Capítulo 4

Séries

Uma série numérica é uma soma infinita interpretada por meio do limite de suas somas parciais. Essa interpretação é essencial: embora a notação sugira uma soma com infinitas parcelas, o objeto rigoroso que se estuda é uma sequência de somas finitas. Desse modo, a teoria das séries prolonga naturalmente a teoria das sequências, mas introduz fenômenos próprios das somas infinitas.

Neste capítulo, estudaremos critérios de convergência, convergência absoluta e condicional, séries alternadas, rearranjos e exemplos fundamentais. O objetivo é desenvolver ferramentas que permitam decidir quando uma soma infinita é bem definida e compreender de que modo seu valor depende da estrutura dos termos e, em certos casos, da ordem em que eles são somados.

4.1 Convergência

A teoria começa exatamente onde terminou o capítulo anterior: uma série é convergente quando a sequência de suas somas parciais converge. Convém manter essa tradução em mente, pois quase todos os argumentos deste capítulo serão, em última instância, argumentos sobre sequências.

Dada uma sequência \((a_n)\) de números reais, associamos a ela a sequência \((s_n)\) de suas somas parciais, definida por

\[ s_1=a_1,\qquad s_2=a_1+a_2,\qquad s_3=a_1+a_2+a_3, \]

e, em geral,

\[ s_n=\sum _{k=1}^{n} a_k=a_1+a_2+\cdots +a_n. \]

A expressão

\[ \sum _{k=1}^{\infty } a_k \]

é chamada série infinita, ou simplesmente série. A sequência \((s_n)\) é chamada sequência das somas parciais, e \(s_n\) é a \(n\)-ésima soma parcial da série. Os termos da série são os números \(a_1,a_2,a_3,\ldots \), enquanto \(s_1,s_2,s_3,\ldots \) são suas somas parciais.

Exemplo 4.1
  1. As primeiras somas parciais da série \(\sum _{k=1}^{\infty }\frac{1}{k}\) são

    \[ s_1=1,\qquad s_2=1+\frac12,\qquad s_3=1+\frac12+\frac13,\qquad s_4=1+\frac12+\frac13+\frac14. \]
  2. As primeiras somas parciais da série \(\sum _{k=1}^{\infty }\frac{1}{2^k}\) são

    \[ s_1=\frac12,\qquad s_2=\frac12+\frac14,\qquad s_3=\frac12+\frac14+\frac18,\qquad s_4=\frac12+\frac14+\frac18+\frac1{16}. \]
  3. As primeiras somas parciais da série \(\sum _{k=1}^{\infty }x^{k-1}\) são

    \[ s_1=1,\qquad s_2=1+x,\qquad s_3=1+x+x^2,\qquad s_4=1+x+x^2+x^3. \]

O estudo de uma série reduz-se, portanto, ao estudo de sua sequência de somas parciais.

Definição 4.2 (Convergência de séries)
Seja \(\sum _{k=1}^{\infty }a_k\) uma série e seja \(s_n=\sum _{k=1}^{n}a_k\) sua sequência de somas parciais. Dizemos que a série converge para \(L\) se \(s_n\to L\), isto é, se para todo \(\varepsilon \gt 0\) existe \(M\in \mathbb {N}\) tal que, para todo \(n\gt M\),
\[ \left|s_n-L\right|=\left|\sum _{k=1}^{n}a_k-L\right|\lt \varepsilon . \]
Nesse caso, \(L\) é chamado soma da série.

Observação. Por abuso de linguagem, é usual escrever \(\sum _{k=1}^{\infty }a_k\) tanto para a série quanto, quando há convergência, para a sua soma.

Assim como ocorre nas somas finitas, o índice de uma série é uma variável muda. Portanto,

\[ \sum _{j=0}^\infty z_j = \sum _{k=0}^\infty z_k. \]

Também usaremos a notação

\[ \sum _{j=m}^{\infty } z_j \coloneqq \sum _{k=0}^{\infty } z_{m+k}, \]

sempre que os termos envolvidos estejam definidos.

A convergência de uma série não depende de seus termos iniciais, mas apenas do comportamento de sua cauda. Mais precisamente, vale a proposição seguinte.

Proposição 4.3
A série \(\sum _{j=1}^{\infty } z_j\) converge se, e somente se, a série \(\sum _{j=m+1}^{\infty } z_j\) converge. Nesse caso,
\[ \sum _{j=1}^{\infty } z_j=\sum _{j=1}^{m} z_j+\sum _{j=m+1}^{\infty } z_j. \]

Demonstração

Se \(s_n=\sum _{j=1}^{n} z_j\), então, para \(n\ge m\), temos

\[ \sum _{j=m+1}^{n} z_j=s_n-\sum _{j=1}^{m} z_j. \]

Logo, a sequência das somas parciais da série de cauda difere da sequência \((s_n)\) apenas por uma constante. Portanto, uma delas converge se, e somente se, a outra converge, e a identidade da soma segue passando ao limite.

Exemplo 4.4

A série

\[ \sum _{n=1}^{\infty } \left( \frac{1}{2} \right)^n = \frac{1}{2} + \frac{1}{4} + \frac{1}{8} + \frac{1}{16} + \cdots \]

é um dos exemplos mais simples de série convergente.

Provemos que ela converge para 1. A soma parcial dos primeiros \(n\) termos é

\[ s_n = \frac{1}{2} + \frac{1}{4} + \frac{1}{8} + \frac{1}{16} + \cdots + \frac{1}{2^{n-1}} + \frac{1}{2^n} \]

Como se trata de uma soma geométrica finita,

\[ s_n = 1 - \frac{1}{2^n} \]

e logo

\[ \left\lvert s_n -1\right\rvert = \frac{1}{2^n} \]

de modo que \(s_n\) tende a 1.

Teorema 4.5
Se a série \(\sum _{k=1}^{\infty } a_k\) converge, então \(a_k\to 0\).

Demonstração

Seja \(s_n=\sum _{k=1}^{n} a_k\). Como a série converge, a sequência \((s_n)\) converge para algum número \(s\). Para \(n\ge 2\), temos

\[ a_n=s_n-s_{n-1}. \]

Como \(s_n\to s\) e também \(s_{n-1}\to s\), segue que

\[ a_n=s_n-s_{n-1}\to s-s=0. \]

Portanto, \(a_n\to 0\).

Exemplo 4.6
A série
\[ \sum _{n=1}^{\infty }\frac{n^2}{3n^2+7} \]
diverge. De fato, seu termo geral satisfaz
\[ \frac{n^2}{3n^2+7} = \frac{1}{3+7/n^2} \longrightarrow \frac13\neq 0. \]
Logo, a condição necessária \(a_n\to 0\) não é satisfeita, e a série diverge pelo Teorema 4.5.

Exemplo 4.7

A série harmônica

\[ \sum _{n=1}^{\infty }\frac1n = 1+\frac12+\frac13+\frac14+\cdots \]

diverge. Ela é um exemplo fundamental: seus termos tendem a zero, mas a série não converge. Ao longo do texto, denotaremos por \(H_n\) sua \(n\)-ésima soma parcial, isto é,

\[ H_n=1+\frac12+\frac13+\cdots +\frac1n. \]

Para provar a divergência, 5 consideremos a subsequência \(\bigl(H_{2^k}\bigr)_{k\ge 0}\). Agrupando os termos entre potências sucessivas de \(2\), obtemos

\[ H_{2^k} = 1+\frac12 + \left(\frac13+\frac14\right) + \left(\frac15+\cdots +\frac18\right) +\cdots + \left(\frac1{2^{k-1}+1}+\cdots +\frac1{2^k}\right). \]

Em cada bloco

\[ \frac1{2^{j-1}+1}+\cdots +\frac1{2^j}, \qquad 1\le j\le k, \]

há \(2^{j-1}\) termos, todos maiores ou iguais a \(1/2^j\). Portanto, cada bloco é maior ou igual a \(1/2\). Assim,

\[ H_{2^k}\ge 1+\frac{k}{2}. \]

Como essa subsequência é ilimitada, a sequência \((H_n)\) também é ilimitada. Logo, a série harmônica diverge.

Linearidade

Como vimos na Seção 1.6, os somatórios finitos possuem as seguintes propriedades:

\begin{align} & \sum _{k=1}^{n}\left(a_{k}+b_{k}\right)=\sum _{k=1}^{n} a_{k}+\sum _{k=1}^{n} b_{k} \quad \text{ (propriedade aditiva)} \label{eq:10.17} \tag{4.1} \\ & \sum _{k=1}^{n}\left(c a_{k}\right)=c \sum _{k=1}^{n} a_{k} \quad \text{ (propriedade homogênea).} \label{eq:10.18} \tag{4.2} \end{align}

O próximo teorema é a extensão natural dessas propriedades para séries infinitas convergentes.

Teorema 4.8
Se \(\sum a_n\) e \(\sum b_n\) são séries convergentes e se \(c,d\in \mathbb {R}\), então a série \(\sum (ca_n+db_n)\) também converge e

\begin{equation} \sum _{n=1}^{\infty }(c a_n+d b_n)=c\sum _{n=1}^{\infty } a_n+d\sum _{n=1}^{\infty } b_n. \label{eq:10.19} \tag{4.3} \end{equation}

Demonstração

Para cada \(n\), pelas propriedades dos somatórios finitos,

\begin{equation} \sum _{k=1}^{n}(c a_k+d b_k)=c\sum _{k=1}^{n} a_k+d\sum _{k=1}^{n} b_k. \label{eq:10.20} \tag{4.4} \end{equation}

Passando ao limite quando \(n\to \infty \), o primeiro termo do lado direito converge para \(c\sum _{k=1}^{\infty } a_k\) e o segundo para \(d\sum _{k=1}^{\infty } b_k\). Logo, a sequência das somas parciais de \(\sum (ca_n+db_n)\) converge, e sua soma é dada por (4.3).

O teorema anterior tem o seguinte corolário, frequentemente útil para concluir divergência.

Corolário 4.9
Se \(\sum a_n\) converge e \(\sum b_n\) diverge, então \(\sum (a_n+b_n)\) diverge.

Demonstração

De fato, \(b_n=(a_n+b_n)-a_n\). Se \(\sum (a_n+b_n)\) convergisse, então, pela linearidade e pela convergência de \(\sum a_n\), a série \(\sum b_n\) também convergiria. Isso contradiz a hipótese. Logo, \(\sum (a_n+b_n)\) diverge.

Exemplo 4.10
A série \(\sum _{k=1}^{\infty }\left(1/k+1/2^k\right)\) diverge, pois \(\sum _{k=1}^{\infty }1/k\) diverge e \(\sum _{k=1}^{\infty }1/2^k\) converge.

Se \(\sum a_n\) e \(\sum b_n\) são ambas divergentes, a série \(\sum (a_n+b_n)\) pode convergir ou divergir. Por exemplo, se \(a_n=b_n=1\) para todo \(n\), então \(\sum (a_n+b_n)\) diverge. Por outro lado, se \(a_n=1\) e \(b_n=-1\) para todo \(n\), então \(\sum (a_n+b_n)\) converge.

Teorema 4.11 (Critério de Cauchy para séries)
A série \(\sum _{n=1}^{\infty }a_n\) converge se, e somente se, para todo \(\varepsilon \gt 0\) existe \(N\in \mathbb {N}\) tal que
\[ \left|a_m+a_{m+1}+\cdots +a_n\right|\lt \varepsilon \]
sempre que \(n\ge m\ge N\).

Demonstração

Seja \(s_n=\sum _{k=1}^{n}a_k\). Se a série converge, então \((s_n)\) é uma sequência de Cauchy. Escolhendo \(N\) suficientemente grande e tomando \(n\ge m\ge N\), temos

\[ \left|a_m+\cdots +a_n\right| =|s_n-s_{m-1}|\lt \varepsilon , \]

após aumentar \(N\) em uma unidade, se necessário.

Reciprocamente, suponha que as caudas da série satisfaçam a condição do enunciado. Para \(n\gt m\ge N\),

\[ |s_n-s_m|=|a_{m+1}+\cdots +a_n|\lt \varepsilon . \]

Logo \((s_n)\) é de Cauchy. Pela completude de \(\mathbb {R}\), ela converge; portanto a série converge.

O critério de Cauchy muda o ponto de vista: em vez de procurar a soma, podemos perguntar se toda cauda suficientemente distante tem soma pequena. Essa ideia será decisiva quando tratarmos de convergência absoluta.

Exercício 4.1

Dadas as séries \(\sum a_n\) e \(\sum b_n\), suponha que existe um número natural \(N\) tal que \(a_n = b_n\) para todo \(n \geq N\). Prove que \(\sum a_n\) é convergente se, e somente se, \(\sum b_n\) é convergente. Assim, a convergência de uma série não é afetada pela alteração de um número finito de termos. (Claro, o valor da soma pode mudar.)

Exercício 4.2

Seja \((a_n)\) uma sequência de números reais não negativos. Prove que \(\sum a_n\) converge se, e somente se, a sequência das somas parciais é limitada.

Exercício 4.3

Prove que a série \(\sum _{j=1}^\infty z_j\) converge se, e somente se, \(\sum _{j=m+1}^\infty z_j\) converge. Se uma dessas séries converge, então

\[ \sum _{j=1}^\infty z_j = \sum _{j=1}^m z_j + \sum _{j=m+1}^\infty z_j. \]
Exercício 4.4

Reprove diretamente, a partir do critério de Cauchy para sequências, o Teorema 4.11:

Uma série infinita \(\sum a_n\) converge se, e somente se, para cada \(\varepsilon \gt 0\), existe um número natural \(N\) tal que, se \(n \geq m \geq N\), então

\[ \lvert a_m + a_{m+1} + \cdots + a_n \rvert \lt \varepsilon . \]

4.2 Primeiros modelos: séries que podemos somar

Antes de acumular critérios de decisão, vale conhecer séries cuja soma pode ser calculada diretamente. Elas serão nossas primeiras referências: mais adiante, em vez de tentar somar uma série complicada, tentaremos compará-la com um desses modelos.

4.2.1 Série geométrica

A série geométrica é obtida somando os termos de uma progressão geométrica, isto é,

\[ \sum _{k=1}^{\infty } p x^{k-1}. \]

Como vimos no exercício 1.14, se \(x\neq 1\), então a \(n\)-ésima soma parcial é dada por

\[ \sum _{k=1}^{n} p x^{k-1}=\frac{p-px^n}{1-x}. \]

No caso \(x=1\), temos simplesmente

\[ \sum _{k=1}^{n} p=np. \]

Passemos ao limite das somas parciais. Se \(x\neq 1\), então

\[ \sum _{k=1}^{n} p x^{k-1}=\frac{p-px^n}{1-x}=p\, \frac{1-x^n}{1-x}. \]

Assim, o comportamento das somas parciais é determinado pelo comportamento de \(x^n\). Como vimos no exercício 2.34, se \(\left\lvert x\right\rvert \lt 1\), então \(x^n\to 0\), e portanto

\[ \lim _{n\to \infty }\sum _{k=1}^{n} p x^{k-1}=\frac{p}{1-x}. \]

Se \(|x|\ge 1\) e \(p\neq 0\), os termos \(px^{k-1}\) não tendem a zero. Portanto, pela condição necessária de convergência, a série diverge.

Obtemos, assim, o seguinte resultado.

Teorema 4.12 (Série geométrica)
Sejam \(p,x\in \mathbb {R}\). Se \(\left\lvert x\right\rvert \lt 1\), então a série \(\sum _{k=1}^{\infty } p x^{k-1}\) converge e

\begin{equation} p+px+px^2+\cdots = \frac{p}{1-x}. \label{somageometrica} \tag{4.5} \end{equation}

Se \(\left\lvert x\right\rvert \ge 1\) e \(p\neq 0\), então a série diverge. Se \(p=0\), a série converge para \(0\), qualquer que seja \(x\).
Algumas consequências imediatas são as seguintes.

Exemplo 4.13
  1. Tomando \(p=1\) na fórmula da série geométrica, obtemos

    \[ 1+x+x^2+\cdots +x^n+\cdots =\frac{1}{1-x}, \qquad |x|\lt 1. \]
  2. Tomando \(p=1\) e substituindo \(x\) por \(-x\), obtemos

    \[ 1-x+x^2-x^3+x^4-\cdots +(-1)^n x^n+\cdots =\frac{1}{1+x}, \qquad |x|\lt 1. \]

Exemplo 4.14
A série
\[ 3-\frac65+\frac{12}{25}-\frac{24}{125}+\cdots \]
é geométrica, de termo inicial \(3\) e razão \(-2/5\). Como \(|-2/5|\lt 1\), ela converge, e sua soma é
\[ 3-\frac65+\frac{12}{25}-\frac{24}{125}+\cdots = \frac{3}{1+2/5} = \frac{15}{7}. \]

4.2.2 Série telescópica

A propriedade telescópica de soma (vide exercício 1.6.c)) nos diz que

\[ \sum _{k=1}^{n}(b_k-b_{k+1})=b_1-b_{n+1}. \]

Uma série \(\sum _{k=1}^{\infty }a_k\) é dita telescópica em relação à sequência \((b_n)\) se cada termo \(a_n\) puder ser expresso como

\[ a_n=b_n-b_{n+1}. \]

Exemplo 4.15
Para a série infinita \( \sum _{n=1}^{\infty } \frac{1}{n(n+1)} \), temos as somas parciais dadas por
\begin{align*} s_n & = \frac{1}{1 \cdot 2} + \frac{1}{2 \cdot 3} + \frac{1}{3 \cdot 4} + \cdots + \frac{1}{n(n+1)} \\ & = \left( 1 - \frac{1}{2} \right) + \left( \frac{1}{2} - \frac{1}{3} \right) + \left( \frac{1}{3} - \frac{1}{4} \right) + \cdots + \left( \frac{1}{n} - \frac{1}{n+1} \right) \\ & = 1 - \frac{1}{n+1}. \end{align*}
e logo \(\sum _{n=1}^{\infty } \frac{1}{n(n+1)} \) converge para \(1\).

O exemplo anterior pode ser generalizado para o seguinte teorema.

Teorema 4.16
Seja \(\sum _{k=1}^{\infty }a_k\) uma série telescópica em relação à sequência \((b_n)\), isto é, suponha que \(a_n=b_n-b_{n+1}\) para todo \(n\ge 1\). Então:
  1. a série \(\sum _{k=1}^{\infty }a_k\) converge se, e somente se, a sequência \((b_n)\) converge;

  2. se \(b_n\to b\), então

    \[ \sum _{k=1}^{\infty }a_k=b_1-b. \]

Demonstração

Seja \(s_n\) a \(n\)-ésima soma parcial. Então

\[ s_n=\sum _{k=1}^{n}a_k=\sum _{k=1}^{n}(b_k-b_{k+1})=b_1-b_{n+1}. \]

Logo, \((s_n)\) converge se, e somente se, \((b_{n+1})\) converge, o que equivale à convergência de \((b_n)\). Se \(b_n\to b\), então

\[ s_n=b_1-b_{n+1}\to b_1-b, \]

de modo que

\[ \sum _{k=1}^{\infty }a_k=b_1-b. \]

Exemplo 4.17
A série
\[ \sum _{n=1}^{\infty }\dfrac {2}{n^{3}+6n^{2}+11n+6} \]
converge e sua soma é \(1/6\). De fato,
\[ \frac{2}{n^{3}+6n^{2}+11n+6} =\frac{1}{(n+1)(n+2)}-\frac{1}{(n+2)(n+3)}. \]
Portanto, a série é telescópica com \(b_n=1/((n+1)(n+2))\). Como \(b_1=1/6\) e \(b_n\to 0\), segue que
\[ \sum _{n=1}^{\infty }\dfrac {2}{n^{3}+6n^{2}+11n+6}=\frac16. \]

Exercícios básicos

Exercício 4.5

Para cada uma das séries abaixo, identifique se ela é geométrica, telescópica ou se possui somas parciais que podem ser simplificadas diretamente. Determine se a série converge e, quando convergir, calcule sua soma.

  1. \(\displaystyle \sum _{j=0}^\infty \frac{2}{3^j}\)

  2. \(\displaystyle \sum _{j=1}^\infty \frac{1}{j(j+2)}\)

  3. \(\displaystyle \sum _{j=3}^\infty \frac{4}{j^2-4}\)

  4. \(\displaystyle \sum _{j=0}^\infty \frac{2}{j^2+4j+3}\)

  5. \(\displaystyle \sum _{j=1}^\infty \frac{6}{(3j-2)(3j+1)}\)

  6. \(\displaystyle \sum _{n=1}^\infty \frac{1}{(2n - 1)(2n + 1)} . \)

  7. \(\displaystyle \sum _{n=1}^\infty \frac{2}{3^{n-1}} . \)

  8. \(\displaystyle \sum _{n=2}^\infty \frac{2}{n^2 - 1}. \)

  9. \(\displaystyle \sum _{n=1}^\infty \frac{2^n + 3^n}{6^n} . \)

  10. \(\displaystyle \sum _{j=1}^\infty \frac{2j+1}{j^2(j+1)^2}\)

  11. \(\displaystyle \sum _{j=0}^\infty \frac{1}{\sqrt{j}+\sqrt{j+1}}\)

  12. \(\displaystyle \sum _{n=1}^\infty \frac{\sqrt{n + 1} - \sqrt{n}}{\sqrt{n^2 + n}} \)

  13. \(\displaystyle \sum _{n=1}^\infty \frac{n}{(n+1)(n+2)(n+3)} \)

  14. \(\displaystyle \sum _{n=1}^\infty \frac{2n + 1}{n^2(n+1)^2} \)

  15. \(\displaystyle \sum _{n=1}^\infty \frac{2^n + n^2 + n}{2^{n+1}n(n+1)} \)

Exercícios complementares

Exercício 4.6

Seja \((x_j)\) uma sequência de números reais não nulos tal que \(x_j\to +\infty \). Mostre que \( \displaystyle \sum _{j=0}^\infty \left( \frac{1}{x_j} - \frac{1}{x_{j+1}} \right) \) converge.

Exercício 4.7

Pode \(\sum _{j=0}^\infty (x_j + y_j)\) convergir quando pelo menos uma de \(\sum _{j=0}^\infty x_j\) e \(\sum _{j=0}^\infty y_j\) diverge?

Exercício 4.8

Mostre que, se \(\sum _{j=0}^\infty z_j\) converge, onde \(z_j \neq 0\) para todo \(j\), então \( \displaystyle \sum _{j=0}^\infty \frac{1}{z_j} \) diverge.

Exercício 4.9

A série \( \displaystyle \sum _{j=1}^\infty (-1)^j 2^{1/j} \) é convergente?

Exercício 4.10

Mostre que \(\sum _{j=1}^\infty a\, j\) converge se, e somente se, \(a = 0\).

Exercício 4.11

Avalie as seguintes somas:

  1. \(\sum _{j=0}^\infty \frac{(-1)^j + 2j}{3^j}\);

  2. \(\sum _{j=1}^\infty \left(\frac{2}{5^j} - \frac{1}{j(j+1)}\right)\).

Exercício 4.12

Seja \((x_n)\) uma sequência decrescente de termos positivos e suponha que \(\sum _{j=0}^\infty x_j\) converge. Mostre que \( \displaystyle \lim _{n \to \infty } nx_n = 0. \) Este resultado é conhecido como o teorema de Pringsheim.

Dica: Defina \(m=\lfloor n/2\rfloor \). Como \((x_n)\) é decrescente, \( \displaystyle S_n-S_m=\sum _{k=m+1}^{n}x_k\geq (n-m)x_n. \) Além disso, \(n-m\ge n/2\). Use o fato de que \(S_n-S_m\to 0\).

4.3 Séries de termos não negativos: comparar com modelos

Para termos não negativos não há cancelamento: as somas parciais só podem crescer. A pergunta deixa então de ser “qual é a soma?” e passa a ser “esse crescimento permanece limitado?”. As próximas ferramentas são três formas da mesma estratégia: comparar a série desconhecida com um comportamento que já entendemos.

4.3.1 Comparação termo a termo

Comecemos pelo caso em que a desigualdade entre os termos é visível. Para séries de termos não negativos, as somas parciais são crescentes; por isso, comparar termos equivale a comparar o crescimento dessas somas.

Teorema 4.18
Se \(a_{n} \geq 0\) para todo \(n \geq 1\), então a série \(\sum a_n\) converge se e somente se a sequência das respectivas somas parciais é limitada superiormente.
Se as somas parciais são limitadas superiormente por um número \(M\), então a soma da série não pode exceder \(M\).

Teorema 4.19 (Critério da Comparação)
Sejam \(\sum a_n\) e \(\sum b_n\) séries infinitas de termos não negativos. Isto é, \(a_n \geq 0\) e \(b_n \geq 0\) para todo \(n\). Então:
  1. Se \(\sum a_n\) converge e \(0 \leq b_n \leq a_n\) para todo \(n\), então \(\sum b_n\) converge.

  2. Se \(\sum a_n\) diverge e \(0 \leq a_n \leq b_n\) para todo \(n\), então \(\sum b_n\) diverge.

Demonstração

Seja \(t_n=\sum _{k=1}^{n} b_k\) a sequência de somas parciais de \(\sum b_n\). Como \(b_n\ge 0\) para todo \(n\), a sequência \((t_n)\) é crescente.

Na parte 1, se \(s_n=\sum _{k=1}^{n} a_k\), então \(0\le t_n\le s_n\) para todo \(n\). Como \(\sum a_n\) converge, a sequência \((s_n)\) é limitada superiormente; logo, \((t_n)\) também é limitada superiormente. Pelo teorema da convergência monótona, \((t_n)\) converge, e portanto \(\sum b_n\) converge.

A parte 2 é a contrapositiva da parte 1: se \(\sum b_n\) convergisse e \(0\le a_n\le b_n\) para todo \(n\), então \(\sum a_n\) também convergiria, o que contradiz a hipótese. Portanto, \(\sum b_n\) diverge.

Exemplo 4.20
A série
\[ \sum _{n=1}^{\infty }\frac{1}{(n+1)^2} \]
converge. Para todo \(n\ge 1\),
\[ 0\lt \frac{1}{(n+1)^2}\lt \frac{1}{n(n+1)}. \]
Como a série \(\sum _{n=1}^{\infty }1/(n(n+1))\) converge pelo Exemplo 4.15, o critério da comparação implica a convergência da série dada.

Exemplo 4.21
A série
\[ \sum _{n=1}^{\infty }\frac1{n!} \]
converge. De fato, \(n!\ge 2^{n-1}\) para todo \(n\ge 1\), e portanto
\[ 0\lt \frac1{n!}\le \frac1{2^{n-1}}. \]
Como a série geométrica \(\sum _{n=1}^{\infty }2^{-(n-1)}\) converge, o critério da comparação implica a convergência de \(\sum 1/n!\).

Exemplo 4.22
A série
\[ \sum _{n=1}^{\infty }\frac{\log n}{n} \]
diverge. De fato, para \(n\ge 3\), temos \(\log n\gt 1\), e portanto
\[ \frac{\log n}{n}\gt \frac1n. \]
Como a série harmônica diverge, o critério da comparação implica a divergência da série dada.

Exercícios básicos

Exercício 4.13

Use o Critério da Comparação para determinar se as séries são convergentes ou divergentes:

  1. \(\sum _{n=1}^\infty \frac{1}{n^2 + n + 1}\)

  2. \(\sum _{n=2}^\infty \frac{\sqrt{n}}{n - 1}\)

  3. \(\sum _{n=1}^\infty \frac{1}{n^3 + 3n + 1}\)

  4. \(\sum _{n=1}^\infty \frac{1}{2^n + 1}\)

  5. \(\sum _{n=2}^\infty \frac{1}{\ln n}\)

Exercício 4.14

Mostre que \( \displaystyle \sum _{j=1}^\infty \frac{1}{e^j \sqrt{j}} \) converge.

Exercício 4.15

Mostre que \( \displaystyle \sum _{j=1}^\infty \frac{1}{\sqrt{j}} \) diverge.

Exercício 4.16

Seja \((x_n)\) uma sequência de termos positivos e suponha que \(\sum _{j=0}^\infty x_j\) converge. Mostre que \(\sum _{j=0}^\infty x_j^2\) também converge.

Exercício 4.17

Seja \((x_n)\) uma sequência de termos positivos. Mostre que \(\sum _{j=0}^\infty x_j\) converge se, e somente se, \( \displaystyle \sum _{j=0}^\infty \frac{x_j}{1 + x_j} \) converge.

Exercício 4.18

Mostre que, se \(\sum _{j=0}^\infty x_j^2\) converge, então \( \displaystyle \sum _{j=1}^\infty \frac{|x_j|}{j} \) também converge.

Exercícios mais difíceis

Exercício 4.19 (difficulty=3)
  1. Seja \((a_n)\) uma sequência decrescente de termos não negativos. Prove o critério de condensação de Cauchy: a série \(\sum _{n=1}^\infty a_n\) converge se, e somente se, a série \(\sum _{k=0}^\infty 2^k a_{2^k}\) converge.

  2. Use a parte (a) para mostrar que a série \(p\)-série \(\sum 1/n^p\) converge se \(p \gt 1\) e diverge se \(0 \lt p \leq 1\).

  3. Use as partes (a) e (b) para mostrar que \(\sum _{n=2}^\infty \frac{1}{n (\ln n)^p}\) converge se \(p \gt 1\) e diverge se \(0 \lt p \leq 1\).

A comparação direta é poderosa quando a desigualdade é evidente, mas às vezes obriga a adivinhar uma estimativa pouco natural. Há outra maneira de construir séries-modelo: transformar a soma discreta em uma questão sobre áreas.

4.3.2 Comparação com integrais e séries \(p\)

Comparar uma série nova só é útil quando já possuímos bons modelos. A série geométrica é um deles; as séries \(p\) formarão outra família fundamental. O elo entre somas e integrais fornece esses modelos de maneira sistemática.

A noção de integral sobre um intervalo ilimitado será formalizada na Seção 10.8, no capítulo de integração. Em particular, para uma função Riemann-integrável em todo intervalo \([1,R]\), escrevemos

\[ \int _1^\infty f(x)\, dx = \lim _{R\to \infty }\int _1^R f(x)\, dx, \]

quando esse limite existe como número real; veja a Definição 10.33. É essa noção que usaremos no critério a seguir.

Figura 4.1 Ilustração do critério de comparação com a integral. Figura 4.1 Ilustração do critério de comparação com a integral.
Figura 4.1 Ilustração do critério de comparação com a integral.

Teorema 4.23 (Critério de comparação com a integral)
Seja \(f:[1,\infty )\to \mathbb {R}\) uma função contínua, positiva e decrescente. Então a série
\[ \sum _{k=1}^{\infty } f(k) \]
converge se, e somente se, a integral infinita
\[ \int _1^{\infty } f(x)\, dx, \]
no sentido da Definição 10.33, converge.

Demonstração

Escreva \(a_k=f(k)\) e \(s_n=\sum _{k=1}^n a_k\). Como \(f\) é decrescente, para todo \(k\ge 2\) e todo \(x\in [k-1,k]\) temos \(f(k)\le f(x)\). Logo,

\[ \sum _{k=2}^n f(k)\le \int _1^n f(x)\, dx. \]

Se \(\int _1^\infty f(x)\, dx\) converge, então

\[ s_n\le f(1)+\int _1^n f(x)\, dx\le f(1)+\int _1^\infty f(x)\, dx. \]

Como \((s_n)\) é crescente, por ter termos positivos, ela converge. Portanto, a série converge.

Reciprocamente, para todo \(k\ge 1\) e todo \(x\in [k,k+1]\) temos \(f(x)\le f(k)\). Assim,

\[ \int _1^{n+1} f(x)\, dx\le \sum _{k=1}^n f(k)=s_n. \]

Se a série converge, então \((s_n)\) é limitada, e a desigualdade anterior mostra que as integrais \(\int _1^t f(x)\, dx\) também são limitadas superiormente. Como essas integrais crescem com \(t\), a integral imprópria converge. Equivalentemente, se a integral imprópria diverge, a série também diverge.

Exemplo 4.24 (Série \(p\))
O critério de comparação com a integral permite demonstrar que
\[ \sum _{n=1}^{\infty }\frac1{n^p} \quad \text{converge se, e somente se,}\quad p\gt 1. \]
De fato, para \(f(x)=x^{-p}\), temos
\[ \int _1^n x^{-p}\, dx= \begin{cases} \dfrac {n^{1-p}-1}{1-p}, & \text{se } p\neq 1,\\[0.5em] \log n, & \text{se } p=1. \end{cases} \]
Pelo Exemplo 10.38, a integral infinita converge exatamente quando \(p\gt 1\). Para \(0\lt p\le 1\), o critério da integral mostra que a série diverge; para \(p\le 0\), nem precisamos do critério, pois o termo \(1/n^p\) não tende a zero. Portanto, em todos os casos, a série-\(p\) converge exatamente quando \(p\gt 1\).

Exemplo 4.25
O mesmo método mostra que 6
\[ \sum _{n=2}^{\infty } \frac{1}{n(\log n)^s} \quad \text{converge se, e somente se,}\quad s\gt 1. \]
De fato,
\[ \int _2^n \frac{1}{x(\log x)^s}\, dx= \begin{cases} \dfrac {(\log n)^{1-s}-(\log 2)^{1-s}}{1-s}, & \text{se } s\neq 1,\\[0.5em] \log (\log n)-\log (\log 2), & \text{se } s=1. \end{cases} \]
A função \(x\mapsto 1/[x(\log x)^s]\) é positiva e, para cada \(s\in \mathbb {R}\), é decrescente a partir de algum ponto. Como retirar um número finito de termos não altera a convergência, aplicamos o critério da integral à cauda. A integral imprópria converge exatamente quando \(s\gt 1\); portanto, o mesmo vale para a série.

Exercício 4.20
Determine se as seguintes séries convergem ou divergem e justifique sua resposta:
  1. \(\sum _{n=1}^\infty \frac{n}{(4n - 3)(4n - 1)}\)

  2. \(\sum _{n=1}^\infty \frac{\sqrt{2n - 1} \log (4n + 1)}{n(n + 1)}\)

  3. \(\sum _{n=1}^\infty \frac{n + 1}{2^n}\)

  4. \(\sum _{n=1}^\infty \frac{n^2}{2^n}\)

  5. \(\sum _{n=1}^\infty \frac{|\sin (nx)|}{n^2}\)

  6. \(\sum _{n=1}^\infty \frac{2 + (-1)^n}{2^n}\)

  7. \(\sum _{n=1}^\infty \frac{n!}{(n + 2)!}\)

  8. \(\sum _{n=2}^\infty \frac{\log n}{n\sqrt{n + 1}}\)

  9. \(\sum _{n=1}^\infty \frac{1}{\sqrt{n(n + 1)}}\)

As séries \(p\) passam agora a funcionar como uma régua assintótica. Muitas séries não são literalmente maiores ou menores que \(1/n^p\) de maneira conveniente, mas se tornam indistinguíveis dela na escala correta.

4.3.3 Comportamento assintótico

A comparação termo a termo pode ser artificial quando duas sequências têm a mesma escala assintótica. Nessa situação, o quociente entre os termos revela a comparação que realmente importa.

Definição 4.26
Sejam \((a_n)\) e \((b_n)\) sequências de termos positivos. Dizemos que \(a_n\) é assintoticamente equivalente a \(L b_n\), com \(L\gt 0\), se
\[ \lim _{n \to \infty } \frac{a_n}{b_n} = L. \]
Nesse caso, escrevemos \(a_n\sim Lb_n\). Em particular, quando \(L=1\), escrevemos simplesmente \(a_n\sim b_n\).

Teorema 4.27 (Critério do Limite)
Sejam \(\sum _{j=0}^\infty a_j\) e \(\sum _{j=0}^\infty b_j\) séries de termos positivos. Se \(a_n \sim L b_n\) para algum \(L \gt 0\), então ambas as séries convergem ou ambas divergem.

Demonstração

Como

\[ \lim _{n\to \infty }\frac{a_n}{b_n}=L\gt 0, \]

existe \(N\in \mathbb {N}\) tal que, para todo \(n\ge N\),

\[ \frac{L}{2}\lt \frac{a_n}{b_n}\lt \frac{3L}{2}. \]

Logo,

\[ \frac{L}{2}b_n\lt a_n\lt \frac{3L}{2}b_n,\qquad n\ge N. \]

Se \(\sum b_n\) converge, então \(\sum (3L/2)b_n\) converge e, pelo critério da comparação, a cauda de \(\sum a_n\) converge. Portanto, \(\sum a_n\) converge. Reciprocamente, se \(\sum a_n\) converge, então a desigualdade \(b_n\lt (2/L)a_n\), válida para \(n\ge N\), mostra novamente pelo critério da comparação que \(\sum b_n\) converge. Assim, as duas séries têm o mesmo comportamento quanto à convergência.

Exemplo 4.28
A série
\[ \sum _{n=1}^{\infty }\frac{1}{n^2+n+1} \]
converge. Com efeito, se \(a_n=1/(n^2+n+1)\) e \(b_n=1/n^2\), então
\[ \frac{a_n}{b_n}=\frac{n^2}{n^2+n+1}\longrightarrow 1. \]
Logo, \(a_n\sim b_n\). Como \(\sum _{n=1}^{\infty }1/n^2\) converge, o critério do limite implica a convergência da série dada.

Exemplo 4.29
A série
\[ \sum _{n=0}^{\infty }\left(\sqrt{n+1}-\sqrt n\right)^2 \]
diverge. Para \(n\ge 1\), racionalizando o termo geral, obtemos
\[ \left(\sqrt{n+1}-\sqrt n\right)^2 = \frac{1}{\left(\sqrt{n+1}+\sqrt n\right)^2}. \]
Comparando com \(b_n=1/n\), temos
\[ \frac{b_n}{a_n} = \frac{\left(\sqrt{n+1}+\sqrt n\right)^2}{n} = 2+\frac1n+2\sqrt{1+\frac1n} \longrightarrow 4. \]
Assim, \(a_n\sim b_n/4\). Como a série harmônica diverge, o critério do limite implica a divergência da série dada.

Exercícios básicos

Exercício 4.21

Determine a convergência de cada uma das seguintes séries:

  1. \(\sum _{j=0}^\infty \frac{2j+1}{5^j - j}\)

  2. \(\sum _{j=1}^\infty \frac{\sqrt{j+1} - \sqrt{j}}{j}\)

  3. \(\sum _{j=1}^\infty \frac{e^j}{j^2}\)

  4. \(\sum _{j=3}^\infty \frac{1}{\sqrt{j-3} + \sqrt{j+3}}\)

  5. \(\sum _{n=1}^\infty \left(\frac{1}{n^2 + 1}\right)^2\)

  6. \(\sum _{n=4}^\infty \frac{n^2}{n^3 - 3}\)

  7. \(\sum _{n=2}^\infty \frac{4}{n(n+1)}\)

  8. \(\sum _{n=7}^\infty \frac{2}{n^2 - 2n - 3}\)

  9. \(\sum _{n=2}^\infty \frac{n - 1}{\sqrt{n^6 + 9}}\)

  10. \(\sum _{n=0}^\infty \frac{2^n \sin ^2(5n)}{4^n + \cos ^2(n)}\)

  11. \(\sum _{n=3}^\infty \frac{e^{-n}}{n^2 + 2n}\)

  12. \(\sum _{n=3}^\infty \frac{4n^2 - n}{n^3 + 9}\)

  13. \(\sum _{n=1}^\infty \frac{\sqrt{2n^2 + 4n + 1}}{n^3 + 1}\)

  14. \(\sum _{j=1}^\infty \left(e^{1/j} - 1\right)^p\) para todo \(p\) racional;

  15. \(\sum _{j=1}^\infty \frac{1}{\sqrt{j^2 + 1 - j}}\)

  16. \(\sum _{j=1}^\infty \frac{\sqrt{j+1} - \sqrt{j}}{\sqrt{j+1}}\)

  17. \(\sum _{j=1}^\infty \frac{1}{j^{2+1/j}}\)

Exercícios complementares

Exercício 4.22

Encontre todos os inteiros \(t\ge 0\) tais que:

\[ \sum _{j=1}^\infty \frac{1}{j^{1+t-\sqrt{t}}} \]

seja convergente.

Exercício 4.23

Considere \(a \gt 0\) e \(b \gt 0\). Encontre todo \(p\) racional tal que:

\[ \sum _{j=0}^\infty \frac{1}{(aj+b)^p} \]

seja convergente.

Convém guardar a diferença entre as três ideias. A comparação direta usa uma desigualdade; o critério integral constrói modelos a partir de funções; a comparação assintótica ignora constantes e detalhes de baixa ordem. Não são três receitas concorrentes, mas três maneiras de responder à mesma pergunta: com que série conhecida este termo se parece?

4.4 Sinais e cancelamento

Quando os termos mudam de sinal, a monotonicidade das somas parciais desaparece. Há então duas razões muito diferentes para uma série convergir: ou seus módulos já formam uma série convergente, ou sinais opostos produzem cancelamento. Essa distinção organiza o restante da teoria.

4.4.1 Convergência absoluta

Até aqui, a positividade dos termos permitiu controlar as somas parciais por monotonicidade e comparação. Quando aparecem sinais diferentes, surge uma possibilidade nova: o cancelamento. Antes de explorá-lo, isolamos uma situação especialmente estável, a convergência absoluta.

Definição 4.30
Dizemos que uma série \(\sum a_n\) converge absolutamente se a série \(\sum |a_n|\) converge. Dizemos que \(\sum a_n\) converge condicionalmente se \(\sum a_n\) converge, mas \(\sum |a_n|\) diverge.

Teorema 4.31
Se uma série converge absolutamente, então ela converge.

Demonstração

Suponha que \(\sum a_n\) seja absolutamente convergente. Pelo critério de Cauchy aplicado à série \(\sum |a_n|\), dado \(\varepsilon \gt 0\), existe \(N\in \mathbb {N}\) tal que, se \(n\ge m\ge N\), então

\[ |a_m|+|a_{m+1}|+\cdots +|a_n|\lt \varepsilon . \]

Pela desigualdade triangular,

\[ |a_m+a_{m+1}+\cdots +a_n| \le |a_m|+|a_{m+1}|+\cdots +|a_n| \lt \varepsilon . \]

Portanto, \(\sum a_n\) satisfaz o critério de Cauchy para séries e, consequentemente, converge.

Quando os termos de uma série são não negativos, convergência e convergência absoluta são equivalentes.

Se \(\sum a_n\) e \(\sum b_n\) são absolutamente convergentes, o mesmo se verifica para a série \(\sum (\alpha a_n+\beta b_n)\) qualquer que seja a escolha de \(\alpha \) e \( \beta \). Essa é uma consequência imediata da desigualdade triangular, e a demonstração será deixada ao leitor.

Exercício 4.24
Prove que, se \(\sum |a_n|\) converge e \((b_n)\) é uma sequência limitada, então \(\sum a_n b_n\) também converge.
Exercício 4.25
  1. Mostre que, se \(\sum _{j=0}^\infty x_j\) converge absolutamente, então \(\sum _{j=0}^\infty x_j^2\) também converge.

  2. O recíproco é verdadeiro?

  3. É verdade que, se \(\sum _{j=0}^\infty x_j\) converge, então \(\sum _{j=0}^\infty x_j^2\) também converge?

Exercício 4.26

Mostre que, se \(\sum _{j=0}^\infty z_j\) e \(\sum _{j=0}^\infty w_j\) são séries absolutamente convergentes, então \(\sum _{j=0}^\infty z_j w_j\) e \(\sum _{j=0}^\infty (\alpha z_j + \beta w_j)\) também são absolutamente convergentes para todos os números reais \(\alpha \) e \(\beta \).

Exercício 4.27

Mostre que, se \(\sum _{j=0}^\infty z_j\) é uma série absolutamente convergente, então

\[ \left| \sum _{j=0}^\infty z_j \right| \leq \sum _{j=0}^\infty |z_j|. \]

A convergência absoluta permite esquecer os sinais e voltar ao mundo das séries positivas. Em algumas famílias, a própria forma algébrica dos termos fornece uma comparação geométrica sem que seja preciso adivinhar uma série-modelo.

4.4.2 Quando a forma do termo decide: raiz e razão

Teorema 4.32 (Critério da Raiz)
Dada uma série \(\sum a_n\), seja
\[ R=\limsup _{n\to \infty }|a_n|^{1/n}. \]
Então:
  • se \(R\lt 1\), a série converge absolutamente;

  • se \(R\gt 1\), a série diverge;

  • se \(R=1\), o critério não fornece informação sobre a convergência ou divergência.

Demonstração

Se \(R\lt 1\), escolha \(r\) tal que \(R\lt r\lt 1\). Então, para \(n\) suficientemente grande, temos \(|a_n|^{1/n}\le r\), isto é, \(|a_n|\le r^n\). Como a série geométrica \(\sum r^n\) converge, o critério da comparação mostra que \(\sum a_n\) converge absolutamente.

Se \(R\gt 1\), então existem infinitos índices \(n\) tais que \(|a_n|^{1/n}\gt 1\), e portanto \(|a_n|\gt 1\). Em particular, \(a_n\not\to 0\), de modo que a série diverge pelo Teorema 4.5.

Quando \(R=1\), o critério é inconclusivo. De fato, para a série harmônica \(\sum _{n=1}^{\infty }\frac1n\) e para a série \(\sum _{n=1}^{\infty }\frac1{n^2}\), temos \(|a_n|^{1/n}\to 1\) em ambos os casos, mas a primeira diverge e a segunda converge.

Exemplo 4.33
O Critério da Raiz determina diretamente a convergência da série \(\sum _{n=3}^{\infty }(\log n)^{-n}\). De fato, se \(a_n=(\log n)^{-n}\), então
\[ |a_n|^{1/n}=\frac1{\log n}\to 0. \]
Logo, a série converge absolutamente.

Exemplo 4.34
Aplicando o Critério da Raiz à série
\[ \sum _{n=1}^{\infty }\left(\frac{n}{n+1}\right)^{n^2}, \]
temos, para \(a_n=(n/(n+1))^{n^2}\),
\[ |a_n|^{1/n}=\left(\frac{n}{n+1}\right)^n=\frac1{(1+1/n)^n}\to \frac1e. \]
Como \(1/e\lt 1\), a série converge.

Uma variante do mesmo tipo de argumento conduz ao critério da razão.

Teorema 4.35 (Critério da Razão)
Seja \(\sum a_n\) uma série de termos não nulos.
  • Se \( \limsup \left| \frac{a_{n+1}}{a_n} \right| \lt 1 \), então a série converge absolutamente.

  • Se \( \liminf \left| \frac{a_{n+1}}{a_n} \right| \gt 1 \), então a série diverge.

  • Nos casos restantes, isto é, quando \( \liminf \left| \frac{a_{n+1}}{a_n} \right| \leq 1 \leq \limsup \left| \frac{a_{n+1}}{a_n} \right| \), o critério da razão, por si só, não decide a convergência.

Demonstração

Seja \(L=\limsup \left|\frac{a_{n+1}}{a_n}\right|\). Se \(L\lt 1\), escolha \(r\) tal que \(L\lt r\lt 1\). Então, para \(n\) suficientemente grande,

\[ \left|\frac{a_{n+1}}{a_n}\right|\le r. \]

Fixado tal \(n\), obtemos por indução que \(|a_{n+k}|\le r^k |a_n|\) para todo \(k\ge 0\). Logo, a cauda de \(\sum |a_n|\) é dominada por uma série geométrica, e portanto \(\sum a_n\) converge absolutamente.

Se \(\liminf \left|\frac{a_{n+1}}{a_n}\right|\gt 1\), existe \(r\gt 1\) tal que, para \(n\) suficientemente grande,

\[ \left|\frac{a_{n+1}}{a_n}\right|\ge r. \]

Assim, \(|a_n|\) não pode tender a zero. Pelo Teorema 4.5, a série diverge.

A parte (c) decorre do fato de que tanto a série harmônica quanto a série \(\sum 1/n^2\) satisfazem

\[ \lim _{n\to \infty }\left|\frac{a_{n+1}}{a_n}\right|=1, \]

mas a primeira diverge e a segunda converge.

Exemplo 4.36
  • Considere a série \(\sum n/2^n\). Para \(a_n=n/2^n\), temos

    \[ \frac{a_{n+1}}{a_n}=\frac{(n+1)2^n}{2^{n+1}n}=\frac{n+1}{2n}\to \frac12. \]

    Além disso,

    \[ |a_n|^{1/n}=\frac{n^{1/n}}2\to \frac12. \]

    Assim, tanto o critério da razão quanto o critério da raiz mostram que \(\sum n/2^n\) converge.

  • Qualquer série da forma \(\sum 1/n^p\), onde \(p \in \mathbb {R}\), é chamada de série-\(p\). Para essa série, se \(p\gt 0\), então

    \[ \lim _{n\to \infty }\left(\frac{1}{n^p}\right)^{1/n}=1 \qquad \text{e}\qquad \lim _{n\to \infty }\frac{(n+1)^{-p}}{n^{-p}}=1. \]

    Assim, os critérios da raiz e da razão são inconclusivos.

    Para \(p \leq 1\), temos \(n^p \leq n\), de modo que \(\frac{1}{n^p} \geq \frac{1}{n}\). Como a série harmônica \(\sum 1/n\) diverge, concluímos, pelo critério da comparação, que a série-\(p\) diverge para \(p \leq 1\).

  • Considere

    \[ \sum _{k=1}^{\infty } \frac{p^k}{k!}, \quad 0\lt p\lt \infty . \]

    Aqui, \(a_k=\frac{p^k}{k!}\). Assim,

    \[ \lim _{k \rightarrow \infty } \frac{a_{k+1}}{a_k}=\lim _{k \rightarrow \infty } \frac{p^{k+1}}{p^k} \frac{k!}{(k+1)!}=p \lim _{k \rightarrow \infty } \frac{1}{k+1}=0. \]

    Pelo critério da razão, a série converge para todo \(p, 0\lt p\lt \infty \). Neste exemplo, a presença de \(k!\) torna o critério da raiz difícil de usar.

  • Considere \(\sum a_n\), onde

    \[ a_n= \begin{cases} \frac{1}{2^k}, & \text{se } n=2k \\ \frac{1}{3^k}, & \text{se } n=2k+1\end{cases}. \]

    Aqui,

    \[ \sum _{n=1}^{\infty } a_n=1+\frac{1}{2}+\frac{1}{3}+\frac{1}{2^2}+\frac{1}{3^2}+\cdots \]

    Por cálculo,

    \[ \frac{a_{n+1}}{a_n}= \begin{cases} \left(\frac{2}{3}\right)^k, & n=2k \\ \frac{1}{2}\left(\frac{3}{2}\right)^k, & n=2k+1\end{cases}. \]

    Consequentemente, o critério da razão é inconclusivo. Por outro lado,

    \[ \sqrt[n]{a_n}=\left\{ \begin{array}{cl} \frac{1}{\sqrt{2}}, & n=2k \\ \frac{1}{\sqrt{3}}(\sqrt{3})^{1/(2k+1)}, & n=2k+1 \end{array}\right. \]

    Como \(\lim _{k \rightarrow \infty }(\sqrt{3})^{1/(2k+1)}=1\), obtemos

    \[ \limsup _{n\to \infty }\sqrt[n]{a_n}=\frac1{\sqrt2}\lt 1. \]

    Portanto, a série converge pelo critério da raiz.

O último item do Exemplo 4.36 mostra uma série para a qual o critério da razão é inconclusivo, enquanto o critério da raiz decide a convergência. O resultado seguinte explica essa diferença.

Teorema 4.37
Seja \((a_n)\) uma sequência de números positivos. Então
\[ \liminf _{n\to \infty }\frac{a_{n+1}}{a_n} \leq \liminf _{n\to \infty }\sqrt[n]{a_n} \leq \limsup _{n\to \infty }\sqrt[n]{a_n} \leq \limsup _{n\to \infty }\frac{a_{n+1}}{a_n}. \]

Observação. Como consequência do teorema, sempre que o critério da razão decide a convergência ou a divergência de uma série de termos positivos, o critério da raiz também decide. O recíproco é falso, como mostra o exemplo anterior.

Demonstração

Seja

\[ R=\limsup _{n\to \infty }\frac{a_{n+1}}{a_n}. \]

Se \(R=\infty \), a última desigualdade é imediata. Suponha, então, que \(R\lt \infty \), e fixe \(\beta \gt R\). Pela definição de limite superior, existe \(n_0\) tal que

\[ \frac{a_{n+1}}{a_n}\le \beta \qquad (n\ge n_0). \]

Por iteração, para todo \(n\ge n_0\),

\[ a_n\le a_{n_0}\beta ^{n-n_0}=M\beta ^n, \qquad M=\frac{a_{n_0}}{\beta ^{n_0}}. \]

Logo, \(\sqrt[n]{a_n}\le \beta \sqrt[n]{M}\) para \(n\ge n_0\), e portanto

\[ \limsup _{n\to \infty }\sqrt[n]{a_n}\le \beta . \]

Como \(\beta \gt R\) é arbitrário, obtemos

\[ \limsup _{n\to \infty }\sqrt[n]{a_n} \le \limsup _{n\to \infty }\frac{a_{n+1}}{a_n}. \]

A desigualdade envolvendo os limites inferiores é análoga. Se

\[ \rho =\liminf _{n\to \infty }\frac{a_{n+1}}{a_n}, \]

então, para todo \(0\lt \alpha \lt \rho \), existe \(n_1\) tal que \(a_{n+1}/a_n\ge \alpha \) para \(n\ge n_1\). Por iteração, \(a_n\ge C\alpha ^n\) para \(n\) suficientemente grande, e assim

\[ \liminf _{n\to \infty }\sqrt[n]{a_n}\ge \alpha . \]

Fazendo \(\alpha \uparrow \rho \), obtemos a primeira desigualdade. A desigualdade central é tautológica.

Exercícios básicos

Exercício 4.28

Seja \(\sum _{j=0}^\infty a_j\) uma série de termos positivos. Mostre que, se \(a_{n+1} \geq a_n\) para todo \(n\), então a série diverge.

Exercício 4.29

Determine a convergência das seguintes séries:

  1. \(\sum _{j=1}^\infty \frac{j!}{e^j}\);

  2. \(\sum _{j=1}^\infty \frac{j!}{j^j}\);

  3. \(\sum _{j=1}^\infty \frac{2^j}{j!}\);

  4. \(\sum _{j=1}^\infty \frac{j^j}{j!}\);

  5. \(\sum _{j=0}^\infty \frac{(j!)^2}{(2j)!}\);

  6. \(\sum _{j=0}^\infty \frac{(j!)^3}{(3j)!}\).

Exercícios complementares

Exercício 4.30
  1. Suponha que \(a_n \gt 0\), \(b_n \gt 0\), e \(a_{n+1}/a_n \leq b_{n+1}/b_n\) para todo \(n\). Mostre que \(\sum _{j=0}^\infty a_j\) converge se \(\sum _{j=0}^\infty b_j\) converge.

    Dica: Mostre que a sequência \(\{ a_n/b_n\} \) é não-crescente e use o Exercício 4.24.)

  2. Use a parte (a) para testar a convergência das seguintes séries:

    1. \(\quad \sum _{j=1}^{\infty } \frac{j^j}{j e^j j!}\);

    2. \(\sum _{j=1}^{\infty } \frac{j^j}{e^j j!}\).

    Note que o critério da razão não fornece conclusões nesses exemplos.

Exercício 4.31

Determine a convergência da série \( \displaystyle \sum _{j=1}^\infty \frac{j!x^j}{j^j} \) para todo \(x \gt 0\).

Exercício 4.32

Aplique o critério da raiz para investigar a convergência da série \( \displaystyle \sum _{j=0}^\infty \frac{e^j}{j!}. \)

Exercício 4.33
Determine a convergência das seguintes séries:
  1. \(\sum _{j=1}^\infty \left(\frac{j}{2j - 1}\right)^j\);

  2. \(\sum _{j=2}^\infty \left(j^{1/j} - 1\right)^j\);

  3. \(\sum _{j=0}^\infty \frac{3j/2}{2^j}\);

  4. \(\sum _{j=1}^\infty j^2 e^{\alpha j}\) para todo \(\alpha \) real;

  5. \(\sum _{j=1}^\infty \frac{x^j}{\left(j^{1/2} + 1\right)^j}\) para todo \(x \gt 0\);

  6. \(\sum _{j=0}^\infty (j + 1)^2 \left( \frac{x}{x+1} \right)^j\), para todo \(x \neq -1\);

  7. \(\sum _{j=0}^\infty \frac{\left(j^2 + 1\right)^{-j^2}}{\left(j^2 + j + 1\right)^{-j^2}}\);

  8. \(\sum _{j=1}^\infty \left(1 - \frac{1}{j}\right)^{j^2}\);

  9. \(\sum _{j=1}^\infty \frac{j^j}{2^{j^2}}\).

Exercício 4.34
Considere a série \( \displaystyle \sum _{j=2}^\infty \frac{1}{j} \left(1 - \frac{1}{j}\right)^j. \)
  1. Mostre que o critério da raiz não é aplicável.

  2. Determine a convergência da série. (Dica: use uma série conhecida.)

Os critérios da raiz e da razão detectam sobretudo decaimento geométrico. Quando o limite relevante é \(1\), isso não representa uma falha: significa apenas que a escala é mais lenta e devemos voltar à comparação, às séries \(p\) ou a outra estrutura do problema.

4.4.3 Cancelamento controlado: séries alternadas

A convergência absoluta não é a única forma de uma série com sinais diferentes convergir. O exemplo mais simples de cancelamento persistente ocorre quando os sinais alternam de maneira regular.

\begin{equation*} \sum _{n=1}^{\infty }(-1)^{n-1} a_{n}=a_{1}-a_{2}+a_{3}-a_{4}+\cdots +(-1)^{n-1} a_{n}+\cdots \end{equation*}

com \(a_n\gt 0\).

Teorema 4.38 (Critério das Séries Alternadas)
Se \( (a_n) \) é uma sequência decrescente de números positivos e \( \lim _{n\to \infty }a_n = 0 \), então a série \(\sum _{n=1}^{\infty }(-1)^{n+1}a_n\) converge.

Demonstração

Seja \(s_n\) a sequência das somas parciais. As somas parciais pares satisfazem

\[ s_{2n}=a_1-a_2+a_3-a_4+\cdots +a_{2n-1}-a_{2n}. \]

Como \((a_n)\) é decrescente, temos

\[ s_{2(n+1)}-s_{2n}=a_{2n+1}-a_{2n+2}\ge 0. \]

Logo, \((s_{2n})\) é crescente. Além disso,

\[ s_{2n}=a_1-(a_2-a_3)-\cdots -(a_{2n-2}-a_{2n-1})-a_{2n}\le a_1, \]

e portanto \((s_{2n})\) converge, pelo Teorema da Convergência Monótona. Seja \(s\) seu limite.

Como \(s_{2n+1}=s_{2n}+a_{2n+1}\) e \(a_{2n+1}\to 0\), segue que \(s_{2n+1}\to s\). As subsequências de índices pares e ímpares têm, portanto, o mesmo limite. Consequentemente, a sequência completa \((s_n)\) converge para \(s\), e a série alternada converge.

Exemplo 4.39
Como a sequência \((1/n)\) é decrescente e \(1/n\to 0\), a série harmônica alternada
\[ \sum _{n=1}^{\infty }(-1)^{n+1}\frac1n \]
converge. Mais adiante, a partir da série de Taylor de \(\log (1+x)\), veremos que
\[ \log 2=1-\frac12+\frac13-\frac14+\cdots . \]
Assim, a soma da série harmônica alternada é \(\log 2\).

Exercícios básicos

Exercício 4.35

Determine a convergência ou divergência das seguintes séries.

  1. \(\sum _{n=1}^\infty \frac{(-1)^{n-1}}{\sqrt{n}}\)

  2. \(\sum _{n=1}^\infty \frac{(-1)^n \sqrt{n}}{1 + 2 \sqrt{n}}\)

  3. \(\sum _{n=1}^\infty \frac{(-1)^n (3n - 1)}{2n + 1}\)

  4. \(\sum _{n=1}^\infty \frac{(-1)^{n-1} \ln n}{n}\)

Exercícios complementares

Exercício 4.36
Determine, conforme o caso, se as seguintes séries convergem absolutamente, convergem condicionalmente ou divergem:
  1. \(\sum _{j=2}^\infty \frac{(-1)^{j+1}}{j - \sqrt{j}}\).

  2. \(\sum _{j=0}^\infty (-1)^j \left( \frac{j+2}{3} \right)^j\).

  3. \(\sum _{j=1}^\infty (-1)^j \frac{j}{j^2+1}\).

  4. \(\sum _{j=1}^\infty (-1)^j \left( 1 + \frac{j - 1}{2j} \right)\).

Exercício 4.37

Seja \((a_n)\) uma sequência decrescente de números positivos tal que \( \lim _{n\to \infty }a_n = 0\). Mostre que a soma \(s\) da série alternada \(\sum (-1)^{n+1} a_n\) está entre qualquer par de somas parciais sucessivas. Isto é, mostre que \(s_{2n} \leq s \leq s_{2n+1}\). Use isso para concluir que, para todo \(n\), \(|s - s_n| \leq a_{n+1}\). Assim, o erro ao parar no \(n\)-ésimo termo não excede o valor absoluto do próximo termo.

Exercício 4.38

Mostre que a série é convergente. Quantos termos da série são necessários para somar com a precisão indicada?

  1. \(\sum _{n=1}^\infty \frac{(-1)^n}{n!} \quad (\text{erro} \lt 0{,}01)\)

  2. \(\sum _{n=1}^\infty \frac{(-1)^n}{n^5} \quad (\text{erro} \lt 0{,}0001)\)

  3. \(\sum _{n=1}^\infty \frac{(-1)^{n+1}}{n^6} \quad (\text{erro} \lt 0{,}00005)\)

  4. \(\sum _{n=1}^\infty (-1)^{n-1} n e^{-n} \quad (\text{erro} \lt 0{,}01)\)

A série harmônica alternada mostra a fronteira essencial: uma série pode convergir mesmo quando a série dos módulos diverge. A partir daqui, a ordem dos termos deixa de ser um detalhe inocente.

4.5 A ordem dos termos importa

Para somas finitas, reordenar parcelas é inofensivo. Para séries infinitas, isso só continua verdadeiro sob uma hipótese forte: convergência absoluta. O caso condicionalmente convergente revela um fenômeno genuinamente novo.

4.5.1 Rearranjos e convergência absoluta

A propriedade comutativa da adição garante que, em uma soma finita, a ordem dos termos não altera o resultado. Para séries infinitas, a situação é mais delicada. Em 1852, Bernhard Riemann mostrou que a ordem dos termos de uma série condicionalmente convergente pode alterar sua soma e pode até produzir rearranjos divergentes.

Considere, por exemplo, a série

\[ 1-1+\frac12-\frac12+\frac13-\frac13+\frac14-\frac14+\cdots . \]

Ela converge para \(0\). No entanto, a série dos valores absolutos é

\[ 1+1+\frac12+\frac12+\frac13+\frac13+\frac14+\frac14+\cdots , \]

que diverge, pois corresponde à série harmônica duplicada. Assim, a série original é condicionalmente convergente.

Rearranjos apropriados de séries condicionalmente convergentes podem produzir outras somas. Por exemplo, tomando dois termos positivos seguidos de um termo negativo, repetidamente, obtemos

\[ 1+\frac12-1+\frac13+\frac14-\frac12+\frac15+\frac16-\frac13+\cdots . \]

O fenômeno geral é descrito pelo Teorema de Riemann: uma série condicionalmente convergente pode ser rearranjada para convergir a qualquer número real previamente fixado. Em contraste, séries absolutamente convergentes preservam sua soma sob qualquer rearranjo.

Definição 4.40
Uma permutação dos números naturais é uma bijeção \(\sigma :\mathbb {N}\to \mathbb {N}\).

Exemplo 4.41
A função \(\sigma :\mathbb {N}\to \mathbb {N}\) definida por
\[ \sigma (k)= \begin{cases} k-1, & \text{se $k$ é par,}\\ k+1, & \text{se $k$ é ímpar,} \end{cases} \]
é uma permutação dos naturais.

Se \(\sigma \) é uma permutação, cada natural aparece exatamente uma vez como valor de \(\sigma \). Em particular, \(x\neq y\) implica \(\sigma (x)\neq \sigma (y)\).

Definição 4.42
Se \(\sum _{n=1}^{\infty }a_n\) é uma série e \(\sigma \) é uma permutação dos números naturais, então a série \(\sum _{n=1}^{\infty }b_n\), onde \(b_n=a_{\sigma (n)}\), é chamada rearranjo da série original.

Teorema 4.43
Seja \(\sum _{n=1}^{\infty } a_n\) uma série absolutamente convergente com soma \(L\). Então, todo rearranjo dessa série também converge absolutamente e tem soma \(L\).

Demonstração

Seja \(\sigma \) uma permutação de \(\mathbb {N}\) e ponha \(b_n=a_{\sigma (n)}\). A série \(\sum |b_n|\) converge, pois cada soma parcial de \(\sum |b_n|\) é uma soma finita de termos da série \(\sum |a_n|\) e, portanto, é limitada superiormente por \(\sum _{n=1}^{\infty }|a_n|\). Logo, o rearranjo converge absolutamente.

Resta provar que sua soma é \(L\). Seja \(B_n=\sum _{k=1}^n b_k\). Dado \(\varepsilon \gt 0\), escolha \(N\) tal que

\[ \left|\sum _{k=1}^N a_k-L\right|\lt \varepsilon \qquad \text{e}\qquad \sum _{k=N+1}^{\infty }|a_k|\lt \varepsilon . \]

Como \(\sigma \) é sobrejetiva, existe \(M\) tal que o conjunto

\[ \{ \sigma (1),\ldots ,\sigma (M)\} \]

contém todos os índices \(1,2,\ldots ,N\). Para \(n\ge M\), podemos escrever

\[ B_n=\sum _{k=1}^N a_k+\sum _{j\in J_n}a_j, \]

onde \(J_n\) é um subconjunto finito de \(\{ N+1,N+2,\ldots \} \). Assim,

\[ |B_n-L|\le \left|\sum _{k=1}^N a_k-L\right|+ \sum _{j\in J_n}|a_j|\lt 2\varepsilon . \]

Portanto, \(B_n\to L\), e o rearranjo tem a mesma soma da série original.

A hipótese de convergência absoluta no Teorema 4.43 é essencial. Para preparar o Teorema de Riemann, convém decompor uma série real em suas partes positiva e negativa. Definimos

\[ a_n^{+}=\max \{ a_n,0\} , \qquad a_n^{-}=\min \{ a_n,0\} . \]

Então

\[ a_n=a_n^+ + a_n^- \qquad \text{e}\qquad |a_n|=a_n^+ - a_n^-. \]

Note que \(a_n^+\ge 0\) e \(a_n^-\le 0\).

Teorema 4.44
Dada uma série \(\sum _{n=1}^{\infty }a_n\) de termos reais, valem as seguintes afirmações.
  1. Se \(\sum a_n\) é condicionalmente convergente, então \(\sum a_n^+\) diverge para \(+\infty \) e \(\sum a_n^-\) diverge para \(-\infty \).

  2. Se \(\sum a_n\) é absolutamente convergente, então \(\sum a_n^+\) e \(\sum a_n^-\) convergem, e

    \[ \sum _{n=1}^{\infty }a_n= \sum _{n=1}^{\infty }a_n^+ + \sum _{n=1}^{\infty }a_n^-. \]

Demonstração

Como \(a_n^+=(|a_n|+a_n)/2\) e \(a_n^-=(a_n-|a_n|)/2\), a convergência simultânea de \(\sum a_n\) e \(\sum |a_n|\) implica a convergência de \(\sum a_n^+\) e de \(\sum a_n^-\). Isso prova a segunda afirmação, quando a série é absolutamente convergente, e a identidade das somas segue de \(a_n=a_n^+ + a_n^-\) e da linearidade.

Suponha agora que \(\sum a_n\) seja condicionalmente convergente. Se \(\sum a_n^+\) e \(\sum a_n^-\) convergissem, então \(\sum |a_n|=\sum (a_n^+-a_n^-)\) também convergiria, contradizendo a convergência apenas condicional. Além disso, como \(\sum a_n=\sum a_n^+ + \sum a_n^-\) converge, não pode ocorrer que apenas uma das duas séries convirja. Logo, \(\sum a_n^+\) diverge e \(\sum a_n^-\) diverge. Como a primeira tem termos não negativos e a segunda tem termos não positivos, suas divergências são, respectivamente, para \(+\infty \) e para \(-\infty \).

No rearranjo exibido acima, em que tomamos dois termos positivos para cada termo negativo da série

\[ 1-1+\frac12-\frac12+\frac13-\frac13+\cdots , \]

as somas ao final de cada bloco são

\[ H_{2n}-H_n, \]

e portanto tendem a \(\log 2\). A mudança de ordem não apenas pode alterar a soma: aqui ela transforma uma série de soma \(0\) em outra de soma \(\log 2\).

4.5.2 Teorema do Rearranjo de Riemann

Teorema 4.45 (Teorema do Rearranjo de Riemann)
Seja \(\sum _{n=1}^{\infty } a_n\) uma série condicionalmente convergente de termos reais e seja \(L\in \mathbb {R}\). Então existe um rearranjo \(\sum _{n=1}^{\infty } b_n\) dos termos de \(\sum _{n=1}^{\infty } a_n\) que converge para \(L\).

Demonstração

Liste os termos positivos da série, na ordem em que aparecem, como \(p_1,p_2,p_3,\ldots \), e os módulos dos termos negativos como \(q_1,q_2,q_3,\ldots \). Pelo resultado anterior,

\[ \sum _{j=1}^{\infty }p_j=+\infty , \qquad \sum _{j=1}^{\infty }q_j=+\infty . \]

Além disso, como \(a_n\to 0\), temos \(p_j\to 0\) e \(q_j\to 0\).

Construímos o rearranjo por etapas. A partir da soma parcial zero, somamos termos positivos \(p_j\), em ordem, até ultrapassar \(L\). Depois somamos termos negativos \(-q_j\), em ordem, até ficar abaixo de \(L\). Repetimos esse procedimento indefinidamente: após ficar abaixo de \(L\), acrescentamos termos positivos até ultrapassar \(L\); após ultrapassar \(L\), acrescentamos termos negativos até ficar abaixo de \(L\).

Além disso, nenhum termo positivo ou negativo é repetido ou omitido. Se a série original contém termos nulos, eles podem ser inseridos em quaisquer posições do rearranjo sem alterar as somas parciais relevantes nem o limite. Dentro de cada classe, positiva ou negativa, os termos são usados em sua ordem original.

Seja \(S_m\) a sequência de somas parciais do rearranjo construído. Dado \(\varepsilon \gt 0\), escolha \(J\) tal que \(p_j\lt \varepsilon \) e \(q_j\lt \varepsilon \) para todo \(j\ge J\). Depois que todos os termos \(p_1,\ldots ,p_{J-1}\) e \(q_1,\ldots ,q_{J-1}\) tiverem sido usados, cada ultrapassagem de \(L\) excede \(L\) por menos de \(\varepsilon \), pois ocorre pela adição de um termo positivo menor que \(\varepsilon \). Do mesmo modo, cada passagem abaixo de \(L\) fica a menos de \(\varepsilon \) de \(L\), pois ocorre pela adição de um termo negativo de módulo menor que \(\varepsilon \).

Entre uma ultrapassagem e a passagem seguinte, as somas parciais diminuem monotonamente e permanecem entre esses dois valores. Entre uma passagem abaixo de \(L\) e a ultrapassagem seguinte, elas aumentam monotonamente e também permanecem entre esses dois valores. Assim, para todo \(m\) suficientemente grande,

\[ |S_m-L|\lt \varepsilon . \]

Logo, \(S_m\to L\), isto é, o rearranjo construído converge para \(L\).

Exercícios de síntese

Exercício 4.39
Determine se cada série converge condicionalmente, converge absolutamente ou diverge. Justifique sua resposta.
  1. \(\sum _{n=2}^\infty \frac{(-1)^n}{\ln n}\)

  2. \(\sum _{n=2}^\infty \frac{(-2)^n}{n^2}\)

  3. \(\sum _{n=0}^\infty \frac{(-3)^n}{n!}\)

  4. \(\sum _{n=0}^\infty \frac{(-5)^n}{2^n}\)

  5. \(\sum _{n=1}^\infty \frac{\cos n\pi }{\sqrt{n}}\)

  6. \(\sum _{n=2}^\infty \frac{(-1)^n}{n \ln n}\)

  7. \(\sum _{n=1}^\infty \frac{(-1)^n n}{n+1}\)

  8. \(\sum _{n=1}^\infty \frac{(-1)^n}{\sqrt{n^2 + 1}}\)

  9. \(\sum _{n=2}^\infty \frac{(-1)^n \ln n}{n}\)

  10. \(\sum _{n=1}^{\infty } \left( \frac{1}{\sqrt{n}} - \frac{1}{n} \right)\)

4.6 O número \(e\) revisitado

Os critérios anteriores não servem apenas para classificar séries. Eles também permitem voltar a objetos já conhecidos e vê-los de outra forma. O número \(e\), definido anteriormente por um limite, reaparece agora como soma de uma série de termos positivos.

Como aplicação dos critérios de convergência, retomamos o número de Euler e mostramos que ele admite a representação

\[ e=\sum _{n=0}^{\infty }\frac{1}{n!}. \]

Em seguida, usamos essa representação para provar que \(e\) é irracional.

Defina

\[ e'=\sum _{n=0}^{\infty }\frac{1}{n!}. \]

A série converge pelo critério da razão, pois, para \(a_n=1/n!\), temos

\[ \frac{a_{n+1}}{a_n}=\frac{1}{n+1}\to 0. \]

Teorema 4.46
Vale a identidade
\[ e'=\lim _{n\to \infty }\left(1+\frac1n\right)^n=e. \]

Demonstração

Escreva

\[ s_n=\sum _{k=0}^{n}\frac1{k!} \qquad \text{e}\qquad t_n=\left(1+\frac1n\right)^n. \]

Por definição, \(s_n\to e'\). Provaremos que \(t_n\to e'\).

Pelo teorema binomial,

\[ t_n=\sum _{k=0}^{n}\frac{1}{k!} \left(1-\frac1n\right) \left(1-\frac2n\right)\cdots \left(1-\frac{k-1}{n}\right), \]

onde, para \(k=0\) e \(k=1\), o produto vazio é entendido como \(1\). Como todos os fatores são menores ou iguais a \(1\), obtemos \(t_n\le s_n\) e, portanto,

\[ \limsup _{n\to \infty } t_n\le e'. \]

Para a desigualdade oposta, fixe \(m\in \mathbb {N}\). Se \(n\ge m\), então

\[ t_n\ge \sum _{k=0}^{m}\frac{1}{k!} \left(1-\frac1n\right) \left(1-\frac2n\right)\cdots \left(1-\frac{k-1}{n}\right). \]

Passando ao limite inferior quando \(n\to \infty \), cada produto finito tende a \(1\), e segue que

\[ \liminf _{n\to \infty }t_n\ge \sum _{k=0}^{m}\frac1{k!}=s_m. \]

Como isso vale para todo \(m\), obtemos \(\liminf t_n\ge e'\). Logo, \(t_n\to e'\).

A estimativa seguinte mede a rapidez com que as somas parciais da série de \(e\) se aproximam do limite.

Proposição 4.47 (Estimativa do resto)
Para todo \(n\ge 1\), se \(s_n=\sum _{k=0}^{n}1/k!\), então
\[ 0\lt e-s_n\lt \frac{1}{n!\, n}. \]

Demonstração

Como \(e=\sum _{k=0}^{\infty }1/k!\), temos

\[ e-s_n=\sum _{k=n+1}^{\infty }\frac1{k!} =\frac1{(n+1)!}\left(1+\frac1{n+2}+\frac1{(n+2)(n+3)}+\cdots \right). \]

Cada termo entre parênteses, a partir do segundo, é dominado pela correspondente potência de \(1/(n+1)\). Portanto,

\[ e-s_n\lt \frac1{(n+1)!}\left(1+\frac1{n+1}+\frac1{(n+1)^2}+\cdots \right) =\frac1{(n+1)!}\cdot \frac{n+1}{n} =\frac1{n!\, n}. \]

A desigualdade \(e-s_n\gt 0\) é imediata, pois o resto é soma de termos positivos.

Teorema 4.48
O número \(e\) é irracional.

Demonstração

Suponha, por absurdo, que \(e=p/q\), com \(p,q\in \mathbb {N}\). Aplicando a proposição anterior com \(n=q\), obtemos

\[ 0\lt e-s_q\lt \frac{1}{q!\, q}. \]

Multiplicando por \(q!\), segue que

\[ 0\lt q!e-q!s_q\lt \frac1q\le 1. \]

Por outro lado, \(q!e=q!p/q=(q-1)!p\) é inteiro, e

\[ q!s_q=\sum _{k=0}^{q}\frac{q!}{k!} \]

também é inteiro. Assim, \(q!e-q!s_q\) seria um inteiro positivo estritamente menor que \(1\), o que é impossível. Logo, \(e\) é irracional.

4.7 Representação decimal dos números reais II

Na Seção 1.13, a representação decimal foi introduzida por meio de truncamentos. A teoria de séries permite agora dizer com precisão o que a notação decimal infinita significa.

Seja \(r\ge 0\). Escolhidos \(a_0\in \mathbb {N}\cup \{ 0\} \) e dígitos \(a_k\in \{ 0,1,\ldots ,9\} \), definimos os truncamentos

\[ s_n=a_0+\sum _{k=1}^{n}\frac{a_k}{10^k}. \]

Escrever

\[ r=a_0{,}a_1a_2a_3\ldots \]

significa precisamente que \(s_n\to r\), isto é,

\[ r=a_0+\sum _{k=1}^{\infty }\frac{a_k}{10^k}. \]

Reciprocamente, qualquer sequência de dígitos determina um número real. De fato, para

\[ S_n=\sum _{k=1}^{n}\frac{a_k}{10^k} \]

temos \(S_{n+1}\ge S_n\) e

\[ 0\le S_n\le 9\sum _{k=1}^{n}\frac1{10^k}\lt 1. \]

Assim, \((S_n)\) é crescente e limitada; pelo Teorema da Convergência Monótona, ela converge. Portanto toda sequência de dígitos determina um número de \([0,1]\). Todo real não negativo admite uma representação desse tipo; para números negativos, aplicamos a construção ao módulo e acrescentamos o sinal.

A representação não é única exatamente quando uma expansão termina, a partir de certo ponto, em uma cauda infinita de algarismos \(9\). Por exemplo,

\[ 1=0{,}999\ldots , \]

pois

\[ \sum _{k=1}^{\infty }\frac9{10^k} =9\frac{1/10}{1-1/10}=1. \]

De modo geral,

\[ 0{,}5000\ldots =0{,}4999\ldots . \]

Exercícios complementares

Exercício 4.40
Prove que a representação decimal de um número racional é finita ou eventualmente periódica.
Exercício 4.41
Prove que, se a representação decimal de um número é finita ou eventualmente periódica, então ele é racional.
Exercício 4.42
Prove que todo número cuja representação decimal é da forma \(a_0{,}a_1a_2\cdots a_n\), com \(a_n\neq 0\), também pode ser representado como \(a_0{,}a_1a_2\cdots (a_n-1)99999\cdots \).
Exercício 4.43

Prove que a constante de Liouville \(L=\sum _{k=1}^{\infty }10^{-k!}\) é irracional.

Exercício 4.44 (difficulty=2)

Transformação de Abel e critério de Dirichlet. Sejam \((a_n)\) e \((b_n)\) sequências reais e defina

\[ A_n=\sum _{k=1}^n a_k. \]

Prove a identidade de Abel

\[ \sum _{k=m}^n a_kb_k = A_nb_n-A_{m-1}b_m + \sum _{k=m}^{n-1}A_k(b_k-b_{k+1}). \]

Deduza o critério de Dirichlet: se as somas parciais de \(\sum a_n\) são limitadas e \((b_n)\) é monótona com \(b_n\to 0\), então

\[ \sum _{n=1}^{\infty }a_nb_n \]

converge.

Ver solução
Adote \(A_0=0\). Como \(a_k=A_k-A_{k-1}\), uma mudança de índice dá
\[ \begin{aligned} \sum _{k=m}^n a_kb_k & =\sum _{k=m}^n(A_k-A_{k-1})b_k\\ & =A_nb_n-A_{m-1}b_m+ \sum _{k=m}^{n-1}A_k(b_k-b_{k+1}). \end{aligned} \]
Se \(|A_k|\le M\), então
\[ \left|\sum _{k=m}^n a_kb_k\right| \le M\left(|b_n|+|b_m|+ \sum _{k=m}^{n-1}|b_k-b_{k+1}|\right). \]
Pela monotonicidade, a última soma é \(|b_m-b_n|\). Como \(b_n\to 0\), a estimativa tende uniformemente a zero para \(n\ge m\to \infty \). O critério de Cauchy para séries conclui a prova.
Exercício 4.45 (difficulty=3)

Teorema de rearranjo de Riemann. Seja

\[ \sum _{n=1}^{\infty }a_n \]

uma série real condicionalmente convergente. Prove que, para todo \(L\in \mathbb {R}\), existe um rearranjo da série que converge para \(L\).

Mostre também que existem rearranjos cujas somas parciais tendem a \(+\infty \) e rearranjos cujas somas parciais tendem a \(-\infty \).

Ver solução

Separe os termos positivos \(p_j\) e os módulos dos termos negativos \(q_j\), conservando a ordem original dentro de cada grupo. A convergência condicional implica

\[ \sum _jp_j=+\infty ,\qquad \sum _jq_j=+\infty , \qquad p_j,q_j\to 0. \]

Para obter soma \(L\), some positivos até ultrapassar \(L\), depois negativos até ficar abaixo de \(L\), e repita. As ultrapassagens ficam limitadas pelo último termo utilizado e, portanto, tendem a zero. Entre duas ultrapassagens consecutivas, as somas parciais são monótonas e permanecem entre os valores extremos dessas etapas. Logo todas as somas parciais convergem para \(L\).

Para obter \(+\infty \), na etapa \(k\) use os próximos termos positivos até que a soma ultrapasse \(k\), e acrescente então o próximo termo negativo, \(-q_k\). A soma ao fim da etapa é maior que \(k-q_k\). Durante a etapa seguinte, ela não desce abaixo do menor entre esse valor e o valor final da etapa seguinte. Como \(q_k\to 0\), todas as somas parciais tendem a \(+\infty \). O caso \(-\infty \) é simétrico.

Esses procedimentos utilizam todos os termos positivos e negativos, sem repetições: os índices de ambos os grupos avançam indefinidamente. Se houver termos nulos, insira o próximo deles ao fim de cada etapa, até esgotá-los ou indefinidamente. Isso não altera os limites e garante que o resultado seja um rearranjo de toda a série.

Exercício 4.46 (difficulty=2)

Produto de Cauchy. Sejam

\[ \sum _{n=0}^{\infty }a_n=A, \qquad \sum _{n=0}^{\infty }b_n=B \]

duas séries absolutamente convergentes. Defina

\[ c_n=\sum _{k=0}^n a_kb_{n-k}. \]

Prove que

\[ \sum _{n=0}^{\infty }c_n \]

converge absolutamente e que

\[ \sum _{n=0}^{\infty }c_n=AB. \]
Ver solução

Escreva \(A_* =\sum _{k\ge 0}|a_k|\) e \(B_* =\sum _{j\ge 0}|b_j|\). Para todo \(N\),

\[ \sum _{n=0}^N|c_n| \le \sum _{k+j\le N}|a_k||b_j|\le A_*B_*. \]

As somas parciais de \(\sum |c_n|\) são crescentes e limitadas, logo essa série converge.

A diferença entre \( (\sum _{k=0}^Na_k)(\sum _{j=0}^Nb_j)\) e \(\sum _{n=0}^Nc_n\) é a soma dos produtos no quadrado \(0\le k,j\le N\) que satisfazem \(k+j\gt N\). Nessa região, \(k\gt N/2\) ou \(j\gt N/2\). Portanto o módulo da diferença é no máximo

\[ B_*\sum _{k\gt N/2}|a_k|+A_*\sum _{j\gt N/2}|b_j|\longrightarrow 0. \]

Como o produto das somas parciais converge para \(AB\), segue que \(\sum _{n=0}^{\infty }c_n=AB\).

Exercício 4.47 (difficulty=2)

Séries logarítmicas clássicas. Determine, em função dos parâmetros reais \(p\) e \(q\), a convergência das séries

\[ \sum _{n=2}^{\infty }\frac{1}{n(\log n)^p} \]

e

\[ \sum _{n=3}^{\infty } \frac{1}{n\log n\, (\log \log n)^q}. \]
Ver solução

A primeira série converge se, e somente se, \(p\gt 1\); a segunda, se, e somente se, \(q\gt 1\). Uma prova que não usa integrais é a seguinte.

Agrupe os índices em blocos \(2^k\le n\lt 2^{k+1}\). Há \(2^k\) termos em cada bloco. Nele, \(n\) é comparável a \(2^k\), e \(\log n\) é comparável a \(k\). Para cada \(p\) fixado, existem constantes \(c_p,C_p\gt 0\), independentes de \(k\), tais que

\[ c_pk^{-p}\le \sum _{n=2^k}^{2^{k+1}-1}\frac1{n(\log n)^p} \le C_pk^{-p}. \]

A comparação com a série \(\sum k^{-p}\) fornece o primeiro critério.

Para a segunda série, em blocos suficientemente distantes do início, \(\log \log n\) é comparável a \(\log k\). Portanto existem \(c_q,C_q\gt 0\) tais que

\[ \frac{c_q}{k(\log k)^q}\le \sum _{n=2^k}^{2^{k+1}-1} \frac1{n\log n(\log \log n)^q} \le \frac{C_q}{k(\log k)^q}. \]

A primeira parte, com parâmetro \(q\), conclui a prova. Essas comparações valem também para parâmetros negativos, ajustando as constantes; alterar finitíssimos termos não modifica a convergência.

Exercício 4.48 (difficulty=3)
Sub-séries e convergência absoluta. Prove que uma série real
\[ \sum _{n=1}^{\infty }a_n \]
é absolutamente convergente se, e somente se, toda sub-série
\[ \sum _{k=1}^{\infty }a_{n_k}, \qquad n_1\lt n_2\lt \cdots , \]
é convergente.
Ver solução

Se a série converge absolutamente, toda subsérie também converge absolutamente, pela comparação entre somas de termos não negativos.

Reciprocamente, suponha que toda subsérie convirja. Separe os índices \(P=\{ n:a_n\ge 0\} \) e \(N=\{ n:a_n\lt 0\} \). Se um desses conjuntos é infinito, a subsérie correspondente converge por hipótese; se é finito, sua soma é finita. Assim,

\[ \sum _{n\in P}a_n\lt \infty , \qquad \sum _{n\in N}(-a_n)\lt \infty . \]

Consequentemente,

\[ \sum _{n=1}^{\infty }|a_n| =\sum _{n\in P}a_n+\sum _{n\in N}(-a_n)\lt \infty . \]

  1. Essa demonstração é atribuída a Nicole Oresme, por volta de 1350.
  2. Inicia-se a soma em \(n=2\) para evitar que \(\log n\) se anule.