Séries
Uma série numérica é uma soma infinita interpretada por meio do limite de suas somas parciais. Essa interpretação é essencial: embora a notação sugira uma soma com infinitas parcelas, o objeto rigoroso que se estuda é uma sequência de somas finitas. Desse modo, a teoria das séries prolonga naturalmente a teoria das sequências, mas introduz fenômenos próprios das somas infinitas.
Neste capítulo, estudaremos critérios de convergência, convergência absoluta e condicional, séries alternadas, rearranjos e exemplos fundamentais. O objetivo é desenvolver ferramentas que permitam decidir quando uma soma infinita é bem definida e compreender de que modo seu valor depende da estrutura dos termos e, em certos casos, da ordem em que eles são somados.
4.1 Convergência
A teoria começa exatamente onde terminou o capítulo anterior: uma série é convergente quando a sequência de suas somas parciais converge. Convém manter essa tradução em mente, pois quase todos os argumentos deste capítulo serão, em última instância, argumentos sobre sequências.
Dada uma sequência \((a_n)\) de números reais, associamos a ela a sequência \((s_n)\) de suas somas parciais, definida por
e, em geral,
A expressão
é chamada série infinita, ou simplesmente série. A sequência \((s_n)\) é chamada sequência das somas parciais, e \(s_n\) é a \(n\)-ésima soma parcial da série. Os termos da série são os números \(a_1,a_2,a_3,\ldots \), enquanto \(s_1,s_2,s_3,\ldots \) são suas somas parciais.
As primeiras somas parciais da série \(\sum _{k=1}^{\infty }\frac{1}{k}\) são
\[ s_1=1,\qquad s_2=1+\frac12,\qquad s_3=1+\frac12+\frac13,\qquad s_4=1+\frac12+\frac13+\frac14. \]As primeiras somas parciais da série \(\sum _{k=1}^{\infty }\frac{1}{2^k}\) são
\[ s_1=\frac12,\qquad s_2=\frac12+\frac14,\qquad s_3=\frac12+\frac14+\frac18,\qquad s_4=\frac12+\frac14+\frac18+\frac1{16}. \]As primeiras somas parciais da série \(\sum _{k=1}^{\infty }x^{k-1}\) são
\[ s_1=1,\qquad s_2=1+x,\qquad s_3=1+x+x^2,\qquad s_4=1+x+x^2+x^3. \]
O estudo de uma série reduz-se, portanto, ao estudo de sua sequência de somas parciais.
Observação. Por abuso de linguagem, é usual escrever \(\sum _{k=1}^{\infty }a_k\) tanto para a série quanto, quando há convergência, para a sua soma.
Assim como ocorre nas somas finitas, o índice de uma série é uma variável muda. Portanto,
Também usaremos a notação
sempre que os termos envolvidos estejam definidos.
A convergência de uma série não depende de seus termos iniciais, mas apenas do comportamento de sua cauda. Mais precisamente, vale a proposição seguinte.
Se \(s_n=\sum _{j=1}^{n} z_j\), então, para \(n\ge m\), temos
Logo, a sequência das somas parciais da série de cauda difere da sequência \((s_n)\) apenas por uma constante. Portanto, uma delas converge se, e somente se, a outra converge, e a identidade da soma segue passando ao limite.
A série
é um dos exemplos mais simples de série convergente.
Provemos que ela converge para 1. A soma parcial dos primeiros \(n\) termos é
Como se trata de uma soma geométrica finita,
e logo
de modo que \(s_n\) tende a 1.
Seja \(s_n=\sum _{k=1}^{n} a_k\). Como a série converge, a sequência \((s_n)\) converge para algum número \(s\). Para \(n\ge 2\), temos
Como \(s_n\to s\) e também \(s_{n-1}\to s\), segue que
Portanto, \(a_n\to 0\).
A série harmônica
diverge. Ela é um exemplo fundamental: seus termos tendem a zero, mas a série não converge. Ao longo do texto, denotaremos por \(H_n\) sua \(n\)-ésima soma parcial, isto é,
Para provar a divergência, 5 consideremos a subsequência \(\bigl(H_{2^k}\bigr)_{k\ge 0}\). Agrupando os termos entre potências sucessivas de \(2\), obtemos
Em cada bloco
há \(2^{j-1}\) termos, todos maiores ou iguais a \(1/2^j\). Portanto, cada bloco é maior ou igual a \(1/2\). Assim,
Como essa subsequência é ilimitada, a sequência \((H_n)\) também é ilimitada. Logo, a série harmônica diverge.
Linearidade
Como vimos na Seção 1.6, os somatórios finitos possuem as seguintes propriedades:
O próximo teorema é a extensão natural dessas propriedades para séries infinitas convergentes.
Para cada \(n\), pelas propriedades dos somatórios finitos,
Passando ao limite quando \(n\to \infty \), o primeiro termo do lado direito converge para \(c\sum _{k=1}^{\infty } a_k\) e o segundo para \(d\sum _{k=1}^{\infty } b_k\). Logo, a sequência das somas parciais de \(\sum (ca_n+db_n)\) converge, e sua soma é dada por (4.3).
O teorema anterior tem o seguinte corolário, frequentemente útil para concluir divergência.
De fato, \(b_n=(a_n+b_n)-a_n\). Se \(\sum (a_n+b_n)\) convergisse, então, pela linearidade e pela convergência de \(\sum a_n\), a série \(\sum b_n\) também convergiria. Isso contradiz a hipótese. Logo, \(\sum (a_n+b_n)\) diverge.
Se \(\sum a_n\) e \(\sum b_n\) são ambas divergentes, a série \(\sum (a_n+b_n)\) pode convergir ou divergir. Por exemplo, se \(a_n=b_n=1\) para todo \(n\), então \(\sum (a_n+b_n)\) diverge. Por outro lado, se \(a_n=1\) e \(b_n=-1\) para todo \(n\), então \(\sum (a_n+b_n)\) converge.
Seja \(s_n=\sum _{k=1}^{n}a_k\). Se a série converge, então \((s_n)\) é uma sequência de Cauchy. Escolhendo \(N\) suficientemente grande e tomando \(n\ge m\ge N\), temos
após aumentar \(N\) em uma unidade, se necessário.
Reciprocamente, suponha que as caudas da série satisfaçam a condição do enunciado. Para \(n\gt m\ge N\),
Logo \((s_n)\) é de Cauchy. Pela completude de \(\mathbb {R}\), ela converge; portanto a série converge.
O critério de Cauchy muda o ponto de vista: em vez de procurar a soma, podemos perguntar se toda cauda suficientemente distante tem soma pequena. Essa ideia será decisiva quando tratarmos de convergência absoluta.
Dadas as séries \(\sum a_n\) e \(\sum b_n\), suponha que existe um número natural \(N\) tal que \(a_n = b_n\) para todo \(n \geq N\). Prove que \(\sum a_n\) é convergente se, e somente se, \(\sum b_n\) é convergente. Assim, a convergência de uma série não é afetada pela alteração de um número finito de termos. (Claro, o valor da soma pode mudar.) Seja \((a_n)\) uma sequência de números reais não negativos. Prove que \(\sum a_n\) converge se, e somente se, a sequência das somas parciais é limitada. Prove que a série \(\sum _{j=1}^\infty z_j\) converge se, e somente se, \(\sum _{j=m+1}^\infty z_j\) converge. Se uma dessas séries converge, então Reprove diretamente, a partir do critério de Cauchy para sequências, o Teorema 4.11: Uma série infinita \(\sum a_n\) converge se, e somente se, para cada \(\varepsilon \gt 0\), existe um número natural \(N\) tal que, se \(n \geq m \geq N\), então
4.2 Primeiros modelos: séries que podemos somar
Antes de acumular critérios de decisão, vale conhecer séries cuja soma pode ser calculada diretamente. Elas serão nossas primeiras referências: mais adiante, em vez de tentar somar uma série complicada, tentaremos compará-la com um desses modelos.
4.2.1 Série geométrica
A série geométrica é obtida somando os termos de uma progressão geométrica, isto é,
Como vimos no exercício 1.14, se \(x\neq 1\), então a \(n\)-ésima soma parcial é dada por
No caso \(x=1\), temos simplesmente
Passemos ao limite das somas parciais. Se \(x\neq 1\), então
Assim, o comportamento das somas parciais é determinado pelo comportamento de \(x^n\). Como vimos no exercício 2.34, se \(\left\lvert x\right\rvert \lt 1\), então \(x^n\to 0\), e portanto
Se \(|x|\ge 1\) e \(p\neq 0\), os termos \(px^{k-1}\) não tendem a zero. Portanto, pela condição necessária de convergência, a série diverge.
Obtemos, assim, o seguinte resultado.
Tomando \(p=1\) na fórmula da série geométrica, obtemos
\[ 1+x+x^2+\cdots +x^n+\cdots =\frac{1}{1-x}, \qquad |x|\lt 1. \]Tomando \(p=1\) e substituindo \(x\) por \(-x\), obtemos
\[ 1-x+x^2-x^3+x^4-\cdots +(-1)^n x^n+\cdots =\frac{1}{1+x}, \qquad |x|\lt 1. \]
4.2.2 Série telescópica
A propriedade telescópica de soma (vide exercício 1.6.c)) nos diz que
Uma série \(\sum _{k=1}^{\infty }a_k\) é dita telescópica em relação à sequência \((b_n)\) se cada termo \(a_n\) puder ser expresso como
O exemplo anterior pode ser generalizado para o seguinte teorema.
a série \(\sum _{k=1}^{\infty }a_k\) converge se, e somente se, a sequência \((b_n)\) converge;
se \(b_n\to b\), então
\[ \sum _{k=1}^{\infty }a_k=b_1-b. \]
Seja \(s_n\) a \(n\)-ésima soma parcial. Então
Logo, \((s_n)\) converge se, e somente se, \((b_{n+1})\) converge, o que equivale à convergência de \((b_n)\). Se \(b_n\to b\), então
de modo que
Exercícios básicos
Para cada uma das séries abaixo, identifique se ela é geométrica, telescópica ou se possui somas parciais que podem ser simplificadas diretamente. Determine se a série converge e, quando convergir, calcule sua soma. \(\displaystyle \sum _{j=0}^\infty \frac{2}{3^j}\) \(\displaystyle \sum _{j=1}^\infty \frac{1}{j(j+2)}\) \(\displaystyle \sum _{j=3}^\infty \frac{4}{j^2-4}\) \(\displaystyle \sum _{j=0}^\infty \frac{2}{j^2+4j+3}\) \(\displaystyle \sum _{j=1}^\infty \frac{6}{(3j-2)(3j+1)}\) \(\displaystyle \sum _{n=1}^\infty \frac{1}{(2n - 1)(2n + 1)} . \) \(\displaystyle \sum _{n=1}^\infty \frac{2}{3^{n-1}} . \) \(\displaystyle \sum _{n=2}^\infty \frac{2}{n^2 - 1}. \) \(\displaystyle \sum _{n=1}^\infty \frac{2^n + 3^n}{6^n} . \) \(\displaystyle \sum _{j=1}^\infty \frac{2j+1}{j^2(j+1)^2}\) \(\displaystyle \sum _{j=0}^\infty \frac{1}{\sqrt{j}+\sqrt{j+1}}\) \(\displaystyle \sum _{n=1}^\infty \frac{\sqrt{n + 1} - \sqrt{n}}{\sqrt{n^2 + n}} \) \(\displaystyle \sum _{n=1}^\infty \frac{n}{(n+1)(n+2)(n+3)} \) \(\displaystyle \sum _{n=1}^\infty \frac{2n + 1}{n^2(n+1)^2} \) \(\displaystyle \sum _{n=1}^\infty \frac{2^n + n^2 + n}{2^{n+1}n(n+1)} \)
Exercícios complementares
Seja \((x_j)\) uma sequência de números reais não nulos tal que \(x_j\to +\infty \). Mostre que \( \displaystyle \sum _{j=0}^\infty \left( \frac{1}{x_j} - \frac{1}{x_{j+1}} \right) \) converge. Pode \(\sum _{j=0}^\infty (x_j + y_j)\) convergir quando pelo menos uma de \(\sum _{j=0}^\infty x_j\) e \(\sum _{j=0}^\infty y_j\) diverge? Mostre que, se \(\sum _{j=0}^\infty z_j\) converge, onde \(z_j \neq 0\) para todo \(j\), então \( \displaystyle \sum _{j=0}^\infty \frac{1}{z_j} \) diverge. A série \( \displaystyle \sum _{j=1}^\infty (-1)^j 2^{1/j} \) é convergente? Mostre que \(\sum _{j=1}^\infty a\, j\) converge se, e somente se, \(a = 0\). Avalie as seguintes somas: \(\sum _{j=0}^\infty \frac{(-1)^j + 2j}{3^j}\); \(\sum _{j=1}^\infty \left(\frac{2}{5^j} - \frac{1}{j(j+1)}\right)\). Seja \((x_n)\) uma sequência decrescente de termos positivos e suponha que \(\sum _{j=0}^\infty x_j\) converge. Mostre que \( \displaystyle \lim _{n \to \infty } nx_n = 0. \) Este resultado é conhecido como o teorema de Pringsheim. Dica: Defina \(m=\lfloor n/2\rfloor \). Como \((x_n)\) é decrescente, \( \displaystyle S_n-S_m=\sum _{k=m+1}^{n}x_k\geq (n-m)x_n. \) Além disso, \(n-m\ge n/2\). Use o fato de que \(S_n-S_m\to 0\).
4.3 Séries de termos não negativos: comparar com modelos
Para termos não negativos não há cancelamento: as somas parciais só podem crescer. A pergunta deixa então de ser “qual é a soma?” e passa a ser “esse crescimento permanece limitado?”. As próximas ferramentas são três formas da mesma estratégia: comparar a série desconhecida com um comportamento que já entendemos.
4.3.1 Comparação termo a termo
Comecemos pelo caso em que a desigualdade entre os termos é visível. Para séries de termos não negativos, as somas parciais são crescentes; por isso, comparar termos equivale a comparar o crescimento dessas somas.
Se \(\sum a_n\) converge e \(0 \leq b_n \leq a_n\) para todo \(n\), então \(\sum b_n\) converge.
Se \(\sum a_n\) diverge e \(0 \leq a_n \leq b_n\) para todo \(n\), então \(\sum b_n\) diverge.
Seja \(t_n=\sum _{k=1}^{n} b_k\) a sequência de somas parciais de \(\sum b_n\). Como \(b_n\ge 0\) para todo \(n\), a sequência \((t_n)\) é crescente.
Na parte 1, se \(s_n=\sum _{k=1}^{n} a_k\), então \(0\le t_n\le s_n\) para todo \(n\). Como \(\sum a_n\) converge, a sequência \((s_n)\) é limitada superiormente; logo, \((t_n)\) também é limitada superiormente. Pelo teorema da convergência monótona, \((t_n)\) converge, e portanto \(\sum b_n\) converge.
A parte 2 é a contrapositiva da parte 1: se \(\sum b_n\) convergisse e \(0\le a_n\le b_n\) para todo \(n\), então \(\sum a_n\) também convergiria, o que contradiz a hipótese. Portanto, \(\sum b_n\) diverge.
Exercícios básicos
Use o Critério da Comparação para determinar se as séries são convergentes ou divergentes: \(\sum _{n=1}^\infty \frac{1}{n^2 + n + 1}\) \(\sum _{n=2}^\infty \frac{\sqrt{n}}{n - 1}\) \(\sum _{n=1}^\infty \frac{1}{n^3 + 3n + 1}\) \(\sum _{n=1}^\infty \frac{1}{2^n + 1}\) \(\sum _{n=2}^\infty \frac{1}{\ln n}\) Mostre que \( \displaystyle \sum _{j=1}^\infty \frac{1}{e^j \sqrt{j}} \) converge. Mostre que \( \displaystyle \sum _{j=1}^\infty \frac{1}{\sqrt{j}} \) diverge. Seja \((x_n)\) uma sequência de termos positivos e suponha que \(\sum _{j=0}^\infty x_j\) converge. Mostre que \(\sum _{j=0}^\infty x_j^2\) também converge. Seja \((x_n)\) uma sequência de termos positivos. Mostre que \(\sum _{j=0}^\infty x_j\) converge se, e somente se, \( \displaystyle \sum _{j=0}^\infty \frac{x_j}{1 + x_j} \) converge. Mostre que, se \(\sum _{j=0}^\infty x_j^2\) converge, então \( \displaystyle \sum _{j=1}^\infty \frac{|x_j|}{j} \) também converge.
Exercícios mais difíceis
Seja \((a_n)\) uma sequência decrescente de termos não negativos. Prove o critério de condensação de Cauchy: a série \(\sum _{n=1}^\infty a_n\) converge se, e somente se, a série \(\sum _{k=0}^\infty 2^k a_{2^k}\) converge. Use a parte (a) para mostrar que a série \(p\)-série \(\sum 1/n^p\) converge se \(p \gt 1\) e diverge se \(0 \lt p \leq 1\). Use as partes (a) e (b) para mostrar que \(\sum _{n=2}^\infty \frac{1}{n (\ln n)^p}\) converge se \(p \gt 1\) e diverge se \(0 \lt p \leq 1\).
A comparação direta é poderosa quando a desigualdade é evidente, mas às vezes obriga a adivinhar uma estimativa pouco natural. Há outra maneira de construir séries-modelo: transformar a soma discreta em uma questão sobre áreas.
4.3.2 Comparação com integrais e séries \(p\)
Comparar uma série nova só é útil quando já possuímos bons modelos. A série geométrica é um deles; as séries \(p\) formarão outra família fundamental. O elo entre somas e integrais fornece esses modelos de maneira sistemática.
A noção de integral sobre um intervalo ilimitado será formalizada na Seção 10.8, no capítulo de integração. Em particular, para uma função Riemann-integrável em todo intervalo \([1,R]\), escrevemos
quando esse limite existe como número real; veja a Definição 10.33. É essa noção que usaremos no critério a seguir.
Escreva \(a_k=f(k)\) e \(s_n=\sum _{k=1}^n a_k\). Como \(f\) é decrescente, para todo \(k\ge 2\) e todo \(x\in [k-1,k]\) temos \(f(k)\le f(x)\). Logo,
Se \(\int _1^\infty f(x)\, dx\) converge, então
Como \((s_n)\) é crescente, por ter termos positivos, ela converge. Portanto, a série converge.
Reciprocamente, para todo \(k\ge 1\) e todo \(x\in [k,k+1]\) temos \(f(x)\le f(k)\). Assim,
Se a série converge, então \((s_n)\) é limitada, e a desigualdade anterior mostra que as integrais \(\int _1^t f(x)\, dx\) também são limitadas superiormente. Como essas integrais crescem com \(t\), a integral imprópria converge. Equivalentemente, se a integral imprópria diverge, a série também diverge.
\(\sum _{n=1}^\infty \frac{n}{(4n - 3)(4n - 1)}\) \(\sum _{n=1}^\infty \frac{\sqrt{2n - 1} \log (4n + 1)}{n(n + 1)}\) \(\sum _{n=1}^\infty \frac{n + 1}{2^n}\) \(\sum _{n=1}^\infty \frac{n^2}{2^n}\) \(\sum _{n=1}^\infty \frac{|\sin (nx)|}{n^2}\) \(\sum _{n=1}^\infty \frac{2 + (-1)^n}{2^n}\) \(\sum _{n=1}^\infty \frac{n!}{(n + 2)!}\) \(\sum _{n=2}^\infty \frac{\log n}{n\sqrt{n + 1}}\) \(\sum _{n=1}^\infty \frac{1}{\sqrt{n(n + 1)}}\)
As séries \(p\) passam agora a funcionar como uma régua assintótica. Muitas séries não são literalmente maiores ou menores que \(1/n^p\) de maneira conveniente, mas se tornam indistinguíveis dela na escala correta.
4.3.3 Comportamento assintótico
A comparação termo a termo pode ser artificial quando duas sequências têm a mesma escala assintótica. Nessa situação, o quociente entre os termos revela a comparação que realmente importa.
Como
existe \(N\in \mathbb {N}\) tal que, para todo \(n\ge N\),
Logo,
Se \(\sum b_n\) converge, então \(\sum (3L/2)b_n\) converge e, pelo critério da comparação, a cauda de \(\sum a_n\) converge. Portanto, \(\sum a_n\) converge. Reciprocamente, se \(\sum a_n\) converge, então a desigualdade \(b_n\lt (2/L)a_n\), válida para \(n\ge N\), mostra novamente pelo critério da comparação que \(\sum b_n\) converge. Assim, as duas séries têm o mesmo comportamento quanto à convergência.
Exercícios básicos
Determine a convergência de cada uma das seguintes séries: \(\sum _{j=0}^\infty \frac{2j+1}{5^j - j}\) \(\sum _{j=1}^\infty \frac{\sqrt{j+1} - \sqrt{j}}{j}\) \(\sum _{j=1}^\infty \frac{e^j}{j^2}\) \(\sum _{j=3}^\infty \frac{1}{\sqrt{j-3} + \sqrt{j+3}}\) \(\sum _{n=1}^\infty \left(\frac{1}{n^2 + 1}\right)^2\) \(\sum _{n=4}^\infty \frac{n^2}{n^3 - 3}\) \(\sum _{n=2}^\infty \frac{4}{n(n+1)}\) \(\sum _{n=7}^\infty \frac{2}{n^2 - 2n - 3}\) \(\sum _{n=2}^\infty \frac{n - 1}{\sqrt{n^6 + 9}}\) \(\sum _{n=0}^\infty \frac{2^n \sin ^2(5n)}{4^n + \cos ^2(n)}\) \(\sum _{n=3}^\infty \frac{e^{-n}}{n^2 + 2n}\) \(\sum _{n=3}^\infty \frac{4n^2 - n}{n^3 + 9}\) \(\sum _{n=1}^\infty \frac{\sqrt{2n^2 + 4n + 1}}{n^3 + 1}\) \(\sum _{j=1}^\infty \left(e^{1/j} - 1\right)^p\) para todo \(p\) racional; \(\sum _{j=1}^\infty \frac{1}{\sqrt{j^2 + 1 - j}}\) \(\sum _{j=1}^\infty \frac{\sqrt{j+1} - \sqrt{j}}{\sqrt{j+1}}\) \(\sum _{j=1}^\infty \frac{1}{j^{2+1/j}}\)
Exercícios complementares
Encontre todos os inteiros \(t\ge 0\) tais que: seja convergente. Considere \(a \gt 0\) e \(b \gt 0\). Encontre todo \(p\) racional tal que: seja convergente.
Convém guardar a diferença entre as três ideias. A comparação direta usa uma desigualdade; o critério integral constrói modelos a partir de funções; a comparação assintótica ignora constantes e detalhes de baixa ordem. Não são três receitas concorrentes, mas três maneiras de responder à mesma pergunta: com que série conhecida este termo se parece?
4.4 Sinais e cancelamento
Quando os termos mudam de sinal, a monotonicidade das somas parciais desaparece. Há então duas razões muito diferentes para uma série convergir: ou seus módulos já formam uma série convergente, ou sinais opostos produzem cancelamento. Essa distinção organiza o restante da teoria.
4.4.1 Convergência absoluta
Até aqui, a positividade dos termos permitiu controlar as somas parciais por monotonicidade e comparação. Quando aparecem sinais diferentes, surge uma possibilidade nova: o cancelamento. Antes de explorá-lo, isolamos uma situação especialmente estável, a convergência absoluta.
Suponha que \(\sum a_n\) seja absolutamente convergente. Pelo critério de Cauchy aplicado à série \(\sum |a_n|\), dado \(\varepsilon \gt 0\), existe \(N\in \mathbb {N}\) tal que, se \(n\ge m\ge N\), então
Pela desigualdade triangular,
Portanto, \(\sum a_n\) satisfaz o critério de Cauchy para séries e, consequentemente, converge.
Quando os termos de uma série são não negativos, convergência e convergência absoluta são equivalentes.
Se \(\sum a_n\) e \(\sum b_n\) são absolutamente convergentes, o mesmo se verifica para a série \(\sum (\alpha a_n+\beta b_n)\) qualquer que seja a escolha de \(\alpha \) e \( \beta \). Essa é uma consequência imediata da desigualdade triangular, e a demonstração será deixada ao leitor.
Mostre que, se \(\sum _{j=0}^\infty x_j\) converge absolutamente, então \(\sum _{j=0}^\infty x_j^2\) também converge. O recíproco é verdadeiro? É verdade que, se \(\sum _{j=0}^\infty x_j\) converge, então \(\sum _{j=0}^\infty x_j^2\) também converge? Mostre que, se \(\sum _{j=0}^\infty z_j\) e \(\sum _{j=0}^\infty w_j\) são séries absolutamente convergentes, então \(\sum _{j=0}^\infty z_j w_j\) e \(\sum _{j=0}^\infty (\alpha z_j + \beta w_j)\) também são absolutamente convergentes para todos os números reais \(\alpha \) e \(\beta \). Mostre que, se \(\sum _{j=0}^\infty z_j\) é uma série absolutamente convergente, então
A convergência absoluta permite esquecer os sinais e voltar ao mundo das séries positivas. Em algumas famílias, a própria forma algébrica dos termos fornece uma comparação geométrica sem que seja preciso adivinhar uma série-modelo.
4.4.2 Quando a forma do termo decide: raiz e razão
se \(R\lt 1\), a série converge absolutamente;
se \(R\gt 1\), a série diverge;
se \(R=1\), o critério não fornece informação sobre a convergência ou divergência.
Se \(R\lt 1\), escolha \(r\) tal que \(R\lt r\lt 1\). Então, para \(n\) suficientemente grande, temos \(|a_n|^{1/n}\le r\), isto é, \(|a_n|\le r^n\). Como a série geométrica \(\sum r^n\) converge, o critério da comparação mostra que \(\sum a_n\) converge absolutamente.
Se \(R\gt 1\), então existem infinitos índices \(n\) tais que \(|a_n|^{1/n}\gt 1\), e portanto \(|a_n|\gt 1\). Em particular, \(a_n\not\to 0\), de modo que a série diverge pelo Teorema 4.5.
Quando \(R=1\), o critério é inconclusivo. De fato, para a série harmônica \(\sum _{n=1}^{\infty }\frac1n\) e para a série \(\sum _{n=1}^{\infty }\frac1{n^2}\), temos \(|a_n|^{1/n}\to 1\) em ambos os casos, mas a primeira diverge e a segunda converge.
Uma variante do mesmo tipo de argumento conduz ao critério da razão.
Se \( \limsup \left| \frac{a_{n+1}}{a_n} \right| \lt 1 \), então a série converge absolutamente.
Se \( \liminf \left| \frac{a_{n+1}}{a_n} \right| \gt 1 \), então a série diverge.
Nos casos restantes, isto é, quando \( \liminf \left| \frac{a_{n+1}}{a_n} \right| \leq 1 \leq \limsup \left| \frac{a_{n+1}}{a_n} \right| \), o critério da razão, por si só, não decide a convergência.
Seja \(L=\limsup \left|\frac{a_{n+1}}{a_n}\right|\). Se \(L\lt 1\), escolha \(r\) tal que \(L\lt r\lt 1\). Então, para \(n\) suficientemente grande,
Fixado tal \(n\), obtemos por indução que \(|a_{n+k}|\le r^k |a_n|\) para todo \(k\ge 0\). Logo, a cauda de \(\sum |a_n|\) é dominada por uma série geométrica, e portanto \(\sum a_n\) converge absolutamente.
Se \(\liminf \left|\frac{a_{n+1}}{a_n}\right|\gt 1\), existe \(r\gt 1\) tal que, para \(n\) suficientemente grande,
Assim, \(|a_n|\) não pode tender a zero. Pelo Teorema 4.5, a série diverge.
A parte (c) decorre do fato de que tanto a série harmônica quanto a série \(\sum 1/n^2\) satisfazem
mas a primeira diverge e a segunda converge.
Considere a série \(\sum n/2^n\). Para \(a_n=n/2^n\), temos
\[ \frac{a_{n+1}}{a_n}=\frac{(n+1)2^n}{2^{n+1}n}=\frac{n+1}{2n}\to \frac12. \]Além disso,
\[ |a_n|^{1/n}=\frac{n^{1/n}}2\to \frac12. \]Assim, tanto o critério da razão quanto o critério da raiz mostram que \(\sum n/2^n\) converge.
Qualquer série da forma \(\sum 1/n^p\), onde \(p \in \mathbb {R}\), é chamada de série-\(p\). Para essa série, se \(p\gt 0\), então
\[ \lim _{n\to \infty }\left(\frac{1}{n^p}\right)^{1/n}=1 \qquad \text{e}\qquad \lim _{n\to \infty }\frac{(n+1)^{-p}}{n^{-p}}=1. \]Assim, os critérios da raiz e da razão são inconclusivos.
Para \(p \leq 1\), temos \(n^p \leq n\), de modo que \(\frac{1}{n^p} \geq \frac{1}{n}\). Como a série harmônica \(\sum 1/n\) diverge, concluímos, pelo critério da comparação, que a série-\(p\) diverge para \(p \leq 1\).
Considere
\[ \sum _{k=1}^{\infty } \frac{p^k}{k!}, \quad 0\lt p\lt \infty . \]Aqui, \(a_k=\frac{p^k}{k!}\). Assim,
\[ \lim _{k \rightarrow \infty } \frac{a_{k+1}}{a_k}=\lim _{k \rightarrow \infty } \frac{p^{k+1}}{p^k} \frac{k!}{(k+1)!}=p \lim _{k \rightarrow \infty } \frac{1}{k+1}=0. \]Pelo critério da razão, a série converge para todo \(p, 0\lt p\lt \infty \). Neste exemplo, a presença de \(k!\) torna o critério da raiz difícil de usar.
Considere \(\sum a_n\), onde
\[ a_n= \begin{cases} \frac{1}{2^k}, & \text{se } n=2k \\ \frac{1}{3^k}, & \text{se } n=2k+1\end{cases}. \]Aqui,
\[ \sum _{n=1}^{\infty } a_n=1+\frac{1}{2}+\frac{1}{3}+\frac{1}{2^2}+\frac{1}{3^2}+\cdots \]Por cálculo,
\[ \frac{a_{n+1}}{a_n}= \begin{cases} \left(\frac{2}{3}\right)^k, & n=2k \\ \frac{1}{2}\left(\frac{3}{2}\right)^k, & n=2k+1\end{cases}. \]Consequentemente, o critério da razão é inconclusivo. Por outro lado,
\[ \sqrt[n]{a_n}=\left\{ \begin{array}{cl} \frac{1}{\sqrt{2}}, & n=2k \\ \frac{1}{\sqrt{3}}(\sqrt{3})^{1/(2k+1)}, & n=2k+1 \end{array}\right. \]Como \(\lim _{k \rightarrow \infty }(\sqrt{3})^{1/(2k+1)}=1\), obtemos
\[ \limsup _{n\to \infty }\sqrt[n]{a_n}=\frac1{\sqrt2}\lt 1. \]Portanto, a série converge pelo critério da raiz.
O último item do Exemplo 4.36 mostra uma série para a qual o critério da razão é inconclusivo, enquanto o critério da raiz decide a convergência. O resultado seguinte explica essa diferença.
Observação. Como consequência do teorema, sempre que o critério da razão decide a convergência ou a divergência de uma série de termos positivos, o critério da raiz também decide. O recíproco é falso, como mostra o exemplo anterior.
Seja
Se \(R=\infty \), a última desigualdade é imediata. Suponha, então, que \(R\lt \infty \), e fixe \(\beta \gt R\). Pela definição de limite superior, existe \(n_0\) tal que
Por iteração, para todo \(n\ge n_0\),
Logo, \(\sqrt[n]{a_n}\le \beta \sqrt[n]{M}\) para \(n\ge n_0\), e portanto
Como \(\beta \gt R\) é arbitrário, obtemos
A desigualdade envolvendo os limites inferiores é análoga. Se
então, para todo \(0\lt \alpha \lt \rho \), existe \(n_1\) tal que \(a_{n+1}/a_n\ge \alpha \) para \(n\ge n_1\). Por iteração, \(a_n\ge C\alpha ^n\) para \(n\) suficientemente grande, e assim
Fazendo \(\alpha \uparrow \rho \), obtemos a primeira desigualdade. A desigualdade central é tautológica.
Exercícios básicos
Seja \(\sum _{j=0}^\infty a_j\) uma série de termos positivos. Mostre que, se \(a_{n+1} \geq a_n\) para todo \(n\), então a série diverge. Determine a convergência das seguintes séries: \(\sum _{j=1}^\infty \frac{j!}{e^j}\); \(\sum _{j=1}^\infty \frac{j!}{j^j}\); \(\sum _{j=1}^\infty \frac{2^j}{j!}\); \(\sum _{j=1}^\infty \frac{j^j}{j!}\); \(\sum _{j=0}^\infty \frac{(j!)^2}{(2j)!}\); \(\sum _{j=0}^\infty \frac{(j!)^3}{(3j)!}\).
Exercícios complementares
Suponha que \(a_n \gt 0\), \(b_n \gt 0\), e \(a_{n+1}/a_n \leq b_{n+1}/b_n\) para todo \(n\). Mostre que \(\sum _{j=0}^\infty a_j\) converge se \(\sum _{j=0}^\infty b_j\) converge. Dica: Mostre que a sequência \(\{ a_n/b_n\} \) é não-crescente e use o Exercício 4.24.) Use a parte (a) para testar a convergência das seguintes séries: \(\quad \sum _{j=1}^{\infty } \frac{j^j}{j e^j j!}\); \(\sum _{j=1}^{\infty } \frac{j^j}{e^j j!}\). Note que o critério da razão não fornece conclusões nesses exemplos. Determine a convergência da série \( \displaystyle \sum _{j=1}^\infty \frac{j!x^j}{j^j} \) para todo \(x \gt 0\). Aplique o critério da raiz para investigar a convergência da série \( \displaystyle \sum _{j=0}^\infty \frac{e^j}{j!}. \) \(\sum _{j=1}^\infty \left(\frac{j}{2j - 1}\right)^j\); \(\sum _{j=2}^\infty \left(j^{1/j} - 1\right)^j\); \(\sum _{j=0}^\infty \frac{3j/2}{2^j}\); \(\sum _{j=1}^\infty j^2 e^{\alpha j}\) para todo \(\alpha \) real; \(\sum _{j=1}^\infty \frac{x^j}{\left(j^{1/2} + 1\right)^j}\) para todo \(x \gt 0\); \(\sum _{j=0}^\infty (j + 1)^2 \left( \frac{x}{x+1} \right)^j\), para todo \(x \neq -1\); \(\sum _{j=0}^\infty \frac{\left(j^2 + 1\right)^{-j^2}}{\left(j^2 + j + 1\right)^{-j^2}}\); \(\sum _{j=1}^\infty \left(1 - \frac{1}{j}\right)^{j^2}\); \(\sum _{j=1}^\infty \frac{j^j}{2^{j^2}}\). Mostre que o critério da raiz não é aplicável. Determine a convergência da série. (Dica: use uma série conhecida.)
Os critérios da raiz e da razão detectam sobretudo decaimento geométrico. Quando o limite relevante é \(1\), isso não representa uma falha: significa apenas que a escala é mais lenta e devemos voltar à comparação, às séries \(p\) ou a outra estrutura do problema.
4.4.3 Cancelamento controlado: séries alternadas
A convergência absoluta não é a única forma de uma série com sinais diferentes convergir. O exemplo mais simples de cancelamento persistente ocorre quando os sinais alternam de maneira regular.
com \(a_n\gt 0\).
Seja \(s_n\) a sequência das somas parciais. As somas parciais pares satisfazem
Como \((a_n)\) é decrescente, temos
Logo, \((s_{2n})\) é crescente. Além disso,
e portanto \((s_{2n})\) converge, pelo Teorema da Convergência Monótona. Seja \(s\) seu limite.
Como \(s_{2n+1}=s_{2n}+a_{2n+1}\) e \(a_{2n+1}\to 0\), segue que \(s_{2n+1}\to s\). As subsequências de índices pares e ímpares têm, portanto, o mesmo limite. Consequentemente, a sequência completa \((s_n)\) converge para \(s\), e a série alternada converge.
Exercícios básicos
Determine a convergência ou divergência das seguintes séries. \(\sum _{n=1}^\infty \frac{(-1)^{n-1}}{\sqrt{n}}\) \(\sum _{n=1}^\infty \frac{(-1)^n \sqrt{n}}{1 + 2 \sqrt{n}}\) \(\sum _{n=1}^\infty \frac{(-1)^n (3n - 1)}{2n + 1}\) \(\sum _{n=1}^\infty \frac{(-1)^{n-1} \ln n}{n}\)
Exercícios complementares
\(\sum _{j=2}^\infty \frac{(-1)^{j+1}}{j - \sqrt{j}}\). \(\sum _{j=0}^\infty (-1)^j \left( \frac{j+2}{3} \right)^j\). \(\sum _{j=1}^\infty (-1)^j \frac{j}{j^2+1}\). \(\sum _{j=1}^\infty (-1)^j \left( 1 + \frac{j - 1}{2j} \right)\). Seja \((a_n)\) uma sequência decrescente de números positivos tal que \( \lim _{n\to \infty }a_n = 0\). Mostre que a soma \(s\) da série alternada \(\sum (-1)^{n+1} a_n\) está entre qualquer par de somas parciais sucessivas. Isto é, mostre que \(s_{2n} \leq s \leq s_{2n+1}\). Use isso para concluir que, para todo \(n\), \(|s - s_n| \leq a_{n+1}\). Assim, o erro ao parar no \(n\)-ésimo termo não excede o valor absoluto do próximo termo. Mostre que a série é convergente. Quantos termos da série são necessários para somar com a precisão indicada? \(\sum _{n=1}^\infty \frac{(-1)^n}{n!} \quad (\text{erro} \lt 0{,}01)\) \(\sum _{n=1}^\infty \frac{(-1)^n}{n^5} \quad (\text{erro} \lt 0{,}0001)\) \(\sum _{n=1}^\infty \frac{(-1)^{n+1}}{n^6} \quad (\text{erro} \lt 0{,}00005)\) \(\sum _{n=1}^\infty (-1)^{n-1} n e^{-n} \quad (\text{erro} \lt 0{,}01)\)
A série harmônica alternada mostra a fronteira essencial: uma série pode convergir mesmo quando a série dos módulos diverge. A partir daqui, a ordem dos termos deixa de ser um detalhe inocente.
4.5 A ordem dos termos importa
Para somas finitas, reordenar parcelas é inofensivo. Para séries infinitas, isso só continua verdadeiro sob uma hipótese forte: convergência absoluta. O caso condicionalmente convergente revela um fenômeno genuinamente novo.
4.5.1 Rearranjos e convergência absoluta
A propriedade comutativa da adição garante que, em uma soma finita, a ordem dos termos não altera o resultado. Para séries infinitas, a situação é mais delicada. Em 1852, Bernhard Riemann mostrou que a ordem dos termos de uma série condicionalmente convergente pode alterar sua soma e pode até produzir rearranjos divergentes.
Considere, por exemplo, a série
Ela converge para \(0\). No entanto, a série dos valores absolutos é
que diverge, pois corresponde à série harmônica duplicada. Assim, a série original é condicionalmente convergente.
Rearranjos apropriados de séries condicionalmente convergentes podem produzir outras somas. Por exemplo, tomando dois termos positivos seguidos de um termo negativo, repetidamente, obtemos
O fenômeno geral é descrito pelo Teorema de Riemann: uma série condicionalmente convergente pode ser rearranjada para convergir a qualquer número real previamente fixado. Em contraste, séries absolutamente convergentes preservam sua soma sob qualquer rearranjo.
Se \(\sigma \) é uma permutação, cada natural aparece exatamente uma vez como valor de \(\sigma \). Em particular, \(x\neq y\) implica \(\sigma (x)\neq \sigma (y)\).
Seja \(\sigma \) uma permutação de \(\mathbb {N}\) e ponha \(b_n=a_{\sigma (n)}\). A série \(\sum |b_n|\) converge, pois cada soma parcial de \(\sum |b_n|\) é uma soma finita de termos da série \(\sum |a_n|\) e, portanto, é limitada superiormente por \(\sum _{n=1}^{\infty }|a_n|\). Logo, o rearranjo converge absolutamente.
Resta provar que sua soma é \(L\). Seja \(B_n=\sum _{k=1}^n b_k\). Dado \(\varepsilon \gt 0\), escolha \(N\) tal que
Como \(\sigma \) é sobrejetiva, existe \(M\) tal que o conjunto
contém todos os índices \(1,2,\ldots ,N\). Para \(n\ge M\), podemos escrever
onde \(J_n\) é um subconjunto finito de \(\{ N+1,N+2,\ldots \} \). Assim,
Portanto, \(B_n\to L\), e o rearranjo tem a mesma soma da série original.
A hipótese de convergência absoluta no Teorema 4.43 é essencial. Para preparar o Teorema de Riemann, convém decompor uma série real em suas partes positiva e negativa. Definimos
Então
Note que \(a_n^+\ge 0\) e \(a_n^-\le 0\).
Se \(\sum a_n\) é condicionalmente convergente, então \(\sum a_n^+\) diverge para \(+\infty \) e \(\sum a_n^-\) diverge para \(-\infty \).
Se \(\sum a_n\) é absolutamente convergente, então \(\sum a_n^+\) e \(\sum a_n^-\) convergem, e
\[ \sum _{n=1}^{\infty }a_n= \sum _{n=1}^{\infty }a_n^+ + \sum _{n=1}^{\infty }a_n^-. \]
Como \(a_n^+=(|a_n|+a_n)/2\) e \(a_n^-=(a_n-|a_n|)/2\), a convergência simultânea de \(\sum a_n\) e \(\sum |a_n|\) implica a convergência de \(\sum a_n^+\) e de \(\sum a_n^-\). Isso prova a segunda afirmação, quando a série é absolutamente convergente, e a identidade das somas segue de \(a_n=a_n^+ + a_n^-\) e da linearidade.
Suponha agora que \(\sum a_n\) seja condicionalmente convergente. Se \(\sum a_n^+\) e \(\sum a_n^-\) convergissem, então \(\sum |a_n|=\sum (a_n^+-a_n^-)\) também convergiria, contradizendo a convergência apenas condicional. Além disso, como \(\sum a_n=\sum a_n^+ + \sum a_n^-\) converge, não pode ocorrer que apenas uma das duas séries convirja. Logo, \(\sum a_n^+\) diverge e \(\sum a_n^-\) diverge. Como a primeira tem termos não negativos e a segunda tem termos não positivos, suas divergências são, respectivamente, para \(+\infty \) e para \(-\infty \).
No rearranjo exibido acima, em que tomamos dois termos positivos para cada termo negativo da série
as somas ao final de cada bloco são
e portanto tendem a \(\log 2\). A mudança de ordem não apenas pode alterar a soma: aqui ela transforma uma série de soma \(0\) em outra de soma \(\log 2\).
4.5.2 Teorema do Rearranjo de Riemann
Liste os termos positivos da série, na ordem em que aparecem, como \(p_1,p_2,p_3,\ldots \), e os módulos dos termos negativos como \(q_1,q_2,q_3,\ldots \). Pelo resultado anterior,
Além disso, como \(a_n\to 0\), temos \(p_j\to 0\) e \(q_j\to 0\).
Construímos o rearranjo por etapas. A partir da soma parcial zero, somamos termos positivos \(p_j\), em ordem, até ultrapassar \(L\). Depois somamos termos negativos \(-q_j\), em ordem, até ficar abaixo de \(L\). Repetimos esse procedimento indefinidamente: após ficar abaixo de \(L\), acrescentamos termos positivos até ultrapassar \(L\); após ultrapassar \(L\), acrescentamos termos negativos até ficar abaixo de \(L\).
Além disso, nenhum termo positivo ou negativo é repetido ou omitido. Se a série original contém termos nulos, eles podem ser inseridos em quaisquer posições do rearranjo sem alterar as somas parciais relevantes nem o limite. Dentro de cada classe, positiva ou negativa, os termos são usados em sua ordem original.
Seja \(S_m\) a sequência de somas parciais do rearranjo construído. Dado \(\varepsilon \gt 0\), escolha \(J\) tal que \(p_j\lt \varepsilon \) e \(q_j\lt \varepsilon \) para todo \(j\ge J\). Depois que todos os termos \(p_1,\ldots ,p_{J-1}\) e \(q_1,\ldots ,q_{J-1}\) tiverem sido usados, cada ultrapassagem de \(L\) excede \(L\) por menos de \(\varepsilon \), pois ocorre pela adição de um termo positivo menor que \(\varepsilon \). Do mesmo modo, cada passagem abaixo de \(L\) fica a menos de \(\varepsilon \) de \(L\), pois ocorre pela adição de um termo negativo de módulo menor que \(\varepsilon \).
Entre uma ultrapassagem e a passagem seguinte, as somas parciais diminuem monotonamente e permanecem entre esses dois valores. Entre uma passagem abaixo de \(L\) e a ultrapassagem seguinte, elas aumentam monotonamente e também permanecem entre esses dois valores. Assim, para todo \(m\) suficientemente grande,
Logo, \(S_m\to L\), isto é, o rearranjo construído converge para \(L\).
Exercícios de síntese
\(\sum _{n=2}^\infty \frac{(-1)^n}{\ln n}\) \(\sum _{n=2}^\infty \frac{(-2)^n}{n^2}\) \(\sum _{n=0}^\infty \frac{(-3)^n}{n!}\) \(\sum _{n=0}^\infty \frac{(-5)^n}{2^n}\) \(\sum _{n=1}^\infty \frac{\cos n\pi }{\sqrt{n}}\) \(\sum _{n=2}^\infty \frac{(-1)^n}{n \ln n}\) \(\sum _{n=1}^\infty \frac{(-1)^n n}{n+1}\) \(\sum _{n=1}^\infty \frac{(-1)^n}{\sqrt{n^2 + 1}}\) \(\sum _{n=2}^\infty \frac{(-1)^n \ln n}{n}\) \(\sum _{n=1}^{\infty } \left( \frac{1}{\sqrt{n}} - \frac{1}{n} \right)\)
4.6 O número \(e\) revisitado
Os critérios anteriores não servem apenas para classificar séries. Eles também permitem voltar a objetos já conhecidos e vê-los de outra forma. O número \(e\), definido anteriormente por um limite, reaparece agora como soma de uma série de termos positivos.
Como aplicação dos critérios de convergência, retomamos o número de Euler e mostramos que ele admite a representação
Em seguida, usamos essa representação para provar que \(e\) é irracional.
Defina
A série converge pelo critério da razão, pois, para \(a_n=1/n!\), temos
Escreva
Por definição, \(s_n\to e'\). Provaremos que \(t_n\to e'\).
Pelo teorema binomial,
onde, para \(k=0\) e \(k=1\), o produto vazio é entendido como \(1\). Como todos os fatores são menores ou iguais a \(1\), obtemos \(t_n\le s_n\) e, portanto,
Para a desigualdade oposta, fixe \(m\in \mathbb {N}\). Se \(n\ge m\), então
Passando ao limite inferior quando \(n\to \infty \), cada produto finito tende a \(1\), e segue que
Como isso vale para todo \(m\), obtemos \(\liminf t_n\ge e'\). Logo, \(t_n\to e'\).
A estimativa seguinte mede a rapidez com que as somas parciais da série de \(e\) se aproximam do limite.
Como \(e=\sum _{k=0}^{\infty }1/k!\), temos
Cada termo entre parênteses, a partir do segundo, é dominado pela correspondente potência de \(1/(n+1)\). Portanto,
A desigualdade \(e-s_n\gt 0\) é imediata, pois o resto é soma de termos positivos.
Suponha, por absurdo, que \(e=p/q\), com \(p,q\in \mathbb {N}\). Aplicando a proposição anterior com \(n=q\), obtemos
Multiplicando por \(q!\), segue que
Por outro lado, \(q!e=q!p/q=(q-1)!p\) é inteiro, e
também é inteiro. Assim, \(q!e-q!s_q\) seria um inteiro positivo estritamente menor que \(1\), o que é impossível. Logo, \(e\) é irracional.
4.7 Representação decimal dos números reais II
Na Seção 1.13, a representação decimal foi introduzida por meio de truncamentos. A teoria de séries permite agora dizer com precisão o que a notação decimal infinita significa.
Seja \(r\ge 0\). Escolhidos \(a_0\in \mathbb {N}\cup \{ 0\} \) e dígitos \(a_k\in \{ 0,1,\ldots ,9\} \), definimos os truncamentos
Escrever
significa precisamente que \(s_n\to r\), isto é,
Reciprocamente, qualquer sequência de dígitos determina um número real. De fato, para
temos \(S_{n+1}\ge S_n\) e
Assim, \((S_n)\) é crescente e limitada; pelo Teorema da Convergência Monótona, ela converge. Portanto toda sequência de dígitos determina um número de \([0,1]\). Todo real não negativo admite uma representação desse tipo; para números negativos, aplicamos a construção ao módulo e acrescentamos o sinal.
A representação não é única exatamente quando uma expansão termina, a partir de certo ponto, em uma cauda infinita de algarismos \(9\). Por exemplo,
pois
De modo geral,
Exercícios complementares
Prove que a constante de Liouville \(L=\sum _{k=1}^{\infty }10^{-k!}\) é irracional. Transformação de Abel e critério de Dirichlet. Sejam \((a_n)\) e \((b_n)\) sequências reais e defina Prove a identidade de Abel Deduza o critério de Dirichlet: se as somas parciais de \(\sum a_n\) são limitadas e \((b_n)\) é monótona com \(b_n\to 0\), então converge. Teorema de rearranjo de Riemann. Seja uma série real condicionalmente convergente. Prove que, para todo \(L\in \mathbb {R}\), existe um rearranjo da série que converge para \(L\). Mostre também que existem rearranjos cujas somas parciais tendem a \(+\infty \) e rearranjos cujas somas parciais tendem a \(-\infty \). Separe os termos positivos \(p_j\) e os módulos dos termos negativos \(q_j\), conservando a ordem original dentro de cada grupo. A convergência condicional implica Para obter soma \(L\), some positivos até ultrapassar \(L\), depois negativos até ficar abaixo de \(L\), e repita. As ultrapassagens ficam limitadas pelo último termo utilizado e, portanto, tendem a zero. Entre duas ultrapassagens consecutivas, as somas parciais são monótonas e permanecem entre os valores extremos dessas etapas. Logo todas as somas parciais convergem para \(L\). Para obter \(+\infty \), na etapa \(k\) use os próximos termos positivos até que a soma ultrapasse \(k\), e acrescente então o próximo termo negativo, \(-q_k\). A soma ao fim da etapa é maior que \(k-q_k\). Durante a etapa seguinte, ela não desce abaixo do menor entre esse valor e o valor final da etapa seguinte. Como \(q_k\to 0\), todas as somas parciais tendem a \(+\infty \). O caso \(-\infty \) é simétrico. Esses procedimentos utilizam todos os termos positivos e negativos, sem repetições: os índices de ambos os grupos avançam indefinidamente. Se houver termos nulos, insira o próximo deles ao fim de cada etapa, até esgotá-los ou indefinidamente. Isso não altera os limites e garante que o resultado seja um rearranjo de toda a série. Produto de Cauchy. Sejam duas séries absolutamente convergentes. Defina Prove que converge absolutamente e que Escreva \(A_* =\sum _{k\ge 0}|a_k|\) e \(B_* =\sum _{j\ge 0}|b_j|\). Para todo \(N\), As somas parciais de \(\sum |c_n|\) são crescentes e limitadas, logo essa série converge. A diferença entre \( (\sum _{k=0}^Na_k)(\sum _{j=0}^Nb_j)\) e \(\sum _{n=0}^Nc_n\) é a soma dos produtos no quadrado \(0\le k,j\le N\) que satisfazem \(k+j\gt N\). Nessa região, \(k\gt N/2\) ou \(j\gt N/2\). Portanto o módulo da diferença é no máximo Como o produto das somas parciais converge para \(AB\), segue que \(\sum _{n=0}^{\infty }c_n=AB\). Séries logarítmicas clássicas. Determine, em função dos parâmetros reais \(p\) e \(q\), a convergência das séries e A primeira série converge se, e somente se, \(p\gt 1\); a segunda, se, e somente se, \(q\gt 1\). Uma prova que não usa integrais é a seguinte. Agrupe os índices em blocos \(2^k\le n\lt 2^{k+1}\). Há \(2^k\) termos em cada bloco. Nele, \(n\) é comparável a \(2^k\), e \(\log n\) é comparável a \(k\). Para cada \(p\) fixado, existem constantes \(c_p,C_p\gt 0\), independentes de \(k\), tais que A comparação com a série \(\sum k^{-p}\) fornece o primeiro critério. Para a segunda série, em blocos suficientemente distantes do início, \(\log \log n\) é comparável a \(\log k\). Portanto existem \(c_q,C_q\gt 0\) tais que A primeira parte, com parâmetro \(q\), conclui a prova. Essas comparações valem também para parâmetros negativos, ajustando as constantes; alterar finitíssimos termos não modifica a convergência. Se a série converge absolutamente, toda subsérie também converge absolutamente, pela comparação entre somas de termos não negativos. Reciprocamente, suponha que toda subsérie convirja. Separe os índices \(P=\{ n:a_n\ge 0\} \) e \(N=\{ n:a_n\lt 0\} \). Se um desses conjuntos é infinito, a subsérie correspondente converge por hipótese; se é finito, sua soma é finita. Assim, Consequentemente, Ver solução
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