Capítulo 9

Derivadas

Nos capítulos anteriores, limites descreviam o comportamento de uma função quando a variável se aproximava de um ponto. A derivada acrescenta uma pergunta mais precisa: com que velocidade a função varia nessa aproximação?

O quociente incremental compara a variação de \(f\) com a variação da própria variável. Quando esse quociente possui limite, o comportamento de primeira ordem da função deixa de ser apenas contínuo e passa a ser essencialmente linear. Essa é a ideia que organiza o capítulo.

Partiremos da derivada em um ponto e de sua interpretação como aproximação linear. Depois veremos como derivadas se combinam, o que dizem sobre extremos e como os teoremas do valor médio transformam informação local em conclusões globais. L’Hôpital, convexidade e a fórmula de Taylor aparecerão então como consequências e refinamentos dessa mesma estrutura.

9.1 Derivada e aproximação linear

A inclinação de uma secante mede uma taxa média de variação. Fazer o segundo ponto da secante aproximar-se do primeiro leva à taxa instantânea. Analiticamente, essa passagem é um limite; geometricamente, produz a reta tangente.

Definição 9.1
Sejam \(E\subset \mathbb {R}\), \(f:E\to \mathbb {R}\) e \(a\in E\). Suponha que \(a\) seja ponto de acumulação de \(E\). Dizemos que \(f\) é diferenciável no ponto \(a\) quando existe o limite
\[ f'(a)=\lim _{\substack {x\to a\\ x\in E,\ x\neq a}}\frac{f(x)-f(a)}{x-a}. \]
Quando esse limite existe, ele é chamado de derivada de \(f\) no ponto \(a\).

Observação 9.2
Com essa definição, se \(a\in \operatorname {int}(E)\), a derivada coincide com a noção usual. Se \(E\) é um intervalo e \(a\) é uma de suas extremidades, a derivada, no sentido relativo a \(E\), coincide com a derivada lateral pertinente.

A expressão \(\frac{f(x)-f(a)}{x-a}\) é o quociente incremental de \(f\) em torno de \(a\). Geometricamente, ela representa o coeficiente angular da reta secante ao gráfico de \(f\) que passa pelos pontos \((a,f(a))\) e \((x,f(x))\). Quando o limite acima existe, a reta que passa por \((a,f(a))\) e tem coeficiente angular \(f'(a)\) é chamada reta tangente ao gráfico de \(f\) nesse ponto. Em outras palavras, a derivada é o limite dos coeficientes angulares das secantes quando o segundo ponto se aproxima do primeiro.

Escrevendo \(h=x-a\), isto é, \(x=a+h\), a definição assume a forma equivalente

\[ f'(a)=\lim _{h\to 0}\frac{f(a+h)-f(a)}{h}. \]

Nesse caso, a função \(h\mapsto \frac{f(a+h)-f(a)}{h}\) fica definida no conjunto

\[ Y=\{ h\in \mathbb {R}\setminus \{ 0\} ;\ a+h\in E\} , \]

e \(0\) é ponto de acumulação de \(Y\).

Nesta seção, denotaremos por \(E'\) o conjunto dos pontos de acumulação de \(E\); analogamente, \(E_+'\) e \(E_-'\) denotam, respectivamente, os conjuntos dos pontos de acumulação à direita e à esquerda de \(E\).

Quando \(a\in E\cap E_+'\), isto é, quando \(a\) pertence a \(E\) e é ponto de acumulação à direita de \(E\), definimos a derivada à direita de \(f\) em \(a\) por

\[ f_+'(a)=\lim _{x\to a^+}\frac{f(x)-f(a)}{x-a} = \lim _{h\to 0^+}\frac{f(a+h)-f(a)}{h}, \]

se esse limite existir.

De modo análogo, se \(a\in E\cap E_-'\), definimos a derivada à esquerda de \(f\) em \(a\) por

\[ f_-'(a)=\lim _{x\to a^-}\frac{f(x)-f(a)}{x-a} = \lim _{h\to 0^-}\frac{f(a+h)-f(a)}{h}, \]

quando esse limite existir.

Assim, se \(a\) é ponto de acumulação de \(E\) à direita e à esquerda, por exemplo se \(a\in \operatorname {int}(E)\), então \(f'(a)\) existe se, e somente se, existem as duas derivadas laterais e elas coincidem.

Assim, em intervalos fechados, a noção adotada coincide com a derivada usual no interior e com a derivada lateral pertinente nas extremidades.

Uma caracterização útil, que seguiremos empregando várias vezes, é a sequencial: \(f\) é diferenciável em \(a\) se, e somente se, para toda sequência \((x_n)\) em \(E\setminus \{ a\} \) com \(x_n\to a\), vale

\[ \lim _{n\to \infty }\frac{f(x_n)-f(a)}{x_n-a}=f'(a). \]

Mais geralmente, se \(Y\subset \mathbb {R}\) e \(g:Y\to \mathbb {R}\) satisfaz \(g(Y)\subset E\), \(\lim _{y\to b}g(y)=a\), com \(b\in Y'\), e ainda \(g(y)\neq a\) para \(y\neq b\), então a existência de \(f'(a)\) implica

\[ \lim _{y\to b}\frac{f(g(y))-f(a)}{g(y)-a}=f'(a). \]

Trata-se apenas da estabilidade da definição de derivada por mudança de variável ou por passagem a sequências.

Da definição segue imediatamente que diferenciabilidade é uma hipótese mais forte do que continuidade.

Teorema 9.3
Sejam \(E\subset \mathbb {R}\), \(f:E\to \mathbb {R}\) e \(a\in E\) um ponto de acumulação de \(E\). Se \(f\) é diferenciável em \(a\), então \(f\) é contínua em \(a\).

Demonstração

Para \(x\neq a\), escrevemos

\[ f(x)-f(a)=\frac{f(x)-f(a)}{x-a}\, (x-a). \]

Quando \(x\to a\), o primeiro fator tende a \(f'(a)\) e o segundo tende a \(0\). Portanto, o produto tende a \(0\), isto é, \(f(x)\to f(a)\). Logo, \(f\) é contínua em \(a\).

Observação 9.4

A existência de apenas uma derivada lateral não garante continuidade no ponto. Por exemplo, a função

\[ f(x)= \begin{cases} 1, & x\ge 0, \\ -1, & x\lt 0, \end{cases} \]

satisfaz \(f_+'(0)=0\), mas não é contínua em \(0\).

O mesmo argumento do teorema mostra que, se \(f_+'(a)\) existe, então \(f\) é contínua à direita em \(a\), e, se \(f_-'(a)\) existe, então \(f\) é contínua à esquerda em \(a\).

Em particular, se ambas as derivadas laterais existem, então \(f\) é contínua no ponto, ainda que elas sejam diferentes, pois a existência de cada derivada lateral já implica a continuidade lateral correspondente.

Convém registrar outra formulação equivalente: uma função é diferenciável em um ponto precisamente quando sua variação, em relação a esse ponto, admite uma fatoração por \((x-a)\) com quociente contínuo.

Teorema 9.5
Sejam \(E\subset \mathbb {R}\), \(f:E\to \mathbb {R}\) e \(a\in E\) um ponto de acumulação de \(E\). Então \(f\) é diferenciável em \(a\) se, e somente se, existe uma função \(f^*:E\to \mathbb {R}\), contínua em \(a\), tal que
\[ f(x)-f(a)=(x-a)f^*(x) \qquad \text{para todo }x\in E. \]
Nesse caso, \(f^*(a)=f'(a)\).

Demonstração

Suponha primeiro que \(f\) seja diferenciável em \(a\) e defina

\[ f^*(x)= \begin{cases} \dfrac {f(x)-f(a)}{x-a}, & x\neq a, \\[1ex] f’(a), & x=a. \end{cases} \]

Então \(f(x)-f(a)=(x-a)f^*(x)\) para todo \(x\in E\), e a própria definição de derivada mostra que \(f^*\) é contínua em \(a\).

Reciprocamente, suponha que exista uma função \(f^*:E\to \mathbb {R}\), contínua em \(a\), tal que \(f(x)-f(a)=(x-a)f^*(x)\) para todo \(x\in E\). Para \(x\neq a\), segue que

\[ \frac{f(x)-f(a)}{x-a}=f^*(x). \]

Passando ao limite quando \(x\to a\), obtemos \(f'(a)=f^*(a)\). Portanto, \(f\) é diferenciável em \(a\).

A fatoração anterior contém uma formulação ainda mais reveladora. Se \(f\) é diferenciável em \(a\), então, para \(h\to 0\),

\[ f(a+h)=f(a)+f'(a)h+r(h), \qquad \frac{r(h)}{h}\longrightarrow 0. \]

Assim, a função afim

\[ h\longmapsto f(a)+f'(a)h \]

é a aproximação de primeira ordem de \(f(a+h)\). O erro é pequeno não apenas em valor absoluto: ele é de ordem estritamente menor que \(|h|\). É nesse sentido preciso que diferenciabilidade significa existência de uma aproximação linear.

Reciprocamente, uma decomposição dessa forma implica imediatamente a existência da derivada e identifica seu coeficiente linear com \(f'(a)\).

Os exemplos seguintes ilustram essa caracterização e fixam procedimentos de cálculo que reaparecerão ao longo do capítulo.

Exemplo 9.6

Seja \(n\ge 1\) um inteiro e considere \(f(x)=x^n\). Então \(f\) é diferenciável em todo ponto \(a\in \mathbb {R}\), com

\[ f'(a)=na^{n-1}. \]

De fato, para \(h\neq 0\), pelo binômio de Newton,

\[ \frac{(a+h)^n-a^n}{h} = \sum _{j=1}^{n}\binom {n}{j}a^{n-j}h^{j-1}. \]

Fazendo \(h\to 0\), todos os termos com \(j\ge 2\) tendem a \(0\), restando

\[ f'(a)=na^{n-1}. \]

Para \(n=0\), a função é constante e sua derivada é identicamente nula.

Exemplo 9.7

A função \(f(x)=|x|\) é contínua em toda a reta, mas não é diferenciável em \(0\). Com efeito,

\[ \frac{f(x)-f(0)}{x-0}=\frac{|x|}{x}, \]

que vale \(1\) para \(x\gt 0\) e \(-1\) para \(x\lt 0\). Assim,

\[ f_+'(0)=1 \qquad \text{e}\qquad f_-'(0)=-1. \]

Como as derivadas laterais são distintas, \(f'(0)\) não existe.

Nos demais pontos a função coincide localmente com uma função afim: \(f(x)=x\) em uma vizinhança de cada \(a\gt 0\), e \(f(x)=-x\) em uma vizinhança de cada \(a\lt 0\). Portanto,

\[ f'(a)= \begin{cases} 1, & a\gt 0,\\ -1, & a\lt 0. \end{cases} \]

Exemplo 9.8

Considere \(f:(0,+\infty )\to \mathbb {R}\), \(f(x)=\sqrt{x}\). Para \(a\gt 0\) e \(h\neq 0\), com \(a+h\gt 0\), temos

\[ \frac{\sqrt{a+h}-\sqrt a}{h} = \frac{1}{\sqrt{a+h}+\sqrt a}, \]

após racionalizar o numerador. Logo,

\[ f'(a)=\frac{1}{2\sqrt a}. \]

Se a mesma expressão for considerada como função em \([0,+\infty )\), o ponto \(0\) passa a exigir a derivada lateral à direita. Nesse caso, para \(h\gt 0\),

\[ \frac{f(h)-f(0)}{h} = \frac{1}{\sqrt h}, \]

que não possui limite real finito quando \(h\to 0^+\). Assim, \(\sqrt{x}\) não é diferenciável em \(0\), no sentido adotado neste capítulo.

Exemplo 9.9

Seja \(f:\mathbb {R}\to \mathbb {R}\) definida por

\[ f(x)=\inf \{ |x-n|:\ n\in \mathbb {Z}\} . \]

Assim, \(f(x)\) é a distância de \(x\) ao inteiro mais próximo. Em cada intervalo \([n,n+1]\), o gráfico é formado por dois segmentos de reta:

\[ f(x)=x-n \quad \text{em}\quad \left[n,n+\frac12\right], \]

e

\[ f(x)=n+1-x \quad \text{em}\quad \left[n+\frac12,n+1\right]. \]

Ilustração: Derivada e aproximação linear

Portanto, \(f\) é diferenciável nos intervalos abertos

\[ \left(n,n+\frac12\right) \quad \text{e}\quad \left(n+\frac12,n+1\right), \]

com derivada igual a \(1\) no primeiro caso e igual a \(-1\) no segundo.

Nos pontos \(n\) e \(n+\frac12\), as derivadas laterais existem, mas não coincidem. Em particular, \(f\) não é diferenciável nesses pontos. Esse exemplo mostra que a não diferenciabilidade pode ocorrer não por descontinuidade da função, mas pela presença de uma mudança brusca de inclinação.

Observação 9.10

Como a derivada é definida por um limite, ela é uma noção local. Se \(f:E\to \mathbb {R}\) é diferenciável em um ponto de acumulação \(a\in E\) e \(Y\subset E\) é tal que \(a\) também é ponto de acumulação de \(Y\), então a restrição \(g=f|_Y\) é diferenciável em \(a\), com \(g'(a)=f'(a)\).

Reciprocamente, se \(Y=I\cap E\), onde \(I\) é um intervalo aberto contendo \(a\), então a existência de \(g'(a)\) implica a de \(f'(a)\), pois, em uma vizinhança de \(a\), as duas funções coincidem.

Diremos que \(f:E\to \mathbb {R}\) é diferenciável em \(E\) quando \(f'(a)\) existe em todo ponto \(a\in E\) que seja ponto de acumulação de \(E\).

Teorema 9.11 (Caracterização da derivada por aproximação linear)
Sejam \(E\subset \mathbb {R}\), \(f:E\to \mathbb {R}\) e \(a\in E\) um ponto de acumulação de \(E\). Então são equivalentes:
  1. \(f\) é diferenciável em \(a\);

  2. existe uma constante \(L\in \mathbb {R}\) e uma função \(r\), definida para \(h\) suficientemente próximo de \(0\) com \(a+h\in E\), tais que

    \[ f(a+h)=f(a)+Lh+r(h) \qquad \text{e}\qquad \lim _{h\to 0}\frac{r(h)}{h}=0. \]
Quando essas condições se verificam, tem-se necessariamente \(L=f'(a)\).

Demonstração

Suponha primeiro que \(f\) seja diferenciável em \(a\). Definindo

\[ r(h)=f(a+h)-f(a)-f'(a)h, \]

para \(h\) suficientemente próximo de \(0\), com \(h\neq 0\) e \(a+h\in E\), obtemos a decomposição

\[ f(a+h)=f(a)+f'(a)h+r(h). \]

Além disso,

\[ \frac{r(h)}{h}=\frac{f(a+h)-f(a)}{h}-f'(a), \]

e o segundo membro tende a \(0\) quando \(h\to 0\). Logo, \(\frac{r(h)}{h}\to 0\), o que prova (i)\(\Rightarrow \)(ii).

Reciprocamente, suponha que exista \(L\in \mathbb {R}\) tal que \(f(a+h)=f(a)+Lh+r(h)\), com \(\frac{r(h)}{h}\to 0\). Então, para \(h\neq 0\),

\[ \frac{f(a+h)-f(a)}{h}=L+\frac{r(h)}{h}. \]

Passando ao limite quando \(h\to 0\), obtemos

\[ \lim _{h\to 0}\frac{f(a+h)-f(a)}{h}=L. \]

Portanto, \(f\) é diferenciável em \(a\) e \(f'(a)=L\). Isso prova (ii)\(\Rightarrow \)(i).

A unicidade de \(L\) é imediata: se

\[ f(a+h)=f(a)+Lh+r(h)=f(a)+Mh+s(h), \]

com \(\frac{r(h)}{h}\to 0\) e \(\frac{s(h)}{h}\to 0\), então, para \(h\neq 0\),

\[ L-M=\frac{s(h)}{h}-\frac{r(h)}{h}. \]

Passando ao limite quando \(h\to 0\), concluímos que \(L=M\).

Observação 9.12
Equivalentemente, se \(f\) é diferenciável em \(a\), então
\[ f(a+h)=f(a)+\bigl[f'(a)+\rho (h)\bigr]h, \qquad \rho (h)\to 0. \]
Observações inteiramente análogas valem para as derivadas laterais: basta considerar \(h\gt 0\) no caso da derivada à direita e \(h\lt 0\) no caso da derivada à esquerda.

Exemplo 9.13
A caracterização por aproximação linear aplicada a \(f(x)=\operatorname {sen}x\) fornece uma forma precisa da aproximação usual do seno perto de um ponto. Como \(f'(a)=\cos a\), temos
\[ \operatorname {sen}(a+h)=\operatorname {sen}a+h\cos a+r(h), \qquad \frac{r(h)}{h}\to 0. \]
Assim, em primeira ordem, a variação de \(\operatorname {sen}x\) perto de \(a\) é dada por \(h\cos a\). O termo \(r(h)\) mede o erro dessa aproximação linear e é desprezível em comparação com \(h\).

Observação 9.14
Os exemplos anteriores mostram que uma função pode ser contínua e, ainda assim, não ser diferenciável em alguns pontos. Mais do que isso, existem funções contínuas em toda a reta que não são diferenciáveis em ponto algum.

A definição fornece a estrutura local. Para que o cálculo diferencial seja útil, porém, precisamos saber como essa estrutura se comporta quando somamos, multiplicamos ou compomos funções.

9.2 Regras de derivação

As regras de derivação mostram que diferenciabilidade é estável sob as operações usuais. Em particular, a regra da cadeia traduz a ideia de que taxas de variação sucessivas se multiplicam, enquanto a fórmula da inversa permite recuperar a variação de uma função a partir da variação de sua bijeção inversa.

Teorema 9.15 (Regras de derivação)
Sejam \(E\subset \mathbb {R}\), \(a\in E\) um ponto de acumulação de \(E\) e \(f,g:E\to \mathbb {R}\) funções diferenciáveis em \(a\). Então \(f+g\), \(f-g\) e \(fg\) são diferenciáveis em \(a\), e
\[ (f\pm g)'(a)=f'(a)\pm g'(a), \]
\[ (fg)'(a)=f'(a)g(a)+f(a)g'(a). \]
Se, além disso, \(g(a)\neq 0\), então, em uma vizinhança relativa de \(a\) na qual \(g\) não se anula, o quociente \(f/g\) é diferenciável em \(a\), e
\[ \left(\frac{f}{g}\right)'(a) = \frac{f'(a)g(a)-f(a)g'(a)}{g(a)^2}. \]

Demonstração

A fórmula da soma segue imediatamente da linearidade do limite.

Para o produto, escrevemos

\[ f(x)g(x)-f(a)g(a)=f(x)\bigl(g(x)-g(a)\bigr)+g(a)\bigl(f(x)-f(a)\bigr). \]

Dividindo por \(x-a\) e passando ao limite quando \(x\to a\), obtemos

\[ (fg)'(a)=f(a)g'(a)+g(a)f'(a), \]

pois \(f\) é contínua em \(a\).

Para o quociente, basta observar que

\[ \frac{f(x)}{g(x)}-\frac{f(a)}{g(a)}= \frac{g(a)\bigl(f(x)-f(a)\bigr)-f(a)\bigl(g(x)-g(a)\bigr)}{g(x)g(a)}. \]

Novamente dividimos por \(x-a\) e passamos ao limite. Como \(g(x)\to g(a)\neq 0\), segue que

\[ \left(\frac{f}{g}\right)'(a)=\frac{f'(a)g(a)-f(a)g'(a)}{g(a)^2}. \]

Corolário 9.16
Sejam \(E\subset \mathbb {R}\), \(a\in E\) um ponto de acumulação de \(E\), \(f:E\to \mathbb {R}\) uma função diferenciável em \(a\) e \(c\in \mathbb {R}\). Então
\[ (cf)'(a)=c\, f'(a). \]
Se, além disso, \(f(a)\neq 0\), então, em uma vizinhança relativa de \(a\) na qual \(f\) não se anula,
\[ \left(\frac{1}{f}\right)'(a)= -\frac{f'(a)}{f(a)^2}. \]

Resta analisar o comportamento da derivada sob composição. A regra da cadeia mostra como se combinam aproximações lineares sucessivas.

Teorema 9.17 (Regra da cadeia)
Sejam \(E,Y\subset \mathbb {R}\), \(f:E\to Y\), \(g:Y\to \mathbb {R}\) e \(a\in E\) um ponto de acumulação de \(E\). Ponha \(b=f(a)\). Suponha que \(b\) seja ponto de acumulação de \(Y\), que \(f\) seja diferenciável em \(a\) e que \(g\) seja diferenciável em \(b\). Então \(g\circ f\) é diferenciável em \(a\), e
\[ (g\circ f)'(a)=g'(b)\, f'(a). \]

Demonstração

Como \(g\) é diferenciável em \(b\), pela caracterização por fatoração existe uma função \(g^*:Y\to \mathbb {R}\), contínua em \(b\), tal que

\[ g(y)-g(b)=(y-b)g^*(y) \qquad \text{para todo }y\in Y, \]

com \(g^*(b)=g'(b)\). Aplicando essa identidade a \(y=f(x)\), obtemos, para \(x\in E\),

\[ g(f(x))-g(f(a))=(f(x)-f(a))g^*(f(x)). \]

Se \(x\neq a\), então

\[ \frac{g(f(x))-g(f(a))}{x-a} = \frac{f(x)-f(a)}{x-a}\, g^*(f(x)). \]

Como \(f\) é diferenciável em \(a\), ela é contínua em \(a\); logo, \(f(x)\to f(a)=b\) quando \(x\to a\). Pela continuidade de \(g^*\) em \(b\), temos \(g^*(f(x))\to g^*(b)=g'(b)\). Passando ao limite, concluímos que

\[ (g\circ f)'(a)=g'(b)f'(a). \]

Corolário 9.18 (Derivada da função inversa)
Sejam \(I,J\subset \mathbb {R}\) intervalos, \(f:I\to J\) uma função bijetiva, contínua e estritamente monótona, e seja \(g:J\to I\) a inversa de \(f\). Sejam \(a\in I\) e \(b=f(a)\). Suponha que \(f\) seja diferenciável em \(a\) e que \(f'(a)\neq 0\). Então \(g\) é diferenciável em \(b\), e
\[ g'(b)=\frac{1}{f'(a)}. \]

Demonstração

Como \(f\) é contínua e estritamente monótona no intervalo \(I\), sua inversa \(g:J\to I\) é contínua. Além disso, para \(y\in J\) com \(y\neq b\), temos \(g(y)\neq a\) e \(f(g(y))=y.\) Portanto,

\[ \frac{g(y)-g(b)}{y-b} = \frac{g(y)-a}{f(g(y))-f(a)} = \left( \frac{f(g(y))-f(a)}{g(y)-a} \right)^{-1}. \]

Como \(g\) é contínua em \(b\), segue que \(g(y)\to a\) quando \(y\to b\) em \(J\). Como o quociente incremental de \(f\) tende a \(f'(a)\neq 0\), ele permanece não nulo para \(u\) suficientemente próximo de \(a\), com \(u\neq a\). Logo,

\[ \lim \limits _{y\to b}\frac{g(y)-g(b)}{y-b} = \left( \lim \limits _{u\to a}\frac{f(u)-f(a)}{u-a} \right)^{-1} = \frac{1}{f'(a)}. \]

Assim, \(g\) é diferenciável em \(b\) e \(g'(b)=\frac{1}{f'(a)}.\)

Exemplo 9.19

A função \(f:\mathbb {R}\to \mathbb {R}\), \(f(x)=x^3\), é uma bijeção contínua e estritamente crescente. Sua inversa é

\[ g(y)=\sqrt[3]{y}. \]

Como \(f'(a)=3a^2\), o corolário sobre a derivada da inversa se aplica em todo ponto \(a\neq 0\). Se \(b=a^3\), então

\[ g'(b)=\frac{1}{f'(a)}=\frac{1}{3a^2} = \frac{1}{3\sqrt[3]{b^2}}. \]

No ponto \(b=0\), entretanto, o corolário não se aplica, pois \(f'(0)=0\). De fato,

\[ \frac{g(y)-g(0)}{y-0} = \frac{\sqrt[3]{y}}{y} = \frac{1}{\sqrt[3]{y^2}}, \]

e esse quociente não admite limite real finito quando \(y\to 0\). Logo, \(g\) não é diferenciável em \(0\).

Calcular derivadas é apenas metade da teoria. A outra metade consiste em interpretar o que o valor e o sinal da derivada dizem sobre a função original.

9.3 Derivada e extremos locais

Em um extremo local interior, a função não pode continuar variando na mesma direção dos dois lados. Quando a derivada existe, essa observação elementar leva ao Teorema de Fermat e ao primeiro critério necessário para localizar extremos.

Definição 9.20
Dizemos que \(f:E\to \mathbb {R}\) tem um máximo local em \(a\in E\) se existe \(\delta \gt 0\) tal que
\[ x\in E\cap (a-\delta ,a+\delta )\implies f(x)\leq f(a). \]
Se, além disso,
\[ x\in (E\setminus \{ a\} )\cap (a-\delta ,a+\delta )\implies f(x)\lt f(a), \]
dizemos que \(f\) tem um máximo local estrito em \(a\).

Definições análogas valem para mínimo local e mínimo local estrito.

Teorema 9.21
Sejam \(E\subset \mathbb {R}\), \(f:E\to \mathbb {R}\) e \(a\in E\cap E_+'\). Suponha que \(f\) seja diferenciável à direita em \(a\). Se \(f_+'(a)\gt 0\), então existe \(\delta \gt 0\) tal que
\[ a\lt x\lt a+\delta ,\ x\in E \implies f(a)\lt f(x). \]

Demonstração

Como

\[ \lim _{x\to a^+}\frac{f(x)-f(a)}{x-a}=f_+'(a)\gt 0, \]

existe \(\delta \gt 0\) tal que, para todo \(x\in E\) com \(a\lt x\lt a+\delta \), vale

\[ \frac{f(x)-f(a)}{x-a}\gt 0. \]

Como \(x-a\gt 0\), concluímos que \(f(x)-f(a)\gt 0\), isto é, \(f(x)\gt f(a)\).

Observação 9.22
  1. se \(f_+'(a)\gt 0\), então \(f(x)\gt f(a)\) para todo \(x\gt a\) suficientemente próximo de \(a\);

  2. se \(f_+'(a)\lt 0\), então \(f(x)\lt f(a)\) para todo \(x\gt a\) suficientemente próximo de \(a\);

  3. se \(f_-'(a)\gt 0\), então \(f(x)\lt f(a)\) para todo \(x\lt a\) suficientemente próximo de \(a\);

  4. se \(f_-'(a)\lt 0\), então \(f(x)\gt f(a)\) para todo \(x\lt a\) suficientemente próximo de \(a\).

Em particular, se \(f'(a)\gt 0\), então \(f(x)\lt f(a)\lt f(y)\) para \(x\lt a\lt y\) suficientemente próximos de \(a\). Analogamente, se \(f'(a)\lt 0\), então \(f(x)\gt f(a)\gt f(y)\) para \(x\lt a\lt y\) suficientemente próximos de \(a\).

Teorema 9.23 (Teorema de Fermat)
Sejam \(E\subset \mathbb {R}\), \(f:E\to \mathbb {R}\) e \(a\in E\) ponto de acumulação de \(E\) tanto à direita quanto à esquerda. Suponha que \(f\) seja diferenciável em \(a\). Se \(f\) possui um máximo local ou um mínimo local em \(a\), então
\[ f'(a)=0. \]

Demonstração

Suponha que \(f\) tenha um máximo local em \(a\). Então existe \(\delta \gt 0\) tal que \(f(x)\le f(a)\) para todo \(x\in E\cap (a-\delta ,a+\delta )\). Se \(x\lt a\), então \(f(x)-f(a)\le 0\) e \(x-a\lt 0\), de modo que

\[ \frac{f(x)-f(a)}{x-a}\ge 0. \]

Passando ao limite quando \(x\to a^-\), obtemos \(f'(a)\ge 0\). Se \(x\gt a\), temos \(f(x)-f(a)\le 0\) e \(x-a\gt 0\), logo

\[ \frac{f(x)-f(a)}{x-a}\le 0. \]

Fazendo \(x\to a^+\), segue que \(f'(a)\le 0\). Portanto, \(f'(a)=0\).

O caso de mínimo local é análogo.

O Teorema de Fermat é local. Para relacionar o sinal da derivada ao comportamento da função em um intervalo inteiro precisamos de um mecanismo que compare dois pontos afastados. Esse mecanismo é fornecido pelos teoremas do valor médio.

9.4 Teoremas do valor médio e consequências

A partir daqui o domínio será, em geral, um intervalo. Essa hipótese não é um detalhe técnico: ela garante que todos os pontos entre dois valores do domínio continuam disponíveis. É exatamente isso que permite converter informação sobre derivadas em conclusões globais sobre crescimento, estimativas e monotonicidade.

Rolle é o caso fundamental. O Teorema de Cauchy organiza a comparação entre duas funções, e o Teorema do Valor Médio aparece como o caso particular \(g(x)=x\). Darboux completa o quadro mostrando uma propriedade surpreendente: mesmo quando \(f'\) não é contínua, ela ainda não pode saltar valores.

Se \(f:I\to \mathbb {R}\) é diferenciável em todo ponto de um intervalo \(I\), podemos então considerar sua derivada como uma nova função, \(f':I\to \mathbb {R}\), dada por \(x\mapsto f'(x)\).

Fixaremos agora, para todo o capítulo, a convenção que será usada para as classes \(C^n\). Se \(I\subset \mathbb {R}\) é um intervalo com interior não vazio, diremos que \(f\in C^n(I)\) quando \(f\) é contínua em \(I\), as derivadas \(f^{(k)}\) existem em \(\operatorname {int}(I)\), para \(1\le k\le n\), e cada uma delas admite extensão contínua a \(I\). Quando \(I\) é aberto, essa definição coincide com a usual.

Quando \(I\) possui extremidades, os valores de \(f^{(k)}\) nas extremidades serão sempre entendidos como os valores desses prolongamentos contínuos. Em particular, dizer que \(f\) é de classe \(C^1\) em \(I\), ou continuamente diferenciável em \(I\), significa que \(f\) é diferenciável no interior de \(I\), que \(f'\) é contínua no interior e que \(f'\) se prolonga continuamente às extremidades de \(I\), caso elas existam. Para \(n=0\), escrevemos \(C(I)\) para a classe das funções contínuas em \(I\). Finalmente, \(f\in C^\infty (I)\) significa que \(f\in C^n(I)\) para todo \(n\ge 0\).

Nem toda função diferenciável em um intervalo tem derivada contínua.

Exemplo 9.24
Considere a função
\[ f(x)= \begin{cases} x^2\operatorname {sen}\frac{1}{x}, & x\neq 0, \\ 0, & x=0. \end{cases} \]
Ela é diferenciável em toda a reta. De fato, para \(x\neq 0\),
\[ f'(x)=2x\operatorname {sen}\frac{1}{x}-\cos \frac{1}{x}, \]
e, em \(x=0\),
\[ f'(0)=\lim _{h\to 0}\frac{f(h)-f(0)}{h} =\lim _{h\to 0}h\operatorname {sen}\frac{1}{h}=0. \]
A derivada \(f'\) não é contínua em \(0\), pois \(\cos (1/x)\) não admite limite quando \(x\to 0\). Retomaremos esse exemplo depois do Teorema de Darboux, para distinguir esse tipo de descontinuidade das descontinuidades de primeira espécie.

Quando \(f'\) é contínua, podemos aplicar diretamente a ela o Teorema do Valor Intermediário. Mesmo sem continuidade, porém, as derivadas ainda satisfazem uma propriedade análoga, expressa pelo Teorema de Darboux. Antes disso, veremos os teoremas do valor médio, que permitem transformar informações locais sobre a derivada em conclusões globais sobre a função.

Teorema 9.25 (Rolle)
Sejam \(a\lt b\), \(I=[a,b]\) e \(f:I\to \mathbb {R}\). Suponha que \(f\) seja contínua em \(I\), diferenciável em \((a,b)\), e que \(f(a)=f(b)\). Então existe \(c\in (a,b)\) tal que \(f'(c)=0\).

Demonstração

Se \(f\) for constante, o resultado é imediato. Suponhamos, então, que \(f\) não seja constante. Como \(f\) é contínua em \([a,b]\), ela atinge nesse intervalo um máximo e um mínimo.

Se ambos esses extremos fossem atingidos nas extremidades, então, como \(f(a)=f(b)\), os valores máximo e mínimo coincidiriam. Isso implicaria que \(f\) é constante em \([a,b]\), em contradição com a hipótese.

Logo, pelo menos um desses extremos é atingido em algum ponto interior \(c\in (a,b)\). Como \(c\) é ponto de máximo ou de mínimo local e \(f\) é diferenciável em \(c\), o Teorema de Fermat fornece \(f'(c)=0\).

Exemplo 9.26
As hipóteses de continuidade em \([a,b]\) e de diferenciabilidade em \((a,b)\) são ambas essenciais.
  1. Defina \(f:[0,1]\to \mathbb {R}\) por

    \[ f(x)=x \quad \text{se } x\in [0,1), \qquad f(1)=0. \]

    Então \(f(0)=f(1)\) e \(f\) é diferenciável em \((0,1)\), com \(f'(x)=1\) para todo \(x\in (0,1)\). Portanto, não existe \(c\in (0,1)\) tal que \(f'(c)=0\). O que falha aqui é a continuidade em \(x=1\).

  2. Se \(g:[-1,1]\to \mathbb {R}\) é dada por \(g(x)=|x|\), então \(g\) é contínua em \([-1,1]\) e satisfaz \(g(-1)=g(1)\), mas não é diferenciável em \(0\).

Teorema 9.27 (Teorema de Cauchy)
Sejam \(a\lt b\), \(I=[a,b]\) e \(f,g:I\to \mathbb {R}\) funções contínuas em \(I\) e diferenciáveis em \((a,b)\). Então existe \(c\in (a,b)\) tal que
\[ [f(b)-f(a)]\, g'(c)=[g(b)-g(a)]\, f'(c). \]

Demonstração

Considere

\[ h(x)=[f(b)-f(a)]\, g(x)-[g(b)-g(a)]\, f(x). \]

A função \(h\) é contínua em \([a,b]\) e diferenciável em \((a,b)\). Além disso, uma conta direta mostra que \(h(a)=h(b)\). Pelo Teorema de Rolle, existe \(c\in (a,b)\) tal que \(h'(c)=0\). Como

\[ h'(x)=[f(b)-f(a)]\, g'(x)-[g(b)-g(a)]\, f'(x), \]

obtemos

\[ [f(b)-f(a)]\, g'(c)=[g(b)-g(a)]\, f'(c). \]

Teorema 9.28 (Teorema do Valor Médio)
Sejam \(a\lt b\), \(I=[a,b]\) e \(f:I\to \mathbb {R}\). Suponha que \(f\) seja contínua em \(I\) e diferenciável em \((a,b)\). Então existe \(c\in (a,b)\) tal que
\[ f'(c)=\frac{f(b)-f(a)}{b-a}. \]

Demonstração

Basta aplicar o Teorema de Cauchy à função \(g(x)=x\).

Geometricamente, o Teorema do Valor Médio afirma que existe um ponto do intervalo em que a tangente ao gráfico de \(f\) é paralela à secante que liga os extremos do arco considerado.

Esse resultado permite obter propriedades globais da função a partir de hipóteses sobre sua derivada. Os corolários seguintes ilustram esse princípio.

Corolário 9.29
Sejam \(a\lt b\), \(I=[a,b]\) e \(f:I\to \mathbb {R}\). Suponha que \(f\) seja contínua em \(I\), diferenciável em \((a,b)\), e que \(f'(x)=0\) para todo \(x\in (a,b)\). Então \(f\) é constante em \(I\).

Demonstração

Sejam \(x,y\in [a,b]\) com \(x\lt y\). Pelo Teorema do Valor Médio, existe \(c\in (x,y)\) tal que

\[ f(y)-f(x)=f'(c)(y-x). \]

Como \(f'(c)=0\), segue que \(f(y)=f(x)\). Logo, \(f\) é constante em \([a,b]\).

Corolário 9.30
Sejam \(a\lt b\), \(I=[a,b]\) e \(f,g:I\to \mathbb {R}\) funções contínuas em \(I\) e diferenciáveis em \((a,b)\). Suponha que \(f'(x)=g'(x)\) para todo \(x\in (a,b)\). Então existe uma constante \(C\) tal que
\[ g(x)=f(x)+C \qquad \text{para todo }x\in I. \]

Demonstração

Basta aplicar o corolário anterior à função \(g-f\).

Corolário 9.31
Sejam \(I\subset \mathbb {R}\) um intervalo aberto e \(f:I\to \mathbb {R}\) uma função diferenciável. Suponha que exista \(k\ge 0\) tal que \(|f'(x)|\le k\) para todo \(x\in I\). Então
\[ |f(x)-f(y)|\le k|x-y| \qquad \text{para quaisquer }x,y\in I. \]

Demonstração

Sejam \(x,y\in I\) com \(x\lt y\). Pelo Teorema do Valor Médio, existe \(c\in (x,y)\) tal que

\[ f(y)-f(x)=f'(c)(y-x). \]

Tomando módulo, obtemos

\[ |f(y)-f(x)|=|f'(c)|\, |y-x|\le k|y-x|. \]

Em particular, toda função com derivada limitada em um intervalo aberto é Lipschitziana e, portanto, uniformemente contínua.

Corolário 9.32
Sejam \(I\subset \mathbb {R}\) um intervalo aberto e \(f:I\to \mathbb {R}\) uma função diferenciável. Então:
  1. \(f'(x)\ge 0\) para todo \(x\in I\) se, e somente se, \(f\) é não decrescente em \(I\);

  2. se \(f'(x)\gt 0\) para todo \(x\in I\), então \(f\) é crescente em \(I\).

Demonstração

Suponha primeiro que \(f'(x)\ge 0\) para todo \(x\in I\). Se \(a\lt b\) pertencem a \(I\), o Teorema do Valor Médio fornece um ponto \(c\in (a,b)\) tal que

\[ f(b)-f(a)=f'(c)(b-a)\ge 0. \]

Assim, \(f(a)\le f(b)\), e \(f\) é não decrescente em \(I\).

Reciprocamente, suponha que \(f\) seja não decrescente. Fixe \(x\in I\) e tome \(h\neq 0\) com \(x+h\in I\). Se \(h\gt 0\), então \(f(x+h)\ge f(x)\), e portanto

\[ \frac{f(x+h)-f(x)}{h}\ge 0. \]

Se \(h\lt 0\), como \(f(x+h)\le f(x)\), o numerador é não positivo e o denominador é negativo, de modo que novamente

\[ \frac{f(x+h)-f(x)}{h}\ge 0. \]

Passando ao limite quando \(h\to 0\), obtemos \(f'(x)\ge 0\).

Se agora \(f'(x)\gt 0\) para todo \(x\in I\) e \(a\lt b\), o Teorema do Valor Médio fornece \(c\in (a,b)\) tal que

\[ f(b)-f(a)=f'(c)(b-a)\gt 0. \]

Logo \(f(a)\lt f(b)\), isto é, \(f\) é crescente em \(I\).

Exemplo 9.33

A hipótese \(f'(x)\ge 0\) em todo ponto de um intervalo garante que \(f\) seja não decrescente, mas não exige que a derivada seja estritamente positiva em todos os pontos para que a função seja estritamente crescente.

Um exemplo simples é \(f(x)=x^3\). Temos

\[ f'(x)=3x^2\ge 0 \]

em toda a reta, e \(f'(0)=0\). Ainda assim, \(f\) é estritamente crescente em \(\mathbb {R}\), pois \(x\lt y\) implica \(x^3\lt y^3\). Portanto, a condição \(f'(x)\gt 0\) é suficiente para crescimento estrito, mas não é necessária.

Observação 9.34

As conclusões globais obtidas por meio do Teorema do Valor Médio dependem essencialmente do fato de o domínio ser um intervalo.

Por exemplo, a função \(f:\mathbb {R}\setminus \{ 0\} \to \mathbb {R}\), dada por \(f(x)=x/|x|\), satisfaz \(f'(x)=0\) para todo \(x\neq 0\), mas não é constante. O que falha aqui é justamente o fato de o domínio não ser um intervalo.

Exemplo 9.35

A função exponencial permite ilustrar como o Teorema do Valor Médio transforma uma informação local sobre a derivada em uma desigualdade global. Como \(f(x)=e^x\) satisfaz \(f'(x)=e^x\), aplicando o Teorema do Valor Médio em \([0,x]\), com \(x\gt 0\), obtemos \(c\in (0,x)\) tal que

\[ e^x-1=e^c x. \]

Como \(e^c\gt 1\), segue que

\[ e^x\gt 1+x \qquad (x\gt 0). \]

Iterações dessa estimativa, ou formas mais refinadas dela, permitem comparar o crescimento da exponencial com o de potências. Em particular, para todo \(n\in \mathbb {N}\),

\[ \lim _{x\to +\infty }\frac{x^n}{e^x}=0. \]

Exemplo 9.36

Considere

\[ f(x)= \begin{cases} e^{-1/x^2}, & x\neq 0,\\ 0, & x=0. \end{cases} \]

Essa função é o exemplo prototípico de função suave que se anula em \(0\) com ordem maior do que qualquer potência. Ela é contínua em \(0\), pois \(e^{-1/x^2}\to 0\) quando \(x\to 0\).

Para \(x\neq 0\),

\[ f'(x)=\frac{2}{x^3}e^{-1/x^2}. \]

No ponto \(0\),

\[ f'(0)=\lim _{h\to 0}\frac{e^{-1/h^2}}{h}=0. \]

Além disso,

\[ \lim _{x\to 0}\frac{2}{x^3}e^{-1/x^2}=0, \]

pois, escrevendo \(t=1/|x|\), essa expressão é dominada por um múltiplo de \(t^3e^{-t^2}\), que tende a \(0\) quando \(t\to +\infty \). Assim, \(f'\) é contínua em \(0\).

O próximo corolário refina o Teorema do Valor Médio: se a derivada admite limite ao nos aproximarmos de uma extremidade, então a derivada lateral correspondente existe e coincide com esse limite.

Corolário 9.37
Sejam \(a\lt b\), \(I=[a,b]\) e \(f:I\to \mathbb {R}\). Suponha que \(f\) seja contínua em \(I\), diferenciável em \((a,b)\), e que
\[ \lim _{x\to a^+}f'(x)=L. \]
Então existe a derivada à direita de \(f\) em \(a\), e \(f_+'(a)=L\).

Demonstração

Seja \((x_n)\) uma sequência com \(x_n\gt a\) e \(x_n\to a\). Pelo Teorema do Valor Médio, para cada \(n\) existe \(y_n\in (a,x_n)\) tal que

\[ \frac{f(x_n)-f(a)}{x_n-a}=f'(y_n). \]

Como \(a\lt y_n\lt x_n\) e \(x_n\to a\), segue que \(y_n\to a\). Pela hipótese, \(f'(y_n)\to L\). Portanto,

\[ \frac{f(x_n)-f(a)}{x_n-a}\to L. \]

Como isso vale para toda sequência \((x_n)\) com \(x_n\gt a\) e \(x_n\to a\), o critério sequencial para limites laterais mostra que \(f_+'(a)\) existe e é igual a \(L\).

Embora a derivada possa deixar de ser contínua, ela não pode apresentar saltos. Essa é a propriedade expressa pelo Teorema de Darboux.

Teorema 9.38 (Teorema de Darboux)
Sejam \(a\lt b\), \(I=(a,b)\) e \(f:I\to \mathbb {R}\) uma função diferenciável. Então \(f'\) tem a propriedade do valor intermediário em \(I\): se \(x_1,x_2\in I\), com \(x_1\lt x_2\), e \(d\) está entre \(f'(x_1)\) e \(f'(x_2)\), então existe \(c\in [x_1,x_2]\) tal que \(f'(c)=d\). Se \(d\) está estritamente entre esses dois valores, então podemos tomar \(c\in (x_1,x_2)\).

Demonstração

Os casos em que \(d=f'(x_1)\) ou \(d=f'(x_2)\) são imediatos, tomando respectivamente \(c=x_1\) ou \(c=x_2\). Basta considerar, portanto, o caso em que

\[ f'(x_1)\lt d\lt f'(x_2), \]

pois o caso \(f'(x_2)\lt d\lt f'(x_1)\) é análogo.

Definamos \(g:[x_1,x_2]\to \mathbb {R}\) por \(g(x)=f(x)-dx\). Então \(g\) é contínua em \([x_1,x_2]\) e diferenciável em \((x_1,x_2)\), com

\[ g'(x)=f'(x)-d. \]

Como \(x_1,x_2\in I\) e \(I\) é aberto, as derivadas \(g'(x_1)\) e \(g'(x_2)\) estão bem definidas. Como \(g'(x_1)=f'(x_1)-d\lt 0\), segue da definição de derivada que existe \(\eta _1\gt 0\) tal que, para todo \(x\in (x_1,x_1+\eta _1)\),

\[ \frac{g(x)-g(x_1)}{x-x_1}\lt 0. \]

Como \(x-x_1\gt 0\), isso implica \(g(x)\lt g(x_1)\). Logo, \(x_1\) não pode ser ponto de mínimo de \(g\) em \([x_1,x_2]\).

De modo análogo, como \(g'(x_2)=f'(x_2)-d\gt 0\), existe \(\eta _2\gt 0\) tal que, para todo \(x\in (x_2-\eta _2,x_2)\),

\[ \frac{g(x)-g(x_2)}{x-x_2}\gt 0. \]

Como agora \(x-x_2\lt 0\), segue novamente que \(g(x)\lt g(x_2)\). Portanto, \(x_2\) também não pode ser ponto de mínimo de \(g\) em \([x_1,x_2]\).

Como \(g\) é contínua no compacto \([x_1,x_2]\), ela atinge seu mínimo nesse intervalo. Como esse mínimo não ocorre em nenhuma das extremidades, ele é atingido em algum ponto \(c\in (x_1,x_2)\).

Pelo Teorema de Fermat, temos \(g'(c)=0\). Como \(g'(c)=f'(c)-d\), concluímos que \(f'(c)=d\).

Corolário 9.39
Sejam \(I\subset \mathbb {R}\) um intervalo aberto e \(f:I\to \mathbb {R}\) uma função diferenciável. Se \(f'(x)\neq 0\) para todo \(x\in I\), então \(f\) é estritamente monótona em \(I\).

Demonstração

Pelo Teorema de Darboux, a derivada não pode mudar de sinal sem assumir o valor \(0\) em algum ponto intermediário. Como \(f'(x)\neq 0\) para todo \(x\in I\), segue que \(f'\) é sempre positiva ou sempre negativa em \(I\).

Se \(f'(x)\gt 0\) para todo \(x\in I\), então o corolário anterior mostra que \(f\) é crescente em \(I\). Se \(f'(x)\lt 0\) para todo \(x\in I\), aplicamos esse mesmo resultado à função \(-f\), cuja derivada é positiva em todo ponto. Concluímos, portanto, que \(f\) é estritamente monótona em \(I\).

Corolário 9.40
Sejam \(I\subset \mathbb {R}\) um intervalo aberto e \(f:I\to \mathbb {R}\) uma função diferenciável. Então \(f'\) não pode ter descontinuidade de primeira espécie em nenhum ponto de \(I\).

Demonstração

Suponha, por absurdo, que \(f'\) tenha uma descontinuidade de primeira espécie em algum ponto \(c\in I\). Então os limites laterais de \(f'\) em \(c\) existem e são finitos, mas a continuidade falha em \(c\). Em particular, pelo menos um desses limites é diferente de \(f'(c)\), ou os dois limites laterais são distintos entre si. Tratemos, por exemplo, o caso em que

\[ \lim _{x\to c^+}f'(x)=L \qquad \text{com}\qquad L\neq f'(c). \]

Se \(L\gt f'(c)\), escolha \(d\) tal que

\[ f'(c)\lt d\lt L. \]

Pela definição de limite lateral, existe \(\delta \gt 0\) tal que

\[ f'(x)\gt d \qquad \text{para todo }x\in (c,c+\delta ). \]

Fixado \(x\in (c,c+\delta )\), temos

\[ f'(c)\lt d\lt f'(x). \]

Aplicando o Teorema de Darboux ao intervalo \((c,x)\), obtemos um ponto \(u\in (c,x)\) tal que \(f'(u)=d\), o que contradiz a desigualdade anterior.

O caso \(L\lt f'(c)\) é análogo, e o mesmo raciocínio vale para o limite pela esquerda. Logo, \(f'\) não pode ter descontinuidade de primeira espécie em nenhum ponto de \(I\).

Exemplo 9.41
A função \(f:\mathbb {R}\to \mathbb {R}\), \(f(x)=|x|\), não contradiz o corolário segundo o qual derivadas não têm descontinuidades de primeira espécie. De fato, \(f\) é diferenciável em \(\mathbb {R}\setminus \{ 0\} \), com
\[ f'(x)= \begin{cases} -1, & x\lt 0,\\ 1, & x\gt 0. \end{cases} \]
No entanto, \(f'(0)\) não existe. Portanto, não há uma descontinuidade de \(f'\) em \(0\); o que ocorre é que \(0\) nem sequer pertence ao domínio da função derivada.

Exemplo 9.42
Retomemos a função
\[ f(x)= \begin{cases} x^2\operatorname {sen}(1/x), & x\neq 0,\\ 0, & x=0. \end{cases} \]
Ela já apareceu como exemplo de função diferenciável cuja derivada não é contínua. À luz do Teorema de Darboux, podemos agora entender melhor o tipo de descontinuidade que ocorre. Para \(x\neq 0\),
\[ f'(x)=2x\operatorname {sen}(1/x)-\cos (1/x), \]
enquanto
\[ f'(0)=\lim _{h\to 0}h\operatorname {sen}(1/h)=0. \]
A derivada não é contínua em \(0\), pois o termo \(\cos (1/x)\) oscila sem limite quando \(x\to 0\). Essa descontinuidade, porém, não é de primeira espécie: os limites laterais de \(f'\) em \(0\) não existem. Assim, o exemplo é compatível com o corolário anterior.

Definição 9.43

Seja \(I\subset \mathbb {R}\) um intervalo. Dizemos que uma função \(f:I\to \mathbb {R}\) é uniformemente diferenciável em \(I\) quando \(f\) é diferenciável em todo ponto de \(I\) e, além disso, para todo \(\varepsilon \gt 0\) existe \(\delta \gt 0\) tal que, para quaisquer \(x\in I\) e \(h\in \mathbb {R}\) com \(x+h\in I\),

\[ 0\lt |h|\lt \delta \quad \Longrightarrow \quad \left| \frac{f(x+h)-f(x)}{h}-f'(x) \right|\lt \varepsilon . \]

Equivalentemente, \(f\) é uniformemente diferenciável em \(I\) se, para todo \(\varepsilon \gt 0\), existe \(\delta \gt 0\) tal que, para quaisquer \(x\in I\) e \(h\in \mathbb {R}\) com \(x+h\in I\),

\[ 0\lt |h|\lt \delta \quad \Longrightarrow \quad |f(x+h)-f(x)-f'(x)h|\lt \varepsilon |h|. \]

Teorema 9.44
Sejam \(a\lt b\), \(I=[a,b]\) e \(f:I\to \mathbb {R}\) uma função diferenciável em \(I\). Então \(f\) é uniformemente diferenciável em \(I\) se, e somente se, \(f'\) é contínua em \(I\).

Demonstração

Suponha primeiro que \(f'\) seja contínua em \([a,b]\). Como \([a,b]\) é compacto, \(f'\) é uniformemente contínua. Dado \(\varepsilon \gt 0\), existe \(\delta \gt 0\) tal que

\[ |u-v|\lt \delta \implies |f'(u)-f'(v)|\lt \varepsilon \]

para quaisquer \(u,v\in [a,b]\).

Fixemos \(x\in [a,b]\) e \(h\in \mathbb {R}\) com \(x+h\in [a,b]\) e \(0\lt |h|\lt \delta \). Pelo Teorema do Valor Médio, existe \(y\) entre \(x\) e \(x+h\) tal que \(f(x+h)-f(x)=f'(y)h\). Portanto,

\[ \frac{f(x+h)-f(x)}{h}-f'(x)=f'(y)-f'(x). \]

Como \(|y-x|\le |h|\lt \delta \), segue que

\[ \left|\frac{f(x+h)-f(x)}{h}-f'(x)\right|\lt \varepsilon . \]

Logo, \(f\) é uniformemente diferenciável em \([a,b]\).

Reciprocamente, suponha que \(f\) seja uniformemente diferenciável em \([a,b]\). Dado \(\varepsilon \gt 0\), existe \(\delta \gt 0\) tal que, sempre que \(u,u+t\in [a,b]\) e \(0\lt |t|\lt \delta \), vale

\[ \left|\frac{f(u+t)-f(u)}{t}-f'(u)\right|\lt \frac{\varepsilon }{2}. \]

Se \(x,y\in [a,b]\) satisfazem \(0\lt |y-x|\lt \delta \), aplicamos essa estimativa primeiro a \((u,t)=(x,y-x)\) e depois a \((u,t)=(y,x-y)\). Como os dois quocientes incrementais coincidem, obtemos

\[ |f'(y)-f'(x)|\lt \varepsilon . \]

Assim, \(f'\) é uniformemente contínua em \([a,b]\) e, em particular, contínua em \([a,b]\).

O Teorema de Cauchy também permite comparar dois quocientes que tendem a uma forma indeterminada. Essa observação conduz à regra de L’Hôpital.

9.5 Regra de L’Hôpital

L’Hôpital não é uma regra algébrica de cancelamento. Sua justificativa é o Teorema de Cauchy: o quociente entre duas funções próximas de uma forma indeterminada é controlado, em pontos intermediários, pelo quociente entre suas derivadas. Por isso as hipóteses sobre diferenciabilidade e sobre \(g'\) são parte essencial do resultado.

O Teorema de Cauchy pode ser visto como a forma estrutural do Teorema do Valor Médio. O caso usual corresponde à escolha \(g(x)=x\). Uma de suas aplicações mais importantes é a regra de L’Hôpital, que permite calcular certos limites de quocientes a partir da razão entre as derivadas.

Apresentaremos aqui a forma mais básica do resultado, correspondente à indeterminação \(0/0\) com limite finito. Os demais casos, análogos em espírito, serão propostos nos exercícios.

Teorema 9.45 (Regra de L’Hôpital na forma \(0/0\))
Sejam \(I\subset \mathbb {R}\) um intervalo aberto, \(a\in I\) e \(f,g:I\to \mathbb {R}\) funções contínuas em \(a\) e diferenciáveis em \(I\setminus \{ a\} \). Suponha que
\[ f(a)=g(a)=0 \]
e que exista \(\delta \gt 0\), com \((a-\delta ,a+\delta )\subset I\), tal que
\[ g'(x)\neq 0 \qquad \text{para todo }x\in (a-\delta ,a+\delta )\setminus \{ a\} . \]
Se existe \(L\in \mathbb {R}\) tal que
\[ \lim _{x\to a}\frac{f'(x)}{g'(x)}=L, \]
então
\[ \lim _{x\to a}\frac{f(x)}{g(x)}=L. \]

Demonstração

Provaremos primeiro o caso \(x\to a^+\); o caso \(x\to a^-\) é análogo.

Mostremos inicialmente que

\[ g(x)\neq 0 \qquad \text{para todo }x\in (a,a+\delta ). \]

Com efeito, se existisse \(x\in (a,a+\delta )\) tal que \(g(x)=0\), então teríamos \(g(a)=g(x)=0\), e o Teorema de Rolle aplicado a \(g\) em \([a,x]\) forneceria um ponto \(c\in (a,x)\) com \(g'(c)=0\), o que contradiz a hipótese.

Fixe agora \(x\in (a,a+\delta )\). Como \(f\) e \(g\) são contínuas em \([a,x]\) e diferenciáveis em \((a,x)\), o Teorema de Cauchy fornece um ponto \(c\in (a,x)\) tal que

\[ [f(x)-f(a)]\, g'(c)=[g(x)-g(a)]\, f'(c). \]

Usando \(f(a)=g(a)=0\), obtemos

\[ f(x)\, g'(c)=g(x)\, f'(c). \]

Como \(g(x)\neq 0\) e \(g'(c)\neq 0\), segue que

\[ \frac{f(x)}{g(x)}=\frac{f'(c)}{g'(c)}. \]

Quando \(x\to a^+\), temos também \(c\to a^+\), pois \(a\lt c\lt x\). Como

\[ \lim _{t\to a^+}\frac{f'(t)}{g'(t)}=L, \]

concluímos que

\[ \lim _{x\to a^+}\frac{f(x)}{g(x)}=L. \]

O mesmo argumento à esquerda mostra que

\[ \lim _{x\to a^-}\frac{f(x)}{g(x)}=L. \]

Como os limites laterais coincidem, segue que

\[ \lim _{x\to a}\frac{f(x)}{g(x)}=L. \]

Observação 9.46
A hipótese \(f(a)=g(a)=0\) não é realmente restritiva. De fato, se \(f\) e \(g\) estiverem definidas apenas em \(I\setminus \{ a\} \) e satisfizerem
\[ \lim _{x\to a}f(x)=\lim _{x\to a}g(x)=0, \]
basta prolongá-las em \(a\) definindo \(f(a)=g(a)=0\). As funções assim obtidas continuam diferenciáveis em \(I\setminus \{ a\} \), tornam-se contínuas em \(a\) e satisfazem as hipóteses do teorema.

Os casos em que \(\frac{f'(x)}{g'(x)}\) tende a \(\pm \infty \), bem como a forma correspondente à indeterminação \(\infty /\infty \), podem ser obtidos por argumentos semelhantes e ficam como exercícios.

Até aqui, a derivada primeira controlou crescimento e taxas de variação. Quando essa própria taxa é monótona, surge uma informação geométrica adicional sobre o formato do gráfico.

9.6 Convexidade

Convexidade pode ser lida de duas maneiras complementares: geometricamente, o gráfico fica abaixo de suas cordas; diferencialmente, as inclinações das secantes e, quando existe, a derivada, crescem da esquerda para a direita. Essa ponte transforma uma propriedade geométrica global numa condição diferencial.

Definição 9.47
Seja \(I\subset \mathbb {R}\) um intervalo. Dizemos que \(f:I\to \mathbb {R}\) é convexa quando, para quaisquer \(a\lt x\lt b\) em \(I\),
\[ f(x)\le \frac{b-x}{b-a}\, f(a)+\frac{x-a}{b-a}\, f(b). \]

A convexidade relaciona de modo particularmente claro uma propriedade geométrica do gráfico com uma propriedade analítica da função. A desigualdade acima diz que, na abscissa \(x\), o ponto \((x,f(x))\) do gráfico fica abaixo, ou sobre, a secante que liga \((a,f(a))\) a \((b,f(b))\), como mostra a Figura 9.1. Analiticamente, essa mesma condição se traduz no comportamento das inclinações das secantes e, no caso diferenciável, na monotonicidade da derivada.

Figura 9.1 Em uma função convexa, o ponto intermediário (x,f(x)) do gráfico fica abaixo, ou sobre, a secante que liga (a,f(a)) a (b,f(b)).

Figura 9.1 Em uma função convexa, o ponto intermediário \((x,f(x))\) do gráfico fica abaixo, ou sobre, a secante que liga \((a,f(a))\) a \((b,f(b))\).

A definição admite uma caracterização equivalente em termos das inclinações das secantes.

Proposição 9.48
Sejam \(I\subset \mathbb {R}\) um intervalo e \(f:I\to \mathbb {R}\). Então \(f\) é convexa se, e somente se, para quaisquer \(a\lt x\lt b\) em \(I\),
\[ \frac{f(x)-f(a)}{x-a} \le \frac{f(b)-f(a)}{b-a} \le \frac{f(b)-f(x)}{b-x}. \]

Demonstração

Como \(a\lt x\lt b\), todos os denominadores são positivos. Pela definição, a convexidade equivale a

\[ (b-a)f(x)\le (b-x)f(a)+(x-a)f(b). \]

Subtraindo \((b-a)f(a)\) de ambos os lados e rearranjando, obtemos

\[ (b-a)\bigl(f(x)-f(a)\bigr)\le (x-a)\bigl(f(b)-f(a)\bigr), \]

isto é,

\[ \frac{f(x)-f(a)}{x-a}\le \frac{f(b)-f(a)}{b-a}. \]

Do mesmo modo, subtraindo \((b-a)f(b)\) de ambos os lados e rearranjando, a mesma desigualdade equivale a

\[ (b-x)\bigl(f(b)-f(a)\bigr)\le (b-a)\bigl(f(b)-f(x)\bigr), \]

ou seja,

\[ \frac{f(b)-f(a)}{b-a}\le \frac{f(b)-f(x)}{b-x}. \]

Logo, a convexidade implica a cadeia de desigualdades das inclinações. A recíproca segue refazendo os mesmos passos em sentido inverso.

A proposição mostra que, para funções convexas, as inclinações das secantes crescem da esquerda para a direita. Quando a função é diferenciável, isso se reflete na monotonicidade da derivada.

Teorema 9.49
Sejam \(I\subset \mathbb {R}\) um intervalo aberto e \(f:I\to \mathbb {R}\) uma função diferenciável. Então \(f\) é convexa se, e somente se, \(f'\) é não decrescente em \(I\).

Demonstração

Suponha primeiro que \(f\) seja convexa. Dados \(a\lt b\) em \(I\), a Proposição 9.48 mostra que, para todo \(x\in (a,b)\),

\[ \frac{f(x)-f(a)}{x-a}\le \frac{f(b)-f(a)}{b-a}\le \frac{f(b)-f(x)}{b-x}. \]

Fazendo \(x\to a^+\) na primeira desigualdade e usando a diferenciabilidade de \(f\) em \(a\), obtemos

\[ f'(a)\le \frac{f(b)-f(a)}{b-a}. \]

Fazendo \(x\to b^-\) na segunda, segue que

\[ \frac{f(b)-f(a)}{b-a}\le f'(b). \]

Portanto,

\[ f'(a)\le \frac{f(b)-f(a)}{b-a}\le f'(b), \]

e, em particular, \(f'(a)\le f'(b)\) sempre que \(a\lt b\). Logo, \(f'\) é não decrescente em \(I\).

Reciprocamente, suponha que \(f'\) seja não decrescente em \(I\) e tomemos \(a\lt x\lt b\) em \(I\). Pelo Teorema do Valor Médio, existem \(u\in (a,x)\) e \(v\in (x,b)\) tais que

\[ \frac{f(x)-f(a)}{x-a}=f'(u) \qquad \text{e}\qquad \frac{f(b)-f(x)}{b-x}=f'(v). \]

Como \(u\lt v\) e \(f'\) é não decrescente, temos \(f'(u)\le f'(v)\). Assim,

\[ \frac{f(x)-f(a)}{x-a}\le \frac{f(b)-f(x)}{b-x}. \]

Multiplicando pelos denominadores positivos e rearranjando os termos, chegamos a

\[ (b-a)f(x)\le (b-x)f(a)+(x-a)f(b). \]

Pela definição de convexidade, concluímos que \(f\) é convexa.

No caso em que existe segunda derivada, obtém-se uma caracterização ainda mais simples.

Teorema 9.50
Sejam \(I\subset \mathbb {R}\) um intervalo aberto e \(f:I\to \mathbb {R}\) uma função duas vezes diferenciável. Então \(f\) é convexa se, e somente se, \(f''(x)\ge 0\) para todo \(x\in I\).

Demonstração

Pelo teorema anterior, \(f\) é convexa se, e somente se, \(f'\) é não decrescente em \(I\). Como \(f'\) é diferenciável, o critério de monotonicidade aplicado a \(f'\) mostra que isso equivale a exigir \(f''(x)\ge 0\) para todo \(x\in I\).

Substituindo o sinal \(\le \) por \(\lt \) na desigualdade que define convexidade, obtemos o conceito de função estritamente convexa. Mais precisamente, \(f\) é estritamente convexa quando, para quaisquer \(a\lt x\lt b\) em \(I\),

\[ f(x)\lt \frac{b-x}{b-a}\, f(a)+\frac{x-a}{b-a}\, f(b). \]

Além disso, se \(f''(x)\gt 0\) para todo \(x\in I\), então \(f\) é estritamente convexa. De fato, nesse caso \(f'\) é estritamente crescente e, por conseguinte, as inclinações das secantes crescem estritamente da esquerda para a direita. A recíproca, porém, é falsa. Por exemplo, a função \(f(x)=x^4\) é estritamente convexa em \(\mathbb {R}\), mas satisfaz \(f''(0)=0\).

Convexidade já usa a variação da derivada. O passo seguinte é sistematizar derivadas sucessivas para obter aproximações locais de ordem cada vez maior.

9.7 Fórmula de Taylor

As derivadas de ordem superior permitem descrever com mais precisão o comportamento local de uma função. A derivada primeira fornece a melhor aproximação linear; derivadas de ordens mais altas conduzem a aproximações polinomiais progressivamente mais refinadas.

Usaremos aqui a convenção já fixada para derivadas de ordem superior em intervalos com extremidades.

Exemplo 9.51

Todo polinômio é de classe \(C^\infty \) em \(\mathbb {R}\). Mais geralmente, funções racionais são \(C^\infty \) em qualquer intervalo no qual o denominador não se anule. O mesmo vale para as funções trigonométricas, para a exponencial e para o logaritmo em seus respectivos domínios.

Esse exemplo fornece uma primeira classe ampla de funções suaves: nesses casos, a derivação sucessiva não introduz singularidades novas dentro do domínio natural considerado.

Exemplo 9.52

Para cada inteiro \(n\ge 0\), defina

\[ \varphi _n(x)=x^n|x|. \]

Então \(\varphi _n\) é de classe \(C^n\), mas não é de classe \(C^{n+1}\).

Para \(n=0\), temos \(\varphi _0(x)=|x|\), que é contínua, mas não diferenciável em \(0\). Suponha agora \(n\ge 1\). Para \(x\neq 0\),

\[ \varphi _n'(x)=(n+1)x^{n-1}|x|=(n+1)\varphi _{n-1}(x). \]

Além disso,

\[ \varphi _n'(0) = \lim _{h\to 0}\frac{h^n|h|}{h} = \lim _{h\to 0}h^{n-1}|h| = 0. \]

Por indução, as derivadas até a ordem \(n\) existem e são contínuas. Em particular,

\[ \varphi _n^{(n)}(x)=(n+1)!|x|. \]

Essa função ainda é contínua, mas não é diferenciável em \(0\). Logo, \(\varphi _n\in C^n\), mas \(\varphi _n\notin C^{n+1}\).

Antes dos resultados principais, observemos que, se

\[ q(h)=b_0+b_1h+\cdots +b_nh^n, \]

então os coeficientes de \(q\) são determinados pelas derivadas em \(0\):

\[ b_i=\frac{q^{(i)}(0)}{i!}, \qquad 0\le i\le n. \]

Definição 9.53
Seja \(I\subset \mathbb {R}\) um intervalo, seja \(a\in I\) e seja \(n\ge 0\) um inteiro. Suponha que as derivadas \(f^{(k)}(a)\) estejam definidas para \(0\le k\le n\). Chamamos de polinômio de Taylor de ordem \(n\) de \(f\) em torno de \(a\) o polinômio
\[ P_{n,a}(x)=\sum _{k=0}^n \frac{f^{(k)}(a)}{k!}(x-a)^k. \]
Na variável \(h=x-a\), o mesmo polinômio é escrito como
\[ P_{n,a}(a+h)=\sum _{k=0}^n \frac{f^{(k)}(a)}{k!}h^k. \]

Teorema 9.54 (Fórmula de Taylor com resto de Lagrange)
Sejam \(n\ge 1\), \(a\lt b\), \(I=[a,b]\) e \(f:I\to \mathbb {R}\). Suponha que \(f\in C^{n-1}(I)\) e que \(f^{(n)}\) exista em \((a,b)\). Então existe \(c\in (a,b)\) tal que
\[ f(b)= \sum _{k=0}^{n-1}\frac{f^{(k)}(a)}{k!}(b-a)^k + \frac{f^{(n)}(c)}{n!}(b-a)^n. \]

Demonstração

Considere

\[ \phi (x)=f(b)-\sum _{k=0}^{n-1}\frac{f^{(k)}(x)}{k!}(b-x)^k-\frac{K}{n!}(b-x)^n, \]

onde a constante \(K\) será escolhida de modo que \(\phi (a)=0\).

Com essa escolha, também temos \(\phi (b)=0\), pois, em \(x=b\), o termo correspondente a \(k=0\) na soma é \(f(b)\), e todos os demais termos contêm alguma potência positiva de \(b-x\). Pelas hipóteses, \(\phi \) é contínua em \([a,b]\) e diferenciável em \((a,b)\). Pelo Teorema de Rolle, existe \(c\in (a,b)\) tal que \(\phi '(c)=0\).

Derivando termo a termo, obtemos, para \(x\in (a,b)\),

\[ \begin{aligned} \phi ’(x) & = -\sum _{k=0}^{n-1}\frac{f^{(k+1)}(x)}{k!}(b-x)^k +\sum _{k=1}^{n-1}\frac{f^{(k)}(x)}{(k-1)!}(b-x)^{k-1} +\frac{K}{(n-1)!}(b-x)^{n-1}. \end{aligned} \]

Reindexando a segunda soma, ocorre cancelamento termo a termo, e resta

\[ \phi '(x)=\frac{K-f^{(n)}(x)}{(n-1)!}(b-x)^{n-1}. \]

Como \(c\in (a,b)\), temos \(b-c\neq 0\). Portanto, da igualdade \(\phi '(c)=0\), segue que \(K=f^{(n)}(c)\).

Por fim, a condição \(\phi (a)=0\) afirma que

\[ f(b)-\sum _{k=0}^{n-1}\frac{f^{(k)}(a)}{k!}(b-a)^k -\frac{K}{n!}(b-a)^n=0. \]

Substituindo \(K=f^{(n)}(c)\), obtemos a fórmula desejada.

Corolário 9.55
Nas hipóteses do teorema anterior, seja \(h\neq 0\) tal que o intervalo de extremos \(a\) e \(a+h\) esteja contido no domínio de \(f\). Então existe um ponto \(c_h\) entre \(a\) e \(a+h\) tal que
\[ f(a+h)= \sum _{k=0}^{n-1}\frac{f^{(k)}(a)}{k!}h^k + \frac{f^{(n)}(c_h)}{n!}h^n. \]
Para \(h\gt 0\), basta aplicar o teorema anterior com \(b=a+h\). Para \(h\lt 0\), escreva \(H=-h\gt 0\) e considere \(\psi (t)=f(a-t)\) em \([0,H]\). Aplicando o teorema anterior a \(\psi \), entre \(0\) e \(H\), obtemos um ponto \(\xi \in (0,H)\) tal que
\[ f(a+h)=\sum _{k=0}^{n-1}\frac{f^{(k)}(a)}{k!}h^k +\frac{f^{(n)}(a-\xi )}{n!}h^n. \]
Como \(a-\xi \) está entre \(a+h\) e \(a\), basta tomar \(c_h=a-\xi \).

Teorema 9.56 (Fórmula de Taylor infinitesimal)
Sejam \(n\ge 1\), \(I\subset \mathbb {R}\) um intervalo aberto contendo \(a\) e \(f:I\to \mathbb {R}\). Suponha que \(f^{(n)}\) exista em uma vizinhança de \(a\) e seja contínua em \(a\). Então
\[ f(a+h)= \sum _{k=0}^{n}\frac{f^{(k)}(a)}{k!}h^k+r(h), \]
onde
\[ \lim _{h\to 0}\frac{r(h)}{h^n}=0. \]
Além disso, o polinômio em \(h\),
\[ h\mapsto P_{n,a}(a+h), \]
é o único polinômio de grau menor ou igual a \(n\) com essa propriedade.

Demonstração

Para \(h\) suficientemente pequeno e não nulo, o intervalo de extremos \(a\) e \(a+h\) está contido em \(I\). Pelo corolário anterior, existe um ponto \(c_h\) entre \(a\) e \(a+h\) tal que

\[ f(a+h)= \sum _{k=0}^{n-1}\frac{f^{(k)}(a)}{k!}h^k + \frac{f^{(n)}(c_h)}{n!}h^n. \]

Escrevendo \(c_h=a+\theta _h h\), com \(0\lt \theta _h\lt 1\), obtemos

\[ f(a+h)=P_{n,a}(a+h)+r(h), \qquad r(h)=\frac{f^{(n)}(a+\theta _hh)-f^{(n)}(a)}{n!}\, h^n. \]

Assim,

\[ \frac{r(h)}{h^n} = \frac{f^{(n)}(a+\theta _hh)-f^{(n)}(a)}{n!}. \]

Como \(\theta _hh\to 0\) quando \(h\to 0\), a continuidade de \(f^{(n)}\) em \(a\) implica \(r(h)/h^n\to 0\).

Para provar a unicidade, suponha que \(Q\) seja um polinômio de grau menor ou igual a \(n\) tal que

\[ f(a+h)=Q(h)+s(h), \qquad \frac{s(h)}{h^n}\to 0. \]

Subtraindo essa expressão da expansão anterior, segue que

\[ \frac{P_{n,a}(a+h)-Q(h)}{h^n}\to 0. \]

Se

\[ R(h)=P_{n,a}(a+h)-Q(h), \]

então \(R\) é um polinômio em \(h\) de grau menor ou igual a \(n\). Se \(R\not\equiv 0\), existe \(m\in \{ 0,\dots ,n\} \) e existe um polinômio \(T\), com \(T(0)\neq 0\), tais que \(R(h)=h^mT(h)\). Nesse caso,

\[ \frac{R(h)}{h^n}=h^{m-n}T(h). \]

Essa expressão não tende a \(0\): se \(m\lt n\), ela não permanece limitada em módulo ao longo de alguma sequência \(h\to 0\); se \(m=n\), ela tende a \(T(0)\neq 0\). Logo, \(R\equiv 0\), e portanto \(Q(h)=P_{n,a}(a+h)\).

Em outras palavras, o polinômio de Taylor de ordem \(n\), escrito na variável \(h\), é o único polinômio de grau menor ou igual a \(n\) que aproxima \(f(a+h)\) com erro desprezível diante de \(h^n\).

Proposição 9.57 (Critério de máximos e mínimos locais)
Sejam \(n\ge 1\), \(I\subset \mathbb {R}\) um intervalo aberto, \(a\in I\) e \(f:I\to \mathbb {R}\) uma função \(n\) vezes diferenciável em uma vizinhança de \(a\). Suponha que
\[ f'(a)=f''(a)=\cdots =f^{(n-1)}(a)=0 \qquad \text{e}\qquad f^{(n)}(a)\neq 0, \]
e que \(f^{(n)}\) seja contínua em \(a\). Então:
  1. se \(n\) é par, \(a\) é ponto de mínimo local quando \(f^{(n)}(a)\gt 0\), e ponto de máximo local quando \(f^{(n)}(a)\lt 0\);

  2. se \(n\) é ímpar, \(a\) não é ponto de máximo nem de mínimo local.

Demonstração

Pela fórmula de Taylor infinitesimal e pela hipótese de anulação das derivadas até a ordem \(n-1\),

\[ f(x)-f(a)=\frac{f^{(n)}(a)}{n!}(x-a)^n+o\bigl((x-a)^n\bigr), \qquad x\to a. \]

Logo,

\[ \frac{f(x)-f(a)}{(x-a)^n}\to \frac{f^{(n)}(a)}{n!}. \]

Como \(f^{(n)}(a)\neq 0\), para \(x\) suficientemente próximo de \(a\), com \(x\neq a\), o sinal de \(f(x)-f(a)\) coincide com o sinal de \(f^{(n)}(a)(x-a)^n\).

Se \(n\) é par, então \((x-a)^n\gt 0\) para todo \(x\neq a\), e o sinal de \(f(x)-f(a)\) é o sinal de \(f^{(n)}(a)\). Isso dá a caracterização de mínimo local quando \(f^{(n)}(a)\gt 0\) e de máximo local quando \(f^{(n)}(a)\lt 0\).

Se \(n\) é ímpar, então \((x-a)^n\) muda de sinal quando \(x\) atravessa \(a\). Portanto, \(f(x)-f(a)\) assume sinais opostos à esquerda e à direita de \(a\), e \(a\) não pode ser ponto de máximo nem de mínimo local.

Proposição 9.58 (Indeterminações do tipo \(0/0\))
Sejam \(n\ge 1\), \(I\subset \mathbb {R}\) um intervalo aberto contendo \(a\) e \(f,g:I\to \mathbb {R}\) funções \(n\) vezes diferenciáveis em uma vizinhança de \(a\). Suponha que
\[ f(a)=f'(a)=\cdots =f^{(n-1)}(a)=0, \]
\[ g(a)=g'(a)=\cdots =g^{(n-1)}(a)=0, \]
que \(g^{(n)}(a)\neq 0\), e que \(f^{(n)}\) e \(g^{(n)}\) sejam contínuas em \(a\). Então
\[ \lim _{x\to a}\frac{f(x)}{g(x)} = \frac{f^{(n)}(a)}{g^{(n)}(a)}. \]

Demonstração

Aplicando a fórmula de Taylor infinitesimal a \(f\) e a \(g\), obtemos

\[ f(x)=\frac{f^{(n)}(a)}{n!}(x-a)^n+o\bigl((x-a)^n\bigr) \]

e

\[ g(x)=\frac{g^{(n)}(a)}{n!}(x-a)^n+o\bigl((x-a)^n\bigr), \]

quando \(x\to a\). Dividindo numerador e denominador por \((x-a)^n/n!\), segue que

\[ \frac{f(x)}{g(x)} = \frac{f^{(n)}(a)+\varepsilon (x)}{g^{(n)}(a)+\delta (x)}, \]

onde \(\varepsilon (x)\to 0\) e \(\delta (x)\to 0\) quando \(x\to a\).

Como \(g^{(n)}(a)\neq 0\), o denominador permanece não nulo para \(x\) suficientemente próximo de \(a\). Passando ao limite, obtemos

\[ \lim _{x\to a}\frac{f(x)}{g(x)} = \frac{f^{(n)}(a)}{g^{(n)}(a)}. \]

O polinômio de Taylor é, neste capítulo, um objeto essencialmente finito: derivadas sucessivas determinam a aproximação polinomial local e o resto mede quanto dessa informação ainda falta para recuperar a função.

Perguntar o que acontece quando a ordem tende a infinito é uma questão de outra natureza. É preciso estudar convergência de séries de funções e séries de potências antes de decidir quando os polinômios de Taylor convergem para a própria função. Essa passagem, bem como a definição de função analítica, será feita no capítulo Sequências, séries e aproximação de funções.

O percurso do capítulo pode agora ser visto como uma única ideia em escalas sucessivas. A derivada produz a melhor aproximação linear; os teoremas do valor médio transformam essa informação local em controle global; convexidade lê a variação das inclinações; e Taylor usa derivadas sucessivas para produzir aproximações polinomiais locais de ordem cada vez maior.

Lista de exercícios

Exercício 9.1
Seja \(f:I\to \mathbb {R}\), com \(a\) ponto interior de \(I\).
  1. Prove que, se \(f\) é diferenciável em \(a\), então

    \[ \lim \limits _{h\to 0}\frac{f(a+h)-f(a-h)}{2h}=f'(a). \]
  2. Mostre, por meio de um exemplo, que a existência desse limite não implica, em geral, a existência de \(f'(a)\).

Exercício 9.2

Seja \(X\subset \mathbb {R}\), seja \(f:X\to \mathbb {R}\) contínua e seja \(a\in X\cap X'\). Defina

\[ \xi (x)=\frac{f(x)-f(a)}{x-a}\quad (x\neq a),\qquad \xi (a)=L. \]

Prove que \(\xi \) é contínua em \(a\) se, e somente se, \(f'(a)\) existe, no sentido relativo a \(X\), e \(f'(a)=L\).

Exercício 9.3

Seja \(I\subset \mathbb {R}\) um intervalo, seja \(a\in I\) e seja \(f\in C^1(I)\). Sejam \((x_n)\) e \((y_n)\) sequências em \(I\) tais que \(x_n\neq y_n\) para todo \(n\) e

\[ x_n\to a,\qquad y_n\to a. \]

Prove que

\[ \frac{f(x_n)-f(y_n)}{x_n-y_n}\longrightarrow f'(a). \]
Exercício 9.4

Suponha que \(f\) esteja definida numa vizinhança de \(x\) e que \(f''(x)\) exista. Mostre que

\[ \lim \limits _{h\to 0}\frac{f(x+h)+f(x-h)-2f(x)}{h^2}=f''(x). \]

Exiba também um exemplo em que esse limite exista, mas \(f''(x)\) não exista.

Exercício 9.5
O resultado sobre diferenciabilidade uniforme em compactos depende da compacidade. Considere \(f:\mathbb {R}\to \mathbb {R}\), \(f(x)=x^3\).
  1. Mostre que \(f\in C^1(\mathbb {R})\).

  2. Prove que \(f\) não é uniformemente diferenciável em \(\mathbb {R}\). Mais precisamente, mostre que existe \(\varepsilon _0\gt 0\) tal que, para todo \(\delta \gt 0\), existem \(x\in \mathbb {R}\) e \(h\in \mathbb {R}\), com \(0\lt |h|\lt \delta \), satisfazendo

    \[ \left|\frac{f(x+h)-f(x)}{h}-f'(x)\right|\ge \varepsilon _0. \]
Exercício 9.6
Considere as funções
\[ f(x)=\operatorname {sen}(1/x),\qquad g(x)=x\operatorname {sen}(1/x),\qquad h(x)=x^2\operatorname {sen}(1/x) \quad (x\neq 0), \]
com valor \(0\) em \(x=0\).
  1. Estude a diferenciabilidade em \(0\) de \(f\), \(g\) e \(h\).

  2. Mostre que \(h'(0)\) existe, mas \(h'\) não tem limite em \(0\).

  3. Encontre sequências \((x_n)\) e \((y_n)\) convergindo para \(0\) tais que as inclinações das secantes de \(h\) não convirjam.

Exercício 9.7
Seja
\[ f(x)= \begin{cases} |x|^a\operatorname {sen}(|x|^{-c}), & x\neq 0,\\ 0, & x=0, \end{cases} \qquad a\in \mathbb {R},\qquad c\gt 0. \]
Determine, em função de \(a\) e \(c\):
  1. quando \(f\) é contínua em \(0\);

  2. quando \(f'(0)\) existe;

  3. quando \(f'\) é limitada;

  4. quando \(f'\) é contínua em \(0\).

Exercício 9.8
Dizemos que \(f\) satisfaz uma condição de Lipschitz de ordem \(\alpha \) em \(c\) se existe \(M\gt 0\) tal que
\[ |f(x)-f(c)|\le M|x-c|^\alpha \]
para todo \(x\) suficientemente próximo de \(c\).
  1. Prove que, se \(\alpha \gt 0\), então \(f\) é contínua em \(c\).

  2. Prove que, se \(\alpha \gt 1\), então \(f'(c)=0\).

  3. Mostre que, se essa condição vale em todo ponto de um intervalo \(I\) com \(\alpha \gt 1\), então \(f\) é constante em \(I\).

  4. Dê um exemplo com \(\alpha =1\) em que a derivada no ponto não exista.

Exercício 9.9

Suponha que \(f\) seja contínua em \([a,b]\), diferenciável em \((a,b)\) e satisfaça

\[ f(a)=f(b)=0. \]

Prove que, para todo \(k\in \mathbb {R}\), existe \(c\in (a,b)\) tal que

\[ f'(c)=k\, f(c). \]
Exercício 9.10

Reescreva o Teorema do Valor Médio na forma

\[ \frac{f(x+h)-f(x)}{h}=f'(x+\theta h),\qquad 0\lt \theta \lt 1. \]

Determine \(\theta =\theta (x,h)\) nos casos

\[ f(x)=x^2,\qquad f(x)=x^3,\qquad f(x)=e^x,\qquad f(x)=\log x, \]

e, com \(x\) fixo, calcule \(\lim \limits _{h\to 0}\theta (x,h)\) em cada caso.

Exercício 9.11
Sejam \(f,g:[a,b]\to \mathbb {R}\) contínuas em \([a,b]\) e diferenciáveis em \((a,b)\).
  1. Prove que existe \(c\in (a,b)\) tal que

    \[ [f(b)-f(a)]g'(c)=[g(b)-g(a)]f'(c). \]
  2. Considere

    \[ f(x)=3x^4-2x^3-x^2+1,\qquad g(x)=4x^3-3x^2-2x \]

    em \([0,1]\). Mostre que, nos pontos em que o quociente está definido,

    \[ \frac{f'(x)}{g'(x)} \]

    nunca é igual a

    \[ \frac{f(1)-f(0)}{g(1)-g(0)} \]

    para \(0\lt x\le 1\), e explique por que isso não contradiz o resultado anterior.

Exercício 9.12

Suponha que \(f\) e \(g\) sejam diferenciáveis numa vizinhança de \(a\), que

\[ f(a)=g(a)=0 \]

e que

\[ g'(a)\neq 0. \]

Prove que

\[ \lim \limits _{t\to a}\frac{f(t)}{g(t)}=\frac{f'(a)}{g'(a)}. \]
Exercício 9.13

Seja \(X\subset \mathbb {R}\) e sejam \(f,g,h:X\to \mathbb {R}\) tais que

\[ f(x)\le g(x)\le h(x)\quad \text{para todo }x\in X. \]

Suponha que \(a\in X\cap X'\), que \(f(a)=h(a)\) e que \(f'(a)\) e \(h'(a)\) existam e sejam iguais. Prove que \(g'(a)\) existe e coincide com esse valor.

Exercício 9.14
Determine os intervalos de crescimento e decrescimento, bem como os máximos e mínimos, quando existirem, das funções seguintes:
  1. \(f(x)=x^3+ax+b\);

  2. \(f(x)=\log (x^2-9)\), em seu domínio;

  3. \(f(x)=x^{2/3}(x-1)^4\), em \([0,1]\);

  4. \(f(x)=\dfrac {\operatorname {sen}x}{x}\) para \(x\neq 0\), com \(f(0)=1\), em \(\left[0,\dfrac {\pi }{2}\right]\).

Exercício 9.15
Seja \(a\) um ponto de máximo local de uma função \(f\).
  1. Mostre que, se existe a derivada à direita em \(a\), então

    \[ f'_+(a)\le 0. \]
  2. Mostre que, se existe a derivada à esquerda em \(a\), então

    \[ f'_-(a)\ge 0. \]
  3. Dê um exemplo em que ambas existam, mas sejam diferentes.

Exercício 9.16

Suponha que \(g:\mathbb {R}\to \mathbb {R}\) tenha derivada limitada:

\[ |g'(x)|\le M\qquad \text{para todo }x\in \mathbb {R}. \]

Fixado \(\varepsilon \gt 0\), defina

\[ f(x)=x+\varepsilon g(x). \]

Prove que, se \(\varepsilon M\lt 1\), então \(f\) é injetiva e sua inversa \(f^{-1}:f(\mathbb {R})\to \mathbb {R}\) é diferenciável.

Exercício 9.17

Prove a versão lateral da regra de L’Hôpital: sejam \(f\) e \(g\) funções definidas em uma vizinhança à direita perfurada de \(a\), diferenciáveis em \((a,a+\delta )\) para algum \(\delta \gt 0\), com

\[ g'(x)\neq 0 \qquad \text{para todo }x\in (a,a+\delta ). \]

Suponha que

\[ \lim _{x\to a^+}\frac{f'(x)}{g'(x)}=L\in \mathbb {R} \]

e que

\[ f(x)\to 0,\qquad g(x)\to 0 \qquad \text{quando }x\to a^+. \]

Mostre que, para \(x\gt a\) suficientemente próximo de \(a\), tem-se \(g(x)\neq 0\) e

\[ \lim _{x\to a^+}\frac{f(x)}{g(x)}=L. \]
Exercício 9.18

Na situação da regra de L’Hôpital na forma \(0/0\), suponha agora que

\[ \lim _{x\to a}\frac{f'(x)}{g'(x)}=+\infty \qquad \text{ou}\qquad \lim _{x\to a}\frac{f'(x)}{g'(x)}=-\infty , \]

mantendo as hipóteses de continuidade em \(a\), diferenciabilidade em uma vizinhança perfurada de \(a\) e \(g'(x)\neq 0\) para \(x\neq a\) suficientemente próximo de \(a\). Mostre que, respectivamente,

\[ \lim _{x\to a}\frac{f(x)}{g(x)}=+\infty \qquad \text{ou}\qquad \lim _{x\to a}\frac{f(x)}{g(x)}=-\infty . \]
Exercício 9.19

Prove a seguinte versão da regra de L’Hôpital para a indeterminação \(\infty /\infty \): suponha que \(f\) e \(g\) sejam diferenciáveis em uma vizinhança perfurada de \(a\), que \(g'(x)\neq 0\) para \(x\neq a\) suficientemente próximo de \(a\), que \(|g(x)|\to \infty \) quando \(x\to a\) e que

\[ \lim _{x\to a}\frac{f'(x)}{g'(x)}=L\in \mathbb {R}. \]

Mostre que, se também \(|f(x)|\to \infty \) quando \(x\to a\), então

\[ \lim _{x\to a}\frac{f(x)}{g(x)}=L. \]
Exercício 9.20
Prove a fórmula de Leibniz:
\[ (fg)^{(n)}(x)=\sum _{k=0}^n \binom {n}{k} f^{(k)}(x)g^{(n-k)}(x). \]
Exercício 9.21
Sejam \(I\) e \(J\) intervalos abertos, e sejam \(f:I\to J\) e \(g:J\to \mathbb {R}\) funções de classe \(C^n\).
  1. Prove que \(g\circ f\) é de classe \(C^n\).

  2. Seja agora \(f:I\to J\) bijetiva, de classe \(C^2\), com \(f'(x)\neq 0\) em todo ponto de \(I\). Se \(a\in I\) e \(b=f(a)\), calcule \(\bigl(f^{-1}\bigr)''(b)\) em termos de \(f'(a)\) e \(f''(a)\).

Exercício 9.22
Seja \(f:[a,b]\to \mathbb {R}\) uma função de classe \(C^n\).
  1. Se \(f\) possui \(n+1\) raízes distintas em \([a,b]\), prove que existe pelo menos um ponto \(c\in (a,b)\) tal que

    \[ f^{(n)}(c)=0. \]
  2. Utilize o item anterior para demonstrar que um polinômio de grau \(n\) não pode possuir mais do que \(n\) raízes reais.

Exercício 9.23

Suponha que \(f\) seja contínua em \([a,b]\) e duas vezes diferenciável em \((a,b)\). Se a reta secante que passa por \((a,f(a))\) e \((b,f(b))\) encontra o gráfico de \(f\) em um terceiro ponto distinto, prove que existe \(c\in (a,b)\) tal que

\[ f''(c)=0. \]
Exercício 9.24

Exercício avançado. Seja \(f\in C^\infty (\mathbb {R})\) tal que

\[ f(a)=f'(a)=f''(a)=\cdots =0. \]

Prove que, para cada \(k\in \mathbb {N}\), existe \(\varphi \in C^\infty (\mathbb {R})\) tal que

\[ f(x)=(x-a)^k\varphi (x),\qquad x\in \mathbb {R}. \]
Exercício 9.25

Exercício avançado. Suponha que \(f\) seja de classe \(C^{n+2}\) em uma vizinhança de \(a\) e que \(f^{(n+2)}(a)\neq 0\). Na fórmula de Taylor com resto de Lagrange,

\[ f(a+h)=\sum _{j=0}^n \frac{f^{(j)}(a)}{j!}h^j +\frac{f^{(n+1)}(a+\theta _n(h)h)}{(n+1)!}h^{n+1}, \qquad 0\lt \theta _n(h)\lt 1, \]

prove que, para \(h\) suficientemente pequeno, o parâmetro \(\theta _n(h)\) é determinado de modo único e satisfaz

\[ \theta _n(h)\longrightarrow \frac{1}{n+2} \qquad \text{quando }h\to 0. \]
Exercício 9.26
Sejam \(f\) e \(g\) funções analíticas em um intervalo \(I\).
  1. Prove que, se todas as derivadas de \(f\) e \(g\) coincidem em um ponto \(a\in I\), então

    \[ f=g \]

    em todo o intervalo. Sugestão: considere o conjunto dos pontos \(x\in I\) para os quais todas as derivadas de \(f-g\) se anulam em \(x\), e mostre que esse conjunto é não vazio, aberto e fechado em \(I\).

  2. Mostre também que basta que \(f\) e \(g\) coincidam num subconjunto de \(I\) com ponto de acumulação.

  3. Explique por que isso falha, em geral, para funções apenas de classe \(C^\infty \).

Exercício 9.27
Prove a caracterização usual de convexidade: uma função \(f:I\to \mathbb {R}\) é convexa se, e somente se,
\[ f((1-t)a+tb)\le (1-t)f(a)+tf(b) \]
para todos \(a,b\in I\) e todo \(t\in [0,1]\).
  1. Verifique que \(f(x)=e^x\) é convexa e deduza a desigualdade

    \[ a^\alpha b^\beta \le \alpha a+\beta b \]

    quando \(a,b\gt 0\), \(\alpha ,\beta \ge 0\) e \(\alpha +\beta =1\).

  2. Prove a desigualdade de Jensen para combinações convexas finitas.

  3. Deduza daí a desigualdade entre média aritmética e média geométrica ponderadas.

Exercício 9.28
Exercício avançado. Seja \(f:(a,b)\to \mathbb {R}\) uma função convexa. Não suponha que \(f\) seja diferenciável nem contínua.
  1. Prove que, para todo \(x\in (a,b)\), existem as derivadas laterais

    \[ f'_-(x)\qquad \text{e}\qquad f'_+(x), \]

    e que

    \[ f'_-(x)\le f'_+(x). \]
  2. Mostre que o conjunto dos pontos em que \(f\) não é diferenciável é, no máximo, enumerável.

  3. Prove que \(f\) é localmente Lipschitziana em \((a,b)\) e, consequentemente, contínua em todo o intervalo.

Exercício 9.29
Seja \(I\subset \mathbb {R}\) um intervalo fechado e não vazio, munido da métrica usual, e seja \(f:I\to I\) diferenciável. Suponha que exista \(A\lt 1\) tal que
\[ |f'(x)|\le A \]
para todo \(x\in I\).
  1. Prove que \(f\) tem um único ponto fixo.

  2. Prove que, para qualquer \(x_0\in I\), a sequência definida por

    \[ x_{n+1}=f(x_n) \]

    converge para esse ponto fixo.

  3. Dê um exemplo de função \(C^\infty \) em \(\mathbb {R}\) tal que \(|f'(x)|\lt 1\) para todo \(x\), mas que não possua ponto fixo.

Exercício 9.30

Seja \(f\) diferenciável em \([a,b]\), com \(f(a)=0\), e suponha que exista \(A\gt 0\) tal que

\[ |f'(x)|\le A|f(x)| \qquad \text{para todo }x\in [a,b]. \]

Prove que

\[ f\equiv 0 \]

em \([a,b]\).

Exercício 9.31

Considere o problema de valor inicial

\[ y'=\phi (x,y),\qquad y(a)=c. \]

Suponha que \(\phi \) satisfaça uma condição de Lipschitz na variável \(y\), isto é, que exista \(A\gt 0\) tal que

\[ |\phi (x,y_2)-\phi (x,y_1)|\le A|y_2-y_1| \]

para todos os pontos considerados.

  1. Prove, usando o exercício anterior, que esse problema admite no máximo uma solução em qualquer intervalo comum de definição.

  2. Mostre que a unicidade falha para

    \[ y'=\sqrt{y},\qquad y(0)=0. \]
Exercício 9.32

Reescreva uma equação diferencial linear de ordem \(n\) como um sistema de primeira ordem e deduza, a partir disso, um teorema de unicidade para o problema de valor inicial de equações lineares de ordem superior.