjunto \(\mathbb {Q}\) não é perfeito como subconjunto de \(\mathbb {R}\). Embora todo racional seja ponto de acumulação de \(\mathbb {Q}\), o conjunto \(\mathbb {Q}\) não é fechado em \(\mathbb {R}\), pois possui números irracionais como pontos de acumulação.

Exemplo 6.84
Nenhum conjunto finito é perfeito. De fato, conjuntos finitos são fechados, mas nenhum de seus pontos é ponto de acumulação.

Observação 6.85
A definição de conjunto perfeito combina duas exigências diferentes: uma condição global, que é ser fechado, e uma condição local, que é não ter pontos isolados.

Teorema 6.86
Seja \(P\) um conjunto perfeito não vazio em \(\mathbb {R}^{k}\). Então \(P\) é não enumerável.

Demonstração

Como \(P\) é perfeito, ele é infinito. Suponha, por contradição, que

\[ P=\{ \mathbf{x}_1,\mathbf{x}_2,\dots \} . \]

Construiremos bolas abertas \(V_n=B(\mathbf{c}_n,r_n)\) tais que, para todo \(n\),

  1. \(\overline{V}_{n+1}\subset V_n\);

  2. \(\mathbf{x}_n\notin \overline{V}_{n+1}\);

  3. \(V_n\cap P\neq \varnothing \).

Comecemos tomando \(V_1=B(\mathbf{x}_1,1)\). Suponha construído \(V_n\). Como \(V_n\cap P\neq \varnothing \) e \(P\) não possui pontos isolados, podemos escolher

\[ \mathbf{z}\in (V_n\cap P)\setminus \{ \mathbf{x}_n\} . \]

Como \(V_n\) é aberto, existe \(\rho \gt 0\) tal que

\[ \overline{B}(\mathbf{z},\rho )\subset V_n. \]

Defina

\[ r_{n+1}:=\min \{ \rho ,\| \mathbf{z}-\mathbf{x}_n\| /2\} , \qquad V_{n+1}:=B(\mathbf{z},r_{n+1}). \]

Com essa escolha, as condições (i), (ii) e (iii) ficam satisfeitas.

Agora definimos

\[ K_n:=\overline{V}_n\cap P. \]

Como \(P\) é fechado e \(\overline{V}_n\) é compacto, cada \(K_n\) é compacto. Além disso, cada \(K_n\) é não vazio pela condição (iii), e da condição (i) segue que

\[ K_{n+1}\subset K_n. \]

Pelo corolário do Teorema 6.71, existe

\[ \mathbf{x}\in \bigcap _{n\ge 1}K_n\subset P. \]

Como \(P=\{ \mathbf{x}_1,\mathbf{x}_2,\ldots \} \), temos \(\mathbf{x}=\mathbf{x}_m\) para algum \(m\).

Por outro lado, como \(\mathbf{x}\in K_{m+1}\), segue que

\[ \mathbf{x}\in \overline{V}_{m+1}, \]

o que contradiz a condição (ii), segundo a qual \(\mathbf{x}_m\notin \overline{V}_{m+1}\). Essa contradição mostra que \(P\) não pode ser enumerável. Portanto, \(P\) é não enumerável.

Figura 6.5 Ilustração, na reta, da construção usada na prova de que um conjunto perfeito não vazio é não enumerável.

Figura 6.5 Ilustração, na reta, da construção usada na prova de que um conjunto perfeito não vazio é não enumerável.

Corolário 6.87
Todo intervalo \([a, b]\) com \(a\lt b\) é não enumerável. Em particular, o conjunto de todos os números reais é não enumerável.

Demonstração

O intervalo \([a,b]\) é fechado em \(\mathbb {R}\) e todo ponto de \([a,b]\) é ponto de acumulação de \([a,b]\). Logo \([a,b]\) é perfeito. Pelo teorema anterior, segue que \([a,b]\) é não enumerável. Em particular, como \(\mathbb {R}\) contém intervalos fechados não degenerados, conclui-se que \(\mathbb {R}\) é não enumerável.

Exemplo 6.88 (O conjunto de Cantor)

O conjunto que vamos construir agora mostra que existem conjuntos perfeitos em \(\mathbb {R}\) que não contêm nenhum intervalo.

Seja \(E_{0}\) o intervalo \([0,1]\). Remova o intervalo aberto \(\left(\frac{1}{3}, \frac{2}{3}\right)\), e seja \(E_{1}\) a união dos intervalos

\[ \left[0, \frac{1}{3}\right]\cup \left[\frac{2}{3}, 1\right]. \]

Remova agora os terços médios desses dois intervalos, e seja \(E_{2}\) a união dos intervalos

\[ \left[0, \frac{1}{9}\right],\left[\frac{2}{9}, \frac{3}{9}\right],\left[\frac{6}{9}, \frac{7}{9}\right],\left[\frac{8}{9}, 1\right]. \]

Prosseguindo desse modo, obtemos uma sequência de conjuntos compactos \(E_{n}\) tais que

  1. \(E_{1} \supset E_{2} \supset E_{3} \supset \cdots \);

  2. \(E_{n}\) é a união de \(2^{n}\) intervalos, cada um deles de comprimento \(3^{-n}\).

O conjunto

\[ P=\bigcap _{n=1}^{\infty } E_{n} \]

é denominado conjunto de Cantor. Como cada \(E_n\) é compacto e a família é encaixante, o Teorema 6.71 mostra que \(P\) não é vazio. Além disso, \(P\) é compacto, por ser interseção de fechados contidos no compacto \(E_1\).

Figura 6.6 Primeiras etapas da construção do conjunto de Cantor.

Figura 6.6 Primeiras etapas da construção do conjunto de Cantor.

Os intervalos removidos ao longo da construção são intervalos abertos cujos extremos têm a forma

\begin{equation} \label{eq:segmento_cantor} \left(\frac{3 k+1}{3^{m}}, \frac{3 k+2}{3^{m}}\right), \tag{6.2} \end{equation}

para inteiros \(m\ge 1\) e valores adequados de \(k\). Nenhum desses intervalos tem ponto em comum com \(P\).

Além disso, \(P\) não contém nenhum intervalo. De fato, se \((\alpha ,\beta )\subset P\), escolhendo \(m\) suficientemente grande para que \(3^{-m}\lt \beta -\alpha \), teríamos \((\alpha ,\beta )\subset E_m\). Mas \(E_m\) é a união de \(2^m\) intervalos fechados disjuntos, cada um de comprimento \(3^{-m}\), separados por lacunas abertas. Um intervalo aberto de comprimento maior que \(3^{-m}\) não pode estar contido em \(E_m\). Essa contradição mostra que \(P\) não contém intervalos.

Proposição 6.89
O conjunto de Cantor é perfeito.

Demonstração

Como o conjunto de Cantor \(P\) é a interseção de uma família decrescente de conjuntos fechados,

\[ P=\bigcap _{n=1}^\infty E_n, \]

segue que \(P\) é fechado. Resta mostrar que \(P\) não tem pontos isolados.

Fixe \(x\in P\) e seja \(S\) um intervalo aberto que contém \(x\). Como \(S\) é aberto, existe \(\eta \gt 0\) tal que

\[ (x-\eta ,x+\eta )\subset S. \]

Escolha \(n\) suficientemente grande para que

\[ 3^{-n}\lt \eta . \]

Então cada intervalo componente de \(E_n\) tem comprimento menor que \(\eta \). Seja \(I_n\) o único intervalo componente de \(E_n\) que contém \(x\). Pela escolha de \(n\), temos

\[ I_n\subset (x-\eta ,x+\eta )\subset S. \]

Sejam \(a_n\lt b_n\) as extremidades de \(I_n\). Como \(x\in I_n\), pelo menos uma dessas extremidades é diferente de \(x\). Escolha

\[ x_n\in \{ a_n,b_n\} \qquad \text{com}\qquad x_n\neq x. \]

Pela construção do conjunto de Cantor, as extremidades dos intervalos que permanecem em cada etapa nunca são removidas. Em particular, as extremidades de todo intervalo componente de \(E_n\) pertencem a \(P\). Logo \(x_n\in P\).

Assim,

\[ x_n\in P\cap (S\setminus \{ x\} ). \]

Como \(S\) foi um intervalo aberto arbitrário contendo \(x\), concluímos que toda vizinhança de \(x\) contém um ponto de \(P\) distinto de \(x\). Portanto, \(x\) é ponto de acumulação de \(P\).

Como \(x\in P\) foi arbitrário, todo ponto de \(P\) é ponto de acumulação de \(P\). Como já vimos que \(P\) é fechado, segue que \(P\) é perfeito.

O interesse do conjunto de Cantor neste ponto é inteiramente topológico: ele é perfeito e não enumerável, mas não contém intervalo algum. É um exemplo fundamental de como um conjunto pode ser extremamente rico em pontos sem se parecer localmente com um intervalo.

6.8 Conexidade

Depois de estudar propriedades ligadas à aproximação, completude e compacidade, mudamos de pergunta. Agora queremos formalizar quando um espaço é, em sentido topológico, “feito de uma só peça”. Essa é a função da conexidade.

A noção de conexidade procura capturar matematicamente a ideia de que um conjunto é “feito de uma só peça”. Em geral, essa noção é definida em termos da impossibilidade de decompor o conjunto em duas partes disjuntas e suficientemente separadas entre si.

Definição 6.90
Dois subconjuntos \(A\) e \(B\) de um espaço métrico \(X\) são ditos separados se ambos \(A \cap \bar{B}\) e \(\bar{A} \cap B\) são vazios; isto é, se nenhum ponto de \(A\) pertence ao fecho de \(B\) e nenhum ponto de \(B\) pertence ao fecho de \(A\). Um conjunto \(E \subset X\) é dito conexo se \(E\) não é a união de dois conjuntos separados não vazios.

Observação 6.91
Conjuntos separados são necessariamente disjuntos, mas conjuntos disjuntos não precisam ser separados. Por exemplo, os intervalos \((0,1)\) e \((1,2)\) são separados, enquanto \([0,1]\) e \((1,2)\) são disjuntos mas não são separados, pois o ponto \(1\) pertence ao fecho de \((1,2)\).

Exemplo 6.92
O intervalo \((0,1)\subset \mathbb {R}\) é conexo. Intuitivamente, isso ocorre porque, dados dois pontos do intervalo, todos os pontos entre eles também pertencem ao intervalo.

Exemplo 6.93
O conjunto
\[ (0,1)\cup (2,3) \]
não é conexo, pois ele se decompõe naturalmente em duas partes abertas disjuntas e separadas.

Figura 6.7 Na reta, um conjunto conexo não pode “pular” pontos entre dois de seus elementos.

Figura 6.7 Na reta, um conjunto conexo não pode “pular” pontos entre dois de seus elementos.

Teorema 6.94

Um subconjunto \(E\) da reta real \(\mathbb {R}\) é conexo se e somente se possui a seguinte propriedade: sempre que \(x,y\in E\) e \(x\lt z\lt y\), então \(z\in E\). Ou seja, os subconjuntos conexos de \(\mathbb {R}\) são exatamente os intervalos.

Demonstração

Suponha primeiro que existam \(x,y \in E\) e algum \(z \in (x,y)\) tal que \(z \notin E\). Definimos

\[ A_z := E \cap (-\infty , z) \qquad \text{e}\qquad B_z := E \cap (z, \infty ). \]

Como \(x \in A_z\) e \(y \in B_z\), ambos os conjuntos são não vazios. Além disso, as inclusões

\[ \overline{A_z} \subset (-\infty , z] \qquad \text{e}\qquad \overline{B_z} \subset [z, \infty ) \]

implicam

\[ \overline{A_z} \cap B_z = \varnothing \qquad \text{e}\qquad A_z \cap \overline{B_z} = \varnothing . \]

Logo \(A_z\) e \(B_z\) são separados. Como

\[ E=A_z\cup B_z, \]

isso mostra que \(E\) não é conexo.

Reciprocamente, suponha que \(E\) não seja conexo. Então

\[ E = A \cup B, \]

onde \(A\) e \(B\) são separados e não vazios. Escolha \(x \in A\) e \(y \in B\) e suponha, sem perda de generalidade, que \(x \lt y\). Considere

\[ z = \sup (A \cap [x, y]). \]

Como \(x \in A \cap [x,y]\), esse conjunto é não vazio, e o supremo está bem definido. Além disso,

\[ z\in \overline{A\cap [x,y]}\subset \overline{A}. \]

Como \(\overline{A}\cap B=\varnothing \), segue que \(z\notin B\). Em particular, \(z\neq y\), pois \(y\in B\). Logo

\[ z\lt y. \]

Se \(z \notin A\), então \(z \notin A \cup B = E\). Como \(x \in A\), temos \(x\neq z\), e portanto

\[ x\lt z\lt y. \]

Assim, encontramos um ponto de \((x,y)\) que não pertence a \(E\).

Suponha agora que \(z \in A\). Como \(A \cap \overline{B} = \varnothing \), segue que \(z \notin \overline{B}\). Portanto, existe \(\eta \gt 0\) tal que

\[ (z, z + \eta ) \cap B = \varnothing . \]

Escolha então um ponto

\[ t \quad \text{com}\quad z \lt t \lt \min \{ y, z + \eta \} . \]

Pelo fato de \(t\gt z=\sup (A\cap [x,y])\), concluímos que \(t\notin A\). Pela escolha de \(t\), também temos \(t\notin B\). Assim,

\[ t\notin E. \]

Além disso,

\[ x\lt z\lt t\lt y, \]

de modo que \(t\in (x,y)\).

Em qualquer caso, encontramos um ponto entre \(x\) e \(y\) que não pertence a \(E\). Isso prova a recíproca.

Corolário 6.95
Os subconjuntos conexos de \(\mathbb {R}\) são exatamente os intervalos.

Demonstração

Pelo teorema anterior, um subconjunto \(E\subset \mathbb {R}\) é conexo se e somente se, sempre que contém dois pontos \(x\lt y\), contém também todo ponto \(z\) entre eles. Mas essa é precisamente a propriedade característica dos intervalos.

Exemplo 6.96
O conjunto
\[ \mathbb {Q}\subset \mathbb {R} \]
não é conexo. De fato, se \(x\lt y\) são racionais, então existe um irracional \(z\) tal que \(x\lt z\lt y\), e portanto \(\mathbb {Q}\) não satisfaz a caracterização de conexidade na reta.

Teorema 6.97
O fecho de um conjunto conexo é conexo.

Demonstração

Seja \(E\) conexo e suponha, por absurdo, que

\[ \bar E=A\cup B, \]

onde \(A\) e \(B\) são separados e não vazios. Como \(E\subset \bar E\),

\[ E=(E\cap A)\cup (E\cap B). \]

Essas duas partes são separadas em \(E\); pela conexidade, uma delas deve ser vazia. Suponha \(E\cap B=\varnothing \). Então \(E\subset A\), logo

\[ \bar E\subset \bar A. \]

Mas \(A\) e \(B\) são separados, de modo que \(\bar A\cap B=\varnothing \), contradizendo \(B\subset \bar E\) e \(B\ne \varnothing \). Portanto \(\bar E\) é conexo.

A conexidade encerra o capítulo no nível puramente métrico e topológico. Uma noção mais forte — ligar dois pontos por uma curva contínua — depende explicitamente da teoria de aplicações contínuas e será retomada ao final do capítulo seguinte.

6.9 Exercícios

1. Métricas e exemplos

Exercício 6.2

Seja \(X\) um conjunto infinito. Para \(p,q\in X\), defina

\[ d(p,q)= \begin{cases} 1, & \text{se }p\neq q, \\ 0, & \text{se }p=q. \end{cases} \]

Prove que \(d\) é uma métrica. Quais subconjuntos do espaço métrico resultante são abertos? Quais são fechados? Quais são compactos?

Exercício 6.3

Para \(x,y\in \mathbb {R}\), defina

\[ \begin{aligned} d_{1}(x, y) & =(x-y)^{2}, \\ d_{2}(x, y) & =\sqrt{|x-y|}, \\ d_{3}(x, y) & =|x^{2}-y^{2}|, \\ d_{4}(x, y) & =|x-2y|, \\ d_{5}(x, y) & =\frac{|x-y|}{1+|x-y|}. \end{aligned} \]

Determine, em cada caso, se se trata ou não de uma métrica.

Exercício 6.4

Em qualquer espaço métrico \((M,d)\), defina

\[ d'(x,y)=\frac{d(x,y)}{1+d(x,y)}. \]

Prove que \(d'\) também é uma métrica em \(M\).

Exercício 6.5

Considere, em \(\mathbb {R}^n\), as métricas

\[ d_{1}(\mathbf{x}, \mathbf{y})=\max _{1\le i\le n}|x_i-y_i|, \qquad d_{2}(\mathbf{x}, \mathbf{y})=\sum _{i=1}^n |x_i-y_i|. \]

Em cada um dos casos abaixo, descreva geometricamente a bola aberta \(B(\mathbf{a};r)\):

  1. em \((\mathbb {R}^2,d_1)\);

  2. em \((\mathbb {R}^2,d_2)\);

  3. em \((\mathbb {R}^3,d_1)\);

  4. em \((\mathbb {R}^3,d_2)\).

Exercício 6.6

Com as notações do exercício anterior, prove que, para todos \(\mathbf{x},\mathbf{y}\in \mathbb {R}^n\),

\[ d_{1}(\mathbf{x}, \mathbf{y}) \le \| \mathbf{x}-\mathbf{y}\| \le d_{2}(\mathbf{x}, \mathbf{y}), \]

e

\[ d_{2}(\mathbf{x}, \mathbf{y}) \le \sqrt{n}\, \| \mathbf{x}-\mathbf{y}\| \le n\, d_{1}(\mathbf{x}, \mathbf{y}). \]
Exercício 6.7

Sejam \((S_1,d_1)\) e \((S_2,d_2)\) espaços métricos. Defina, em \(S_1\times S_2\),

\[ \rho \bigl((x_1,x_2),(y_1,y_2)\bigr)=d_1(x_1,y_1)+d_2(x_2,y_2). \]

Prove que \(\rho \) é uma métrica em \(S_1\times S_2\). Construa outras métricas naturais em \(S_1\times S_2\).

2. Topologia dos espaços métricos

Exercício
Exercício 6.8

Prove que um intervalo aberto em \(\mathbb {R}\) é um conjunto aberto e que um intervalo fechado é um conjunto fechado.

Exercício 6.9

Determine todos os pontos de acumulação dos seguintes subconjuntos de \(\mathbb {R}\) e decida, em cada caso, se o conjunto é aberto, fechado, ambos ou nenhum dos dois:

  1. o conjunto dos inteiros;

  2. o intervalo \((a,b]\);

  3. o conjunto \(\{ 1/n:\ n=1,2,3,\ldots \} \);

  4. o conjunto dos números racionais;

  5. o conjunto dos números da forma \(2^{-n}+5^{-m}\), com \(m,n=1,2,\ldots \);

  6. o conjunto dos números da forma \((-1)^n+(1/m)\), com \(m,n=1,2,\ldots \);

  7. o conjunto dos números da forma \((1/n)+(1/m)\), com \(m,n=1,2,\ldots \);

  8. o conjunto dos números da forma

    \[ \frac{(-1)^n}{1+(1/n)}, \qquad n=1,2,\ldots . \]
Exercício 6.10

Repita o exercício anterior para os seguintes subconjuntos de \(\mathbb {R}^2\):

  1. \(\{ z\in \mathbb {C}:\ |z|\gt 1\} \);

  2. \(\{ z\in \mathbb {C}:\ |z|\ge 1\} \);

  3. o conjunto dos números complexos da forma \((1/n)+(i/m)\), com \(m,n=1,2,\ldots \);

  4. \(\{ (x,y)\in \mathbb {R}^2:\ x^2-y^2\lt 1\} \);

  5. \(\{ (x,y)\in \mathbb {R}^2:\ x\gt 0\} \);

  6. \(\{ (x,y)\in \mathbb {R}^2:\ x\ge 0\} \).

Exercício 6.11

Todo ponto de todo conjunto aberto \(E\subset \mathbb {R}^2\) é ponto de acumulação de \(E\)? Responda à mesma pergunta para conjuntos fechados em \(\mathbb {R}^2\).

Exercício 6.12

Construa um conjunto limitado de números reais com exatamente três pontos de acumulação.

Exercício 6.13

Seja \(E'\) o conjunto de todos os pontos de acumulação de um conjunto \(E\). Prove que \(E'\) é fechado. Prove que \(E\) e \(\bar E\) têm os mesmos pontos de acumulação. \(E\) e \(E'\) sempre têm os mesmos pontos de acumulação?

Exercício 6.14

Seja \(E^\circ \) o conjunto de todos os pontos interiores de um conjunto \(E\).

  1. Prove que \(E^\circ \) é sempre aberto.

  2. Prove que \(E\) é aberto se, e somente se, \(E^\circ =E\).

  3. Se \(G\subset E\) e \(G\) é aberto, prove que \(G\subset E^\circ \).

  4. Prove que o complementar de \(E^\circ \) é o fecho do complementar de \(E\).

  5. \(E\) e \(\bar E\) sempre têm os mesmos interiores?

  6. \(E\) e \(E^\circ \) sempre têm os mesmos fechos?

Exercício 6.15

Sejam \(A_1,A_2,A_3,\ldots \) subconjuntos de um espaço métrico.

  1. Se \(B_n=\bigcup _{i=1}^n A_i\), prove que

    \[ \overline{B_n}=\bigcup _{i=1}^n \bar A_i, \qquad n=1,2,3,\ldots . \]
  2. Se \(B=\bigcup _{i=1}^\infty A_i\), prove que

    \[ \bar B \supset \bigcup _{i=1}^\infty \bar A_i. \]

Mostre, por meio de um exemplo, que essa inclusão pode ser própria.

Exercício 6.16

Prove que todo conjunto aberto não vazio de \(\mathbb {R}\) contém números racionais e irracionais.

Exercício 6.17

Prove que os únicos subconjuntos de \(\mathbb {R}\) que são simultaneamente abertos e fechados são \(\varnothing \) e \(\mathbb {R}\). O mesmo vale em \(\mathbb {R}^2\)?

Exercício 6.18

Prove que todo subconjunto fechado de \(\mathbb {R}\) é a interseção de uma coleção enumerável de abertos.

Exercício 6.19

Prove que um subconjunto não vazio, limitado e fechado de \(\mathbb {R}\) é ou um intervalo fechado, ou pode ser obtido de um intervalo fechado pela remoção de uma coleção enumerável de intervalos abertos disjuntos cujas extremidades pertencem ao conjunto original.

Exercício 6.20

Prove que bolas abertas e intervalos abertos em \(\mathbb {R}^n\) são abertos.

Exercício 6.21

Prove que o interior de um conjunto em \(\mathbb {R}^n\) é aberto.

Exercício 6.22

Se \(S\subset \mathbb {R}^n\), prove que \(\operatorname {int}S\) é a união de todos os subconjuntos abertos de \(\mathbb {R}^n\) contidos em \(S\).

Exercício 6.23

Se \(S,T\subset \mathbb {R}^n\), prove que

\[ (\operatorname {int}S)\cap (\operatorname {int}T)=\operatorname {int}(S\cap T), \]

e

\[ (\operatorname {int}S)\cup (\operatorname {int}T)\subseteq \operatorname {int}(S\cup T). \]
Exercício 6.24

Seja \(S'\) o conjunto derivado e \(\bar S\) o fecho de \(S\) em \(\mathbb {R}^n\). Prove que:

  1. \(S'\) é fechado;

  2. se \(S\subseteq T\), então \(S'\subseteq T'\);

  3. \((S\cup T)'=S'\cup T'\);

  4. \((\bar S)'=S'\);

  5. \(\bar S\) é fechado;

  6. \(\bar S\) é a interseção de todos os fechados que contêm \(S\).

Exercício 6.25

Se \(S,T\subset \mathbb {R}^n\), prove que

\[ \overline{S\cap T}\subseteq \bar S\cap \bar T, \]

e que

\[ S\cap \bar T \subseteq \overline{S\cap T} \]

sempre que \(S\) for aberto.

Exercício 6.26

As afirmações dos exercícios anteriores sobre interior, conjunto derivado e fecho permanecem verdadeiras em qualquer espaço métrico? Justifique.

Exercício 6.27

Prove as seguintes identidades em um espaço métrico \(M\), para todo subconjunto \(A\subset M\):

\[ \operatorname {int}A=M-\overline{M-A}, \qquad \operatorname {int}(M-A)=M-\bar A, \qquad \operatorname {int}(\operatorname {int}A)=\operatorname {int}A. \]
Exercício 6.28

Se \(A_1,\ldots ,A_n\subset M\), prove que

\[ \operatorname {int}\left(\bigcap _{i=1}^n A_i\right)=\bigcap _{i=1}^n \operatorname {int}(A_i). \]

Se \(F\) é uma família infinita de subconjuntos de \(M\), prove que

\[ \operatorname {int}\left(\bigcap _{A\in F} A\right)\subseteq \bigcap _{A\in F}\operatorname {int}(A), \]

e dê um exemplo em que a inclusão seja própria.

Exercício 6.29

Prove que

\[ \bigcup _{A\in F}\operatorname {int}(A)\subseteq \operatorname {int}\left(\bigcup _{A\in F}A\right). \]

Dê um exemplo de uma família finita para a qual a inclusão seja própria.

Exercício 6.30

Se \(\partial A\) denota a fronteira de \(A\), prove que

\[ \partial A=\bar A\cap \overline{M-A} \qquad \text{e}\qquad \partial A=\partial (M-A). \]
Exercício 6.31

Prove que \(\operatorname {int}(\partial A)=\varnothing \) se \(A\) é aberto ou se \(A\) é fechado. Dê um exemplo em que \(\operatorname {int}(\partial A)=M\).

Exercício 6.32

Suponha que \(\operatorname {int}A=\operatorname {int}B=\varnothing \) e que \(A\) seja fechado em \(M\). Prove que \(\operatorname {int}(A\cup B)=\varnothing \). Dê um exemplo em que \(\operatorname {int}A=\operatorname {int}B=\varnothing \), mas \(\operatorname {int}(A\cup B)=M\).

3. Topologia relativa

Exercício
Exercício 6.33

Seja \(Y\subset X\) um subespaço métrico. Prove diretamente, a partir das definições, que um subconjunto \(E\subset Y\) é aberto relativamente a \(Y\) se, e somente se, \(E=Y\cap G\) para algum aberto \(G\subset X\).

Exercício 6.34

Descreva todos os subconjuntos abertos relativamente ao subespaço

\[ Y=\{ (x,0)\in \mathbb {R}^2:\ x\in \mathbb {R}\} . \]

Compare com os abertos de \(\mathbb {R}^2\).

Exercício 6.35

Dê um exemplo de um conjunto que seja fechado relativamente a um subespaço \(Y\), mas não seja fechado no espaço ambiente \(X\).

4. Conjuntos compactos

Exercício
Exercício 6.36

Dê um exemplo de uma cobertura aberta do intervalo \((0,1)\) que não admita subcobertura finita.

Exercício 6.37

A família dos intervalos abertos

\[ \left(\frac1n,\frac2n\right), \qquad n=2,3,\ldots , \]

é uma cobertura aberta de \((0,1)\). Prove, sem usar o Teorema de Heine–Borel, que nenhuma subfamília finita dessa coleção cobre \((0,1)\).

Exercício 6.38

Dê um exemplo de um conjunto fechado não limitado e exiba uma cobertura aberta enumerável que não admita subcobertura finita.

Exercício 6.39

Seja

\[ K=\{ 0\} \cup \left\{ \frac1n:\ n=1,2,3,\ldots \right\} \subset \mathbb {R}. \]

Prove diretamente da definição que \(K\) é compacto, sem usar o teorema de Heine–Borel.

Exercício 6.40

Construa um conjunto compacto de números reais cujos pontos de acumulação formem um conjunto enumerável.

Exercício 6.41

Mostre que o Teorema 6.71 e seu corolário tornam-se falsos, em \(\mathbb {R}\), se a palavra “compacto” for substituída por “fechado” ou por “limitado”.

Exercício 6.42

Considere \(\mathbb {Q}\) com a métrica usual. Seja \(E\) o conjunto de todos os racionais \(p\) tais que

\[ 2\lt p^2\lt 3. \]

Mostre que \(E\) é fechado e limitado em \(\mathbb {Q}\), mas não é compacto. Determine também se \(E\) é aberto em \(\mathbb {Q}\).

Exercício 6.43

Prove que, em um espaço métrico \((M,d)\), a bola fechada

\[ \bar B(a;r)=\{ x\in M:\ d(x,a)\le r\} \]

é um conjunto fechado.

Exercício 6.44

Dê um exemplo de um espaço métrico em que \(\bar B(a;r)\) não coincida com o fecho de \(B(a;r)\).

Exercício 6.45

Prove que todo subconjunto finito de um espaço métrico é fechado.

Exercício 6.46

Prove que, se \(S\subseteq T\subseteq M\), então \(S\) é compacto em \(M\) se, e somente se, é compacto no subespaço \(T\).

Exercício 6.47

Prove que, se \(S\) é fechado e \(T\) é compacto, então \(S\cap T\) é compacto.

Exercício 6.48

Prove que a interseção de uma coleção arbitrária de subconjuntos compactos de um espaço métrico é compacta.

Exercício 6.49

Prove que a união de um número finito de subconjuntos compactos de um espaço métrico é compacta.

5. Conjuntos perfeitos e pontos de condensação

Exercício
Exercício 6.50

Seja \(E\) o conjunto de todos os números em \([0,1]\) cuja expansão decimal contém apenas os dígitos \(4\) e \(7\). Determine se \(E\) é enumerável, denso em \([0,1]\), compacto e perfeito.

Exercício 6.51

Existe um conjunto perfeito não vazio de \(\mathbb {R}\) que não contenha nenhum número racional? Justifique.

Exercício 6.52

Defina um ponto \(p\) em um espaço métrico \(X\) como ponto de condensação de um conjunto \(E\subset X\) se toda vizinhança de \(p\) contém não enumeravelmente muitos pontos de \(E\).

Suponha \(E\subset \mathbb {R}^k\) não enumerável, e seja \(P\) o conjunto de todos os pontos de condensação de \(E\). Prove que \(P\) é perfeito e que \(P^c\cap E\) é no máximo enumerável.

Exercício 6.53

Prove que todo conjunto aberto em \(\mathbb {R}\) é a união de uma coleção no máximo enumerável de intervalos abertos disjuntos.

Exercício 6.54

Prove que toda coleção de abertos disjuntos em \(\mathbb {R}^n\) é no máximo enumerável. Dê um exemplo de uma coleção não enumerável de fechados disjuntos.

Exercício 6.55

Prove que, se \(S\subset \mathbb {R}^n\) é não enumerável, então existe um ponto \(\mathbf{x}\in S\) que é ponto de condensação de \(S\).

Exercício 6.56

Seja \(T\) o conjunto dos pontos de condensação de um conjunto não enumerável \(S\subset \mathbb {R}^n\). Prove que:

  1. \(S-T\) é enumerável;

  2. \(S\cap T\) é não enumerável;

  3. \(T\) é fechado;

  4. \(T\) não possui pontos isolados.

6. Conjuntos conexos

Exercício
Exercício 6.57

Se \(A\) e \(B\) são subconjuntos fechados disjuntos de um espaço métrico \(X\), prove que \(A\) e \(B\) são separados.

Exercício 6.58

Prove o mesmo resultado do exercício anterior quando \(A\) e \(B\) são abertos disjuntos.

Exercício 6.59

Fixe \(p\in X\) e \(\delta \gt 0\). Defina \(A\) como o conjunto de todos os \(q\in X\) tais que \(d(p,q)\lt \delta \), e \(B\) como o conjunto de todos os \(q\in X\) tais que \(d(p,q)\gt \delta \). Prove que \(A\) e \(B\) são separados.

Exercício 6.60

Prove que todo espaço métrico conexo com pelo menos dois pontos é não enumerável.

Exercício 6.61

Fechos e interiores de conjuntos conexos são sempre conexos? Analise a questão em \(\mathbb {R}^2\).

Exercício 6.62
Sejam \(A\) e \(B\) subconjuntos separados de \(\mathbb {R}^k\), com \(\mathbf a\in A\) e \(\mathbf b\in B\). Defina
\[ \mathbf p(t)=(1-t)\mathbf a+t\mathbf b, \qquad t\in \mathbb {R}. \]
Ponha
\[ A_0=\mathbf p^{-1}(A), \qquad B_0=\mathbf p^{-1}(B). \]
Prove que:
  1. \(A_0\) e \(B_0\) são separados em \(\mathbb {R}\);

  2. existe \(t_0\in (0,1)\) tal que \(\mathbf p(t_0)\notin A\cup B\);

  3. todo subconjunto convexo de \(\mathbb {R}^k\) é conexo.